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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

FUNÇÃO DAS ACADEMIAS

As instituições literárias devem cuidar de objetivos diversos. Não cabe que os seus membros se restrinjam a compor poemas e escrever livros de ficção. As verdadeiras entidades de cultura fiam mais fino. Não esquecem a coletividade e procuram ajudá-la nos seus anseios, educando-a no conhecimento dos aflitivos problemas humanos. Outras vezes convocam escritores, para o conhecimento de novos processos de criação artística. Bom ainda que se consiga a presença de vultos ilustres para que deponham sobre o passado e assim esclareçam dúvidas e equívocos.

A Academia Piauiense de Letras tem cumprido deveres e obrigações neste particular. Figuras do mundo cultural têm vindo ao Piauí por convite do sodalício, que consegue junto a administração pública e as pessoas dos convidados, que jamais cobraram um centavo pelos valiosos serviços que prestam a gente e sobretudo aos moços piauienses. Citemos os mais recentes, os que nos proporcionaram lições oportunas nestes últimos cinco anos, vindos por vontade de ajudar a nossa Casa de Lucídio Freitas: Esdras do Nascimento, Jaime Bernardes, diretor-proprietário da famosa editora Nórdica; Assis Brasil, Afrânio Coutinho, nomes que deixaram proveitosas lições aos estudantes da Universidade Federal do Piauí. Outro exemplo de dedicação pode dizer-se do professor Correia Lima, cientista de fama internacional, especialista neste mal do século, a AIDS, com duas palestras educativas sobre o assunto, uma aos jovens, no amplo auditório da Escola Técnica Federal, outra aos acadêmicos, jornalistas e convidados especiais na sede da Academia. O nosso companheiro Vilmar Soares conseguiu a visita.

Deu-nos a honra da presença o presidente da Academia Brasileira de Letras, esse admirável Austregésilo de Athayde, que convidou conosco cinco dias, simples, amável, na velhice verde dos 90 anos, e que prestigiou a Academia e as nossas entidades de cultura pelas lições oferecidas na palavra entusiasmada e contagiante.

Chegaria a vez do mito, cuja vinda conseguimos por intermédio da professora Anita Leocádia, amiga de rara grandeza espiritual. Sim, veio ao Piauí o capitão Luís Carlos Prestes. Visitou os sítios históricos em que ele acampou, com os seus barbudos: Oeiras, homenageado pelo Instituto Histórico e pelo líder B. Sá; Floriano, em calorosa recepção, Monsenhor Gil, a antiga Vila de Natal, de onde o chefão dirigiu o cerco de Teresina - e finalmente esta capital do Piauí, cercado de admiração e respeito, recebido no palácio governamental, na sede do Poder Judiciário, na Assembléia Legislativa, a Prefeitura, na Câmara dos Vereadores e na Academia. Por toda parte Prestes restabeleceu a verdade histórica sobre a marcha formidável pelo interior do Brasil.

Neste outubro de 1990 o nosso conterrâneo Vilmar Soares prestou outro valioso serviço ao Piauí com a vinda do grande professor Affonso Berardinelli Tarantino à Teresina, por convite da Academia. Trata-se de médico de nomeada, membro da Academia Nacional de Medicina, mestre da Universidade Gama Filho, na Universidade do Rio de Janeiro e na Escola Carlos Chagas. Os acadêmicos confiaram-no às nossas instituições médicas a coordenação de um jovem doutor, sério e dedicado, Antônio de Deus. Tivemos todo o apoio do governo piauiense. Foram 15 horas de aulas sobre aspectos da Pneumologia. Palestras úteis e oportunidades a respeito de pneumonia, doenças pulmonares crônicas, derrame pleural, tuberculose, tabagismo, entre outras partes do extenso programa.

*   *   *

Paulista de nascimento e carioca de afeição, Tarantino me impressionou pelas maneiras simples de palestração. Não parece o professor de tantas láureas. Nem o cientista de fama merecida. Gosta da humanidade, de servir os outros. Apaixonou-se por Teresina, talvez pelos cenários miseráveis do processo de favelização da capital piauiense. Dá pouco valor aos bens materiais. Virtuoso, cultiva princípios maravilhosos que dignificam o homem. Escreve com a compostura do zelo da língua, no estilo vivo, original, gracioso, como escreveram e escrevem os grandes médicos, em falhas, cativo da frase correta, mas sem os pruridos antipáticos das gramatiquices.

Tarantino deu aula de beleza espiritual na Academia Piauiense de Letras. Senti que ele guarda imenso amor a memória da genitora, de cujo túmulo, em São José dos Campos, ele cuida, com os instrumentos da jardinagem, no comparecimento mensal na cidade, na distância de 300 quilômetros.

Aos acadêmicos, na despedida, acentuou que teve tratamento igual ao do Piauí em dois passeios quando visitou Portugal e quando tinha o carinho e o afeto da mãe querida.


A. Tito Filho, 30/10/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

INSULTO

Ivan IV, o primeiro grão-duque de Moscou a tomar o título de czar, em se declarando sucessor pelo sangue do romano César Augusto, foi dos mais violentos e mais cruéis soberanos da história da humanidade.

Órfão de pai e mãe, submetido a tutela dos boiardos que se entredevoram para conquistar o poder, Ivan faz o aprendizado da astúcia e da crueldade à sombra dos protetores que, no entanto, o ignoram. Coroado czar em 1547, com 17 anos de idade, ele manifesta logo inicio uma autoridade assustadora. Sádico e místico, considera-se o vigário de Deus na Terra e se imagina desculpado antecipadamente por todos os seus desregramentos. Sua mórbida desconfiança o leva a ver por toda parte espiões e traidores. Manda torturar devotos favoritos. Até sente mais prazer quando comete injustiças.

