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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

TECNOCRACIA

Conquistei o titulo de bacharel em direito, com distinção em quase todas as disciplinas do curso, e desde rapaz gostava muito de estudar a língua portuguesa. Iniciei o exercício de cargos públicos na qualidade de delegado de trânsito e costumes de Teresina, do qual solicitei exoneração para retornar ao Rio e prosseguir estudos. Fiz concurso e me aproveitaram no antigo instituto dos comerciários na capital piauiense e voltei a minha cidade do meu xodó para assumir as funções e concluir o curso jurídico, o que foi feito.

Em 1951, o governador Pedro Freitas me fez convite para lecionar e me nomeou professor de português do Colégio Estadual e de sociologia educacional na antiga Escola Normal. Dei conta do recado, como podem atestar os meus antigos alunos e alunas. Fiz concurso sério e difícil.

Em 1954, o governador Pedro Freitas convocou-me a Karnak e me convidou para dirigir o Colégio Estadual. Antes, em 1952, os colegas de jornalismo elegeram-me presidente da recém-criada associação dos Jornalistas, reeleito por dois mandatos mais. A entidade passou a sindicato.

Nas funções de diretor do Colégio Estadual me conservou o governante seguinte, general Gayoso e Almendra, até o final do mandato. Tive substituto no governo Chagas Rodrigues. O educandário tornou-se modelar. Respeitado. Exemplo de ordem e disciplina.

Ano de 1962, o suplente de senador Clark substituiu Leônidas Melo, que se licenciara, no Senado, e me indicou para a presidência da Comissão de Abastecimento e Preços do Piauí ao governo federal. Enfrentei o comércio ilegal do trigo, da carne, as cobranças altas de entrada de cinema, a exploração no comércio do pescado, os vendedores de leite. Venci. Contratei Luiz Noronha para trazer trigo da Bahia e fretei aviões e trouxe carne do Maranhão, na fronteira com o sul do Piauí. Importei peixe do amazonas. E assim passei adiante. A verdade está em que tudo passou a ser vendido ao público por preços justos de acordo com a fixação honesta dos valores.

Exerci a elevada função de secretário da Educação e Cultura, no governo Clímaco de Almeida. Realizei administração de alto nível, conforme se vê do depoimento de Itamar Brito, em história publicada sobre esse órgão público. Em 1975, no primeiro governo Alberto Silva, recebi a incumbência de dirigir a Secretaria da Cultura, por dois meses, em que editei uns vinte livros, promovi a festa de reinauguração do teatro 4 de Setembro, maravilha de festa, sem quase despesa para os cofres públicos.

Desde 1971, sou presidente da Academia Piauiense de Letras, reeleito seguidamente para vinte anos de mandatos.

Nunca pedi cargos a governador algum de minha terra. Convidaram-me para os cargos provocando-me surpresas. Nunca fui técnico de cousa alguma, exceto da leitura, da honestidade, do desejo de fazer as cousas com o rigoroso cumprimento da lei. E não preciso de empregos, pois vivo modestamente, mas sem dividas e sem picaretagens.

A tecnocracia instituída pelo presidente Fernando Collor para administrar a República corresponde a fracasso generalizado. O próprio governo aumenta os combustíveis, aumenta as taxas dos correios, aumenta preços do pão e do leite, aumenta as taxas dos correios, não permite que os operários ganhem o necessário para as necessidades primárias da vida. A inflação vem subindo sempre inquietando as camadas populares. Há no Brasil um governo de tecnocratas, cujas palavras ao público, nas televisões, ninguém entende. Além disso, falam um péssimo português, o economês.

O futuro governo de Freitas Neto deve ter técnicos, sem esquecer que estes nem sempre se guiam acertadamente.


A. Tito Filho, 18/12/1990, Jornal O Dia

PROMESSAS

Num país faminto, em que o povo não pode ter civismo porque vive de pança vazia, num país abúlico, de milhões de analfabetos, o presidente da República faz o que lhe dá na veneta, e pode, querendo, chegar ao desmando e à prepotência.

No Brasil, o chefe do Executivo legislava quando, num ato de força, se fundava o sistema ditatorial, do jeito que praticou Getúlio Vargas, de 1930 a 1934 e de 1937 a 1945, ou da forma que estabeleceram os militares, de 1964 a 1985, épocas de severas e cruéis ditaduras. Sob o regime do presidente Fernando Collor vigora a MEDIDA PROVISÓRIA, criada pela Constituição Federal de 1988, em caso de relevância e urgência, circunstância que não se vem observando, e o presidente legisla em matéria sem as exigências constitucionais e que bem poderia ser objetivo de projetos de lei, normalmente.

Nunca vi o Brasil na situação dos dias que correm. Nada funciona. Deterioramento da educação e da saúde. Cultura abandonada. Megalópoles de problemas angustiantes. Insegurança social generalizada. Industria do crime por toda parte. Renda das pessoas em desnível insuportável pelos assalariados. Desemprego e subemprego. Incompetência. Instituição do ócio no funcionalismo público. Descrença nos homens públicos.

A euforia industrializante de Juscelino Kubistchek deu no que deu: a busca da cidade pelas populações do campo, para a fantasia do ganho fácil e de conforto, mas cujo resultado aumentou a favelização dos enormes centros urbanos e os apartamentos da população debaixo das pontes.

Na campanha presidencial de 1989, Fernando Collor de Mello fez promessas que o tornaram símbolo da esperança dos brasileiros. Liquidar-se-iam os MARAJÁS, indivíduos afortunados e privilegiados de ganhos absurdos. Dar-se-ia a moralização da vida pública. Derrotar-se-ia. A 15 de março de 1990 assumiu o fazedor de promessas. Chegou o Natal. Os marajás continuam a desafiar o governo, a burocracia brasileira prossegue o seu cortejo de malefícios, o processo, inflacionário martiriza no dia-a-dia da subida dos preços.

A única medida que se teve, até agora, foi a de confiscar o dinheiro dos brasileiros confiados aos estabelecimentos de crédito para que rendessem juros. O governo arrecadou-os prodigalizando mais aflições às classes necessitadas.

A ministra Zélia, rica de gestos autoritários, no começo do governo Collor apostava na inflação zero. Agora, pelos aparelhos de televisão, culpou os empresários e pede paciência.

Collor ataca os exploradores do povo, esquecido de que o seu governo aumentou de vez em quando os combustíveis, as taxas dos correios, o preço do pão e do leite, das passagens de ônibus e dos aviões. Como evitar que os industriais e comerciantes não aumentem os preços dos seus produtos, e o próprio governo oferece o exemplo de aumentos constantes?

A verdade verdadeira está na evidência de que os tecnocratas cada vez mais se desacreditam com os planos salvadores: Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Verão e mais que seja, um só deles acertou cousa alguma.

E milhões de brasileiros passam fome e vivem dias de medo e desesperança.


