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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

FUNCIONÁRIO

O funcionalismo público das diversas esferas do Poder no Brasil tem atravessado fases distintas. Deixemos de parte a Colônia, o Império, a chamada República Velha e vejamos o assunto nos tempos que sucederam o movimento que derribou do poder o presidente Washington Luís, a revolução de 1930. Os quadros de serviços administrativos, organizados com número fixado de titulares, eram rigorosamente observados. De vez em quando realizavam-se concursos sérios para preenchimento de vagas. Difícil, nas repartições, que se encontrasse funcionário para escovar urubu, à espera de que os ponteiros marcassem o horário de saída. Realizavam-se dois expedientes. Raras vezes se concediam licenças. No Brasil, porém, a seriedade das leis e dos regulamentos dura pouco. De principio, admitiu-se a interinidade, e dentro em pouco havia mais interinos do que efetivos. Inventaram-se quadros de extranumerários e de servidores extraordinários. Iniciou-se o abarrotamento dos órgãos governamentais. Inventaram-se maneiras de cortejar fêmeas de bonitos predicados físicos. Sim, as mulheres começaram a povoar os órgãos administrativos. Criaram-se autarquias e seguidamente as estatais se estabeleceram. Aboliu-se o concurso. Outras modalidades remuneratórias surgiram, como o pagamento por serviços prestados e o contrato pela Consolidação das Leis do Trabalho, e logo uma legião de celetistas nasceu por todos os cantos e recantos das áreas do governo nos domínios federal, estadual e municipal, autárquico e das empresas estatais. Inchou o funcionalismo público brasileiro, que nos dias que correm não se sabe a quanto chega. Deixou-se de trabalhar. As mulheres se dedicaram a retocar a pintura ou executar trabalho de crochê ou tricô. Breve a fértil imaginação de chefes e subalternos, para melhores ganhos, idealizou e concretizou a prebenda da disposição. O servidor de um organismo passou a servir em outro, com percepção de vencimentos pelos dois. O fato tornou-se uma lucrativa indústria, nos mais variados setores da vida pública. Instituíram-se inúmeros tipos de licença, e proliferam servidores licenciados com base em múltiplos favores legais. As proteções políticas de 1946 a esta parte do calendário nacional entupiram repartições a tal ponto que em alguns setores existem turmas de revezamento: uma turma de cem servidores trabalha num dia, no outro dia espairece, substituída por outros cem que folgam no dia de servi-lo dos primeiros. Chegaria a vez dos feriadões, três ou quatros dias da semana em que o Brasil fecha o serviço público. O soçaite vive à tripa forra. Gente de político bem sucedido, de titular de função importante, de empresário farto de lucros, esposa, mãe, mora, genro, filho, obtém polpudos empregos. O grosso modo do funcionalismo público está constituído de mocinhas e rapazolas de classe média e operária, que percebem ordenados irrisórios, que mal cobrem as despesas do pai pobretão na compra de calçados ordinários e roupas de pano ruim. Pois esses milhares de pobres e humildes servidores de vez em quando padecem as conseqüências das medidas de arrocho que os governos adotam para a cobertura dos déficits orçamentários, resultantes das orgias de viagens nababescas e mordomias injustificáveis.

A crise brasileira é antes de tudo moral, mas os pobres barnabés acabam pagando o pato. A politicalha gerou o empreguismo na alta-roda. Madames de maridos ricos, mulheres importantes, de luxos desmedidos percebem gordas sinecuras como funcionarias fantasmas.

Os vícios e as mazelas da máquina administrativa da União e o cortejo de estatais, dos Estados e dos Municípios não decorrem dos barnabés, porém dos maus exemplos de cima, dos poderosos, dos que exploram o brasileiro por todas as formas e modelos.


A. Tito Filho, 29/08/1990, Jornal O Dia

AINDA A URUCUBACA

Não vi o carnaval de 1915 de Teresina, mas sobre as nossas folias carnavalescas consultei jornais, revistas e livros, e pude registrar, ano por ano, as músicas mais cantadas na capital piauiense durante os dias momescos.

Em 1915 cantou-se e dançou-se a marcha AI, FILOMENA. Grande sucesso, retumbante mesmo.

O governo do presidente Hermes da Fonseca não foi popular. O presidente arrecadara antipatia generalizada. Tinha fama de homem tapado, de pouca inteligência, da mesma forma que o General Gaspar Dutra, o governante de 1946 a 1951.

Propalava-se que o governo hermista dava azar, e o carioca logo arranjou um jeito de arrumar a palavra URUCUBACA para defini-lo como tipo que dava pesa, azar, macaca. Os versinhos da marchinha AI, FILOMENA, diziam assim: "Ó Filomena / Se eu fosse como / Tirava a urucubaca / Da cabeça do Dudu". Dudu era apelido de Hermes da Fonseca.

Aurélio registra URUCUBACA como inhaca, jetatura, macaca, pé-frio. A palavra ingressou na voz popular no século XX. E como a palavra constitui entidade fonética, morfológica, sintática, semântica e social, com esta última característica ela se cria, se transforma, se modifica e morre. Talvez URUCUBACA tenha saído da voz do povo, suplantada por outras mais expressivas ora de melhor entendimento.

Câmara Cascudo sustenta que URUCUBACA se tem como cristão carioca, de 1914, aplicada a Hermes da Fonseca quando este deixava o governo da República. E reproduz ensinamento alheio dando-lhe origem em URUCUBACA, mais CUMBACA, tipo de peixe tido como azarento. Deu-se, por força da lei do menor esforço da linguagem, a queda da letra M antes da bilabial B. Comodismo do povo. Mas no dicionário de Antônio Geraldo da Cunha, este pesquisador estudioso tira URUCUBACA de URUBU e MACACA, com troca de fonemas.

A música carnavalesca sempre se voltou para a política e seus respectivos líderes. MAMÃE EU QUERO tornou-se aplaudidíssima, em 1930. Todos queriam MAMAR no governo. Hermes da Fonseca foi muito ridicularizado pelos compositores. SEU MÉ levava ao ridículo o presidente Artur Bernardes outra vítima da debocharia popular. Quando Getúlio Vargas caiu do poder, em 1945, depois de quinze anos amigado com o Palácio do Catete, e Dutra foi eleito, assumindo em janeiro do ano seguinte, logo surgiu O CORDÃO DOS PUXA-SACOS, no carnaval de fevereiro, pois os políticos se passaram para o novo sol que nascia. Em 1950, porém, Getúlio se elegeu pela força do voto popular. No carnaval de 1951 cantou-se muito BOTA O RETRATO DO VELHO OUTRA VEZ, alusão à circunstância de que, nos seus negros tempos ditatoriais, a propaganda oficial espalhou o retrato de Getúlio por toda parte, arrancado das paredes quando Dutra alcançou o governo.

As ditaduras proibiam rigorosamente as críticas safadas das músicas carnavalescas. Só admitiam composições elogiosas. Os compositores tiveram que viver de outros temas.

