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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

CORONÉIS

Acabo de ler Império do Bacamarte, de Joaryvar Macedo, das mais aplaudidas afirmações da literatura cearense dos dias que correm. Trabalho curioso e sério, estudo de sociologia e de processos políticos de história do Ceará, sobretudo da região do Cariri. Bacamarte e punhal participavam dos episódios de domínio e de sangue, quer o livro retrata com grande fidelidade de observação.

Outros livros me encantaram de ensinamentos no tempo de sua leitura, como Heróis e Bandidos, doutro cearense leal às letras históricas e sociais, Gustavo Barroso, e Coronelismo, Enxada e Voto, de Vítor Nunes Leal, jurista punido pela quartelada de 1964, quando honrava o Supremo Tribunal Federal, e estudioso de homens de costumes políticos interioranos.

A obra oportuna e importante de Joaryvar Macedo fez que eu, neste escrito de jornal, convoque conterrâneos de talento para a escritura da história dos coronéis do Piauí, nos tempos coloniais, no Império e na República, e são muitos, os donos da gadaria e depois os latifundiários da monocultura. Da forma que se verificavam noutras terras, os assassinos de modo geral caracterizavam a violência dos poderosos, cujas riquezas em animais e terras se conservavam pelos casamentos de parentes, no interior do clã familiar. Imperdoável, sem o casamento, a desvirginização das donzelas. Os garanhões se casavam com a deflorada ou perdiam o aparelho sexual, pela capação sem dó nem piedade.

Ainda não se escreveu a história do coronelismo no Piauí nem dos coronéis orgulhosos do mando e da impunidade, sempre dois em cada área da política partidária, a do governo e a da oposição, vivendo ambos num mundo selvagem.

Conheci alguns coronéis célebres, homens que criam em Deus, corajosos e as mais das vezes de elevados sentimentos humanos. Igualmente nãos e valiam de gestos de perversidade. Respeitavam os adversários. Respeito recíproco. Intransigentes, porém, nas inimizades políticas, sem que transigissem nas determinações de consciência e de vontade. Alguns coronéis que conheci possuíam a virtude do sacrifício. Tinham bens patrimoniais herdados e conservados pelo trabalho profícuo. Aos amigos da paisagem social, eleitores de cabresto, de cega obediência aos ditames do chefe, forneciam-lhes roupa, calçados, hospedavam na própria residência os caboclos dos povoados, mulheres e filhos, assistindo-os na doença e nos remédios.

Creio que o coronel do Piauí difere do coronel de outros cenários importantes, talvez por causa do criatório de sociedade com o vaqueiro.

Acho que está no tempo de que se conte a história dos coronéis piauienses, os nascidos aqui ou que aqui sentaram o rabo na rapadura e se enfeitiçaram da terra.

Coronéis, que conheci quando deles se aproximava a viagem derradeira, foram Chico Santos, Joaquim Leitão, Lourenço Barbosa, Chico Alves Cavalcante, Manoel Nogueira, Manoel Lages, José Nogueira de Aguiar, Joaquim Gonçalves Cordeiro, Manoel Costa, Antenor de Castro Rego, Orlando Carvalho, Rocha Neto, Miguel Oliveira, João Ribeiro de Carvalho, Paes Landim e alguns outros, que a memória no momento não ajuda a repetir. Conheci pessoalmente os acima referidos. Homens de fibra. Fiéis aos compromissos partidários. Às vezes dois lutavam na mesma área, e onde um estivesse, o outro estaria no lado contrário.

Alguns assuntos, neste Piauí, dariam grandes obras literárias, ou estudos históricos, como o romance dos primeiros desbravadores de caminhos para o caminhão, os tipos femininos na vida literária e na história e ao final os coronéis piauienses, com suas virtudes e desvirtudes.


