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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

TECNOCRACIA

Conquistei o titulo de bacharel em direito, com distinção em quase todas as disciplinas do curso, e desde rapaz gostava muito de estudar a língua portuguesa. Iniciei o exercício de cargos públicos na qualidade de delegado de trânsito e costumes de Teresina, do qual solicitei exoneração para retornar ao Rio e prosseguir estudos. Fiz concurso e me aproveitaram no antigo instituto dos comerciários na capital piauiense e voltei a minha cidade do meu xodó para assumir as funções e concluir o curso jurídico, o que foi feito.

Em 1951, o governador Pedro Freitas me fez convite para lecionar e me nomeou professor de português do Colégio Estadual e de sociologia educacional na antiga Escola Normal. Dei conta do recado, como podem atestar os meus antigos alunos e alunas. Fiz concurso sério e difícil.

Em 1954, o governador Pedro Freitas convocou-me a Karnak e me convidou para dirigir o Colégio Estadual. Antes, em 1952, os colegas de jornalismo elegeram-me presidente da recém-criada associação dos Jornalistas, reeleito por dois mandatos mais. A entidade passou a sindicato.

Nas funções de diretor do Colégio Estadual me conservou o governante seguinte, general Gayoso e Almendra, até o final do mandato. Tive substituto no governo Chagas Rodrigues. O educandário tornou-se modelar. Respeitado. Exemplo de ordem e disciplina.

Ano de 1962, o suplente de senador Clark substituiu Leônidas Melo, que se licenciara, no Senado, e me indicou para a presidência da Comissão de Abastecimento e Preços do Piauí ao governo federal. Enfrentei o comércio ilegal do trigo, da carne, as cobranças altas de entrada de cinema, a exploração no comércio do pescado, os vendedores de leite. Venci. Contratei Luiz Noronha para trazer trigo da Bahia e fretei aviões e trouxe carne do Maranhão, na fronteira com o sul do Piauí. Importei peixe do amazonas. E assim passei adiante. A verdade está em que tudo passou a ser vendido ao público por preços justos de acordo com a fixação honesta dos valores.

Exerci a elevada função de secretário da Educação e Cultura, no governo Clímaco de Almeida. Realizei administração de alto nível, conforme se vê do depoimento de Itamar Brito, em história publicada sobre esse órgão público. Em 1975, no primeiro governo Alberto Silva, recebi a incumbência de dirigir a Secretaria da Cultura, por dois meses, em que editei uns vinte livros, promovi a festa de reinauguração do teatro 4 de Setembro, maravilha de festa, sem quase despesa para os cofres públicos.

Desde 1971, sou presidente da Academia Piauiense de Letras, reeleito seguidamente para vinte anos de mandatos.

Nunca pedi cargos a governador algum de minha terra. Convidaram-me para os cargos provocando-me surpresas. Nunca fui técnico de cousa alguma, exceto da leitura, da honestidade, do desejo de fazer as cousas com o rigoroso cumprimento da lei. E não preciso de empregos, pois vivo modestamente, mas sem dividas e sem picaretagens.

A tecnocracia instituída pelo presidente Fernando Collor para administrar a República corresponde a fracasso generalizado. O próprio governo aumenta os combustíveis, aumenta as taxas dos correios, aumenta preços do pão e do leite, aumenta as taxas dos correios, não permite que os operários ganhem o necessário para as necessidades primárias da vida. A inflação vem subindo sempre inquietando as camadas populares. Há no Brasil um governo de tecnocratas, cujas palavras ao público, nas televisões, ninguém entende. Além disso, falam um péssimo português, o economês.

O futuro governo de Freitas Neto deve ter técnicos, sem esquecer que estes nem sempre se guiam acertadamente.


A. Tito Filho, 18/12/1990, Jornal O Dia

PROMESSAS

Num país faminto, em que o povo não pode ter civismo porque vive de pança vazia, num país abúlico, de milhões de analfabetos, o presidente da República faz o que lhe dá na veneta, e pode, querendo, chegar ao desmando e à prepotência.

No Brasil, o chefe do Executivo legislava quando, num ato de força, se fundava o sistema ditatorial, do jeito que praticou Getúlio Vargas, de 1930 a 1934 e de 1937 a 1945, ou da forma que estabeleceram os militares, de 1964 a 1985, épocas de severas e cruéis ditaduras. Sob o regime do presidente Fernando Collor vigora a MEDIDA PROVISÓRIA, criada pela Constituição Federal de 1988, em caso de relevância e urgência, circunstância que não se vem observando, e o presidente legisla em matéria sem as exigências constitucionais e que bem poderia ser objetivo de projetos de lei, normalmente.

Nunca vi o Brasil na situação dos dias que correm. Nada funciona. Deterioramento da educação e da saúde. Cultura abandonada. Megalópoles de problemas angustiantes. Insegurança social generalizada. Industria do crime por toda parte. Renda das pessoas em desnível insuportável pelos assalariados. Desemprego e subemprego. Incompetência. Instituição do ócio no funcionalismo público. Descrença nos homens públicos.

A euforia industrializante de Juscelino Kubistchek deu no que deu: a busca da cidade pelas populações do campo, para a fantasia do ganho fácil e de conforto, mas cujo resultado aumentou a favelização dos enormes centros urbanos e os apartamentos da população debaixo das pontes.

Na campanha presidencial de 1989, Fernando Collor de Mello fez promessas que o tornaram símbolo da esperança dos brasileiros. Liquidar-se-iam os MARAJÁS, indivíduos afortunados e privilegiados de ganhos absurdos. Dar-se-ia a moralização da vida pública. Derrotar-se-ia. A 15 de março de 1990 assumiu o fazedor de promessas. Chegou o Natal. Os marajás continuam a desafiar o governo, a burocracia brasileira prossegue o seu cortejo de malefícios, o processo, inflacionário martiriza no dia-a-dia da subida dos preços.

A única medida que se teve, até agora, foi a de confiscar o dinheiro dos brasileiros confiados aos estabelecimentos de crédito para que rendessem juros. O governo arrecadou-os prodigalizando mais aflições às classes necessitadas.

A ministra Zélia, rica de gestos autoritários, no começo do governo Collor apostava na inflação zero. Agora, pelos aparelhos de televisão, culpou os empresários e pede paciência.

Collor ataca os exploradores do povo, esquecido de que o seu governo aumentou de vez em quando os combustíveis, as taxas dos correios, o preço do pão e do leite, das passagens de ônibus e dos aviões. Como evitar que os industriais e comerciantes não aumentem os preços dos seus produtos, e o próprio governo oferece o exemplo de aumentos constantes?

A verdade verdadeira está na evidência de que os tecnocratas cada vez mais se desacreditam com os planos salvadores: Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Verão e mais que seja, um só deles acertou cousa alguma.

E milhões de brasileiros passam fome e vivem dias de medo e desesperança.


A. Tito Filho, 25/12/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CARROS

Quando cheguei ao Rio, na década de quarenta, já se verificava algum aperreio no tráfego de veículos, sobretudo na avenida Rio Branco, de trânsito nos dois sentidos. Só os ricos ou os bem aquinhoados de vencimentos possuíam automóvel. A classe média e o operariado se serviam de ônibus e do popularíssimo bonde, este último muito ventilado, viagem agradável, tranqüila. Eu gostava sobretudo quando se sentava a meu lado a garota de traseiro bem fornido e coxas de misse, e que roçava na gente acompanhando o sacolejar do veiculo para a esquerda e para a direita e vice-versa, nos trilhos zoadentos.