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Voltando à vaca fria, não acredito em URUCUBACA, mesmo que o tema tenha enricado a crendice e a superstição do povo.

 
A. Tito Filho, 27/07/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

AINDA O COMÉRCIO

Em 1933, abril, o decreto nº 22, do prefeito Luís Pires Chaves, adotou o seguinte regime para o funcionamento das casas comerciais de Teresina: zona norte, das 8 às 12 e das 14 às 18; zona sul, das 7 às 11 e das 13 às 17.

Era 1932. Chegamos a Teresina em companhia do saudoso pai, que vinha assumir o juizado de direito. Moramos na rua Lisandro Nogueira (Glória antiga), bem perto do mercado central. Passamos, ainda nesse ano, a residir na rua São José (Félix Pacheco), próximo, muito próximo da praça Saraiva. Defronte, mantinha sortida mercearia o português José Gonçalves Gomes, cidadão conceituado e que muito honrou a atividade comercial. Dessa época distante ainda nos lembramos da Casa Carvalho. De Deoclécio Brito, o primeiro concessionário da Ford e das máquinas de escrever Remington; de Manoel Castelo Branco e Anfrísio Lobão, que se tornaram donos da Agência Ford; de Afrodísio Tomás de Oliveira (Dôta). De João de Castro Lima (Juca Feitosa), cuja loja vendia artigos diversos, inclusive livros de autores portugueses e brasileiros. De Lili Lopes, à frente da Botica do Povo; de Manuel Madeira, português, vendedor de bolos e pastéis (praça Rio Branco), talvez o pioneiro de lancheiras em Teresina - e de vários bares e botequins como o frequentadíssimo Bar Carvalho, de José Carvalho, o Zecão, homem de bem, de muitos amigos, que oferecia, no estabelecimento, bilhares, café, sorvete, chocolate e convidativo restaurante sob o comando do espanhol Gumercindo, introdutor de filé de grelha, feito na chapa do fogão, na culinária teresinense. Alcançamos o famoso Café Avenida, feito de madeira, na praça Rio Branco. Construiu-se outro, em 1937, de dois andares, amplo, ao lado do Hotel Piauí (Luxor), freqüentado de homens ilustres. Foi derribado. No local hoje se estacionam veículos.

Algumas entidades de classe surgiram no correr dos anos, como a Estímulo Caixeiral (empregados no comércio), iniciativa de Manuel Raimundo da Paz; a Associação dos Empregados no Comércio (1928), a Associação dos Empregados no Comércio (1928), a Associação dos Varejistas de Teresina, e a Federação do Comércio dos Varejistas do Piauí - as duas últimas parecem que sob a orientação de Miguel Sady.

Houve um grêmio de natureza social e cívica - a Sociedade Jovem Síria, criada em 1916, que muito animou a vida teresinense. Ainda em atividade se encontra o Clube das Classes Produtoras, idealizado por Valdemar Martins.

Moysés Castello Branco Filho realça a presença de sírios e libaneses em Teresina, no princípio do século XX, dedicados ao comércio de miudezas e de modas. Principalmente sírios. Sírios na quase totalidade. Vinham de longe, da Síria, onde é gritante o contraste entre a riqueza e a pobreza. O padre Luciano Duarte diz que lá a terra tem cor amarela, queimada de calor. "Não há vegetação. Apenas areia e pedra - mas de repente sem lógica, no meio do quadro - um oásis. O milagre da água correndo límpida e cantante, da fonte que Deus fez brotar, vestindo de verde a terra nua, estendendo a sombra das palmeiras para os homens cansados".

A Síria lembra Damasco, de ruas apertadas do comércio de miudezas - quiosques, ruelas escuras e sujas, em que o visitante sempre compra pela metade do preço. Paga e sai com ares de quem ganhou uma batalha. E o sírio lá ficou impassível, contente, pois o preço pago ao cabo de contas, ainda vale três ou quatro vezes a mercadoria.


A. Tito Filho, 21/11/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

OUTRA VEZ O COMÉRCIO

Os sírios e libaneses assimilaram nossos costumes, hábitos e vivências, e integraram-se na sociedade teresinense, casando-se, multiplicando-se, educando a prole, progredindo pelo trabalho e valorizando o chão que os abrigou fraternalmente.

Dos árabes em geral disse Gustave Le Bon: "Uma grande urbanidade e doçura, uma grande tolerância com os homens e as cousas, a calma e a dignidade em todas as situações e circunstâncias e uma notável moderação de necessidades, tais são os traços característicos de orientais. Sua conformação moral com a vida, tal como ela se apresenta, dotou-os de uma serenidade muito semelhante à ventura, ao passo que as nossas aspirações e necessidades fictícias nos têm levado a nós a um estado de inquietação permanente muito diferente do deles".

Na história do cinema em Teresina muitos nomes são dignos de notar, como Neuman Bluhm, R. Coelho, R. Fontenele, Pedro Silva, José Ommati (sírio) e de Farid Adad, também sírio, que fixou residência em Parnaíba (1919) e ali, com o irmão Miguel, fundou o cinema Éden. Em 1930 esta casa exibidora iniciava a era do filme falado no Piauí. No Teatro 4 de Setembro, Farid estabeleceu o primeiro cinema falado da capital piauiense, inaugurando-o em 23.12.1933. A 25.11.19173, encerraram-se as atividades cinematográficas na velha casa de espetáculos da praça Pedro II. Farid havia falecido no ano anterior. A cidade o conhecia pelo nome de Alfredo Ferreira, casado em primeiras núpcias com Farisa Salim Issa, sua patrícia, de excepcionais virtudes espirituais, falecida em 1938. O casal deixou vários filhos.

Depois de Alfredo Ferreira, outros empresários prosseguiram no trabalho de dotar Teresina de confortáveis cinemas.

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, no Novo Dicionário da Língua Portuguesa, inclui carcamano como brasileirismo. E define a palavra: "Alcunha jocosa que se dá aos italianos em vários Estados; latacho, macarrone". Escreve mais, que no Maranhão vale “a alcunha que se dá aos árabes em geral”. No Ceará, “vendedor ambulante de fazendas e objetos de armarinho”. Antônio Joaquim de Macêdo Soares acentua que carcamano é o "italiano de baixa classe". Nascentes diz apenas que o carcamano corresponde a italiano, mas explica: "Uma etimologia popular diz que o vocábulo vem do conselho de um italiano a um filho que o ajudava na casa de negócios. O filho fazia honestamente a  pesada. O pai, então, quando o equilibrio estava prestes a estabelecer-se, aconselhava: carca la mano (calca a mão). Se non e vero...". F. A.

Pereira da Costa cita o vocábulo na qualidade de italiano, assim chamado. E anota dito do povo de Pernambuco: "Mama em grosso o carcamano, e abusa da bonhomia do povo pernambucano". O saudoso R. Magalhães Júnior explicou: "Denominação pejorativa dada aos imigrantes italianos, em razão das fraudes atribuídas a estes, em suas quitandas e açougues, ao pesarem os alimentos, vendidos a quilo, ajudando a concha da balança a descer com o impulso da mão. De calcar a mão teria surgido a forma italianizada de carcamano, corrente não só no Brasil como na Argentina, onde Juan Ezuista Alberdi a usou, num dos seus livros, que dizia serem reverenciados, nos altares argentinos, alguns santos carcamanos, já ricos e portanto poderosos".

