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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

CARTA SEM POLÊMICA

Minha talentosa coleguinha de jornal "Diário do Povo". Cordiais saudações. Na edição de domingo, 16 deste dezembro natalino, li a entrevista que você fez com o ex-governador José da Rocha Furtado, e gostei das suas perguntas e das respostas do entrevistado, num trabalho bem feito, como se estivessem em inteligente pingue-pongue de Marília Gabriela. Antes, porém, do texto conduzido claramente, fez a prezada amiga uma espécie de introdução, aquilo que os velhos jornalistas como eu, o Araújo Mesquita, padrão de dignidade profissional, Deoclécio Dantas, lutador de muita altivez, chamavam de NARIZ-DE-CERA. E na dita e supradita explicação introdutória, a simpática confreira atesta: "Nos últimos quatro anos, o nome mais lembrado por deputados e políticos foi o do ex-governador rocha Furtado".

Nunca, caríssima repórter. Nos últimos quatro anos, 1987 a 1990, não me recordo dessa preocupação da fauna dos homens públicos do Piauí. Pelo contrário, o nome mais usado nos jornais, nos rádios e tevês tem sido o de Alberto Silva.

Adiante você observa e atesta: "Fora dos meios políticos, deputados como Eurípedes de Aguiar, Santos Rocha, Demerval Lobão e João Mendes promoviam sessões de tortura psicológica, na tentativa de intimidar Furtado...". Não, colega de rara acuidade. Fui testemunha ocular da história. Eurípedes Aguiar, Demerval Lobão e João Mendes não eram, nessa época, deputado, federais ou estaduais, e os três pertenciam ao mesmo partido do governante, a UDN, e defendiam rocha Furtado por todos os meios de que dispunham. Exercia o mandato de deputado o Dr. Santos Rocha, orador animado e causídico hábil e corajoso, e não me consta que ele promovesse sessões psicológicas para que se torturasse psicologicamente o governador, de forma que se praticasse a lavagem cerebral dos criminosos porões das polícias ditatoriais.

A campanha de que Rocha Furtado DAVA AZAR foi criada no jornalismo oposicionista. No tempo de Hermes da Fonseca, confrades de jornal e compositores carnavalescos atribuíam ao presidente da República a URUCUBACA, o mesmo que azar, fluido negativo que se ligava, em Teresina, também ao desembargador Cromwell de Carvalho, conterrâneo de rara dignidade moral.

A crença de que certas pessoas distribuem AZAR desde que passem por nós ou quando têm os nomes pronunciados, pertence ao povo em virtude de circunstâncias adversas ligadas por coincidências aos cidadãos que a maledicência humana pretende destruir ou levar ao ridículo.

Perto do fim da parte introdutória, a zangada coleguinha escreve: "Quem desfez as lendas que existem em torno daquele que seria o mais impopular dos governadores do Piauí são artigos de jornais cariocas e discursos na época pelos opositores".

As lendas se criam pela sabedoria popular. E sempre elas provocaram as mais extraordinárias obras da literatura universal.

Rocha Furtado foi ídolo dos teresinenses e ao seu lado, na defesa do seu governo estiveram famosos jornalistas brasileiros como J. E. de Macêdo Soares e Danton Jobim e parlamentares do tope dos senadores Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves e José Américo de Almeida. A imprensa de todo o Brasil defendia o governante do Piauí tornando-o popularíssimo e cada vez mais apoiado pelos piauienses. Só a paixão política dizia o contrário, não creio que a coleguinha se sustente de atitudes passionais no seu jornalismo.

Noutro ponto do NARIZ-DE-CERA a prezada jornalista afirma que Rocha Furtado: "TROCOU ATÉ DE CIDADANIA - HOJE É MUITO MAIS CEARENSE DO QUE PIAUIENSE".

Rocha Furtado confessa que deixou o Piauí por causa das dívidas contraídas.

