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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

FUNÇÃO DAS ACADEMIAS

As instituições literárias devem cuidar de objetivos diversos. Não cabe que os seus membros se restrinjam a compor poemas e escrever livros de ficção. As verdadeiras entidades de cultura fiam mais fino. Não esquecem a coletividade e procuram ajudá-la nos seus anseios, educando-a no conhecimento dos aflitivos problemas humanos. Outras vezes convocam escritores, para o conhecimento de novos processos de criação artística. Bom ainda que se consiga a presença de vultos ilustres para que deponham sobre o passado e assim esclareçam dúvidas e equívocos.

A Academia Piauiense de Letras tem cumprido deveres e obrigações neste particular. Figuras do mundo cultural têm vindo ao Piauí por convite do sodalício, que consegue junto a administração pública e as pessoas dos convidados, que jamais cobraram um centavo pelos valiosos serviços que prestam a gente e sobretudo aos moços piauienses. Citemos os mais recentes, os que nos proporcionaram lições oportunas nestes últimos cinco anos, vindos por vontade de ajudar a nossa Casa de Lucídio Freitas: Esdras do Nascimento, Jaime Bernardes, diretor-proprietário da famosa editora Nórdica; Assis Brasil, Afrânio Coutinho, nomes que deixaram proveitosas lições aos estudantes da Universidade Federal do Piauí. Outro exemplo de dedicação pode dizer-se do professor Correia Lima, cientista de fama internacional, especialista neste mal do século, a AIDS, com duas palestras educativas sobre o assunto, uma aos jovens, no amplo auditório da Escola Técnica Federal, outra aos acadêmicos, jornalistas e convidados especiais na sede da Academia. O nosso companheiro Vilmar Soares conseguiu a visita.

Deu-nos a honra da presença o presidente da Academia Brasileira de Letras, esse admirável Austregésilo de Athayde, que convidou conosco cinco dias, simples, amável, na velhice verde dos 90 anos, e que prestigiou a Academia e as nossas entidades de cultura pelas lições oferecidas na palavra entusiasmada e contagiante.

Chegaria a vez do mito, cuja vinda conseguimos por intermédio da professora Anita Leocádia, amiga de rara grandeza espiritual. Sim, veio ao Piauí o capitão Luís Carlos Prestes. Visitou os sítios históricos em que ele acampou, com os seus barbudos: Oeiras, homenageado pelo Instituto Histórico e pelo líder B. Sá; Floriano, em calorosa recepção, Monsenhor Gil, a antiga Vila de Natal, de onde o chefão dirigiu o cerco de Teresina - e finalmente esta capital do Piauí, cercado de admiração e respeito, recebido no palácio governamental, na sede do Poder Judiciário, na Assembléia Legislativa, a Prefeitura, na Câmara dos Vereadores e na Academia. Por toda parte Prestes restabeleceu a verdade histórica sobre a marcha formidável pelo interior do Brasil.

Neste outubro de 1990 o nosso conterrâneo Vilmar Soares prestou outro valioso serviço ao Piauí com a vinda do grande professor Affonso Berardinelli Tarantino à Teresina, por convite da Academia. Trata-se de médico de nomeada, membro da Academia Nacional de Medicina, mestre da Universidade Gama Filho, na Universidade do Rio de Janeiro e na Escola Carlos Chagas. Os acadêmicos confiaram-no às nossas instituições médicas a coordenação de um jovem doutor, sério e dedicado, Antônio de Deus. Tivemos todo o apoio do governo piauiense. Foram 15 horas de aulas sobre aspectos da Pneumologia. Palestras úteis e oportunidades a respeito de pneumonia, doenças pulmonares crônicas, derrame pleural, tuberculose, tabagismo, entre outras partes do extenso programa.

*   *   *

Paulista de nascimento e carioca de afeição, Tarantino me impressionou pelas maneiras simples de palestração. Não parece o professor de tantas láureas. Nem o cientista de fama merecida. Gosta da humanidade, de servir os outros. Apaixonou-se por Teresina, talvez pelos cenários miseráveis do processo de favelização da capital piauiense. Dá pouco valor aos bens materiais. Virtuoso, cultiva princípios maravilhosos que dignificam o homem. Escreve com a compostura do zelo da língua, no estilo vivo, original, gracioso, como escreveram e escrevem os grandes médicos, em falhas, cativo da frase correta, mas sem os pruridos antipáticos das gramatiquices.