Em Teresina, carcamano sempre designou de modo pejorativo, os árabes. Veja-se o depoimento de Salomão Cahib, médico de nomeada, em discurso de posse na Academia Piauiense de Letras: "Meu pai aqui chegou vindo de uma civilização milenar, duma terra sem horizontes. Ansiava por liberdade. Seu povo estava escravizado e colonizado impiedosamente, levado a servir, sob bandeira de nação odiada, à luta pela grandeza e progresso de seu próprio algoz. Jurou ele que seus filhos não nasceriam colonos, nasceriam livres, numa coletividade generosa e bela, que lhes desse paz e trabalho. Foi assim que veio moço para o Brasil. E para o Piauí, que ajudou e honrou, trabalhando de sol a sol, viajando a pé pelos sertões agrestes, vendendo, aprendendo a língua, fazendo amigos e amando a nova pátria. Aqui se casou.

Naturalizou-se brasileiro. Constituiu família. Nasceram-lhe os filhos. A pátria de seus filhos era a sua pátria".

E logo a seguir: "Guardo da infância despreocupada dos primeiros instantes do convívio com outras crianças do grupo escolar, a observação de uma delas: CARCAMNO NÃO TEM BANDEIRA".

E prosseguiu: "Em casa dei a notícia do acontecimento a meu pai. E ele, com profunda tristeza, explicou-me: A SÍRIA TEM BANDEIRA, MAS ESTÁ OCUPADA POR PAÍSES ESTRANGEIROS".


A. Tito Filho, 22/11/1990, Jornal O Dia

sábado, 28 de janeiro de 2012

QUASE CAPITAL

O primeiro governador do Piauí, militar português, chamou-se João Pereira Caldas. Assumiu o poder a 20 de setembro de 1758, na Vila da Mocha, denominação que por Oeiras, a 13 de novembro ele substituiu de 1961, em homenagem ao conde de Oeiras, que depois seria marquês de Pombal. O governante esteve à frente da administração até 3 de agosto de 1769, quase dez anos.

Os governadores não gostavam da velha capital, situada num terreno seco e estéril, cerca de trinta léguas distante do rio Parnaíba. Cogitou-se da mudança da sede administrativa, a princípio, para São João da Paraíba. Uma lei de 1844 determinou que fosse mudada para a foz do riacho Mulato, no Parnaíba, o que não se verificou. Outros diplomas legais cogitaram do assunto, sem resultado, até que a resolução da Assembléia Provincial 315, de 21 de julho de 1852, sancionada pelo presidente José Antônio Saraiva, transferiu a capital para a Vila Nova do Poti, elevada à categoria de cidade com o nome de Teresina.

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Com a República, o primeiro governo do Piauí foi exercido por uma junta composta de militares e logo depois acrescida de ilustres civis, até que o Deodoro da Fonseca nomeou como governador o notável Gregório Taumaturgo de Azevedo, nascido na cidade piauiense de Barras, militar, engenheiro, bacharel em direito, fundador da Cruz Vermelha Brasileira e que em seguida governaria o Amazonas.

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Taumaturgo veio assumir o governo viajando por Parnaíba, onde povo e autoridades o receberam com festas preparadas por uma comissão de pessoas de prestígio.

A comissão e grande massa popular dirigiram-se ao palacete da hospedagem do governante e a este entregaram mensagem, gravada em seda, com letras douradas, em que se pretendia a mudança da capital para a cidade de Parnaíba. O governador fez promessa solene de atender o pedido, mas foi contrariado por um telegrama urgente de Deodoro da Fonseca que determinou, de modo irrevogável a permanência da capital em Teresina - por esta forma rezam as crônicas da época.

Não encontrei as razões que levaram Deodoro à atitude severa expressa na comunicação telegráfica.

Gregório Taumaturgo de Azevedo, o primeiro governador republicano do Piauí, foi um homem de bem e de honestidade inatacável. Ocupo na Academia Piauiense de Letras a cadeira 29, que tem como patrono. Assumiu o governo a 26 de dezembro de 1889 e deixou-a a 4 de junho de 1890. Caiu do poder em virtude de pressões da politicagem local. Faleceu no Rio, ano de 1921.

Se Deodoro da Fonseca não houvesse adotado a enérgica providência determinada no telegrama, a capital do Piauí seria em Parnaíba. Os teresinenses devem muito ao proclamador da República, o tem homenageado numa das principais praças da capital, a praça Marechal Deodoro, local em que nasceu Teresina, onde se situava o palácio governamental, o primeiro prédio, a igreja do Amparo pelo mestre-de-obras João Isidoro da Silva França, português de nascimento e braço direito do fundador da cidade que lembrou com o nome de imperatriz Teresa Cristina, os tempos do Império brasileiro.


A. Tito Filho, 15/11/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

ALEIJAMENTO

Um dia o governador Dirceu Arcoverde me pediu que fosse conversar com ele no palácio governamental de Carnaque. Pretendia que eu escolhesse dezesseis poemas de Da Costa e Silva para os dezesseis painéis da bonita praça que estava construindo à beira do Parnaíba com o nome do poeta piauiense. Segundo Burle Marx, o notável paisagista, as poesias deveriam ser entendidas pelo povo, pela plebe ignara. Tarefa difícil. Tive que reduzir alguns, com o aproveitamento do essencial. O projetista citado sugeriu que houvesse uma espécie de seqüência racional nas concepções do escritor. Assim comecei com os poemas de fé, passei ao amor materno, à terra natal, aos cenários piauienses e à saudade, quando Da Costa e Silva se encontra em Recife. E ainda, de ordem do governador, viajei à capital pernambucana para a confecção dos painéis em que se inscreveram as poesias.

Praça de grande beleza, com o coretinho dos tempos antigos. Hoje, o recanto está transformado em motel ou bordel, casais nus embaixo dos céus e a veadagem campeando solta.

A praça Rio Branco, o antigo jardim em que as famílias passeavam de noite, reformada por um prefeito sério nos idos de 1936, Francisco do Rego Monteiro, passou a mercado público, suja, maltratada, nódoa na cidade mutilada. De modo semelhante se vê a praça João Luís Ferreira, onde se vendem panelada e outras iguarias. Nenhum resquício de higiene nesses restaurantes populares. Que se fez da praça de Dom Pedro II, outrora tão plena de romantismo, em que as garotas se entregavam ao gostoso namoro dos olhos com os jovens casadoiros? O logradouro de tantas recordações expressivas transformou-se [em] campo de homossexuais e de viciados na cachaça e na droga, espetáculo de degradação e amoralização. A praça Demóstenes Avelino se encontra deturpada, com um prédio no centro, dito Frigorifico do Piauí, de propriedade de empresa particular. Criou-se uma prainha, ao longo da avenida Maranhão, cenário de constantes crimes de agressão e morte.