Retomei a Teresina no principio de 1947. A cidade fundada por José Antônio Saraiva tinha uns vinte carros de aluguel e um tanto igual de carros particulares. Não me lembro de ônibus nesse tempo.

Se a memória não me falha, foi em 1963 ou 1964 que, em Teresina, fiz entrevista com o senador Sigefredo Pacheco, que havia retornado de viagem a Rússia, numa visita de parlamentares brasileiros. Dirigi ao saudoso médico e amigo várias perguntas sobre o povo russo, o comunismo, a arte, a literatura dessa gente, quase desconhecida dos piauienses na época. O entrevistado ofereceu esclarecimentos curiosos e ilustrativos. Publiquei-os na imprensa.

Não poderia deixar de fazer uma indagação sobre a capital soviética, assim me respondendo o senador: "Cidade muito grande e populosa, mas atrasada. Não possui certo conforto da vida moderna, como o automóvel. São poucos esse veículos que trafegam em moscou, menos do que em Teresina".

Sigefredo informava uma verdade. Até na capital russa o tráfego de automóveis se mostra reduzido, o que não significa atraso, mas proteção do governo à economia do povo.

No Brasil o ideal de todos reside em possuir automóvel, ricos e pobres. Os pobres, porém, sacrificam as pequenas rendas auferidas para a aquisição de carro próprio e cuja manutenção, com gasolina, peças repostas, oficinas revisoras, só angustiam o raquítico orçamento doméstico. A política soviética se vira para proteger a bolsa popular, proibindo-se que a massa de gente trabalhadora se sacrifique na compra do que lhe acarretará despesas acima do seu poder aquisitivo. Que faz o governo russo? Oferece ao povo o sistema de metrô mais luxuoso do mundo e no transporte subterrâneo todos alcançam, em tempo mínimo, o local de trabalho e de residência.

No Brasil, pessoas que mal comem, mal habitam se envaidecem pilotando o que compraram por altos preços, que adicionam juros criminosos.

A ministra Zélia Cardoso de Melo denunciou pela televisão que uma empresa vendedora de carros, a Autolatina, está cobrando preços acima do normal pelos veículos que vende. A empresa contesta a ministra. Não sei de que lado está a razão. Penso, porém, que a ministra deveria punir os preços extorsivos que se cobram pelos produtos extorsivos que se cobram pelos produtos necessários ao povo, diariamente sobem de preço, e o aumento se faz com a autorização do próprio governo, ou da ministra, e se relaciona com o pão, com o leite, com o transporte coletivo, com a energia elétrica.

Carro particular significa luxo, ao menos para o povo de barriga roncada.


A. Tito Filho, 28/12/1990, Jornal O Dia

CIVILIZAÇÃO

O homem criou a sua própria destruição - máquina, geradora do maior processo revolucionário de todos os tempos, a civilização industrial, e das consequencias dela advindas: o combustível, que provoca a existência das nações pobres e ricas; a conquista de mercados consumidores para os produtos fabricados em larga escala; e o imperialismo dominador, responsável pelas angústias de tantos povos exploradores. O poder econômico, pelos canais de intensa propaganda e publicidade subliminar, institui a cultura enlatada, subvertendo a vida espiritual e criando a fantasiosa existência do conforto a qualquer preço e do desprezo a comezinhas normas de convivência moral. Em nome do progresso, o bonito Rio de Janeiro transformou-se numa selva de cimento armado, a fim de que os fabricantes de arranha-céus e elevadores obtivessem lucros fabulosos. A coca-cola, líquido que produz cansaço, torna-se símbolo das alegrias da juventude. Para vender mais, desnudaram-se nádegas, seios e até a parte inferior mediana da região hipogástrica que forma a eminência triangular feminina. Velhotas menopáusicas passeiam as muxibas pelas ruas metidas em calças anatômicas. Homens pelados na televisão exibem as mãos nos bolsos. Nada mais nada menos do que a glorificação do NU. Último modelo de veículos, viagem de turismo, uísque para as coronárias, jantares americanos, o arsenal químico dos tranqüilizantes para os sofridos nervos depois dos bacanais que varam as madrugadas - eis alguns quadros do selvagem capitalismo nacional, sustentador do luxo nababesco de uma elite que não cede, que se recusa às reformas urgentes exigidas de uma minoria irresponsável que pouco se incomoda que milhões cheguem ao desespero, pela fome, pela habitação desumana, pela família sem os mínimos bens da vida, pela doença, pela miséria generalizada. A verdade está em que poucos gastam milhões no fausto, no luxo, no comodismo, explorando quase todos os brasileiros da paupérrima classe média e da aviltada classe proletária. Pequenos comerciantes, professores, jornalistas do batente, e milhões que chegam a cinco ou dez salários mínimos sacrificam os ganhos mensais nas prestações para aquisição da bateria de eletrodomésticos anunciados pela propaganda dentro do lar humilde; ou na compra do fusca, o amor das mal-amadas, ou no pagamento da viagem feita a Foz do Iguaçú ou a Buenos Aires; sem falar dos carnês do Banco Nacional de Habitação e da sua centena de sucursais pelos Estados antigamente federados, hoje membros da República Unitária Brasileira - e esses dinheiros mensais do ganancioso financiador de casa própria confere direito a uma casinhola na grande concentração dos conjuntos habitacionais. A classe média, sem dinheiro, busca status, a vaidade de obter alguns instrumentos do progresso industrial à custa do sacrifício antecipado dos magros dinheiros que recebe. O proletariado, este marginaliza-se, no desempenho das elevadas funções lucrativas de traficantes, de bicheiros, de assaltantes - e assim com lucros fabulosos sustenta as famílias faveladas, onde habita, sob a guarda dos protegidos. Submetem-se a perigosa existência, mas se transformam em heróis no jornalismo e na concepção de gente humilde. Reformem-se as estruturas sociais do Brasil com urgência. Não é possível que pequena porção fútil, dissipando em festas ruidosas e episódios paradisíacos, numa gritante afronta aos que se entregam ao trabalho honesto e digno, [tanto] público como privado. Está na hora de ceder, tanto os latifundiários que exploram a terra e o homem, como os capitães de indústria e os tubarões da economia que sugam os restos de resistência do trabalhador nacional, na indústria como no comércio. Os homens do dinheiro continuam na nefasta teimosia de levar o país ao desespero.


A. Tito Filho, 18/08/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

TRAGÉDIA

Estudante no Recife, meu pai se dedicava a estudos sobre a criança. Gostava do assunto. Foi pobre, sem dinheiros para diversões. Juiz de direito na sua terra natal, Barras, recebeu promoção por merecimento para Teresina. Era 1932. Cidade pequena, a capital do Piauí possuía muitos locais de jogatina. Bilhar, dominó, o gostoso bozó para aposta de cervejas, e os cabarés já vicejavam por alguns lugares.

Meu pai pleiteou junto ao Tribunal que lhe fosse confiada a jurisdição dos menores. E assim foi feito. Sem veículos, com uns dois fiscais, havia segura fiscalização nos ambientes que se julgassem nocivos às crianças, que freqüentavam cinemas de tarde e ninguém os via nas ruas sem a companhia dos pais depois que a usina elétrica dava o sinal das nove da noite.

Quando fui estudar no Rio na década de 40, nunca vi garoto pelas ruas desacompanhados dos responsáveis e as diversões eram rigorosamente observadas quanto à idade de freqüência de crianças e adolescentes.

