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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

TECNOCRACIA

Conquistei o titulo de bacharel em direito, com distinção em quase todas as disciplinas do curso, e desde rapaz gostava muito de estudar a língua portuguesa. Iniciei o exercício de cargos públicos na qualidade de delegado de trânsito e costumes de Teresina, do qual solicitei exoneração para retornar ao Rio e prosseguir estudos. Fiz concurso e me aproveitaram no antigo instituto dos comerciários na capital piauiense e voltei a minha cidade do meu xodó para assumir as funções e concluir o curso jurídico, o que foi feito.

Em 1951, o governador Pedro Freitas me fez convite para lecionar e me nomeou professor de português do Colégio Estadual e de sociologia educacional na antiga Escola Normal. Dei conta do recado, como podem atestar os meus antigos alunos e alunas. Fiz concurso sério e difícil.

Em 1954, o governador Pedro Freitas convocou-me a Karnak e me convidou para dirigir o Colégio Estadual. Antes, em 1952, os colegas de jornalismo elegeram-me presidente da recém-criada associação dos Jornalistas, reeleito por dois mandatos mais. A entidade passou a sindicato.

Nas funções de diretor do Colégio Estadual me conservou o governante seguinte, general Gayoso e Almendra, até o final do mandato. Tive substituto no governo Chagas Rodrigues. O educandário tornou-se modelar. Respeitado. Exemplo de ordem e disciplina.

Ano de 1962, o suplente de senador Clark substituiu Leônidas Melo, que se licenciara, no Senado, e me indicou para a presidência da Comissão de Abastecimento e Preços do Piauí ao governo federal. Enfrentei o comércio ilegal do trigo, da carne, as cobranças altas de entrada de cinema, a exploração no comércio do pescado, os vendedores de leite. Venci. Contratei Luiz Noronha para trazer trigo da Bahia e fretei aviões e trouxe carne do Maranhão, na fronteira com o sul do Piauí. Importei peixe do amazonas. E assim passei adiante. A verdade está em que tudo passou a ser vendido ao público por preços justos de acordo com a fixação honesta dos valores.

Exerci a elevada função de secretário da Educação e Cultura, no governo Clímaco de Almeida. Realizei administração de alto nível, conforme se vê do depoimento de Itamar Brito, em história publicada sobre esse órgão público. Em 1975, no primeiro governo Alberto Silva, recebi a incumbência de dirigir a Secretaria da Cultura, por dois meses, em que editei uns vinte livros, promovi a festa de reinauguração do teatro 4 de Setembro, maravilha de festa, sem quase despesa para os cofres públicos.

Desde 1971, sou presidente da Academia Piauiense de Letras, reeleito seguidamente para vinte anos de mandatos.

Nunca pedi cargos a governador algum de minha terra. Convidaram-me para os cargos provocando-me surpresas. Nunca fui técnico de cousa alguma, exceto da leitura, da honestidade, do desejo de fazer as cousas com o rigoroso cumprimento da lei. E não preciso de empregos, pois vivo modestamente, mas sem dividas e sem picaretagens.

A tecnocracia instituída pelo presidente Fernando Collor para administrar a República corresponde a fracasso generalizado. O próprio governo aumenta os combustíveis, aumenta as taxas dos correios, aumenta preços do pão e do leite, aumenta as taxas dos correios, não permite que os operários ganhem o necessário para as necessidades primárias da vida. A inflação vem subindo sempre inquietando as camadas populares. Há no Brasil um governo de tecnocratas, cujas palavras ao público, nas televisões, ninguém entende. Além disso, falam um péssimo português, o economês.

O futuro governo de Freitas Neto deve ter técnicos, sem esquecer que estes nem sempre se guiam acertadamente.


A. Tito Filho, 18/12/1990, Jornal O Dia

PROMESSAS

Num país faminto, em que o povo não pode ter civismo porque vive de pança vazia, num país abúlico, de milhões de analfabetos, o presidente da República faz o que lhe dá na veneta, e pode, querendo, chegar ao desmando e à prepotência.

No Brasil, o chefe do Executivo legislava quando, num ato de força, se fundava o sistema ditatorial, do jeito que praticou Getúlio Vargas, de 1930 a 1934 e de 1937 a 1945, ou da forma que estabeleceram os militares, de 1964 a 1985, épocas de severas e cruéis ditaduras. Sob o regime do presidente Fernando Collor vigora a MEDIDA PROVISÓRIA, criada pela Constituição Federal de 1988, em caso de relevância e urgência, circunstância que não se vem observando, e o presidente legisla em matéria sem as exigências constitucionais e que bem poderia ser objetivo de projetos de lei, normalmente.

Nunca vi o Brasil na situação dos dias que correm. Nada funciona. Deterioramento da educação e da saúde. Cultura abandonada. Megalópoles de problemas angustiantes. Insegurança social generalizada. Industria do crime por toda parte. Renda das pessoas em desnível insuportável pelos assalariados. Desemprego e subemprego. Incompetência. Instituição do ócio no funcionalismo público. Descrença nos homens públicos.

A euforia industrializante de Juscelino Kubistchek deu no que deu: a busca da cidade pelas populações do campo, para a fantasia do ganho fácil e de conforto, mas cujo resultado aumentou a favelização dos enormes centros urbanos e os apartamentos da população debaixo das pontes.

Na campanha presidencial de 1989, Fernando Collor de Mello fez promessas que o tornaram símbolo da esperança dos brasileiros. Liquidar-se-iam os MARAJÁS, indivíduos afortunados e privilegiados de ganhos absurdos. Dar-se-ia a moralização da vida pública. Derrotar-se-ia. A 15 de março de 1990 assumiu o fazedor de promessas. Chegou o Natal. Os marajás continuam a desafiar o governo, a burocracia brasileira prossegue o seu cortejo de malefícios, o processo, inflacionário martiriza no dia-a-dia da subida dos preços.

A única medida que se teve, até agora, foi a de confiscar o dinheiro dos brasileiros confiados aos estabelecimentos de crédito para que rendessem juros. O governo arrecadou-os prodigalizando mais aflições às classes necessitadas.

A ministra Zélia, rica de gestos autoritários, no começo do governo Collor apostava na inflação zero. Agora, pelos aparelhos de televisão, culpou os empresários e pede paciência.

Collor ataca os exploradores do povo, esquecido de que o seu governo aumentou de vez em quando os combustíveis, as taxas dos correios, o preço do pão e do leite, das passagens de ônibus e dos aviões. Como evitar que os industriais e comerciantes não aumentem os preços dos seus produtos, e o próprio governo oferece o exemplo de aumentos constantes?

A verdade verdadeira está na evidência de que os tecnocratas cada vez mais se desacreditam com os planos salvadores: Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Verão e mais que seja, um só deles acertou cousa alguma.

E milhões de brasileiros passam fome e vivem dias de medo e desesperança.