O abandono das atividades agrícolas e da pecuária fez que milhares de piauienses, machos, fêmeas e numerosa prole deixassem o campo em busca de empregos inexistentes ou biscates humilhantes, e cada dia aumenta a legião dos famintos e das garotinhas de 12 a 15 anos entregues À prostituição nas favelas que cercam a cidade que José Antônio Saraiva Fundou tranqüila, pitoresca e afetiva. Áreas rurais desabitadas e Teresina crescendo fisicamente de modo alarmante o que gera conflitos com os donos de terra e mais do que tudo promove a favelização da cidade, cercada de conjuntos habitacionais desumanos, num sistema de promiscuidade que fere a personalidade dos que vivem nessas casas miseráveis e vendidas por preços exorbitantes.

Teresina vale uma cidade violenta, deseducada, de milhares de indivíduos andrajosos, em que ainda se usam sentinas de buraco e milhares moram em casa de taipa em convívio com BARREIROS, os da moléstia de Chagas. Alguma percentagem pequeníssima vive a tripa forra, em gritante afrontamento aos miseráveis que enxameiam por todos os lados. O desnível da renda individual espanta, enraivece, pela brutalidade das diferenças. Enquanto deputado e desembargador, cada qual ganha mais de milhão, milhares de filhos da pátria não chegam a quatro mil cruzeiros mensais. Brutal o confronto. Não cabe dúvida: Teresina corresponde a uma sociedade doente, perversa, porque injusta e insensível.


A. Tito Filho, 11/11/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

FAVELIZAÇÃO

Dezenas de cidades brasileiras do interior serão fantasmas dentro em alguns anos, pois as respectivas populações diminuem, cada dia. Famílias inteiras buscam grandes centros de agitada vida social, surgindo as megalópoles, sempre despreparadas quanto a planejamento para que possam abrigar, em pouco tempo, milhares de novos habitantes. Típico o exemplo de Brasília. Nacional o problema de inchação demográfica, sobretudo nas capitais, em que o espaço urbano se torna angustiado para veículos fumacentos e pessoas perambulantes e ociosas, que, ao deus-dará, secam mais ainda cambitos, fisionomias cansadas, em busca do nada. Nos grandes centros populacionais brasileiros prevalecem os espigões ou arranha-céus sem conforto e sem segurança para os afortunados. Nos bairros residenciais há o exibicionismo das mansões de muitos quartos, terraços e banheiros.

Trata-se do luxo ostentatório, ao lado de casebres de taipa, de palha, com privadas de buraco. São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza, Teresina e outras, tornaram-se, em três ou quatro décadas, inabitáveis, por efeito de criminosa especulação imobiliária e da fuga de milhares das cidadezinhas e povoados interioranos a procura de emprego - todos fugindo da fome e da exploração a que se submetem, sem terra, sem alimento e já agora sem os coronéis, substituídos pelos doutores do society da cidade grande, que se elegem com o dinheiro dos pais milionários ou da herança, e assumem compromissos apenas com a clientela familiar ou com os amigos do peito. Os eleitores de cabestro conseguem, quando muito, a bóia e o transporte no dia da eleição. As megalópoles crescem do nascer do sol até de madrugada, rodoviárias a despejar pais e filhos chegados das quase cidades do interior. A vida de fazenda e dessas comunidadezinhas só existe por causa da televisão convocadora para o sexo fácil e o luxo fantasioso das superpovoadas coletividades nacionais. O dono dos bois aufere os lucros esparramado no macio conforto duma sala de estar, com serviço de bebidas alcoólicas ao lado. Aos contingentes de párias - apetite embotado por descostume de comer, meninos de pança inchada, olhos remelentos, mulheres de 20 anos semelhando 40, pai escaveirado, mãe desdentada e de ossos chupados por força de tanto parir - se reservam as favelinhas que eles improvisam em terrenos alheios, as áreas debaixo das pontes sobre rios, ou as afrontosas casas vendidas pelo Banco Nacional de Habitação, verdadeiro sorvedouro dos ínfimos ganhos desses pobres diabos, que o capitalismo apelida de filhos de Deus. Surgem, assim, os conjuntos habitacionais - milhares de casinholas, todas do mesmo jeito, em que se alojam famílias de cinco ou mais pessoas, e dentro nelas se fabrica mais gente. Com o tempo, esses pombais se vão enriquecendo de biroscas, prostíbulos, de venda de tóxicos, de freges. Meninas de 10, 12 anos são exploradas e iniciam a vida sexual antes que possam conceber no ventre um filho de pai desconhecido. Nas residências, a  promiscuidade - casais em cenas de relações íntimas na presença da filharada boquiaberta com o espetáculo. Teresina não foge a regra. Os conjuntos habitacionais espalhados pelos subúrbios, feiosos, emprestam à cidade panorama urbanístico condenável e alguns felizardos enriqueceram da noite para o dia, como um passe de mágica, com a venda de terrenos para a construção desses ajuntamentos, em cujas casinholas não se distinguem cozinha, dormitórios e sanitários. São milhares de pombais, por toda parte. Sejam cinco pessoas em cada qual, com a estimativa de duzentos mil moradores, quase a metade da população da capital do Piauí. Raros os empregos na área de moradia. O raquítico salário mínimo do trabalhador, quando arranja emprego, mal dá o transporte. Até quando, no Brasil, o homem sofre tanto? As sociedades doentes assim se apresentam: filhos de Deus, milhões de enteados dele, filhos da injustiça social.


A. Tito Filho, 08/08/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

POLUIÇÃO VISUAL

Faz alguns anos fiz apelo ao prefeito de Teresina, não me recordo quem na época desempenhava o cargo, no sentido de que não fosse permitida a colocação de faixas de anúncios indicativos de casas comerciais ou escritórios, de tabuletas de propaganda e de outros tipos de aviso, sem que antes houvesse a aprovação da autoridade para tal fim designada. E transcrevi expressões copiadas de anúncios e cartazes com evidentes desobediências a princípios ortográficos e até solecismos condenáveis e erros crassos que tanto depunham contra a educação cultural do teresinense. Indiquei algumas dessas estapafúrdias escrituras: BORRAXEIRO, RESTAURANTE FÁLASE OTEL e tantos mais. Não obtive providência alguma e a cousa ficou pior.

Agora, o Dr. Moacir Fernandes de Godoy, cardiologista de ciência e de ilustração, me propicia a satisfação de censurar vergonhosa construção de nossa língua, no centro da cidade, tornando mais pobre a inteligência de um povo digno de melhor sorte.

EDUCAR É PRECISO - eis o trabalho cívico desse médico preocupado com a triste ignorância que avilta a língua pátria, a seguir transcrito.

