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sábado, 17 de dezembro de 2011

FESTAS

Dezembro, último mês de 1989. Natal. Na gruta de Belém na Jordânia, deu-se o mistério que Maria tinha no seio, um mistério de amor. Nenhuma festa tem o esplendor da que comemora a vinda do Messias ao mundo. A missa do galo e a confraternização familiar emprestavam ao quadro natalino sem igual. Tudo simples, singelo, para as comemorações espirituais de homens e mulheres, na contagiante alegria de todos. O padre Raimundo José Airemorais, com autoridade irrecusável, sustentou: "Hoje, infelizmente, o Natal está de alguma maneira se esvaziando no sentido de que o conteúdo central do Natal não é mais percebido nem mesmo celebrado pela grande maioria do povo. hoje em dia se faz do Natal uma espécie de pretexto e de ocasião para se buscar outros interesses, sobretudo no mundo do consumismo. O Natal de hoje  é uma propaganda".

Acentua o brilhante mestre que o Natal se tornou esbanjamento, fato nitidamente pagão.

A véspera do ano-novo também se festejava de modo decente e memorável. Os clubes promoviam bailes que se prolongavam até pela madrugada, num ambiente de respeito e cavalheirismo, na chamada alta-roda como na classe média.

Um encanto as festividades de Natal e Ano-Novo de anos atrás. Tempos inesquecíveis.

Hoje, essas duas grandes datas são exploradas por um sistema industrial e comercial sem entranhas. Durante semanas televisões e rádios azucrinam a coletividade em propagandas malsãs que oferecem as mais diversas modalidades de objetos para presentes, sobrecarregando sobretudo os raquíticos ordenados dos pobres, num país como o Brasil, devedor de somas fantásticas aos banqueiros internacionais, de baixa renda dos cidadãos, analfabetismo, habitação desumana, fome endêmica, desemprego e subemprego. Desmanda-se a burguesia nos dinheiros fáceis, obtidos por caminhos quase sempre desonestos. Promovem-se farras e esbanja-se dinheiro numa festa dividida entre poucos riquérrimos e milhões de misérrimos, num tripúdio revoltante sobre a desgraça nacional.

Na passagem de 1988 para 1989, a ganância de alguns fez que um barco naufragasse com o sacrifício de cinqüenta e cinco pessoas. Nada se sabe sobre a punição dos responsáveis pela tragédia. Se fossem pobres, os criminosos já se encontravam atrás das grandes.

Em Teresina, cidade de miséria quase absoluta, em que se abrigam muitos milhares de sofredores que abandonaram o campo por absoluta falta de condições de vida e, incentivando a megalópole, passam fome e morrem debaixo das pontes - na capital piauiense o soçaite ocioso dissipou milhões de cruzados, no afogamento das uiscadas, nos arrotos fartos provocados pela comida sofisticada. Ninguém se preocupou com as aflições dos pequenos, e todos estiveram indiferentes a penúria dos assalariados. Condenável desperdício. Imperou a estroinice. Num dos hotéis para milionários, deu-se uma festança afrontosa, farra grossa, num requinte de gozação de milionários. Para a noitada vendeu-se o ingresso por mil e duzentos cruzeiros novos, um salário mínimo dos infelizes que mourejam de sol a sol.

O cenário dos gastos nababescos com a embriaguez e as farturas das mesas, num requinte de insensibilidade, jamais seria conveniente à eclosão do mistério que Maria tinha no seio. Por esta razão o Evangelho diz que não havia lugar para eles na estalagem. José escolheu o silêncio e a humildade para o último toque no quadro vivo do Natal.

O Natal do Cristo, nos dias de hoje, bem acentua o padre Raimundo José, é fabricado pelos grandes meios de comunicação, em busca do lucro desmedido, na adoção de uma publicidade para o supérfluo, a fim de que a bolsa do pobre emagreça ainda mais.


A. Tito Filho, 20/01/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 29 de novembro de 2011

CONSIDERAÇÕES

- O professor Lima Cordão tem no prelo mais uma narrativa sobre o Nordeste. Personagens: o aglomerado familiar, um clã nordestino, pessoas do mesmo sangue que se desentenderam por questiúnculas, empenharam-se de oliosidade, e lutam, e se matam, numa carnificina espantosa e impressionante. A velha saga do sertão de anos antigos: Severas lutas partidárias, gerando invejas perniciosas e ambições desmedidas. Coiteiros na tarefa de agasalhar bandidos, e pistoleiros perversos na função assassina por quantia qualquer. O latifundiário sem alma e a terra como patrimônio de poucos. Garotas desvirginadas por coronéis do deboche, ou por rapazelhos filhos deles. Excesso de vigor fisico nos que mourejam de sol a sol, embora subnutridos, à espera de chuva sob o patrimônio divino. O mundo selvagem de caboclos sem lei, desespiritualizados, desconhecedores da leitura e da escrita. Valentões de forró. A faca e a arma de tiro, na inspiração da coragem e brutalidade. Por toda parte o homem enxerga inimigo se se ofendem as suas normas de honra e os tabus de sua fé. O trabalho do professor Cordão caracteriza o Nordeste que se modifica pouco a pouco, de modo lento, e um dia se redimirá quando vencer a ignorância e conquistar condições humanas de vida. O livro, perspicaz, inteligente e de irrecusáveis recursos descritivos e de narração, tem linguagem de vivacidade. O autor mostrou que cada um de nós é o reflexo do seu tempo, do seu meio, de sua forma de viver, do seu sexo, da sua família, como queria Tristão de Ataíde. As páginas revelam que nós somos o que fazem de nós as circunstâncias. História de sertão brabo, que a gente conta mas nunca queria que tivesse acontecido.

- Quando eu era estudante e professor, no dia 21 de abril, data do enforcamento de Tiradentes, se promoviam comemorações cívicas em todas as instituições de ensino. Os mestres rememoravam o sacrifício do principal mártir da independência nacional. Hoje, nada. Talvez a pátria tenha vergonha do quadro de ignorância, violência e miséria em que os maus brasileiros, os donos do poder, transformaram o sonho de Tiradentes.

