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domingo, 5 de fevereiro de 2012

O AUTOMÁTICO

Existia um prédio grandão em Teresina, andar térreo, linhas severas, projetos de Luís Mendes ribeiro Gonçalves. Nele funcionava, na rua Coelho Rodrigues, a Faculdade de Direito; defronte da praça Deodoro, a Diretoria da Fazenda; com frente para a praça Rio Branco, a Diretoria das Obras Públicas; e ao lado da igreja do Amparo, a Chefia de Polícia.

O governo mandou derribar a construção e no lugar pretendeu fazer um edifício que abrigasse as secretarias e outros órgãos. Faltou dinheiro. O esqueleto do espigão levantado, feio, debaixo de sol e chuva. Resolveu-se vender o troço ao Ministério da Fazenda, que concluiu o edifício e nele se encontra instalado.

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Foi bom. Eu era molecote, estudante de ginásio, e assisti a solenidade inaugural do telefone automático de Teresina. O povo entusiasmado aplaudiu o acontecimento. Sinal de progresso e de civilização, embora a capital piauiense ainda fosse pouco populosa.

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Eleito pela Assembléia Legislativa governador do Estado, o médico Leônidas de Castro Mello assumiu o exercício das elevadas funções a 3 de maio de 1935, disposto a realizar amplo e oportuno programa nas mais diversas esferas administrativas.

Em fins de ano deu posse, abriu o Poder Executivo concorrência pública para o serviço telefônico de Teresina, a que habilitaram duas empresas idôneas, a Companhia Brasileira de Eletricidade Siemens Schuckert S. A., e a Sociedade Ericsson do Brasil, vencedora a primeira, de acordo com parecer de comissão julgadora aprovado pelo governante.

Pequeno atraso nas obras não permitiu que o grande melhoramento se inaugurasse nas festas comemorativas do segundo aniversário do governo Leônidas Melo, a 3 de maio de 1937, verificando-se poucos dias depois, a 17, pelas 19 horas, na sede da antiga Diretoria das Obras Públicas, que dava para a praça Rio Branco.

Deve recordar-se que, na época da introdução do telefone automático em Teresina, muitos se utilizavam do aparelho para o que se denominava trote: ligava-se para senhores ou senhoras conhecidos ou importantes e transmitiam-se boatos prejudiciais, noticias espalhafatosas, xingamentos ou ditos pornográficos - circunstância que levou o Diário Oficial do Estado, edição de 20 maio de 1937, a publicar o seguinte aviso urgente da Diretoria das Obras Públicas: "O Serviço Telefônico avisa que em virtude de abusos verificados por muitas pessoas que se utilizam dos aparelhos, resolveu controlar o serviço de ligações. Por esse controle verificará de quais partem tais abusos. Os mesmos serão desligados e o assinante perderá a caução e terá o nome publicado no jornal".

O governador Chagas Rodrigues assumiu o poder a 31 de janeiro de 1959. Enfrentou o problema da paralisação dos serviços telefônicos de Teresina e resolveu-o.

Foi adiante. Propôs à Assembléia Legislativa a criação de empresa estatal que implantasse, explorasse e dirigisse a telefonia em todo o Estado. Com este sentido, sancionou a Lei 2.060, de 7 de dezembro de 1960, criando-se a Telefones do Piauí S/A - TELEPISA, juridicamente constituída em 22 de novembro de 1965, no governo de Petrônio Portella Nunes, quando houve a respectiva assembléia geral de constituição, aprovaram-se os estatutos e elegeu-se a primeira diretoria.

A. Tito Filho, 25/11/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

AINDA O COMÉRCIO

Em 1933, abril, o decreto nº 22, do prefeito Luís Pires Chaves, adotou o seguinte regime para o funcionamento das casas comerciais de Teresina: zona norte, das 8 às 12 e das 14 às 18; zona sul, das 7 às 11 e das 13 às 17.

Era 1932. Chegamos a Teresina em companhia do saudoso pai, que vinha assumir o juizado de direito. Moramos na rua Lisandro Nogueira (Glória antiga), bem perto do mercado central. Passamos, ainda nesse ano, a residir na rua São José (Félix Pacheco), próximo, muito próximo da praça Saraiva. Defronte, mantinha sortida mercearia o português José Gonçalves Gomes, cidadão conceituado e que muito honrou a atividade comercial. Dessa época distante ainda nos lembramos da Casa Carvalho. De Deoclécio Brito, o primeiro concessionário da Ford e das máquinas de escrever Remington; de Manoel Castelo Branco e Anfrísio Lobão, que se tornaram donos da Agência Ford; de Afrodísio Tomás de Oliveira (Dôta). De João de Castro Lima (Juca Feitosa), cuja loja vendia artigos diversos, inclusive livros de autores portugueses e brasileiros. De Lili Lopes, à frente da Botica do Povo; de Manuel Madeira, português, vendedor de bolos e pastéis (praça Rio Branco), talvez o pioneiro de lancheiras em Teresina - e de vários bares e botequins como o frequentadíssimo Bar Carvalho, de José Carvalho, o Zecão, homem de bem, de muitos amigos, que oferecia, no estabelecimento, bilhares, café, sorvete, chocolate e convidativo restaurante sob o comando do espanhol Gumercindo, introdutor de filé de grelha, feito na chapa do fogão, na culinária teresinense. Alcançamos o famoso Café Avenida, feito de madeira, na praça Rio Branco. Construiu-se outro, em 1937, de dois andares, amplo, ao lado do Hotel Piauí (Luxor), freqüentado de homens ilustres. Foi derribado. No local hoje se estacionam veículos.

Algumas entidades de classe surgiram no correr dos anos, como a Estímulo Caixeiral (empregados no comércio), iniciativa de Manuel Raimundo da Paz; a Associação dos Empregados no Comércio (1928), a Associação dos Empregados no Comércio (1928), a Associação dos Varejistas de Teresina, e a Federação do Comércio dos Varejistas do Piauí - as duas últimas parecem que sob a orientação de Miguel Sady.

Houve um grêmio de natureza social e cívica - a Sociedade Jovem Síria, criada em 1916, que muito animou a vida teresinense. Ainda em atividade se encontra o Clube das Classes Produtoras, idealizado por Valdemar Martins.

Moysés Castello Branco Filho realça a presença de sírios e libaneses em Teresina, no princípio do século XX, dedicados ao comércio de miudezas e de modas. Principalmente sírios. Sírios na quase totalidade. Vinham de longe, da Síria, onde é gritante o contraste entre a riqueza e a pobreza. O padre Luciano Duarte diz que lá a terra tem cor amarela, queimada de calor. "Não há vegetação. Apenas areia e pedra - mas de repente sem lógica, no meio do quadro - um oásis. O milagre da água correndo límpida e cantante, da fonte que Deus fez brotar, vestindo de verde a terra nua, estendendo a sombra das palmeiras para os homens cansados".