A. Tito Filho, 25/12/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

METAFÍSICA

O ministro da ditadura de Getúlio Vargas, apelidado no tempo de Chico Ciência, era Francisco Campos, o autor da carta constitucional de 1937, outorgada ao povo num frio golpe militar do mesmo ano. Coube a Francisco Campos efetivar uma das melhores reformas educacionais, com a criação dos vocacionais pré-jurídico, pré-médico e pré-técnico. Como aluno do primeiro, estudei filosofia e recolhi noções de metafísica, ciência suprema, que estuda a natureza ou a substância do real, e constitui o fundamento da ética aristotélica. Forma superior de vida contemplativa, que proporciona felicidade ao homem.

Conheci sobre o assunto o pensamento de Descartes, Spinosa e Leibniz. Estudou-a Wolf. O criticismo de Kant assinalaria a crise mais grave da metafísica, e contra esta reage Lomte para quem o estado metafísico não tem originalidade e a ele o francês se refere de modo pejorativo. O materialismo nega a metafísica.

"Em grande parte, como já se observou, os movimentos filosóficos que preconizam o retorno à metafísica, tendem a ignorar o Kantismo, o positivismo e o materialismo histórico. Entre as principais representantes da metafísica contemporânea, devem-se mencionar Blondel, Max Scheler, Nicolai Hartman e Alfred N. Whiehead, Henri Bergson e Martin Heidegger... Para Bergson, que retoma em seus livros fundamentais os temas da metafísica tradicional (Deus, a imortalidade da alma e a liberdade), a matéria é inércia, geometria e necessidade, a vida é contingência e espontaneidade, e o espírito, liberdade e criação..." Para Heidegger filosofia quer dizer metafísica.

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Sei muito pouco sobre esses temas que envolvem profundos e graves conhecimentos filosóficos. Mas me entusiasmo no momento em que tomo ciência de que no Piauí se efetivará, dentro de pouco tempo, a I Conferência Metafísica Piauí/Brasil/Estados Unidos, para desenvolvimento de temas metafísicos dos mais interessantes e oportunos, na palavra de ilustrados conferencistas. Acontecimento de estudos idênticos promoveu em São Paulo a Fraternidade Pax Universal, em junho deste 1990, contribuindo-se para uma vida mais saudável e harmoniosa da imensa coletividade paulistana.

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A festa espiritual e cientifica do Piauí tem como idealizadora e promotora a educada e culta Dra. Dulce Duarte Pinheiro Correia, com o apoio de diversas instituições educacionais e literárias e pretende estudar assuntos do mais relevante valor social: os conflitos provocados pelo crescimento urbano e o equilíbrio do homem no seu processo de vida, com o objetivo de proporcionar reflexões e introduzir grupos interessados na prática do autoconhecimento a partir da visão metafísica. Existem oportunidades de novas relações voltadas à verdade existencial, conforme admitem os organizadores da programação, para o período de 9 a 11 de novembro porvindouro.

O projeto da conferencia já se encontra elaborado por pessoas da melhor categoria intelectual, como Dulce Duarte Pinheiro Correia, Antônio de Deus e Maria do Socorro Caldas Borges, que sustentam esta verdade: "Os momentos difíceis que vivemos provocam tensões, angustias e medos. Esse estado de insegurança se reflete em nosso organismo gerando doenças físicas e toda espécie de sofrimento. A falta de informação faz com que esses sofrimentos se multipliquem numa cadeia infinita. Mas para todo mal há uma solução e o melhor caminho é aquele que conduz à serenidade, ao autodomínio e a perfeita felicidade".


A. Tito Filho, 29/09/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

INFLAÇÃO

Quando me entendi, vigorava no Brasil o padrão monetário chamado MIL RÉIS, denominação que nos transmitiram os portugueses. Não alcancei o vintém, correspondente à vigésima parte do mil-réis, nem a pataca, de valor fixado em 320 réis. Circulavam as moedas de metal seguintes: o tostão ou cem réis, e dez tostões valiam um mil réis; duzentos réis; o cruzado ou quatrocentos réis; a de quinhentos réis, amarelinha, e a de um mil réis, também da cor do ouro. Corriam também cédulas de variado valor.

Em 1942, Getúlio Vargas decretou novo padrão monetário, o cruzeiro, dividido em centavos. Eu me encontrava no Rio de Janeiro quando se deu a mudança. O mil-réis passou a denominar-se cruzeiro.

Nesta Teresina, em 1932, a gente comprava cinco bananas por um tostão e no Rio custava uma passagem de bonde, para longo percurso, a bagatela de 10 centavos. Por 10 centavos se comprava um jornal de 12 a 16 páginas.

O cruzeiro, no tempo do presidente Castelo Branco, transformou-se em cruzeiro novo e com o passar do tempo voltou a chamar-se cruzeiro, até que o presidente Sarney adotou o seu célebre cruzado que chegou a cruzado novo. Em março de 1990 voltava-se ao cruzeiro.

Interessante é que tais alterações na moeda se fazem por vontade presidencial, sem interferência do Congresso da República.

Durante muitos anos nunca ouvi falar de inflação. As mulheres referia-se, com a subida dos preços, a carestia, por mínima que fosse a alteração.

Durante cinco anos, no Rio, meu pai mandava quinhentos cruzeiros mensais, importância com que eu pagava a pensão de estudante, lavado e gomado, merendava, usava transporte, adquiria jornal e cigarros, ingressava em circos e teatros e ainda gastava com mulheres nos cabarés e com as namoradas de sorveterias.

Enfrentei a vida nas fases da mocidade e parte da maturidade e nunca ouvi falar de inflação ou li jornais em que se debatesse tal problema. A cousa começou ao que parece no governo de Juscelino, com a construção de Brasília, o maior elefante-branco do país, cidade malvada que se cerca das mais espetaculares favelas do planeta. Construída para quinhentos mil habitantes, já ultrapassou dois milhões de seres humanos.

A vertiginosa subida de preços prosseguiu nos governos seguintes e não esbarrou, se não nos dias fantasiosos do cruzado do presidente Sarney.

Inflação, deflação, recessão, choques heterodoxos, e quanto vocabulário que tudo batiza a incompetência dos homens que governam o país, sustentando verdadeiros polvos como as estatais e adotando empréstimos fabulosos, a juros exorbitantes, para a edificação de obras faraônicas, prédios de luxo espantoso, bem assim nas viagens de gastos absurdos com o objetivo de que dois governadores se abracem e se façam rapapés receptivos, como recentemente se verificou na visita de Bush ao Brasil, para os opiparos banquetes, enchedores dos bundulhos de comensais de peru e caviar, e das panças sacolejantes de uísque dos estranjas.

No fim de contas, os dois presidentes, com as técnicas avançadas de hoje, bem poderiam entender-se por telefone, onde o telefone [de] Collor receberia as ordens do chefão da violência internacional.


