Quer ler este texto em PDF?

Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crônica. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

AINDA O MENOR

Condena-se de modo unânime o Estado brasileiro e a sociedade pela triste situação em que se encontram, por toda parte, meninos e adolescentes, abandonados à própria sorte, sem afeto, famélicos, dormindo ao relento, na prática do furto e da violência. O Brasil se divide entre pobres e ricos - estes uma minoria privilegiada, aqueles a quase totalidade, representados por certa classe média proletarizada e pelo operariado sob regime de permanente exploração. Na cúpula as lideranças representativas do governo. Compraz-se a minoria nas viagens de turismo, nas orgias de uísque e sexo, nas vestes milionárias para a futilidade vaidosa, nas recepções nababescas dos casamentos e dos aniversários de luxo, com o desperdício de milhões e milhões de dinheiros. De seu lado, o governo sustenta mordomias, dissipa nos banquetes, na profusão dos gastos com autoridades e familiares e nos maus exemplos da corrupção, do nepotismo e da impunidade. A televisão, instrumento em poder de empresas privadas a serviço de poderosos grupos econômicos e políticos, tem o objetivo fundamental da dissolução dos costumes morais e da vida espiritual, por através das cenas de adultério, de alcoolismo, de filhos esbofeteando e xingando pais, de devassidão nos gestos e nos trajes; ou tem a meta de provocar o medo e a angustia, mostrando crimes nefandos, estupros, desastres, deformações físicas, incêndios, quebra-quebra, a fim de que todos se desinteressem pelos tristíssimos problemas de um país explorado de todas as formas; e ainda tem o jornalismo televisado, como processo de propaganda, a filosofia de fazer que o brasileiro gaste ou a deturpação cultural pela linguagem malferida ou pelo culto no NU. Mas a televisão esconde a realidade da família miserável, da mendicância, da escola desaparelhada, de inescrúpulo de bancos insaciáveis, da comercialização do ensino, da prostituição desenfreada, de homossexuais nas altas e baixas esferas sociais. Em meio à degradação quase generalizada, a criança, o adolescente e o jovem, todos sem horizonte, sem teto, sem roupa, sem instrução, sem afeto, - e a eles os maus exemplos, os tristes exemplos dos que deveriam educá-los para a vida. Estas as razões veementes que condenam, no caso, a sociedade dos homens, mal organizada e sem justiça social, e condenam o governo, em todas as suas esferas, cujos chefes as mais das vezes se conduzem por enervantes personalidades e reprováveis omissões. A vida familiar se encontra em dissolução. Pais e filhos mal se cumprimentam no recesso dos lares. Maridos e esposas vivem na rua, rebentos também, ou em torno das lições novelescas televisadas, nos chamados horários nobres. Nada se lê senão tolices. Não se estudam fatores culturais. Tudo se negocia, até a honra. Loucos são os que pregam no deserto. Salvar o menor é, antes de tudo, dignificar a família, concedendo-se a esta as condições para auferir os bens essenciais da vida - a habitação humana, a educação, a alimentação, o trabalho valorizado, o lazer decente, a renda justa, como queria e do jeito que ensinou o santo padre João XXIII.


A. Tito Filho, 07/08/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

DESFILE DE MAMAS

Escrevi num livrinho humilde, a que dei o título de Sermões aos Paixes, que por toda parte se estampam mulheres seminuas, quase nuas, nádegas descobertas, seios perfumantes à custa de látex. A propaganda necessita de ser olhada, por através do erotismo cientificamente dirigido. Consegue-se a sexualização dos sentidos depois das lambadas, meninas de saias rodopiantes para que revele o fundilho das calcinhas quase desaparecido entre locais que antigamente se diriam pudibundos.

Os norte-americanos, sempre sabidos, instituíram os concursos de misses e contagiaram a América Latina dessas competições para escolha da mais bela estudante, da garota fotogênica, da misse praia, da misse universo, da misse mundo e outros espetáculos de desnudamento, para lucros fabulosos. E a cupidez dos assistentes masculinos estrondaria em palmas demoradas de exaltação do nu.

Em Teresina, o soçaite ocioso e fútil inauguraria o desfile para escolha do veado mais apetitoso, numa noite de triste memória. A platéia delirava e batia palmas ensurdecedoras. Os homossexuais masculinos, brinquinho nas orelhas, peças íntimas femininas, sutians nos seios de silicone, desfilavam na passarela enorme, sob os fortes focos de luz das televisões. Era a glória terrena conquistada à custa da sexualidade anormal. Garotos na assistência recebiam o exemplo consagrador e se conscientizavam de que não havia necessidade de estudo para educar a inteligência e alcançar posições de merecimento na sociedade. Muito simplesmente o triunfo se alcança por meios mais simples, justamente por através de posições invertidas.

Viva o soçaite que vibra nesses espetáculos de sordidez. A novela faz o resto, num palco em que as cenas de sexo televisadas fazem a alegria maior de um povo deseducado para as responsabilidades da vida.

Não se viam na outrora tranqüila e carinhosa Teresina os beijos cinematográficos no meio das praças, as garotas de seios artificiais por baixo de blusinhas transparentes, o biquíni de chumaços com forros traseiros. Já agora se criou o processo de premiar a menina que, num desfile, apresenta as mamas mais salientes, mais empinadas, mais provocadoras de erotização dos sentidos de assistência masculina, ébria do espetáculo de depravação e falta de pudor. Sabe-se que o espetáculo de luxuria se passou no Parque Piauí e que as garotas do espetáculo andavam pela faixa dos 12-15 anos rodeadas de machacás tarados.

Tenho escrito durante anos que a televisão brasileira nada se preocupa com a educação da juventude. Muito fácil, pois, que se copiem os seus exemplos, explorando a nudez de meninotas menores para o ganho do dinheiro fácil.

Teresina transformou-se na capital do vício e do desregramento moral. Brevemente haverá o desfile de sapatões, homossexuais femininos merecedores de melhor sorte ao lado de homens de verdade.


A. Tito Filho, 22/09/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

VIOLÊNCIA

Jornais, rádios, televisões vivem hoje do noticiário da violência, e cada época teve o seu tipo de violência, na Roma dos Césares como no Itararé de Teresina. Adolescente, morei em Teresina e na mocidade passei uns oito anos fora daqui, em Fortaleza e Rio. Andava pelas ruas sozinho, de madrugada, e jamais encontrei quem me assaltasse.