A. Tito Filho, 25/12/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

INFLAÇÃO

Quando me entendi, vigorava no Brasil o padrão monetário chamado MIL RÉIS, denominação que nos transmitiram os portugueses. Não alcancei o vintém, correspondente à vigésima parte do mil-réis, nem a pataca, de valor fixado em 320 réis. Circulavam as moedas de metal seguintes: o tostão ou cem réis, e dez tostões valiam um mil réis; duzentos réis; o cruzado ou quatrocentos réis; a de quinhentos réis, amarelinha, e a de um mil réis, também da cor do ouro. Corriam também cédulas de variado valor.

Em 1942, Getúlio Vargas decretou novo padrão monetário, o cruzeiro, dividido em centavos. Eu me encontrava no Rio de Janeiro quando se deu a mudança. O mil-réis passou a denominar-se cruzeiro.

Nesta Teresina, em 1932, a gente comprava cinco bananas por um tostão e no Rio custava uma passagem de bonde, para longo percurso, a bagatela de 10 centavos. Por 10 centavos se comprava um jornal de 12 a 16 páginas.

O cruzeiro, no tempo do presidente Castelo Branco, transformou-se em cruzeiro novo e com o passar do tempo voltou a chamar-se cruzeiro, até que o presidente Sarney adotou o seu célebre cruzado que chegou a cruzado novo. Em março de 1990 voltava-se ao cruzeiro.

Interessante é que tais alterações na moeda se fazem por vontade presidencial, sem interferência do Congresso da República.

Durante muitos anos nunca ouvi falar de inflação. As mulheres referia-se, com a subida dos preços, a carestia, por mínima que fosse a alteração.

Durante cinco anos, no Rio, meu pai mandava quinhentos cruzeiros mensais, importância com que eu pagava a pensão de estudante, lavado e gomado, merendava, usava transporte, adquiria jornal e cigarros, ingressava em circos e teatros e ainda gastava com mulheres nos cabarés e com as namoradas de sorveterias.

Enfrentei a vida nas fases da mocidade e parte da maturidade e nunca ouvi falar de inflação ou li jornais em que se debatesse tal problema. A cousa começou ao que parece no governo de Juscelino, com a construção de Brasília, o maior elefante-branco do país, cidade malvada que se cerca das mais espetaculares favelas do planeta. Construída para quinhentos mil habitantes, já ultrapassou dois milhões de seres humanos.

A vertiginosa subida de preços prosseguiu nos governos seguintes e não esbarrou, se não nos dias fantasiosos do cruzado do presidente Sarney.

Inflação, deflação, recessão, choques heterodoxos, e quanto vocabulário que tudo batiza a incompetência dos homens que governam o país, sustentando verdadeiros polvos como as estatais e adotando empréstimos fabulosos, a juros exorbitantes, para a edificação de obras faraônicas, prédios de luxo espantoso, bem assim nas viagens de gastos absurdos com o objetivo de que dois governadores se abracem e se façam rapapés receptivos, como recentemente se verificou na visita de Bush ao Brasil, para os opiparos banquetes, enchedores dos bundulhos de comensais de peru e caviar, e das panças sacolejantes de uísque dos estranjas.

No fim de contas, os dois presidentes, com as técnicas avançadas de hoje, bem poderiam entender-se por telefone, onde o telefone [de] Collor receberia as ordens do chefão da violência internacional.


A. Tito Filho, 23/12/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ALIMENTAÇÃO

Contam que o mundo comemorou neste outubro de 1990 o dia internacional de alimentação, certamente da alimentação racional, farta, higiênica, atentadora das exigências da natureza humana. Houve festas maravilhosas na Etiópia, nos miseráveis países africanos, na América Latina e nas suas encantadoras e nas suas encantadoras favelas, alegres e plenas de vida. No Recife, onde os meninos catam restos podres de comida nas latas de lixo, os fogos de artifício coloriram os céus. O presidente Bush discursou aos povos recomendando caviar e perus natalinos. Em Teresina, os restaurantes ofereceram banquetes opiparos aos milionários dos bairros de luxo, enquanto os populares espiavam de longe os manjares dos deuses deglutidos nas afetivas patuscadas. Pobre não come. As populações famintas se encontram diminuindo de tamanho. A ausência de nutrição correta embota a inteligência e priva a pessoa do civismo e da altivez.

Essas campanhas têm a finalidade de desviar a atenção das massas humanas miseráveis, que esquecem os padecimentos e as angústias por alguns dias na esperança de que realmente possam encher o bucho vazio. A publicidade oficialmente paga pelos governos engana os tolos e ignorantes, na matreirice subliminar para a conquista de consciências deformadas.

Alimentação é vida. Não se resume em entupir a pança de substâncias que nada revitalizam.

É alarmante a nossa situação em matéria de alimentação. E exclusivamente a isto se podem atribuir as consequencias devastadoras para o homem brasileiro, para o seu desenvolvimento e para a sua capacidade. A cor de nossa pele não responsável pelos nossos males, mesmo porque "há brancos que são mais escuros do que alguns negróides; o cabelo escuro e os olhos negros são comuns a todas as raças; encontra-se o mesmo indício cefálico em grupos das raças mais diversas; a mesma forma do cabelo existe entre grupos étnicos tão distanciados como os indígenas australianos e os europeus ocidentais; os grupos sanguíneos não definem as raças".

E se somos apenas vítimas orgânicas de um regime alimentar deficiente, cumpre-nos atenuar o seu cortejo maléfico, incrementado a nossa produção e reformando a nossa economia agrária, o que se obterá, como bem ensina Josué de Castro, com o aproveitamento de todas as terras cultiváveis circunvizinhas dos grandes centros urbanos, mecanização da lavoura, financiamento bancário da agricultura, intensificação do cultivo de alimentos, amparo e fomento ao cooperativismo, combate ao latifundiário e à monocultura.

"A fome e a doença são os únicos companheiros constantes da solidão forçada do homem brasileiro", inferiorizado por uma organização econômico-social defeituosa.

O homem brasileiro deve ser valorizado.

E queremos crer que estas palavras não se tornem mera frase sonora. Estas palavras devem receber um significado real no pensamento e nas ações quotidianas de todos os homens, mulheres e crianças deste país.

Não somos povos inferiores. Apenas nos falta combustível e ainda não resolvemos o nosso problema cultural.

Não somos brancos, nem pretos, mamelucos ou mulatos - somos todos brasileiros.

É para nós uma razão de orgulho que no Brasil todos sejam membros do mesmo corpo.

O preconceito nasce do erro e da ignorância.

Brancos, negros e mestiços - estudemos a grande pátria que os antepassados heroicamente defenderam, para que possamos compreendê-la e dignificá-la, num mundo livre.