Buscou Fortaleza para recuperar as finanças domésticas. Resta saber se os cearenses que residem em Teresina trocaram de cidadania, pois a cidadania tem a proteção da soberania nacional, desconhecendo fronteiras entre as velhas províncias, ou Estados da Federação.

No fim a garota escreve: "Furtado não admite a comparação do seu com o atual governo".

Rocha Furtado procurou-me para me informar que nunca fez a afirmativa referida à jornalista entrevistadora.

Minha intenção nesta carta está no restabelecimento da verdade, uma vez que não me compete a defesa da política que os homens públicos realizam ou realizaram no Piauí. Interessa a todos a realidade dos fatos.


A. Tito Filho, 20/12/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O BOM CONTISTA

Afonso Ligório nasceu no território piauiense de Luzilândia. Jornalista. Fez algumas andanças e fixou-se em Brasília, dedicado ao magistério e a literatura e em ambos os misteres tem alcançado triunfos verdadeiros. Consistia dos melhores, de raro poder de observação. Publicou SÓ ESTA VEZ, já traduzido para o espanhol e agora enrica a literatura nacional com A HORA MARCADA, sobre que escreveu mestre M. Paulo Nunes:

"A propósito do anterior livro de contos de Afonso Ligório Pires de Carvalho - Só Esta Vez... Histórias contadas (Editora Thesaurus - Brasília-DF) já havíamos tentado uma definição do tipo de gênero por ele adotado quando o identificamos com o "conto masnfieldiano" por oposição ao "conto história" com começo, meio e fim, cuja tradição radica em Boccacio e teve modernamente como representante maior Maupassant, entre nós, o gênio de Machado de Assis.

Com este seu novo livro - A Hora Marcada, retoma ALPC o mesmo fio da narrativa no apuro de uma técnica de expressão em que o deslance é engendrado de forma a levar o leitor a sentir uma espécie de "soco no estômago", conforme a expressão do romancista português Fernando Namora, em seu último livro, publicado antes da morte" - jornal sem data.

São do mesmo autor as considerações a seguir transcritas, na caracterização desse gênero de narrativa: "Ainda recentemente, o Nobel Isaac B. Singer chamou ao conto uma "fatia de vida", decerto em oposição ao romance, que seria, pelo que se deduz, a "vida toda". Mas essas "fatia" terá de ser pois, altamente significativa. Na sua concisão no seu angulo de focagem restrito, o conto precisa de ser tão eloqüente que o leitor, através de uma breve personagem captada num instante decisivo e num contexto delimitado, consiga reconhecer ali a verdade da paisagem humana e a vida tal como ela é, na sua infinita complexidade. Daí que se possa entender muito bem que haja quem prefira Maupassant a Victor Hugo ou Balzac e Tchekhov ou Gogol a Tolstoi ou Dostoievski. Uma gota de água pode ser mais reveladora que uma enxurrada". (Cf. Fernando Namoro, in Jornal sem data, pág. 146 - Publicações Europa-América-Portugal).

Esta é pois a receita adotada por Afonso Ligório Pires de Carvalho nestes seus novos contos - captar o instante essencial ou a "fatia de vida" que possa caracterizar uma emoção, um estado de espírito definidores da condição humana.

E a realiza com uma técnica apurada de tal sorte que os contos reunidos nesta coletânea reinventam cada um deles a vida em seus momentos mais significativos. Contos como Depressão, por exemplo, podem ser emparelhados com as melhores narrativas do gênero entre nós.

Não poderia deixar de salientar aqui, como o fiz em outros termos, da vez anterior, que Afonso [é] um dos mais representativos valores da geração piauiense que revelaria figuras da altitude intelectual do poeta Hindemburgo Dobal e dos romancistas O. G. Rego de Carvalho e José de Ribamar Oliveira.

