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domingo, 5 de fevereiro de 2012

O AUTOMÁTICO

Existia um prédio grandão em Teresina, andar térreo, linhas severas, projetos de Luís Mendes ribeiro Gonçalves. Nele funcionava, na rua Coelho Rodrigues, a Faculdade de Direito; defronte da praça Deodoro, a Diretoria da Fazenda; com frente para a praça Rio Branco, a Diretoria das Obras Públicas; e ao lado da igreja do Amparo, a Chefia de Polícia.

O governo mandou derribar a construção e no lugar pretendeu fazer um edifício que abrigasse as secretarias e outros órgãos. Faltou dinheiro. O esqueleto do espigão levantado, feio, debaixo de sol e chuva. Resolveu-se vender o troço ao Ministério da Fazenda, que concluiu o edifício e nele se encontra instalado.

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Foi bom. Eu era molecote, estudante de ginásio, e assisti a solenidade inaugural do telefone automático de Teresina. O povo entusiasmado aplaudiu o acontecimento. Sinal de progresso e de civilização, embora a capital piauiense ainda fosse pouco populosa.

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Eleito pela Assembléia Legislativa governador do Estado, o médico Leônidas de Castro Mello assumiu o exercício das elevadas funções a 3 de maio de 1935, disposto a realizar amplo e oportuno programa nas mais diversas esferas administrativas.

Em fins de ano deu posse, abriu o Poder Executivo concorrência pública para o serviço telefônico de Teresina, a que habilitaram duas empresas idôneas, a Companhia Brasileira de Eletricidade Siemens Schuckert S. A., e a Sociedade Ericsson do Brasil, vencedora a primeira, de acordo com parecer de comissão julgadora aprovado pelo governante.

Pequeno atraso nas obras não permitiu que o grande melhoramento se inaugurasse nas festas comemorativas do segundo aniversário do governo Leônidas Melo, a 3 de maio de 1937, verificando-se poucos dias depois, a 17, pelas 19 horas, na sede da antiga Diretoria das Obras Públicas, que dava para a praça Rio Branco.

Deve recordar-se que, na época da introdução do telefone automático em Teresina, muitos se utilizavam do aparelho para o que se denominava trote: ligava-se para senhores ou senhoras conhecidos ou importantes e transmitiam-se boatos prejudiciais, noticias espalhafatosas, xingamentos ou ditos pornográficos - circunstância que levou o Diário Oficial do Estado, edição de 20 maio de 1937, a publicar o seguinte aviso urgente da Diretoria das Obras Públicas: "O Serviço Telefônico avisa que em virtude de abusos verificados por muitas pessoas que se utilizam dos aparelhos, resolveu controlar o serviço de ligações. Por esse controle verificará de quais partem tais abusos. Os mesmos serão desligados e o assinante perderá a caução e terá o nome publicado no jornal".

O governador Chagas Rodrigues assumiu o poder a 31 de janeiro de 1959. Enfrentou o problema da paralisação dos serviços telefônicos de Teresina e resolveu-o.

Foi adiante. Propôs à Assembléia Legislativa a criação de empresa estatal que implantasse, explorasse e dirigisse a telefonia em todo o Estado. Com este sentido, sancionou a Lei 2.060, de 7 de dezembro de 1960, criando-se a Telefones do Piauí S/A - TELEPISA, juridicamente constituída em 22 de novembro de 1965, no governo de Petrônio Portella Nunes, quando houve a respectiva assembléia geral de constituição, aprovaram-se os estatutos e elegeu-se a primeira diretoria.

A. Tito Filho, 25/11/1990, Jornal O Dia

sábado, 28 de janeiro de 2012

QUASE CAPITAL

O primeiro governador do Piauí, militar português, chamou-se João Pereira Caldas. Assumiu o poder a 20 de setembro de 1758, na Vila da Mocha, denominação que por Oeiras, a 13 de novembro ele substituiu de 1961, em homenagem ao conde de Oeiras, que depois seria marquês de Pombal. O governante esteve à frente da administração até 3 de agosto de 1769, quase dez anos.

Os governadores não gostavam da velha capital, situada num terreno seco e estéril, cerca de trinta léguas distante do rio Parnaíba. Cogitou-se da mudança da sede administrativa, a princípio, para São João da Paraíba. Uma lei de 1844 determinou que fosse mudada para a foz do riacho Mulato, no Parnaíba, o que não se verificou. Outros diplomas legais cogitaram do assunto, sem resultado, até que a resolução da Assembléia Provincial 315, de 21 de julho de 1852, sancionada pelo presidente José Antônio Saraiva, transferiu a capital para a Vila Nova do Poti, elevada à categoria de cidade com o nome de Teresina.

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Com a República, o primeiro governo do Piauí foi exercido por uma junta composta de militares e logo depois acrescida de ilustres civis, até que o Deodoro da Fonseca nomeou como governador o notável Gregório Taumaturgo de Azevedo, nascido na cidade piauiense de Barras, militar, engenheiro, bacharel em direito, fundador da Cruz Vermelha Brasileira e que em seguida governaria o Amazonas.

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Taumaturgo veio assumir o governo viajando por Parnaíba, onde povo e autoridades o receberam com festas preparadas por uma comissão de pessoas de prestígio.