A. Tito Filho, 20/10/1990, Jornal O Dia

CIVILIZAÇÃO

O homem criou a sua própria destruição - máquina, geradora do maior processo revolucionário de todos os tempos, a civilização industrial, e das consequencias dela advindas: o combustível, que provoca a existência das nações pobres e ricas; a conquista de mercados consumidores para os produtos fabricados em larga escala; e o imperialismo dominador, responsável pelas angústias de tantos povos exploradores. O poder econômico, pelos canais de intensa propaganda e publicidade subliminar, institui a cultura enlatada, subvertendo a vida espiritual e criando a fantasiosa existência do conforto a qualquer preço e do desprezo a comezinhas normas de convivência moral. Em nome do progresso, o bonito Rio de Janeiro transformou-se numa selva de cimento armado, a fim de que os fabricantes de arranha-céus e elevadores obtivessem lucros fabulosos. A coca-cola, líquido que produz cansaço, torna-se símbolo das alegrias da juventude. Para vender mais, desnudaram-se nádegas, seios e até a parte inferior mediana da região hipogástrica que forma a eminência triangular feminina. Velhotas menopáusicas passeiam as muxibas pelas ruas metidas em calças anatômicas. Homens pelados na televisão exibem as mãos nos bolsos. Nada mais nada menos do que a glorificação do NU. Último modelo de veículos, viagem de turismo, uísque para as coronárias, jantares americanos, o arsenal químico dos tranqüilizantes para os sofridos nervos depois dos bacanais que varam as madrugadas - eis alguns quadros do selvagem capitalismo nacional, sustentador do luxo nababesco de uma elite que não cede, que se recusa às reformas urgentes exigidas de uma minoria irresponsável que pouco se incomoda que milhões cheguem ao desespero, pela fome, pela habitação desumana, pela família sem os mínimos bens da vida, pela doença, pela miséria generalizada. A verdade está em que poucos gastam milhões no fausto, no luxo, no comodismo, explorando quase todos os brasileiros da paupérrima classe média e da aviltada classe proletária. Pequenos comerciantes, professores, jornalistas do batente, e milhões que chegam a cinco ou dez salários mínimos sacrificam os ganhos mensais nas prestações para aquisição da bateria de eletrodomésticos anunciados pela propaganda dentro do lar humilde; ou na compra do fusca, o amor das mal-amadas, ou no pagamento da viagem feita a Foz do Iguaçú ou a Buenos Aires; sem falar dos carnês do Banco Nacional de Habitação e da sua centena de sucursais pelos Estados antigamente federados, hoje membros da República Unitária Brasileira - e esses dinheiros mensais do ganancioso financiador de casa própria confere direito a uma casinhola na grande concentração dos conjuntos habitacionais. A classe média, sem dinheiro, busca status, a vaidade de obter alguns instrumentos do progresso industrial à custa do sacrifício antecipado dos magros dinheiros que recebe. O proletariado, este marginaliza-se, no desempenho das elevadas funções lucrativas de traficantes, de bicheiros, de assaltantes - e assim com lucros fabulosos sustenta as famílias faveladas, onde habita, sob a guarda dos protegidos. Submetem-se a perigosa existência, mas se transformam em heróis no jornalismo e na concepção de gente humilde. Reformem-se as estruturas sociais do Brasil com urgência. Não é possível que pequena porção fútil, dissipando em festas ruidosas e episódios paradisíacos, numa gritante afronta aos que se entregam ao trabalho honesto e digno, [tanto] público como privado. Está na hora de ceder, tanto os latifundiários que exploram a terra e o homem, como os capitães de indústria e os tubarões da economia que sugam os restos de resistência do trabalhador nacional, na indústria como no comércio. Os homens do dinheiro continuam na nefasta teimosia de levar o país ao desespero.


A. Tito Filho, 18/08/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

GREVES

O país, não cabe duvidar, encontra-se doente. Insuportáveis as condições de existência dos brasileiros, sem que possam auferir os bens essenciais da vida, a partir da mãe grávida, desnutrida, ao nascimento do menino - sem alimentação, sem assistência, sem os mínimos requisitos de saúde e desenvolvimento para as outras idades da vida. Sofrem operariado e classe média insultos de toda espécie. Essas duas camadas sociais não possuem elementares recursos financeiros para o sustento da constelação familiar. Reproduzem-se diariamente movimentos grevistas. O fato se torna espantoso pois as greves tão excessivas são o retrato negativo da política econômica e das medidas adotadas pelos que por ela são responsáveis. A liberdade constitui bem precioso, mas convém estimá-la no direito elementar e necessário ao bem estar e à felicidade coletiva. Liberdade para o xingamento nos comícios eleitorais, nisto reside a negação da liberdade. A liberdade seria o benefício maior de não passar fome, de morar em casas confortáveis, nunca em tugúrios promíscuos dos conjuntos habitacionais. Estaria em poder cada um educar os filhos. Pretende Dona Zélia Melo que a inflação foi derrotada, o que não é verdade, e o recurso, o remédio heróico, infalível, está na greve. Quando se começou o uso da greve? No momento em que o operariado sentiu o excesso de horas na exploração do empregador. Trabalhava-se normalmente das sete da manhã até a noite. A reunião dos trabalhadores se deu em Paris, na Place de Gréve - e só se voltou ao trabalho depois da humanitária diminuição da jornada no emprego. Que se reivindica hoje com paralisações sucessivas nas empresas públicas e privadas, quando se estagna o funcionamento generalizado até de serviços essenciais à coletividade? Apenas salários mais compatíveis com as necessidades elementares, uma vez que não se acredita mais na possibilidade de viver, somente de vegetar, e mal, com raquíticas e reles pagas mensais aos pobres operários nacionais. E o mal aviltante atinge ainda a classe média à qual pertencem servidores graduados, funcionários públicos, bancários e outros, que grevam pelos motivos dos constantes e inexplicáveis achatamentos do dinheiro. As greves inacabadas, uma seguida da outra, não têm, no Brasil, objetivos de conquistas sociais no terreno da saúde, pois as filas da assistência oficial são humilhantes; da educação, pois se encontra o ensino do governo, do primeiro grau à universidade, e escorchante o preço dos estabelecimentos particulares; do alimento, que, minuto a minuto, se eleva o custo, por especulação e outras maneiras de ganância dos negociantes; do remédio, cuja fabricação está sob o poder de fabulosos trustes internacionais, do sistema de comunicação de massa através da televisão, dirigida por competentes homens de negocio deformadores da consciência nacional, impondo-se as imagens por interesses internacionais - e o Brasil, de modo subliminar e perverso, aplaude a glorificação de bicheiros e a música barulhenta e vociferante do roquenrol.

O operário suspende o trabalho porque está faminto, maltrapilho, desassistido, ao lado da família no mesmo estado de abandono e miséria. As centenas de greves nacionais revelam o quadro espantoso, a paisagem de desordem física e espiritual em que se agitam os trabalhadores brasileiros.