Por isso recorro ainda às anotações de Fernando Namora, no livro citado, ao fazer o elogio de seu contemporâneo Eduardo Lourenço: Tentando, e numa paróquia de tribalismo, permitiam-me uma anotação tribalista: sabe que Afonso Ligório Pires de Carvalho seja dos da minha geração e que, enfim, ter bebidos as primeiras águas na matriz que também a minha. Não é por acaso que muito do modo de ser de Afonso é o que é. A generosidade e um sentido de justiça que inventam".


A. Tito Filho, 23/11/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

SUSPENSE

Suspense pertence ao vocabulário inglês. No meu modesto livro ANGLO-NORTE-AMERICANISMOS NO PORTUGUÊS DO BRASIL, que destacamos autores nacionais elogiaram, sem que merecesse registro ao menos de uma linha dos críticos e comentaristas piauienses, salvo os colegas da Academia, nesse livro defino SUSPENSE como momento de forte tensão no enredo de filme, peça teatral ou obra de ficção, certa ansiedade resultante de incerteza, mistério ou indecisão.

Faz pouco tempo a Academia Piauiense de Letras editou e entregou ao público "Um Drama de Consciência", do acadêmico e médico Salomão Chaib. Ofereci-o a vários jornalistas da terra, mas nenhum registro se fez dessa pequena (50 páginas) obra-prima.

Quando li os originais do trabalho de Salomão, lembrei-me de Eça de Queiroz, em "O Mandarim": "No fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que a fábula ou a história contam. Dela nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, postas a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver; e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?".

Tocaria você a campainha?

Assim no livro de Salomão. Médico famoso vai operar coronel acusado de [ser] torturador. As vítimas ameaçam por telefone o cirurgião. Ou mata o paciente ou tem a filha raptada. Que fazer? A vida do violento militar se encontra nas suas mãos. Salva-lhe a vida ou a da filha? O livro deve ser lido pois nele se encontra a resposta.

Faz anos tenho muita admiração a Orlando Parahym, médico pernambucano de merecida projeção cientifica e literária. Possui, inclusive, estudo biográfico e crítico sobre o piauiense Otávio de Freitas, fundador da Escola de Medicina do Recife. Mandei o livro de Salomão a Parahym, que me escreveu pela seguinte forma: "Caro mestre e ilustre amigo Tito Filho. Agradeço-lhe a oferta do livro "Um Drama de Consciência", de autoria de Salomão A. Chaib. Ao que me parece, o escritor é profissional da medicina. Além disso, um escritor excelente. Estilo simples, claro e comunicativo. No que se refere à parte médica, aí tudo é perfeitamente descrito, revelando no escrito a personalidade de um cirurgião de alta categoria e longas experiências no ofício. Todas as minúcias acham-se referidas e discutidas a luz dos mais modernos conceitos da cirurgia. Se, no que tange à descrição empolgante do ato cirúrgico tudo se eleva às raias do inexcedível, cabe ressaltar o primoroso literato cuja valorosa personalidade se consagra modelar em todas as páginas em que descreve a intensidade psicológica do terrível drama de consciência vivido pelo Dr. Coutinho. Digo-lhe tais coisas, meu caro Tito Filho, depois de ter lido e relido essas páginas tão empolgantes de um livro capaz de prender nossa inteligência mercê do seu conteúdo admirável e forte, comovente e belo na sua opulência literária e humanística".

Palavras espontâneas de uma autêntica glória da Medicina e das letras de Pernambuco. Outras referências elogiosas me chagaram de várias cidades brasileiras.

E no Piauí? Nada. Registro algum se fez. Falta de interesse pela boa leitura? Desprezo ao que é nosso? Uma tristeza esta taba piauiense habitada de inúmeros sábios da Grécia.


A. Tito Filho, 31/07/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O NOVO SÉCULO

Na minha pobre cachola manifestava-se dúvida a respeito do início do século XX: 1º de janeiro de 1900 ou 1º de janeiro de 1901? Andei perguntando a algumas pessoas esclarecidas, que tinham como certa a data de 1900.