Ainda em 1970, passei a residir no distante bairro de São Cristovão da capital piauiense. Haroldo Borges me havia conseguido um carro velho, marca Esplanada, com uma das vendedoras de veículos. Às vezes o automóvel me deixava na rua, noite grande, e eu retornava a casa com os pés da locomoção própria. Vendi a porcaria por umas patacas. Pouquíssimos ônibus. Eu fazia um programa de rádio na Difusora das 22 às 23 horas e caminhava o longo percurso de retorno ao lar. Jamais encontrei quem me filasse um cigarro.

Não desconhecia a violência política do submundo ditatorial. Li-a em livros que se tornaram célebres. Os porões da ditadura de Vargas, com o bárbaro Filinto Muller, guardam cadáveres, homens mutilados, baixezas sem conta de uma polícia treinada para impor sofrimento ao semelhante. O nosso Celso Pinheiro Filho apanhou tanto nesses subterrâneos de crimes animalescos que perdeu o uso das pernas. Assassinos perversos.

Chegaria 1964. De novo a sangueira nojenta de certas autoridades de lama. Mataram-se jornalistas e operários. Era a sanha do eunuguismo moral.

As práticas da violência, porém, se escondiam. As vítimas desapareciam simplesmente, e os carrascos infames se intitulavam salvadores da pátria amada. Mas a violência chegaria, como chegou, a ser praticada à luz do sol, à boca da noite, a qualquer momento. O reino atual da vingança contra os que se tornaram surdos aos clamores dos perseguidos, dos injustiçados, dos que a política nefasta abandona de modo desumano.

Contra quem se pratica hoje a violência? Contra os engravatados que roubam às escâncaras, contra os que, munidos de prestígio político, tomam a propriedade alheia, estupram pobres mocinhas interioranas, enganam, ludibriam, demitem, negam a cada um o que é seu. Vivem na opulência, ganham milhões diariamente, humilham, riem da miséria alheia, num soçaite fútil e ocioso. Quem está padecendo a violência? O empresariado sem alma, orgulhoso, cheio de empáfia, ignorante, que esquece os deveres sociais e a pregação cristã dos papas e cada vez mais se enternecem da dinheirama mal adquirida.

Observe-se o seqüestro. Sou contra o processo, sobretudo quando se submete o seqüestrado a vexames físicos, morais e psicológicos. Para adquirir a liberdade, quanto paga esse tipo de refém pelo dinheiro pedido? Milhões em dólares. Donde vem essa quantia? Das burras abarrotadas de pelegas estrangeiras fornecidas pelo Banco Central do Brasil.

E jornais, rádios, televisões, quando se liberta o indivíduo, sustentam a propaganda do HERÓI pelo menos durante uma semana.

Faz poucos dias, seqüestraram um garotinho. Os seqüestradores pediram até pouco, uns 500 mil doentes. A mãe do menino fez apelo, não tinha dinheiro, implorou a devolução do filho. Nenhum empresário de milhões se mexeu para ajudá-la.

Só se vê violência no seqüestro dos biliardários. Sim. E a violência da fome de milhões, dos milhões sem teto, dos milhões de analfabetos, dos milhões de doentes sem socorro, dos milhões de menores abandonados, dos milhões de esfarrapados, rotos e maltrapilhos?


A. Tito Filho, 25/07/1990, Jornal O Dia

TERESINA

Vejo-a sem a minha infância, sem os dias queridos que não voltam mais, as saudades provocando nó na garganta, um choro que não consola. Sem o CaiNágua, o cabaré das garotas de segunda classe, perto do Parnaíba, que os meus olhos de adolescente desejavam, mas os cânones da época proibiam. Sem os circos, na praça Deodoro, grandões, palhaços engraçados, ameaçando as velhotas atiradas com o troncudo pedaço de macaxeira. Na frente do imenso toldo, dezenas de bancas, na venda de frutas descascadas, refresco, sorvete de gelo rapado e mel de fruta, gostoso como o diabo, frito de carne de porco, beiju salpicado de farelo de coco. No calor das tardes, máquinas equilibradas na rodilha da cabeça, com a manivela de rodar e fabricar o melhor sorvete do mundo, o caboclo, alpargata chiadeira, passeava as ruas, a vender a guloseima.

Vejo-a sem o pega-pinto gelado, que a gente ia comprar, oito da noite, na jarra, uns oito copos, para a família à espera na roda da calçada. Sem o Doutor, dono de frege, estabelecimento modesto, mesinhas sem toalhas, pimenta malagueta danada, cachorros gafentos e famintos à espera do osso que o freguês alisara, depois de engolir tripa e bucho - a panelada da cidade, a cinqüenta metros da praça Rio Branco. Sem o Bar Carvalho, de elite, vendia cafezinho, chocolate com ovo e sem ele, sobretudo o filé de grelha, enfeitado de ervilha, azeitona, alface e farofa. Manjar dos deuses, do cozinheiro espanhol Gumercindo, um mágico em comedorias.

Vejo-a sem o alarido das pipiras tentadoras - as mocinhas pobres empregadas da Companhia de Fiação e Tecidos Piauiense, ruído de máquinas o dia todo. As garotas, vestidinhas de chita, merendavam banana, daí o apelido que a crônica registra.

Vejo-a sem a presença de Celso Pinheiro, poeta e tuberculoso, fatiota branca engomada e reluzente, chapéu de palhinha, gravata borboleta... irreverente...; sem Higino Cunha, mestre verdadeiro, a caminhar pelas vias públicas, aqui e ali o trago de bebida destilada...; sem Pedro Brito, calças velhas de mescla, cornimboque de rapé nos bolsos largos, suado, a ironizar homens importantes...

Vejo-a sem as funcionárias domésticas, mocinhas morenas, que o povo denominava curicas, porque recebiam o prato de comida no peitoril da residência... Caboclinhas de pé de esquina, na cidade pouco iluminada... Sempre perdiam o cabaço para o filho-família, o moço dengado.

Vejo-a sem o cabaré da Raimundinha, alegre, as meninas de vestido abaixo do joelho, cada qual com a sua alcova de deitar com quantos machos obtivessem na noite comprida... Tiravam a roupa de luz apagada... Que Tempo!

Vejo-a sem as pracinhas de donzelas faceiras, que rodavam num sentido, os gajos em sentido contrário no fascinante namoro de olhos... No cinema, o casal se dava o gosto da bolinação... Namoro de mão nos peitinhos arrebitados...

Vejo-a sem o símbolo que foi a Maria Préa, mulata boa de cama, com estudante de bolso vazio ou desembargador de prestígio firmado.