A comissão e grande massa popular dirigiram-se ao palacete da hospedagem do governante e a este entregaram mensagem, gravada em seda, com letras douradas, em que se pretendia a mudança da capital para a cidade de Parnaíba. O governador fez promessa solene de atender o pedido, mas foi contrariado por um telegrama urgente de Deodoro da Fonseca que determinou, de modo irrevogável a permanência da capital em Teresina - por esta forma rezam as crônicas da época.

Não encontrei as razões que levaram Deodoro à atitude severa expressa na comunicação telegráfica.

Gregório Taumaturgo de Azevedo, o primeiro governador republicano do Piauí, foi um homem de bem e de honestidade inatacável. Ocupo na Academia Piauiense de Letras a cadeira 29, que tem como patrono. Assumiu o governo a 26 de dezembro de 1889 e deixou-a a 4 de junho de 1890. Caiu do poder em virtude de pressões da politicagem local. Faleceu no Rio, ano de 1921.

Se Deodoro da Fonseca não houvesse adotado a enérgica providência determinada no telegrama, a capital do Piauí seria em Parnaíba. Os teresinenses devem muito ao proclamador da República, o tem homenageado numa das principais praças da capital, a praça Marechal Deodoro, local em que nasceu Teresina, onde se situava o palácio governamental, o primeiro prédio, a igreja do Amparo pelo mestre-de-obras João Isidoro da Silva França, português de nascimento e braço direito do fundador da cidade que lembrou com o nome de imperatriz Teresa Cristina, os tempos do Império brasileiro.


A. Tito Filho, 15/11/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

ALEIJAMENTO

Um dia o governador Dirceu Arcoverde me pediu que fosse conversar com ele no palácio governamental de Carnaque. Pretendia que eu escolhesse dezesseis poemas de Da Costa e Silva para os dezesseis painéis da bonita praça que estava construindo à beira do Parnaíba com o nome do poeta piauiense. Segundo Burle Marx, o notável paisagista, as poesias deveriam ser entendidas pelo povo, pela plebe ignara. Tarefa difícil. Tive que reduzir alguns, com o aproveitamento do essencial. O projetista citado sugeriu que houvesse uma espécie de seqüência racional nas concepções do escritor. Assim comecei com os poemas de fé, passei ao amor materno, à terra natal, aos cenários piauienses e à saudade, quando Da Costa e Silva se encontra em Recife. E ainda, de ordem do governador, viajei à capital pernambucana para a confecção dos painéis em que se inscreveram as poesias.

Praça de grande beleza, com o coretinho dos tempos antigos. Hoje, o recanto está transformado em motel ou bordel, casais nus embaixo dos céus e a veadagem campeando solta.

A praça Rio Branco, o antigo jardim em que as famílias passeavam de noite, reformada por um prefeito sério nos idos de 1936, Francisco do Rego Monteiro, passou a mercado público, suja, maltratada, nódoa na cidade mutilada. De modo semelhante se vê a praça João Luís Ferreira, onde se vendem panelada e outras iguarias. Nenhum resquício de higiene nesses restaurantes populares. Que se fez da praça de Dom Pedro II, outrora tão plena de romantismo, em que as garotas se entregavam ao gostoso namoro dos olhos com os jovens casadoiros? O logradouro de tantas recordações expressivas transformou-se [em] campo de homossexuais e de viciados na cachaça e na droga, espetáculo de degradação e amoralização. A praça Demóstenes Avelino se encontra deturpada, com um prédio no centro, dito Frigorifico do Piauí, de propriedade de empresa particular. Criou-se uma prainha, ao longo da avenida Maranhão, cenário de constantes crimes de agressão e morte.

O abandono das atividades agrícolas e da pecuária fez que milhares de piauienses, machos, fêmeas e numerosa prole deixassem o campo em busca de empregos inexistentes ou biscates humilhantes, e cada dia aumenta a legião dos famintos e das garotinhas de 12 a 15 anos entregues À prostituição nas favelas que cercam a cidade que José Antônio Saraiva Fundou tranqüila, pitoresca e afetiva. Áreas rurais desabitadas e Teresina crescendo fisicamente de modo alarmante o que gera conflitos com os donos de terra e mais do que tudo promove a favelização da cidade, cercada de conjuntos habitacionais desumanos, num sistema de promiscuidade que fere a personalidade dos que vivem nessas casas miseráveis e vendidas por preços exorbitantes.

Teresina vale uma cidade violenta, deseducada, de milhares de indivíduos andrajosos, em que ainda se usam sentinas de buraco e milhares moram em casa de taipa em convívio com BARREIROS, os da moléstia de Chagas. Alguma percentagem pequeníssima vive a tripa forra, em gritante afrontamento aos miseráveis que enxameiam por todos os lados. O desnível da renda individual espanta, enraivece, pela brutalidade das diferenças. Enquanto deputado e desembargador, cada qual ganha mais de milhão, milhares de filhos da pátria não chegam a quatro mil cruzeiros mensais. Brutal o confronto. Não cabe dúvida: Teresina corresponde a uma sociedade doente, perversa, porque injusta e insensível.