Tarantino deu aula de beleza espiritual na Academia Piauiense de Letras. Senti que ele guarda imenso amor a memória da genitora, de cujo túmulo, em São José dos Campos, ele cuida, com os instrumentos da jardinagem, no comparecimento mensal na cidade, na distância de 300 quilômetros.

Aos acadêmicos, na despedida, acentuou que teve tratamento igual ao do Piauí em dois passeios quando visitou Portugal e quando tinha o carinho e o afeto da mãe querida.


A. Tito Filho, 30/10/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

INSULTO

Era sábado, dia 15 deste setembro corrente. Dia de sessão na Academia Piauiense de Letras. Meu estimado colega João Gabriel Baptista, mestre universitário e figura do mais alto conceito na ciência geográfica, mostrou-me pequenino recorte do jornal teresinense "Diário do Povo", de 9-9-1990, com estes dizeres: O POETA H. DOBAL NÃO PODE ENTRAR NA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS. SERIA UMA INJUSTIÇA MUITO GRANDE COLOCAR UM POETA TÃO BRILHANTE NUM LUGAR CHEIO DE POLÍTICOS MEDÍOCRES E DESEMBARGADORES.

Perguntei a Gabriel como se denominava o autor do insulto. Disse-me que não memorizou o nome do sábio, parecendo-lhe que se tratava de um colunista.

Faz poucos dias o jornalista Kenard Kruel tratou do assunto H. Dobal em página do "Jornal da Manhã". Mandei-lhe corretíssima explicação: o talentoso poeta piauiense nunca se candidatou à Academia Piauiense de Letras, e no referido órgão de imprensa se publicou uma carta de H. Dobal em que este escreveu que não cogitou o ingresso porque se considerava doente, sem as energias necessárias para participar do trabalho acadêmico.

Desconheço o autor da nota rica de baixeza. Atesta o magnífico Clidenor Freitas Santos que os homens se dividem em dois tipo: os psicopatas e os psiquiatras. Os primeiros são entidades de cérebros doentios, merecedores de compaixão. Os segundos constituem os que procuram curar a debilidade mental dos primeiros e se alegram e se tornam felizes com a boa convivência humana.

Jornalista que se preza não insulta, não ofende, não humilha. Antes procura as boas qualidades dos semelhantes e das instituições para incentivar uns aos outros. Anti jornalista é o injusto, o invejoso, que nada oferece à vida social senão insolência e ignorância.

Dedicou-se o ano de 1990 a erradicação do analfabetismo, numa campanha de alfabetização. Certos escrevedores de jornal entendem que a luta se deve fazer para analfabetizar os brasileiros, e acentuam nos seus escritos os exemplos de ensinança de como menosprezam numa instituição ilustre, a mais antiga do Piauí e que guarda na sua história altas expressões de nossa vida cultural.

Meu pai me ensinou que a gente conhece os homens pela coragem nos gestos de cada um. Quem não assume e comprova a denúncia de peito aberto não pode exercer o jornalismo. Que se disse no insulto frouxo e debochativo? Simplesmente que a Academia Piauiense de Letras corresponde a um lugar CHEIO DE POLÍTICOS MEDÍOCRES E DESEMBARGADORES. Não teve a dignidade necessária para arrolar nomes. A Academia possui apenas, no momento que passa, dois desembargadores nos seus quadros, Paulo Freitas e Manfredi Mendes Cerqueira, comparados pelo jornalista a tipos que enodoariam a presença de H. Dobal na Casa de Lucídio Freitas. Os demais acadêmicos que manchariam a presença do grande poeta são os seguintes: Hardi Filho, Celso Barros, Clidenor Freitas, Lili Castelo Branco, Alberto Silva, Gerardo Vasconcelos, Herculano Moraes, Humberto Guimarães, Gabriel Baptista, monsenhor Chaves, Camilo Filho, J. Miguel de Matos, Tito Filho, José Eduardo, Josias Carneiro, Romão de Silva, Nerina Castelo Branco, O. G. Rego de Carvalho, Palha Dias, Wilson Brandão, monsenhor Sampaio, Dagoberto Jr., Aluízio Napoleão, Carlos Castelo Branco, Alvina Gameiro, Cláudio Pacheco, Hugo Napoleão, João Emílio Falcão, Paulo Nunes, Raimundo Santana, Bugyja Britto, Deolindo couto, Reis Veloso, Renato Castelo Branco e Salomão Chaib.