Hoje, vejo-a urbanizada de pombais, ou casinholas habitadas do êxodo interiorano; povoada de veados de luxo ou simples viciados na inversão dos locais de prazer; vejo-a na falsa convivência dos coquetéis, das uiscadas e das festas de caridade; vejo-a no comércio com o nascimento de Jesus e com as mães, merecedoras pelo menos de um pouco de respeito; vejo-a despudorada, meninas ricas sem roupa, por deboche, meninas pobres do mesmo jeito por miséria. Vejo-a uma imensa putaria de homens e mulheres, com as devidas exceções; Vejo-a violenta, estúpida, deseducada - tipos debaixo-da-ponte, alguns felizardos da vida ociosa à custa de golpes e falcatruas e outros tantos no repasto oficial da República sem freios.

Vejo-a sem futuro, sem esperança, mas ainda creio no resto do otimismo que me sustenta os olhos sofridos da saudade dos tempos que não voltam mais...


A. Tito Filho, 19/08/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CRUELDADE

Theo Gigas, na crônica Touradas - Uma Crueldade Inútil, escreveu: "Não existe um só argumento que justifique tamanha monstruosidade, que nada tem de esportivo ou de artístico. A única arte consiste na exploração de pessoas que gozam com volúpia o espetáculo de tortura e morte".

Muitos escritores têm descrito e estudado o espetáculo das touradas espanholas, que se realizam principalmente na Praça de Touros, em Madri, todos os domingos - um imenso anfiteatro de estilo mourisco, luxuoso, original. A festa recebe o nome de corridas de touros. Em cada corrida se matam seis touros, dois para cada toureiro.

Fonseca Fernandes assistiu a um desses espetáculos e o descreve nas suas diversas fases. A primeira é a de excitação do animal, quando surge o picador montado a cavalo e que, munido de longa vara, submete o animal a uma tortura de picadas: "O picador arremata com a puya, triângulo de ferro que fustiga as espáduas do touro". Vem a segunda fase, a das banderillas, também excitadora. Homens de pé espetam, com agilidade, no animal banderillas coloridas "na mesma região fustigada anteriormente pelo picador". A última fase corresponde à muerte. Vem o toureiro, que dispõe de quinze minutos para a luta. Se o matador não cumpriu a missão, o touro volta ao curral e o toureiro toma extraordinária vaia. O touro morto também é vaiado. "O espanhol vaia sempre, manifestando alegria por qualquer dos resultados. Inclusive quando o touro mata o toureiro".

Existem os museus de toureiros, em que se guardam cabeças de animais, espadas, roupas. Num deles, figura retrato a óleo de Manolete, Manuel Rodriguez Sanchez, herói nacional de touradas, de carreira fabulosa, morto pelo touro "Isleno", em 1947. Tinha 30 anos o ídolo de Espanha.

O sacerdote Luciano Duarte admite que nesses espetáculos se vê sobremodo o aspecto de selvageria, na seguinte descrição: "O touro está fatigado e ofegante. Escorre-lhe o sangue abundantemente. O toureiro se aproxima de frente, para enterrar a espada. Momento perigoso. O touro agora está com as duas patas dianteiras paralelas. É o momento azado, pois esta posição permitirá que a espada se enterre até os copos, pouco adiante do pescoço do animal. O toureiro avança e tenta o golpe. A espada se afunda e fica enterrada, o povo aplaude delirantemente e grita olé, e o touro bambeia nas pernas inseguras, para logo cair morto".

Num romance célebre, "A Serpente Emplumada", Lawrence mostra com maestria esse "espetáculo de sangue e tripas". Urros do povo. Glória e emoção.

Como se explica o fenômeno?

Luciano Duarte adverte que a tourada, para o espanhol, é um espetáculo de arte: "Um balé em que o homem enfrenta o touro, em que a inteligência desafia a força bruta e vencerá". E o ilustrado escritor vai adiante, vendo na Espanha das touradas "restos de sangue mouro em efervescência, descarga do instinto de agressividade".

Por que esses homens se dedicam a tão cruel e desumano esporte? - pergunta Fonseca Fernandes. E explica: "Existe neles uma verdadeira adoração por esse gênero de exibição. Em touradas cultivam-se a destreza e a intrepidez das mais fortes emoções, nelas há todo um ritual de elegância perfeitamente enquadrado na vida do espanhol".

Os espanhóis, aliás, dizem que, como animal, o touro "teria de morrer de qualquer maneira; na praça mostra suas qualidades guerreiras e morre heroicamente". Ou mata - deveriam acrescentar.

As touradas foram vistas por Victor Hugo: "Em todas as corridas de touros aparecem três feras que são o touro, o toureiro e o público. O grau de brutalidade de cada um desses brutos pode-se calcular pelo seguinte: o touro é obrigado, o toureiro obriga-se, o público assiste por um ato espontâneo de sua graduação: o touro provocado defende-se; o toureiro, fiel ao seu compromisso, toureiro; o público diverte-se. No touro há força e instinto; no toureiro, valor e destreza; no público não há senão brutalidade".


A. Tito Filho, 06/04/1990, Jornal O Dia

sábado, 17 de dezembro de 2011

TERESINA - LOUVAÇÃO

A cidade alcançou progresso em todos os setores. Antes de tudo tranqüila e afetiva. Vale um beijo quente de fraternidade. Manhãs e tardes coloridas. Corações alegres. Gente que gosta da humanidade, recitando o poema da convivência irmã. As suas noites são de amor. Nos bancos das pracinhas de encanto, pares agarradinhos, arrulhando afeto, cheirando-se, mordendo, polícia distante, gente que passa fazendo que não vê. Juca Chaves disse no Rio de Janeiro: "Se peito fosse buzina, ninguém dormia em Teresina".

As mulheres teresinenses são as mais carinhosas destes brasis. E criaram a linguagem dos olhos para a revelação do sublime sentimento do amor. Elas têm olhos de querer e de não-querer.

Vem brasileiro, irmão de outras paisagens, TERESINAR, um verbo doce, expressivo, que se reza com carinho. O centro é uma festa permanente. Da praça Rio Branco, coração comercial da cidade, parte-se para o Parque da Bandeira, bem cuidado, convite ao descanso. além o rio Parnaíba, o velho monge de barbas brancas alongando... Junto às margens, lavadeiras batendo roupa, alguma de seios à mostra. Num dos lados do Parque, o antigo Palácio da Justiça. Antes, sede do Poder Executivo e residência dos presidentes da província e governadores até que foi adquirido o Palácio de Karnak.