A. Tito Filho, 23/12/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ALIMENTAÇÃO

Contam que o mundo comemorou neste outubro de 1990 o dia internacional de alimentação, certamente da alimentação racional, farta, higiênica, atentadora das exigências da natureza humana. Houve festas maravilhosas na Etiópia, nos miseráveis países africanos, na América Latina e nas suas encantadoras e nas suas encantadoras favelas, alegres e plenas de vida. No Recife, onde os meninos catam restos podres de comida nas latas de lixo, os fogos de artifício coloriram os céus. O presidente Bush discursou aos povos recomendando caviar e perus natalinos. Em Teresina, os restaurantes ofereceram banquetes opiparos aos milionários dos bairros de luxo, enquanto os populares espiavam de longe os manjares dos deuses deglutidos nas afetivas patuscadas. Pobre não come. As populações famintas se encontram diminuindo de tamanho. A ausência de nutrição correta embota a inteligência e priva a pessoa do civismo e da altivez.

Essas campanhas têm a finalidade de desviar a atenção das massas humanas miseráveis, que esquecem os padecimentos e as angústias por alguns dias na esperança de que realmente possam encher o bucho vazio. A publicidade oficialmente paga pelos governos engana os tolos e ignorantes, na matreirice subliminar para a conquista de consciências deformadas.

Alimentação é vida. Não se resume em entupir a pança de substâncias que nada revitalizam.

É alarmante a nossa situação em matéria de alimentação. E exclusivamente a isto se podem atribuir as consequencias devastadoras para o homem brasileiro, para o seu desenvolvimento e para a sua capacidade. A cor de nossa pele não responsável pelos nossos males, mesmo porque "há brancos que são mais escuros do que alguns negróides; o cabelo escuro e os olhos negros são comuns a todas as raças; encontra-se o mesmo indício cefálico em grupos das raças mais diversas; a mesma forma do cabelo existe entre grupos étnicos tão distanciados como os indígenas australianos e os europeus ocidentais; os grupos sanguíneos não definem as raças".

E se somos apenas vítimas orgânicas de um regime alimentar deficiente, cumpre-nos atenuar o seu cortejo maléfico, incrementado a nossa produção e reformando a nossa economia agrária, o que se obterá, como bem ensina Josué de Castro, com o aproveitamento de todas as terras cultiváveis circunvizinhas dos grandes centros urbanos, mecanização da lavoura, financiamento bancário da agricultura, intensificação do cultivo de alimentos, amparo e fomento ao cooperativismo, combate ao latifundiário e à monocultura.

"A fome e a doença são os únicos companheiros constantes da solidão forçada do homem brasileiro", inferiorizado por uma organização econômico-social defeituosa.

O homem brasileiro deve ser valorizado.

E queremos crer que estas palavras não se tornem mera frase sonora. Estas palavras devem receber um significado real no pensamento e nas ações quotidianas de todos os homens, mulheres e crianças deste país.

Não somos povos inferiores. Apenas nos falta combustível e ainda não resolvemos o nosso problema cultural.

Não somos brancos, nem pretos, mamelucos ou mulatos - somos todos brasileiros.

É para nós uma razão de orgulho que no Brasil todos sejam membros do mesmo corpo.

O preconceito nasce do erro e da ignorância.

Brancos, negros e mestiços - estudemos a grande pátria que os antepassados heroicamente defenderam, para que possamos compreendê-la e dignificá-la, num mundo livre.


A. Tito Filho, 20/10/1990, Jornal O Dia

CABEÇA-DE-CUIA

A estória vigorou na poesia e na prosa de folcloristas e de estudiosos das manifestações e crendices populares. O sujeito chegou a casa, faminto, hora da bóia, e a mãe do proprio nada tinha que lhe matasse a fome. Irado, muniu-se de osso enorme, um corredor de boi, e matou de pancadas a pobre velha. Cada qual sempre contou a seu modo o episodio, gente do povo e os escritores. Antes da morte, a vítima atirou praga ao filho perverso. haveria de permanecer nas águas do rio Poti, de Teresina, e só quebraria o encantamento depois que comesse sete Marias. O assassino assim vivia. Só deixava a cabeça de fora, boiando, daí a denominação que lhe foi atribuída de cabeça-de-cuia. Causava pavor. Homens e mulheres o temiam.

No livro ENCANTO E TERROR DAS ÁGUAS PIAUIENSES, Josias Carneiro da Silva dá segura interpretação ao cabeça-de-cuia. Tem-no como incestuoso e condenado, para o desencanto, a deflorar sete Marias, proeza dificílima neste mundo de hoje, de mulheres sem cabaço.

A lenda diz comer sete Marias. Na antiguidade mitológica a fecundação independia do contato masculino e das vias naturais receptivas, como sustenta Cascudo. Houve a crença da gravidez sine cuncubito. A cobra-grande amazônica engravida cunhã sem cópula, na crença do povo. Existiu época da fecundação oral e por causa disto se emprega comer como sinônimo de copular.

Cascudo conta que numa igreja do Recife há um quadro: Nossa Senhora ajoelhada ouve um anjo mensageiro de Deus e, das alturas, desce em diagonal um raio luminoso, alcançando a orelha esquerda da mãe do Altíssimo. A fecundação teria sido por processo auricular. E o povo logo criou o conhecido dito emprenhar pelos ouvidos.

O nosso saudoso Odylo Costa, filho, fez soneto bonito, na "Cantiga Incompleta", em que fala do poder sexual das águas do Parnaíba:

"Naquele tempo, núpcias e puras,
as mulheres vestiam-se de peixes,
uma camisa ou nada sobre a pele,
nádegas, peitos, púbis ofertados,
e o rio era possuído e as possuía,
no mergulho auroral entre os barrancos".

D'Humiac escreveu obra interessante sobre algumas grandes lendas da humanidade, afirmando que o mistério do mundo se explica pela imaginação e pela razão. Concluiu que os velhos mitos estão morrendo porque a ciência os derrota como a verdade.

Josias Carneiro da Silva antevê o desaparecimento das lendas e das fantasias, porque o próprio povo, que as cria, nelas passa a desacreditar, com o correr dos tempos, por através das explicações cientificas.

A imaginação, pouco a pouco, vai sendo substituída pela razão, do modo que Josias, indulgente e sabedor, revela no citado livro extraordinário.

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Existem notáveis folcloristas no Piauí, no passado como no presente, como João Alfredo de Freitas, nos estudos sobre lendas e superstições no norte do Brasil, obra rara nos dias correntes. Material folclórico poderá colher-se em Hermínio Castelo Branco e Teodoro Castelo Branco, poetas populares, bem assim Clodoaldo Freitas, que compôs versos interessantes a respeito de temas folclóricos. Citem-se ainda o grande Fontes Ibiapina, João Ferry, Baurélio Mangabeira, que tanto se preocuparam com as manifestações do povo e sérios pesquisadores e intérpretes desses temas, da forma que trabalhou Noé Mendes.