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O Professor William J. Bennet, doutor em Filosofia pela Universidade do Texas, questionado sobre a finalidade da educação, afirmou que ela é a maneira pela qual a civilização se sustenta”. E complementou: “Não nascemos com instintos para a civilização. Não entramos no mundo dos alfabetizados ou conhecedores da diferença entre o certo e o errado. A educação, ou seja, a tarefa educativa de pais, professores e da sociedade como um todo, é o modo pelo qual cada nova geração se transforma em uma geração adulta de homens e mulheres”.

Fica claro, do acima exposto, o importante papel a ser desempenhado não só pelos professores ou pelos pais, como também a obrigação que a sociedade tem como um todo de contribuir para formação educacional dos indivíduos. Esse esforço conjunto recebe um destaque ainda maior quando, compulsadas as estatísticas, verificamos que o Brasil situa-se em uma incômoda posição em termos de analfabetismo. Assim é que os dados demográficos de 1980 indicavam a existência de 51% de analfabetos no País. Por aquela época ocupávamos um sofrível septuagésimo sétimo lugar em nível educacional de acordo com dados da UNESCO. Em termos regionais e mais recentes, sabe-se que o Piauí detém o índice recorde de analfabetismo no Brasil, com a alarmante taxa de 55%. O próximo censo, infelizmente, não deverá mostrar modificações para melhor.

Nós os privilegiados, que conseguimos escapar deste estigma cruel, não podemos nos enclausurar voltando as costas aos desfavorecidos. Ao contrário, devemos aproveitar todas as oportunidades para tentar diminuir as diferenças atuando como educadores mesmo onde não pareça haver espaço para tanto.

Refiro-me agora ao assunto propriamente dito, motivos destes breves comentários. Tenho observado com freqüência (e fotografado), nas faixas penduradas pela cidade, erros gramaticais grosseiros, que depõem contra os que as produziram ou solicitaram, mas, acima de tudo, causam um extremo desserviço, já que sendo públicas podem induzir aos menos preparados considerá-las como corretas. Uma dessas faixas, porém, causou-me especial mal-estar por ser alusiva a um evento médico e em sendo médico senti-me responsável também pelo grave equívoco ali perpretado.

Lá esta ela, em local estratégico, na Avenida Miguel Rosa, quase em frente ao Corpo de Bombeiros e bem próxima a duas escolas de primeiro grau, informando em letras garrafais que os Congressistas eram "BEM VINDO" ao I Simpósio de "SIRURGIA"... e outros dizeres que não vêm ao caso no momento.

A falha na flexão numeral e a falta do hífen são erros menores, perdoáveis até, embora não justificados uma vez que a responsabilidade pela faixa é, no caso, de indivíduos com grau universitário e, pelo que se supõe do assunto, com nível de especialização. Já a palavra cirurgia com "S" fere pelo grotesco e não pode passar nem como lapso de quem a produziu.

Entende-se que obviamente não foram os médicos os que diretamente erraram mas era imperativo a existência de um responsável pela revisão a fim de que o nome da Instituição não ficasse exposto ao ridículo. Aliás, minha sugestão é a de que a Prefeitura de Teresina, através de sua Secretaria de Educação, mantenha uma comissão encarregada de analisar as faixas que são espalhadas pela cidade a fim de que erros de tal natureza não tornem a acontecer.


A. Tito Filho, 04/09/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

CAVALO BRANCO

Tempos de apaixonados debates na Assembléia. discutia-se e votava-se a Constituição do Piauí. PDS e UDN - esta com minoria - entravam em desaforos constantes. Orador de largos recursos, o deputado Lustosa Sobrinho comandava os udenistas. De outro lado estava um dos deputados mais inteligentes dessa época agitada da política piauiense. As suas transferências, cheias de verve e ironia, provocavam risos e desarticulavam o adversário.

Um dia, Lustosa, no combate, pronunciava discurso inspirado, estudando juridicamente os artigos da Constituição. E fazia citações eruditas. Em determinado momento, a plenos pulmões, sustentou:

- E nesse ponto, sr. presidente e srs. deputados, invoco a figura oracular de Rui Barbosa, mestre de todos nós...

Ouviu-se a voz do combativo deputado Antônio de Sousa:

- Dá licença um aparte?

Lustosa praticou grave erro. Suspendeu a oração para dar o aparte. E o aparte veio para liquidar o orador, com a risada da platéia:

- Vossa Excelência está dizendo que Rui Barbosa foi mestre de todos nós. Pelo menos não foi meu, pois só tive um mestre, aliás uma mestra, a professora Maroca de Piracuruca...

X   X   X

O órgão "O Piauí", que defendia os interesses da União Democrática Nacional, usava linguagem violenta contra os adversários do Partido Social Democrático do jornal pessedista seguia o mesmo caminho. Trocavam-se descomposturas e xingamentos. Nada se respeitava, ao menos a vida privada. Nesse clima se votava a Constituição do Estado.

Um dia o jornal udenista publicou, em primeira página, debochativo artigo contra o deputado Antônio José de Sousa, acusado, ali, de palhaço ganhador de subsídios sem trabalhar - e pior, sustentava o órgão de imprensa, é que Cavalo Branco nenhuma providência tomava contra o deputado.

Cavalo Branco era o apelido do ilustre e digno deputado Epaminondas Castelo Branco, pessedista de sete costados, presidente da Assembléia.

O jornal circulou de manhã. De tarde, sessão do Legislativo. Antônio José de Sousa pediu a palavra para criticar o jornal. Calmo, risonho e espirituoso, começou:

- Aqui se diz que sou palhaço. Ora, sr. Presidente, na vida só tenho praticado atitudes sérias. Quem me conhece pode atestar o fato. Nunca enganei ninguém. Sou fiel à minha palavra e aos meus compromissos.

Ajeitou de novo os óculos e leu outro trecho:

- O pasquim sustenta que eu ganho nesta Casa sem trabalhar. Ora, sr. Presidente, todo cia ocupo esta tribuna para defender os interesses do Estado. Não falto as sessões. Nas comissões técnicas dou conta das atribuições que me são confiadas. Jamais faltei ao cumprimento de meus deveres.

Outra vez ajeitou os óculos e leu:

- O pasquim diz mais que o Cavalo Branco nenhuma providencia toma contra mim. Bem, sr. Presidente, este negócio de Cavalo Branco é com o senhor. O senhor se defenda...

E encerrou o discurso.