No começo de 1975, catei dados em jornais velhos do Arquivo Público para escrever um livrinho sobre a história do Teatro 4 de Setembro. Pois bem. Topei na imprensa com a festa comemorativa, em Teresina, do início do século XX. Sessão literária na velha casa de espetáculos. Discursos de Higino Cunha, Areolino de Abreu, Arquelau Mendes e padre Joaquim Lopes.

Os registros jornalísticos consignavam a data de 1º de janeiro de 1901. Nesse tempo os antigos homens públicos do Piauí tinham o novo século como iniciado em 1901. Dei tratos à bola. E concluí pela verdade dos mortos. O século se compõe de cem anos. Somente a 31 de dezembro do ano 100 se completou o século um, assim o século dois começou no ano 101. Lógico. O século XIX finou-se a 31 de dezembro de 1900, logo em 1901 principiou o século XX.

X   X   X

O gaúcho e engenheiro Paulo Klumb já visitou duas vezes Teresina, por convite da Academia Piauiense de Letras. Educado e culto. Armazenou profundos conhecimentos sobre assunto de natureza vária. Manteve, por carta, elegante polêmica em torno de questões históricas do Piauí com o saudoso Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, que muito o admirava e elogiava.

Klumb publicou "Dois Estudos", pesquisa e lições de história e arquitetura a respeito do Teatro 4 de Setembro e do Palácio de Karnak, livro editado pela Casa de Lucídio Freitas.

Este notável gaúcho leu recente obra de autor piauiense em que se pretende que 1900 seja o primeiro ano do século XX. Klumb me manda carta em que transcreve trecho do "Correio Paulistano", edição de 2-1-1901:

“A PASSAGEM DO SÉCULO NO RIO

Conforme verificaram os leitores em nossos telegramas ontem publicados, na capital federal foi dignamente festejada a passagem do novo século, tanto pelo elemento profano quanto como pelo religioso. Solenidades religiosas em todas as igrejas, embandeiramento de praças, ruas, edifícios públicos e particulares..."

Pergunta Klumb: "Teriam os cariocas, por engano, comemorado o inicio do século com um ano de atraso?" Em seguida ensina que a regra é a seguinte para determinar o século: divide-se por cem o ano que se quer situar. Se o resultado da divisão for numero inteiro, este será o do século procurado. Se o resultado não for número inteiro, obtém-se o século adicionando a unidade à parte inteira da divisão. Ano de 1900 dividido por 100 é igual a 19. Ano de 1900 dividido por 100 é igual a 19,01, mais a unidade é igual a 20. O século XX começou em 1901. Veja-se o ano 2000. Dividido por cem é igual a 20, logo o ano 2000 é século XX, e o século XXI só começa em 2001. Tolice dizer e escrever que em 2000 tem início o século XXI. E grossa. OBS. No artigo de ontem escrevi SOB A RESPONSABILIDADE. Saiu SOBRE. Meu querido revisor tenha pena de mim. Agradecido”.


A. Tito Filho, 07/03/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

CRÍTICA LITERÁRIA - I

Teresinha Pereira, patrícia de Minas Gerais, leciona na Moorhead State University, nos Estados Unidos, onde tem desenvolvido uma atividade literária digna de louvores. E de lá me escreve um seguro comentário sobre Maria do Carmo Gaspar de Oliveira. Diz ela:

"Acabo de ler os CADERNOS PSICOLITERÁRIOS 2 que contêm vários comentários, críticas e análises da obra de Maria do Carmo Gaspar de Oliveira e registro aqui as minhas impressões sobre esta coleção tão bem editada.

Começo por citar as palavras do editor.

Maria do Carmo nestas obras revela-se senhora de uma expressão muito própria, individualizada e de uma inconfundível serenidade. O seu dizer é claro e espontâneo, escorregadio e nunca eriçado por termos fora do comum.