- Não creio em crime fútil. Futilidade juridicamente não se define. Tem conceito relativo. Nada acontece por acontecer. Às ações humanas correspondem motivos, causas. O que é fútil para o homem educado, pode não ser fútil para o homem cuja educação foi desprezada pela família ou pela sociedade. Na futilidade do código penal devem levar-se em conta o grau de educação do agente, o meio em que vive, a situação em que delinqüiu. Até as palavras variam na sua força imperiosa de camada social.

- Num velório de defunta me perguntaram se mulher quando morre também abotoa o paletó. R. Magalhães Júnior anota que ABOTOAR O PALETÓ é locução carioca nascida da observação de que a roupa dos mortos sempre cuidadosamente se abotoa. A princípio se aplicou ao homem, mas passou aos dois sexos, pois em linguagem se verifica a aplicação de forma genérica das criações populares.

- Leiam "Os Donos do Poder", desse extraordinário Raymundo Faoro, e aprendam que a política vive de mãos dadas ao dinheiro, com ela surgem os advogados administrativos. são sempre gananciosas as raposas elitistas brasileiras, observações que Faoro registra como fatos nacionais desde 1808.


A. Tito Filho, 11/05/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

DESTINAÇÃO

Quando eu era meninote, meu pai se mudou para Teresina, prosseguindo a carreira de magistrado. Ganhava uns trocados, pois juiz naquele tempo não chegava ao salário mínimo destes dias inflacionários. A gente morava numa casa modesta. A cidade tinha vida tranqüila, agradável. Pagava-se aluguel da residência. Mas os bagarotes davam para passar bem de comedorias.

Meu pai percebia ordenados suficientes, da mesma forma que os funcionários públicos da época. Muita simplicidade, não havia festas de aniversários nem de debutação, nem de presentes no Natal e o carnaval se fazia sem despesas excessivas. Inexistiam ricos. Só abastados e a classe média que bem ganhava as suas patacas.

Os conselhos paternos me indicavam que procurasse uma profissão de ganhos razoáveis. Médico, por exemplo. Ou militar, pois o quartel dava a bóia e a roupa de graça.

Eu invejava o trabalho das pessoas. No Bar Carvalho, via a agitação dos garçons, de um lado para outro, servindo café ou refresco e logo pensava nessa profissão. Dia de domingo, eu ia ao restaurante comprar a comida de casa, como queria meu pai, para variar, e observava o cozinheiro Gumercindo a preparar o filé de chapa, em cima da quentura do velho fogão de ferro, cheio de lenha pela boca principal. Logo admitia um bonito futuro como diligente mestre cuca. No tempo de circo, fixava meu desejo maior em ser palhaço ou trapezista. Como gostava muito de picolé, surgia a pretensão de ser picolezeiro.

Cresci. Estudei. Deu-me na veneta de estudar direito. Formei-me. Não gostei de advocacia. Enriqueci-me de inveja pelo jornalismo, pelo magistério e pela literatura. Andei pela política na época em que já começava a correr dinheiro nas eleições. Edgar Nogueira, de grande prestígio, quis que eu fosse juiz no interior. Recusei. Juiz no interior ganhava como funcionário do Piauí, hoje. Não havia asfalto, a fim de que o magistrado das capembas pudesse freqüentar o cabaré da capital. Demais de tudo, esses pobres julgadores de vezem quando entregavam a alma de Deus, baleados pelos chefões do partidarismo.

Tornei-me jornalista e professor. Como jornalista, ganhava descomposturas. No magistério, como nos dias atuais, recebia salário de fome. Consegui ser funcionário público e nunca melhorei de finanças. Ainda agora ganho por mês a besteira de uns quinze mil cruzados novos por mês, sem ter para quem apelar.

Arrependo-me muito. Poderia ter sido político e ganharia rios de dinheiros como deputado. Caso fosse magistrado, seria hoje desembargador, com carro oficial, vantagens, e cem mil bagarotes por mês. Poderia merecer a sorte como dono de jornal, rádio ou televisão, e arrecadar milhões em propaganda oficial. Bastaria a publicidade da empresa piauiense de águas e esgotos, dirigido pelo dinâmico José Darcy Araújo.

Deus devia ter me protegido, ser do sexo feminino e filha solteira de falecido desembargador, para mamar de pensão por mês 40 mil pelegas, sem nada fazer, salvo colocar a dinheirama na poupança.

Banquei o bestalhão. Jornalista, professor, funcionário público. E sempre na miséria.


A. Tito Filho, 23/01/1990, Jornal O Dia

domingo, 20 de novembro de 2011

LINGUAGEM BRASILEIRA

Ninguém nega a existência de um linguajar diferente nas populações iletradas do Brasil interiorano, corrompida e desfigurada, mas bem brasileira, sobre a qual houve investigações cientificas de João Ribeiro e Antenor Nascentes, entre outros, bem assim registros de escritores em que a linguagem da plebe citadina e do homem rústico do sertão aparece explorada em seu pitoresco, o que permite avaliar até que ponto a língua dos colonizadores portugueses padeceu com a ação modificadora do povo inculto. Leiam-se as páginas de Valdomiro Silveira, Cornélio Pires, João Lúcio, Catulo Cearense, Leonardo Mota, por exemplo. Deste último transcrevo pedaço de carta de um sertanejo do Piauí:

"Mamãe, Parnaíba é uma cidade monarca, de grande. De menhãzinha se alvoraça tanta gente na beira do rio, qui parece formiga arredó de largatixa morta e quasi tudo é trabaiado caçando ganho. O mercado é outro despotismo: se arreúne mais povo do que na desobriga, quando Padre diz missa na capela dos Morros, da dona Chiquinha. tudo se vende; de tudo se faz dinheiro; fiquei besta de ispiá gente comprando maxixe, quiabo, limão azedo, folha de joão-gome e inté taiada de jirimum.

O passadio daqui é bom. todo dia eu como pão da cidade com mantêga de Reino. Mamãe, as coisa aqui são muito diferente e adversa daí. As casa são apregada umas nas outras qui nem casa de marimbondo de parede e é quasi tudo de telha e forrada de tauba por riba qui nem gaiola de xexéu e qui chama sobrado. Gente rica aqui é em demasia. Inda onte numa loja eu vi uma arma de dinheiro de cobre no chão qui parecia juá, quando se ajunta mode dá pro bode em chiquêro.