A. Tito Filho, 07/10/1990, Jornal O Dia

CARNAVAL

Mais um carnaval se brincou neste fevereiro de 1990, uma festa ruidosa, em que os excessos transformaram as saudáveis brincadeiras de antanho num espetáculo de luxo e luxúria, oficializado por toda parte, subvencionado pelos poderes públicos e pelos banqueiros do jogo do bicho, em conluios com empresas industriais e comerciais para a aferição de lucros milionários. Não existem mais as batalhas de confete, desapareceu a serpentina, aboliram-se o corso, os cordões, os blocos. Vigora a escola de samba, de milhares de figurantes e despesas astronômicas, nos grandes centros, como no Rio e São Paulo, anualmente a mesma cousa, as mesmas personagens, artistas de projeção no cocoruto de carros enfeitados, as atrizes nuas ou quase como nasceram, peitarras já um tanto desfalecidas à mostra. Rotina. Todos os anos, o espetáculo se repete. Porta-bandeira, mestre-sala, comissão de frente, baianas, bateria, quanta invenção. No Rio, este ano, dançou e pulou no sambódromo uma mulher grávida, com certeza aplaudida pela turba, sem que ninguém se comovesse dos sacolejamento do infeliz pimpolho no ventre materno. A futura mãe, pançona de fora, achou que o melhor meio de alcançar o estrelato estava no efêmero triunfo da heroína espalhafatosa e ridícula. A partir das onze da noite de terça-feira até cinco da manhã de quarta-feira de cinzas, as tevês Globo e Manchete exibiram a pagodeira desenfreada dos clubes Monte Líbano e Scala. No primeiro, mulheres despudoradas da alta-roda carioca exibiam a especialidade da casa: bumbuns de garotas e velhotas menopáusicas, seios de fora e um pedaço de pano estreito sobre as antigas partes pudentas da frente. No outro terreiro, o Scala, também no Rio, deu-se o pagode dos gays ricos, pederastas conceituados, da melhor cepa, de luxuosas fantasias, na mais esplendorosa exibição de traseiros deste país. As bacanas romanas ou as salas das cortesãs de Sodoma e Gomorra tinham excelentes reproduções.

Salvador e Recife homenagearam momo em danças de rua, animadas de trios elétricos. Esbanjaram fortunas os poderes públicos para custear a vadiação enlouquecida.

Mas outros estados e municípios procura-se imitar o Rio e São Paulo e apresentam arremedos de escolas de samba, como as de Teresina, de reduzido número de figurantes, carros alegóricos mambembes, desajeitados, algumas caboclas sacudindo as ancas e exibindo os magros possuídos. Pelo meio, alguns veados desengonçados. Vale dizer que o soçaite e a classe média da capital piauiense correm para a pequena faixa litorânea de Luís Correia, a 300 quilômetros de distância, e aí os ricos se banqueteiam em chalés e mansões elegantes, enquanto o grosso dos visitantes vegeta na mais condenável promiscuidade. Em Barras, cidade pobre do Norte do Piauí, a prefeitura subvenciona a festança, e põe na velha rua Grande, hoje Taumaturgo de Azevedo, escolas de samba, enfeitadas de garotas peladas, num meio em que a pobreza passa fome e talvez a professora ganhe ordenado mendigo.

Quanto a administração pública federal, estadual e municipal dissipa nesse folguedos de álcool, exibicionismo de sexo em que se revelam as mais tristes frustrações do gênero humano? Que quantidade de drogas se consome? Qual a estatística dos crimes? Quanta despesa com violência de variada espécie e hospitalizações? Ninguém divulga. Trombeteia-se que o carnaval constitui festa popular, quando tal característica pertenceu ao carnaval de ontem.

Observe-se que a festa de Momo cada vez mais educa o brasileiro para o descumprimento dos deveres. Não mais se reduz a três dias a patuscada, mas esta tem inicio na quinta-feira ou sexta-feira, prossegue sábado, domingo, segunda, terça, quarta-feira corresponde a dia bocejante, de ressaca e remedoria, e o restante de semana equivale a merecido descanso, depois de uma temporada em que muito se fez pelo progresso do Brasil.


A. Tito Filho, 25/03/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

PLEITOS

Pertenço a uma geração sacrificada pela truculência das ditaduras desapiedadas, pois não conheço uma só que respeitasse a pessoa humana. Mas muitos governos ditos constitucionais me decepcionaram.

Em 1930 eu era um molecote na primeira ditadura de Getúlio Vargas. O país voltou à normalidade em 1934 e pouco tempo depois novo e cruel processo ditatorial, que prendeu, expatriou, matou, recusou direitos, perseguiu brasileiros. Nunca se puniram os criminosos. Pelo contrário. Cada dia mais eram afeiçoados da alma popular. Derribou-se Getúlio em 1945. Houve eleições em dezembro e nelas votei, para presidente, senador e deputado federal no Rio de Janeiro. Um dos meus votos ajudou a eleger o senador líder comunista Luís Carlos Prestes.

Pretendo nestas linhas mal traçadas anotar as eleições estaduais. Vindo do Rio, cheguei a Teresina a 19 de janeiro de 1947, dia de eleição. Os piauienses elegeram Rocha Furtado e derrotaram o General Gayoso e Almendra. Não votei, pois era eleitor no Rio e só depois fiz transferência do título respectivo para Teresina.

Havia três partidos no Piauí: UDN, PSD e PTB. Formou-se um quarto, o PSP. Nas eleições de 1950, elegeu-se Pedro Freitas, pessedista, derrotando Eurípedes Aguiar, udenista, e Agenor Almeida, pessepistas. O PTB, muito fraco na época, não teve candidato. Participei da campanha ao lado do que foi escolhido.

Nesse tempo, Matias Olímpio abandonou a UDN e engordou o PTB, que, aliado a Pedro Freitas, possibilitou a eleição de Gayoso e Almendra para o governo em que votei.

Politicamente desastrado, Gayoso não soube sustentar a união com os companheiros petebistas e estes bandearam para a UDN, numa poderosa união de forças que consagrou Chagas Rodrigues como ocupante de Karnak, um jovem e impetuoso líder de idéias nobres e novas, que praticou erro fundamental de subestimar o magnetismo pessoal de Petrônio Portella, prefeito de Teresina patrocinado pelo talento político de José Cândido Ferraz. Nas eleições de 1962, o candidato Constantino Pereira foi batido fortemente pelo futuro ministro da Justiça, numa aliança imbatível do PSD com a UDN. Neste ponto se encerrou meu o meu comparecimento às urnas. Criaram-se os biônicos, governadores eleitos por assembléias com organizações partidárias comandadas por generais de estrelas muitas: Helvídio Nunes, Alberto Silva, Dirceu Arcoverde, Lucídio Portella. Nos pleitos diretos se convocaram para os governos estaduais, dos quais safrando vitoriosos Hugo Napoleão e Alberto Silva, este ultimo ainda no exercício do mandato.

Amanhã, 4ª feira, mais um embate eleitoral com quatro candidaturas, duas das quais apoiadas por fortes contingentes eleitorais - os de Freitas Neto e Wall Ferraz, depois de programas e mais programas ditos gratuitos pelos meios de comunicação, com ofensas recíprocas, críticas por vezes tendenciosas, calúnias, processos condenáveis que só a educação espiritual e a desambição de muitos podem suplantar.

Não se deve esquecer a injustiça praticada contra governadores já mortos, homens que não mais podem exercer o direito de defesa. O fato maltratou demais os familiares de homens respeitáveis que não praticaram maldade alguma contra o Piauí e seu povo humilde.

Mais uma vez sou chamado a votar. E cumprirei o dever e exercerei o direito, de consciência tranqüila.