A. Tito Filho, 11/11/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

FAVELIZAÇÃO

Dezenas de cidades brasileiras do interior serão fantasmas dentro em alguns anos, pois as respectivas populações diminuem, cada dia. Famílias inteiras buscam grandes centros de agitada vida social, surgindo as megalópoles, sempre despreparadas quanto a planejamento para que possam abrigar, em pouco tempo, milhares de novos habitantes. Típico o exemplo de Brasília. Nacional o problema de inchação demográfica, sobretudo nas capitais, em que o espaço urbano se torna angustiado para veículos fumacentos e pessoas perambulantes e ociosas, que, ao deus-dará, secam mais ainda cambitos, fisionomias cansadas, em busca do nada. Nos grandes centros populacionais brasileiros prevalecem os espigões ou arranha-céus sem conforto e sem segurança para os afortunados. Nos bairros residenciais há o exibicionismo das mansões de muitos quartos, terraços e banheiros.

Trata-se do luxo ostentatório, ao lado de casebres de taipa, de palha, com privadas de buraco. São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza, Teresina e outras, tornaram-se, em três ou quatro décadas, inabitáveis, por efeito de criminosa especulação imobiliária e da fuga de milhares das cidadezinhas e povoados interioranos a procura de emprego - todos fugindo da fome e da exploração a que se submetem, sem terra, sem alimento e já agora sem os coronéis, substituídos pelos doutores do society da cidade grande, que se elegem com o dinheiro dos pais milionários ou da herança, e assumem compromissos apenas com a clientela familiar ou com os amigos do peito. Os eleitores de cabestro conseguem, quando muito, a bóia e o transporte no dia da eleição. As megalópoles crescem do nascer do sol até de madrugada, rodoviárias a despejar pais e filhos chegados das quase cidades do interior. A vida de fazenda e dessas comunidadezinhas só existe por causa da televisão convocadora para o sexo fácil e o luxo fantasioso das superpovoadas coletividades nacionais. O dono dos bois aufere os lucros esparramado no macio conforto duma sala de estar, com serviço de bebidas alcoólicas ao lado. Aos contingentes de párias - apetite embotado por descostume de comer, meninos de pança inchada, olhos remelentos, mulheres de 20 anos semelhando 40, pai escaveirado, mãe desdentada e de ossos chupados por força de tanto parir - se reservam as favelinhas que eles improvisam em terrenos alheios, as áreas debaixo das pontes sobre rios, ou as afrontosas casas vendidas pelo Banco Nacional de Habitação, verdadeiro sorvedouro dos ínfimos ganhos desses pobres diabos, que o capitalismo apelida de filhos de Deus. Surgem, assim, os conjuntos habitacionais - milhares de casinholas, todas do mesmo jeito, em que se alojam famílias de cinco ou mais pessoas, e dentro nelas se fabrica mais gente. Com o tempo, esses pombais se vão enriquecendo de biroscas, prostíbulos, de venda de tóxicos, de freges. Meninas de 10, 12 anos são exploradas e iniciam a vida sexual antes que possam conceber no ventre um filho de pai desconhecido. Nas residências, a  promiscuidade - casais em cenas de relações íntimas na presença da filharada boquiaberta com o espetáculo. Teresina não foge a regra. Os conjuntos habitacionais espalhados pelos subúrbios, feiosos, emprestam à cidade panorama urbanístico condenável e alguns felizardos enriqueceram da noite para o dia, como um passe de mágica, com a venda de terrenos para a construção desses ajuntamentos, em cujas casinholas não se distinguem cozinha, dormitórios e sanitários. São milhares de pombais, por toda parte. Sejam cinco pessoas em cada qual, com a estimativa de duzentos mil moradores, quase a metade da população da capital do Piauí. Raros os empregos na área de moradia. O raquítico salário mínimo do trabalhador, quando arranja emprego, mal dá o transporte. Até quando, no Brasil, o homem sofre tanto? As sociedades doentes assim se apresentam: filhos de Deus, milhões de enteados dele, filhos da injustiça social.


A. Tito Filho, 08/08/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

AINDA O MENOR

Condena-se de modo unânime o Estado brasileiro e a sociedade pela triste situação em que se encontram, por toda parte, meninos e adolescentes, abandonados à própria sorte, sem afeto, famélicos, dormindo ao relento, na prática do furto e da violência. O Brasil se divide entre pobres e ricos - estes uma minoria privilegiada, aqueles a quase totalidade, representados por certa classe média proletarizada e pelo operariado sob regime de permanente exploração. Na cúpula as lideranças representativas do governo. Compraz-se a minoria nas viagens de turismo, nas orgias de uísque e sexo, nas vestes milionárias para a futilidade vaidosa, nas recepções nababescas dos casamentos e dos aniversários de luxo, com o desperdício de milhões e milhões de dinheiros. De seu lado, o governo sustenta mordomias, dissipa nos banquetes, na profusão dos gastos com autoridades e familiares e nos maus exemplos da corrupção, do nepotismo e da impunidade. A televisão, instrumento em poder de empresas privadas a serviço de poderosos grupos econômicos e políticos, tem o objetivo fundamental da dissolução dos costumes morais e da vida espiritual, por através das cenas de adultério, de alcoolismo, de filhos esbofeteando e xingando pais, de devassidão nos gestos e nos trajes; ou tem a meta de provocar o medo e a angustia, mostrando crimes nefandos, estupros, desastres, deformações físicas, incêndios, quebra-quebra, a fim de que todos se desinteressem pelos tristíssimos problemas de um país explorado de todas as formas; e ainda tem o jornalismo televisado, como processo de propaganda, a filosofia de fazer que o brasileiro gaste ou a deturpação cultural pela linguagem malferida ou pelo culto no NU. Mas a televisão esconde a realidade da família miserável, da mendicância, da escola desaparelhada, de inescrúpulo de bancos insaciáveis, da comercialização do ensino, da prostituição desenfreada, de homossexuais nas altas e baixas esferas sociais. Em meio à degradação quase generalizada, a criança, o adolescente e o jovem, todos sem horizonte, sem teto, sem roupa, sem instrução, sem afeto, - e a eles os maus exemplos, os tristes exemplos dos que deveriam educá-los para a vida. Estas as razões veementes que condenam, no caso, a sociedade dos homens, mal organizada e sem justiça social, e condenam o governo, em todas as suas esferas, cujos chefes as mais das vezes se conduzem por enervantes personalidades e reprováveis omissões. A vida familiar se encontra em dissolução. Pais e filhos mal se cumprimentam no recesso dos lares. Maridos e esposas vivem na rua, rebentos também, ou em torno das lições novelescas televisadas, nos chamados horários nobres. Nada se lê senão tolices. Não se estudam fatores culturais. Tudo se negocia, até a honra. Loucos são os que pregam no deserto. Salvar o menor é, antes de tudo, dignificar a família, concedendo-se a esta as condições para auferir os bens essenciais da vida - a habitação humana, a educação, a alimentação, o trabalho valorizado, o lazer decente, a renda justa, como queria e do jeito que ensinou o santo padre João XXIII.