Mamãe, a Igreja faz inté sobrôço de gente, grande e alta. Cabe dentro dela todos os morador de Barra das Laje, de Bom Princípio, da Fazenda Nova, e ainda se adquére lugar pra mais de cem vivente. O povo daqui tem um sesto muito engraçado: não diz ô de casa, não! quando chegam nas casa eleia batem palma, como quem estuma cachorro mode acuá tatu em buraco"...


A. Tito Filho, 09/03/1990, Jornal O Dia

LIVROS

Carlos Araújo já deu vazão mais de uma vez à sua vocação literária, mas nunca através de um romance. A história tem a ver a sua vida profissional e, ao mesmo tempo, é pura ficção.

Diversos incêndios de origem desconhecida vêm destruindo grande parte da Amazônia e da mata atlântica, com trágicas conseqüências sobre a ecologia. Quem os provoca? Até que ponto as grandes potências estariam experimentando armas sofisticadas - com base em energia térmica transmitida por raios laser - nestes locais, com os resultados que todos conhecemos? E que fazem as nossas autoridades? Ignoram ou participam do escândalo?

Operação Thermos - Amazônia sugere uma hipótese plausível. Mesmo porque, nessa narrativa, nada é impossível.

Um coronel do Exército brasileiro se lança em missão Internacional secreta para salvar da falência um fabricante de armamentos numa operação em que os brasileiros querem o dinheiro, os americanos precisam de um campo de provas, os russos querem impedir a realização dessa experiência que será mais um passo na famosa Guerra nas Estrelas e finalmente há o amor a nível internacional movimentando uma história que poderia ser verdadeira se não fosse inventada. De quebra, a cessão de uma grande área da Amazônia como campo de provas.

Utilizando a sua experiência, o autor nos faz viajar por diversos países onde se desenrola a ação, num jogo de interesses das grandes potências, que demonstram completo desdém pelos países do terceiro mundo.

As aventuras do coronel Pinaud são de estarrecer, porém mais inesperado e surpreendente é o final da história. Vale a pena...

Carlos Araújo nasceu em Salvador, Bahia, e reside no Rio de Janeiro. Especialista em advocacia internacional, sua atividade se estende por muitos países, cujas línguas fala, algumas mais complicadas, do tipo croácio, esloveno, russo e outras, normais, tipo alemão, francês e inglês. Leitor assíduo de revistas especializadas, tipo Jane's assim travou conhecimento com o mercado de produtos de defesa - sofisma consagrado internacional para material bélico.

Desta ação, Carlos Araújo partiu para a sua vocação, a de redigir fatos e causos, sempre com a mesma dedicação, a mesma vontade de acertar e de conseguir o sucesso que obteve em outras carreiras. De admirar, apenas, que tardado tanto este seu primeiro romance. Mas o próximo já está bem adiantado...

Antes, publicou um livro de poemas, O Inimigo Oculto, e outro, de ensaios, Macumba. 


A. Tito Filho, 17/07/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

EDUCAÇÃO

Desde muitos anos a vida social brasileira se vem deteriorando, dia por dia, nos valores espirituais, sobremodo, e mais do que tudo na ausência de pudor e de honestidade. Vigora o cinismo e o homem não se envergonha dos atos mais condenáveis em busca das bacanais de sexo e álcool e na obtenção de dinheiro a qualquer preço. A alta-roda vive de futilidades, mas goza de privilégios incontáveis, a classe média se extingue na baixa renda e no sacrifício das prestações, sem o necessário para o sustento familiar, e o operário vegeta nas angústias permanentes da habitação desumana e da fome endêmica. Nesse ambiente de fausto e de miséria convivem seres imaturos, principalmente a juventude sem destino, e o jovem rebela-se contra a irresponsabilidade generalizada e passa a hostilizar as instituições, e hostiliza-as no pai, na mãe, no mestre, nas leis, na inteligência, na pátria, com a linguagem decomposta, de que se utiliza para mostrar que a vida não deve ser séria, nem digna, mas uma pilhéria, um deboche, uma pândega, um insulto, de que esse linguajar se torna veículo, intérprete e revelação. A televisão faz com que essa fala se exporte dos grandes centros, onde funcionam as redes de comunicação de massa, para as médias e pequenas cidades e para bibocas interioranas. Hoje se arremedam deformações vocabulares e expressionais das megalópoles em todo o Brasil. A língua do mais estúpido diálogo do novelês, ou português de novela, invade as escolas, os clubes, as reuniões de soçaite, o recinto dos lares, os quiosques de mercado, e por toda parte se ouvem estropiamentos grosseiros, palavrões, na boca de mocinhas sem recato, rapazes, senhoras jovens e matronas que deviam dar-se a respeito. Observe-se a quantidade de vendedoras das praças e das esquinas, redigidas em baixo calão. Os livros se vendem com obediência a nocivo sistema publicitário das editoras poderosas. Não se lê senão o fútil, o exemplo mau para o uso da língua. Professores e alunos renunciaram a prática da leitura, considerada desnecessária nestes últimos tempos. Mas ninguém ignora que se aprende trabalhando. Quanto mais o homem lê, quanto mais pratica a redação, mais fala e escreve com facilidade, mais seguramente transmite idéias. E neste deserto cultural, funcionam as universidades brasileiras, oficiais e particulares, cada vez mais decepcionantes, com mestres improvisados e futuro despromissor. Esses centros de instrução superior e preparo de lideranças instituíram o ingresso por através de um exame vestibular, que se baseia e sustenta num processo de testes mal redigidos, mal feitos, e moços e moças gravitam, noite e dia, em torno deles. Ainda vive o Brasil subserviente coma exigência de inglês ou francês. Que necessidade tem o doutor de saber inglês ou francês? A própria universidade afirma de modo indireto que os dois são desnecessários, desde o instante em que confere ao candidato a prerrogativa da escolha entre uma e outra língua. E por que não se exigem o alemão, o italiano, o russo, o holandês, o chinês, o espanhol, idiomas em que se escreveram e escrevem obras científicas e literárias de conceito universal? O inglês participaria da cultura especializada de quem quer que seja, nunca da compostura intelectual de ninguém. A universidade precisa de novos rumos. De novos horizontes. Não funcionam atualmente como instituições no anticívico portinglês, nas asnices do economês, uma espécie de língua pátria criada pelos famosos economistas nacionais, e no televisês, o português das tevês, estúpido e amoral.