Os indivíduos invejosos, injustos, xingadores, gostam de denegrir a personalidade dos semelhantes. São egoístas doentes. H. Dobal nunca se candidatou à Academia Piauiense de Letras. Logo, não pretende honrá-la, pois todos os acadêmicos lhe sufragariam o nome com irrecusável prazer. Ninguém pode votar num candidato inexistente.

H. Dobal deveria estar numa das poltronas da Academia Brasileira de Letras, tamanha a majestade lírica e objetiva dos seus poemas inimitáveis, sobretudo os que se sustentam da força telúrica e das personagens da vida social e histórica do Piauí.

Cabe ao jornalista insultador relacionar os nomes dos políticos medíocres e de desembargadores que desmerecem o título acadêmico. Caso contrário, a sentença continua atual: PUERIS, SACER EST LOCUS, EXTRA MIGITE.


A. Tito Filho, 20/09/1990, Jornal O Dia

domingo, 11 de dezembro de 2011

ALGUMAS NOTAS

Eurico Ferri, o famoso criminalista italiano, ensina muita cousa nas suas lições sobre os criminosos, a arte e a literatura. Quem melhor estudou a vida? A ciência? Ou ciência se serviu da arte e aproveitou-se das suas maravilhosas criações? A arte agiu antes da ciência, principalmente a arte literária. Dante revela na sua poesia inimitável a predominância do fator econômico sobre todos os outros e que a corrupção sempre proveio dos maus governos. O irreverente Camões zomba dos preceitos e registra a vida sexual por um prisma humano. Reage contra o mundo feudal. Cervantes adverte os homens de que não é possível permanecer agarrado ao passado. Creu na influência do meio renovado. Shakespeare inspira-se em temas populares. Descrever as contradições de sua época, o feudalismo e o capitalismo. Faz poesia numa sociedade em transformação. Combate a violência. Não acredita na imutabilidade das cousas. Milton, no PARAÍSO PERDIDO, combate as desigualdades sociais. Moliére zomba dos costumes do seu tempo. Voltaire rebela-se contra os poderosos e a intolerância religiosa. Não suporte os privilégios. Tolstoi arremete contra todas as formas de injustiça.

Na DIVINA COMÉDIA, Dante imagina um sistema feudal e uma classificação dos delitos e das penas. Existem duas espécies de crimes, os de violência e os de fraude. De Shakespeare os juristas e os economistas copiaram lições do maior interesse. O famoso autor é imenso psicólogo. No tempo em que a ciência penal se preocupa com o crime, ele se preocupa com o criminoso e cria os três famosos homicidas shakespearianos, o louco, o nato e o passional, e na sua arte perfeita se juntam observações cientificas rigorosamente exatas.

Arte e ciência prometem o conhecimento da vida, embora a obra de ciência seja impessoal e a obra artística provenha do temperamento de quem a construiu.

As criaturas de Zola ligam-se aos princípios da psicopatologia criminal. A demonstração da grande lei da hereditariedade natural aumentou o horizonte da arte de contribuir para novas verdades cientificas.

Manzoni, em OS NOIVOS, descreve a psicologia coletiva antes da ciência. A mesma cousa Zola faz em GERMINAL.

Ibsen, sempre fecundo, escreve com dados científicos. O PATO SELVAGEM é obra mestre em psicologia política.

Dostoievski sustenta verdades inatacáveis. Os criminosos repugnam o trabalho, tocados de puerilidade e religiosidade. A beleza de CRIME E CASTIGO não foi ultrapassada como crítica social audaciosa.

- Interessante que todos lessem A MACONHA OU A VIDA, de Gabriel G. Nahas. O autor atesta que a droga impede a função pulmonar, diminui a contagem espermática e suspende a resposta imunológica.