A. Tito Filho, 30/08/1990, Jornal O Dia

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A MÁQUINA

Não cabe dúvida que a máquina provocou a maior revolução de todos os tempos, a revolução industrial, que mudou radicalmente a estrutura da sociedade universal. Derribou preconceitos. A economia dos povos passou a apoiar-se no combustível ou na falta deste. Extinguiu-se o regime escravo, a exemplo dos Estados Unidos. E o que foi pior: expulsou a mulher do seu lugar de primeira educadora, no lar, e maior responsável pelas finanças domésticas, pois a ela cabiam os encargos de prepara a roupa, o remédio e fabricar o alimento - e tudo isto, encarecido pela produção da indústria, saiu da órbita caseira e fez que as donas-de-casa passassem ao sistema do consumismo e buscassem emprego para ajudar as despesas respectivas. Quanto mais se intensificou o poder de abarrotar os mercados consumidores, muito forte se tornou a publicidade, por múltiplos veículos, e cada dia o ideal de conforto a qualquer custo contagiou as diferentes classes sociais. Surgiram os meninos sem o leite materno, a adolescência desamparada de afeto, a mocidade rebelde, e a maturidade irresponsável, dissipadora e disposta sempre à esperteza, aos golpes de dinheiro, às fraudes - num corpo social aniquilado espiritualmente pela ganância. Triste, muito triste, será o quadro no terceiro milênio que se aproxima, pois subvertendo a ordem dos costumes e dos hábitos privados e públicos, derrotando o homem no seu teor de virtude - o poder industrial buscaria desmoralizar as mais caras instituições da vida, com inicio pela constelação familiar. Afrouxaram-se e perderam-se os freios morais. O ser humano tornou-se escravo do dinheiro, semelha uma cédula de dólar, tudo vende e tudo frauda. Chegou-se ao processo da violência, cujas razões são, nos crimes de sangue, também econômicas. Até 1968, ainda se mantinham certos fundamentos cristãos nas relações de homens e nacionalidades, quando adveio a chamada revolução cultural dos jovens, em maio, partida dos universitários, para mudar o modo de ser da sociedade, que para eles padecia de incurável velhice. Assassinaram-se líderes, destruiu-se um sistema para salvação de estruturas em decadência, como se anunciou. Anularam-se os valores morais. Estabeleceu-se a liberdade sexual. As artes padeceram, e no quadro negativo a música se tornaria frenética, como se tivera o destino de fabricar doidice e gestos macaqueados. A droga se faria companhia habitual de adolescentes e moços, para o futuro fosse dependente de anticidadãos doentes e derrotados. A primeira grande vítima desse movimento estudantil que libertou instintos e ambições se chama, na preleção de Dom Eugênio Sales, a família, que se debilitou, com a convocação da publicidade para o mal e o desperdício. Abandonou-se a prole. Liquidou-se o senso de moralidade. Aboliram-se práticas de leitura e de aprimoramento da inteligência. No prazer se fixam todas as vontades. Valem os instintos. Desapareceu a honra. O trabalho ainda vigora, mas incômodo. Matam-se seres humanos pelo aborto e crianças na rua, pela inanição. Estimula-se o crime propagando o heroísmo dos que o praticam. Não se crê na vida política. E tem-se como difícil a salvação. Salvo, de forma que escreveu o pastor dos cariocas, se as derrotas sofridas pelo homem sejam passageiras e que voltemos às normas sagradas do nosso verdadeiro destino.


A. Tito Filho, 25/08/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

INSULTO

Ivan IV, o primeiro grão-duque de Moscou a tomar o título de czar, em se declarando sucessor pelo sangue do romano César Augusto, foi dos mais violentos e mais cruéis soberanos da história da humanidade.

Órfão de pai e mãe, submetido a tutela dos boiardos que se entredevoram para conquistar o poder, Ivan faz o aprendizado da astúcia e da crueldade à sombra dos protetores que, no entanto, o ignoram. Coroado czar em 1547, com 17 anos de idade, ele manifesta logo inicio uma autoridade assustadora. Sádico e místico, considera-se o vigário de Deus na Terra e se imagina desculpado antecipadamente por todos os seus desregramentos. Sua mórbida desconfiança o leva a ver por toda parte espiões e traidores. Manda torturar devotos favoritos. Até sente mais prazer quando comete injustiças.

Ivan gosta tanto de sangue quanto de mulheres. Casará oito vezes, sem se preocupar com a Igreja. Algumas das esposas morrem envenenadas, para satisfação do czar que prefere escolher as substitutas entre milhares de jovens em autênticos concursos de beleza.

Entretanto, não perde de vista de vista a missão política. Luta para largar seu reino, em batalhas sangrentas com poloneses, tártaros e suecos. A principio com sucesso, depois com incontroláveis perdas.

Quem era Ivan, o Terrível, o homem que matou o próprio filho e herdeiro? Que se divertia soltando ursos selvagens contra homens, mulheres e crianças? Que comandou o genocídio de Novgorod?

O retrato de Ivan feito por Henri Troyat, russo naturalizado francês, na sua autoridade de acadêmico, é verdadeiramente singular e oportuno, lançando uma luz serena, mas forte e clara, sobre a maneira de ser do povo russo, delirante, fanático e submisso, sempre corajoso até as últimas conseqüências.

Henri Troyat nasceu em Moscou, em 1911, como Lev Tarassov, nome mudado logo que chegou a Paris, em 1917, portanto, com apenas seis anos de idade. Naturalizado, cedo se consagrou a literatura. Foi Prêmio Goncourt em 1938 e é membro da Academia Francesa. Tem uma longa produção literária, variada, que inclui romances isolados, ciclos de romances históricos, biografias, ensaios, crônicas e narrativas diversas. No que toca a biografias, Troyat já publicou as de Dostoievski, Putchkine, Tolstoi, Gogol, Catarina, a Grande, Pedro, o Grande, e Alexandre I, todos personagens influentes nas artes e na história russas.

Sobre Ivan, o Terrível, na imprensa francesa, merece destaque um comentário de Alexei Antonkin, no "Temps-Économi Littéraire":

"Desde a História da Rússia, escrita entre 1816 e 1826, por Nikolai Karamzine, o livro de Henri Troyat é a mais inquestionável contribuição para p esclarecimento do reinado de Ivan, o Terrível. E as comparações com a Rússia de hoje são gritantes".

X   X   X

CARLSO EDUARDO NOVAES é, sem dúvida, o único humorista brasileiro de primeira linha que faz você continuar rindo na segunda, na terceira e assim por diante. E já que é assim, nada melhor do que a notícia da publicação de um livro seu, O País dos Imexíveis, uma nova coletânea de crônicas sobre o cotidiano brasileiro que é, ao mesmo tempo, a mais alegre história dos nossos dias...

Na hora em que todo mundo se mexe, será o Brasil o país dos imexíveis?

Mexe e remexe, estamos aí com mais um Plano em que muitos gostariam de atirar mexericos. Entretanto os mexericos são muitos e os mexeriqueiros e mexeriqueiras não param, melhor dizendo, vivem se mexendo.

E o Brasil? Imexível ou Mexível, escorre aqui pela pena bem humorada do sempre inovador Novaes, coadjuvado, literalmente, pela pena de Vilmar Rodrigues.

Imperdível!

Carlos Eduardo Novaes é o humorista mais diversificado no momento. Seus últimos sucessos têm acontecido na área teatral, onde, além de fazer o texto, ele sobe quase todos os dias ao palco para dar o seu recado. Continua mantendo, porém, uma constante na vida: não deixa de escrever as suas crônicas e delas faz um retrato bem humorado deste Brasil... dos imexíveis.

Este é o décimo-nono livro de Novaes publicado pela Nórdica. E o décimo-terceiro da série: "Histórias dos Nossos (Nossos?) Dias!".