A Síria lembra Damasco, de ruas apertadas do comércio de miudezas - quiosques, ruelas escuras e sujas, em que o visitante sempre compra pela metade do preço. Paga e sai com ares de quem ganhou uma batalha. E o sírio lá ficou impassível, contente, pois o preço pago ao cabo de contas, ainda vale três ou quatro vezes a mercadoria.


A. Tito Filho, 21/11/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

OUTRA VEZ O COMÉRCIO

Os sírios e libaneses assimilaram nossos costumes, hábitos e vivências, e integraram-se na sociedade teresinense, casando-se, multiplicando-se, educando a prole, progredindo pelo trabalho e valorizando o chão que os abrigou fraternalmente.

Dos árabes em geral disse Gustave Le Bon: "Uma grande urbanidade e doçura, uma grande tolerância com os homens e as cousas, a calma e a dignidade em todas as situações e circunstâncias e uma notável moderação de necessidades, tais são os traços característicos de orientais. Sua conformação moral com a vida, tal como ela se apresenta, dotou-os de uma serenidade muito semelhante à ventura, ao passo que as nossas aspirações e necessidades fictícias nos têm levado a nós a um estado de inquietação permanente muito diferente do deles".

Na história do cinema em Teresina muitos nomes são dignos de notar, como Neuman Bluhm, R. Coelho, R. Fontenele, Pedro Silva, José Ommati (sírio) e de Farid Adad, também sírio, que fixou residência em Parnaíba (1919) e ali, com o irmão Miguel, fundou o cinema Éden. Em 1930 esta casa exibidora iniciava a era do filme falado no Piauí. No Teatro 4 de Setembro, Farid estabeleceu o primeiro cinema falado da capital piauiense, inaugurando-o em 23.12.1933. A 25.11.19173, encerraram-se as atividades cinematográficas na velha casa de espetáculos da praça Pedro II. Farid havia falecido no ano anterior. A cidade o conhecia pelo nome de Alfredo Ferreira, casado em primeiras núpcias com Farisa Salim Issa, sua patrícia, de excepcionais virtudes espirituais, falecida em 1938. O casal deixou vários filhos.

Depois de Alfredo Ferreira, outros empresários prosseguiram no trabalho de dotar Teresina de confortáveis cinemas.

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, no Novo Dicionário da Língua Portuguesa, inclui carcamano como brasileirismo. E define a palavra: "Alcunha jocosa que se dá aos italianos em vários Estados; latacho, macarrone". Escreve mais, que no Maranhão vale “a alcunha que se dá aos árabes em geral”. No Ceará, “vendedor ambulante de fazendas e objetos de armarinho”. Antônio Joaquim de Macêdo Soares acentua que carcamano é o "italiano de baixa classe". Nascentes diz apenas que o carcamano corresponde a italiano, mas explica: "Uma etimologia popular diz que o vocábulo vem do conselho de um italiano a um filho que o ajudava na casa de negócios. O filho fazia honestamente a  pesada. O pai, então, quando o equilibrio estava prestes a estabelecer-se, aconselhava: carca la mano (calca a mão). Se non e vero...". F. A.

Pereira da Costa cita o vocábulo na qualidade de italiano, assim chamado. E anota dito do povo de Pernambuco: "Mama em grosso o carcamano, e abusa da bonhomia do povo pernambucano". O saudoso R. Magalhães Júnior explicou: "Denominação pejorativa dada aos imigrantes italianos, em razão das fraudes atribuídas a estes, em suas quitandas e açougues, ao pesarem os alimentos, vendidos a quilo, ajudando a concha da balança a descer com o impulso da mão. De calcar a mão teria surgido a forma italianizada de carcamano, corrente não só no Brasil como na Argentina, onde Juan Ezuista Alberdi a usou, num dos seus livros, que dizia serem reverenciados, nos altares argentinos, alguns santos carcamanos, já ricos e portanto poderosos".

Em Teresina, carcamano sempre designou de modo pejorativo, os árabes. Veja-se o depoimento de Salomão Cahib, médico de nomeada, em discurso de posse na Academia Piauiense de Letras: "Meu pai aqui chegou vindo de uma civilização milenar, duma terra sem horizontes. Ansiava por liberdade. Seu povo estava escravizado e colonizado impiedosamente, levado a servir, sob bandeira de nação odiada, à luta pela grandeza e progresso de seu próprio algoz. Jurou ele que seus filhos não nasceriam colonos, nasceriam livres, numa coletividade generosa e bela, que lhes desse paz e trabalho. Foi assim que veio moço para o Brasil. E para o Piauí, que ajudou e honrou, trabalhando de sol a sol, viajando a pé pelos sertões agrestes, vendendo, aprendendo a língua, fazendo amigos e amando a nova pátria. Aqui se casou.

Naturalizou-se brasileiro. Constituiu família. Nasceram-lhe os filhos. A pátria de seus filhos era a sua pátria".

E logo a seguir: "Guardo da infância despreocupada dos primeiros instantes do convívio com outras crianças do grupo escolar, a observação de uma delas: CARCAMNO NÃO TEM BANDEIRA".

E prosseguiu: "Em casa dei a notícia do acontecimento a meu pai. E ele, com profunda tristeza, explicou-me: A SÍRIA TEM BANDEIRA, MAS ESTÁ OCUPADA POR PAÍSES ESTRANGEIROS".


A. Tito Filho, 22/11/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

FAVELIZAÇÃO

Dezenas de cidades brasileiras do interior serão fantasmas dentro em alguns anos, pois as respectivas populações diminuem, cada dia. Famílias inteiras buscam grandes centros de agitada vida social, surgindo as megalópoles, sempre despreparadas quanto a planejamento para que possam abrigar, em pouco tempo, milhares de novos habitantes. Típico o exemplo de Brasília. Nacional o problema de inchação demográfica, sobretudo nas capitais, em que o espaço urbano se torna angustiado para veículos fumacentos e pessoas perambulantes e ociosas, que, ao deus-dará, secam mais ainda cambitos, fisionomias cansadas, em busca do nada. Nos grandes centros populacionais brasileiros prevalecem os espigões ou arranha-céus sem conforto e sem segurança para os afortunados. Nos bairros residenciais há o exibicionismo das mansões de muitos quartos, terraços e banheiros.