Estas palavras são destacadas da apresentação do livro Análise da Obra e usá-las para começar este comentário tem apenas o sentido de estar aprovando a boa crítica de seu editor, Antônio Soares, do Instituto Português, Departamento Editorial.

De minha modesta opinião constou a análise do livro Bosco. E do que eu disse então, gostaria de apresentar aqui algumas frases representativas das minhas primeiras emoções ao conhecer esta mãe poeta que imortalizou seu filho com um punhado de versos memoriosos. O que eu digo nesse artigo sobre o poema intitulado "Seu quarto" foi o seguinte:

A prova de fogo apresenta efeito quando chegamos ao poema "Seu quarto". Nossa emoção inutiliza toda essa capacidade de fazer uma crítica ou uma análise objetiva, que era nossa intenção ao começar a resenhar o livro! É um poema comovedor! Creio mesmo que seja este o melhor poema do livro e é incontestavelmente merecedor de fazer parte de qualquer antologia de poesia internacional.

E agora cito os íntimos versos do poema, que são os mais emocionantes: "... alguns brinquedos/ que eu guardava como lembrança/ de quando você era criança / sua cama, seu travesseiro, / seu lençol, seu cobertor / ainda guardava o perfume / o cheiro do seu corpo / Beijei e abracei tudo com carinho / e saí do quarto".

Tudo o que é profundamente humano, carinhoso e sentimental (no bom sentido) está aí dentro dos versos deste poema, nestas coisas, objetos pessoais que simbolizam a vida inteira de um filho, e de sua mãe.

Os Cadernos Psicoliterários 2, que publicam estas análises da obra de Maria do Carmo Gaspar de Oliveira é um livro muito completo. São cinco os livros comentados neste volume:

Caleidoscópio, de 1983, que contém vinte e sete poemas, breves trechos em prosa, e que foi prefaciado por Antônio Houaiss. A este livro pertence o poema "Império Feminista", irônico, profético, cujas idéias partem da imagem realista simples do presente, para calcular uma visão do futuro, no qual os homens foram eliminados, não por causa do feminismo propriamente dito, mas pela autodestruição de machistas: "Daqui a alguns séculos / (nem precisará disto tudo) / haverá alguns homens-touros / reprodutores / para o Império Feminista / triste império!".


A. Tito Filho, 13/11/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

CRÍTICA

Sobre o livro de Cunha e Silva, o escritor Vasques Filho publicou o seguinte, em Tribuna do Ceará, de Fortaleza, edição de 8-2-1990:

"Gentileza da Academia Piauiense de Letras, recebemos A REPÚBLICA DOS MENDIGOS do consagrado jornalista e acadêmico CUNHA E SILVA nosso conhecido de longas datas.

O volume tem boa apresentação gráfica, com encadernação excelente e até sofisticada, foi editado em 1984, 135 páginas de bom conteúdo, com apresentação de Cunha e Silva Filho, enquadrado pelo autor no gênero de novela. Cunha e Silva criou a personagem principal do livro, Simão Lopes, a partir da migração dos pais, cearenses, em tempo de seca, que terminaram por serem proprietários de terras às margens do rio Poti, as quais, por ele herdadas, e possuído de caráter humanitário, as transformou em uma república de mendigos, recolhidos nas ruas, dando-lhes significativa dignidade, e, pouco a pouco, chegando a uma comunidade praticamente auto-suficiente, na intenção de formação de uma comunidade modelo, em que nada faltasse. Com muitas digressões sócio-filosóficas, com citações de autores e de personalidades reais, o que seria ficção, no início, nas intenções do autor, vai-se tornando uma exposição sociológica do real, tendendo a comunidade, que deveria ser inatacável, para os lados de um amalgama entre o bem e o mal, sempre bem expostos em linguagem simples, com citações de filosofia e de sociologia, dando nomes de autoridades reais e de filósofos e sociólogos de renome, passando a narrativa, a nosso ver, para mais uma teoria sobre formações comunitárias já existentes no mundo atual. E aqui discordamos de que o conteúdo seja enquadrado no gênero da novela, para se tornar num ensaio de valor, com a forma de narrativa jornalística, não fora o autor um dos melhores jornalistas piauienses, por todos consagrado e reconhecido, abrindo, no volume, perspectivas para um debate de grande amplitude social sobre os mais diversos temas sociais e políticos, quanto de regimes autoritários e democráticos de governo, profligando os excessos dos poderes, as injustiças, a irresponsabilidade dos governos, a miséria social não somente regional como nacional e até mundial, no mundo em que vivemos hoje, enquanto canta louvores ao bom desempenho das comunidades bem governadas e bem organizadas, exaltando a prática do dever cívico, do amor ao próximo tão pregado pelo cristianismo, o sentimento filantrópico muito falado mas pouco praticado sobretudo pelas classes de maior poder econômico, tudo no sentido de aprimoramento de comunidades mais humanas, com maior quantidade de virtudes do que de vícios, em que o amor fraterno seja sempre levado em conta por todos os seus membros, desde o governantes e seus governados, do mais rico ao mais pobre.