A. Tito Filho, 21/09/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

FUNCIONÁRIO

O funcionalismo público das diversas esferas do Poder no Brasil tem atravessado fases distintas. Deixemos de parte a Colônia, o Império, a chamada República Velha e vejamos o assunto nos tempos que sucederam o movimento que derribou do poder o presidente Washington Luís, a revolução de 1930. Os quadros de serviços administrativos, organizados com número fixado de titulares, eram rigorosamente observados. De vez em quando realizavam-se concursos sérios para preenchimento de vagas. Difícil, nas repartições, que se encontrasse funcionário para escovar urubu, à espera de que os ponteiros marcassem o horário de saída. Realizavam-se dois expedientes. Raras vezes se concediam licenças. No Brasil, porém, a seriedade das leis e dos regulamentos dura pouco. De principio, admitiu-se a interinidade, e dentro em pouco havia mais interinos do que efetivos. Inventaram-se quadros de extranumerários e de servidores extraordinários. Iniciou-se o abarrotamento dos órgãos governamentais. Inventaram-se maneiras de cortejar fêmeas de bonitos predicados físicos. Sim, as mulheres começaram a povoar os órgãos administrativos. Criaram-se autarquias e seguidamente as estatais se estabeleceram. Aboliu-se o concurso. Outras modalidades remuneratórias surgiram, como o pagamento por serviços prestados e o contrato pela Consolidação das Leis do Trabalho, e logo uma legião de celetistas nasceu por todos os cantos e recantos das áreas do governo nos domínios federal, estadual e municipal, autárquico e das empresas estatais. Inchou o funcionalismo público brasileiro, que nos dias que correm não se sabe a quanto chega. Deixou-se de trabalhar. As mulheres se dedicaram a retocar a pintura ou executar trabalho de crochê ou tricô. Breve a fértil imaginação de chefes e subalternos, para melhores ganhos, idealizou e concretizou a prebenda da disposição. O servidor de um organismo passou a servir em outro, com percepção de vencimentos pelos dois. O fato tornou-se uma lucrativa indústria, nos mais variados setores da vida pública. Instituíram-se inúmeros tipos de licença, e proliferam servidores licenciados com base em múltiplos favores legais. As proteções políticas de 1946 a esta parte do calendário nacional entupiram repartições a tal ponto que em alguns setores existem turmas de revezamento: uma turma de cem servidores trabalha num dia, no outro dia espairece, substituída por outros cem que folgam no dia de servi-lo dos primeiros. Chegaria a vez dos feriadões, três ou quatros dias da semana em que o Brasil fecha o serviço público. O soçaite vive à tripa forra. Gente de político bem sucedido, de titular de função importante, de empresário farto de lucros, esposa, mãe, mora, genro, filho, obtém polpudos empregos. O grosso modo do funcionalismo público está constituído de mocinhas e rapazolas de classe média e operária, que percebem ordenados irrisórios, que mal cobrem as despesas do pai pobretão na compra de calçados ordinários e roupas de pano ruim. Pois esses milhares de pobres e humildes servidores de vez em quando padecem as conseqüências das medidas de arrocho que os governos adotam para a cobertura dos déficits orçamentários, resultantes das orgias de viagens nababescas e mordomias injustificáveis.

A crise brasileira é antes de tudo moral, mas os pobres barnabés acabam pagando o pato. A politicalha gerou o empreguismo na alta-roda. Madames de maridos ricos, mulheres importantes, de luxos desmedidos percebem gordas sinecuras como funcionarias fantasmas.

Os vícios e as mazelas da máquina administrativa da União e o cortejo de estatais, dos Estados e dos Municípios não decorrem dos barnabés, porém dos maus exemplos de cima, dos poderosos, dos que exploram o brasileiro por todas as formas e modelos.


A. Tito Filho, 29/08/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

PATOLOGIA SOCIAL

As tevês brasileiras oferecem aos estudiosos os melhores tipos de antropologia criminal. Liguem-se esses aparelhozinhos infernais e observe-se o desfile dos anormais de todos os tipos: adúlteros, falsários, sedutores, trampolineiros, incestuosos e ainda os criminosos políticos, cada qual metido nas infucas da roubalheira cartorial, na legislação casuística, na entrega do Brasil às multinacionais por alguns dólares sujos. Em moda, o seqüestro, fabricante de heróis, o seqüestrado e o seqüestrador.

Byron, Balzac, Galdoni haveriam de banquetear-se com o noticiário das tevês nacionais, para a criação de novos tipos lendários.

Vejam-se os quadros a uma assistência já em estado de neurose e psicose permanente: quedas de avião, choques de trem, desastres e mais desastres de veículos, tráfico de drogas, assaltos a bancos, ação de justiceiros, as rotas de cocaína, contrato de homicídio, estupros, vinganças torpes, roubalheiras, maracutaias, mortes nos hospitais, quadrilheiros, pistoleiros, incêndios, autoridades metidas a sério em entrevistas emprenhadas de asnices. No mais, o maluco roquinirol dos norte-americanos, ou a lambada de calcinhas de fora, a inflação, o sofrimento dos aposentados.

As nossas tevês ofereceram quadros de assassinatos, como na tragédia grega. Vera Fischer já fez uma Jocasta industrial. As obras de Eurípedes, Ésquilo, Corneille estão vivas nos malditos aparelhos de imagem e de som, verdadeiras minas de riqueza inextinguível. A leitura de Os Bandidos de Schiller revela muitas personificações de criminosos que aparecem nas fábricas televisivas de crimes e devassidões.

O dilema darwiniano foi muito bem revelado na fórmula de d'Annunzio para os múltiplos aspectos da sociedade injusta e irresponsável: renovar-se ou morrer.

As tevês nacionais, nos seus noticiários, sem que os seus proprietários desejem, mostram que o corpo social brasileiro se encontra doente. Poucos os gozadores, milhões de sofredores. Ou se renova ou os seus princípios brevemente se varrerão por virtude do protesto das massas. Leiam Zola, em O Germinal, a viva descrição do proletariado aspirando à luz, depois de sofrer durante séculos. Descreve o genial francês a descarga fulminante de eletricidade acumulada em operários em greve. Cenas violentas. E matam, e mutilam os cadáveres dos opressores. No caso, a arte literária, antes da ciência, refletiu a verdade pura e simples de uma massa de grevistas desnorteada pelos sofrimentos.

A tevê brasileira glorifica criminosos vulgares, doentes, criminosos loucos, psicopatas, quando lhes concede a maior parte dos programas noticiosos e com rispidez esquece as vítimas.

A injustiça social, desumana, perversa, se revela. O empresário que paga vinte e cinco milhões de dólares de resgate não explica como ganhou tanto dinheiro, mas não se pode negar que o acumulou com a exploração da fome dos miseráveis, que vegetam por toda parte, escondendo terríveis dramas da fome dos filhos, de resistência debaixo das pontes, de doença que não se trata. É necessário que todos se voltem para a multidão dos desgraçados. O egoísmo alimenta os ricos que se entregam ao ócio e à dissipação, estróinas que são com o luxo e o culto das amantes. Só os desequilibrados conseguem viver do EU. O Brasil está repleto de criminosos: os de colarinho e os descamisados.

Mal alimentado, sujo, doente, pervertido de maus exemplos, o pobre grita. As crianças ignoram a alegria. O pagamento ao operário equipara este ao escravo.