A. Tito Filho, 24/09/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

SUPERIORIDADE E INFERIORIDADE DOS POVOS

A questão da superioridade dos povos, ou das "raças", tem apaixonado espíritos de valor nos domínios da ciência. Aos dolicocéfalos loiros atribuiu-se o privilégio da raça superior, destinada a cumprir uma missão civilizadora especial. Difundindo teorias de inexatidão científica comprovada, homens como Gobineau "promoveram a eclosão de preconceitos de raças".

Bem fácil de notar é que a ciência é infensa aos preconceitos.

"Onde quer que o grupo branco resida, por uma concorrência de circunstâncias políticas invencíveis, imerso nos gelos polares, ou sob o calor do Equador, para esse lado se inclinará o centro de gravidade do mundo intelectual. Será em torno dele que todas as idéias, todas as tendências, todos os esforços convergirão, não havendo obstáculos naturais capazes de obstar que os produtos de conveniência a mais longínqua possível, ali cheguem, através dos mares, dos rios e das montanhas" - foi a proclamação de Gobineau, estabelecendo a superioridade do “homem louro de olhos azuis".

Nos seus quatro volumes sobre "Desigualdade das Raças", Gobineau se revela apenas um romancista em matéria de antropologia.

Segue-lhe as pisadas, com as suas duas "raças" humanas da Europa, George Vacher de Lapouge. Para ele existiriam uma "raça" de conquistadores e de senhores, os arianos, e outra "raça" de vencidos e de escravos natos, os celtas, ambas físicas e moralmente distintas. À primeira pertencem a terra e a genialidade da inteligência; a segunda há de conformar-se com a mediocridade.

Expondo as falsas bases do raciocínio, Novicow, no seu "O Futuro da Raça Branca", desenvolve magistrais considerações como as que vamos resumir: Lapouge afirma que os anglo-saxões construíram um dos maiores impérios do mundo, o que confirma a sua superioridade racial. E para demonstrar a inferioridade dos latinos, diz ele que os franceses foram vencidos em Sedan. Se Lapouge houvesse escrito sua obra em 1811, teria chegado a uma conclusão precisamente contrária, pela razão de que, tendo os franceses vencido todos as povos da Europa, passariam, fatalmente, a ser raça superior. Desta forma, após cada batalha se modificariam todas as conclusões da antropologia. A 17 de junho de 1815 os franceses teriam sido superiores para em 19, depois de Waterloo, o deixarem de ser.

Não é sério acreditar em tanta inconsistência de argumentos.

Faguet chega a afirmar que a civilização até agora apenas tem sido feita pelos brancos. A cor, na crença do pensador francês, é o único fator da civilização. Tão frágil assertiva pode ser assim destruída: se civilização e raça fossem noções idênticas, as raças mais perfeitas teriam sido as primeiras a civilizar-se. E que faziam os famosos dólico-louros na Europa Ocidental na época em que os caldeus, egípcios e chineses desenvolviam civilizações já relativamente muito recentes? Os dólico-louros existiam na Europa já na época dos primeiros faraós e não sabemos como é que estavam tão atrasados, apesar das suas faculdades extraordinárias. Durante muito tempo os nobres dólico-louros mostraram-se completamente bárbaros, sendo os visbraqui-castanhos já bastante civilizados.

Vislumbramos em Spengler o mesmo erro em que muitos incorreram quando, no "O Homem e a Técnica", tende a estabelecer entre os homens uma distinção fundamental: a classe dos que dirigem e a classe dos que são dirigidos. O trabalho coletivo exige "não só duas espécies de técnica, mas duas espécies de homens... existem homens nascidos para mandar e homens nascidos para obedecer, sujeitos e objetos do processo econômico".

Não é justo deixar de admitir que o trabalho coletivo exija dos homens que dirijam e que são dirigidos. mas daí a afirmar-se que uns nascem para mandar e outros para obedecer, vai grande diferença. "Governar - afirma Spengler - guiar, comandar é uma arte, é uma técnica difícil... pressupõe um talento inato".


A. Tito Filho, 20/05/1990, Jornal O Dia