Trata-se do luxo ostentatório, ao lado de casebres de taipa, de palha, com privadas de buraco. São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza, Teresina e outras, tornaram-se, em três ou quatro décadas, inabitáveis, por efeito de criminosa especulação imobiliária e da fuga de milhares das cidadezinhas e povoados interioranos a procura de emprego - todos fugindo da fome e da exploração a que se submetem, sem terra, sem alimento e já agora sem os coronéis, substituídos pelos doutores do society da cidade grande, que se elegem com o dinheiro dos pais milionários ou da herança, e assumem compromissos apenas com a clientela familiar ou com os amigos do peito. Os eleitores de cabestro conseguem, quando muito, a bóia e o transporte no dia da eleição. As megalópoles crescem do nascer do sol até de madrugada, rodoviárias a despejar pais e filhos chegados das quase cidades do interior. A vida de fazenda e dessas comunidadezinhas só existe por causa da televisão convocadora para o sexo fácil e o luxo fantasioso das superpovoadas coletividades nacionais. O dono dos bois aufere os lucros esparramado no macio conforto duma sala de estar, com serviço de bebidas alcoólicas ao lado. Aos contingentes de párias - apetite embotado por descostume de comer, meninos de pança inchada, olhos remelentos, mulheres de 20 anos semelhando 40, pai escaveirado, mãe desdentada e de ossos chupados por força de tanto parir - se reservam as favelinhas que eles improvisam em terrenos alheios, as áreas debaixo das pontes sobre rios, ou as afrontosas casas vendidas pelo Banco Nacional de Habitação, verdadeiro sorvedouro dos ínfimos ganhos desses pobres diabos, que o capitalismo apelida de filhos de Deus. Surgem, assim, os conjuntos habitacionais - milhares de casinholas, todas do mesmo jeito, em que se alojam famílias de cinco ou mais pessoas, e dentro nelas se fabrica mais gente. Com o tempo, esses pombais se vão enriquecendo de biroscas, prostíbulos, de venda de tóxicos, de freges. Meninas de 10, 12 anos são exploradas e iniciam a vida sexual antes que possam conceber no ventre um filho de pai desconhecido. Nas residências, a  promiscuidade - casais em cenas de relações íntimas na presença da filharada boquiaberta com o espetáculo. Teresina não foge a regra. Os conjuntos habitacionais espalhados pelos subúrbios, feiosos, emprestam à cidade panorama urbanístico condenável e alguns felizardos enriqueceram da noite para o dia, como um passe de mágica, com a venda de terrenos para a construção desses ajuntamentos, em cujas casinholas não se distinguem cozinha, dormitórios e sanitários. São milhares de pombais, por toda parte. Sejam cinco pessoas em cada qual, com a estimativa de duzentos mil moradores, quase a metade da população da capital do Piauí. Raros os empregos na área de moradia. O raquítico salário mínimo do trabalhador, quando arranja emprego, mal dá o transporte. Até quando, no Brasil, o homem sofre tanto? As sociedades doentes assim se apresentam: filhos de Deus, milhões de enteados dele, filhos da injustiça social.


A. Tito Filho, 08/08/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

POLUIÇÃO VISUAL

Faz alguns anos fiz apelo ao prefeito de Teresina, não me recordo quem na época desempenhava o cargo, no sentido de que não fosse permitida a colocação de faixas de anúncios indicativos de casas comerciais ou escritórios, de tabuletas de propaganda e de outros tipos de aviso, sem que antes houvesse a aprovação da autoridade para tal fim designada. E transcrevi expressões copiadas de anúncios e cartazes com evidentes desobediências a princípios ortográficos e até solecismos condenáveis e erros crassos que tanto depunham contra a educação cultural do teresinense. Indiquei algumas dessas estapafúrdias escrituras: BORRAXEIRO, RESTAURANTE FÁLASE OTEL e tantos mais. Não obtive providência alguma e a cousa ficou pior.

Agora, o Dr. Moacir Fernandes de Godoy, cardiologista de ciência e de ilustração, me propicia a satisfação de censurar vergonhosa construção de nossa língua, no centro da cidade, tornando mais pobre a inteligência de um povo digno de melhor sorte.

EDUCAR É PRECISO - eis o trabalho cívico desse médico preocupado com a triste ignorância que avilta a língua pátria, a seguir transcrito.

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O Professor William J. Bennet, doutor em Filosofia pela Universidade do Texas, questionado sobre a finalidade da educação, afirmou que ela é a maneira pela qual a civilização se sustenta”. E complementou: “Não nascemos com instintos para a civilização. Não entramos no mundo dos alfabetizados ou conhecedores da diferença entre o certo e o errado. A educação, ou seja, a tarefa educativa de pais, professores e da sociedade como um todo, é o modo pelo qual cada nova geração se transforma em uma geração adulta de homens e mulheres”.

Fica claro, do acima exposto, o importante papel a ser desempenhado não só pelos professores ou pelos pais, como também a obrigação que a sociedade tem como um todo de contribuir para formação educacional dos indivíduos. Esse esforço conjunto recebe um destaque ainda maior quando, compulsadas as estatísticas, verificamos que o Brasil situa-se em uma incômoda posição em termos de analfabetismo. Assim é que os dados demográficos de 1980 indicavam a existência de 51% de analfabetos no País. Por aquela época ocupávamos um sofrível septuagésimo sétimo lugar em nível educacional de acordo com dados da UNESCO. Em termos regionais e mais recentes, sabe-se que o Piauí detém o índice recorde de analfabetismo no Brasil, com a alarmante taxa de 55%. O próximo censo, infelizmente, não deverá mostrar modificações para melhor.

Nós os privilegiados, que conseguimos escapar deste estigma cruel, não podemos nos enclausurar voltando as costas aos desfavorecidos. Ao contrário, devemos aproveitar todas as oportunidades para tentar diminuir as diferenças atuando como educadores mesmo onde não pareça haver espaço para tanto.

Refiro-me agora ao assunto propriamente dito, motivos destes breves comentários. Tenho observado com freqüência (e fotografado), nas faixas penduradas pela cidade, erros gramaticais grosseiros, que depõem contra os que as produziram ou solicitaram, mas, acima de tudo, causam um extremo desserviço, já que sendo públicas podem induzir aos menos preparados considerá-las como corretas. Uma dessas faixas, porém, causou-me especial mal-estar por ser alusiva a um evento médico e em sendo médico senti-me responsável também pelo grave equívoco ali perpretado.

Lá esta ela, em local estratégico, na Avenida Miguel Rosa, quase em frente ao Corpo de Bombeiros e bem próxima a duas escolas de primeiro grau, informando em letras garrafais que os Congressistas eram "BEM VINDO" ao I Simpósio de "SIRURGIA"... e outros dizeres que não vêm ao caso no momento.

A falha na flexão numeral e a falta do hífen são erros menores, perdoáveis até, embora não justificados uma vez que a responsabilidade pela faixa é, no caso, de indivíduos com grau universitário e, pelo que se supõe do assunto, com nível de especialização. Já a palavra cirurgia com "S" fere pelo grotesco e não pode passar nem como lapso de quem a produziu.

Entende-se que obviamente não foram os médicos os que diretamente erraram mas era imperativo a existência de um responsável pela revisão a fim de que o nome da Instituição não ficasse exposto ao ridículo. Aliás, minha sugestão é a de que a Prefeitura de Teresina, através de sua Secretaria de Educação, mantenha uma comissão encarregada de analisar as faixas que são espalhadas pela cidade a fim de que erros de tal natureza não tornem a acontecer.