Piedade e justiça, meus senhores. Maiores crimes do que os apresentados na tevê brasileira é o crime da terrível condenação à dor, à miséria, ao opróbrio.


A. Tito Filho, 29/07/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O CRIME

De primeiro matava-se o sujeito que deflorava a moça-donzela e não queria reparar a dívida. Às vezes o pai da menina dava preferência à castração do indivíduo. Por causa dessas vinganças, provocaram-se lutas de clãs familiares, que se dizimavam. Também o marido enganado matava e continua a matar a mulher adúltera e vice-versa. Surgiu a violência rural de Lampião, Antônio Silvino e outros fora-da-lei que vingavam crimes policiais, Antônio Conselheiro fundou o império de Canudos para defesa de trabalhadores explorados pelos coronéis do cacau.

Ninguém mais segura a violência. Nestes atormentados anos da revolução de 1964 até os dias deste quase final da década de 90, prossegue a luta sem alma, agora entre latifundiários e pobres homens que querem os frutos do trabalho na terra. Institui-se o seqüestro de autoridades, para que se soltassem presos políticos, e de crianças e ricaços, para os lucros do resgate. Nos centros urbanos populosos, roubam-se bancos e empresas para o gozo de gordas fatias financeiras e assaltam-se pessoas e casais para despojá-los de jóias e dinheiros ou a posse carnal da mulher. Chegaria a era do pistoleiro sob contrato para a eliminação de inimigos ou de sócios inconvenientes - estes a fim de proporcionarem riqueza fácil aos mandantes e aqueles para o exercício da vendetta, o crime-cão, o crime-sujo efetuado por tipos que ao menos conhecem a vítima.

Quais as sementes de tanta violência, do ódio, como das ambições vulgares?

Neste atribulado fim de século o homem vive sufocado por pressões de toda natureza, daí a agressividade e os atos anti-sociais. Promove-se o crime no jornalismo pela glorificação dos criminosos aos quais se transmite autoconfiança na conduta violenta. A TV projeta durante horas, dia por dia, as imagens de um mundo perigoso e de um cenário irreal de bens materiais inacessíveis mandando mensagens de conteúdo violento e sexual, e o seu objetivo está em função do consumo ameaçando a cultura. Para todos revela-se o ambiente familiar em desintegração. Tornou-se a droga o elemento encorajador do crime. Os magnatas, os barões do dinheiro têm tudo - mesa farta, bacanais do álcool e prostitutas de luxo, carros do último modelo, viagens nababescas aos centros do turismo internacional, e os miseráveis [que] se conformem com a fome, a habitação desumana, a nudez e a ignorância dos filhos. Nas esferas oficiais, verificam-se os exemplos malsãos de fingimento, das mordomias, dos planos cruzados gerando a desconfiança, do fisiologismo dos políticos sem crédito, a impunidade dos imensos roubos na causa pública.

As cidades turísticas constituem antro de vícios. As suas praias representam centros de prostituição alta e baixa. Os nababos saem do Rio de Janeiro com mariposas alugadas de Paris.

Neste ambiente de vícios e de negação de valores morais e espirituais da falsa cultura brasileira de hoje, do jornalismo sensacionalista, a TV comercializante e forte no prestígio e empresários desalmados, nesse mundo perverso vive o brasileiro, cercado de frustrações por todos os lados - frustrados e sem fé, o brasileiro do salário-mínimo, cujos sindicatos de classe não têm independência ao menos para o protesto, quanto mais para negociar o trabalho e o seu pagamento digno.

Gilberto Freyre contou que os muros antigos tinham cascos de vidros para evitar o roubo de donzelas. Hoje as casas dos magnatas, nos bairros das cidades grandes, têm muros de 3 metros para que se evitem assaltos e assassinatos.

As raízes da violência são visíveis. Até quando elas desafiam a inteligência dos perversos, que negam a justiça social?


A. Tito Filho, 15/08/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

AINDA O MENOR

Condena-se de modo unânime o Estado brasileiro e a sociedade pela triste situação em que se encontram, por toda parte, meninos e adolescentes, abandonados à própria sorte, sem afeto, famélicos, dormindo ao relento, na prática do furto e da violência. O Brasil se divide entre pobres e ricos - estes uma minoria privilegiada, aqueles a quase totalidade, representados por certa classe média proletarizada e pelo operariado sob regime de permanente exploração. Na cúpula as lideranças representativas do governo. Compraz-se a minoria nas viagens de turismo, nas orgias de uísque e sexo, nas vestes milionárias para a futilidade vaidosa, nas recepções nababescas dos casamentos e dos aniversários de luxo, com o desperdício de milhões e milhões de dinheiros. De seu lado, o governo sustenta mordomias, dissipa nos banquetes, na profusão dos gastos com autoridades e familiares e nos maus exemplos da corrupção, do nepotismo e da impunidade. A televisão, instrumento em poder de empresas privadas a serviço de poderosos grupos econômicos e políticos, tem o objetivo fundamental da dissolução dos costumes morais e da vida espiritual, por através das cenas de adultério, de alcoolismo, de filhos esbofeteando e xingando pais, de devassidão nos gestos e nos trajes; ou tem a meta de provocar o medo e a angustia, mostrando crimes nefandos, estupros, desastres, deformações físicas, incêndios, quebra-quebra, a fim de que todos se desinteressem pelos tristíssimos problemas de um país explorado de todas as formas; e ainda tem o jornalismo televisado, como processo de propaganda, a filosofia de fazer que o brasileiro gaste ou a deturpação cultural pela linguagem malferida ou pelo culto no NU. Mas a televisão esconde a realidade da família miserável, da mendicância, da escola desaparelhada, de inescrúpulo de bancos insaciáveis, da comercialização do ensino, da prostituição desenfreada, de homossexuais nas altas e baixas esferas sociais. Em meio à degradação quase generalizada, a criança, o adolescente e o jovem, todos sem horizonte, sem teto, sem roupa, sem instrução, sem afeto, - e a eles os maus exemplos, os tristes exemplos dos que deveriam educá-los para a vida. Estas as razões veementes que condenam, no caso, a sociedade dos homens, mal organizada e sem justiça social, e condenam o governo, em todas as suas esferas, cujos chefes as mais das vezes se conduzem por enervantes personalidades e reprováveis omissões. A vida familiar se encontra em dissolução. Pais e filhos mal se cumprimentam no recesso dos lares. Maridos e esposas vivem na rua, rebentos também, ou em torno das lições novelescas televisadas, nos chamados horários nobres. Nada se lê senão tolices. Não se estudam fatores culturais. Tudo se negocia, até a honra. Loucos são os que pregam no deserto. Salvar o menor é, antes de tudo, dignificar a família, concedendo-se a esta as condições para auferir os bens essenciais da vida - a habitação humana, a educação, a alimentação, o trabalho valorizado, o lazer decente, a renda justa, como queria e do jeito que ensinou o santo padre João XXIII.