A. Tito Filho, 07/08/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

DESFILE DE MAMAS

Escrevi num livrinho humilde, a que dei o título de Sermões aos Paixes, que por toda parte se estampam mulheres seminuas, quase nuas, nádegas descobertas, seios perfumantes à custa de látex. A propaganda necessita de ser olhada, por através do erotismo cientificamente dirigido. Consegue-se a sexualização dos sentidos depois das lambadas, meninas de saias rodopiantes para que revele o fundilho das calcinhas quase desaparecido entre locais que antigamente se diriam pudibundos.

Os norte-americanos, sempre sabidos, instituíram os concursos de misses e contagiaram a América Latina dessas competições para escolha da mais bela estudante, da garota fotogênica, da misse praia, da misse universo, da misse mundo e outros espetáculos de desnudamento, para lucros fabulosos. E a cupidez dos assistentes masculinos estrondaria em palmas demoradas de exaltação do nu.

Em Teresina, o soçaite ocioso e fútil inauguraria o desfile para escolha do veado mais apetitoso, numa noite de triste memória. A platéia delirava e batia palmas ensurdecedoras. Os homossexuais masculinos, brinquinho nas orelhas, peças íntimas femininas, sutians nos seios de silicone, desfilavam na passarela enorme, sob os fortes focos de luz das televisões. Era a glória terrena conquistada à custa da sexualidade anormal. Garotos na assistência recebiam o exemplo consagrador e se conscientizavam de que não havia necessidade de estudo para educar a inteligência e alcançar posições de merecimento na sociedade. Muito simplesmente o triunfo se alcança por meios mais simples, justamente por através de posições invertidas.

Viva o soçaite que vibra nesses espetáculos de sordidez. A novela faz o resto, num palco em que as cenas de sexo televisadas fazem a alegria maior de um povo deseducado para as responsabilidades da vida.

Não se viam na outrora tranqüila e carinhosa Teresina os beijos cinematográficos no meio das praças, as garotas de seios artificiais por baixo de blusinhas transparentes, o biquíni de chumaços com forros traseiros. Já agora se criou o processo de premiar a menina que, num desfile, apresenta as mamas mais salientes, mais empinadas, mais provocadoras de erotização dos sentidos de assistência masculina, ébria do espetáculo de depravação e falta de pudor. Sabe-se que o espetáculo de luxuria se passou no Parque Piauí e que as garotas do espetáculo andavam pela faixa dos 12-15 anos rodeadas de machacás tarados.

Tenho escrito durante anos que a televisão brasileira nada se preocupa com a educação da juventude. Muito fácil, pois, que se copiem os seus exemplos, explorando a nudez de meninotas menores para o ganho do dinheiro fácil.

Teresina transformou-se na capital do vício e do desregramento moral. Brevemente haverá o desfile de sapatões, homossexuais femininos merecedores de melhor sorte ao lado de homens de verdade.


A. Tito Filho, 22/09/1990, Jornal O Dia

domingo, 8 de janeiro de 2012

MEMÓRIA

A memória das cidades se encontra nos documentos, entre os quais se incluem os livros, no documento oral de pessoas e nos monumentos, prédios e esculturas, sobretudo.

Teresina tem sido vítima da destruição ou modificação dos edifícios que bem a caracterizam no passado. Até as pracinhas de tanto lirismo se transformaram em locais de ajuntamento de marginais, como a Pedro II. a cidade sempre foi pobre nas homenagens a vultos que fizeram a sua história.

O primeiro monumento de Teresina constitui homenagem a José Antônio Saraiva, o fundador, uma coluna de mármore com inscrições latinas em que os piauienses manifestaram gratidão ao notável baiano. Confecção no Rio de Janeiro. Nos anos 20 fez-se o busto de Dom Pedro II, colocado na praça Rio Branco, mudado para a João Luís Ferreira e hoje situado no logradouro que tem o nome do primeiro monarca. Outros bustos se ergueram, como o de Coelho Rodrigues, o de Getúlio Vargas, do governador e interventor Leônidas Melo. A estátua de José Antônio Saraiva, na praça de nome idêntico, pertence ao primeiro centenário de Teresina, na administração João Mendes Olímpico de Melo.