O Brasil nunca melhorou de vida. Vítima do colonialismo e já agora do imperialismo, quintal dos norte-americanos, país favelado, faminto, doente, em que nada funcione senão assaltos e crimes, dono de desumano sistema penitenciário, coletividade erotizada, desavergonhamento moral por toda parte, miséria, humilhação de magnatas estrangeiros examinando as contas do governo, ministros em adultério público - o governo agora, debaixo de riquíssima propaganda, festejou o dia da criança. O presidente da República possui ministros infantis. Uma patuscada. Decretou-se um estatuto da criança, como se o país nunca tivesse adotado códigos que protegessem os menores e que passaram a letra morta desde que a sociedade brasileira destruiu o lar da família. Mais uma vez se desviou a atenção nacional dos profundos malefícios que constituem a causa da desgraça do menor.

O espetáculo nacional semelha impiedade. Sociedade perversa voltada para o enriquecimento fácil, para os golpes milionários, para a futilidade, para o luxo, o gozo dos bens materiais, sem peias. As mulheres abandonaram o lar. Os meninos vivem nas ruas, espelho de uma sociedade maléfica. A rua reflete a patologia social e nela a angústia busca um consolo, um alívio, a rua é o refugio dos que não têm lar, têm apenas casa ou abrigo debaixo das pontes ou a promiscuidade dos conjuntos habitacionais. Pertence a rua aos sem-afeto.

O homem construiu uma civilização que o aniquilará. O mundo vale sexo, violência, dinheiro. O menor depende de uma liderança educacional apoiada no amor materno. Sem esse apoio, o menino busca na rua auto-afirmação. Não há crianças ruins, existem crianças mimadas ou escorraçadas, futuros desajustados. Uma sociedade injusta e desequilibrada produzirá apenas revoltados e criminosos.

Verifiquem-se os crimes que se praticam contra a criança no cinema, na televisão, observam-se os clubes mundanos, os botecos, os outros de jogatina. Cafetinas e gigolôs comerciam a carne de jovens mulheres, vendidas a concupiscência de bandidos engravatados.

Mas uma campanha hipócita pelo menor cuja saúde espiritual depende do saneamento moral da sociedade dita moderna - uma sociedade em que os ricos chafurdam no prazer dos vícios e dos gastos supérfluos e os milhões de párias brasileiros [que] vegetam no mais cruel dos destinos humanos: o de ao menos enterrar os filhos entanguidos e raquíticos que mulheres esqueléticas têm a desdita de parir para a morte.


A. Tito Filho, 25/10/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

GREVES

O país, não cabe duvidar, encontra-se doente. Insuportáveis as condições de existência dos brasileiros, sem que possam auferir os bens essenciais da vida, a partir da mãe grávida, desnutrida, ao nascimento do menino - sem alimentação, sem assistência, sem os mínimos requisitos de saúde e desenvolvimento para as outras idades da vida. Sofrem operariado e classe média insultos de toda espécie. Essas duas camadas sociais não possuem elementares recursos financeiros para o sustento da constelação familiar. Reproduzem-se diariamente movimentos grevistas. O fato se torna espantoso pois as greves tão excessivas são o retrato negativo da política econômica e das medidas adotadas pelos que por ela são responsáveis. A liberdade constitui bem precioso, mas convém estimá-la no direito elementar e necessário ao bem estar e à felicidade coletiva. Liberdade para o xingamento nos comícios eleitorais, nisto reside a negação da liberdade. A liberdade seria o benefício maior de não passar fome, de morar em casas confortáveis, nunca em tugúrios promíscuos dos conjuntos habitacionais. Estaria em poder cada um educar os filhos. Pretende Dona Zélia Melo que a inflação foi derrotada, o que não é verdade, e o recurso, o remédio heróico, infalível, está na greve. Quando se começou o uso da greve? No momento em que o operariado sentiu o excesso de horas na exploração do empregador. Trabalhava-se normalmente das sete da manhã até a noite. A reunião dos trabalhadores se deu em Paris, na Place de Gréve - e só se voltou ao trabalho depois da humanitária diminuição da jornada no emprego. Que se reivindica hoje com paralisações sucessivas nas empresas públicas e privadas, quando se estagna o funcionamento generalizado até de serviços essenciais à coletividade? Apenas salários mais compatíveis com as necessidades elementares, uma vez que não se acredita mais na possibilidade de viver, somente de vegetar, e mal, com raquíticas e reles pagas mensais aos pobres operários nacionais. E o mal aviltante atinge ainda a classe média à qual pertencem servidores graduados, funcionários públicos, bancários e outros, que grevam pelos motivos dos constantes e inexplicáveis achatamentos do dinheiro. As greves inacabadas, uma seguida da outra, não têm, no Brasil, objetivos de conquistas sociais no terreno da saúde, pois as filas da assistência oficial são humilhantes; da educação, pois se encontra o ensino do governo, do primeiro grau à universidade, e escorchante o preço dos estabelecimentos particulares; do alimento, que, minuto a minuto, se eleva o custo, por especulação e outras maneiras de ganância dos negociantes; do remédio, cuja fabricação está sob o poder de fabulosos trustes internacionais, do sistema de comunicação de massa através da televisão, dirigida por competentes homens de negocio deformadores da consciência nacional, impondo-se as imagens por interesses internacionais - e o Brasil, de modo subliminar e perverso, aplaude a glorificação de bicheiros e a música barulhenta e vociferante do roquenrol.

O operário suspende o trabalho porque está faminto, maltrapilho, desassistido, ao lado da família no mesmo estado de abandono e miséria. As centenas de greves nacionais revelam o quadro espantoso, a paisagem de desordem física e espiritual em que se agitam os trabalhadores brasileiros.


A. Tito Filho, 30/08/1990, Jornal O Dia

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A MÁQUINA

Não cabe dúvida que a máquina provocou a maior revolução de todos os tempos, a revolução industrial, que mudou radicalmente a estrutura da sociedade universal. Derribou preconceitos. A economia dos povos passou a apoiar-se no combustível ou na falta deste. Extinguiu-se o regime escravo, a exemplo dos Estados Unidos. E o que foi pior: expulsou a mulher do seu lugar de primeira educadora, no lar, e maior responsável pelas finanças domésticas, pois a ela cabiam os encargos de prepara a roupa, o remédio e fabricar o alimento - e tudo isto, encarecido pela produção da indústria, saiu da órbita caseira e fez que as donas-de-casa passassem ao sistema do consumismo e buscassem emprego para ajudar as despesas respectivas. Quanto mais se intensificou o poder de abarrotar os mercados consumidores, muito forte se tornou a publicidade, por múltiplos veículos, e cada dia o ideal de conforto a qualquer custo contagiou as diferentes classes sociais. Surgiram os meninos sem o leite materno, a adolescência desamparada de afeto, a mocidade rebelde, e a maturidade irresponsável, dissipadora e disposta sempre à esperteza, aos golpes de dinheiro, às fraudes - num corpo social aniquilado espiritualmente pela ganância. Triste, muito triste, será o quadro no terceiro milênio que se aproxima, pois subvertendo a ordem dos costumes e dos hábitos privados e públicos, derrotando o homem no seu teor de virtude - o poder industrial buscaria desmoralizar as mais caras instituições da vida, com inicio pela constelação familiar. Afrouxaram-se e perderam-se os freios morais. O ser humano tornou-se escravo do dinheiro, semelha uma cédula de dólar, tudo vende e tudo frauda. Chegou-se ao processo da violência, cujas razões são, nos crimes de sangue, também econômicas. Até 1968, ainda se mantinham certos fundamentos cristãos nas relações de homens e nacionalidades, quando adveio a chamada revolução cultural dos jovens, em maio, partida dos universitários, para mudar o modo de ser da sociedade, que para eles padecia de incurável velhice. Assassinaram-se líderes, destruiu-se um sistema para salvação de estruturas em decadência, como se anunciou. Anularam-se os valores morais. Estabeleceu-se a liberdade sexual. As artes padeceram, e no quadro negativo a música se tornaria frenética, como se tivera o destino de fabricar doidice e gestos macaqueados. A droga se faria companhia habitual de adolescentes e moços, para o futuro fosse dependente de anticidadãos doentes e derrotados. A primeira grande vítima desse movimento estudantil que libertou instintos e ambições se chama, na preleção de Dom Eugênio Sales, a família, que se debilitou, com a convocação da publicidade para o mal e o desperdício. Abandonou-se a prole. Liquidou-se o senso de moralidade. Aboliram-se práticas de leitura e de aprimoramento da inteligência. No prazer se fixam todas as vontades. Valem os instintos. Desapareceu a honra. O trabalho ainda vigora, mas incômodo. Matam-se seres humanos pelo aborto e crianças na rua, pela inanição. Estimula-se o crime propagando o heroísmo dos que o praticam. Não se crê na vida política. E tem-se como difícil a salvação. Salvo, de forma que escreveu o pastor dos cariocas, se as derrotas sofridas pelo homem sejam passageiras e que voltemos às normas sagradas do nosso verdadeiro destino.