Ivan gosta tanto de sangue quanto de mulheres. Casará oito vezes, sem se preocupar com a Igreja. Algumas das esposas morrem envenenadas, para satisfação do czar que prefere escolher as substitutas entre milhares de jovens em autênticos concursos de beleza.

Entretanto, não perde de vista de vista a missão política. Luta para largar seu reino, em batalhas sangrentas com poloneses, tártaros e suecos. A principio com sucesso, depois com incontroláveis perdas.

Quem era Ivan, o Terrível, o homem que matou o próprio filho e herdeiro? Que se divertia soltando ursos selvagens contra homens, mulheres e crianças? Que comandou o genocídio de Novgorod?

O retrato de Ivan feito por Henri Troyat, russo naturalizado francês, na sua autoridade de acadêmico, é verdadeiramente singular e oportuno, lançando uma luz serena, mas forte e clara, sobre a maneira de ser do povo russo, delirante, fanático e submisso, sempre corajoso até as últimas conseqüências.

Henri Troyat nasceu em Moscou, em 1911, como Lev Tarassov, nome mudado logo que chegou a Paris, em 1917, portanto, com apenas seis anos de idade. Naturalizado, cedo se consagrou a literatura. Foi Prêmio Goncourt em 1938 e é membro da Academia Francesa. Tem uma longa produção literária, variada, que inclui romances isolados, ciclos de romances históricos, biografias, ensaios, crônicas e narrativas diversas. No que toca a biografias, Troyat já publicou as de Dostoievski, Putchkine, Tolstoi, Gogol, Catarina, a Grande, Pedro, o Grande, e Alexandre I, todos personagens influentes nas artes e na história russas.

Sobre Ivan, o Terrível, na imprensa francesa, merece destaque um comentário de Alexei Antonkin, no "Temps-Économi Littéraire":

"Desde a História da Rússia, escrita entre 1816 e 1826, por Nikolai Karamzine, o livro de Henri Troyat é a mais inquestionável contribuição para p esclarecimento do reinado de Ivan, o Terrível. E as comparações com a Rússia de hoje são gritantes".

X   X   X

CARLSO EDUARDO NOVAES é, sem dúvida, o único humorista brasileiro de primeira linha que faz você continuar rindo na segunda, na terceira e assim por diante. E já que é assim, nada melhor do que a notícia da publicação de um livro seu, O País dos Imexíveis, uma nova coletânea de crônicas sobre o cotidiano brasileiro que é, ao mesmo tempo, a mais alegre história dos nossos dias...

Na hora em que todo mundo se mexe, será o Brasil o país dos imexíveis?

Mexe e remexe, estamos aí com mais um Plano em que muitos gostariam de atirar mexericos. Entretanto os mexericos são muitos e os mexeriqueiros e mexeriqueiras não param, melhor dizendo, vivem se mexendo.

E o Brasil? Imexível ou Mexível, escorre aqui pela pena bem humorada do sempre inovador Novaes, coadjuvado, literalmente, pela pena de Vilmar Rodrigues.

Imperdível!

Carlos Eduardo Novaes é o humorista mais diversificado no momento. Seus últimos sucessos têm acontecido na área teatral, onde, além de fazer o texto, ele sobe quase todos os dias ao palco para dar o seu recado. Continua mantendo, porém, uma constante na vida: não deixa de escrever as suas crônicas e delas faz um retrato bem humorado deste Brasil... dos imexíveis.

Este é o décimo-nono livro de Novaes publicado pela Nórdica. E o décimo-terceiro da série: "Histórias dos Nossos (Nossos?) Dias!".


A. Tito Filho, 21/09/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

MÉRITO

Seria exaustivo relacionar todos os episódios de lutas que se têm verificado no Brasil, desde a fase colonial até os dias atuais, cada qual apoiado sobre causas, que os historiadores, no passado como no presente, procuraram revelar e interpretar - e muitos desses episódios ainda se encontram em processo polemico. A grande Revolução Industrial do principio do século XIX provocou profundas transformações na sociedade dos homens. De feito, a máquina tornou-se responsável pelo poder industrial, que desorganizou a família, baseou a riqueza das nações no combustível, comercializou o afeto - base da educação - e derribou estruturas seculares.

O Brasil não poderia fugir da sua influencia. A abolição da escravatura, e conseqüente adoção do regime republicano, promanou da civilização industrial. Da instituição da República até hoje, o país vive instavelmente, com a queda de homens do poder, se se analisam superficialmente as causas. O período republicano bem atesta a afirmativa. É que o ciclo rebelde brasileiro ainda não se completou, e só se completará quando os desequilíbrios sociais, a injustiça social, a fome sejam vencidos, com o estabelecimento de processos humanos de vida - a abdicação do inumano pela valorização do homem.

Quantas quarteladas brasileiras de 1922 a esta parte? Talvez elas tenham origem próxima na pregação civilista de Rui, que contagiou os moços, civis e fardados. Do Rui-profeta, que se antecipou a Getúlio Vargas na luta contra a exploração do homem pelo homem.

Ainda se registrarão as causas profundas dos movimentos de 1922, 1924, 1930, 1937, 1945 e 1964. Movimentos de homens em armas, mas feitos por cérebros interpretadores da inquietação e da angústia do brasileiro, inconsciente ainda dos direitos e deveres que lhe outorgaram constituições políticas feitas em gabinetes, bem distantes da realidade nacional.