Cito apenas os que já saíram desta para o destino final. não citei todos, mas alguns que me chegaram à memória. Entre vivos, existem nomes respeitáveis e aplaudidos, como também entre os falecidos. Fica para outra ocasião a lembrança.
    

A. Tito Filho, 30/11/1990, Jornal O Dia

CARROS

Quando cheguei ao Rio, na década de quarenta, já se verificava algum aperreio no tráfego de veículos, sobretudo na avenida Rio Branco, de trânsito nos dois sentidos. Só os ricos ou os bem aquinhoados de vencimentos possuíam automóvel. A classe média e o operariado se serviam de ônibus e do popularíssimo bonde, este último muito ventilado, viagem agradável, tranqüila. Eu gostava sobretudo quando se sentava a meu lado a garota de traseiro bem fornido e coxas de misse, e que roçava na gente acompanhando o sacolejar do veiculo para a esquerda e para a direita e vice-versa, nos trilhos zoadentos.

Retomei a Teresina no principio de 1947. A cidade fundada por José Antônio Saraiva tinha uns vinte carros de aluguel e um tanto igual de carros particulares. Não me lembro de ônibus nesse tempo.

Se a memória não me falha, foi em 1963 ou 1964 que, em Teresina, fiz entrevista com o senador Sigefredo Pacheco, que havia retornado de viagem a Rússia, numa visita de parlamentares brasileiros. Dirigi ao saudoso médico e amigo várias perguntas sobre o povo russo, o comunismo, a arte, a literatura dessa gente, quase desconhecida dos piauienses na época. O entrevistado ofereceu esclarecimentos curiosos e ilustrativos. Publiquei-os na imprensa.

Não poderia deixar de fazer uma indagação sobre a capital soviética, assim me respondendo o senador: "Cidade muito grande e populosa, mas atrasada. Não possui certo conforto da vida moderna, como o automóvel. São poucos esse veículos que trafegam em moscou, menos do que em Teresina".

Sigefredo informava uma verdade. Até na capital russa o tráfego de automóveis se mostra reduzido, o que não significa atraso, mas proteção do governo à economia do povo.

No Brasil o ideal de todos reside em possuir automóvel, ricos e pobres. Os pobres, porém, sacrificam as pequenas rendas auferidas para a aquisição de carro próprio e cuja manutenção, com gasolina, peças repostas, oficinas revisoras, só angustiam o raquítico orçamento doméstico. A política soviética se vira para proteger a bolsa popular, proibindo-se que a massa de gente trabalhadora se sacrifique na compra do que lhe acarretará despesas acima do seu poder aquisitivo. Que faz o governo russo? Oferece ao povo o sistema de metrô mais luxuoso do mundo e no transporte subterrâneo todos alcançam, em tempo mínimo, o local de trabalho e de residência.

No Brasil, pessoas que mal comem, mal habitam se envaidecem pilotando o que compraram por altos preços, que adicionam juros criminosos.

A ministra Zélia Cardoso de Melo denunciou pela televisão que uma empresa vendedora de carros, a Autolatina, está cobrando preços acima do normal pelos veículos que vende. A empresa contesta a ministra. Não sei de que lado está a razão. Penso, porém, que a ministra deveria punir os preços extorsivos que se cobram pelos produtos extorsivos que se cobram pelos produtos necessários ao povo, diariamente sobem de preço, e o aumento se faz com a autorização do próprio governo, ou da ministra, e se relaciona com o pão, com o leite, com o transporte coletivo, com a energia elétrica.

Carro particular significa luxo, ao menos para o povo de barriga roncada.


A. Tito Filho, 28/12/1990, Jornal O Dia

FUNÇÃO DAS ACADEMIAS

As instituições literárias devem cuidar de objetivos diversos. Não cabe que os seus membros se restrinjam a compor poemas e escrever livros de ficção. As verdadeiras entidades de cultura fiam mais fino. Não esquecem a coletividade e procuram ajudá-la nos seus anseios, educando-a no conhecimento dos aflitivos problemas humanos. Outras vezes convocam escritores, para o conhecimento de novos processos de criação artística. Bom ainda que se consiga a presença de vultos ilustres para que deponham sobre o passado e assim esclareçam dúvidas e equívocos.

A Academia Piauiense de Letras tem cumprido deveres e obrigações neste particular. Figuras do mundo cultural têm vindo ao Piauí por convite do sodalício, que consegue junto a administração pública e as pessoas dos convidados, que jamais cobraram um centavo pelos valiosos serviços que prestam a gente e sobretudo aos moços piauienses. Citemos os mais recentes, os que nos proporcionaram lições oportunas nestes últimos cinco anos, vindos por vontade de ajudar a nossa Casa de Lucídio Freitas: Esdras do Nascimento, Jaime Bernardes, diretor-proprietário da famosa editora Nórdica; Assis Brasil, Afrânio Coutinho, nomes que deixaram proveitosas lições aos estudantes da Universidade Federal do Piauí. Outro exemplo de dedicação pode dizer-se do professor Correia Lima, cientista de fama internacional, especialista neste mal do século, a AIDS, com duas palestras educativas sobre o assunto, uma aos jovens, no amplo auditório da Escola Técnica Federal, outra aos acadêmicos, jornalistas e convidados especiais na sede da Academia. O nosso companheiro Vilmar Soares conseguiu a visita.

Deu-nos a honra da presença o presidente da Academia Brasileira de Letras, esse admirável Austregésilo de Athayde, que convidou conosco cinco dias, simples, amável, na velhice verde dos 90 anos, e que prestigiou a Academia e as nossas entidades de cultura pelas lições oferecidas na palavra entusiasmada e contagiante.

Chegaria a vez do mito, cuja vinda conseguimos por intermédio da professora Anita Leocádia, amiga de rara grandeza espiritual. Sim, veio ao Piauí o capitão Luís Carlos Prestes. Visitou os sítios históricos em que ele acampou, com os seus barbudos: Oeiras, homenageado pelo Instituto Histórico e pelo líder B. Sá; Floriano, em calorosa recepção, Monsenhor Gil, a antiga Vila de Natal, de onde o chefão dirigiu o cerco de Teresina - e finalmente esta capital do Piauí, cercado de admiração e respeito, recebido no palácio governamental, na sede do Poder Judiciário, na Assembléia Legislativa, a Prefeitura, na Câmara dos Vereadores e na Academia. Por toda parte Prestes restabeleceu a verdade histórica sobre a marcha formidável pelo interior do Brasil.