Partinho do Parnaíba, o Mercado Velho ou Central, construído há mais de cem anos. Aí de tudo se vende: carnes, peixes, verduras, frutas, sandálias, calças, lamparinas, panelas, louça, mezinhas, beberagens eróticas como a famosa catuaba, pós mágicos. Camelôs propagam cura-tudo, literatura de cordel, alguns cegos recitam lamurientos versos de arrecadar esmolas. E dezenas de restaurantes ao ar livre, com comida feita sob as vistas do freguês, servem os mais variados pratos, sempre apimentados: fritos, sarapatel, buchada, panelada, mão-de-vaca, vísceras. Um arremedo dos mercadões de Fortaleza e Salvador. Um colorido especial à vida da cidade. No mercadão a gente encontra o sujeito que vende maconha, o bicheiro anunciando o milhar do jacaré e as mulatas mais desconfiadas do mundo, cheirando a brilhantina flor do amor. E muito chá-de-burro, o talentoso mucunzá.

A Casa Anísio Brito merece visitação. Museu e Arquivo do estado, guarda muita preciosidade que precisa de ser vista e consultada.


A. Tito Filho, 29/01/1990, Jornal O Dia

FESTAS

Dezembro, último mês de 1989. Natal. Na gruta de Belém na Jordânia, deu-se o mistério que Maria tinha no seio, um mistério de amor. Nenhuma festa tem o esplendor da que comemora a vinda do Messias ao mundo. A missa do galo e a confraternização familiar emprestavam ao quadro natalino sem igual. Tudo simples, singelo, para as comemorações espirituais de homens e mulheres, na contagiante alegria de todos. O padre Raimundo José Airemorais, com autoridade irrecusável, sustentou: "Hoje, infelizmente, o Natal está de alguma maneira se esvaziando no sentido de que o conteúdo central do Natal não é mais percebido nem mesmo celebrado pela grande maioria do povo. hoje em dia se faz do Natal uma espécie de pretexto e de ocasião para se buscar outros interesses, sobretudo no mundo do consumismo. O Natal de hoje  é uma propaganda".

Acentua o brilhante mestre que o Natal se tornou esbanjamento, fato nitidamente pagão.

A véspera do ano-novo também se festejava de modo decente e memorável. Os clubes promoviam bailes que se prolongavam até pela madrugada, num ambiente de respeito e cavalheirismo, na chamada alta-roda como na classe média.

Um encanto as festividades de Natal e Ano-Novo de anos atrás. Tempos inesquecíveis.

Hoje, essas duas grandes datas são exploradas por um sistema industrial e comercial sem entranhas. Durante semanas televisões e rádios azucrinam a coletividade em propagandas malsãs que oferecem as mais diversas modalidades de objetos para presentes, sobrecarregando sobretudo os raquíticos ordenados dos pobres, num país como o Brasil, devedor de somas fantásticas aos banqueiros internacionais, de baixa renda dos cidadãos, analfabetismo, habitação desumana, fome endêmica, desemprego e subemprego. Desmanda-se a burguesia nos dinheiros fáceis, obtidos por caminhos quase sempre desonestos. Promovem-se farras e esbanja-se dinheiro numa festa dividida entre poucos riquérrimos e milhões de misérrimos, num tripúdio revoltante sobre a desgraça nacional.

Na passagem de 1988 para 1989, a ganância de alguns fez que um barco naufragasse com o sacrifício de cinqüenta e cinco pessoas. Nada se sabe sobre a punição dos responsáveis pela tragédia. Se fossem pobres, os criminosos já se encontravam atrás das grandes.

Em Teresina, cidade de miséria quase absoluta, em que se abrigam muitos milhares de sofredores que abandonaram o campo por absoluta falta de condições de vida e, incentivando a megalópole, passam fome e morrem debaixo das pontes - na capital piauiense o soçaite ocioso dissipou milhões de cruzados, no afogamento das uiscadas, nos arrotos fartos provocados pela comida sofisticada. Ninguém se preocupou com as aflições dos pequenos, e todos estiveram indiferentes a penúria dos assalariados. Condenável desperdício. Imperou a estroinice. Num dos hotéis para milionários, deu-se uma festança afrontosa, farra grossa, num requinte de gozação de milionários. Para a noitada vendeu-se o ingresso por mil e duzentos cruzeiros novos, um salário mínimo dos infelizes que mourejam de sol a sol.

O cenário dos gastos nababescos com a embriaguez e as farturas das mesas, num requinte de insensibilidade, jamais seria conveniente à eclosão do mistério que Maria tinha no seio. Por esta razão o Evangelho diz que não havia lugar para eles na estalagem. José escolheu o silêncio e a humildade para o último toque no quadro vivo do Natal.

O Natal do Cristo, nos dias de hoje, bem acentua o padre Raimundo José, é fabricado pelos grandes meios de comunicação, em busca do lucro desmedido, na adoção de uma publicidade para o supérfluo, a fim de que a bolsa do pobre emagreça ainda mais.


A. Tito Filho, 20/01/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

JARRINHA

Chamava-se João Miguel Jarrinha, o jarrinha, como era conhecido de todos. Baiano de nascimento. Idoso. Popularíssimo. Viúvo. Pobre. Antigo professor público jubilado. residia sozinho em Teresina, mais de noventa anos passados.

Um feio dia encontraram-no morto, na rede da dormida, assassinado, o frontal despedaçado por forte bordoada de pulso rijo.

O crime abalou a cidade tranqüila. Levantaram-se conjecturas. O morto não tinha inimigos. Freqüentava as melhores rodas da cidade. Votava grande culto à formosura das mulheres. Amor platônico. Publicava o jornal de sua propriedade, intitulado "O Lacrau".

Na noite do crime, conforme se supunha, recolheu-se cedo à residência, pois dele se notou ausência em certos pontos em que habitualmente comparecia.

A polícia voltou atenções para Raimundo, de menor idade, que morou com Jarrinha algum tempo e a quem a vítima dedicou grande afeição. O outro suspeito para os policiais foi Higino Pereira de Araújo, músico e sapateiro, com quem Jarrinha tivera discussão por causa de um par de botinas, que não saíra nos conformes do contrato.

Raimundo contou que estivera com Jarrinha na véspera do acontecido em companhia de um colega e o vira adormecido numa rede, na sala de jantar. Acordou-o e com ele manteve rápida conversação, retirando-se com o amigo, que tudo confirmara.