Nesta apreciação não sou movido pela idéia de analisar tais movimentos, nas suas causas remotas e próximas. Cabe-me ressaltar pesquisas dos fatos que integram as manifestações de 1922 a 1931 no Piauí feito pelo General Moysés Castelo Branco Filho, uma das figuras ilustres da terra piauiense pela dignidade moral, pelo civismo, pela inteligência cultivada, pelo amor ao estudo - professor como raros, matemático acatado, apaixonado da história e dos seus processos de investigação e análise - a sua obra bem comprova a operosidade intelectual e os conhecimentos seguros e sérios de que se compõe a personalidade do autor - para lição de história com a verdade que soube testemunhar e documentar e a pesquisa que a busca da verdade lhe atribuiu para comprová-la, em toda a plenitude. Moysés deixou um vazio enorme quando se despediu desta vida.

Conciso e preciso como narrador, desprezando pormenores enjoativos, o General Moysés Castelo Branco Filho, num estilo simples, linguagem polida e asseada, escreveu livro de contribuição à história do Brasil, para, no meu entender, revelar parte do ciclo militar brasileiro - uma das mais importantes - a que principia em 1922 e que prossegue, depois de desaguar no movimento de 1964.

Livro honesto e sério a "História das Revoluções no Piauí", sobressai nele a fixação dos caracteres humanos dos que participaram nas lutas partidárias no Piauí - cenário de paixões, de choques de personalidades, de prestígio de clãs. O trabalho de Moysés Castelo Branco Filho é contribuição de mérito para que se conheça o processo revolucionário brasileiro.


A. Tito Filho, 07/11/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

BOLINA

Mário Barreto disse que cada palavra, na sua origem, exprimiu, como é natural, o conceito concreto a que foi destinada; mas deste conceito primitivo e único, a palavra, umas vezes por irradiação e outras por encadeamento, passou a significar diferentes objetos; mais ou menos relacionados com o primeiro; nestas novas acepções, umas vezes sucedeu que o uso conservou todas, e outras que esqueceu algumas, dando a outras a preferência, e assim vieram a produzir-se, por esta evolução, duas séries de fenômenos: a mudança de acepção de umas palavras, e o desuso ou morte de outras.

Assim se passou com aperitivo, que na linguagem médica de outrora era purgante (de aperire - abrir). Com o passar do tempo, aperitivo veio a significar abridor de paladar. A significação atual é profundamente conexa com a antiga.

Outras palavras tiveram determinado significado, modificado através do tempo, viveram por certo espaço com o novo significado, e morreram, isto é, saíram da linguagem usual do povo. Foi o que aconteceu, por exemplo, com bolina, substantivo feminino, termo registrado por Morais como o cabo prendedor da vela à amurada para que o navio tomasse o vento de banda. Vento à bolina (Morais) era o vento que o navio tomava de lado. Daí o verbo bolinar ou abolinar, ter vento de banda, e também bolineiro, o navio que dessa forma velejava. Abolinar é o verbo mais antigo e está nesta citação que Magne fez de João de Barros: "A caravela não era boa para abolinar".

De alguns anos para cá, nos dicionários aparece bolina também com o significado de contacto voluptuoso e disfarçado com a mulher, ordinariamente em cinemas, teatros, veículos, ao lado de bolinador (o que bolina), bolinagem (ato de bolinar), bolinar (verbo). Ao que praticava o ato se dava ainda o designativo de O BOLINA, mas no masculino, como se vê deste passo com que Nascentes explicou a mudança de significação da palavra: "Bolina, substantivo masculino, é o individuo que, em veículos, platéias, persegue com contatos desrespeitosos as damas. A expressão evidentemente vem da náutica. Andar a bolina é andar de esguelha ou inclinado para um lado. O vocábulo começou a ter voga a partir de 1892, quando se inauguraram os bondes elétricos. A população do Rio de Janeiro costumava, como divertimento, andar naqueles bondes para ter uma sensação nova. Daí os atropelos e o aparecimento dos bolinas. No Rio de Janeiro, o animal homem sempre procura, no bonde, no ônibus, no cinema, uma mulher bonita e ao lado dela se senta, movimentando braços e pernas, para contactos voluptuosos". Artur Azevedo escreveu referência e esses gestos do buscador de sensações: "E fez, com o cotovelo e com o joelho, trabalho digno de um bolina velho".

Bolina foi termo corrente na linguagem da mocidade de 20 anos atrás. Nos encontros de namorados, na obscuridade das salas de projeção, nas esquinas ou recantos mal iluminados, consistia a bolina em alguns amassamentos ou beliscos meio canhestros. Esses amassamentos ou beliscos ainda vigoram nos dias que correm, talvez até mais intensos e menos protegidos dos olhos do público - mas hoje eles são batizados com outros nomes. Bolina ficou nos dicionários. Desapareceu a palavra da linguagem usual, como tantas outras têm desaparecido.

Escritores e dicionaristas abonaram bolina como gesto voluptuoso:

- "Vai ser medonha a pagodeira, vai ser maior a bolinação" (Afonso de Carvalho - Como o Matuto Viu o Zepelin - Revista da Semana - nº 25 - ano 31).

- "E ainda o raio da velha me bolina" (Emílio De Meneses - Mortalhas - pág. 91).

- "Bolinava mulheres em público" (Laudelino Freire - Dicionário).    

- "A sua mania de bolinar desacreditou-o" (Francisco Fernandes - Dicionário de Verbos e Regimes).

Bolina veio do inglês bowline. Em francês é bouline, no alemão bulien, no holandês boelijne.


A. Tito Filho, 28/03/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

PATOLOGIA SOCIAL

As tevês brasileiras oferecem aos estudiosos os melhores tipos de antropologia criminal. Liguem-se esses aparelhozinhos infernais e observe-se o desfile dos anormais de todos os tipos: adúlteros, falsários, sedutores, trampolineiros, incestuosos e ainda os criminosos políticos, cada qual metido nas infucas da roubalheira cartorial, na legislação casuística, na entrega do Brasil às multinacionais por alguns dólares sujos. Em moda, o seqüestro, fabricante de heróis, o seqüestrado e o seqüestrador.