- Próximas edições da Academia Piauiense de Letras: MINHA TERRA, MEU POEMAS, de Assis Fortes; A MENSAGEM DO SALMO, de Júlio Romão da Silva; as memórias do ex-governador Rocha Furtado; GEOGRAFIA FÍSICA DO BRASIL, segundo volume, de João Gabriel Baptista; e história da música no Piauí, de Cláudio Bastos.

- A droga não é a causa, mas conseqüência. Não adianta destruir maconha, cocaína e heroína. Adianta que a sociedade deixe de ser irresponsável e dê oportunidade aos jovens que lutam por um lugar ao sol. Sim, basta que as mulheres voltem ao lar, não de madrugada, mas que nele permaneçam, sustentando-o de afeto constante para os filhos, e cuidando dos serviços domésticos.


A. Tito Filho, 12/05/1990, Jornal O Dia

domingo, 6 de novembro de 2011

APRECIAÇÃO

Theobaldo Costa Jamundá nasceu em Pernambuco. Buscou as torres catarinenses e fixou-se na simpática e encantadora Florianópolis e aí constituiu família e projetou-se como um dos mais destacados nomes da vida literária do Sul do País. Morenão como eu, afável, de primoroso coleguismo, fez-se piauiense também, enamorado de Teresina. Já visitou o Piauí algumas ocasiões e à Academia Piauiense de Letras ofereceu duas vezes, como gesto de amizade, o magnífico coral de Santa Catarina, que encantou a gente teresinense e de outros municípios. Dádiva de Teobaldo. Oferta desse amigo leal e correto.

Agora, em data de 31 de outubro, ele me manda carta, escrita no seu original estilo de mestre da língua e da prosa e diz assim sobre Alvina Gameiro:

"Meu presidente Tito Filho.

Informei-me in Notícias Acadêmicas nº 56, arauto ímpar da nossa egrégia Academia Piauiense de Letras, que a escritora maior ALVINA GAMEIRO, no dia 14 do referido mês passado, foi eleita para a Cadeira 14.

Diz-me a informação o ter alcançado votação unânime na coerência de duas verdades: 1. O valor intelectual da escritora; 2. O acerto antológico da votação.

E estas duas verdades sustentam-se na ausência de surpresa. E ser candidata única cochicha-me o conhecimento da inteligência piauiense explicando: O VALOR LITERÁRIO DE ALVINA GAMEIRO É ÍMPAR NO UNIVRSO DAS LETRAS MERECENTES DO ZELO DINAMIZADO PELA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS.

Pelo evento de inteligência marcante de um momento especial, no sodalício onde sou menor na participação e maior de corpo inteiro no BEM QUERER que voto, apresento o aplauso ambivalente aos acadêmicos eleitores, quitando-me com ALVINA GAMEIRO e com a Academia Piauiense de Letras.

Colocando-me na certeza que existe uma Literatura Piauiense, aparteia-me no bestunto um argumento enfiando-me diante da ponta do nariz o indicador persuasivo: a eleição de ALVINA GAMEIRO para a Cadeira 14, prova a vitalidade intelectual consciente e sublima a autora de CURRAL DE SERRAS.

Este livro que possuo deu-me o amigo maior A. Tito Filho em março de 1983. E foi não foi releio uma ou outra de suas 280 páginas como a ruminar encanto. Como por exemplo: "MUITO ADIANTE, NO QUEBRAR DA MÃO DIREITA, NA RAÍZ DE UM PÉ DE MORRO, UM MARRUCO GAITEAVA, ROUQUEJANDO RECADO AGOURENTO PR'A QUEM TIVESSE TOPETE DE GANHAR RUMO DAS FÊMEAS QUE QU'ELE TAVA CASTIÇANDO". (Cf. pág. 43).

Quem tem prosa assim tem voto certo para qualquer Academia de Letras da Língua de Camões.

Aliás até no título: Curral de Serras, este livro é seleto. E como se não bastasse revelar a escritora que sabe escrever manipulando matéria tomada nos molduramentos da Geografia e da Paisagem Humana piauienses.

Sem dúvida ALVINA GAMEIRO é escritora privilegiada pelo engenho da imagística que Deus distribui antologicamente".