Higino encontrava-se em Campo maior. De viagem para a cidade pernoitou com os companheiros em caminho, o que foi provado.

Higino Cunha, mestre ilustre e jornalista famoso, narrou que a polícia prendeu Raimundo, submetendo-o a suplícios. Extorquiu-lhe a confissão do crime. Embora menor, não teve curador idôneo. O júri condenou-o a dezesseis anos de prisão. Não houve apelação da sentença. A pena foi cumprida integralmente na velha penitenciária de Teresina.

O povo, porém, julgava que Raimundo fora vítima de clamoroso erro judiciário e sempre desconfiou de Higino, que anos depois de cumprida a sentença, adoeceu, febre e calafrios, segundo João Pinheiro, atendeu a pedidos e submeteu-se a confissão religiosa: "Mas ao terminar a confissão lhe declara peremptoriamente o sacerdote que não o absolveria, sem que ele, em presença de testemunhas, revelasse o que lhe referia, uma vez que disso dependeria a reabilitação de um inocente".

Levado maneirosamente pelos bondosos conselhos do confessor - narra João Pinheiro - com surpresa de quantos o ouviam, numa voz estertorante e panosíssima, revelando o mais profundo arrependimento, confessou que, por causa de pequena desavença que tivera com Jarrinha, resolvera assassiná-lo, o que, realmente, num momento de irreflexão, levara a efeito sem comprometer-se, aliás, porque, partindo, em certa ocasião em companhia de diversas pessoas, para Campo maior, à noite, enquanto aquelas dormiam, distante algumas léguas, regressara a Teresina, onde efetuaria o crime sem nenhuma dificuldade, porque, encontrando aberta a porta da rua e Jarrinha adormecido, descarregara-lhe, sobre o crânio, forte bordoada com uma acha de lenha que apanhara na cozinha e voltara a agasalhar-se entre companheiros que jamais suspeitaram da terrível verdade.  

Depois - termina João Pinheiro - como se nada mais devesse acrescentar, cerrou os olhos e faleceu imediatamente.

José Maria da Silva, em 1929, escreveu no jornal "Estado do Piauí" que Higino jamais fez a confissão que lhe atribuíram. Morrera inconscientemente de insulto cerebral, sem fala. O próprio padre Fernando, só depois de muita relutância, consentiu em acompanhar-lhe o enterro, porque Higino morrera sem confissão.

Com quem a verdade? Quem matou Jarrinha?


A. Tito Filho, 18/04/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

EDUCAÇÃO

Desde muitos anos a vida social brasileira se vem deteriorando, dia por dia, nos valores espirituais, sobremodo, e mais do que tudo na ausência de pudor e de honestidade. Vigora o cinismo e o homem não se envergonha dos atos mais condenáveis em busca das bacanais de sexo e álcool e na obtenção de dinheiro a qualquer preço. A alta-roda vive de futilidades, mas goza de privilégios incontáveis, a classe média se extingue na baixa renda e no sacrifício das prestações, sem o necessário para o sustento familiar, e o operário vegeta nas angústias permanentes da habitação desumana e da fome endêmica. Nesse ambiente de fausto e de miséria convivem seres imaturos, principalmente a juventude sem destino, e o jovem rebela-se contra a irresponsabilidade generalizada e passa a hostilizar as instituições, e hostiliza-as no pai, na mãe, no mestre, nas leis, na inteligência, na pátria, com a linguagem decomposta, de que se utiliza para mostrar que a vida não deve ser séria, nem digna, mas uma pilhéria, um deboche, uma pândega, um insulto, de que esse linguajar se torna veículo, intérprete e revelação. A televisão faz com que essa fala se exporte dos grandes centros, onde funcionam as redes de comunicação de massa, para as médias e pequenas cidades e para bibocas interioranas. Hoje se arremedam deformações vocabulares e expressionais das megalópoles em todo o Brasil. A língua do mais estúpido diálogo do novelês, ou português de novela, invade as escolas, os clubes, as reuniões de soçaite, o recinto dos lares, os quiosques de mercado, e por toda parte se ouvem estropiamentos grosseiros, palavrões, na boca de mocinhas sem recato, rapazes, senhoras jovens e matronas que deviam dar-se a respeito. Observe-se a quantidade de vendedoras das praças e das esquinas, redigidas em baixo calão. Os livros se vendem com obediência a nocivo sistema publicitário das editoras poderosas. Não se lê senão o fútil, o exemplo mau para o uso da língua. Professores e alunos renunciaram a prática da leitura, considerada desnecessária nestes últimos tempos. Mas ninguém ignora que se aprende trabalhando. Quanto mais o homem lê, quanto mais pratica a redação, mais fala e escreve com facilidade, mais seguramente transmite idéias. E neste deserto cultural, funcionam as universidades brasileiras, oficiais e particulares, cada vez mais decepcionantes, com mestres improvisados e futuro despromissor. Esses centros de instrução superior e preparo de lideranças instituíram o ingresso por através de um exame vestibular, que se baseia e sustenta num processo de testes mal redigidos, mal feitos, e moços e moças gravitam, noite e dia, em torno deles. Ainda vive o Brasil subserviente coma exigência de inglês ou francês. Que necessidade tem o doutor de saber inglês ou francês? A própria universidade afirma de modo indireto que os dois são desnecessários, desde o instante em que confere ao candidato a prerrogativa da escolha entre uma e outra língua. E por que não se exigem o alemão, o italiano, o russo, o holandês, o chinês, o espanhol, idiomas em que se escreveram e escrevem obras científicas e literárias de conceito universal? O inglês participaria da cultura especializada de quem quer que seja, nunca da compostura intelectual de ninguém. A universidade precisa de novos rumos. De novos horizontes. Não funcionam atualmente como instituições no anticívico portinglês, nas asnices do economês, uma espécie de língua pátria criada pelos famosos economistas nacionais, e no televisês, o português das tevês, estúpido e amoral.