Neste outubro de 1990 o nosso conterrâneo Vilmar Soares prestou outro valioso serviço ao Piauí com a vinda do grande professor Affonso Berardinelli Tarantino à Teresina, por convite da Academia. Trata-se de médico de nomeada, membro da Academia Nacional de Medicina, mestre da Universidade Gama Filho, na Universidade do Rio de Janeiro e na Escola Carlos Chagas. Os acadêmicos confiaram-no às nossas instituições médicas a coordenação de um jovem doutor, sério e dedicado, Antônio de Deus. Tivemos todo o apoio do governo piauiense. Foram 15 horas de aulas sobre aspectos da Pneumologia. Palestras úteis e oportunidades a respeito de pneumonia, doenças pulmonares crônicas, derrame pleural, tuberculose, tabagismo, entre outras partes do extenso programa.

*   *   *

Paulista de nascimento e carioca de afeição, Tarantino me impressionou pelas maneiras simples de palestração. Não parece o professor de tantas láureas. Nem o cientista de fama merecida. Gosta da humanidade, de servir os outros. Apaixonou-se por Teresina, talvez pelos cenários miseráveis do processo de favelização da capital piauiense. Dá pouco valor aos bens materiais. Virtuoso, cultiva princípios maravilhosos que dignificam o homem. Escreve com a compostura do zelo da língua, no estilo vivo, original, gracioso, como escreveram e escrevem os grandes médicos, em falhas, cativo da frase correta, mas sem os pruridos antipáticos das gramatiquices.

Tarantino deu aula de beleza espiritual na Academia Piauiense de Letras. Senti que ele guarda imenso amor a memória da genitora, de cujo túmulo, em São José dos Campos, ele cuida, com os instrumentos da jardinagem, no comparecimento mensal na cidade, na distância de 300 quilômetros.

Aos acadêmicos, na despedida, acentuou que teve tratamento igual ao do Piauí em dois passeios quando visitou Portugal e quando tinha o carinho e o afeto da mãe querida.


A. Tito Filho, 30/10/1990, Jornal O Dia

CIVILIZAÇÃO

O homem criou a sua própria destruição - máquina, geradora do maior processo revolucionário de todos os tempos, a civilização industrial, e das consequencias dela advindas: o combustível, que provoca a existência das nações pobres e ricas; a conquista de mercados consumidores para os produtos fabricados em larga escala; e o imperialismo dominador, responsável pelas angústias de tantos povos exploradores. O poder econômico, pelos canais de intensa propaganda e publicidade subliminar, institui a cultura enlatada, subvertendo a vida espiritual e criando a fantasiosa existência do conforto a qualquer preço e do desprezo a comezinhas normas de convivência moral. Em nome do progresso, o bonito Rio de Janeiro transformou-se numa selva de cimento armado, a fim de que os fabricantes de arranha-céus e elevadores obtivessem lucros fabulosos. A coca-cola, líquido que produz cansaço, torna-se símbolo das alegrias da juventude. Para vender mais, desnudaram-se nádegas, seios e até a parte inferior mediana da região hipogástrica que forma a eminência triangular feminina. Velhotas menopáusicas passeiam as muxibas pelas ruas metidas em calças anatômicas. Homens pelados na televisão exibem as mãos nos bolsos. Nada mais nada menos do que a glorificação do NU. Último modelo de veículos, viagem de turismo, uísque para as coronárias, jantares americanos, o arsenal químico dos tranqüilizantes para os sofridos nervos depois dos bacanais que varam as madrugadas - eis alguns quadros do selvagem capitalismo nacional, sustentador do luxo nababesco de uma elite que não cede, que se recusa às reformas urgentes exigidas de uma minoria irresponsável que pouco se incomoda que milhões cheguem ao desespero, pela fome, pela habitação desumana, pela família sem os mínimos bens da vida, pela doença, pela miséria generalizada. A verdade está em que poucos gastam milhões no fausto, no luxo, no comodismo, explorando quase todos os brasileiros da paupérrima classe média e da aviltada classe proletária. Pequenos comerciantes, professores, jornalistas do batente, e milhões que chegam a cinco ou dez salários mínimos sacrificam os ganhos mensais nas prestações para aquisição da bateria de eletrodomésticos anunciados pela propaganda dentro do lar humilde; ou na compra do fusca, o amor das mal-amadas, ou no pagamento da viagem feita a Foz do Iguaçú ou a Buenos Aires; sem falar dos carnês do Banco Nacional de Habitação e da sua centena de sucursais pelos Estados antigamente federados, hoje membros da República Unitária Brasileira - e esses dinheiros mensais do ganancioso financiador de casa própria confere direito a uma casinhola na grande concentração dos conjuntos habitacionais. A classe média, sem dinheiro, busca status, a vaidade de obter alguns instrumentos do progresso industrial à custa do sacrifício antecipado dos magros dinheiros que recebe. O proletariado, este marginaliza-se, no desempenho das elevadas funções lucrativas de traficantes, de bicheiros, de assaltantes - e assim com lucros fabulosos sustenta as famílias faveladas, onde habita, sob a guarda dos protegidos. Submetem-se a perigosa existência, mas se transformam em heróis no jornalismo e na concepção de gente humilde. Reformem-se as estruturas sociais do Brasil com urgência. Não é possível que pequena porção fútil, dissipando em festas ruidosas e episódios paradisíacos, numa gritante afronta aos que se entregam ao trabalho honesto e digno, [tanto] público como privado. Está na hora de ceder, tanto os latifundiários que exploram a terra e o homem, como os capitães de indústria e os tubarões da economia que sugam os restos de resistência do trabalhador nacional, na indústria como no comércio. Os homens do dinheiro continuam na nefasta teimosia de levar o país ao desespero.


A. Tito Filho, 18/08/1990, Jornal O Dia

SUSPENSE

Suspense pertence ao vocabulário inglês. No meu modesto livro ANGLO-NORTE-AMERICANISMOS NO PORTUGUÊS DO BRASIL, que destacamos autores nacionais elogiaram, sem que merecesse registro ao menos de uma linha dos críticos e comentaristas piauienses, salvo os colegas da Academia, nesse livro defino SUSPENSE como momento de forte tensão no enredo de filme, peça teatral ou obra de ficção, certa ansiedade resultante de incerteza, mistério ou indecisão.

Faz pouco tempo a Academia Piauiense de Letras editou e entregou ao público "Um Drama de Consciência", do acadêmico e médico Salomão Chaib. Ofereci-o a vários jornalistas da terra, mas nenhum registro se fez dessa pequena (50 páginas) obra-prima.

Quando li os originais do trabalho de Salomão, lembrei-me de Eça de Queiroz, em "O Mandarim": "No fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que a fábula ou a história contam. Dela nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, postas a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver; e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?".

Tocaria você a campainha?