A. Tito Filho, 06/07/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MANIA

Mais uma mania nacional, a de identificar e discutir as causas da violência no Brasil, sobretudo a urbana. Numa das tevês nacionais, certa apresentadora ajunta certas celebridades duvidosas, psicólogos, sociólogos, atrizes, pintoras, e de modo de sábia Grécia, a coroa lança falação sobre a violência, e os convidados passam a derramar tolices sem conta. Causas, dizem eles, ora pois sim, a impunidade, o cumprimento das penas pela metade porque as cadeias estão superlotadas, a Polícia não presta e outras asnices de igual teor. Não sabem esses doutores o que dizem ou têm interesse em esconder a verdade.

As causas são profundas. havia violência quarenta anos passados? A violência constitui processo de que se utiliza o submundo dos famintos, dos favelados, ou que padecem as tristíssimas conseqüências de uma sociedade plena de injustiça sociais, dividir entre poucos ricaços e milhões de miseráveis. quem desperdiça neste país em viagens maravilhosas, em coquetéis, em futilidades, em festanças, casamentos de luxo, debutações de estroinices? O empresariado de milhões, no momento pagando altíssimos resgates em dólares. Quem fez deste país um covil de ladrões engravatados, bons vivedores à custa do tesouro nacional? Por onde andam os responsáveis pela vida desumana das cidades brasileiras? Em que se transformou Brasília, a loucura de certo presidente preocupado com a glória das glórias de haver criado a monstruosidade do cerrado, em momento angustioso da economia nacional? A Brasília de Lúcio Costa e de Niemeyer resume-se hoje na maior favela do mundo.

Um país em que os inocentes suportam cruel abandono moral, anulando-se papel reservado à família e à escola, não podia ser feliz nem gozar de tranqüilidade. A família e a escola arruinaram-se. As crianças passaram a vaguear pelas ruas, expostas às perversidades de todo gênero. Arremessadas à escola, esta se encontra confiada à mais perfeita irresponsabilidade de falsos governantes e falsos educadores.

Milhões de deserdados, famintos, andrajosos, sem quaisquer direitos na vida, sem lar, sem alimento, sem teto, orientados por uma televisão que protege crime e criminosos, estupros, degeneradores sexuais, o luxo dos marajás, o uísque, só os cegos que não querem ver discutem, na nefasta televisão brasileira, as causas da violência, inexistente quarenta anos através.

Violência é revolta contra as dissipações dos poucos ricos deste país, insensíveis aos dramas da explosão social que se aproxima. A fome é má conselheira. A injustiça gera a vingança.


A. Tito Filho, 22/07/1990, Jornal O Dia

FALSA DEMOCRACIA

Neste 3 de outubro, passei horas diante da televisão, ouvindo depoimentos a respeito do processo eleitoral. Sobre o momentoso assunto, escrevi dois artigozinhos, publicados em O DIA. Os meus comentários bem se harmonizaram com a opinião de líderes partidários de irrecusável prestígio nacional. Cheguei à conclusão de que a democracia brasileira representa irreversível falsidade.

Os programas gratuitos de televisão têm de gratuitos o nome, pois as empresas encarregadas do preparo das imagens e cenários cobram milhões, e ainda se atesta que a Justiça com a mentirosa gratuidade edita a influência do poder econômico na escolha de governantes e legisladores. Muitos advogam que se suprimam tais promoções aberrantes, ou pelo menos que elas se efetuem ao vivo, para exposição de programas e debates em torno de problemas. Se persistem os métodos vigorantes, servirão para cada vez mais desmoralizar os candidatos, sujeitos como ficam às paixões dos adversários.

A verdade insofismável está em que o sistema eleitoral brasileiro se baseia na mais categórica mentira. Elegem-se os que podem dispor de dinheiros aos montes. A lei pretende que os partidos sejam os responsáveis pelas despesas. Leda e cega intrujice. A propaganda efetua-se por processos reclamadores de milhões para pagamento de cartões de luxo, cartazes, montagens de cenários, maquiagens dos disputantes, viaturas de luxo, contratação de cabos eleitorais, compra pura e simples de currais de eleitores, distribuição de presentes. Ajunte-se a isso o crime que praticam as autoridades constituídas quando colocam as máquinas administrativas, inclusive o empreguismo, a serviço das suas preferências pessoais.

As campanhas no Brasil, com raras exceções, se vêem financiadas pelo oficialismo e por empresários poderosos, que exigem o reembolso das despesas por parte dos eleitos,s eja através de contratos lesivos aos cofres públicos, seja pelo apoio, no Congresso Nacional, de leis que ferem os mais caros interesses populares.

Há urgente necessidade de reformas profundas e inadiáveis na legislação eleitoral no Brasil. Observe-se o número de partidos políticos cuja fundação se facilita. Umas vinte ou mais agremiações o ano passado tiveram candidatos à presidência, sem que vários apresentassem as mínimas condições de sensibilizar o eleitorado.

Seria interessante que se examinasse também a circunstância do voto obrigatório. Por que obrigatório? A lei me faculta a prerrogativa de escolher candidatos, mas me fere a liberdade no momento em que me coage a exercê-la. O voto bem que poderia ser apenas um gesto pessoal do cidadão, nunca um dever, mas um direito apenas, que se usa quando a consciência determina.

Vigorou por todo o Brasil o mais triste desrespeito à lei e às deformações da Justiça Eleitoral, com flagrantes episódios de anarquia e inteira ausência de sensibilidade, nos episódios da boca de urna.


A. Tito Filho, 05/10/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 15 de novembro de 2011

EMPACOTAMENTO

Estudiosos em geral depõem que a televisão se tornou um processo dos mais ativos para que se inquiete o homem, sobretudo o futuro do homem, a criança, quando deveria ser importantíssimo meio de educar as coletividades para a vida. Observe-se que as novelas, de platéias numerosas e obcecadas, de conteúdo passional e emocional, dia por dia transformadas em coceira nacional - as novelas deformam personalidades, impõem hábitos, ensinam condutas violentas, deterioram a língua pátria. Pior do que as mazelas condenadas, a televisão brasileira vem praticando a perversidade do empacotamento cultural do Brasil, e assim se uniformizam costumes regionais da pátria enorme.