A. Tito Filho, 06/07/1990, Jornal O Dia

sábado, 8 de outubro de 2011

ASSUNTINHOS

Anfrísio Lobão Veras Filho exerceu com proficiência e coração a medicina em Teresina. Nas eleições municipais de 1924, para o quadriênio 1925-1929, fez parte da chapa de candidato a intendente, João Luís Ferreira. Foi o vice de João Luís. Ambos se elegeram. Aconteceu que o intendente também se elegeu deputado federal e optou por este último mandato. Assim, Anfrísio tornou-se intendente de 2-1-1925 a 2-1-1929. O chefe do Executivo de Teresina tinha sido um dos fundadores do Banco Agrícola, que se transformaria em Banco do Estado do Piauí. Depois, triunfaria como candidato a deputado estadual e por consenso dos seus pares presidiu a Assembléia Legislativa. Governador interino do Piauí. Membro do Tribunal de Contas. Nascido na terra piauiense de União, faleceu em Teresina, 1954. No momento em que o governador Alberto Silva, neste ano da graça de 1990, inaugura o seu propangadeado PRÉ-METRÔ, num dito primeiro trecho, em me lembrei de Anfrísio que, em 1927, adquiriu um bonde motorizado em São Paulo e inaugurou a linha de transporte popular da estação da estrada de ferro ao rio Parnaíba. Pioneirismo. Audácia. Certamente o bonde desapareceu por falta de freguesia. Ninguém se lembrou, na discurseira, do pioneiro Anfrísio.

*   *   *

No Rio, as dondocas e as balzaquianas andam de dentuças à mostra, passeando com os seus bonitos cães domesticados? Razão? O empresariado carioca está ganhando os tubos com a novidade maravilhosa: os postes especiais para o xixi da cachorrada. Custam uma nota, mas são elegantes, de fino acabamento e têm farolitos de pilha para uso noturno. Denominação dos interessantes objetos, que são conduzidos pelos rabos-de-saia ao lado dos respectivos cachorros: PIPI-DOG. Os empresários de Teresina muito lucrarão importando o PIPI-GAY para instalação na praça de Dom Pedro II.

*   *   *

Estive pensando muito. Embora entenda patavina de economia e seus mistérios encontrei remédio infalível para liquidar a inflação nacional, doidamente disparada contra a bolsa dos bestas do pauperismo. Pois bem. Basta que as autoridades nacionais, estaduais, municipais, estatais, paraestatais, autárquicas e seus respectivos auxiliares, familiares e cupinchas deixem de roubar pelo menos quinze dias no mês. Dia sim, outro não. Dia sim, outro também, não há bumbum de peruano que agüente.


A. Tito Filho, 06/02/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

TERESINA - VISITAÇÃO

De praça rio Branco - rumorejo matutino e vespertino de morenões, louras, casadas, solteiras, intituladas, brotos, coroas e matronas circunspectas, senhores sisudos, estudantes, tipos de variegado naipe, muitos machos no exercício da paqueração - daí o sujeito pode indagar e orientar-se no rumo de outro ponto de muita fofoca e aprazimento: a praça Pedro II, antiga Aquibadã, bonita como quê.

Ergue-se nesse recanto de recreio o Teatro 4 de Setembro, inaugurado quase no fim do século passado. Em 1975, ganhou fatiota nova, uma beleza de teatro, com galerias, salas de exposições - só vendo o chiquismo da mui leal casa de espetáculos, coisa que não se vê em muito derredor do Brasil. Nele Coelho Neto dançou, em 1899, e discursou para apelidar Teresina de cidade-verde.

Mais umas passadas e eis Carnaque, também Karnak, nome egípcio, antiga residência de barão e baronesa. Branquinho, harmonioso, cheio de fontes d'água, luzes, salas caprichadas, local de trabalho do governador. De noite, tudo aceso, parece casa de conto de fadas.

Ao lado de Carnaque, existe o lugar que antigamente se chamou Alto da Jurubeba, elevação em que um santo, Frei Serafim de Catânia, construiu e inaugurou, no século passado, imponente templo católico. Por trás da igreja, o avenidão espaçoso, que tem o nome do frade - espaçoso e comprido até alcançar o rio Poti. Avenidão de trânsito intenso. Pedestre nele come fogo para a travessia. Veículos feios e bonitos, de variado formato, transitam. Ciclista come praga. De noite, um quadro de tentação: as garotas apresentam-se para o amor, que começa no automóvel e se acaba nos castelos dentro das matas. Um paraíso de afeto.

Na Frei Serafim, o Palácio Arquiepiscopal, residência de três arcebispos virtuosos e trabalhadores - o inesquecível Dom Severino, o Cardeal Dom Avelar e o atual Dom José Falcão.

Por perto, a Biblioteca Cromwell Carvalho, bem organizada, bem rica de boas obras.

E acolhedores templos protestantes em vários pontos. E os pastores convocando para as belezas da Bíblia.


A. Tito Filho, 30/01/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 4 de outubro de 2011

LEITURA

Quando ginasiano, em Teresina, nos domingos, eu fazia compras para leitura no M. A. Tote, casa de revistas de atualidades e literárias, entre as quais "Noite Ilustrada", "Carioca" e "Vamos Ler", do Rio. Gostava desta última e colecionei muito tempo as suas edições. Os livros de minha predileção, adquiridos semanalmente, eram os da Coleção Terra-Mar-e-Ar, de aventuras, autores estrangeiros. Eu apreciava Emílio Salgari. Outra agradável série de romances de variado gênero me fugiu da memória. Custava cada exemplar dois mil réis, livro de tamanho pequeno. Na interessante coleção fiz leitura de "A Patrulha da Madrugada", que o cinema aproveitou para excelente filme de aviação; "Nana", de Zola, e obras de autores russos e ingleses. Muito me robusteceram a inteligência os livros de Edgar Rice Burroughs (Tarzan) e Júlio Verne. Li-os quase todos de ambos os autores.

Teresina, na década de 30, possuía uma loja bem sortida, espécie de bazar de mil utilidades, sem que lhe faltassem edições literárias de Portugal e do Brasil. Tratava-se do estabelecimento comercial de Juca Feitosa, na antiga rua Bela. Nele adquiri romances de Alencar, Bernardo Guimarães, Manuel de Macedo, Camilo Castelo Branco, Pinheiro Chagas. Deliciosos para a minha adolescência. Custavam pouco e tinham aspecto pobre, com capas extravagantes.

Enquanto alguns arrotam leituras extraordinárias, ricas de temas psicológicos e de modernidades, como se costuma dizer, contento-me com meu caubói de dormir, para os instantes de conciliação do sono gostoso. Ponho-me no meio de bandidos, assassinos, mexicanos atiradores de faca, pontarias certeiras com os colts fumegantes ou com os sharps de longo alcance, deliciando-me com o mocinho alto, forte, bonito, que não erra o tiro na testa do malfeitor ou derriba cinco capadócios de bofetadas seguras. Deixo a leitura mais cuidadosa para os domingos, meditando nos assuntos, guardando na cabeça as lições que obtenho.