Outras figuras ilustres homenageadas, como Henrique Couto, Teresa Cristina, a imperatriz do segundo reinado; o governador Antonino Freire, o presidente Floriano Vieira Peixoto, o baiano Zacarias de Góis e Vasconcelos, fundador do Liceu Provincial, em Oeiras, hoje com a denominação do criador; Cromwell de Carvalho, o segundo diretor da extinta Faculdade de Direito e que a dirigiu por anos a fio; o admirável poeta popular Domingos Fonseca; o imenso Dom Quixote, criatura de Cervantes, em magnífica escultura que Clidenor Freitas Santos colocou na frente do Sanatório Meduna; Santos Dumont, cujo nome se liga à história da aviação. O prefeito Wall Ferraz mandou fazer monumentos a Teotônio Vilela, senador alagoano; Dom Avelar Brandão Vilela, arcebispo de Teresina quase quinze anos; e a Frei Serafim de Catânia, o corajoso e piedoso construtor da igreja de São Benedito. Outro prefeito, Antônio Freitas Neto, não esqueceu os humildes e aprovou e inaugurou monumento de homenagem ao motorista Gregório, no local do martírio a que esse pobre cidadão foi submetido, numa triste manhã de 17 de outubro de 1927.

Ao tempo da segunda administração Wall Ferraz sugeri ao seu chefe de gabinete, advogado Renato Bacelar, que se fizessem esculturas de uns vinte bustos de poetas e prosadores de Teresina e colocá-los na praça Marechal Deodoro, recanto de cenários bonitos e líricos para abrigo dos criadores de arte literária. A mão-de-obra se confiaria a Murilo Couto, escultor piauiense de nobreza. Talvez os recursos financeiros da Prefeitura não tivesse sido suficientes para a expressiva recordação de nossos escritores notáveis.

Neste setembro de 1990, o prefeito Heráclito Fortes recebe o meu abraço e admiração e respeito pela homenagem que prestou à memória de Petrônio Portella, colocando-lhe a estátua num dos pontos centrais de Teresina. Falecido a 6 de janeiro de 1980, já tardava a manifestação de apreço a um político piauiense às portas de alcançar a presidência da República. O Piauí pratica pouco os deveres cívicos. A coletividade piauiense se deslembra facilmente dos seus homens públicos decentes. Expulsa-os cedo da memória geral. Pouco os que não esquecem a grandeza política dos que souberam dignificar a personalidade, por conta de gestos humanos e atitudes nobres.

Heráclito Fortes praticou atitude reta. Não foi político com Petrônio Portella mas a este prestou homenagem que outros já deveriam ter-lhe prestado, justamente aqueles que houveram benefícios e proteção de grande líder.


A. Tito Filho, 19/09/1990, Jornal O Dia

sábado, 17 de dezembro de 2011

TERESINA - LOUVAÇÃO

A cidade alcançou progresso em todos os setores. Antes de tudo tranqüila e afetiva. Vale um beijo quente de fraternidade. Manhãs e tardes coloridas. Corações alegres. Gente que gosta da humanidade, recitando o poema da convivência irmã. As suas noites são de amor. Nos bancos das pracinhas de encanto, pares agarradinhos, arrulhando afeto, cheirando-se, mordendo, polícia distante, gente que passa fazendo que não vê. Juca Chaves disse no Rio de Janeiro: "Se peito fosse buzina, ninguém dormia em Teresina".

As mulheres teresinenses são as mais carinhosas destes brasis. E criaram a linguagem dos olhos para a revelação do sublime sentimento do amor. Elas têm olhos de querer e de não-querer.

Vem brasileiro, irmão de outras paisagens, TERESINAR, um verbo doce, expressivo, que se reza com carinho. O centro é uma festa permanente. Da praça Rio Branco, coração comercial da cidade, parte-se para o Parque da Bandeira, bem cuidado, convite ao descanso. além o rio Parnaíba, o velho monge de barbas brancas alongando... Junto às margens, lavadeiras batendo roupa, alguma de seios à mostra. Num dos lados do Parque, o antigo Palácio da Justiça. Antes, sede do Poder Executivo e residência dos presidentes da província e governadores até que foi adquirido o Palácio de Karnak.

Partinho do Parnaíba, o Mercado Velho ou Central, construído há mais de cem anos. Aí de tudo se vende: carnes, peixes, verduras, frutas, sandálias, calças, lamparinas, panelas, louça, mezinhas, beberagens eróticas como a famosa catuaba, pós mágicos. Camelôs propagam cura-tudo, literatura de cordel, alguns cegos recitam lamurientos versos de arrecadar esmolas. E dezenas de restaurantes ao ar livre, com comida feita sob as vistas do freguês, servem os mais variados pratos, sempre apimentados: fritos, sarapatel, buchada, panelada, mão-de-vaca, vísceras. Um arremedo dos mercadões de Fortaleza e Salvador. Um colorido especial à vida da cidade. No mercadão a gente encontra o sujeito que vende maconha, o bicheiro anunciando o milhar do jacaré e as mulatas mais desconfiadas do mundo, cheirando a brilhantina flor do amor. E muito chá-de-burro, o talentoso mucunzá.