Pouco a pouco desaparecem os agradáveis piqueniques de famílias e amigos, pobres e ricos, substituídos pelo americanizados coquetéis nos clubes, em que a elegância faz que se delicia de salgadinhos sem gosto, enfeitados de rodelinhas de azeitonas e salsichas, bem assim doses duplas de uísque gelado que a propaganda insinua como benfeitor das coronárias. Instituiu-se por força da publicidade a civilização dos enlatados. Sumiram-se as danças típicas, e em lugar delas vigoram os trejeitos, as macaquices, a barulheira e o histerismo do roquennol, que o anticivismo importou dos norteamericanos, que aqui ganham milhões nos festivais de praça pública. A cozinha dos quitutes gostosos dos nossos avós se transformou na fábrica dos pratos sofisticados de denominação estrangeira nos restaurantes de toa parte. O cinema tem fundamento na violência, no sexo, no adultério, na vileza das ações humanas. A criança desconhece as encantadoras estórias da boca da noite, antes do sono tranqüilo. Hoje se educam nos xôs das xuxas. A língua nacional circula deformada no iê-iê-iê da nação inteira. Não há diferença de tratamento no caso dos pronomes TU e VOCÊ. Ambos se põem na mesma frase do indivíduo que conversa com o semelhante. A novela orienta a juventude, a maturidade, a velharia para o desrespeito recíproco. Pais e filhos se xingam e se insultam. Os bicheiros, os assaltantes, os traficantes de droga, os vendedores de crianças ganham admiração generalizada. Aos estudantes servem de exemplo as conquistas fáceis e a facilidade de ganhar dinheiro sem o trabalho correspondente. Dinheiro a rodo lucram os profissionais da esperteza. Protege-se o criminoso e esquece-se a vítima. Não se mostra a atividade honesta, não se elogiam os que cumprem o dever. As bocas deseducadas proferem baixezas como expressões naturais, de pessoas inteligentes e que atuam conforme a moda vigorante. Não se vê na televisão, salvo raramente, a realidade brasileira, o quadro das suas populações sofridas, angustiadas, nenhuma delas, exceto quando raramente se mostram cenários naturais das regiões do país. Desaparecem pouco a pouco as festas cívicas e populares. Até o carnaval carioca, pleno de bom humor antigamente, festa de encantamento e beleza, perdeu as suas características de rua e de clubes, liquidadas pelos bilhões de cruzados gastos na estroinice das escolas de samba de fêmeas peladas e nas baixezas e perversões sexuais dos bailes de degenerados.

A televisão pratica verdadeiro crime espiritual, uniformizando o Brasil. Música, cantoria, cozinha, vestuário, usos, hábitos, costumes, estórias, sexo, brinquedos infantis, teatro, cinema, linguajar, lendas, diversões, tudo se vai bitolando para que se eduque um pobre povo abandonado e que se orienta para comprar, para gastar dinheiro na imposição de quanta impostura o poder industrial fabrique, uma educação para a conquista de um falso conforto. Os canais de propaganda insinuam que o afeto se reduz ao presente para a mãe, para o namorado, para o pai, e haja dinheiro para enriquecimento sempre maior dos que fabricam e dos que vendem. Desapareceram as práticas regionais. Sufocou-se a arte verdadeira. Impera a subliteratura. A deformação é geral. O Brasil está totalmente submisso a uma civilização empacotada.


A. Tito Filho, 07/09/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

CRIANÇA E ADOLESCENTE

Teresina não possuía televisão. Funcionavam nesse tempo três emissoras de rádio, a Difusora, a Pioneira e a Clube. Aproximava-se o Natal do Cristo. As dondocas logo adotaram a antiga e surrada caridade hipócrita e paternalista. Os pobres deviam sorrir também no dia do nascimento do Menino. Deu-se a campanha. As dondocas, em mensagens bonitas, pediam que os ricos dessem os seus sapatos velhos à festa natalina dos deserdados da fortuna. Humilhante e revoltante o desumano gesto caridoso da dondoquice teresinense. Corri aos jornais. Escrevi uns dois artigos de protesto contra a indignidade de calçar os miseráveis com o chulé dos ricos. As dondocas enfiaram a viola no saco e encerraram a campanha nefasta e condenável.

Agora é tempo de criança e de adolescente. Existe um estatuto para essas duas idades da vida, a que vai até doze anos e a que segue dos treze aos dezoito. Faz uma semana, ou mais, que os instrumentos de comunicação auguram nova era para os meninos e as meninas brasileiras.

Antes de mais nada, o "Jornal do Brasil”, do Rio de Janeiro, edição de 29.10.1990, publicou GENOCÍDIO INFANTIL, excelente artigo de Lédio Rosa de Andrade, juiz de menores no Estado de Santa Catarina, e as considerações do magistrado deveriam ser transcritas por todos os recantos do território nacional. Diz ele que o jornal "Folha de São Paulo" publicou, no dia 11.10.1990, resultado de uma pesquisa efetuada pelo Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição, órgão do governo, que chegou a estas conclusões; a cada dois minutos morre uma criança de fome no Brasil; de cada mil que nascem no Nordeste, 200 morrem antes de completar um ano de vida, também de fome. Existem mais de 4 milhões de crianças e adolescentes entre 17 e 14 anos sem escola. Na obra MALDITOS FRUTOS DO NOSSO VENTRE, de Luppi, existem no Brasil 36 milhões de menores carentes, 8 milhões de meninos na rua, 7 milhões de crianças sem família, 10 milhões explorados no trabalho, mais de 300 morrem anualmente assassinadas.

Com o Estatuto da Criança e do Adolescente, mais uma balela dos donos do poder, menino vai viver alimentado, bem vestido, bem calçado, na escola, alegre, feliz, ao lado das mães carinhosas.

No meu tempo de menino remediado a gente desconhecia droga, despudor, violência. As mães viviam no lar, como primeiras educadoras dos filhos que, pobres ou ricos, cresciam saudáveis para uma vida digna.

A propaganda de minuto a minuto sustenta que o menor está salvo com o estatuto governamental. Como se salvarão esses pobres enteados da vida? Com as dádivas em feijão, roupas velhas, brinquedos de matéria plástica, que os ricos depositarão nos locais designados.