A. Tito Filho, 07/08/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

DESFILE DE MAMAS

Escrevi num livrinho humilde, a que dei o título de Sermões aos Paixes, que por toda parte se estampam mulheres seminuas, quase nuas, nádegas descobertas, seios perfumantes à custa de látex. A propaganda necessita de ser olhada, por através do erotismo cientificamente dirigido. Consegue-se a sexualização dos sentidos depois das lambadas, meninas de saias rodopiantes para que revele o fundilho das calcinhas quase desaparecido entre locais que antigamente se diriam pudibundos.

Os norte-americanos, sempre sabidos, instituíram os concursos de misses e contagiaram a América Latina dessas competições para escolha da mais bela estudante, da garota fotogênica, da misse praia, da misse universo, da misse mundo e outros espetáculos de desnudamento, para lucros fabulosos. E a cupidez dos assistentes masculinos estrondaria em palmas demoradas de exaltação do nu.

Em Teresina, o soçaite ocioso e fútil inauguraria o desfile para escolha do veado mais apetitoso, numa noite de triste memória. A platéia delirava e batia palmas ensurdecedoras. Os homossexuais masculinos, brinquinho nas orelhas, peças íntimas femininas, sutians nos seios de silicone, desfilavam na passarela enorme, sob os fortes focos de luz das televisões. Era a glória terrena conquistada à custa da sexualidade anormal. Garotos na assistência recebiam o exemplo consagrador e se conscientizavam de que não havia necessidade de estudo para educar a inteligência e alcançar posições de merecimento na sociedade. Muito simplesmente o triunfo se alcança por meios mais simples, justamente por através de posições invertidas.

Viva o soçaite que vibra nesses espetáculos de sordidez. A novela faz o resto, num palco em que as cenas de sexo televisadas fazem a alegria maior de um povo deseducado para as responsabilidades da vida.

Não se viam na outrora tranqüila e carinhosa Teresina os beijos cinematográficos no meio das praças, as garotas de seios artificiais por baixo de blusinhas transparentes, o biquíni de chumaços com forros traseiros. Já agora se criou o processo de premiar a menina que, num desfile, apresenta as mamas mais salientes, mais empinadas, mais provocadoras de erotização dos sentidos de assistência masculina, ébria do espetáculo de depravação e falta de pudor. Sabe-se que o espetáculo de luxuria se passou no Parque Piauí e que as garotas do espetáculo andavam pela faixa dos 12-15 anos rodeadas de machacás tarados.

Tenho escrito durante anos que a televisão brasileira nada se preocupa com a educação da juventude. Muito fácil, pois, que se copiem os seus exemplos, explorando a nudez de meninotas menores para o ganho do dinheiro fácil.

Teresina transformou-se na capital do vício e do desregramento moral. Brevemente haverá o desfile de sapatões, homossexuais femininos merecedores de melhor sorte ao lado de homens de verdade.


A. Tito Filho, 22/09/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

IMITAÇÃO

Entregues a influências más, as crianças se tornam ruins por imitação. Toda novidade no crime é copiada em seguida por outros delinqüentes, enquanto a corrupção do meio social de que procede a maior parte delas se mostre a causa mais importante da delinqüência. O exemplo representa poderosa influência educativa. a educação por si só modifica profundamente o comportamento da criança e do próprio adulto.

A criança age por imitação, reproduzindo as atitudes e os gestos circunstantes. Até mesmo na vida adulta a tendência imitativa se entremostra. Nos primeiros anos apresenta-se por tal modo acentuada e dominadora que observa quase toda a vida.

Revelam as crianças o desejo de maltratar os seres fracos, de adulterar a verdade, de mentir, porque sofrem a influência imediata de fatos que impressivamente lhes ferem a imaginação e as impelem à satisfação de seu instinto destruidor.

O médico Silva Melo, de exuberante cultura, assegura que pela imitação das pessoas facilmente assimilamos os seus hábitos, a sua conduta social, aprendemos a língua materna, seguimos a nossa religião. A criança, desde os primeiros dias, deixa-se penetrar pelas influências do meio, pelas condições de família e de sociedade.

O homem é produto de sua conduta, da sua escola, da casa, do seu ambiente, do mundo em que vive e do qual retira os motivos para a sua existência.

As causas da conduta anti-social do menino se representam pelas condições habitacionais e econômicas e pelas condições de afetividade e abandono moral do imaturo. O aumento doloroso do número de menores de conduta anti-social começou com o surto industrial e conseqüentemente com a agitação da vida moderna. A família arruinou-se com o progresso da grande indústria. Pai e mãe deixaram de assumir o papel de educadores.

As péssimas residências do povo acarretam a vontade de viver na rua, nos botequins, longe do lar.

A sociedade moderna cometeu o grave erro de substituir desde a mais tenra idade o ensino familiar pela escola. E a isso foi obrigada pela traição das mulheres. Estas abandonaram os filhos nos jardins de infância, para se ocuparem da sua profissão, das suas ambições mundanas, dos seus prazeres sexuais, das suas fantasias literárias ou artísticas, ou simplesmente para jogar o bridge, ir ao cinema, perder o tempo numa azafamada ociosidade. Causaram assim a extinção do grupo familiar, no qual a criança crescia no meio dos adultos com quem aprendia.

Os pais deixaram de educar os filhos; arremessaram-nos à escola, confiando em que a esta, não a eles, cumpre colocar as crianças em contato com os seus semelhantes, esquecendo-se de que a educação deve ser orientada com atencioso devotamento.

Uma das formas práticas de que se tem usado e abusado para disciplinar os menores é o trabalho, dada a circunstância de constituir ele uma aplicação consciente das atividades físicas e mentais. Erram quantos o supõem o mais natural dos antídotos dos males trazidos pela civilização contemporânea.

Úteis são apenas as atividades que acionam favoravelmente as energias individuais, comunicando ao homem uma consciência superior de si mesmo e não permitindo que se corrompa ao sabor da necessidade.

Os trabalhos de rua mostram-se, em geral, nocivos à formação mental e moral dos menores, porque a alma das ruas encerra infelizmente germes degradantes.

Depois destas considerações, cabe perguntar qual a sorte que se reserva no Brasil ao menor, cercado de todos os fatores de deseducação ou ineducação para a vida social.