A Casa Anísio Brito merece visitação. Museu e Arquivo do estado, guarda muita preciosidade que precisa de ser vista e consultada.


A. Tito Filho, 29/01/1990, Jornal O Dia

sábado, 26 de novembro de 2011

ADMINISTRAÇÃO DE TERESINA (2)

A 26 de dezembro de 1889, Gregório Taumaturgo de Azevedo assume o cargo de governador do Piauí. No ano seguinte, 20 de janeiro de 1890, baixou ato, também assinado por Clóvis Bevilaqua, criando, em cada município, os conselhos de intendência municipal. Para os de Teresina foram nomeados os seguintes membros: João da Cruz e Santos, barão de Uruçuí (presidente), capitão Mariano Gil Castelo Branco, barão de Castelo Branco; Teodoro Alves Pacheco, Simplício Coelho de Resende, cônego Tomás de Morais Rego e capitão José Antônio de Santana, ao todo 6 conselheiros. O segundo presidente foi o barão de Castelo Branco.

O Conselho adotou iniciativa de alterar denominações de vias públicas e de administrar os cemitérios, retirando-se da Santa Casa de Misericórdia. Também houve substituição de conselheiros.

Dia de 4 de junho de 1890, Gregório Taumaturgo de Azevedo deixou o cargo de governador. A 27 de dezembro do mesmo ano, depois de outros governantes, assume a chefia do Executivo Álvaro Moreira de Barros Oliveira Lima, que decretou uma constituição para o Piauí, ad referendum do congresso constituinte, que se reuniria no ano seguinte, mês de março. Nessa Carta, de 12 de janeiro de 1891, foram criados os conselhos municipais e os cargos de intendente e vice-intendente em todos os municípios.

A Constituição votada pelos deputados e promulgada a 13 de junho de 1892 manteve os dispositivos acima referidos, de modo que Teresina deveria escolher os seus dirigentes e os seus legisladores.

Mas antes que se verificassem as eleições e a posse dos eleitos, o Conselho de Intendência tomou interessante deliberação, determinando que os habitantes da cidade estavam obrigados, nos dias de sábado, a varrer a frente de suas casas, até o meio da rua.

Registrem-se mais os seguintes acontecimentos: instalação do 35º Batalhão de Infantaria (Exército), o batalhão querido da cidade, que lutou no sul de 1893 a 1896 e em Canudos (BA), onde, de 498 soldados, teve 338 mortos. Em janeiro de 1900 esse admirável corpo de heróis foi transferido para são Luís. No ano de 1891, o Piauí criou a sua primeira loteria (a atual apareceu no governo Chagas Rodrigues) e instalou o Tribunal de Justiça, composto de 5 membros.

A iniciativa particular foi de pouca monta em 1890: criação do Clube dos Artistas (já desaparecido) e do Instituto de Karnak, estabelecimento de ensino secundário, com internato e externato. Fundador: Gabriel Luís Ferreira. Esse órgão educacional já desapareceu.

O primeiro pleito para a escolha do intendente, do vice e dos conselheiros municipais realizou-se a 31 de outubro de 1892. Foram eleitos, com o número de votos entre os parênteses: intendente, Manuel Raimundo da Paz (472), vice, Honório Parentes (473). Conselheiros: militar e proprietário Raimundo Antônio de Farias (472), farmacêutico Alfredo Gentil de Albuquerque Rosa (475), os militares e comerciantes Joaquim José da Cunha (475), Raimundo Elias de Sousa (475), Leôncio Pereira de Araújo (475), Jardelino Francisco Barbosa d'Amorim (475), Viriato Rios do Carmo (369), Francisco da Silva Rabelo (369) e Manuel Lopes Correia Lima (369), poeta e jornalista. Ao todo, 9 conselheiros.


A. Tito Filho, 27/01/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

TERESINA - VISITAÇÃO

De praça rio Branco - rumorejo matutino e vespertino de morenões, louras, casadas, solteiras, intituladas, brotos, coroas e matronas circunspectas, senhores sisudos, estudantes, tipos de variegado naipe, muitos machos no exercício da paqueração - daí o sujeito pode indagar e orientar-se no rumo de outro ponto de muita fofoca e aprazimento: a praça Pedro II, antiga Aquibadã, bonita como quê.

Ergue-se nesse recanto de recreio o Teatro 4 de Setembro, inaugurado quase no fim do século passado. Em 1975, ganhou fatiota nova, uma beleza de teatro, com galerias, salas de exposições - só vendo o chiquismo da mui leal casa de espetáculos, coisa que não se vê em muito derredor do Brasil. Nele Coelho Neto dançou, em 1899, e discursou para apelidar Teresina de cidade-verde.

Mais umas passadas e eis Carnaque, também Karnak, nome egípcio, antiga residência de barão e baronesa. Branquinho, harmonioso, cheio de fontes d'água, luzes, salas caprichadas, local de trabalho do governador. De noite, tudo aceso, parece casa de conto de fadas.

