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sábado, 1 de outubro de 2011

OBSERVAÇÕES

Dizem que Juscelino realizou a revolução industrial brasileira. Implantou fábricas de automóveis e eletrodomésticos. Maravilhosa sabedoria. O bom Brasil largou o campo, a produção agrícola, e correu para as cidades grandes dos automóveis, das enceradeiras, das máquinas de lavar roupa. As exportações milionárias de carne desapareceram. Só são Paulo e o sul permaneceram fiéis à produção agrícola, embora não recusassem a industrialização. E cada dia o Brasil fica pior, com a infernal máquina publicitária em busca de mercado para tudo o que os norte-americanos emprestam às fórmulas de fabricação, cobrando roáltis absurdos. O Brasil, é bom de ver, faz parte do quintal da América Latina.

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A Prainha foi lugar dos mais aprazíveis de Teresina. Tinha uma finalidade social: o lazer, sobretudo o dominical. Dava gosto freqüentá-lo. Não durou muito tempo o seu ambiente cordial e amigo. Invadiram-se mariposas e horizontais de todo tipo. Firmou-se como ambiente de demoradas cachaçadas. Tornou-se assim local de violência e de mortes estúpidas. Assim vai ser Poticabana, foco de drogas, de viciados, de revólveres. Quem viver verá.

Que é do clube dos Diários? A Polícia de Teresina deveria ter ao menos compostura. Meses atrás, ainda se podia tomar uma cerveja em sossego nessa outrora casa de beleza espiritual. O próprio jogo, nos porões, tinha a freqüência de pessoas ilustres e dignas, que procuravam um pouco de diversão noturna. A jogatina agora está explorada por mulheres de vida livre, raparigas velhas surradas que passam a noite de olhos abertos em companhia de indivíduos desconhecidos, gente agressiva e deseducada, com exceções algumas. Ambiente de perdição e luxúria, no centro da cidade de Teresina.

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Não haverá inverno. Os sábios já declararam anos de invernos fracos neste miserável Nordeste brasileiro. Descansará o povo do Poti Velho, livre das enchentes enormes de derribar choupanas. O pessoal um dia criará juízo. José Antônio Saraiva, baiano inteligente, recusou o local para a construção de Teresina justamente por motivo das fortes invernadas, alagações e outros tormentos. Mas o povo não arredou pé de lá até hoje. Viva a burrice.


A. Tito Filho, 07/02/1990, Jornal O Dia

sábado, 6 de agosto de 2011

CRÔNICA DA CIDADE AMADA

Dia 5 de setembro de 1850. Era de noite, quando José Antônio Saraiva chegou a Oeiras, a velha Mocha – capital do Piauí, o antigo São José do Piauí, nome com que o primeiro governante da capitania, José Pereira Caldas, homenageou o rei Dom José, de Portugal. A 7, consagrado a Independência do Brasil, o baiano assumiu a presidência da província.

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Na confluência dos rios Poti e Parnaíba, estava a Vila do Poti, que o presidente visitou ainda nesse recuado 1850. Saraiva não gostou do lugarejo, sujeito a períodos inundações, atacado de paludismo. Achou conveniente edificar a cidade noutro lugar, uma légua acima, entre os citados rios. Fixou-se no local Chapada do Corisco, antiga fazenda de criação de gado, de muitas trovoadas e faíscas elétricas na estação chuvosa. Ainda hoje trovões de papouco e raios atormentam a população teresinense. E foi aí na Chapada do Corisco que nasceu a Vila Nova do Poti.

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A 25 de dezembro de 1850, deu-se o lançamento da pedra fundamental da igreja de Nossa Senhora do Amparo. Mestre das obras: João Isidoro da Silva França. Antes de iniciar o edifício, construiu ele espaçosa casa de palha para se arranchar e por trás dela mais duas – uma como quartel dos soldados, e outra que servisse de abrigo dos escravos. No dia festivo celebrou-se missa na improvisada residência do construtor e houve comes e bebes, o primeiro banquete na futura capital do Piauí. Tocou-se muito foguete. Ao cabo de contas ai nascer uma cidade, sob os auspícios da bravura e da religião. As mulheres importantes tiraram dos baús os vestidos bonitões e se enfeitaram de jóias caras. Outro braço forte de Saraiva se chamou Manuel Domingues.

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A 20 de outubro de 1851, transferiu-se a Vila do Poti para Vila Nova do Poti, mas o povo, bem justiceiro, não deixou que a comunidade morresse, e passou a denominá-la de Poti Velho, ainda agora do mesmo jeito, pobre, casinhas modestas, povo sofrido e bom – o Poti Velho de permanente simpatia, cheiroso a peixe. Com os anos, tornar-se-ia subúrbio de Teresina.


A. Tito Filho, 22/01/1990, Jornal O Dia

XODÓ

Teresa Cristina obteve monumento na área, pois o nome de Teresina é homenagem à mulher de Pedro II.

Não se pode visitar a cidade sem conhecer o Zoobotânico, a encantadora natureza na comunhão de animais e plantas, e o Campus Universitário, situado depois do elegante bairro do Jóquei Clube, na aprazível Ininga – a Universidade que vale o futuro.

Sem mar, Teresina tem praias fluviais, feitas pela natureza dadivosa, nos dois rios que a cercam – o Poti e o Parnaíba. São as famosas praias de verão, de julho a outubro, mais ou menos. Pelo meio dos dois rios, aparecem ilhas de areia, as coroas, ou croas, nas quais homens e mulheres se banham de água doce e tomam sol, sempre aos domingos. Copacabanazinhas da cidade. Maiôs e biquínis animam a paisagem. Os olhos não cansam de ver, mal intencionados.

Não há quem se perca no caminho da zona alegre da rua Paissandu, perto do Parnaíba. Beira de rio fabrica prostitutas. A rua Paissandu é mais conhecida em Teresina do que pai-de-santo na Bahia. De noite, botequins e freges vendem cachaça e comida, e nos cabarés as garotas vivem o drama humano e social de ingressar na profissão. Música, canto, luxúria. Boêmios, cáftens, cafetinas, gigolôs, veados se misturam e se baralham. Muitos pagam as meninas dos instantes de amor com a ceia madrugadina.

Passear os avenidões da cidade – avenida Poti, Miguel Rosa, Maranhão, Gurguéia, João XXIII, Kennedy e tantas mais, emendadas umas nas outras como se fossem uma só – vale diversão e encantamento para os olhos e o espírito. De pouco em pouco a paisagem muda. Bairros humildes e bairros burgueses, embora a cidade seja sempre pobre e a gente viva da prestação e do “papagaio” bancário. Uma delícia, Teresina.

Ninguém se esqueça de um terreiro de umbanda. Nem das churrascarias, buates e restaurantes que tanto alegram as noites teresinenses. Iguarias típicas e frutas de muito prazer a barrigas exigentes – mel de rapadura, aipim cozido, batata-doce, beiju, buriti, bacurí, cajá, caju, canjica, carne de sol, chouriço, qualhada, cozidão, cuzcuz, imbu, mão-de-vaca, paçoca, sarapatel – tudo isso dá gosto viver por cá.

H. Dobal voltou de Londres e contou que é facílimo telefonar de lá para Teresina. E arrematou: não há dúvida de que a Inglaterra está progredindo.
Ao cabo de contas, Juca Chaves costuma dizer que conhece as maiores cidades do mundo. Andou por Tóquio, Paris, Londres, Nova Iorque, Pequim, Buenos Aires e Teresina.

Teresina bole com a gente. Meu amor, meu bem-querer, minha louvação.


A. Tito Filho, 01/02/1990, Jornal O Dia