A. Tito Filho, 03/08/1990, Jornal O Dia

RECONSTRUÇÃO

A 15 de março assumiu o presidente Fernando Collor de Mello, escolhido num pleito em que o povo teve ampla liberdade de votar, embora a campanha tenha oferecido aspectos negativos em temas de envolvimento da honra pessoal dos contendores. À frente do governo republicano, o primeiro mandatário baixou as medidas provisórias julgadas convenientes para sufocar a inflação e liquidar a corrupção, preparando-se o terreno para o cumprimento da terceira promessa do candidato, a extirpação da miséria. Não discutimos o mérito de cada uma delas. A triste verdade, porém, está em que a nação se encontra desacreditada, desmoralizadas as entidades públicas e cada dia mais a desmedida especulação dos ricos sufocava os brasileiros. A desfaçatez e a ganância afundavam o país em males sem conta. A ordem se resumiu no gozo dos poderosos à custa dos bens públicos, na esfera federal, estadual e municipal. Altos funcionários pendurados em privilégios gritantemente imorais. Mansões luxuosas, com dezenas de servidores domésticos, carros oficiais, viagens ao exterior, por conta do país exausto de dilapidações se encontravam à disposição de ministros. Centenas de aparelhos domésticos se atiravam aos porões dos ministérios por causa da condenação das esposas ministeriais. Muitas autoridades gozadoras dessas regalias recebiam medalhas e diplomas de relevantes serviços. Faliu o sistema educacional, por falta de professores e de escolas equipadas para o ensino e a aprendizagem. Viciou-se o burocrata brasileiro no desperdício, na malandragem, na fuga das obrigações, como conseqüência do péssimo exemplo dos chefões e chefetes encarapitados nas funções de mando. Firmou-se o nepotismo. Por toda parte, os poderosos nomeiam para os empregos públicos a esposa e os filhos, os genros, a parentela em geral, um dos mais insolentes assaltos aos dinheiros do povo. Nada existe que funcione em benefício da comunidade. A saúde pública liquidada. Morrem à míngua milhares de patrícios, no dia-a-dia das angústias gerais. Brasília tornou-se o império das benesses nacionais, ao lado de favelas desumanas. Desacreditou-se a Polícia, às vezes cúmplices do banditismo. Desagrega-se a família na capital da República, e por toda parte. Corrompe-se a língua portuguesa nos instrumentos de comunicação. Exploram-se aberrações sexuais. A televisão leva aos lares a concupiscência. Explora-se a nudez da mulher. A jogatina tornou-se desenfreada e explorada pelo governo. O homem saiu do campo em busca das falsas convocações de trabalho e surgiram as megalópoles de problemas insolúveis. O Poder Executivo moralmente fraco, complacente e irresponsável contagiaria o Poder Legislativo e o Poder Judiciário. Deputados e senadores aumentam de vez em quando os subsídios, ao lado do raquítico salário mínimo do trabalhador. Recebem os parlamentares subvenção para despesas de telefone, correio, gasolina, passagens aéreas. A cada parlamentar cabe elevado número de assessores, as amantes, a filharada. Uma orgia de esbanjamento. Do mesmo jeito pratica o Judiciário com o deslavado processo de empreguismo familiar. Cada membro de tribunal tem carro à disposição, Área federal foi imitada na esfera estadual. Os governadores utilizam-se dos cargos para a instituição de regimes de politiquice e engorda de apaniguados. Distribuem a benesse pelo torto e pelo direito. Os legislativos estaduais seguem as diretrizes do Congresso Nacional. Existem ainda os copiadores municipais, prefeitos e vereadores, que assaltam os magérrimos cofres das municipalidades, generalizam-se as pensões a ex-governadores, ex-prefeitos, ex-vereadores, ex-deputados e ex-senadores.

No universo quase total de revoltante assalto à riqueza pública, existem naturalmente as gloriosas exceções. não basta, porém, que se anulem os aspectos negativos do Poder Executivo da área federal, é necessário e urgente que o presidente da República se volte para os outros poderes corrompidos, o Legislativo e o Judiciário, também nos Estados e municípios, a fim de que a moralidade se universalize. O País assiste cada dia com mais intensidade à instituição da violência como forma de protesto dos desgraçados, dos abandonados nas ruas e nas prisões promíscuas e desumanas; dos famintos, dos que fogem da vida por através da droga, dos andrajosos, dos aviltados, dos esquecidos, dos que querem libertar-se da escravatura política e da escravatura econômica, ambas impostas pelas elites do estomago, definição do próprio presidente Collor, num grande momento de confissão da verdade.


A. Tito Filho, 10/05/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

VIOLÊNCIA

Jornais, rádios, televisões vivem hoje do noticiário da violência, e cada época teve o seu tipo de violência, na Roma dos Césares como no Itararé de Teresina. Adolescente, morei em Teresina e na mocidade passei uns oito anos fora daqui, em Fortaleza e Rio. Andava pelas ruas sozinho, de madrugada, e jamais encontrei quem me assaltasse.

Ainda em 1970, passei a residir no distante bairro de São Cristovão da capital piauiense. Haroldo Borges me havia conseguido um carro velho, marca Esplanada, com uma das vendedoras de veículos. Às vezes o automóvel me deixava na rua, noite grande, e eu retornava a casa com os pés da locomoção própria. Vendi a porcaria por umas patacas. Pouquíssimos ônibus. Eu fazia um programa de rádio na Difusora das 22 às 23 horas e caminhava o longo percurso de retorno ao lar. Jamais encontrei quem me filasse um cigarro.

Não desconhecia a violência política do submundo ditatorial. Li-a em livros que se tornaram célebres. Os porões da ditadura de Vargas, com o bárbaro Filinto Muller, guardam cadáveres, homens mutilados, baixezas sem conta de uma polícia treinada para impor sofrimento ao semelhante. O nosso Celso Pinheiro Filho apanhou tanto nesses subterrâneos de crimes animalescos que perdeu o uso das pernas. Assassinos perversos.

Chegaria 1964. De novo a sangueira nojenta de certas autoridades de lama. Mataram-se jornalistas e operários. Era a sanha do eunuguismo moral.

As práticas da violência, porém, se escondiam. As vítimas desapareciam simplesmente, e os carrascos infames se intitulavam salvadores da pátria amada. Mas a violência chegaria, como chegou, a ser praticada à luz do sol, à boca da noite, a qualquer momento. O reino atual da vingança contra os que se tornaram surdos aos clamores dos perseguidos, dos injustiçados, dos que a política nefasta abandona de modo desumano.

Contra quem se pratica hoje a violência? Contra os engravatados que roubam às escâncaras, contra os que, munidos de prestígio político, tomam a propriedade alheia, estupram pobres mocinhas interioranas, enganam, ludibriam, demitem, negam a cada um o que é seu. Vivem na opulência, ganham milhões diariamente, humilham, riem da miséria alheia, num soçaite fútil e ocioso. Quem está padecendo a violência? O empresariado sem alma, orgulhoso, cheio de empáfia, ignorante, que esquece os deveres sociais e a pregação cristã dos papas e cada vez mais se enternecem da dinheirama mal adquirida.

Observe-se o seqüestro. Sou contra o processo, sobretudo quando se submete o seqüestrado a vexames físicos, morais e psicológicos. Para adquirir a liberdade, quanto paga esse tipo de refém pelo dinheiro pedido? Milhões em dólares. Donde vem essa quantia? Das burras abarrotadas de pelegas estrangeiras fornecidas pelo Banco Central do Brasil.

E jornais, rádios, televisões, quando se liberta o indivíduo, sustentam a propaganda do HERÓI pelo menos durante uma semana.

Faz poucos dias, seqüestraram um garotinho. Os seqüestradores pediram até pouco, uns 500 mil doentes. A mãe do menino fez apelo, não tinha dinheiro, implorou a devolução do filho. Nenhum empresário de milhões se mexeu para ajudá-la.

Só se vê violência no seqüestro dos biliardários. Sim. E a violência da fome de milhões, dos milhões sem teto, dos milhões de analfabetos, dos milhões de doentes sem socorro, dos milhões de menores abandonados, dos milhões de esfarrapados, rotos e maltrapilhos?


A. Tito Filho, 25/07/1990, Jornal O Dia