A. Tito Filho, 04/09/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

TERESINA

Vejo-a sem a minha infância, sem os dias queridos que não voltam mais, as saudades provocando nó na garganta, um choro que não consola. Sem o CaiNágua, o cabaré das garotas de segunda classe, perto do Parnaíba, que os meus olhos de adolescente desejavam, mas os cânones da época proibiam. Sem os circos, na praça Deodoro, grandões, palhaços engraçados, ameaçando as velhotas atiradas com o troncudo pedaço de macaxeira. Na frente do imenso toldo, dezenas de bancas, na venda de frutas descascadas, refresco, sorvete de gelo rapado e mel de fruta, gostoso como o diabo, frito de carne de porco, beiju salpicado de farelo de coco. No calor das tardes, máquinas equilibradas na rodilha da cabeça, com a manivela de rodar e fabricar o melhor sorvete do mundo, o caboclo, alpargata chiadeira, passeava as ruas, a vender a guloseima.

Vejo-a sem o pega-pinto gelado, que a gente ia comprar, oito da noite, na jarra, uns oito copos, para a família à espera na roda da calçada. Sem o Doutor, dono de frege, estabelecimento modesto, mesinhas sem toalhas, pimenta malagueta danada, cachorros gafentos e famintos à espera do osso que o freguês alisara, depois de engolir tripa e bucho - a panelada da cidade, a cinqüenta metros da praça Rio Branco. Sem o Bar Carvalho, de elite, vendia cafezinho, chocolate com ovo e sem ele, sobretudo o filé de grelha, enfeitado de ervilha, azeitona, alface e farofa. Manjar dos deuses, do cozinheiro espanhol Gumercindo, um mágico em comedorias.

Vejo-a sem o alarido das pipiras tentadoras - as mocinhas pobres empregadas da Companhia de Fiação e Tecidos Piauiense, ruído de máquinas o dia todo. As garotas, vestidinhas de chita, merendavam banana, daí o apelido que a crônica registra.

Vejo-a sem a presença de Celso Pinheiro, poeta e tuberculoso, fatiota branca engomada e reluzente, chapéu de palhinha, gravata borboleta... irreverente...; sem Higino Cunha, mestre verdadeiro, a caminhar pelas vias públicas, aqui e ali o trago de bebida destilada...; sem Pedro Brito, calças velhas de mescla, cornimboque de rapé nos bolsos largos, suado, a ironizar homens importantes...

Vejo-a sem as funcionárias domésticas, mocinhas morenas, que o povo denominava curicas, porque recebiam o prato de comida no peitoril da residência... Caboclinhas de pé de esquina, na cidade pouco iluminada... Sempre perdiam o cabaço para o filho-família, o moço dengado.

Vejo-a sem o cabaré da Raimundinha, alegre, as meninas de vestido abaixo do joelho, cada qual com a sua alcova de deitar com quantos machos obtivessem na noite comprida... Tiravam a roupa de luz apagada... Que Tempo!

Vejo-a sem as pracinhas de donzelas faceiras, que rodavam num sentido, os gajos em sentido contrário no fascinante namoro de olhos... No cinema, o casal se dava o gosto da bolinação... Namoro de mão nos peitinhos arrebitados...

Vejo-a sem o símbolo que foi a Maria Préa, mulata boa de cama, com estudante de bolso vazio ou desembargador de prestígio firmado.

Hoje, vejo-a urbanizada de pombais, ou casinholas habitadas do êxodo interiorano; povoada de veados de luxo ou simples viciados na inversão dos locais de prazer; vejo-a na falsa convivência dos coquetéis, das uiscadas e das festas de caridade; vejo-a no comércio com o nascimento de Jesus e com as mães, merecedoras pelo menos de um pouco de respeito; vejo-a despudorada, meninas ricas sem roupa, por deboche, meninas pobres do mesmo jeito por miséria. Vejo-a uma imensa putaria de homens e mulheres, com as devidas exceções; Vejo-a violenta, estúpida, deseducada - tipos debaixo-da-ponte, alguns felizardos da vida ociosa à custa de golpes e falcatruas e outros tantos no repasto oficial da República sem freios.

Vejo-a sem futuro, sem esperança, mas ainda creio no resto do otimismo que me sustenta os olhos sofridos da saudade dos tempos que não voltam mais...


A. Tito Filho, 19/08/1990, Jornal O Dia

sábado, 17 de dezembro de 2011

TERESINA - LOUVAÇÃO

A cidade alcançou progresso em todos os setores. Antes de tudo tranqüila e afetiva. Vale um beijo quente de fraternidade. Manhãs e tardes coloridas. Corações alegres. Gente que gosta da humanidade, recitando o poema da convivência irmã. As suas noites são de amor. Nos bancos das pracinhas de encanto, pares agarradinhos, arrulhando afeto, cheirando-se, mordendo, polícia distante, gente que passa fazendo que não vê. Juca Chaves disse no Rio de Janeiro: "Se peito fosse buzina, ninguém dormia em Teresina".

As mulheres teresinenses são as mais carinhosas destes brasis. E criaram a linguagem dos olhos para a revelação do sublime sentimento do amor. Elas têm olhos de querer e de não-querer.

Vem brasileiro, irmão de outras paisagens, TERESINAR, um verbo doce, expressivo, que se reza com carinho. O centro é uma festa permanente. Da praça Rio Branco, coração comercial da cidade, parte-se para o Parque da Bandeira, bem cuidado, convite ao descanso. além o rio Parnaíba, o velho monge de barbas brancas alongando... Junto às margens, lavadeiras batendo roupa, alguma de seios à mostra. Num dos lados do Parque, o antigo Palácio da Justiça. Antes, sede do Poder Executivo e residência dos presidentes da província e governadores até que foi adquirido o Palácio de Karnak.

Partinho do Parnaíba, o Mercado Velho ou Central, construído há mais de cem anos. Aí de tudo se vende: carnes, peixes, verduras, frutas, sandálias, calças, lamparinas, panelas, louça, mezinhas, beberagens eróticas como a famosa catuaba, pós mágicos. Camelôs propagam cura-tudo, literatura de cordel, alguns cegos recitam lamurientos versos de arrecadar esmolas. E dezenas de restaurantes ao ar livre, com comida feita sob as vistas do freguês, servem os mais variados pratos, sempre apimentados: fritos, sarapatel, buchada, panelada, mão-de-vaca, vísceras. Um arremedo dos mercadões de Fortaleza e Salvador. Um colorido especial à vida da cidade. No mercadão a gente encontra o sujeito que vende maconha, o bicheiro anunciando o milhar do jacaré e as mulatas mais desconfiadas do mundo, cheirando a brilhantina flor do amor. E muito chá-de-burro, o talentoso mucunzá.

A Casa Anísio Brito merece visitação. Museu e Arquivo do estado, guarda muita preciosidade que precisa de ser vista e consultada.


A. Tito Filho, 29/01/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

JARRINHA

Chamava-se João Miguel Jarrinha, o jarrinha, como era conhecido de todos. Baiano de nascimento. Idoso. Popularíssimo. Viúvo. Pobre. Antigo professor público jubilado. residia sozinho em Teresina, mais de noventa anos passados.

Um feio dia encontraram-no morto, na rede da dormida, assassinado, o frontal despedaçado por forte bordoada de pulso rijo.