Byron, Balzac, Galdoni haveriam de banquetear-se com o noticiário das tevês nacionais, para a criação de novos tipos lendários.

Vejam-se os quadros a uma assistência já em estado de neurose e psicose permanente: quedas de avião, choques de trem, desastres e mais desastres de veículos, tráfico de drogas, assaltos a bancos, ação de justiceiros, as rotas de cocaína, contrato de homicídio, estupros, vinganças torpes, roubalheiras, maracutaias, mortes nos hospitais, quadrilheiros, pistoleiros, incêndios, autoridades metidas a sério em entrevistas emprenhadas de asnices. No mais, o maluco roquinirol dos norte-americanos, ou a lambada de calcinhas de fora, a inflação, o sofrimento dos aposentados.

As nossas tevês ofereceram quadros de assassinatos, como na tragédia grega. Vera Fischer já fez uma Jocasta industrial. As obras de Eurípedes, Ésquilo, Corneille estão vivas nos malditos aparelhos de imagem e de som, verdadeiras minas de riqueza inextinguível. A leitura de Os Bandidos de Schiller revela muitas personificações de criminosos que aparecem nas fábricas televisivas de crimes e devassidões.

O dilema darwiniano foi muito bem revelado na fórmula de d'Annunzio para os múltiplos aspectos da sociedade injusta e irresponsável: renovar-se ou morrer.

As tevês nacionais, nos seus noticiários, sem que os seus proprietários desejem, mostram que o corpo social brasileiro se encontra doente. Poucos os gozadores, milhões de sofredores. Ou se renova ou os seus princípios brevemente se varrerão por virtude do protesto das massas. Leiam Zola, em O Germinal, a viva descrição do proletariado aspirando à luz, depois de sofrer durante séculos. Descreve o genial francês a descarga fulminante de eletricidade acumulada em operários em greve. Cenas violentas. E matam, e mutilam os cadáveres dos opressores. No caso, a arte literária, antes da ciência, refletiu a verdade pura e simples de uma massa de grevistas desnorteada pelos sofrimentos.

A tevê brasileira glorifica criminosos vulgares, doentes, criminosos loucos, psicopatas, quando lhes concede a maior parte dos programas noticiosos e com rispidez esquece as vítimas.

A injustiça social, desumana, perversa, se revela. O empresário que paga vinte e cinco milhões de dólares de resgate não explica como ganhou tanto dinheiro, mas não se pode negar que o acumulou com a exploração da fome dos miseráveis, que vegetam por toda parte, escondendo terríveis dramas da fome dos filhos, de resistência debaixo das pontes, de doença que não se trata. É necessário que todos se voltem para a multidão dos desgraçados. O egoísmo alimenta os ricos que se entregam ao ócio e à dissipação, estróinas que são com o luxo e o culto das amantes. Só os desequilibrados conseguem viver do EU. O Brasil está repleto de criminosos: os de colarinho e os descamisados.

Mal alimentado, sujo, doente, pervertido de maus exemplos, o pobre grita. As crianças ignoram a alegria. O pagamento ao operário equipara este ao escravo.

Piedade e justiça, meus senhores. Maiores crimes do que os apresentados na tevê brasileira é o crime da terrível condenação à dor, à miséria, ao opróbrio.


A. Tito Filho, 29/07/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

CRÍTICA LITERÁRIA - I

Teresinha Pereira, patrícia de Minas Gerais, leciona na Moorhead State University, nos Estados Unidos, onde tem desenvolvido uma atividade literária digna de louvores. E de lá me escreve um seguro comentário sobre Maria do Carmo Gaspar de Oliveira. Diz ela:

"Acabo de ler os CADERNOS PSICOLITERÁRIOS 2 que contêm vários comentários, críticas e análises da obra de Maria do Carmo Gaspar de Oliveira e registro aqui as minhas impressões sobre esta coleção tão bem editada.

Começo por citar as palavras do editor.

Maria do Carmo nestas obras revela-se senhora de uma expressão muito própria, individualizada e de uma inconfundível serenidade. O seu dizer é claro e espontâneo, escorregadio e nunca eriçado por termos fora do comum.

Estas palavras são destacadas da apresentação do livro Análise da Obra e usá-las para começar este comentário tem apenas o sentido de estar aprovando a boa crítica de seu editor, Antônio Soares, do Instituto Português, Departamento Editorial.

De minha modesta opinião constou a análise do livro Bosco. E do que eu disse então, gostaria de apresentar aqui algumas frases representativas das minhas primeiras emoções ao conhecer esta mãe poeta que imortalizou seu filho com um punhado de versos memoriosos. O que eu digo nesse artigo sobre o poema intitulado "Seu quarto" foi o seguinte:

A prova de fogo apresenta efeito quando chegamos ao poema "Seu quarto". Nossa emoção inutiliza toda essa capacidade de fazer uma crítica ou uma análise objetiva, que era nossa intenção ao começar a resenhar o livro! É um poema comovedor! Creio mesmo que seja este o melhor poema do livro e é incontestavelmente merecedor de fazer parte de qualquer antologia de poesia internacional.

E agora cito os íntimos versos do poema, que são os mais emocionantes: "... alguns brinquedos/ que eu guardava como lembrança/ de quando você era criança / sua cama, seu travesseiro, / seu lençol, seu cobertor / ainda guardava o perfume / o cheiro do seu corpo / Beijei e abracei tudo com carinho / e saí do quarto".

Tudo o que é profundamente humano, carinhoso e sentimental (no bom sentido) está aí dentro dos versos deste poema, nestas coisas, objetos pessoais que simbolizam a vida inteira de um filho, e de sua mãe.