A nosso ver, Cunha e Silva, ao invés de uma novela, porquanto a ficção é elemento secundário, escreveu um belo ensaio, com fulcro nos estudos filósofos e sociólogos que cita a cada passo da narrativa, valorizando o livro o propósito de bem servir à pátria e à humanidade em geral".


A. Tito Filho, 17/02/1990, Jornal O Dia

domingo, 6 de novembro de 2011

APRECIAÇÃO

Theobaldo Costa Jamundá nasceu em Pernambuco. Buscou as torres catarinenses e fixou-se na simpática e encantadora Florianópolis e aí constituiu família e projetou-se como um dos mais destacados nomes da vida literária do Sul do País. Morenão como eu, afável, de primoroso coleguismo, fez-se piauiense também, enamorado de Teresina. Já visitou o Piauí algumas ocasiões e à Academia Piauiense de Letras ofereceu duas vezes, como gesto de amizade, o magnífico coral de Santa Catarina, que encantou a gente teresinense e de outros municípios. Dádiva de Teobaldo. Oferta desse amigo leal e correto.

Agora, em data de 31 de outubro, ele me manda carta, escrita no seu original estilo de mestre da língua e da prosa e diz assim sobre Alvina Gameiro:

"Meu presidente Tito Filho.

Informei-me in Notícias Acadêmicas nº 56, arauto ímpar da nossa egrégia Academia Piauiense de Letras, que a escritora maior ALVINA GAMEIRO, no dia 14 do referido mês passado, foi eleita para a Cadeira 14.

Diz-me a informação o ter alcançado votação unânime na coerência de duas verdades: 1. O valor intelectual da escritora; 2. O acerto antológico da votação.

E estas duas verdades sustentam-se na ausência de surpresa. E ser candidata única cochicha-me o conhecimento da inteligência piauiense explicando: O VALOR LITERÁRIO DE ALVINA GAMEIRO É ÍMPAR NO UNIVRSO DAS LETRAS MERECENTES DO ZELO DINAMIZADO PELA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS.

Pelo evento de inteligência marcante de um momento especial, no sodalício onde sou menor na participação e maior de corpo inteiro no BEM QUERER que voto, apresento o aplauso ambivalente aos acadêmicos eleitores, quitando-me com ALVINA GAMEIRO e com a Academia Piauiense de Letras.

Colocando-me na certeza que existe uma Literatura Piauiense, aparteia-me no bestunto um argumento enfiando-me diante da ponta do nariz o indicador persuasivo: a eleição de ALVINA GAMEIRO para a Cadeira 14, prova a vitalidade intelectual consciente e sublima a autora de CURRAL DE SERRAS.