Tenho dito e repetido que o problema não reside na destruição da maconha, da cocaína e da heroína, nem na prisão dos traficantes. A solução se encontra em eliminar uma sociedade injusta, perversa, esbanjadora, composta de cinco por cento de ricaços cujas fortunas não se justificam.

Assegura o ilustrado e corajoso juiz de menores de Santa Catarina aquilo que venho afirmando faz tempo. não existe problema do menor, mas o terrível problema de uma sociedade amoral, profundamente malvada, que se entregou ao luxo e a ao prazer, hipocritamente caridosa, desleal com os semelhantes, com os menores ricos, que assistem aos colóquios amorosos das mães despudoradas, e com os pobres, que morrem desnutridos, num genocídio vergonhoso praticado pelos que têm o poder e o dinheiro: "Assim mesmo com o Estatuto em vigor - diz o magistrado - as crianças e os adolescentes brasileiros continuarão a morrer de fome, assassinados, sem saúde, casa, roupa, escola, sem uma vida digna, assim como continuará a impunidade, salvo se colocarmos no cárcere os responsáveis pela celerada, decrépita e misantrópica política social e econômica brasileira".


A. Tito Filho, 31/10/1990, Jornal O Dia

domingo, 23 de outubro de 2011

IMITAÇÃO

No Brasil se vem praticando a brincadeira denominada HALLOWEEN, assim definida pela gente norte-americana: THE EVE OF ALL SAINTS' DAY, FALLING ON OCTOBER 31 AND CELEBRATED BY CHILDREN WHO GO IN COSTUME FROM DOOR TO DOOR BEGGING FOR TREATS OR PLAYING PRANKS. Brincadeira às vezes de mau gosto. Em novembro já se criou entre os brasileiros o Dia de Ação de Graças, instituído pelo presidente Eurico Dutra, cópia do THANKS GIVING DAY, comemorado cá como lá na penúltima quarta-feira de novembro quando o mês tem cinco quartas-feiras ou na última se o mês tem apenas quatro quartas-feiras.

Em 1930, Getúlio Vargas subiu ao poder. Repudiou a influência inglesa no país e se passou para os Estados Unidos, país ambicioso de riqueza, que logo, por através do cinema, realizou mudanças, para pior, nos costumes e hábitos brasileiros. Pouco a pouco dominou o Brasil nos processos culturais. Depressa o povo começou a usar os enlatados. Fecharam-se alfaiatarias e todos aderiram ao uso da roupa feita. Estabeleceu-se a moda do desnudamento feminino. O uisque substituiu nas cidades a boa pinga nacional.

Quando cheguei ao Rio, com o objetivo de estudar o curso superior, topei com uma cidade de prédios baixos. O edifício mais alto, de 20 e 22 andares, era o prédio das empresas nacionais, constituídas do jornal "A Manhã", revista "A Noite Ilustrada" e a rádio Nacional. Na principal avenida, a Rio Branco existiam prédios de cinco e seis andares, no máximo. Na avenida Atlântica, situada à beira-mar , batizada de praia de Copacabana, viam-se casas residenciais de andar térreo ou de dois pavimentos apenas.

A CIVILIZAÇÃO norte-americana transformou Copacabana numa selva de cimento armado. Surgiu a vida em apartamento, com porteiro e elevador. Liquidou-se por toda parte a tranqüilidade dos cariocas.

E o arsenal de remédios dos laboratórios estrangeiros? E o turismo, invenção norte americana para que o povo gaste na visita aos cenários alheios enfeitados, mas ainda assim iguais ou piores do os nossos?

Observe-se que o seqüestro de pessoas por bandidos, que pediam altos resgates dos rancheiros ricos, começou no oeste dos Estados Unidos, nação onde teve início também o gangsterismo urbano, da forma que o cinema estadunidense mostrou nos exemplos de Al Capone e Dillinger. Crimes brutais e violência sexual o cinema da terra de Bush apresenta aos nossos patrícios na constância dos dias e das noites. As casas comerciais de brinquedos vendem presentes representados por revólveres, tanques e quantas crianças aprendam a matar, obedientes às lições de violência de que se encontra rica a história dos Estados Unidos.

A bela língua portuguesa cada dia vai sendo suplantada pela lingua. no Brasil se fala o PORTUGUÊS.

Ao cabo das contas, a terra de Cabral imita o papai grande em tudo, numa americanização vergonhosa.


A. Tito Filho, 13/12/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

CULTURA

Rui Caetano Barbosa de Oliveira era o nome todo do grande brasileiro, que se reduziu a Rui Barbosa, cuja cultura jurídica causou admiração aos nomes mais notáveis na célebre conferência de Haia, na Holanda, menos conhecido no seu país de nascimento, nos dias de hoje, do que um dançador de lambada. Veio ao mundo num 5 de novembro, escolhido para que nele se comemore o dia da cultura. Que cultura? Cultura pode dizer-se o conjunto de processos de vida de um povo e por este modo se dirá da sua felicidade ou desgraça. Como se caracterizam os brasileiros? Uns cinco por cento passam à tripa forra, no luxo, nos grandes centros turísticos, donos da escravaria de milhões cujo trabalho vale salário mínimo, que mal compra meio quilo de carne por dia. No país colonizado por portugueses safados habitam uns cento e vinte milhões entre os analfabetos, os que mal assinam o nome, os que treinam o desenho do voto, o empresariado da indústria e do comércio que apenas lê a cotação do dólar, os bandidos milionários de colarinho branco, as crianças e adolescentes sem escola, os que não têm a mínima idéia do que seja conhecimento da ciência, da literatura, das demais artes, das lições da natureza.

Como educar para a cultura? Pelos instrumentos necessários e competentes, pelas instituições sociais, pelos meios de comunicação. No Brasil esses modos de interpretação das coletividades funcionam? Nunca dos nuncas. Família pervertida e sem autoridade, escola falida ou de balcão comercial, meninos sem afeto materno, ausência completa de leitura, inexistência de princípios morais, linguagem de calão, autoridades sem equilíbrio mental, televisão a serviço da violência ou do sexo ao vivo. Por mais que os heróis, e são poucos, se esforcem, conseguem quase nada neste deserto de homens e de idéias em que * o Brasil. Antigamente havia ao menos o bom exemplo dos responsáveis pela vida pública. Hoje, besta é o que não furta e enche o bandulho da dinheirama resultante de privilégios criminosos. Que se fez do cinema como arte que sempre foi, cujos temas estavam nos grandes conflitos humanos ou nas comédias que mostravam a vida e suas personagens com naturalidade e espontaneidade?