 
A. Tito Filho, 02/10/1990, Jornal O Dia

PUXAÇÃO

Candidato ao governo do Rio de Janeiro em 1982, Leonel Brizola teve em Sebastião Nery extremado defensor das virtudes políticas e administrativas do gaúcho, vitorioso na eleição e governador dos fluminenses por quatro anos. Poucos meses depois de empossado, o elogiador do ex-ídolo, em quem as qualidades positivas haviam desaparecido como num toque de varinha mágica.

Passaram-se os anos. Sebastião Nery, em 1989, foi o mais eloqüente propagandista de Fernando Collor à presidência da República.

Gosto de Joel Silveira, das suas notas de cinco linhas, com as quais fulmina o ridículo e o grotesco dos donos desta República de anões, ou liliputianos, na criação literária de Swift. Pois Joel, um domingo destes, registrou a notícia: Sebastião Nery, num escrito recente, admitiu que o Brasil, na sua história, tem três grandes mulheres: Anita Garibaldi, Ana Nery e Zélia Cardoso de Melo.

E Joel, o sutil Joel, anota que Collor deu a Sebastião um bom empreguinho, de dez mil dólares mensais, em Roma, como adido cultural da embaixada do Brasil.

Lembrei-me de delicioso livro que li no Rio de Janeiro, do mestre incontestável em revelar a ridicularia dos outros, o admirável Nestor de Holanda, autor de O Puxa-saquismo ao Alcance de Todos.

Existem vários tipos de puxa-sacos. Os periódicos, que atuam em homenagem aos chefes, quando se oferecem para fazer as compras da mulher do referido, quando se acabam os cigarros do superior hierárquico. Como se vê, puxem o saco em determinadas oportunidades.

Os puxa-sacos fanáticos funcionam por toda parte. Puxam por vício. Chegam a estados mórbidos.

O puxa ex-officio bajula por obrigação. Muitas profissões exigem bajulador oficial, como os relações públicas, áulicos dos mais competentes. Outros representantes são os capangas, as secretárias, as enfermeiras, as cafetinas, os porteiros, vendedores de livros, os mordomos, os colunistas sociais, e estes dão mas duas ou quatro puxadas por linha tipográfica. Quando escolhem os mais e as mais elegantes a puxação dá excelentes lucros.

Conta ainda Nestor de Holanda que o governador João Pinheiro, de minas, ao assumir o cargo, foi avisado por Lauro Muller sobre os puxadores de saco, sempre perigosos. Tempos depois Lauro perguntou ao governante sobre os bajuladores. E João Pinheiro segredou-lhe: "É uma gente intolerável, mas, seu Lauro, é bom como diabo uma puxada".

No Livro Getúlio me Disse, Armando Pacheco conta que Getúlio achava que os bajuladores não o deixavam em paz. Certa vez o poeta Olegário Mariano procurou convencer o presidente a candidatar-se à Academia Brasileira de Letras. O saudoso Vargas achou impossível a proposta, embora o puxador procurasse convencê-lo de haver escrito livros admiráveis. A eleição seria uma honra para a Academia.

Getúlio explicou que na época não havia uma só vaga. E Olegário insistiu: "O senhor entra no meu lugar, presidente. Eu me suicidarei e Vossa Excelência se candidatará à minha vaga..."

Tipo do puxa-saco fanático. Mas foi nomeado embaixador do Brasil em Portugal. A puxada foi segura. Puxação de mestre consumado no assunto.

Para Sebastião Nery o Brasil, ontem e hoje, possui três mulheres: Anita Garibaldi, Ana Nery e Zélia Cardoso de Melo. Puxa-saquismo ex-officio. Acabará abocanhando embaixada do Brasil em Paris. Ganhando em dólares.


A. Tito Filho, 23/08/1990, Jornal O Dia

PROPAGANDA ELEITORAL

Nos tempos antigos as campanhas eleitoras se faziam em praça pública, nos coretos das pracinhas de lazer ou nos palanques armados para o falatório dos candidatos. Oradores e mais oradores desfilavam, e os mais importantes discursavam no final desses entusiásticos ajuntamentos. A linguagem se mostrava dura, severa, por vezes humorística, e aqui e ali se exploravam os ridículos e os erros e espertezas dos adversários. Assim no Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Ceará, no Piauí. Nas capitais como nas cidades interioranas. Havia a crítica forte, a censura veemente, as denúncias sobre fatos condenáveis. Os homens, porém, eram outros. Tinham honestidade e repudiavam infâmias, injúrias, calúnias e difamações. Atacava-se rijamente o adversário, mas com base na verdade, nunca em invencionices e falsidades. Conhecidos oradores recebiam aplausos demorados das multidões, assim como Maurício de Lacerda, pai de Carlos Lacerda - um Maurício corajoso, mas respeitador da honra alheia, porque consciente de que a sua honradez igualmente merecia respeito.

Com o correr dos anos, surgiu a televisão, instrumento comunicador que penetra sobretudo no ambiente familiar. Concedeu-se por via de lei, horário gratuito nesses aparelhos, com a finalidade de que candidatos pobres e ricos pudessem levar idéias e projetos aos grandes auditórios das coletividades. Apareciam então tipos gaiatos, sem mensagens e sem credibilidade, para o fim exclusivo de projeção doentia. E quanto mais os horários gratuitos serviam o egoísmo de muitos, concluiu-se também que a arma, de tão poderosa, poderia eleger xingadores e derrotar candidatos por força da divulgação, a nível total, de fatos que jamais deveriam ser objeto de campanha eleitoral.

Ainda o ano passado, na peleja presidencial, levou-se a televisão uma mulher, frustrada a não mais poder, para contar ao público que foi amante de um dos candidatos presidenciais. Aquele que foi isento de culpa, atire a primeira pedra - assentou o Cristo justo quando absolvia a adultera. Qual o homem que, na mocidade, não teve as suas peripécias sexuais com mulheres que se entregavam com facilidade? O fato positivou que o Tribunal Eleitoral nem sempre exerce o policiamento dos programas, como era de seu dever, da forma que fez em São Paulo, ao tempo do candidato a governar Marronzinho. Tem a Justiça a obrigação de acompanhar a programação e suspendê-la no instante das agressões pessoais, e das acusações mentirosas.

Na atual campanha para os governos estaduais, aguçam-se os destemperos da ambição pela conquista do poder. Certos candidatos não se conduzem com o devido respeito à dignidade dos adversários. As descomposturas pertencem à falta de argumentos. Avilta-se a honra. Insulta-se a personalidade. Humilha-se. Nem a vida privada das pessoas fica imune a essa debocharia escancarada.

A televisão, sobretudo a televisão, exibe, de manhã e de noite, tipos gaiatos, candidatos machões que ameaçam contar estórias escabrosas, e vários outros, sem idéias e sem ideais.