O crime abalou a cidade tranqüila. Levantaram-se conjecturas. O morto não tinha inimigos. Freqüentava as melhores rodas da cidade. Votava grande culto à formosura das mulheres. Amor platônico. Publicava o jornal de sua propriedade, intitulado "O Lacrau".

Na noite do crime, conforme se supunha, recolheu-se cedo à residência, pois dele se notou ausência em certos pontos em que habitualmente comparecia.

A polícia voltou atenções para Raimundo, de menor idade, que morou com Jarrinha algum tempo e a quem a vítima dedicou grande afeição. O outro suspeito para os policiais foi Higino Pereira de Araújo, músico e sapateiro, com quem Jarrinha tivera discussão por causa de um par de botinas, que não saíra nos conformes do contrato.

Raimundo contou que estivera com Jarrinha na véspera do acontecido em companhia de um colega e o vira adormecido numa rede, na sala de jantar. Acordou-o e com ele manteve rápida conversação, retirando-se com o amigo, que tudo confirmara.

Higino encontrava-se em Campo maior. De viagem para a cidade pernoitou com os companheiros em caminho, o que foi provado.

Higino Cunha, mestre ilustre e jornalista famoso, narrou que a polícia prendeu Raimundo, submetendo-o a suplícios. Extorquiu-lhe a confissão do crime. Embora menor, não teve curador idôneo. O júri condenou-o a dezesseis anos de prisão. Não houve apelação da sentença. A pena foi cumprida integralmente na velha penitenciária de Teresina.

O povo, porém, julgava que Raimundo fora vítima de clamoroso erro judiciário e sempre desconfiou de Higino, que anos depois de cumprida a sentença, adoeceu, febre e calafrios, segundo João Pinheiro, atendeu a pedidos e submeteu-se a confissão religiosa: "Mas ao terminar a confissão lhe declara peremptoriamente o sacerdote que não o absolveria, sem que ele, em presença de testemunhas, revelasse o que lhe referia, uma vez que disso dependeria a reabilitação de um inocente".

Levado maneirosamente pelos bondosos conselhos do confessor - narra João Pinheiro - com surpresa de quantos o ouviam, numa voz estertorante e panosíssima, revelando o mais profundo arrependimento, confessou que, por causa de pequena desavença que tivera com Jarrinha, resolvera assassiná-lo, o que, realmente, num momento de irreflexão, levara a efeito sem comprometer-se, aliás, porque, partindo, em certa ocasião em companhia de diversas pessoas, para Campo maior, à noite, enquanto aquelas dormiam, distante algumas léguas, regressara a Teresina, onde efetuaria o crime sem nenhuma dificuldade, porque, encontrando aberta a porta da rua e Jarrinha adormecido, descarregara-lhe, sobre o crânio, forte bordoada com uma acha de lenha que apanhara na cozinha e voltara a agasalhar-se entre companheiros que jamais suspeitaram da terrível verdade.  

Depois - termina João Pinheiro - como se nada mais devesse acrescentar, cerrou os olhos e faleceu imediatamente.

José Maria da Silva, em 1929, escreveu no jornal "Estado do Piauí" que Higino jamais fez a confissão que lhe atribuíram. Morrera inconscientemente de insulto cerebral, sem fala. O próprio padre Fernando, só depois de muita relutância, consentiu em acompanhar-lhe o enterro, porque Higino morrera sem confissão.

Com quem a verdade? Quem matou Jarrinha?


A. Tito Filho, 18/04/1990, Jornal O Dia

PERVERSIDADE

Faz uns vinte anos, mais ou menos, que proclamo a podridão das elites brasileiras, de quase todas, pois existem algumas exceções nas camadas da alta burguesia ainda conscientes de suas responsabilidades. As elites são perversas. Quando Teresina ainda não possuía sistema de televisão, as emissoras e os jornais publicavam o apelo de senhoras ricas da capital piauiense: elas queriam que cada endinheirado oferecesse um sapato velho para o Natal dos pobres. Corri à Rádio Clube, na época dirigida por Walter Alencar, e protestei contra tamanha humilhação. As ricaças da estroinice pretendiam fazer CARIDADE CRISTÃ à custa da miséria alheia, e cada miserável teria uma festa natalina de benemerência com o presente de um par de sapato usado, de intenso perfume de chulé.

O presidente eleito da República, Fernando Afonso Collor de Melo, retornou de viagem ao exterior. E no avião, na viagem de regresso, perguntou-lhe o repórter sobre os ombros que de quem caíam as responsabilidades por esse vergonhoso processo inflacionário que atormenta e sacrifica os brasileiros. Não titubeou o futuro mandatário em indicar as elites como responsáveis pela espoliação vigente no Brasil. Basta que se leiam os colunistas sociais, o noticiário do soçaite, e logo o quadro nu e cru aparece em toda a sua rudeza: só roubando se desperdiçar dinheiro a rodo nas festanças de bodas de prata e ouro, nos casamentos das filhas, nas debutações, nas festocas e nos embalos de aniversários natalícios. Correm soltos champagne, uísque, deglute-se sem parar salgadinhos e outros empanturramentos barrigais.

Para cobrir as despesas das festanças, as elites trabalham? Nunca. De onde suprimem tanto dinheiro? Do processo cartorial. As elites vivem nos peitos cheios do tesouro, roubando dos brasileiros, mamando nos cofres públicos, desavergonhadamente. Do Acre ao Rio Grande do Sul. As elites estão liquidando os restos de civismo brasileiro, e provocam as violências e os assaltos, porque a ninguém é dado viver com salários de fome.

Collor assegura que liquidará a perversidade criminosa das elites nacionais, das que, como diz o futuro presidente, não enxergam além do próprio umbigo.


A. Tito Filho, 16/02/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O MITO DO CLIMA

Leio os jornais de Teresina deste começo de semana. Uns dois deles publicam notícias espantosas sobre o clima reinante na cidade. Gente debaixo de muito sofrimento. Água em quantidade para que se evitem desidratações nas crianças e nos idosos. Calor infernal. Os capetas felizes, alegres e recompensados. Outro matutino estampa a notícia de que um avião deixou de levantar vôo por causa da quentura danada, fato que se verificaria em qualquer lugar cuja temperatura tivesse condições idênticas.

Veja-se Pereira da Costa, na Cronologia Histórica do Estado do Piauí.

Conta ele em 1822 se fizeram no Piauí as primeiras observações meteorológicas, dirigidas pelo engenheiro Benjamim Franklin de Albuquerque Lima, chefe da comissão de melhoramento do rio Parnaíba. Houve mais de mil observações, das quais H. Morize, em Esboço de uma Climatologia do Brasil, escreveu conclusões a respeito da capital do Piauí pela seguinte forma: "A temperatura média anual tomada às 9 horas da manhã é de 26º. Os meses mais quentes são os fins de estação quente, isto é, de setembro a dezembro, cuja temperatura é em média 28,5º; o mais fresco, que é o de maio com 26,1º, é o último da estação chuvosa".