Assim no livro de Salomão. Médico famoso vai operar coronel acusado de [ser] torturador. As vítimas ameaçam por telefone o cirurgião. Ou mata o paciente ou tem a filha raptada. Que fazer? A vida do violento militar se encontra nas suas mãos. Salva-lhe a vida ou a da filha? O livro deve ser lido pois nele se encontra a resposta.

Faz anos tenho muita admiração a Orlando Parahym, médico pernambucano de merecida projeção cientifica e literária. Possui, inclusive, estudo biográfico e crítico sobre o piauiense Otávio de Freitas, fundador da Escola de Medicina do Recife. Mandei o livro de Salomão a Parahym, que me escreveu pela seguinte forma: "Caro mestre e ilustre amigo Tito Filho. Agradeço-lhe a oferta do livro "Um Drama de Consciência", de autoria de Salomão A. Chaib. Ao que me parece, o escritor é profissional da medicina. Além disso, um escritor excelente. Estilo simples, claro e comunicativo. No que se refere à parte médica, aí tudo é perfeitamente descrito, revelando no escrito a personalidade de um cirurgião de alta categoria e longas experiências no ofício. Todas as minúcias acham-se referidas e discutidas a luz dos mais modernos conceitos da cirurgia. Se, no que tange à descrição empolgante do ato cirúrgico tudo se eleva às raias do inexcedível, cabe ressaltar o primoroso literato cuja valorosa personalidade se consagra modelar em todas as páginas em que descreve a intensidade psicológica do terrível drama de consciência vivido pelo Dr. Coutinho. Digo-lhe tais coisas, meu caro Tito Filho, depois de ter lido e relido essas páginas tão empolgantes de um livro capaz de prender nossa inteligência mercê do seu conteúdo admirável e forte, comovente e belo na sua opulência literária e humanística".

Palavras espontâneas de uma autêntica glória da Medicina e das letras de Pernambuco. Outras referências elogiosas me chagaram de várias cidades brasileiras.

E no Piauí? Nada. Registro algum se fez. Falta de interesse pela boa leitura? Desprezo ao que é nosso? Uma tristeza esta taba piauiense habitada de inúmeros sábios da Grécia.


A. Tito Filho, 31/07/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

TRAGÉDIA

Estudante no Recife, meu pai se dedicava a estudos sobre a criança. Gostava do assunto. Foi pobre, sem dinheiros para diversões. Juiz de direito na sua terra natal, Barras, recebeu promoção por merecimento para Teresina. Era 1932. Cidade pequena, a capital do Piauí possuía muitos locais de jogatina. Bilhar, dominó, o gostoso bozó para aposta de cervejas, e os cabarés já vicejavam por alguns lugares.

Meu pai pleiteou junto ao Tribunal que lhe fosse confiada a jurisdição dos menores. E assim foi feito. Sem veículos, com uns dois fiscais, havia segura fiscalização nos ambientes que se julgassem nocivos às crianças, que freqüentavam cinemas de tarde e ninguém os via nas ruas sem a companhia dos pais depois que a usina elétrica dava o sinal das nove da noite.

Quando fui estudar no Rio na década de 40, nunca vi garoto pelas ruas desacompanhados dos responsáveis e as diversões eram rigorosamente observadas quanto à idade de freqüência de crianças e adolescentes.

O Brasil nunca melhorou de vida. Vítima do colonialismo e já agora do imperialismo, quintal dos norte-americanos, país favelado, faminto, doente, em que nada funcione senão assaltos e crimes, dono de desumano sistema penitenciário, coletividade erotizada, desavergonhamento moral por toda parte, miséria, humilhação de magnatas estrangeiros examinando as contas do governo, ministros em adultério público - o governo agora, debaixo de riquíssima propaganda, festejou o dia da criança. O presidente da República possui ministros infantis. Uma patuscada. Decretou-se um estatuto da criança, como se o país nunca tivesse adotado códigos que protegessem os menores e que passaram a letra morta desde que a sociedade brasileira destruiu o lar da família. Mais uma vez se desviou a atenção nacional dos profundos malefícios que constituem a causa da desgraça do menor.

O espetáculo nacional semelha impiedade. Sociedade perversa voltada para o enriquecimento fácil, para os golpes milionários, para a futilidade, para o luxo, o gozo dos bens materiais, sem peias. As mulheres abandonaram o lar. Os meninos vivem nas ruas, espelho de uma sociedade maléfica. A rua reflete a patologia social e nela a angústia busca um consolo, um alívio, a rua é o refugio dos que não têm lar, têm apenas casa ou abrigo debaixo das pontes ou a promiscuidade dos conjuntos habitacionais. Pertence a rua aos sem-afeto.

O homem construiu uma civilização que o aniquilará. O mundo vale sexo, violência, dinheiro. O menor depende de uma liderança educacional apoiada no amor materno. Sem esse apoio, o menino busca na rua auto-afirmação. Não há crianças ruins, existem crianças mimadas ou escorraçadas, futuros desajustados. Uma sociedade injusta e desequilibrada produzirá apenas revoltados e criminosos.

Verifiquem-se os crimes que se praticam contra a criança no cinema, na televisão, observam-se os clubes mundanos, os botecos, os outros de jogatina. Cafetinas e gigolôs comerciam a carne de jovens mulheres, vendidas a concupiscência de bandidos engravatados.

Mas uma campanha hipócita pelo menor cuja saúde espiritual depende do saneamento moral da sociedade dita moderna - uma sociedade em que os ricos chafurdam no prazer dos vícios e dos gastos supérfluos e os milhões de párias brasileiros [que] vegetam no mais cruel dos destinos humanos: o de ao menos enterrar os filhos entanguidos e raquíticos que mulheres esqueléticas têm a desdita de parir para a morte.


A. Tito Filho, 25/10/1990, Jornal O Dia

CORONÉIS

Acabo de ler Império do Bacamarte, de Joaryvar Macedo, das mais aplaudidas afirmações da literatura cearense dos dias que correm. Trabalho curioso e sério, estudo de sociologia e de processos políticos de história do Ceará, sobretudo da região do Cariri. Bacamarte e punhal participavam dos episódios de domínio e de sangue, quer o livro retrata com grande fidelidade de observação.

Outros livros me encantaram de ensinamentos no tempo de sua leitura, como Heróis e Bandidos, doutro cearense leal às letras históricas e sociais, Gustavo Barroso, e Coronelismo, Enxada e Voto, de Vítor Nunes Leal, jurista punido pela quartelada de 1964, quando honrava o Supremo Tribunal Federal, e estudioso de homens de costumes políticos interioranos.

A obra oportuna e importante de Joaryvar Macedo fez que eu, neste escrito de jornal, convoque conterrâneos de talento para a escritura da história dos coronéis do Piauí, nos tempos coloniais, no Império e na República, e são muitos, os donos da gadaria e depois os latifundiários da monocultura. Da forma que se verificavam noutras terras, os assassinos de modo geral caracterizavam a violência dos poderosos, cujas riquezas em animais e terras se conservavam pelos casamentos de parentes, no interior do clã familiar. Imperdoável, sem o casamento, a desvirginização das donzelas. Os garanhões se casavam com a deflorada ou perdiam o aparelho sexual, pela capação sem dó nem piedade.