Neste 1990, saboreei de novo "Os Pioneiros", de Fenimore Cooper, com a sabedoria do Juiz Temple, que sentia a inutilidade da lei como garantia de justiça. Juiz sábio, para quem a lei representava arma dos ambiciosos.

Li "Carolina", que comprei faz tempo. Livro admirável de Dreiser, a revelar a solidariedade entre os miseráveis, os que têm fome. O autor mostra que os impulsos básicos do homem se voltam para o dinheiro, para o conforto, para o poder.

"Os Grotesos", de Andersen vale um romance de deformação psíquica das pessoas nas pequenas comunidades, pela perda do amor. E em "O Grande Gatsby", Fitzgerald sustenta que só a riqueza permite ao homem viver a vida que ele concebe. A vida é brutal e intolerável quando lhe falta imaginação.

Como a gente vê, realizei proveitosa leitura nestes domingos dos meses iniciais de 1990. Cito quatro romances, deixando de citar outros livros de viagens, história, crítica, estudos sociais, comunicação, o que ficará para outra vez.


A. Tito Filho, 26/04/1990, Jornal O Dia 

sábado, 1 de outubro de 2011

TERESINA ANTIGA

- O primeiro restaurante surgiu em 1876. Vários tipos de suculenta comida. Fornecia bóia para festas familiares.

- Ano seguinte, a grande seca de 77 povoou a cidade de cearenses sofredores. Assistência permanente.

- A primeira escola noturna se criou em 1880, ano em que se introduziu a loteria federal.

- Estendeu-se a iluminação pública  toda a cidade em 1822. Oitenta lampiões de querosene, em postes de madeira. Registraram-se ainda as primeiras observações meteorológicas, com estes resultados: temperatura máxima, 30; mínima, 25,80; média 28,50.

- Grandes festas cívicas com a chegada do telégrafo. Era o ano de 1884.

- Dois acontecimentos de 1886. Sagração da igreja de São Benedito, no Alto da Jurubeba, construída por Frei Serafim. E fundação da Botica do Povo, popular estabelecimento do farmacêutico José Pereira Lopes.

- Grandes festas populares comemorativas da libertação dos escravos em 1888.

- Chegou ao conhecimento do povo a notícia da proclamação da República, 1889. Houve delirantes manifestações populares pelas ruas, no dia seguinte, 16 de novembro. Neste mesmo ano instalou-se o serviço de recolhimento do lixo, em carroças puxadas por bovinos.

- A fábrica de Fiação e Tecidos Piauiense foi inaugurada em solenidade do ano de 1890.

- Em 1891 instalou-se o Tribunal de Justiça do Piauí, composto de cinco desembargadores.

- A Junta Comercial do Piauí teve criação em 1892.

- Em 1894, inaugurou-se o Teatro de 4 de Setembro, cujas obras se iniciaram em 1889.

- Instituído o registro de nascimento e óbito em 1897.

- Coelho Neto, em 1899, dá a Teresina a denominação de Cidade Verde.

- Registrem-se ainda os seguintes acontecimentos interessantes: o primeiro clube teatral (Clube Gramático, 1893). Fundado o primeiro clube social (Clube Dançante Piauiense, 1897). A primeira entidade esportiva, o Esporte Clube, surgiu em 1899.


A. Tito Filho, 25/01/1990, Jornal O Dia

TERESINA

Teresina foi a primeira cidade do Brasil construída em traçado geométrico, no chão da mata derrubada. As casas de moradia tinham a parede da rua rente com as calçadas. Havia um corredor central, ladeando as salas e alcovas, a sala de refeição no meio, com peitoris para o saguão, e o célebre puxado de quartos, despensa, cozinha e banheiro. Esta estrutura ainda existe em muitas residências. Depois se construiriam palacetes.

Teresina não nasceu espontaneamente, mas de modo artificial, prevendo-se praças e ruas. Fizeram-se as edificações mais necessárias: mercado, cemitério, hospital, cadeia. Surgiu o jornal. Criaram-se clubes. Animada a vida teatral. Festivos carnavais. Fundaram-se clubes recreativos. Apareceram os primeiros cafés e restaurantes. Jogo de bilhar, passeio de cavalo. O costume das serenatas. Os festejos religiosos.

Ainda no alvorecer do século XX e nas proximidades de 50 anos, Teresina não tinha serviço d'água encanada nem luz elétrica: comuns os cargueiros d'água que abasteciam as residências, montados no jumento bisonho, trepado na cangalha gigante. Deliciosos tempos de Teresina doutrora. O astro era o acendedor de lampiões - candeeiros no alto dos postes, queimando querosene. Ao lado do desconforto, da poeira, das raras medidas de higiene, da tuberculose e da sífilis, do casebre de palha, a maledicência generalizada nas rodas de calçadas e nos serenos de bailes.

Nos primeiros anos do século, a água encanada. No Governo Miguel Rosa, luz elétrica, sociedades literárias animavam a cidade. Chegou a era do cinema - o mudo, depois musicado, finalmente o falado. O jardim, o jardim da Praça Rio Branco, de doce lirismo, rapazes rodando num sentido e garotas noutro para o namoro paroquiano mais gostoso, o namoro dos olhos. Chegaria a vez da Praça Pedro II. Do mesmo jeito, olhos dele grudados nos dela. Correram mais de 50 anos. Teresina crescia mas permaneciam os costumes provincianos. O bom gelado do pega-pinto, o sorvete de gelo rapado, os tipos populares, os freges de panelada, a cidade pacata, dorminhoca às 21 horas, familiarmente. Boa bolinação nos cinemas, em que as normalistas gostosas namoravam apimentadas. E os cabarés da Raimundinha Leite, da Gerusa, da Rosa do Banco, repletos de borboletas fornidas e nos quais se ombreavam desembargadores, estudantes e vareiros.

Crime só de longe em longe por motivos passionais as mais das vezes. Raros assassinatos bárbaros. Contam-se, assim, de memória, as mortes do motorista Gregório, de Lucrécio Avelino e do motorista trucidado por Catanã.