Os Cadernos Psicoliterários 2, que publicam estas análises da obra de Maria do Carmo Gaspar de Oliveira é um livro muito completo. São cinco os livros comentados neste volume:

Caleidoscópio, de 1983, que contém vinte e sete poemas, breves trechos em prosa, e que foi prefaciado por Antônio Houaiss. A este livro pertence o poema "Império Feminista", irônico, profético, cujas idéias partem da imagem realista simples do presente, para calcular uma visão do futuro, no qual os homens foram eliminados, não por causa do feminismo propriamente dito, mas pela autodestruição de machistas: "Daqui a alguns séculos / (nem precisará disto tudo) / haverá alguns homens-touros / reprodutores / para o Império Feminista / triste império!".


A. Tito Filho, 13/11/1990, Jornal O Dia

domingo, 11 de dezembro de 2011

ALGUMAS NOTAS

Eurico Ferri, o famoso criminalista italiano, ensina muita cousa nas suas lições sobre os criminosos, a arte e a literatura. Quem melhor estudou a vida? A ciência? Ou ciência se serviu da arte e aproveitou-se das suas maravilhosas criações? A arte agiu antes da ciência, principalmente a arte literária. Dante revela na sua poesia inimitável a predominância do fator econômico sobre todos os outros e que a corrupção sempre proveio dos maus governos. O irreverente Camões zomba dos preceitos e registra a vida sexual por um prisma humano. Reage contra o mundo feudal. Cervantes adverte os homens de que não é possível permanecer agarrado ao passado. Creu na influência do meio renovado. Shakespeare inspira-se em temas populares. Descrever as contradições de sua época, o feudalismo e o capitalismo. Faz poesia numa sociedade em transformação. Combate a violência. Não acredita na imutabilidade das cousas. Milton, no PARAÍSO PERDIDO, combate as desigualdades sociais. Moliére zomba dos costumes do seu tempo. Voltaire rebela-se contra os poderosos e a intolerância religiosa. Não suporte os privilégios. Tolstoi arremete contra todas as formas de injustiça.

Na DIVINA COMÉDIA, Dante imagina um sistema feudal e uma classificação dos delitos e das penas. Existem duas espécies de crimes, os de violência e os de fraude. De Shakespeare os juristas e os economistas copiaram lições do maior interesse. O famoso autor é imenso psicólogo. No tempo em que a ciência penal se preocupa com o crime, ele se preocupa com o criminoso e cria os três famosos homicidas shakespearianos, o louco, o nato e o passional, e na sua arte perfeita se juntam observações cientificas rigorosamente exatas.

Arte e ciência prometem o conhecimento da vida, embora a obra de ciência seja impessoal e a obra artística provenha do temperamento de quem a construiu.

As criaturas de Zola ligam-se aos princípios da psicopatologia criminal. A demonstração da grande lei da hereditariedade natural aumentou o horizonte da arte de contribuir para novas verdades cientificas.

Manzoni, em OS NOIVOS, descreve a psicologia coletiva antes da ciência. A mesma cousa Zola faz em GERMINAL.

Ibsen, sempre fecundo, escreve com dados científicos. O PATO SELVAGEM é obra mestre em psicologia política.

Dostoievski sustenta verdades inatacáveis. Os criminosos repugnam o trabalho, tocados de puerilidade e religiosidade. A beleza de CRIME E CASTIGO não foi ultrapassada como crítica social audaciosa.

- Interessante que todos lessem A MACONHA OU A VIDA, de Gabriel G. Nahas. O autor atesta que a droga impede a função pulmonar, diminui a contagem espermática e suspende a resposta imunológica.

- Próximas edições da Academia Piauiense de Letras: MINHA TERRA, MEU POEMAS, de Assis Fortes; A MENSAGEM DO SALMO, de Júlio Romão da Silva; as memórias do ex-governador Rocha Furtado; GEOGRAFIA FÍSICA DO BRASIL, segundo volume, de João Gabriel Baptista; e história da música no Piauí, de Cláudio Bastos.

- A droga não é a causa, mas conseqüência. Não adianta destruir maconha, cocaína e heroína. Adianta que a sociedade deixe de ser irresponsável e dê oportunidade aos jovens que lutam por um lugar ao sol. Sim, basta que as mulheres voltem ao lar, não de madrugada, mas que nele permaneçam, sustentando-o de afeto constante para os filhos, e cuidando dos serviços domésticos.


A. Tito Filho, 12/05/1990, Jornal O Dia

domingo, 20 de novembro de 2011

LIVROS

Carlos Araújo já deu vazão mais de uma vez à sua vocação literária, mas nunca através de um romance. A história tem a ver a sua vida profissional e, ao mesmo tempo, é pura ficção.

Diversos incêndios de origem desconhecida vêm destruindo grande parte da Amazônia e da mata atlântica, com trágicas conseqüências sobre a ecologia. Quem os provoca? Até que ponto as grandes potências estariam experimentando armas sofisticadas - com base em energia térmica transmitida por raios laser - nestes locais, com os resultados que todos conhecemos? E que fazem as nossas autoridades? Ignoram ou participam do escândalo?

Operação Thermos - Amazônia sugere uma hipótese plausível. Mesmo porque, nessa narrativa, nada é impossível.

Um coronel do Exército brasileiro se lança em missão Internacional secreta para salvar da falência um fabricante de armamentos numa operação em que os brasileiros querem o dinheiro, os americanos precisam de um campo de provas, os russos querem impedir a realização dessa experiência que será mais um passo na famosa Guerra nas Estrelas e finalmente há o amor a nível internacional movimentando uma história que poderia ser verdadeira se não fosse inventada. De quebra, a cessão de uma grande área da Amazônia como campo de provas.