Ao lado de Carnaque, existe o lugar que antigamente se chamou Alto da Jurubeba, elevação em que um santo, Frei Serafim de Catânia, construiu e inaugurou, no século passado, imponente templo católico. Por trás da igreja, o avenidão espaçoso, que tem o nome do frade - espaçoso e comprido até alcançar o rio Poti. Avenidão de trânsito intenso. Pedestre nele come fogo para a travessia. Veículos feios e bonitos, de variado formato, transitam. Ciclista come praga. De noite, um quadro de tentação: as garotas apresentam-se para o amor, que começa no automóvel e se acaba nos castelos dentro das matas. Um paraíso de afeto.

Na Frei Serafim, o Palácio Arquiepiscopal, residência de três arcebispos virtuosos e trabalhadores - o inesquecível Dom Severino, o Cardeal Dom Avelar e o atual Dom José Falcão.

Por perto, a Biblioteca Cromwell Carvalho, bem organizada, bem rica de boas obras.

E acolhedores templos protestantes em vários pontos. E os pastores convocando para as belezas da Bíblia.


A. Tito Filho, 30/01/1990, Jornal O Dia

sábado, 1 de outubro de 2011

TERESINA ANTIGA

- O primeiro restaurante surgiu em 1876. Vários tipos de suculenta comida. Fornecia bóia para festas familiares.

- Ano seguinte, a grande seca de 77 povoou a cidade de cearenses sofredores. Assistência permanente.

- A primeira escola noturna se criou em 1880, ano em que se introduziu a loteria federal.

- Estendeu-se a iluminação pública  toda a cidade em 1822. Oitenta lampiões de querosene, em postes de madeira. Registraram-se ainda as primeiras observações meteorológicas, com estes resultados: temperatura máxima, 30; mínima, 25,80; média 28,50.

- Grandes festas cívicas com a chegada do telégrafo. Era o ano de 1884.

- Dois acontecimentos de 1886. Sagração da igreja de São Benedito, no Alto da Jurubeba, construída por Frei Serafim. E fundação da Botica do Povo, popular estabelecimento do farmacêutico José Pereira Lopes.

- Grandes festas populares comemorativas da libertação dos escravos em 1888.

- Chegou ao conhecimento do povo a notícia da proclamação da República, 1889. Houve delirantes manifestações populares pelas ruas, no dia seguinte, 16 de novembro. Neste mesmo ano instalou-se o serviço de recolhimento do lixo, em carroças puxadas por bovinos.

- A fábrica de Fiação e Tecidos Piauiense foi inaugurada em solenidade do ano de 1890.

- Em 1891 instalou-se o Tribunal de Justiça do Piauí, composto de cinco desembargadores.

- A Junta Comercial do Piauí teve criação em 1892.

- Em 1894, inaugurou-se o Teatro de 4 de Setembro, cujas obras se iniciaram em 1889.

- Instituído o registro de nascimento e óbito em 1897.

- Coelho Neto, em 1899, dá a Teresina a denominação de Cidade Verde.

- Registrem-se ainda os seguintes acontecimentos interessantes: o primeiro clube teatral (Clube Gramático, 1893). Fundado o primeiro clube social (Clube Dançante Piauiense, 1897). A primeira entidade esportiva, o Esporte Clube, surgiu em 1899.


A. Tito Filho, 25/01/1990, Jornal O Dia

INTEGRAÇÃO CULTURAL

Em 1910, a praça Uruguaiana, hoje Rio Branco, viveu dia de festa, com inauguração do seu ajardinamento, obra do intendente José Pires Rebelo. Dois anos depois, o logradouro recebia luz elétrica, e se tornava o local das retretas inesquecíveis, dos passeios de moças e rapazes, em noites que não voltam mais. Manhãs tardes, o centro comercial da cidade. Era a praça preferida de todos. Com o correr dos anos, nela havia o principal cinema, o "Olímpia", e o Bar Carvalho, reunião do soçaite da época para sorvetes e chocolates, depois das diversões noturnas. 

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Na praça Pedro II, antiga Aquidabã, estava o imponente Theatro 4 de Setembro que apresentava companhias de fora e artistas da terra, inclusive de famílias conceituadas em festas de caridade. Nessa tradicional casa de diversões se realizavam bailes, banquetes, declamações, solenidades cívicas, conferências literárias. Em 1933, o Teatro inaugurava o cinema falado.

Em 1936, o prefeito Lindolfo Monteiro inaugurou a remodelação da praça. Roupagem nova. Bonita e faceira. Cheia de luzes e de plantas. Coreto e fonte luminosa. Deslocou-se a freqüência da Rio Branco para o novo bem-querer do teresinense. Surgiram nela bares e sorveterias. Nas proximidades, estava o Clube dos Diários, que desde 1922 atraia o teresinense para as suas bonitas reuniões dançantes.

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No fim da década de 60 o clube entrou em declínio. Tornou-se decadente. Novos tempos. Outros bairros e novas entidades recreativas. Em 1974-1975, reformaram-se o Teatro e a praça Pedro II, - um e outra já desprezados pelo povo educado. Com o correr dos dias, a praça Pedro II transformou-se em condenável concentração de gays e sapatões, viciados em drogas, marginais. Botecos funcionam até de manhã.

* * *

Suzana Silva, secretária da Cultura, pretende recuperar toda a área da praça, incluindo o Clube dos Diários, em que funciona agora jogatina permanente e convivem mulheres de livre e raparigas velhas surradas. Ambiente de menores vadios, de perdição e luxúria.