Clodoaldo Freitas, doutor em assuntos dos primeiros tempos de Teresina, escrevia em 1923: "O clima de Teresina acompanha as estações. No inverno é úmido e frio; nos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro o clima é quente e o calor abafado. Nos meses de junho, julho e agosto o clima é seco e ameno e as noites frias. Nestes três meses, na mata que acompanha o rio Poti, o frio das noites é intensíssimo".

Bem verdade que essas circunstâncias padeceram modificações. Para alimentar a velha usina elétrica, árvores e mais árvores foram derribadas. Chegou o asfalto. O número de veículos hoje derrama abundante e nociva fumaça pelos canos de descarga.

No meu livrinho Teresina Meu Amor escrevi:

No mês de janeiro, o avião parte para o Rio de Janeiro. Quando se fazem os preparativos da aterrissagem, o microfone de bordo avisa:

- Daqui a dez minutos estaremos descendo no aeroporto do Galeão. A temperatura local é de 40 graus.

Os passageiros do jato permanecem mudos. Ninguém ri.

Quando o jato, de setembro a novembro, se aproxima de Teresina, o microfone de bordo informa:

- A temperatura é de 30 graus.

Todos riem”.

Criou-se a imagem de que Teresina vale um inferno de calor, uma caldeira infernal. Os próprios piauienses se encarregam dessa publicidade infiel. Mas os nossos meses mais quentes são os de setembro a novembro, com uma média de 30 graus centígrados de temperatura.

No verão do Rio de Janeiro, o carioca, caso queira, pode estrelar ovos no asfalto da cidade.

Observem o depoimento do grande médico Silva Melo, em Panoramas Norte-Americanos, sobre o calor de Nova Iorque, nos Estados Unidos: "A minha permanência em Nova Iorque foi durante os meses de junho, julho e agosto, os meses mais quentes do ano, de pleno verão...

As noites eram sufocantes e os dias tremendamente quentes...

Em Nova Iorque houve naquele dia 9 mortos por insolação e o termômetro no Central Park marcou ao sol 142 graus, mais de 60 centígrados. Os jornais descreviam nova Iorque como um imenso forno de cimento e asfalto, cujo calor justificava realmente tal comparação...

O calor era tão intenso que se me tornava necessário mudar de roupa mais de uma vez durante a noite, molhando o travesseiro e o colchão".


A. Tito Filho, 19/03/1970, Jornal O Dia

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

MEU BOM AMIGO

Quem assina este artigozinho não era nem nascido quando se instalou em Teresina a primeira instituição de crédito, justamente o famoso Banco do Brasil, de empréstimos só para ricos e bem providos de avalistas seguros.

Na década de 1950, ingressei no magistério. Aulas no Colégio Estadual do Piauí, na Escola Normal, no Colégio São Francisco Sales e noutros educandários. Iniciava o trabalho às 7 da manhã, às 13 da tarde e às 18:30, boca da noite. Não me passava pela cabeça possuir automóvel. Ministrava quinze aulas por dia, correndo de um colégio para outro. Os professores ganhavam vencimentos de miséria, nos estabelecimentos oficiais como nos particulares. Por cima de tudo, os proprietários de casa de ensino e o governo efetuavam a paga do labor mensal sempre com atraso. Nem equilibrista de circo conseguia sustentar família por processos tão angustiosos. Os mestres recorriam a agiotas a fim de que vencessem dificuldades e aperturas. Os usuários concediam empréstimos na base de 10, 15 e 20 por cento, exploradores gananciosos, que enricavam depressa na exploração da miséria alheia. Dia de vencimento do vale, chamado de papagaio, o perverso judeu aparecia em busca dos juros para a concessão da nova esfola. Como outros colegas, cheguei a dever a três ou quatro desses sugadores da economia popular ao mesmo tempo. Busquei soluções e me informaram que o Banco Comercial e Agrícola do Piauí poderia salvar-me as finanças. Procurei o estabelecimento, num prédio modesto da rua Barroso, mais ou menos no meio do quarteirão iniciado hoje pela Câmara Municipal. Encontrei facilidade para conseguir cinco mil cruzeiros, desde que meu pai avalizasse o negócio. E assim se fez. Juros baixíssimos. Na época do pagamento, a bondade paterna fez a liquidação da dívida, sem contribuição minha de qualquer natureza.

Melhorei de vida com o correr dos anos. Surgiram oportunidades de outros empregos. Consegui consultoria jurídica na antiga Comissão de Abastecimento e Preços do Piauí. Quando necessitei outra vez do banco, já se havia transformado o conhecido Banco do Estado do Piauí, o BEP, em cujas salas ganhei alegrias e dissabores. Às vezes os empréstimos me eram creditados com rapidez, outras vezes a cousa enganchava. A vitória me sorria ao cabo das contas, pois uns oitenta por cento dos servidores do estabelecimento haviam sido meus alunos diletos e queridos. Alguns funcionários de mando e poder não gostavam de mim. Jornalista quase sempre de oposição a governos piauiense, natural que contra mim se manifestassem antipatias e perseguições. Cousas da vida. A política sempre se mostrou injusta e de má índole, sobremodo quando ela passa aos métodos enodoantes de politicalha. Não me abatiam as recusas. Minha persistência acabava por obter os pequenininhos empréstimos que minhas parcas rendas permitiam. No BEP, porém, estava a minha salvação. Às vezes, fui levado a declarar desaforos aos encarregados das carteiras de empréstimos e os ouvia também, com humildade. Voltava ao equilíbrio emocional e partia para novas rogativas e, ânimos serenados, os dinheirinhos ingressavam nos meus pobres bolsos.

Eu e o BEP somos um romance. Um romance de caracteres que se compreendiam, eu e o banco querido dos piauienses, uma instituição do povo, que salvava a verdureira, o professor quebrado e desenvolvia o trabalho de produção do homem.

Meu bom amigo, o BEP. Sempre meu amigo nas mais ingratas situações de quebradeira. Sem média de depósitos, sem imóveis, sem nada, quantas vezes o BEP me livrou do infortúnio do desconforto de minha família. E não acredito que o Piauí seja ingrato com uma casa miga, onde a bondade dos servidores, os grandes e os pequenos, sempre foram o recurso maior dos necessitados.

Um crime contra o povo o desaparecimento de meu bom amigo. De mim, estou de coração choroso, apertado de amargura. Que os homens tenham dignidade e restituam a vida de meu velho BEP.


A. Tito Filho, 30/07/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DENOMINAÇÕES

Contei a história do prefeito de município maranhense, certa feita, doente de puxa-saquismo. Quando Jânio Quadros subiu ao poder, o sujeito deu praça inaugurada o nome do presidente, que, com poucos meses, deixou os palácios de Brasília. Pouco tempo depois, Goulart o substituía e logo o prefeito mudou o nome do logradouro: agora passava a praça presidente Goulart, derribado em 1964. O prefeito achou melhor, diante da instabilidade política, batizar a praça de PRESIDENTE ATUAL.