Utilizando a sua experiência, o autor nos faz viajar por diversos países onde se desenrola a ação, num jogo de interesses das grandes potências, que demonstram completo desdém pelos países do terceiro mundo.

As aventuras do coronel Pinaud são de estarrecer, porém mais inesperado e surpreendente é o final da história. Vale a pena...

Carlos Araújo nasceu em Salvador, Bahia, e reside no Rio de Janeiro. Especialista em advocacia internacional, sua atividade se estende por muitos países, cujas línguas fala, algumas mais complicadas, do tipo croácio, esloveno, russo e outras, normais, tipo alemão, francês e inglês. Leitor assíduo de revistas especializadas, tipo Jane's assim travou conhecimento com o mercado de produtos de defesa - sofisma consagrado internacional para material bélico.

Desta ação, Carlos Araújo partiu para a sua vocação, a de redigir fatos e causos, sempre com a mesma dedicação, a mesma vontade de acertar e de conseguir o sucesso que obteve em outras carreiras. De admirar, apenas, que tardado tanto este seu primeiro romance. Mas o próximo já está bem adiantado...

Antes, publicou um livro de poemas, O Inimigo Oculto, e outro, de ensaios, Macumba. 


A. Tito Filho, 17/07/1990, Jornal O Dia

domingo, 2 de outubro de 2011

O SAUDOSO BAMBA DA ZONA

Desviaram-se os concludentes da Faculdade de Direito do Recife, 1908, por causa da escolha do paraninfo - e os desavindos tiveram dois quadros de formatura. Num deles, piauienses - Simplício de Sousa Mendes, Corinto Andrade e José de Arimathéa Tito. O paraibano José Américo de Almeida participou de outro quadro.

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Meninote, chegava eu a  Teresina no velho caminhão de Juquinha Santana, carga e passageiros juntos, ano de 1933. No pontão do rio Poti, pois não existia ponte de madeira ou de cimento, tinha-se notícia do gesto do professor Leopoldo Cunha, que atingiu com duas balas de revólver o desembargador Simplício Mendes, na praça Rio Branco. Minha meninice deu pouca importância ao caso. No ano seguinte, sob a presidência do juiz José de Arimathéa Tito, o atirador teve absolvição unânime pelo Tribunal do Júri. Advogado do réu, o próprio pai Higino Cunha, intelectual brilhante e mestre, modesto e honrado, que, lida a sentença, ajoelhou e beijou a mão do magistrado, como homenagem à justiça. Cena comovente na sala do julgamento.

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Ano de 1938, meu pai José de Arimathéa Tito chegou ao Tribunal de Justiça, passando a compor o colegiado juntamente com Ernesto José Batista, Cristino Castelo Branco, Adalberto Correia Lima, Esmaragdo de Freitas e Sousa e Simplício de Sousa Mendes - fase áurea da corte piauiense. Disputada a vaga, não se aproveitou na lista de promoção, o juiz Eurípedes Melo, irmão do interventor federal Leônidas Melo, que se vingou de três desembargadores, aposentando-os pela violência e, com o ato, liquidando a credibilidade e o respeito do Tribunal. O castigo recaiu nos que votaram contra Eurípedes, os magistrados Esmaragdo, Simplício e Arimathéa - unidos agora numa luta sem trégua contra o autor da prepotência.

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Em 1947, depois de cinco anos no Rio de Janeiro, regressei a Teresina, época em que comecei a aproximar-me de Simplício, jornalista de intensa atividade. Tinha ele o prestigioso apelido de bamba da zona - ou porque não rejeitasse desafio dos adversários políticos, ou porque fosse autoridade na espetacular conquista de quengas dos mais variados feitios, nas zonas respectivas da cidade, especializado na mulataria apetitosa.

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Coma morte de meu pai, em 1963, mais me liguei a Simplício. Tornei-me auxiliar seu na Academia Piauiense de Letras, no Conselho Estadual de Cultura, na Casa Anísio Brito (biblioteca, arquivo e museu do Estado). conheci-o de perto. O mestre apreciava cousas bem feitas. Desfrutava de muito prestígio pessoal. Melhorou sempre as entidades cuja direção lhe eram confiadas. Culto. Bom amigo. Lutador sem medo. Estudioso, em "O Homem, a Sociedade, o Direito", publicado em 1934, pareceu profeta da agonia universal: "Estará, sempre, como lastro, o império das ambições desenvoltas, pelo culto de um individualismo a outrance, originando o poder incontrastável do capitalismo, a exploração do homem pelo homem e o desconhecimento ou o desprezo das mais preponderantes diretrizes da solidariedade social".

De vício, Simplício cultivava somente rabo-se-saia.

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Aos 86 anos de idade, o notável intelectual esteve em Congresso Nacional de Conselhos de Cultura, no Rio. Na ilustre companhia de Simplício, eu e Fontes Ibiapina. Faleceria a de janeiro de 1971.

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Lili Castelo Branco, no seu modo gostoso de contra, relembra episódios da vida de Simplício de Sousa Mendes. Uma beleza a narrativa simples e cativante reproduzida depois de ouví-la da protagonista. A escritora pôs no papel a figura do famoso jornalista e cultor da ciência jurídica, administrativa de órgãos culturais e incentivador da vida intelectual de Teresina - sem esquecer o amante incorrigível de dezenas de mulheres bonitas - donzelas, casadas, desquitadas, amarradas, viúvas, que lhe povoaram e realizaram os sonhos de noites fogosas em camas perfumadas.

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Nunca esquecerei o velho amigo, o saudoso bamba da zona - mestre do Direito, do jornalismo, do trabalho produtivo e do ideal de paz e justiça social - e mestre de amores maravilhosos, como ele confessou e da forma que o mostra a pena inteligente e afetiva de Lili Castelo Branco.