Seria um grande serviço à cidade a recuperação da praça, do centro de artesanato, do Teatro, do Clube. Criar-se-iam escolas de dança, de artes plásticas, de música, cinema e teatro, galeria de artes, oficinas, lojas, - tudo sobre a responsabilidade de uma Associação de amigos do Centro integrado de Cultura do Piauí.

Grande idéia, merecedora do mais completo apoio daqueles que devotam amor a esta cidade querida.


A. Tito Filho, 06/03/1990, Jornal O Dia 

OBSERVAÇÕES

Dizem que Juscelino realizou a revolução industrial brasileira. Implantou fábricas de automóveis e eletrodomésticos. Maravilhosa sabedoria. O bom Brasil largou o campo, a produção agrícola, e correu para as cidades grandes dos automóveis, das enceradeiras, das máquinas de lavar roupa. As exportações milionárias de carne desapareceram. Só são Paulo e o sul permaneceram fiéis à produção agrícola, embora não recusassem a industrialização. E cada dia o Brasil fica pior, com a infernal máquina publicitária em busca de mercado para tudo o que os norte-americanos emprestam às fórmulas de fabricação, cobrando roáltis absurdos. O Brasil, é bom de ver, faz parte do quintal da América Latina.

X   X   X

A Prainha foi lugar dos mais aprazíveis de Teresina. Tinha uma finalidade social: o lazer, sobretudo o dominical. Dava gosto freqüentá-lo. Não durou muito tempo o seu ambiente cordial e amigo. Invadiram-se mariposas e horizontais de todo tipo. Firmou-se como ambiente de demoradas cachaçadas. Tornou-se assim local de violência e de mortes estúpidas. Assim vai ser Poticabana, foco de drogas, de viciados, de revólveres. Quem viver verá.

Que é do clube dos Diários? A Polícia de Teresina deveria ter ao menos compostura. Meses atrás, ainda se podia tomar uma cerveja em sossego nessa outrora casa de beleza espiritual. O próprio jogo, nos porões, tinha a freqüência de pessoas ilustres e dignas, que procuravam um pouco de diversão noturna. A jogatina agora está explorada por mulheres de vida livre, raparigas velhas surradas que passam a noite de olhos abertos em companhia de indivíduos desconhecidos, gente agressiva e deseducada, com exceções algumas. Ambiente de perdição e luxúria, no centro da cidade de Teresina.

X   X   X

Não haverá inverno. Os sábios já declararam anos de invernos fracos neste miserável Nordeste brasileiro. Descansará o povo do Poti Velho, livre das enchentes enormes de derribar choupanas. O pessoal um dia criará juízo. José Antônio Saraiva, baiano inteligente, recusou o local para a construção de Teresina justamente por motivo das fortes invernadas, alagações e outros tormentos. Mas o povo não arredou pé de lá até hoje. Viva a burrice.


A. Tito Filho, 07/02/1990, Jornal O Dia

TERESINANDO

Pode-se tomar outros rumos, para mudanças da paisagem. O importante está em ver o que Teresina tem na sua simplicidade faceira. Voltando-se ao rio Parnaíba - a ponte ferroviária João Luís Ferreira, grande obra de engenharia, iniciada na década de 20 e concluída no primeiro governo Vargas.

Rumo norte da cidade, a gente indaga, pois quem tem boca vai a Roma - e encontra o circunspecto Instituto de Educação Antonino Freire, bem defronte o cemitério de São José, este dez anos mais novo do que Teresina, depois ampliado. Mais ao longe o aeroporto, alegre e festivo. Um encanto para visitação. Adiante, alguns quilômetros de asfalto, num percurso pintado de casinhas humildes, está o bairro do Poti Velho, antiga Vila do Poti, onde Saraiva pensou em construir Teresina, mas desistiu, fazendo-a no lugar da igreja do Amparo - o primeiro templo católico da cidade, inaugurado no natal de 1852.

No bairro do Poti Velho, o rio Poti despeja águas no Parnaíba. O Poti de boa pescaria.

Não se deixe de conhecer o Sanatório Meduna - obra de devotamento e de tenacidade do médico Clidenor Freitas Santos, que abriu novos horizontes de cura e de humanidade para os perturbados mentais. Integra 25 anos de serviços em 1977.

A nova penitenciária deve ser louvada, e louvados muitos que fizeram força para conquistá-la do Papai Grande Federal - entre tantos, em dois governos, Raimundo Marques e Sebastião Leal.

Com a ajuda do próximo, chega-se a igreja das Dores, na praça Saraiva - templo católico que serve de catedral. E vai-se ao bairro Vermelha para conhecer a arte do mestre Dezinho e de Afrânio Castelo Branco, na igreja de Nossa Senhora de Lourdes. Prossegue-se até a ponte Antônio Noronha, sobre o Parnaíba, ligadora de Teresina a Timon e Caxias, já no Estado vizinho do maranhão. Nesse trecho da cidade, de imensas áreas, se encontra o magnífico estádio Albertão, de futebol, natural e principalmente de futebol - local em que se pode urrar, e xingar juiz, que nada acontece.

Noutro ponto da capital piauiense, ergue-se o majestoso Palácio da Justiça, em cujas vizinhanças se construiu o Centro de Convenções: auditório de 680 lugares, cabine para traduções simultâneas em cinco línguas, serviço cinematográfico, bares, sala de imprensa, lanchonete, restaurante público.


A. Tito Filho, 31/01/1990, Jornal O Dia