Conheci o Brasil de outros tempos em que o governo incentivava a vida teatral e surgiam as companhias de artistas que na verdade educavam por intermédio de peças bem interpretadas e de mensagens que faziam o povo observar a crua realidade das causas. Era bom. O teatro nacional viveu dia de glória e esplendor artístico. A dança e a música se dirigem nestas últimas décadas aos instintos de um povo sem o menor vislumbre de lucidez mental. Foi-se o tempo de um Francisco Alves, o velho Chico, que enviava melodias ao espírito romântico das gentes. Agora as multidões ululantes se requebram enlouquecidas com as desordens das gritarias dos roquiniróis.

Pobre Rui Barbosa. No dia da cultura, criado para homenagear o notável brasileiro, o Brasil já não possui um insosso ministério da cultura, financiador de péssimo cinema e que jamais efetivou, nas tevês e nos rádios, programas culturais, embora esses instrumentos sejam concessões do governo. A cultura nacional se resume nos mais degradantes processos de vida da sua população, socada nas favelas das megalópoles, jovens sem horizonte buscando na droga o lenitivo da degradação física e mental, a legião dos analfas e dos obtusos de inteligência, a esperteza como sistema de triunfo, as perversões sexuais de protestos contra a masculinização feminina - eis a homenagem que o Brasil vem prestando a Rui Barbosa, esse homem desconhecido.


A. Tito Filho, 06/11/1990, Jornal O Dia

* Apagado no original

terça-feira, 11 de outubro de 2011

AINDA ESTABILIDADE REPUBLICANA

Em 11-5-38, os integralistas de Plínio Salgado assaltaram a residência presidencial, no Rio. Foram vencidos. A 29-10-45 as Forças Armadas depuseram a Getúlio Vargas e entregaram o poder a José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal.

Eleições no dia 2/12/1945. Eleito Eurico Dutra, pelo processo direto. Nova Constituição em 18/9/1946, fixando em 5 anos o mandato presidencial. Dutra governou de 31/1/1946 a 31/1/1951.

Nas eleições seguintes, de 30/10/1950, Getúlio Vargas foi eleito assumindo em 31/1/1951. Em 5/8/1954, atentado contra o Sr. Carlos Lacerda e morte do aviador Rubens Florentino Vaz. Às 8 horas da manhã de 24/8/1954, Getúlio matou-se. Na presidência o vice João Café Filho, a partir de 24/8/1954. Eleições a 3/10/1955. Eleito Juscelino Kubitschek. O sr. Café Filho, alegando doença, pede licença ao Congresso e passa a presidência a Carlos Luz, presidente da Câmara, nos termos constitucionais. Carlos Luz assume no dia 4/11/1955. No dia 11, demitiu o ministro da Guerra, general Lott, que chefiou uma revolução, e depôs o presidente Luz. O governo foi entregue a Nereu Ramos, presidente do Senado. O catarinense Nereu assumiu no dia 11/11/1955 e no dia 31/1/1956 passou a presidência a Juscelino, que chefiou o Executivo até 31/1/1961, vencendo uma rebelião - a de Jacareacanga, chefiada por Haroldo Veloso.

Eleições dia 3/10/1960. Eleito Jânio Quadros. Assumiu em 31/1/1961. Renunciou espetacularmente em 25/8/1961. Encontrava-se no exterior o vice João Goulart. A Presidência passou ao presidente da Câmara. Raniere Mazzili. Grave crise militar. Instituiu-se o Parlamentarismo e Goulart assume em 7/9/1961, sob novo regime, chefiado por um Primeiro Ministro. Crises e mais crises. Plebiscito em janeiro de 1963. O povo vota contra o Parlamentarismo. O regime volta ao Presidencialismo. Prosseguem as crises. Comícios com a participação do presidente. Crise na Marinha. Crise da reunião dos Sargentos. Dia 31/3/1964, Goulart foi deposto. Assumiu Raniere Mazzili. O Congresso elege Humberto de Alencar Castelo Branco, que assumiu em 15/4/1964, por um ano. O Congresso prorroga o mandato presidencial. Castelo, posteriormente, institui a eleição indireta do presidente, para 3/10/1966. Eleito Costa e Silva, que governou até agosto de 1969. Doente, afastou-se do poder. O governo não foi recebido pelo vice Pedro Aleixo, mas pelos três ministros das pastas militares.

Para a presidência, em substituição aos ministros, foi eleito pelo Congresso o general Emílio Garrastazu Médici. Assumiu em 30 de outubro de 1969. Cumpriu o mandato até o final (15/3/1974), quando, para um período de cinco anos, se empossou o novo mandatário - presidente Ernesto Geisel.

A verdade é que o Brasil necessita de estabilidade política. E queira Deus que o Brasil tenha a tranqüilidade que nunca tiveram, no agitado período republicano, iniciado por Deodoro da Fonseca, ressalvados os dias do governo Médici até os nossos dias.


A. Tito Filho, 15/02/1990, Jornal O Dia

sábado, 8 de outubro de 2011

ASSUNTINHOS

Anfrísio Lobão Veras Filho exerceu com proficiência e coração a medicina em Teresina. Nas eleições municipais de 1924, para o quadriênio 1925-1929, fez parte da chapa de candidato a intendente, João Luís Ferreira. Foi o vice de João Luís. Ambos se elegeram. Aconteceu que o intendente também se elegeu deputado federal e optou por este último mandato. Assim, Anfrísio tornou-se intendente de 2-1-1925 a 2-1-1929. O chefe do Executivo de Teresina tinha sido um dos fundadores do Banco Agrícola, que se transformaria em Banco do Estado do Piauí. Depois, triunfaria como candidato a deputado estadual e por consenso dos seus pares presidiu a Assembléia Legislativa. Governador interino do Piauí. Membro do Tribunal de Contas. Nascido na terra piauiense de União, faleceu em Teresina, 1954. No momento em que o governador Alberto Silva, neste ano da graça de 1990, inaugura o seu propangadeado PRÉ-METRÔ, num dito primeiro trecho, em me lembrei de Anfrísio que, em 1927, adquiriu um bonde motorizado em São Paulo e inaugurou a linha de transporte popular da estação da estrada de ferro ao rio Parnaíba. Pioneirismo. Audácia. Certamente o bonde desapareceu por falta de freguesia. Ninguém se lembrou, na discurseira, do pioneiro Anfrísio.