Interessante também por estes brasis enormes as pazes de velhos adversários e as inimizades de antigos correligionários, episódio vulgar na política partidária brasileira. Políticos ontem escarravam uns nos outros e hoje se beijam, como nos versos em que o poeta diz que o beijo amigo é véspera do escarro. Por que o fato se repete em todos os cenários nacionais, no Rio, em Salvador, em Campinas, em Sobral, no Recife, em Teresina, em Oeiras? Terríveis adversários ontem, amigos do peito hoje? Porque as agremiações partidárias são falsas, os candidatos não defendem idéias nem plataformas, mas exclusivamente ambições de alcançar o poder.

Débeis mentais, tipos arrogantes, machões, indivíduos apalhaçados ocupam os horários das tevês e arrotam descomposturas. São candidatos a cargos eletivos. Certos partidos contratam por milhões profissionais inteligentes que xingam em nome dos candidatos. No Brasil todo, sob a proteção da Justiça Eleitoral, que merece respeito e credibilidade, se praticam esses programas condenáveis.


A. Tito Filho, 18/09/1990, Jornal O Dia

sábado, 14 de janeiro de 2012

MILAGRE

Frei Serafim de Catânia chegou ao Recife em 11 de setembro de 1841. Percorreu todo o Nordeste, em trabalho de catequese. Valoroso missionário. Em 1858, benzeu a primeira pedra da futura matriz do Ceará-Mirim. Tinha fama de obrador de milagres, de quem Luís Câmara Cascudo contou o seguinte, num livro muito saboroso ("Coisas que o povo diz"):

"Um home de bem, pobre, com família numerosa, estava sendo perseguido por um credor impaciente de receber os 100$000, e não sabia que fazer para enfrentar a vida dificil. Foi procurar Frei Serafim de Catânia no consistório da igreja de Santo Antônio, expondo com lágrimas sua desventurada situação. O frade ouviu-o, animou-o, e erguendo-se olhou ao derredor, viu apenas uma lagartixa que balançava a cabeça numa janela. O capuchinho fez o sinal-da-cruz e o animal imobilizou-se como feito de bronze. Frei Serafim embrulhou-o num pedaço de papel e entregou-se ao necessitado penitente recomendando:

- Peço dinheiro emprestado sob este penhor e livre-se da miséria. Daqui a um ano volte, trazendo o objeto, e coloque no altar, nos pés de Santo Antônio. Promete?

- Juro pela salvação da minha alma! - respondeu o pobre homem.

Correu ao agiota, pedindo a fortuna de 500$000, deixando um depósito. O onzenário abriu o embrulho e encontrou uma lagartixa de ouro, com a boca de rubis e os dois olhos de brilhantes. Valia o triplo. Pensou, provou, experimentou e deu os 500$000 ao suplicante. Este, com menos de um ano, estava livre de preocupações. Possuía casa própria, gado, uma loja, a família tranqüila e feliz, cavalo de sela para o trato dos negócios. Foi ao usuário liquidar o débito. Este propôs comprar a lagartixa de ouro.

- Não é minha! - explicou o abastado negociante.

Recebendo o penhor, foi à igreja de Santo Antônio e feita a vênia, depôs o pacote aos pés do orago. Imediatamente o papel mexeu-se e dele saiu, esfomeada e rápida, uma lagartixa, viva e veloz, em desabalada carreira. O homem percebeu o milagre de Frei Serafim de Catânia, e, ajoelhado, rezou longamente agradecendo a mercê”.


A. Tito Filho, 21/04/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

PATOLOGIA SOCIAL

As tevês brasileiras oferecem aos estudiosos os melhores tipos de antropologia criminal. Liguem-se esses aparelhozinhos infernais e observe-se o desfile dos anormais de todos os tipos: adúlteros, falsários, sedutores, trampolineiros, incestuosos e ainda os criminosos políticos, cada qual metido nas infucas da roubalheira cartorial, na legislação casuística, na entrega do Brasil às multinacionais por alguns dólares sujos. Em moda, o seqüestro, fabricante de heróis, o seqüestrado e o seqüestrador.

Byron, Balzac, Galdoni haveriam de banquetear-se com o noticiário das tevês nacionais, para a criação de novos tipos lendários.

Vejam-se os quadros a uma assistência já em estado de neurose e psicose permanente: quedas de avião, choques de trem, desastres e mais desastres de veículos, tráfico de drogas, assaltos a bancos, ação de justiceiros, as rotas de cocaína, contrato de homicídio, estupros, vinganças torpes, roubalheiras, maracutaias, mortes nos hospitais, quadrilheiros, pistoleiros, incêndios, autoridades metidas a sério em entrevistas emprenhadas de asnices. No mais, o maluco roquinirol dos norte-americanos, ou a lambada de calcinhas de fora, a inflação, o sofrimento dos aposentados.

As nossas tevês ofereceram quadros de assassinatos, como na tragédia grega. Vera Fischer já fez uma Jocasta industrial. As obras de Eurípedes, Ésquilo, Corneille estão vivas nos malditos aparelhos de imagem e de som, verdadeiras minas de riqueza inextinguível. A leitura de Os Bandidos de Schiller revela muitas personificações de criminosos que aparecem nas fábricas televisivas de crimes e devassidões.

O dilema darwiniano foi muito bem revelado na fórmula de d'Annunzio para os múltiplos aspectos da sociedade injusta e irresponsável: renovar-se ou morrer.

As tevês nacionais, nos seus noticiários, sem que os seus proprietários desejem, mostram que o corpo social brasileiro se encontra doente. Poucos os gozadores, milhões de sofredores. Ou se renova ou os seus princípios brevemente se varrerão por virtude do protesto das massas. Leiam Zola, em O Germinal, a viva descrição do proletariado aspirando à luz, depois de sofrer durante séculos. Descreve o genial francês a descarga fulminante de eletricidade acumulada em operários em greve. Cenas violentas. E matam, e mutilam os cadáveres dos opressores. No caso, a arte literária, antes da ciência, refletiu a verdade pura e simples de uma massa de grevistas desnorteada pelos sofrimentos.

A tevê brasileira glorifica criminosos vulgares, doentes, criminosos loucos, psicopatas, quando lhes concede a maior parte dos programas noticiosos e com rispidez esquece as vítimas.

A injustiça social, desumana, perversa, se revela. O empresário que paga vinte e cinco milhões de dólares de resgate não explica como ganhou tanto dinheiro, mas não se pode negar que o acumulou com a exploração da fome dos miseráveis, que vegetam por toda parte, escondendo terríveis dramas da fome dos filhos, de resistência debaixo das pontes, de doença que não se trata. É necessário que todos se voltem para a multidão dos desgraçados. O egoísmo alimenta os ricos que se entregam ao ócio e à dissipação, estróinas que são com o luxo e o culto das amantes. Só os desequilibrados conseguem viver do EU. O Brasil está repleto de criminosos: os de colarinho e os descamisados.

Mal alimentado, sujo, doente, pervertido de maus exemplos, o pobre grita. As crianças ignoram a alegria. O pagamento ao operário equipara este ao escravo.

Piedade e justiça, meus senhores. Maiores crimes do que os apresentados na tevê brasileira é o crime da terrível condenação à dor, à miséria, ao opróbrio.


A. Tito Filho, 29/07/1990, Jornal O Dia