A. Tito Filho, 25/08/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

INSULTO

Ivan IV, o primeiro grão-duque de Moscou a tomar o título de czar, em se declarando sucessor pelo sangue do romano César Augusto, foi dos mais violentos e mais cruéis soberanos da história da humanidade.

Órfão de pai e mãe, submetido a tutela dos boiardos que se entredevoram para conquistar o poder, Ivan faz o aprendizado da astúcia e da crueldade à sombra dos protetores que, no entanto, o ignoram. Coroado czar em 1547, com 17 anos de idade, ele manifesta logo inicio uma autoridade assustadora. Sádico e místico, considera-se o vigário de Deus na Terra e se imagina desculpado antecipadamente por todos os seus desregramentos. Sua mórbida desconfiança o leva a ver por toda parte espiões e traidores. Manda torturar devotos favoritos. Até sente mais prazer quando comete injustiças.

Ivan gosta tanto de sangue quanto de mulheres. Casará oito vezes, sem se preocupar com a Igreja. Algumas das esposas morrem envenenadas, para satisfação do czar que prefere escolher as substitutas entre milhares de jovens em autênticos concursos de beleza.

Entretanto, não perde de vista de vista a missão política. Luta para largar seu reino, em batalhas sangrentas com poloneses, tártaros e suecos. A principio com sucesso, depois com incontroláveis perdas.

Quem era Ivan, o Terrível, o homem que matou o próprio filho e herdeiro? Que se divertia soltando ursos selvagens contra homens, mulheres e crianças? Que comandou o genocídio de Novgorod?

O retrato de Ivan feito por Henri Troyat, russo naturalizado francês, na sua autoridade de acadêmico, é verdadeiramente singular e oportuno, lançando uma luz serena, mas forte e clara, sobre a maneira de ser do povo russo, delirante, fanático e submisso, sempre corajoso até as últimas conseqüências.

Henri Troyat nasceu em Moscou, em 1911, como Lev Tarassov, nome mudado logo que chegou a Paris, em 1917, portanto, com apenas seis anos de idade. Naturalizado, cedo se consagrou a literatura. Foi Prêmio Goncourt em 1938 e é membro da Academia Francesa. Tem uma longa produção literária, variada, que inclui romances isolados, ciclos de romances históricos, biografias, ensaios, crônicas e narrativas diversas. No que toca a biografias, Troyat já publicou as de Dostoievski, Putchkine, Tolstoi, Gogol, Catarina, a Grande, Pedro, o Grande, e Alexandre I, todos personagens influentes nas artes e na história russas.

Sobre Ivan, o Terrível, na imprensa francesa, merece destaque um comentário de Alexei Antonkin, no "Temps-Économi Littéraire":

"Desde a História da Rússia, escrita entre 1816 e 1826, por Nikolai Karamzine, o livro de Henri Troyat é a mais inquestionável contribuição para p esclarecimento do reinado de Ivan, o Terrível. E as comparações com a Rússia de hoje são gritantes".

X   X   X

CARLSO EDUARDO NOVAES é, sem dúvida, o único humorista brasileiro de primeira linha que faz você continuar rindo na segunda, na terceira e assim por diante. E já que é assim, nada melhor do que a notícia da publicação de um livro seu, O País dos Imexíveis, uma nova coletânea de crônicas sobre o cotidiano brasileiro que é, ao mesmo tempo, a mais alegre história dos nossos dias...

Na hora em que todo mundo se mexe, será o Brasil o país dos imexíveis?

Mexe e remexe, estamos aí com mais um Plano em que muitos gostariam de atirar mexericos. Entretanto os mexericos são muitos e os mexeriqueiros e mexeriqueiras não param, melhor dizendo, vivem se mexendo.

E o Brasil? Imexível ou Mexível, escorre aqui pela pena bem humorada do sempre inovador Novaes, coadjuvado, literalmente, pela pena de Vilmar Rodrigues.

Imperdível!

Carlos Eduardo Novaes é o humorista mais diversificado no momento. Seus últimos sucessos têm acontecido na área teatral, onde, além de fazer o texto, ele sobe quase todos os dias ao palco para dar o seu recado. Continua mantendo, porém, uma constante na vida: não deixa de escrever as suas crônicas e delas faz um retrato bem humorado deste Brasil... dos imexíveis.

Este é o décimo-nono livro de Novaes publicado pela Nórdica. E o décimo-terceiro da série: "Histórias dos Nossos (Nossos?) Dias!".