Ainda em 1952, época do primeiro centenário da cidade, Teresina padecia tristíssimas condições de conforto, em todos os sentidos. Péssimo calçamento das ruas, ausência de higiene, falta de escolas, mendicância generalizada. Chegaria, porem, o chamado progresso físico, o asfalto, os aviões a jato, o comércio de prestações, os restaurantes sofisticados, o carro financiado, a casa do BNH, a televisão, o jornal moderno, a civilização da lancheira, o supermercado onde as matronas compram frango depenado. Nos velhos tempos as senhoras carrancudas só compravam galinhas soprando-lhes as penas e lhes apertavam o bico a ver se o gogo escorria. Os bons cabarés da Paissandú desapareceram, substituídos por motéis e gramas de praças para o amor.

De trinta anos para cá a cidade mudou muito. Desespiritualizou-se. Tem no dinheiro o status e o conforto material repousa em dívida. Vigora o cheque sem fundo. Por onde anda o pega-pinto que ajudava a fazer pipi? Teresina possui contrastes aviltantes. Jóquei e Itararé. Mansão e casebre. Morreram hábitos. Surgiu Universidade e hoje se fabricam doutores para o desemprego.

Garotas ricas se desnudam ao lado das ruas que não têm com que cobrir as suas vergonhas.

Mas Teresina reencontrará o bom caminho. Cada dia fica mais bonita em graças construídas pelas mãos do homem. Os seus intendentes e prefeitos cada qual tem melhorado, dentro das suas possiblidades, os aspectos da criatura de José Antonio Saraiva.

É necessário lutar pela humanização da cidade. Fazer que ela retorne à vida espiritual de antigamente. Enquanto a gente pensar assim, Teresina será sempre um instante de beleza no coração dos que amam.


A. Tito Filho, 12/09/1990, Jornal O Dia

OBSERVAÇÕES

Dizem que Juscelino realizou a revolução industrial brasileira. Implantou fábricas de automóveis e eletrodomésticos. Maravilhosa sabedoria. O bom Brasil largou o campo, a produção agrícola, e correu para as cidades grandes dos automóveis, das enceradeiras, das máquinas de lavar roupa. As exportações milionárias de carne desapareceram. Só são Paulo e o sul permaneceram fiéis à produção agrícola, embora não recusassem a industrialização. E cada dia o Brasil fica pior, com a infernal máquina publicitária em busca de mercado para tudo o que os norte-americanos emprestam às fórmulas de fabricação, cobrando roáltis absurdos. O Brasil, é bom de ver, faz parte do quintal da América Latina.

X   X   X

A Prainha foi lugar dos mais aprazíveis de Teresina. Tinha uma finalidade social: o lazer, sobretudo o dominical. Dava gosto freqüentá-lo. Não durou muito tempo o seu ambiente cordial e amigo. Invadiram-se mariposas e horizontais de todo tipo. Firmou-se como ambiente de demoradas cachaçadas. Tornou-se assim local de violência e de mortes estúpidas. Assim vai ser Poticabana, foco de drogas, de viciados, de revólveres. Quem viver verá.

Que é do clube dos Diários? A Polícia de Teresina deveria ter ao menos compostura. Meses atrás, ainda se podia tomar uma cerveja em sossego nessa outrora casa de beleza espiritual. O próprio jogo, nos porões, tinha a freqüência de pessoas ilustres e dignas, que procuravam um pouco de diversão noturna. A jogatina agora está explorada por mulheres de vida livre, raparigas velhas surradas que passam a noite de olhos abertos em companhia de indivíduos desconhecidos, gente agressiva e deseducada, com exceções algumas. Ambiente de perdição e luxúria, no centro da cidade de Teresina.

X   X   X

Não haverá inverno. Os sábios já declararam anos de invernos fracos neste miserável Nordeste brasileiro. Descansará o povo do Poti Velho, livre das enchentes enormes de derribar choupanas. O pessoal um dia criará juízo. José Antônio Saraiva, baiano inteligente, recusou o local para a construção de Teresina justamente por motivo das fortes invernadas, alagações e outros tormentos. Mas o povo não arredou pé de lá até hoje. Viva a burrice.


A. Tito Filho, 07/02/1990, Jornal O Dia

TERESINANDO

Pode-se tomar outros rumos, para mudanças da paisagem. O importante está em ver o que Teresina tem na sua simplicidade faceira. Voltando-se ao rio Parnaíba - a ponte ferroviária João Luís Ferreira, grande obra de engenharia, iniciada na década de 20 e concluída no primeiro governo Vargas.

Rumo norte da cidade, a gente indaga, pois quem tem boca vai a Roma - e encontra o circunspecto Instituto de Educação Antonino Freire, bem defronte o cemitério de São José, este dez anos mais novo do que Teresina, depois ampliado. Mais ao longe o aeroporto, alegre e festivo. Um encanto para visitação. Adiante, alguns quilômetros de asfalto, num percurso pintado de casinhas humildes, está o bairro do Poti Velho, antiga Vila do Poti, onde Saraiva pensou em construir Teresina, mas desistiu, fazendo-a no lugar da igreja do Amparo - o primeiro templo católico da cidade, inaugurado no natal de 1852.

No bairro do Poti Velho, o rio Poti despeja águas no Parnaíba. O Poti de boa pescaria.

Não se deixe de conhecer o Sanatório Meduna - obra de devotamento e de tenacidade do médico Clidenor Freitas Santos, que abriu novos horizontes de cura e de humanidade para os perturbados mentais. Integra 25 anos de serviços em 1977.

A nova penitenciária deve ser louvada, e louvados muitos que fizeram força para conquistá-la do Papai Grande Federal - entre tantos, em dois governos, Raimundo Marques e Sebastião Leal.

Com a ajuda do próximo, chega-se a igreja das Dores, na praça Saraiva - templo católico que serve de catedral. E vai-se ao bairro Vermelha para conhecer a arte do mestre Dezinho e de Afrânio Castelo Branco, na igreja de Nossa Senhora de Lourdes. Prossegue-se até a ponte Antônio Noronha, sobre o Parnaíba, ligadora de Teresina a Timon e Caxias, já no Estado vizinho do maranhão. Nesse trecho da cidade, de imensas áreas, se encontra o magnífico estádio Albertão, de futebol, natural e principalmente de futebol - local em que se pode urrar, e xingar juiz, que nada acontece.

Noutro ponto da capital piauiense, ergue-se o majestoso Palácio da Justiça, em cujas vizinhanças se construiu o Centro de Convenções: auditório de 680 lugares, cabine para traduções simultâneas em cinco línguas, serviço cinematográfico, bares, sala de imprensa, lanchonete, restaurante público.


A. Tito Filho, 31/01/1990, Jornal O Dia