A. Tito Filho, 01/11/1990, Jornal O Dia

sábado, 1 de outubro de 2011

BIACADÊMICO

Carlos Castelo Branco contou, neste falecido mês de junho, como faziam os índios, setenta castanhas na sua vida vitoriosa. Publicou, além de um livro de interpretação politica, "Continhos Brasileiros" e o romance "Arco do Triunfo". A persistente atividade jornalística, de invulgar brilhantismo na análise de homens e episódios, abriu-lhes as portas da Academia Brasileira de Letras: "Chego à Academia como jornalista", disse ele ao tomar posse no mais cobiçado sodalício do país.

Observador penetrante, ora tímido, ora revoltado, misterioso ou controlado, sempre põe a nu a imagem dos instantes precários e dos ricos em respeito ao homem. Sabe clarear caminhos, denunciar mistificações e advertir os incautos e desinsteligentes. Não usa enfeitações. Ensina nas entrelinhas aos bons de entendimento. Muita claridade no estilo. Odylo Costa, filho, considerou-o a primeira voz do jornalismo político brasileiro. Efetua o jornalismo-história, o que exige isenção e abole atitudes passionais. Honesto e corajoso. Não azinhava a consciência na bajulação.

Quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, telefonou ao pai, o magnífico Cristino Castelo Branco, caráter sem nódoa, e disse, revivendo a criança que está na gente o tempo todo:

- Papai, eu fui eleito.

Cristino orgulhou-se do triunfo do filho, que era também o triunfo do pai, cuja presença de Deus se avizinhava, não era permitido que ele, carregado de mais de noventa anos, assistisse à posse do novo acadêmico.

Dois piauienses e um quase-piauiense haviam atingido a Academia Brasileira de Letras: José Félix Alves Pacheco, Deolindo Augusto de Nunes Couto e Odylo Costa, filho, os dois primeiros nascidos em Teresina. Antes do vôo mais alto, porém, ingressaram na Academia Piauiense de Letras. Partiram da Casa de Lucídio Freitas para a casa de Machado de Assis. Mestre Carlos praticou o contrário: ingressou na modesta e humilde Academia Piauiense de Letras depois da conquista da outra, a Brasileira. Quis ser fiel à lição de Cristino Castelo Branco: "A Academia da terra natal é sempre a melhor das Academias".

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Na Academia Piauiense de Letras outros pertenceram a duas Academias: Clodoaldo Freitas (Maranhense), Alarico da Cunha (Maranhense), Jonas Fontele da Silva (Amazonense), Taumaturgo Sotero Vaz (Amazonense), salvo falha memória.

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Em Carlos setentão existe outra imensa virtude: o amor a Teresina. Numa de suas visitas recentes À cidade natal escreveu: "Hoje é quase estranha para mim. Na parte antiga movimento os meus fantasmas e onde me sinto a vontade, quando passo por lá, para dialogar com elas".

Sim, já não existem os bairros de forrós, cheirantes ao suor da mulatiçe gostosa das mulheres teresinenses. Do buraco da Velha, dos Cajueiros, da Catarina resta a visão doce e evocativa como se fora poesia do coração chorando.


A. Tito Filho, 21/07/1990, Jornal O Dia

CUNHA E SILVA

Francisco da Cunha e Silva nasce na terra piauiense de Amarante. Era 3-8-1904. Cursou o Colégio Bento XV de Teresina. Fez humanidades no Colégio Salesiano Santa Rosa, de Niterói, no Estado do Rio. Escolheu a carreira eclesiástica, matriculou-se no Colégio Salesiano São Manuel de Lavrinhas, São Paulo, também seminário, em que fez estudos superiores de filosofia e latim. Sem vocação para o sacerdócio, seguiu outra destinação. Casou-se na antiga capital da República. Em 1927, fixava-se em sua cidade natal. Iniciou-se no magistério de português, história e geografia. Em Amarante, fundou o educandário Ateneu Rui Barbosa. A partir de 1947, estabeleceu-se em Teresina, quando subiu ao Governo do Piauí o médico José da Rocha Furtado, eleito pela antiga União Democrática Nacional. Antes, em 1935, acusado, processado, teve condenação como comunista pelo extinto Tribunal de Segurança Nacional. Cumpriu mais de um ano de prisão na antiga e demolida penitenciaria da capital piauiense.

O novo governo lhe confiou uma cadeira de geografia no Colégio Estadual, antigo Liceu. Passou também a colaborar na Imprensa, sem remuneração de qualquer natureza. Militou em quase todos os jornais: "O Piauí", "Resistência", "A Gazeta", "O Tempo", "O DIA", "Jornal do Piauí", "A Luta", "O Pirralho", além de revistas noticiosas e literárias.

Não permaneceu muito tempo nas hortes da UDN. Era jornalista de linguagem forte, por vezes agressiva. Rompeu com o governador Rocha Furtado. A politica da época não aceitava rebeldias. A punição se fazia necessária e rigorosa. Os que se rebelavam perdiam o emprego público, tivessem ou não responsabilidade de família. Perdeu a cadeira de que tirava o pão de cada dia.

Pobre e carregado de filhos pequenos, sem casa própria, Cunha e Silva padeceu severa adversidade. Ajudavam-no alguns amigos e colegas. Conheceu de perto duras e pesadas aflições. Mas não dava tréguas ao governo. Escrevia artigos contundentes e violentos contra o governante e seus auxiliares.

O Partido Social Democrático, de oposição, deu-lhe modestíssimo lugar no antigo Fomento Agrícola. Trabalhava na Granja Pirajá, bem distante de sua residência, percurso que ele fazia a pé. Brevemente se aborreceu do emprego e largou-o para suportar novas e pesadas vicissitudes. Ganhava pouquíssimo em estabelecimentos particulares de ensino, dando aulas desde que o dia principiava até de noite.