Ainda não se escreveu a história do coronelismo no Piauí nem dos coronéis orgulhosos do mando e da impunidade, sempre dois em cada área da política partidária, a do governo e a da oposição, vivendo ambos num mundo selvagem.

Conheci alguns coronéis célebres, homens que criam em Deus, corajosos e as mais das vezes de elevados sentimentos humanos. Igualmente nãos e valiam de gestos de perversidade. Respeitavam os adversários. Respeito recíproco. Intransigentes, porém, nas inimizades políticas, sem que transigissem nas determinações de consciência e de vontade. Alguns coronéis que conheci possuíam a virtude do sacrifício. Tinham bens patrimoniais herdados e conservados pelo trabalho profícuo. Aos amigos da paisagem social, eleitores de cabresto, de cega obediência aos ditames do chefe, forneciam-lhes roupa, calçados, hospedavam na própria residência os caboclos dos povoados, mulheres e filhos, assistindo-os na doença e nos remédios.

Creio que o coronel do Piauí difere do coronel de outros cenários importantes, talvez por causa do criatório de sociedade com o vaqueiro.

Acho que está no tempo de que se conte a história dos coronéis piauienses, os nascidos aqui ou que aqui sentaram o rabo na rapadura e se enfeitiçaram da terra.

Coronéis, que conheci quando deles se aproximava a viagem derradeira, foram Chico Santos, Joaquim Leitão, Lourenço Barbosa, Chico Alves Cavalcante, Manoel Nogueira, Manoel Lages, José Nogueira de Aguiar, Joaquim Gonçalves Cordeiro, Manoel Costa, Antenor de Castro Rego, Orlando Carvalho, Rocha Neto, Miguel Oliveira, João Ribeiro de Carvalho, Paes Landim e alguns outros, que a memória no momento não ajuda a repetir. Conheci pessoalmente os acima referidos. Homens de fibra. Fiéis aos compromissos partidários. Às vezes dois lutavam na mesma área, e onde um estivesse, o outro estaria no lado contrário.

Alguns assuntos, neste Piauí, dariam grandes obras literárias, ou estudos históricos, como o romance dos primeiros desbravadores de caminhos para o caminhão, os tipos femininos na vida literária e na história e ao final os coronéis piauienses, com suas virtudes e desvirtudes.


A. Tito Filho, 24/09/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

GREVES

O país, não cabe duvidar, encontra-se doente. Insuportáveis as condições de existência dos brasileiros, sem que possam auferir os bens essenciais da vida, a partir da mãe grávida, desnutrida, ao nascimento do menino - sem alimentação, sem assistência, sem os mínimos requisitos de saúde e desenvolvimento para as outras idades da vida. Sofrem operariado e classe média insultos de toda espécie. Essas duas camadas sociais não possuem elementares recursos financeiros para o sustento da constelação familiar. Reproduzem-se diariamente movimentos grevistas. O fato se torna espantoso pois as greves tão excessivas são o retrato negativo da política econômica e das medidas adotadas pelos que por ela são responsáveis. A liberdade constitui bem precioso, mas convém estimá-la no direito elementar e necessário ao bem estar e à felicidade coletiva. Liberdade para o xingamento nos comícios eleitorais, nisto reside a negação da liberdade. A liberdade seria o benefício maior de não passar fome, de morar em casas confortáveis, nunca em tugúrios promíscuos dos conjuntos habitacionais. Estaria em poder cada um educar os filhos. Pretende Dona Zélia Melo que a inflação foi derrotada, o que não é verdade, e o recurso, o remédio heróico, infalível, está na greve. Quando se começou o uso da greve? No momento em que o operariado sentiu o excesso de horas na exploração do empregador. Trabalhava-se normalmente das sete da manhã até a noite. A reunião dos trabalhadores se deu em Paris, na Place de Gréve - e só se voltou ao trabalho depois da humanitária diminuição da jornada no emprego. Que se reivindica hoje com paralisações sucessivas nas empresas públicas e privadas, quando se estagna o funcionamento generalizado até de serviços essenciais à coletividade? Apenas salários mais compatíveis com as necessidades elementares, uma vez que não se acredita mais na possibilidade de viver, somente de vegetar, e mal, com raquíticas e reles pagas mensais aos pobres operários nacionais. E o mal aviltante atinge ainda a classe média à qual pertencem servidores graduados, funcionários públicos, bancários e outros, que grevam pelos motivos dos constantes e inexplicáveis achatamentos do dinheiro. As greves inacabadas, uma seguida da outra, não têm, no Brasil, objetivos de conquistas sociais no terreno da saúde, pois as filas da assistência oficial são humilhantes; da educação, pois se encontra o ensino do governo, do primeiro grau à universidade, e escorchante o preço dos estabelecimentos particulares; do alimento, que, minuto a minuto, se eleva o custo, por especulação e outras maneiras de ganância dos negociantes; do remédio, cuja fabricação está sob o poder de fabulosos trustes internacionais, do sistema de comunicação de massa através da televisão, dirigida por competentes homens de negocio deformadores da consciência nacional, impondo-se as imagens por interesses internacionais - e o Brasil, de modo subliminar e perverso, aplaude a glorificação de bicheiros e a música barulhenta e vociferante do roquenrol.

O operário suspende o trabalho porque está faminto, maltrapilho, desassistido, ao lado da família no mesmo estado de abandono e miséria. As centenas de greves nacionais revelam o quadro espantoso, a paisagem de desordem física e espiritual em que se agitam os trabalhadores brasileiros.