Este livro que possuo deu-me o amigo maior A. Tito Filho em março de 1983. E foi não foi releio uma ou outra de suas 280 páginas como a ruminar encanto. Como por exemplo: "MUITO ADIANTE, NO QUEBRAR DA MÃO DIREITA, NA RAÍZ DE UM PÉ DE MORRO, UM MARRUCO GAITEAVA, ROUQUEJANDO RECADO AGOURENTO PR'A QUEM TIVESSE TOPETE DE GANHAR RUMO DAS FÊMEAS QUE QU'ELE TAVA CASTIÇANDO". (Cf. pág. 43).

Quem tem prosa assim tem voto certo para qualquer Academia de Letras da Língua de Camões.

Aliás até no título: Curral de Serras, este livro é seleto. E como se não bastasse revelar a escritora que sabe escrever manipulando matéria tomada nos molduramentos da Geografia e da Paisagem Humana piauienses.

Sem dúvida ALVINA GAMEIRO é escritora privilegiada pelo engenho da imagística que Deus distribui antologicamente".


A. Tito Filho, 09/11/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

JULGAMENTO

O ministro da Agricultura, Iris Resende, enviou à Academia Piauiense de Letras a seguinte mensagem:

"Impossibilitado de comparecer à sessão solene em que a histórica Academia Piauiense de Letras empossa o ilustre escritor João Emílio Falcão Costa Filho em sua Cadeira 26, tendo como Patrono o escritor Simplício Resende e o exemplo de sua vocação, tomo a liberdade de daqui enviar a minha congratulação à Casa e aos seus dignos integrantes.

Conheci João Emílio Falcão em Brasília e logo notei uma personalidade singular em sua atividade de jornalista.

Dono de uma marca extremamente pessoal de trabalho, é um jornalista sempre inquieto e curioso, permanentemente contemplando o mundo à sua volta a preocupação de consertar o que não está correto.

Com seu estilo próprio, sabe ser sarcástico em suas crônicas no jornal quando a situação o exige, implacável nas suas perguntas como entrevistador na televisão quando defende o bem comum, mas também um homem extremamente generoso.

Falcão, como jornalista, convive em altas rodas de poder participando de discussões e confabulações da política nacional, mas não se ilude em relação a realidade.

Com muita argúcia, sabe distinguir o mundo real do mundo dos poderosos e, ao mesmo tempo, não perde a atenção sobre problemas que acontecem por toda parte, por mínimos que sejam.

Enquanto discute os mais altos problemas da República, Falcão não esquece o humilde brasileiro que, no ponto mais remoto do território nacional, enfrenta um problema qualquer, como o pequeno agricultor às voltas com a necessidade de sobreviver.

Verifiquei mais tarde que esse é o universo do escritor João Emílio Falcão, com a mesma inquietação, curiosidade, preocupação, argúcia, espontaneidade e generosidade.

Com a mesma marca pessoal, o escritor Falcão revira o mundo da ficção em busca de contribuições concretas para a justiça social, que vão além das preocupações estéticas de um artista, sempre sem perder qualidades eminentemente literárias.

É comovente a preocupação do escritor com as misérias e os pobres coitados que se perdem no interior deste Brasil imenso, relegados pelas elites pensantes e administrativas, mas que, na realidade, constituem a grande massa que, muitas vezes anonimamente, faz o Brasil, o Brasil real.

A posse de João Emílio Falcão como membro da Academia Piauiense de Letras é, evidentemente, o reconhecimento definitivo dos valores do escritor, que em cenário tão ilustre passa a ter mais espaço para o seu trabalho e suas inquietações de cada dia, além de valorizá-lo com a sua presença.

Estou certo que, com esta posse, a imortal Academia, o grande escritor e todo o Piauí avançam mais ainda na unidade entre todos, na identificação da obra que constroem e no aprofundamento de seus compromisso com as artes, o pensamento crítico e o mundo que nos envolve".