A. Tito Filho, 21/09/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

FUNCIONÁRIO

O funcionalismo público das diversas esferas do Poder no Brasil tem atravessado fases distintas. Deixemos de parte a Colônia, o Império, a chamada República Velha e vejamos o assunto nos tempos que sucederam o movimento que derribou do poder o presidente Washington Luís, a revolução de 1930. Os quadros de serviços administrativos, organizados com número fixado de titulares, eram rigorosamente observados. De vez em quando realizavam-se concursos sérios para preenchimento de vagas. Difícil, nas repartições, que se encontrasse funcionário para escovar urubu, à espera de que os ponteiros marcassem o horário de saída. Realizavam-se dois expedientes. Raras vezes se concediam licenças. No Brasil, porém, a seriedade das leis e dos regulamentos dura pouco. De principio, admitiu-se a interinidade, e dentro em pouco havia mais interinos do que efetivos. Inventaram-se quadros de extranumerários e de servidores extraordinários. Iniciou-se o abarrotamento dos órgãos governamentais. Inventaram-se maneiras de cortejar fêmeas de bonitos predicados físicos. Sim, as mulheres começaram a povoar os órgãos administrativos. Criaram-se autarquias e seguidamente as estatais se estabeleceram. Aboliu-se o concurso. Outras modalidades remuneratórias surgiram, como o pagamento por serviços prestados e o contrato pela Consolidação das Leis do Trabalho, e logo uma legião de celetistas nasceu por todos os cantos e recantos das áreas do governo nos domínios federal, estadual e municipal, autárquico e das empresas estatais. Inchou o funcionalismo público brasileiro, que nos dias que correm não se sabe a quanto chega. Deixou-se de trabalhar. As mulheres se dedicaram a retocar a pintura ou executar trabalho de crochê ou tricô. Breve a fértil imaginação de chefes e subalternos, para melhores ganhos, idealizou e concretizou a prebenda da disposição. O servidor de um organismo passou a servir em outro, com percepção de vencimentos pelos dois. O fato tornou-se uma lucrativa indústria, nos mais variados setores da vida pública. Instituíram-se inúmeros tipos de licença, e proliferam servidores licenciados com base em múltiplos favores legais. As proteções políticas de 1946 a esta parte do calendário nacional entupiram repartições a tal ponto que em alguns setores existem turmas de revezamento: uma turma de cem servidores trabalha num dia, no outro dia espairece, substituída por outros cem que folgam no dia de servi-lo dos primeiros. Chegaria a vez dos feriadões, três ou quatros dias da semana em que o Brasil fecha o serviço público. O soçaite vive à tripa forra. Gente de político bem sucedido, de titular de função importante, de empresário farto de lucros, esposa, mãe, mora, genro, filho, obtém polpudos empregos. O grosso modo do funcionalismo público está constituído de mocinhas e rapazolas de classe média e operária, que percebem ordenados irrisórios, que mal cobrem as despesas do pai pobretão na compra de calçados ordinários e roupas de pano ruim. Pois esses milhares de pobres e humildes servidores de vez em quando padecem as conseqüências das medidas de arrocho que os governos adotam para a cobertura dos déficits orçamentários, resultantes das orgias de viagens nababescas e mordomias injustificáveis.

A crise brasileira é antes de tudo moral, mas os pobres barnabés acabam pagando o pato. A politicalha gerou o empreguismo na alta-roda. Madames de maridos ricos, mulheres importantes, de luxos desmedidos percebem gordas sinecuras como funcionarias fantasmas.

Os vícios e as mazelas da máquina administrativa da União e o cortejo de estatais, dos Estados e dos Municípios não decorrem dos barnabés, porém dos maus exemplos de cima, dos poderosos, dos que exploram o brasileiro por todas as formas e modelos.


A. Tito Filho, 29/08/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

OUTRA VEZ O COMÉRCIO

Os sírios e libaneses assimilaram nossos costumes, hábitos e vivências, e integraram-se na sociedade teresinense, casando-se, multiplicando-se, educando a prole, progredindo pelo trabalho e valorizando o chão que os abrigou fraternalmente.

Dos árabes em geral disse Gustave Le Bon: "Uma grande urbanidade e doçura, uma grande tolerância com os homens e as cousas, a calma e a dignidade em todas as situações e circunstâncias e uma notável moderação de necessidades, tais são os traços característicos de orientais. Sua conformação moral com a vida, tal como ela se apresenta, dotou-os de uma serenidade muito semelhante à ventura, ao passo que as nossas aspirações e necessidades fictícias nos têm levado a nós a um estado de inquietação permanente muito diferente do deles".

Na história do cinema em Teresina muitos nomes são dignos de notar, como Neuman Bluhm, R. Coelho, R. Fontenele, Pedro Silva, José Ommati (sírio) e de Farid Adad, também sírio, que fixou residência em Parnaíba (1919) e ali, com o irmão Miguel, fundou o cinema Éden. Em 1930 esta casa exibidora iniciava a era do filme falado no Piauí. No Teatro 4 de Setembro, Farid estabeleceu o primeiro cinema falado da capital piauiense, inaugurando-o em 23.12.1933. A 25.11.19173, encerraram-se as atividades cinematográficas na velha casa de espetáculos da praça Pedro II. Farid havia falecido no ano anterior. A cidade o conhecia pelo nome de Alfredo Ferreira, casado em primeiras núpcias com Farisa Salim Issa, sua patrícia, de excepcionais virtudes espirituais, falecida em 1938. O casal deixou vários filhos.

Depois de Alfredo Ferreira, outros empresários prosseguiram no trabalho de dotar Teresina de confortáveis cinemas.

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, no Novo Dicionário da Língua Portuguesa, inclui carcamano como brasileirismo. E define a palavra: "Alcunha jocosa que se dá aos italianos em vários Estados; latacho, macarrone". Escreve mais, que no Maranhão vale “a alcunha que se dá aos árabes em geral”. No Ceará, “vendedor ambulante de fazendas e objetos de armarinho”. Antônio Joaquim de Macêdo Soares acentua que carcamano é o "italiano de baixa classe". Nascentes diz apenas que o carcamano corresponde a italiano, mas explica: "Uma etimologia popular diz que o vocábulo vem do conselho de um italiano a um filho que o ajudava na casa de negócios. O filho fazia honestamente a  pesada. O pai, então, quando o equilibrio estava prestes a estabelecer-se, aconselhava: carca la mano (calca a mão). Se non e vero...". F. A.

Pereira da Costa cita o vocábulo na qualidade de italiano, assim chamado. E anota dito do povo de Pernambuco: "Mama em grosso o carcamano, e abusa da bonhomia do povo pernambucano". O saudoso R. Magalhães Júnior explicou: "Denominação pejorativa dada aos imigrantes italianos, em razão das fraudes atribuídas a estes, em suas quitandas e açougues, ao pesarem os alimentos, vendidos a quilo, ajudando a concha da balança a descer com o impulso da mão. De calcar a mão teria surgido a forma italianizada de carcamano, corrente não só no Brasil como na Argentina, onde Juan Ezuista Alberdi a usou, num dos seus livros, que dizia serem reverenciados, nos altares argentinos, alguns santos carcamanos, já ricos e portanto poderosos".

Em Teresina, carcamano sempre designou de modo pejorativo, os árabes. Veja-se o depoimento de Salomão Cahib, médico de nomeada, em discurso de posse na Academia Piauiense de Letras: "Meu pai aqui chegou vindo de uma civilização milenar, duma terra sem horizontes. Ansiava por liberdade. Seu povo estava escravizado e colonizado impiedosamente, levado a servir, sob bandeira de nação odiada, à luta pela grandeza e progresso de seu próprio algoz. Jurou ele que seus filhos não nasceriam colonos, nasceriam livres, numa coletividade generosa e bela, que lhes desse paz e trabalho. Foi assim que veio moço para o Brasil. E para o Piauí, que ajudou e honrou, trabalhando de sol a sol, viajando a pé pelos sertões agrestes, vendendo, aprendendo a língua, fazendo amigos e amando a nova pátria. Aqui se casou.

Naturalizou-se brasileiro. Constituiu família. Nasceram-lhe os filhos. A pátria de seus filhos era a sua pátria".

E logo a seguir: "Guardo da infância despreocupada dos primeiros instantes do convívio com outras crianças do grupo escolar, a observação de uma delas: CARCAMNO NÃO TEM BANDEIRA".

E prosseguiu: "Em casa dei a notícia do acontecimento a meu pai. E ele, com profunda tristeza, explicou-me: A SÍRIA TEM BANDEIRA, MAS ESTÁ OCUPADA POR PAÍSES ESTRANGEIROS".


A. Tito Filho, 22/11/1990, Jornal O Dia

sábado, 28 de janeiro de 2012

QUASE CAPITAL

O primeiro governador do Piauí, militar português, chamou-se João Pereira Caldas. Assumiu o poder a 20 de setembro de 1758, na Vila da Mocha, denominação que por Oeiras, a 13 de novembro ele substituiu de 1961, em homenagem ao conde de Oeiras, que depois seria marquês de Pombal. O governante esteve à frente da administração até 3 de agosto de 1769, quase dez anos.