A. Tito Filho, 30/08/1990, Jornal O Dia

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A MÁQUINA

Não cabe dúvida que a máquina provocou a maior revolução de todos os tempos, a revolução industrial, que mudou radicalmente a estrutura da sociedade universal. Derribou preconceitos. A economia dos povos passou a apoiar-se no combustível ou na falta deste. Extinguiu-se o regime escravo, a exemplo dos Estados Unidos. E o que foi pior: expulsou a mulher do seu lugar de primeira educadora, no lar, e maior responsável pelas finanças domésticas, pois a ela cabiam os encargos de prepara a roupa, o remédio e fabricar o alimento - e tudo isto, encarecido pela produção da indústria, saiu da órbita caseira e fez que as donas-de-casa passassem ao sistema do consumismo e buscassem emprego para ajudar as despesas respectivas. Quanto mais se intensificou o poder de abarrotar os mercados consumidores, muito forte se tornou a publicidade, por múltiplos veículos, e cada dia o ideal de conforto a qualquer custo contagiou as diferentes classes sociais. Surgiram os meninos sem o leite materno, a adolescência desamparada de afeto, a mocidade rebelde, e a maturidade irresponsável, dissipadora e disposta sempre à esperteza, aos golpes de dinheiro, às fraudes - num corpo social aniquilado espiritualmente pela ganância. Triste, muito triste, será o quadro no terceiro milênio que se aproxima, pois subvertendo a ordem dos costumes e dos hábitos privados e públicos, derrotando o homem no seu teor de virtude - o poder industrial buscaria desmoralizar as mais caras instituições da vida, com inicio pela constelação familiar. Afrouxaram-se e perderam-se os freios morais. O ser humano tornou-se escravo do dinheiro, semelha uma cédula de dólar, tudo vende e tudo frauda. Chegou-se ao processo da violência, cujas razões são, nos crimes de sangue, também econômicas. Até 1968, ainda se mantinham certos fundamentos cristãos nas relações de homens e nacionalidades, quando adveio a chamada revolução cultural dos jovens, em maio, partida dos universitários, para mudar o modo de ser da sociedade, que para eles padecia de incurável velhice. Assassinaram-se líderes, destruiu-se um sistema para salvação de estruturas em decadência, como se anunciou. Anularam-se os valores morais. Estabeleceu-se a liberdade sexual. As artes padeceram, e no quadro negativo a música se tornaria frenética, como se tivera o destino de fabricar doidice e gestos macaqueados. A droga se faria companhia habitual de adolescentes e moços, para o futuro fosse dependente de anticidadãos doentes e derrotados. A primeira grande vítima desse movimento estudantil que libertou instintos e ambições se chama, na preleção de Dom Eugênio Sales, a família, que se debilitou, com a convocação da publicidade para o mal e o desperdício. Abandonou-se a prole. Liquidou-se o senso de moralidade. Aboliram-se práticas de leitura e de aprimoramento da inteligência. No prazer se fixam todas as vontades. Valem os instintos. Desapareceu a honra. O trabalho ainda vigora, mas incômodo. Matam-se seres humanos pelo aborto e crianças na rua, pela inanição. Estimula-se o crime propagando o heroísmo dos que o praticam. Não se crê na vida política. E tem-se como difícil a salvação. Salvo, de forma que escreveu o pastor dos cariocas, se as derrotas sofridas pelo homem sejam passageiras e que voltemos às normas sagradas do nosso verdadeiro destino.


A. Tito Filho, 25/08/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

INSULTO

Ivan IV, o primeiro grão-duque de Moscou a tomar o título de czar, em se declarando sucessor pelo sangue do romano César Augusto, foi dos mais violentos e mais cruéis soberanos da história da humanidade.

Órfão de pai e mãe, submetido a tutela dos boiardos que se entredevoram para conquistar o poder, Ivan faz o aprendizado da astúcia e da crueldade à sombra dos protetores que, no entanto, o ignoram. Coroado czar em 1547, com 17 anos de idade, ele manifesta logo inicio uma autoridade assustadora. Sádico e místico, considera-se o vigário de Deus na Terra e se imagina desculpado antecipadamente por todos os seus desregramentos. Sua mórbida desconfiança o leva a ver por toda parte espiões e traidores. Manda torturar devotos favoritos. Até sente mais prazer quando comete injustiças.

Ivan gosta tanto de sangue quanto de mulheres. Casará oito vezes, sem se preocupar com a Igreja. Algumas das esposas morrem envenenadas, para satisfação do czar que prefere escolher as substitutas entre milhares de jovens em autênticos concursos de beleza.

Entretanto, não perde de vista de vista a missão política. Luta para largar seu reino, em batalhas sangrentas com poloneses, tártaros e suecos. A principio com sucesso, depois com incontroláveis perdas.

Quem era Ivan, o Terrível, o homem que matou o próprio filho e herdeiro? Que se divertia soltando ursos selvagens contra homens, mulheres e crianças? Que comandou o genocídio de Novgorod?

O retrato de Ivan feito por Henri Troyat, russo naturalizado francês, na sua autoridade de acadêmico, é verdadeiramente singular e oportuno, lançando uma luz serena, mas forte e clara, sobre a maneira de ser do povo russo, delirante, fanático e submisso, sempre corajoso até as últimas conseqüências.

Henri Troyat nasceu em Moscou, em 1911, como Lev Tarassov, nome mudado logo que chegou a Paris, em 1917, portanto, com apenas seis anos de idade. Naturalizado, cedo se consagrou a literatura. Foi Prêmio Goncourt em 1938 e é membro da Academia Francesa. Tem uma longa produção literária, variada, que inclui romances isolados, ciclos de romances históricos, biografias, ensaios, crônicas e narrativas diversas. No que toca a biografias, Troyat já publicou as de Dostoievski, Putchkine, Tolstoi, Gogol, Catarina, a Grande, Pedro, o Grande, e Alexandre I, todos personagens influentes nas artes e na história russas.

Sobre Ivan, o Terrível, na imprensa francesa, merece destaque um comentário de Alexei Antonkin, no "Temps-Économi Littéraire":

"Desde a História da Rússia, escrita entre 1816 e 1826, por Nikolai Karamzine, o livro de Henri Troyat é a mais inquestionável contribuição para p esclarecimento do reinado de Ivan, o Terrível. E as comparações com a Rússia de hoje são gritantes".

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CARLSO EDUARDO NOVAES é, sem dúvida, o único humorista brasileiro de primeira linha que faz você continuar rindo na segunda, na terceira e assim por diante. E já que é assim, nada melhor do que a notícia da publicação de um livro seu, O País dos Imexíveis, uma nova coletânea de crônicas sobre o cotidiano brasileiro que é, ao mesmo tempo, a mais alegre história dos nossos dias...

Na hora em que todo mundo se mexe, será o Brasil o país dos imexíveis?

Mexe e remexe, estamos aí com mais um Plano em que muitos gostariam de atirar mexericos. Entretanto os mexericos são muitos e os mexeriqueiros e mexeriqueiras não param, melhor dizendo, vivem se mexendo.

E o Brasil? Imexível ou Mexível, escorre aqui pela pena bem humorada do sempre inovador Novaes, coadjuvado, literalmente, pela pena de Vilmar Rodrigues.

Imperdível!

Carlos Eduardo Novaes é o humorista mais diversificado no momento. Seus últimos sucessos têm acontecido na área teatral, onde, além de fazer o texto, ele sobe quase todos os dias ao palco para dar o seu recado. Continua mantendo, porém, uma constante na vida: não deixa de escrever as suas crônicas e delas faz um retrato bem humorado deste Brasil... dos imexíveis.

Este é o décimo-nono livro de Novaes publicado pela Nórdica. E o décimo-terceiro da série: "Histórias dos Nossos (Nossos?) Dias!".


A. Tito Filho, 21/09/1990, Jornal O Dia