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No Rio, as dondocas e as balzaquianas andam de dentuças à mostra, passeando com os seus bonitos cães domesticados? Razão? O empresariado carioca está ganhando os tubos com a novidade maravilhosa: os postes especiais para o xixi da cachorrada. Custam uma nota, mas são elegantes, de fino acabamento e têm farolitos de pilha para uso noturno. Denominação dos interessantes objetos, que são conduzidos pelos rabos-de-saia ao lado dos respectivos cachorros: PIPI-DOG. Os empresários de Teresina muito lucrarão importando o PIPI-GAY para instalação na praça de Dom Pedro II.

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Estive pensando muito. Embora entenda patavina de economia e seus mistérios encontrei remédio infalível para liquidar a inflação nacional, doidamente disparada contra a bolsa dos bestas do pauperismo. Pois bem. Basta que as autoridades nacionais, estaduais, municipais, estatais, paraestatais, autárquicas e seus respectivos auxiliares, familiares e cupinchas deixem de roubar pelo menos quinze dias no mês. Dia sim, outro não. Dia sim, outro também, não há bumbum de peruano que agüente.


A. Tito Filho, 06/02/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

UMA CARTA

Recebi esta expressiva carta:

"Depois da frustração do Halley, do buraco no Ozônio, de Chernobil, do Césio em Goiás, da destruição de Sete Quedas, dos abalos sismicos no México e na Califórnia, do Batou Mouche, da Aids, da destruição do Líbano, da Primavera de Pequim, da invasão do Panamá, das guerras por rivalidades étnicas e tribais, o Planeta Terra não é mais o mesmo.

Os anos 80, implacáveis ceifadores (Elis, Lennon, Drummond, Coralina, Nara, Buñuel, Dali, Borges, Chagal, Hitchcock) deixaram-nos órfãos na arte e na vida, marcas profundas e indeléveis.

Não, não podemos ser os mesmos, também porque a contracultura nega e resiste, o povo foi às urnas, derrubou o muro de Berlim e Nicolae Ceausescu, o Leste Europeu fragmentou-se no seu totalitarismo, caíram varias ditaduras militares na América Latina, as mulheres, muitas, subiram ao poder (Erundina, Corazon, Dorothéa, Benedita) o bebê de proveta e os segredos da genética desvendados, as fibras óticas, os supercondutores, os compact-disc, e a nossa vida invadida maravilhosa e bandidamente pelo faz e o computador. Tivemos uma década furiosa, mefistofélica de quem destrói o tempo inteiro pra poder recriar e lançar moda. Vivemos os anos pós-tudo, onde até o pós-moderno é póstumo (natimorto?).

Mas, apesar da erupção do Vesúvio, do amor com medo da AIDS, de Bucareste em chamas, o povo festeja.

Apesar das tropas ianques, os panamenhos e seus batalhões resistem em nome da dignidade e da cidadania.

Apesar da inflação de 55% ao mês, da violência e do medo, os brasileiros crêem e nós, é claro, ainda fazemos poesia.

Feliz, 1990. Felizes anos 90, onde as certezas substituirão as dúvidas e os medos, onde o trabalho substituirá a inércia e as falcatruas, onde a fraternidade substituirá o egoísmo, onde as paixões substituirão a apatia e o amor reinará absoluto".


A. Tito Filho, 04/01/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

CONSIDERAÇÕES

José Eduardo Pereira se vem revelando dos mais lúcidos jornalistas piauienses dos nossos dias. Comentários lúcidos, oportunos, construtivos. Faz poucos dias examinou e bem a questão das casas de cultura do Piauí abandonadas. Noutro artigo convocou atenções para a criminosa publicidade de órgãos públicos, pelos jornais, rádios e televisões, noite e dia, para o endeusamento de pretensos candidatos a cargos eletivos. Faz gosto a leitura do jornalismo do colega da esquerda desta página.

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O futuro ministro da Justiça prometeu a pregadores do Evangelho, no rio, que pedirá aos responsáveis por televisões que evitem as cenas de gente NUA, sobremodo neste carnaval. Até os animais, na sua grande maioria, fazem sexo às escondidas, com exceção dos cachorros e respectivas cadelas, que são cínicas a partir do nome. Logo se exaltaram os partidários da liberdade assegurada pela Constituição Federal. Um crime não permitir que a Tieta faça a sugação, na cama, das últimas energias do pobre seminarista que, pela primeira vez, via a abundante flora da esperta Messalina. Neste país democracia vale o mesmo que liberdade total de colocar os possuídos à mostra, passar fome, ter residência e domicilio debaixo das pontes. Não há democracia onde as minorias ricas oprimem e sufocam as maiorias miseráveis.

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Formei-me em direito. No ano da graça de 1955, meu inesquecível mestre Edgar Nogueira, que se tornaria o magnífico ditador do Poder Judiciário do Piauí, me ofereceu várias vezes um lugar de juiz de direito no interior. Era bom, dizia. Promoções ligeiras, pois eram raros os bacharéis que aceitavam a formidável aventura. Estradas intransitáveis. De Teresina ao velho Marruás meio-dia de viagem no verão. Imagine-se no rumo do sul do Estado. Demais de tudo, a politicagem não permitiria a independência do magistrado. De vez em quando se matava um desses pupilos de Edgard Nogueira. Desisti. Hoje seria desembargador, com cem mil bagarotes mensais. E por que não nasci eu simples filha de desembargador. Uma velhota filha INUPTA (nome bonito e difícil) de desembargador falecido está mamando dos cofres piauienses cerca de cinqüenta mil cruzados novos cada mês, só para se coçar. Casando-se, perde a pensão. Amigando-se, nada acontece. Brasil bem Brasil.


A. Tito Filho, 04/02/1990, Jornal O Dia