A. Tito Filho, 09/11/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

JULGAMENTO

O ministro da Agricultura, Iris Resende, enviou à Academia Piauiense de Letras a seguinte mensagem:

"Impossibilitado de comparecer à sessão solene em que a histórica Academia Piauiense de Letras empossa o ilustre escritor João Emílio Falcão Costa Filho em sua Cadeira 26, tendo como Patrono o escritor Simplício Resende e o exemplo de sua vocação, tomo a liberdade de daqui enviar a minha congratulação à Casa e aos seus dignos integrantes.

Conheci João Emílio Falcão em Brasília e logo notei uma personalidade singular em sua atividade de jornalista.

Dono de uma marca extremamente pessoal de trabalho, é um jornalista sempre inquieto e curioso, permanentemente contemplando o mundo à sua volta a preocupação de consertar o que não está correto.

Com seu estilo próprio, sabe ser sarcástico em suas crônicas no jornal quando a situação o exige, implacável nas suas perguntas como entrevistador na televisão quando defende o bem comum, mas também um homem extremamente generoso.

Falcão, como jornalista, convive em altas rodas de poder participando de discussões e confabulações da política nacional, mas não se ilude em relação a realidade.

Com muita argúcia, sabe distinguir o mundo real do mundo dos poderosos e, ao mesmo tempo, não perde a atenção sobre problemas que acontecem por toda parte, por mínimos que sejam.

Enquanto discute os mais altos problemas da República, Falcão não esquece o humilde brasileiro que, no ponto mais remoto do território nacional, enfrenta um problema qualquer, como o pequeno agricultor às voltas com a necessidade de sobreviver.

Verifiquei mais tarde que esse é o universo do escritor João Emílio Falcão, com a mesma inquietação, curiosidade, preocupação, argúcia, espontaneidade e generosidade.

Com a mesma marca pessoal, o escritor Falcão revira o mundo da ficção em busca de contribuições concretas para a justiça social, que vão além das preocupações estéticas de um artista, sempre sem perder qualidades eminentemente literárias.

É comovente a preocupação do escritor com as misérias e os pobres coitados que se perdem no interior deste Brasil imenso, relegados pelas elites pensantes e administrativas, mas que, na realidade, constituem a grande massa que, muitas vezes anonimamente, faz o Brasil, o Brasil real.

A posse de João Emílio Falcão como membro da Academia Piauiense de Letras é, evidentemente, o reconhecimento definitivo dos valores do escritor, que em cenário tão ilustre passa a ter mais espaço para o seu trabalho e suas inquietações de cada dia, além de valorizá-lo com a sua presença.

Estou certo que, com esta posse, a imortal Academia, o grande escritor e todo o Piauí avançam mais ainda na unidade entre todos, na identificação da obra que constroem e no aprofundamento de seus compromisso com as artes, o pensamento crítico e o mundo que nos envolve".


A. Tito Filho, 03/03/1990, Jornal O Dia

domingo, 9 de outubro de 2011

FIGURA EXEMPLAR

Edmée Rego Pires de Castro tem estudo valioso sobre a poesia e sobre compor versos líricos de muita arte e expressividade. Dela recebo bem redigidas letras com o título ESTEIRA LUMINOSA, nestes termos:

"Tomei conhecimento de um acontecimento marcante na vida católica de nossa cidade, através de Notícias Acadêmicas, informativo da Academia Piauiense de Letras. Na coluna sob o título Notícias, li que Monsenhor Antônio Sampaio da APL, estará em Fátima, Portugal, para um retiro espiritual comemorativo dos seus 50 anos de sacerdócio.

Monsenhor Antônio descende de tradicional família católica. Seus pais foram Firmino como era chamada afetuosamente, senhora distinta, admirada por suas peregrinas virtudes.

Monsenhor Sampaio nasceu nesta cidade, aqui fez o curso primário e iniciou o curso secundário no ex-Ginásio Parnaibano. Logo após ingressou no Seminário de S. Luís, no Maranhão. Ordenou-se em Teresina, no dia 8 de dezembro de 1940 e celebrou a primeira Missa, em nossa Catedral de N. S. da Graça, o que foi motivo de regozijo para todos os fiéis, que participaram com fervor da festiva celebração.