Os governadores não gostavam da velha capital, situada num terreno seco e estéril, cerca de trinta léguas distante do rio Parnaíba. Cogitou-se da mudança da sede administrativa, a princípio, para São João da Paraíba. Uma lei de 1844 determinou que fosse mudada para a foz do riacho Mulato, no Parnaíba, o que não se verificou. Outros diplomas legais cogitaram do assunto, sem resultado, até que a resolução da Assembléia Provincial 315, de 21 de julho de 1852, sancionada pelo presidente José Antônio Saraiva, transferiu a capital para a Vila Nova do Poti, elevada à categoria de cidade com o nome de Teresina.

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Com a República, o primeiro governo do Piauí foi exercido por uma junta composta de militares e logo depois acrescida de ilustres civis, até que o Deodoro da Fonseca nomeou como governador o notável Gregório Taumaturgo de Azevedo, nascido na cidade piauiense de Barras, militar, engenheiro, bacharel em direito, fundador da Cruz Vermelha Brasileira e que em seguida governaria o Amazonas.

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Taumaturgo veio assumir o governo viajando por Parnaíba, onde povo e autoridades o receberam com festas preparadas por uma comissão de pessoas de prestígio.

A comissão e grande massa popular dirigiram-se ao palacete da hospedagem do governante e a este entregaram mensagem, gravada em seda, com letras douradas, em que se pretendia a mudança da capital para a cidade de Parnaíba. O governador fez promessa solene de atender o pedido, mas foi contrariado por um telegrama urgente de Deodoro da Fonseca que determinou, de modo irrevogável a permanência da capital em Teresina - por esta forma rezam as crônicas da época.

Não encontrei as razões que levaram Deodoro à atitude severa expressa na comunicação telegráfica.

Gregório Taumaturgo de Azevedo, o primeiro governador republicano do Piauí, foi um homem de bem e de honestidade inatacável. Ocupo na Academia Piauiense de Letras a cadeira 29, que tem como patrono. Assumiu o governo a 26 de dezembro de 1889 e deixou-a a 4 de junho de 1890. Caiu do poder em virtude de pressões da politicagem local. Faleceu no Rio, ano de 1921.

Se Deodoro da Fonseca não houvesse adotado a enérgica providência determinada no telegrama, a capital do Piauí seria em Parnaíba. Os teresinenses devem muito ao proclamador da República, o tem homenageado numa das principais praças da capital, a praça Marechal Deodoro, local em que nasceu Teresina, onde se situava o palácio governamental, o primeiro prédio, a igreja do Amparo pelo mestre-de-obras João Isidoro da Silva França, português de nascimento e braço direito do fundador da cidade que lembrou com o nome de imperatriz Teresa Cristina, os tempos do Império brasileiro.


A. Tito Filho, 15/11/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

ALEIJAMENTO

Um dia o governador Dirceu Arcoverde me pediu que fosse conversar com ele no palácio governamental de Carnaque. Pretendia que eu escolhesse dezesseis poemas de Da Costa e Silva para os dezesseis painéis da bonita praça que estava construindo à beira do Parnaíba com o nome do poeta piauiense. Segundo Burle Marx, o notável paisagista, as poesias deveriam ser entendidas pelo povo, pela plebe ignara. Tarefa difícil. Tive que reduzir alguns, com o aproveitamento do essencial. O projetista citado sugeriu que houvesse uma espécie de seqüência racional nas concepções do escritor. Assim comecei com os poemas de fé, passei ao amor materno, à terra natal, aos cenários piauienses e à saudade, quando Da Costa e Silva se encontra em Recife. E ainda, de ordem do governador, viajei à capital pernambucana para a confecção dos painéis em que se inscreveram as poesias.

Praça de grande beleza, com o coretinho dos tempos antigos. Hoje, o recanto está transformado em motel ou bordel, casais nus embaixo dos céus e a veadagem campeando solta.

A praça Rio Branco, o antigo jardim em que as famílias passeavam de noite, reformada por um prefeito sério nos idos de 1936, Francisco do Rego Monteiro, passou a mercado público, suja, maltratada, nódoa na cidade mutilada. De modo semelhante se vê a praça João Luís Ferreira, onde se vendem panelada e outras iguarias. Nenhum resquício de higiene nesses restaurantes populares. Que se fez da praça de Dom Pedro II, outrora tão plena de romantismo, em que as garotas se entregavam ao gostoso namoro dos olhos com os jovens casadoiros? O logradouro de tantas recordações expressivas transformou-se [em] campo de homossexuais e de viciados na cachaça e na droga, espetáculo de degradação e amoralização. A praça Demóstenes Avelino se encontra deturpada, com um prédio no centro, dito Frigorifico do Piauí, de propriedade de empresa particular. Criou-se uma prainha, ao longo da avenida Maranhão, cenário de constantes crimes de agressão e morte.

O abandono das atividades agrícolas e da pecuária fez que milhares de piauienses, machos, fêmeas e numerosa prole deixassem o campo em busca de empregos inexistentes ou biscates humilhantes, e cada dia aumenta a legião dos famintos e das garotinhas de 12 a 15 anos entregues À prostituição nas favelas que cercam a cidade que José Antônio Saraiva Fundou tranqüila, pitoresca e afetiva. Áreas rurais desabitadas e Teresina crescendo fisicamente de modo alarmante o que gera conflitos com os donos de terra e mais do que tudo promove a favelização da cidade, cercada de conjuntos habitacionais desumanos, num sistema de promiscuidade que fere a personalidade dos que vivem nessas casas miseráveis e vendidas por preços exorbitantes.

Teresina vale uma cidade violenta, deseducada, de milhares de indivíduos andrajosos, em que ainda se usam sentinas de buraco e milhares moram em casa de taipa em convívio com BARREIROS, os da moléstia de Chagas. Alguma percentagem pequeníssima vive a tripa forra, em gritante afrontamento aos miseráveis que enxameiam por todos os lados. O desnível da renda individual espanta, enraivece, pela brutalidade das diferenças. Enquanto deputado e desembargador, cada qual ganha mais de milhão, milhares de filhos da pátria não chegam a quatro mil cruzeiros mensais. Brutal o confronto. Não cabe dúvida: Teresina corresponde a uma sociedade doente, perversa, porque injusta e insensível.


A. Tito Filho, 11/11/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

FAVELIZAÇÃO

Dezenas de cidades brasileiras do interior serão fantasmas dentro em alguns anos, pois as respectivas populações diminuem, cada dia. Famílias inteiras buscam grandes centros de agitada vida social, surgindo as megalópoles, sempre despreparadas quanto a planejamento para que possam abrigar, em pouco tempo, milhares de novos habitantes. Típico o exemplo de Brasília. Nacional o problema de inchação demográfica, sobretudo nas capitais, em que o espaço urbano se torna angustiado para veículos fumacentos e pessoas perambulantes e ociosas, que, ao deus-dará, secam mais ainda cambitos, fisionomias cansadas, em busca do nada. Nos grandes centros populacionais brasileiros prevalecem os espigões ou arranha-céus sem conforto e sem segurança para os afortunados. Nos bairros residenciais há o exibicionismo das mansões de muitos quartos, terraços e banheiros.