Tinha animo forte. Nunca abaixava o topete. Com a subida de Pedro Freitas ao governo, candidato de oposição a Rocha Furtado, mereceu duas cadeiras no magistério do Colégio Estadual e da Escola Normal. Passou a ganhar sofrivelmente. No governo Petrônio Portella, foi escolhido para cargo em comissão, de diretor da Casa Anísio Brito, que reunia o Arquivo, a Biblioteca e o Museu do Estado. Exonerou-se, dentro de pouco tempo, das funções, para prestar solidariedade a amigo desavindo com o governador.

Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico Piauiense. Em 1975, ingressou na Academia Piauiense de Letras. Publicou a tese "O Papel de Floriano Peixoto na Obra da Proclamação e da Consolidação da República", para a realização de um concurso de professor, em que foi aprovado. Mais dois livros seus foram publicados pela sua instituição acadêmica: "A República dos Mendigos", romance de caráter político, e "Copa e Cozinha", de estudos sociais e históricos.

Os anos começaram a pesar-lhe no organismo sofrido de muitas lutas. Não arrefecia, porém. Escrevia e lecionava. No governo Chagas Rodrigues teve a nomeação como diretor do Colégio Estadual. Depressa deixou as funções em protesto contra juiz de direito da capital que concedeu mandado de segurança a um professor por ele punido.

Os princípios da velhice e depois a velhice fizeram que serenasse mais as atitudes. Disciplinou-se. Muito sofreu, mas muito se realizou combatendo os poderosos sem temer violências ou perseguições.

A 21 de janeiro de 1990, pelas três horas da madrugada, o companheiro rebelde fechou os olhos a este mundo que lhe foi muito ingrato, cujas injustiças ele combateu com energia e coragem. Despediu-se o velho mestre, deixando a lembrança de um forte temperamento e de invulgar capacidade de escrever sobre assunto vário. Como quis, jaz no cemitério da sua querida Amarante.


A. Tito Filho, 01/03/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

AINDA FOLCLORE

Fontes Ibiapina se realizou no difícil trabalho da obra de ficção, embora eu descreia da obra de ficção e acredite em que os escritores, nos contos e nos romances, reproduzam fatos e episódios da vida, inclusive aqueles de que foram intérpretes. E quando o escritor não copia a vida, produz a obra literária com adaptação de lendas e tradições populares. O "Fausto", de Goethe, promanou de um conto popular. O "Dom Juan" tem origem folclórica. Rabelais inspirou-se na lenda de gigantes gauleses para a criação de "Gargantua". Gustavo Barroso observa muito bem que os temas dos povos são, em grande parte, o berço das literaturas.

Produzindo esforçadamente, numa terra em que vale sacrifício o trabalho da inteligência apurada, Fontes Ibiapina enriqueceu, dia por dia, o patrimônio intelectual do Piauí. Os seus livros de contos, os seus romances fixam tipos, costumes, linguajar deste pedaço regional brasileiro. Vai às fontes das manifestações da alma popular, recolhe a sabedoria das comunidades, a sua expressão espiritual, os seus sofrimentos, e faz o livro de fixação, como se estivesse em pintar quadro dos mais sérios e dos mais graves e vivos. O homem de letras comunica-se por dois modos fundamentais: ou concebe a mensagem, reformando o pensamento existente, derribando preconceitos, sacudindo estruturas, ou faz da paisagem social cópia integral, a própria mensagem artística. Assim Fontes Ibiapina: a sua mensagem se encontra na poderosa inteligência de observação para fixar p meio e o homem que nele habita.

O livro de Ibiapina "Congresso de Duendes" reúne estórias de gente e principalmente estórias de bichos. De bichos, ou composição de fabulário, de que se extrai a indicação moralizadora, ou substrato do conto, que se cifra no vestígio sobre a figura humana do acontecido com a alimária em que ela se metamorfoseou. Há, na concepção de Ibiapina, verdadeiro conjunto de manifestações populares incorporadas, representativos das crendices mais fortes da coletividade piauiense.

Um grande folclorista adotou a tese de que os contos populares têm asas: eles voam através dos continentes, das raças e dos séculos. O folclore é um só.

O folclore poderia dizer-se a história moral do homem, como insinua Câmara Cascudo. Melhor é identificá-lo como a história natural das coletividades, da sua alimentação, dos seus tabus, das suas orações, dos seus ritos, da sua vida diária, para o reconhecimento da cultura como conjunto de normas sociais de que participamos.

Daí porque o trabalho do escritor, quando procura a fonte folclórica com sustento do livro, há de compreender as manifestações populares no campo em que elas se manifestam, para anotar-lhes as variantes e oferecer a fisionomia da realidade cultural. Não se pode reproduzir o folclore na sua universalidade, apenas. É necessário entendê-lo como a ciência do homem comum, a preocupação de Ibiapina, para projetá-lo no quadro da vida urbana e da vida rural, - como contadores de estórias de bichos, reproduzidas de gerações em gerações, como personagem de novelas de amor, de heroísmo, como personagem de facécias, de cenas de bravura para lavação da honra ofendida, sempre respeitoso com a mulher, - objeto das preocupações do macho numa terra de preconceitos, e mais: como personagem da violência de um mundo que o prepara para o ódio e para a vingança - o ódio e a vingança sugeridos e provocados pelo desequilíbrio dos processos da vida social.

Ibiapina utilizou-se dos bichos para ironizar os poderosos de desvirtudes políticas, e serve-se dos homens sem destino para que estes interpretem o drama das suas comunidades, nas quais os instintos não vivem, nem é possível que sobrevivam as outras estruturas da personalidade.


A. Tito Filho, 01/12/1990, Jornal O Dia