Vale ressaltar o seu perfil de homem dedicado ao serviço de Deus, afável, acolhedor, sempre amigo encaminhando o povo católico para trilhar as sendas da vida cristã, não só quando vigário de nossa Catedral, mas também como diretor espiritual, conselheiro e juiz. "Feliz aquele que encontra um amigo e conselheiro prudente e fiel. Encontrou um tesouro". Pregador de retiros espirituais, orador sacro, suas pregações em linguagem pura, nítida, admirável e suave orientam as almas indicando o caminho da salvação. Professor insigne, atualmente dedicado ao ensino dos jovens vocacionais no Seminário Diocesano. É Administrador Apostólico desta diocese, pela palavra, pela pena e pelo exemplo dignifica o cargo que ocupa na hierarquia da Igreja.

Para os que têm fé há diferença entre um sacerdote e um leigo, embora tenham pontos em comum. Um sacerdote é um homem semelhante aos outros pela sua natureza, é um cidadão de seu país, fala a mesma linguagem, mas está afastado do mundo por uma educação especial, hábitos e costumes são diferentes, não são idênticos aos das pessoas do século. Ele recebeu uma consagração que o distingue dos outros homens e o tornou "homem de Deus para sempre" com o caráter indelével. É um ministro sagrado, é um membro docente da Igreja. "É a voz que clama no deserto" para quem quiser ouvir. Só ele tem essa missão e graça clamando pela justiça, misericórdia contra toda a iniqüidade, sempre interessado em tudo que diz respeito à felicidade temporal e eterna dos seus concidadãos.

Assim é Mons. Antônio para o povo de Deus que o estima. Desde a juventude até hoje, tem permanecido constante e infatigável na sagrada peleja. Em Fátima, em retiro espiritual, acompanha-o a oração dos fiéis em uníssono dando hosanas ao Senhor, pela passagem do seu jubileu sacerdotal e pedindo a Deus que derrame bênçãos especiais na esteira luminosa de seu sagrada ministério. E aos pés da Virgem, contrito e fiel, pode suplicar como o salmista:

"Deus, desde a juventude me ensinaste/ proclamei até hoje teus prodígios / e que eu possa Senhor, anunciar / as gerações vindouras teu poder!".


A. Tito Filho, 11/12/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 4 de outubro de 2011

ACADEMIAS

Se a memória me acode, lembro que Afrânio Peixoto assentou que as academias têm inimigos rancorosos entre os intelectuais de 21 a 30 anos. dos 30 aos 60, os inimigos são candidatos, que, depois dos 60, são acadêmicos. Nem sempre os pretendentes conseguiram ingresso. Derrotado, o incompatível patriota e escritor Monteiro Lobato recusou-se depois, embora convidado, a pertencer à Academia Brasileira de Letras. O sábio jurisconsulto Pontos Mirando sofreu derrota na primeira candidatura, elegeu-se na segunda disputa. Viriato Correia, teimoso, fez cinco tentativas, vitorioso na sexta. Interessante o caso de Santos Dumont, inventor da dirigibilidade do mais pesado que o ar. Nunca se candidatou à Casa de Machado de Assis, que quis homenagear o seu revolucionário cometimento. Elegeu-o. Convidado a tomar posse, recusou-se. Ainda assim pertence aos quadros da festejada instituição, que Carlos Drummond de Andrade sempre rejeitou sempre que lhe ofereciam uma poltrona.

Outro infenso à glória acadêmica foi o espirituoso e demolidor de falsos ídolos, mestre Agripino Grieco, cujos debates na imprensa criavam contra ele permanente antipatia dos membros da Academia Brasileira de Letras. Toda vez que falecia um acadêmico o grande crítico literário escrevia na coluna jornalística que mantinha na imprensa carioca: "Morreu mais um animal na Casa de Machado de Assis" - mais ou menos isto. Uma feita, com o falecimento de Carneiro Leão escreveu: "Palmas. Desta vez morreram dois animais de uma só vez".