Trata-se do luxo ostentatório, ao lado de casebres de taipa, de palha, com privadas de buraco. São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza, Teresina e outras, tornaram-se, em três ou quatro décadas, inabitáveis, por efeito de criminosa especulação imobiliária e da fuga de milhares das cidadezinhas e povoados interioranos a procura de emprego - todos fugindo da fome e da exploração a que se submetem, sem terra, sem alimento e já agora sem os coronéis, substituídos pelos doutores do society da cidade grande, que se elegem com o dinheiro dos pais milionários ou da herança, e assumem compromissos apenas com a clientela familiar ou com os amigos do peito. Os eleitores de cabestro conseguem, quando muito, a bóia e o transporte no dia da eleição. As megalópoles crescem do nascer do sol até de madrugada, rodoviárias a despejar pais e filhos chegados das quase cidades do interior. A vida de fazenda e dessas comunidadezinhas só existe por causa da televisão convocadora para o sexo fácil e o luxo fantasioso das superpovoadas coletividades nacionais. O dono dos bois aufere os lucros esparramado no macio conforto duma sala de estar, com serviço de bebidas alcoólicas ao lado. Aos contingentes de párias - apetite embotado por descostume de comer, meninos de pança inchada, olhos remelentos, mulheres de 20 anos semelhando 40, pai escaveirado, mãe desdentada e de ossos chupados por força de tanto parir - se reservam as favelinhas que eles improvisam em terrenos alheios, as áreas debaixo das pontes sobre rios, ou as afrontosas casas vendidas pelo Banco Nacional de Habitação, verdadeiro sorvedouro dos ínfimos ganhos desses pobres diabos, que o capitalismo apelida de filhos de Deus. Surgem, assim, os conjuntos habitacionais - milhares de casinholas, todas do mesmo jeito, em que se alojam famílias de cinco ou mais pessoas, e dentro nelas se fabrica mais gente. Com o tempo, esses pombais se vão enriquecendo de biroscas, prostíbulos, de venda de tóxicos, de freges. Meninas de 10, 12 anos são exploradas e iniciam a vida sexual antes que possam conceber no ventre um filho de pai desconhecido. Nas residências, a  promiscuidade - casais em cenas de relações íntimas na presença da filharada boquiaberta com o espetáculo. Teresina não foge a regra. Os conjuntos habitacionais espalhados pelos subúrbios, feiosos, emprestam à cidade panorama urbanístico condenável e alguns felizardos enriqueceram da noite para o dia, como um passe de mágica, com a venda de terrenos para a construção desses ajuntamentos, em cujas casinholas não se distinguem cozinha, dormitórios e sanitários. São milhares de pombais, por toda parte. Sejam cinco pessoas em cada qual, com a estimativa de duzentos mil moradores, quase a metade da população da capital do Piauí. Raros os empregos na área de moradia. O raquítico salário mínimo do trabalhador, quando arranja emprego, mal dá o transporte. Até quando, no Brasil, o homem sofre tanto? As sociedades doentes assim se apresentam: filhos de Deus, milhões de enteados dele, filhos da injustiça social.


A. Tito Filho, 08/08/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

POLUIÇÃO VISUAL

Faz alguns anos fiz apelo ao prefeito de Teresina, não me recordo quem na época desempenhava o cargo, no sentido de que não fosse permitida a colocação de faixas de anúncios indicativos de casas comerciais ou escritórios, de tabuletas de propaganda e de outros tipos de aviso, sem que antes houvesse a aprovação da autoridade para tal fim designada. E transcrevi expressões copiadas de anúncios e cartazes com evidentes desobediências a princípios ortográficos e até solecismos condenáveis e erros crassos que tanto depunham contra a educação cultural do teresinense. Indiquei algumas dessas estapafúrdias escrituras: BORRAXEIRO, RESTAURANTE FÁLASE OTEL e tantos mais. Não obtive providência alguma e a cousa ficou pior.

Agora, o Dr. Moacir Fernandes de Godoy, cardiologista de ciência e de ilustração, me propicia a satisfação de censurar vergonhosa construção de nossa língua, no centro da cidade, tornando mais pobre a inteligência de um povo digno de melhor sorte.

EDUCAR É PRECISO - eis o trabalho cívico desse médico preocupado com a triste ignorância que avilta a língua pátria, a seguir transcrito.

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O Professor William J. Bennet, doutor em Filosofia pela Universidade do Texas, questionado sobre a finalidade da educação, afirmou que ela é a maneira pela qual a civilização se sustenta”. E complementou: “Não nascemos com instintos para a civilização. Não entramos no mundo dos alfabetizados ou conhecedores da diferença entre o certo e o errado. A educação, ou seja, a tarefa educativa de pais, professores e da sociedade como um todo, é o modo pelo qual cada nova geração se transforma em uma geração adulta de homens e mulheres”.

Fica claro, do acima exposto, o importante papel a ser desempenhado não só pelos professores ou pelos pais, como também a obrigação que a sociedade tem como um todo de contribuir para formação educacional dos indivíduos. Esse esforço conjunto recebe um destaque ainda maior quando, compulsadas as estatísticas, verificamos que o Brasil situa-se em uma incômoda posição em termos de analfabetismo. Assim é que os dados demográficos de 1980 indicavam a existência de 51% de analfabetos no País. Por aquela época ocupávamos um sofrível septuagésimo sétimo lugar em nível educacional de acordo com dados da UNESCO. Em termos regionais e mais recentes, sabe-se que o Piauí detém o índice recorde de analfabetismo no Brasil, com a alarmante taxa de 55%. O próximo censo, infelizmente, não deverá mostrar modificações para melhor.

Nós os privilegiados, que conseguimos escapar deste estigma cruel, não podemos nos enclausurar voltando as costas aos desfavorecidos. Ao contrário, devemos aproveitar todas as oportunidades para tentar diminuir as diferenças atuando como educadores mesmo onde não pareça haver espaço para tanto.

Refiro-me agora ao assunto propriamente dito, motivos destes breves comentários. Tenho observado com freqüência (e fotografado), nas faixas penduradas pela cidade, erros gramaticais grosseiros, que depõem contra os que as produziram ou solicitaram, mas, acima de tudo, causam um extremo desserviço, já que sendo públicas podem induzir aos menos preparados considerá-las como corretas. Uma dessas faixas, porém, causou-me especial mal-estar por ser alusiva a um evento médico e em sendo médico senti-me responsável também pelo grave equívoco ali perpretado.

Lá esta ela, em local estratégico, na Avenida Miguel Rosa, quase em frente ao Corpo de Bombeiros e bem próxima a duas escolas de primeiro grau, informando em letras garrafais que os Congressistas eram "BEM VINDO" ao I Simpósio de "SIRURGIA"... e outros dizeres que não vêm ao caso no momento.

A falha na flexão numeral e a falta do hífen são erros menores, perdoáveis até, embora não justificados uma vez que a responsabilidade pela faixa é, no caso, de indivíduos com grau universitário e, pelo que se supõe do assunto, com nível de especialização. Já a palavra cirurgia com "S" fere pelo grotesco e não pode passar nem como lapso de quem a produziu.

Entende-se que obviamente não foram os médicos os que diretamente erraram mas era imperativo a existência de um responsável pela revisão a fim de que o nome da Instituição não ficasse exposto ao ridículo. Aliás, minha sugestão é a de que a Prefeitura de Teresina, através de sua Secretaria de Educação, mantenha uma comissão encarregada de analisar as faixas que são espalhadas pela cidade a fim de que erros de tal natureza não tornem a acontecer.