A. Tito Filho, 03/03/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 11 de outubro de 2011

RENATO E PAULO

Renato Castelo Branco e M. Paulo Nunes são duas das mais prestigiosas figuras intelectuais do Piauí. Sobre livro do segundo, recentemente lançado, escreveu o primeiro:

"São Paulo, 20-11-89,
Caro M. Paulo Nunes
Irmão em Piauí:

Eu já conhecia o seu "A Província Restituída" e, através dele, seu telúrico amor a nossa Província, que compartilho, arrastando comigo vida afora (como você) sua indelével carga emocional.

Agora chega-me às mãos, por gentileza de nosso infatigável Arimathéa, um exemplar de "O Discurso Imperfeito".

Se, no primeiro, eu havia apreciado o literato e o crítico, no segundo admiro sobretudo o educador.

Em "Província Restituída" o crítico literário analisa, com lucidez e amor, a vida e/ou obra de ilustres conterrâneos (sempre o Piauí), entre os quais Luís Mendes Ribeiro Gonçalves, a quem tive a honra de substituir, na Academia Piauiense de Letras, na cadeira 19. E, por que não? – também, Luís de Camões, orgulho de todos nós lusófilos, cuja obra analisa com o mesmo carinho com que trata do "Porto da Imaculada Conceição de Marruás".

Em "O Discurso Imperfeito", o educador faz uma reavaliação de nosso panorama sócio-cultural e de nossa problemática educacional, que o coloca ao nível de nossos mais eminentes educadores, a exemplo de Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Paulo Freire.

Mas o que principalmente resulta em ambos é o amor à cultura, a vocação de servir, o humanismo construtivo e pragmático que o acompanham desde a juventude.

Cordialmente,
RENATO CASTELO BRANCO".


A. Tito Filho, 10/01/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

UMA CARTA

Recebi esta expressiva carta:

"Depois da frustração do Halley, do buraco no Ozônio, de Chernobil, do Césio em Goiás, da destruição de Sete Quedas, dos abalos sismicos no México e na Califórnia, do Batou Mouche, da Aids, da destruição do Líbano, da Primavera de Pequim, da invasão do Panamá, das guerras por rivalidades étnicas e tribais, o Planeta Terra não é mais o mesmo.

Os anos 80, implacáveis ceifadores (Elis, Lennon, Drummond, Coralina, Nara, Buñuel, Dali, Borges, Chagal, Hitchcock) deixaram-nos órfãos na arte e na vida, marcas profundas e indeléveis.

Não, não podemos ser os mesmos, também porque a contracultura nega e resiste, o povo foi às urnas, derrubou o muro de Berlim e Nicolae Ceausescu, o Leste Europeu fragmentou-se no seu totalitarismo, caíram varias ditaduras militares na América Latina, as mulheres, muitas, subiram ao poder (Erundina, Corazon, Dorothéa, Benedita) o bebê de proveta e os segredos da genética desvendados, as fibras óticas, os supercondutores, os compact-disc, e a nossa vida invadida maravilhosa e bandidamente pelo faz e o computador. Tivemos uma década furiosa, mefistofélica de quem destrói o tempo inteiro pra poder recriar e lançar moda. Vivemos os anos pós-tudo, onde até o pós-moderno é póstumo (natimorto?).

Mas, apesar da erupção do Vesúvio, do amor com medo da AIDS, de Bucareste em chamas, o povo festeja.

Apesar das tropas ianques, os panamenhos e seus batalhões resistem em nome da dignidade e da cidadania.

Apesar da inflação de 55% ao mês, da violência e do medo, os brasileiros crêem e nós, é claro, ainda fazemos poesia.

Feliz, 1990. Felizes anos 90, onde as certezas substituirão as dúvidas e os medos, onde o trabalho substituirá a inércia e as falcatruas, onde a fraternidade substituirá o egoísmo, onde as paixões substituirão a apatia e o amor reinará absoluto".


A. Tito Filho, 04/01/1990, Jornal O Dia