Quando faleceu Rui Barbosa, em 1923, houve na Casa de Machado de Assis duas correntes: a dos que queriam que lhe fosse prestada a grande homenagem de não ter substituto, e a cadeira ficaria vaga por todos os séculos, e a das que achavam por todos os séculos, e a das que achavam normal a sucessão, mais numerosa. Abriu-se a vaga. candidatou-se o filólogo Laudelino Freire, e o sarcástico Grieco escreveu isto:

"Se o Dr. Laudelino Freire for eleito, conciliou as duas correntes acadêmicas: Laudelino vai ocupar a cadeira de Rui, mas é como se a cadeira continuasse vaga". A Academia Piauiense de Letras possui criticas veementes. É bom que as tenha. Desprezam-se as árvores que não dão frutos, e possui também aqueles que a procuraram e não lograram vitória, com sobejos títulos de merecimento. Vitoriosos saíram os concorrentes.

Houve os que tiveram eleição assegurada e não atenderam os chamados para a posse como Antônio Costa, Durval Monteiro, Clementino Fortes, Sousa Neto e outros, cujos nomes foram cancelados pelo meu antecessor na presidência, mestre Simplício Mendes.

É bem de ver que as Academias praticam por vezes injustiças, como a Casa de Machado de Assis praticou com o admirável Mário Quintana.

O ideal, porém, está em que se pratique justiça.


A. Tito Filho, 04/08/1990, Jornal O Dia

sábado, 1 de outubro de 2011

BIACADÊMICO

Carlos Castelo Branco contou, neste falecido mês de junho, como faziam os índios, setenta castanhas na sua vida vitoriosa. Publicou, além de um livro de interpretação politica, "Continhos Brasileiros" e o romance "Arco do Triunfo". A persistente atividade jornalística, de invulgar brilhantismo na análise de homens e episódios, abriu-lhes as portas da Academia Brasileira de Letras: "Chego à Academia como jornalista", disse ele ao tomar posse no mais cobiçado sodalício do país.

Observador penetrante, ora tímido, ora revoltado, misterioso ou controlado, sempre põe a nu a imagem dos instantes precários e dos ricos em respeito ao homem. Sabe clarear caminhos, denunciar mistificações e advertir os incautos e desinsteligentes. Não usa enfeitações. Ensina nas entrelinhas aos bons de entendimento. Muita claridade no estilo. Odylo Costa, filho, considerou-o a primeira voz do jornalismo político brasileiro. Efetua o jornalismo-história, o que exige isenção e abole atitudes passionais. Honesto e corajoso. Não azinhava a consciência na bajulação.

Quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, telefonou ao pai, o magnífico Cristino Castelo Branco, caráter sem nódoa, e disse, revivendo a criança que está na gente o tempo todo:

- Papai, eu fui eleito.

Cristino orgulhou-se do triunfo do filho, que era também o triunfo do pai, cuja presença de Deus se avizinhava, não era permitido que ele, carregado de mais de noventa anos, assistisse à posse do novo acadêmico.

Dois piauienses e um quase-piauiense haviam atingido a Academia Brasileira de Letras: José Félix Alves Pacheco, Deolindo Augusto de Nunes Couto e Odylo Costa, filho, os dois primeiros nascidos em Teresina. Antes do vôo mais alto, porém, ingressaram na Academia Piauiense de Letras. Partiram da Casa de Lucídio Freitas para a casa de Machado de Assis. Mestre Carlos praticou o contrário: ingressou na modesta e humilde Academia Piauiense de Letras depois da conquista da outra, a Brasileira. Quis ser fiel à lição de Cristino Castelo Branco: "A Academia da terra natal é sempre a melhor das Academias".

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Na Academia Piauiense de Letras outros pertenceram a duas Academias: Clodoaldo Freitas (Maranhense), Alarico da Cunha (Maranhense), Jonas Fontele da Silva (Amazonense), Taumaturgo Sotero Vaz (Amazonense), salvo falha memória.

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Em Carlos setentão existe outra imensa virtude: o amor a Teresina. Numa de suas visitas recentes À cidade natal escreveu: "Hoje é quase estranha para mim. Na parte antiga movimento os meus fantasmas e onde me sinto a vontade, quando passo por lá, para dialogar com elas".

Sim, já não existem os bairros de forrós, cheirantes ao suor da mulatiçe gostosa das mulheres teresinenses. Do buraco da Velha, dos Cajueiros, da Catarina resta a visão doce e evocativa como se fora poesia do coração chorando.


A. Tito Filho, 21/07/1990, Jornal O Dia