Teresina foi também rica de chaleirismo ou bajulação. As nossas ruas tinham denominações imperiais. Sucedeu a queda do imperador, em 1889, e o puxa-sacos do Conselho Municipal depressa fizeram as substituições: a rua da Imperatriz passou a Quintino Bocaiúva. Chamou-se Cesário Alvim a rua do Imperador. A praça Campo de Marte tomou nova denominação: praça Floriano Peixoto. Líderes republicanos ganharam homenagens: Benjamin Constant, Campos Sales, Rui Barbosa. A praça Conde D'Eu, genro do imperador, seria Quinze de Novembro. A ânsia de atitudes bajulatórias fez que os legisladores substituíssem batismos tradicionais e populares como rua da Estrela, rua da Glória, rua Grande, rua Bela, rua do Amparo, rua Augusta, rua das Flores, rua dos Negros, rua da Campina, rua do Pequizeiro.

X   X   X

Às vezes a substituição provém da sensibilidade do momento.

Em 1930 dois candidatos queriam a presidência da República: Getúlio Vargas, apoiado por Minas, Rio Grande do Sul e Paraíba, que indicou o vice, João Pessoa, que governava os paraibanos na época. O outro era Júlio Prestes, sustentado por são Paulo e pelo resto dos Estados. A campanha desenvolvia-se sob paixões e emoções. A 26 de julho de 1930 João Pessoa viajou ao Recife, para visita a amigo enfermo. De tarde, sentado a uma mesa da Confeitaria Glória com um grupo de amigos, dele se aproximou o advogado João Dantas, seu inimigo pessoal e político. Sacou de um revólver e disparou três tiros, matando o candidato na chapa de Getúlio.

Manifestações de protesto no país. Luto por toda parte. Apressou-se o movimento quartelesco de 1930, contra o qual já se tinha manifestado o próprio João Pessoa. Com a morte do líder, os rebeldes derribaram o governo de Washington Luís.

Em Teresina, o bonito nome de Aquibadã, assim batizada a praça do Theatro 4 de Setembro, passou a João Pessoa, até que outra lhe dessem, a de Pedro II.


A. Tito Filho, 26/07/1990, Jornal O Dia

sábado, 8 de outubro de 2011

ASSUNTINHOS

Anfrísio Lobão Veras Filho exerceu com proficiência e coração a medicina em Teresina. Nas eleições municipais de 1924, para o quadriênio 1925-1929, fez parte da chapa de candidato a intendente, João Luís Ferreira. Foi o vice de João Luís. Ambos se elegeram. Aconteceu que o intendente também se elegeu deputado federal e optou por este último mandato. Assim, Anfrísio tornou-se intendente de 2-1-1925 a 2-1-1929. O chefe do Executivo de Teresina tinha sido um dos fundadores do Banco Agrícola, que se transformaria em Banco do Estado do Piauí. Depois, triunfaria como candidato a deputado estadual e por consenso dos seus pares presidiu a Assembléia Legislativa. Governador interino do Piauí. Membro do Tribunal de Contas. Nascido na terra piauiense de União, faleceu em Teresina, 1954. No momento em que o governador Alberto Silva, neste ano da graça de 1990, inaugura o seu propangadeado PRÉ-METRÔ, num dito primeiro trecho, em me lembrei de Anfrísio que, em 1927, adquiriu um bonde motorizado em São Paulo e inaugurou a linha de transporte popular da estação da estrada de ferro ao rio Parnaíba. Pioneirismo. Audácia. Certamente o bonde desapareceu por falta de freguesia. Ninguém se lembrou, na discurseira, do pioneiro Anfrísio.

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No Rio, as dondocas e as balzaquianas andam de dentuças à mostra, passeando com os seus bonitos cães domesticados? Razão? O empresariado carioca está ganhando os tubos com a novidade maravilhosa: os postes especiais para o xixi da cachorrada. Custam uma nota, mas são elegantes, de fino acabamento e têm farolitos de pilha para uso noturno. Denominação dos interessantes objetos, que são conduzidos pelos rabos-de-saia ao lado dos respectivos cachorros: PIPI-DOG. Os empresários de Teresina muito lucrarão importando o PIPI-GAY para instalação na praça de Dom Pedro II.

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Estive pensando muito. Embora entenda patavina de economia e seus mistérios encontrei remédio infalível para liquidar a inflação nacional, doidamente disparada contra a bolsa dos bestas do pauperismo. Pois bem. Basta que as autoridades nacionais, estaduais, municipais, estatais, paraestatais, autárquicas e seus respectivos auxiliares, familiares e cupinchas deixem de roubar pelo menos quinze dias no mês. Dia sim, outro não. Dia sim, outro também, não há bumbum de peruano que agüente.


A. Tito Filho, 06/02/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

TERESINA - VISITAÇÃO

De praça rio Branco - rumorejo matutino e vespertino de morenões, louras, casadas, solteiras, intituladas, brotos, coroas e matronas circunspectas, senhores sisudos, estudantes, tipos de variegado naipe, muitos machos no exercício da paqueração - daí o sujeito pode indagar e orientar-se no rumo de outro ponto de muita fofoca e aprazimento: a praça Pedro II, antiga Aquibadã, bonita como quê.

Ergue-se nesse recanto de recreio o Teatro 4 de Setembro, inaugurado quase no fim do século passado. Em 1975, ganhou fatiota nova, uma beleza de teatro, com galerias, salas de exposições - só vendo o chiquismo da mui leal casa de espetáculos, coisa que não se vê em muito derredor do Brasil. Nele Coelho Neto dançou, em 1899, e discursou para apelidar Teresina de cidade-verde.

Mais umas passadas e eis Carnaque, também Karnak, nome egípcio, antiga residência de barão e baronesa. Branquinho, harmonioso, cheio de fontes d'água, luzes, salas caprichadas, local de trabalho do governador. De noite, tudo aceso, parece casa de conto de fadas.

Ao lado de Carnaque, existe o lugar que antigamente se chamou Alto da Jurubeba, elevação em que um santo, Frei Serafim de Catânia, construiu e inaugurou, no século passado, imponente templo católico. Por trás da igreja, o avenidão espaçoso, que tem o nome do frade - espaçoso e comprido até alcançar o rio Poti. Avenidão de trânsito intenso. Pedestre nele come fogo para a travessia. Veículos feios e bonitos, de variado formato, transitam. Ciclista come praga. De noite, um quadro de tentação: as garotas apresentam-se para o amor, que começa no automóvel e se acaba nos castelos dentro das matas. Um paraíso de afeto.

Na Frei Serafim, o Palácio Arquiepiscopal, residência de três arcebispos virtuosos e trabalhadores - o inesquecível Dom Severino, o Cardeal Dom Avelar e o atual Dom José Falcão.

Por perto, a Biblioteca Cromwell Carvalho, bem organizada, bem rica de boas obras.

E acolhedores templos protestantes em vários pontos. E os pastores convocando para as belezas da Bíblia.