A. Tito Filho, 04/09/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

PATOLOGIA SOCIAL

As tevês brasileiras oferecem aos estudiosos os melhores tipos de antropologia criminal. Liguem-se esses aparelhozinhos infernais e observe-se o desfile dos anormais de todos os tipos: adúlteros, falsários, sedutores, trampolineiros, incestuosos e ainda os criminosos políticos, cada qual metido nas infucas da roubalheira cartorial, na legislação casuística, na entrega do Brasil às multinacionais por alguns dólares sujos. Em moda, o seqüestro, fabricante de heróis, o seqüestrado e o seqüestrador.

Byron, Balzac, Galdoni haveriam de banquetear-se com o noticiário das tevês nacionais, para a criação de novos tipos lendários.

Vejam-se os quadros a uma assistência já em estado de neurose e psicose permanente: quedas de avião, choques de trem, desastres e mais desastres de veículos, tráfico de drogas, assaltos a bancos, ação de justiceiros, as rotas de cocaína, contrato de homicídio, estupros, vinganças torpes, roubalheiras, maracutaias, mortes nos hospitais, quadrilheiros, pistoleiros, incêndios, autoridades metidas a sério em entrevistas emprenhadas de asnices. No mais, o maluco roquinirol dos norte-americanos, ou a lambada de calcinhas de fora, a inflação, o sofrimento dos aposentados.

As nossas tevês ofereceram quadros de assassinatos, como na tragédia grega. Vera Fischer já fez uma Jocasta industrial. As obras de Eurípedes, Ésquilo, Corneille estão vivas nos malditos aparelhos de imagem e de som, verdadeiras minas de riqueza inextinguível. A leitura de Os Bandidos de Schiller revela muitas personificações de criminosos que aparecem nas fábricas televisivas de crimes e devassidões.

O dilema darwiniano foi muito bem revelado na fórmula de d'Annunzio para os múltiplos aspectos da sociedade injusta e irresponsável: renovar-se ou morrer.

As tevês nacionais, nos seus noticiários, sem que os seus proprietários desejem, mostram que o corpo social brasileiro se encontra doente. Poucos os gozadores, milhões de sofredores. Ou se renova ou os seus princípios brevemente se varrerão por virtude do protesto das massas. Leiam Zola, em O Germinal, a viva descrição do proletariado aspirando à luz, depois de sofrer durante séculos. Descreve o genial francês a descarga fulminante de eletricidade acumulada em operários em greve. Cenas violentas. E matam, e mutilam os cadáveres dos opressores. No caso, a arte literária, antes da ciência, refletiu a verdade pura e simples de uma massa de grevistas desnorteada pelos sofrimentos.

A tevê brasileira glorifica criminosos vulgares, doentes, criminosos loucos, psicopatas, quando lhes concede a maior parte dos programas noticiosos e com rispidez esquece as vítimas.

A injustiça social, desumana, perversa, se revela. O empresário que paga vinte e cinco milhões de dólares de resgate não explica como ganhou tanto dinheiro, mas não se pode negar que o acumulou com a exploração da fome dos miseráveis, que vegetam por toda parte, escondendo terríveis dramas da fome dos filhos, de resistência debaixo das pontes, de doença que não se trata. É necessário que todos se voltem para a multidão dos desgraçados. O egoísmo alimenta os ricos que se entregam ao ócio e à dissipação, estróinas que são com o luxo e o culto das amantes. Só os desequilibrados conseguem viver do EU. O Brasil está repleto de criminosos: os de colarinho e os descamisados.

Mal alimentado, sujo, doente, pervertido de maus exemplos, o pobre grita. As crianças ignoram a alegria. O pagamento ao operário equipara este ao escravo.

Piedade e justiça, meus senhores. Maiores crimes do que os apresentados na tevê brasileira é o crime da terrível condenação à dor, à miséria, ao opróbrio.


A. Tito Filho, 29/07/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O CRIME

De primeiro matava-se o sujeito que deflorava a moça-donzela e não queria reparar a dívida. Às vezes o pai da menina dava preferência à castração do indivíduo. Por causa dessas vinganças, provocaram-se lutas de clãs familiares, que se dizimavam. Também o marido enganado matava e continua a matar a mulher adúltera e vice-versa. Surgiu a violência rural de Lampião, Antônio Silvino e outros fora-da-lei que vingavam crimes policiais, Antônio Conselheiro fundou o império de Canudos para defesa de trabalhadores explorados pelos coronéis do cacau.

Ninguém mais segura a violência. Nestes atormentados anos da revolução de 1964 até os dias deste quase final da década de 90, prossegue a luta sem alma, agora entre latifundiários e pobres homens que querem os frutos do trabalho na terra. Institui-se o seqüestro de autoridades, para que se soltassem presos políticos, e de crianças e ricaços, para os lucros do resgate. Nos centros urbanos populosos, roubam-se bancos e empresas para o gozo de gordas fatias financeiras e assaltam-se pessoas e casais para despojá-los de jóias e dinheiros ou a posse carnal da mulher. Chegaria a era do pistoleiro sob contrato para a eliminação de inimigos ou de sócios inconvenientes - estes a fim de proporcionarem riqueza fácil aos mandantes e aqueles para o exercício da vendetta, o crime-cão, o crime-sujo efetuado por tipos que ao menos conhecem a vítima.

Quais as sementes de tanta violência, do ódio, como das ambições vulgares?

Neste atribulado fim de século o homem vive sufocado por pressões de toda natureza, daí a agressividade e os atos anti-sociais. Promove-se o crime no jornalismo pela glorificação dos criminosos aos quais se transmite autoconfiança na conduta violenta. A TV projeta durante horas, dia por dia, as imagens de um mundo perigoso e de um cenário irreal de bens materiais inacessíveis mandando mensagens de conteúdo violento e sexual, e o seu objetivo está em função do consumo ameaçando a cultura. Para todos revela-se o ambiente familiar em desintegração. Tornou-se a droga o elemento encorajador do crime. Os magnatas, os barões do dinheiro têm tudo - mesa farta, bacanais do álcool e prostitutas de luxo, carros do último modelo, viagens nababescas aos centros do turismo internacional, e os miseráveis [que] se conformem com a fome, a habitação desumana, a nudez e a ignorância dos filhos. Nas esferas oficiais, verificam-se os exemplos malsãos de fingimento, das mordomias, dos planos cruzados gerando a desconfiança, do fisiologismo dos políticos sem crédito, a impunidade dos imensos roubos na causa pública.

As cidades turísticas constituem antro de vícios. As suas praias representam centros de prostituição alta e baixa. Os nababos saem do Rio de Janeiro com mariposas alugadas de Paris.

Neste ambiente de vícios e de negação de valores morais e espirituais da falsa cultura brasileira de hoje, do jornalismo sensacionalista, a TV comercializante e forte no prestígio e empresários desalmados, nesse mundo perverso vive o brasileiro, cercado de frustrações por todos os lados - frustrados e sem fé, o brasileiro do salário-mínimo, cujos sindicatos de classe não têm independência ao menos para o protesto, quanto mais para negociar o trabalho e o seu pagamento digno.

Gilberto Freyre contou que os muros antigos tinham cascos de vidros para evitar o roubo de donzelas. Hoje as casas dos magnatas, nos bairros das cidades grandes, têm muros de 3 metros para que se evitem assaltos e assassinatos.

As raízes da violência são visíveis. Até quando elas desafiam a inteligência dos perversos, que negam a justiça social?


A. Tito Filho, 15/08/1990, Jornal O Dia