A. Tito Filho, 30/01/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

CAVALOS

O cavalo pertence à história social e política dos povos. Está na mitologia dos gregos e dos romanos. Os césares conquistavam terras e gentes sobre quadrúpedes de grande porte. Um deles, débil mental, nomeou a sua montaria preferida senador ou cônsul do Império. A viagem a cavalo se fazia pelos antigos em longos percursos, no lombo dos bichos, homens e mulheres. No oeste dos Estudos Unidos, nos tempos da violência, só se respeitavam cavalos e rabos-de-saia. A nossa Dora Parentes, em maravilhosos e eróticos quadros de pintura, sempre junta cavalos e filhos-de-eva, num relacionamento sexual de intenções, segundo Freud.

Na Teresina do século XIX, haviam sujeitos que alugavam cavalos para passeios na cidade. Era de ver o soçaite do tempo mostrando habilidades em cima do potro amestrado.

Em 1972 surgiu o primeiro Jóquei Clube, cujo objetivo essencial estava na corrida de cavalos. A entidade assim era dirigida: presidente, Manuel Castelo Branco. Secretário, Heráclito Sousa. Tesoureiro, Pires Gaioso. Hipódromo na Vila Santos. Primeiras disputas no Dia da Pátria. Primeiro páreo, venceu o cavalo Argus, 500 m, prêmio de 150$000 (cento e cinqüenta mil réis). Segundo páreo, cavalo Libertador, 600 m, 200$000 (duzentos mil réis). Terceiro, Fidalgo, 700 m, 300$000 de prêmio. Quarto, Mister Bris, 800 m, prêmio de 600$000 (seiscentos mil réis). Quinto páreo, Danilo, 700 m, prêmio de 500$000. Juízes de partida, Teivelino Guapindaya e Daniel Paz. juízes de arquibancada: Joel Sérvio, Martins Napoleão e Delfino Vaz. Juízes de chegada: João Martins do Rêgo e Raimundo de Arêa Leão. Diretor da casa de pules: Heráclito Sousa. Diretor do bar: Zoroastro Melo, Diretor-Geral das corridas, Manuel Castelo Branco.

Não progrediu esse primeiro prêmio cavalar. Deve ter sucedido alguma coisa que acabasse as corridas dos bons quadrúpedes na cidade de José Antônio Saraiva.

Em 1939, porém, houve quatro vibrantes páreos comemorativos do 7 de Setembro, corridas na zona da estrada de ferro. Proprietários dos corredores: Mariano Gayoso Castelo Branco (Packard), Waldir Gonçalves, que possuía dosi animais, Garapu e Dourado; Jacob Castelo Branco (Hockey), Antonino Barros (Faraó), João Clímaco d'Almeida (Cateretê). Juízes, Mariano Gayoso Castelo Branco, José Olímpio de Melo e João Clímaco d'Almeida.

Parece que os cavalos não davam no couro. Cansavam depressa. Corriam debaixo de cipó.

Depois de 1950, a visão de Octávio Miranda rasgou a mata e fundou o Jóquei Clube, o segundo com este nome. Fez o hipódromo. E inaugurou as corridas de eqüinos nos dias de domingos. Animadas tardes. Mas os pangarés não agüentavam, caíam pelo meio do caminho, na pista. Os bichos não bebiam leite. Pelo menos houve a tentativa, que se teria desenvolvido, pois essa atividade desportiva pode ser muito rendável.

O Jóquei clube de Teresina tem natureza singular. O único no mundo em que não há corridas de cavalos. Vive de cachaçadas, das carnes assadas, das festanças carnavalescas nas quais impera o desnudamento quase generalizado das fêmeas bonitas.

A história do cavalo e das corridas de tal bicho em Teresina corresponde a uma das páginas significativas da vida social da cidade-capital. Outros que a pesquisem e narrem, antes que a memória das cousas seja destruída pelos ventos da ignorância generalizada.


A. Tito Filho, 08/01/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 4 de outubro de 2011

LEITURA

Quando ginasiano, em Teresina, nos domingos, eu fazia compras para leitura no M. A. Tote, casa de revistas de atualidades e literárias, entre as quais "Noite Ilustrada", "Carioca" e "Vamos Ler", do Rio. Gostava desta última e colecionei muito tempo as suas edições. Os livros de minha predileção, adquiridos semanalmente, eram os da Coleção Terra-Mar-e-Ar, de aventuras, autores estrangeiros. Eu apreciava Emílio Salgari. Outra agradável série de romances de variado gênero me fugiu da memória. Custava cada exemplar dois mil réis, livro de tamanho pequeno. Na interessante coleção fiz leitura de "A Patrulha da Madrugada", que o cinema aproveitou para excelente filme de aviação; "Nana", de Zola, e obras de autores russos e ingleses. Muito me robusteceram a inteligência os livros de Edgar Rice Burroughs (Tarzan) e Júlio Verne. Li-os quase todos de ambos os autores.

Teresina, na década de 30, possuía uma loja bem sortida, espécie de bazar de mil utilidades, sem que lhe faltassem edições literárias de Portugal e do Brasil. Tratava-se do estabelecimento comercial de Juca Feitosa, na antiga rua Bela. Nele adquiri romances de Alencar, Bernardo Guimarães, Manuel de Macedo, Camilo Castelo Branco, Pinheiro Chagas. Deliciosos para a minha adolescência. Custavam pouco e tinham aspecto pobre, com capas extravagantes.

Enquanto alguns arrotam leituras extraordinárias, ricas de temas psicológicos e de modernidades, como se costuma dizer, contento-me com meu caubói de dormir, para os instantes de conciliação do sono gostoso. Ponho-me no meio de bandidos, assassinos, mexicanos atiradores de faca, pontarias certeiras com os colts fumegantes ou com os sharps de longo alcance, deliciando-me com o mocinho alto, forte, bonito, que não erra o tiro na testa do malfeitor ou derriba cinco capadócios de bofetadas seguras. Deixo a leitura mais cuidadosa para os domingos, meditando nos assuntos, guardando na cabeça as lições que obtenho.

Neste 1990, saboreei de novo "Os Pioneiros", de Fenimore Cooper, com a sabedoria do Juiz Temple, que sentia a inutilidade da lei como garantia de justiça. Juiz sábio, para quem a lei representava arma dos ambiciosos.

Li "Carolina", que comprei faz tempo. Livro admirável de Dreiser, a revelar a solidariedade entre os miseráveis, os que têm fome. O autor mostra que os impulsos básicos do homem se voltam para o dinheiro, para o conforto, para o poder.

"Os Grotesos", de Andersen vale um romance de deformação psíquica das pessoas nas pequenas comunidades, pela perda do amor. E em "O Grande Gatsby", Fitzgerald sustenta que só a riqueza permite ao homem viver a vida que ele concebe. A vida é brutal e intolerável quando lhe falta imaginação.

Como a gente vê, realizei proveitosa leitura nestes domingos dos meses iniciais de 1990. Cito quatro romances, deixando de citar outros livros de viagens, história, crítica, estudos sociais, comunicação, o que ficará para outra vez.


A. Tito Filho, 26/04/1990, Jornal O Dia