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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

DESTINAÇÃO

Quando eu era meninote, meu pai se mudou para Teresina, prosseguindo a carreira de magistrado. Ganhava uns trocados, pois juiz naquele tempo não chegava ao salário mínimo destes dias inflacionários. A gente morava numa casa modesta. A cidade tinha vida tranqüila, agradável. Pagava-se aluguel da residência. Mas os bagarotes davam para passar bem de comedorias.

Meu pai percebia ordenados suficientes, da mesma forma que os funcionários públicos da época. Muita simplicidade, não havia festas de aniversários nem de debutação, nem de presentes no Natal e o carnaval se fazia sem despesas excessivas. Inexistiam ricos. Só abastados e a classe média que bem ganhava as suas patacas.

Os conselhos paternos me indicavam que procurasse uma profissão de ganhos razoáveis. Médico, por exemplo. Ou militar, pois o quartel dava a bóia e a roupa de graça.

Eu invejava o trabalho das pessoas. No Bar Carvalho, via a agitação dos garçons, de um lado para outro, servindo café ou refresco e logo pensava nessa profissão. Dia de domingo, eu ia ao restaurante comprar a comida de casa, como queria meu pai, para variar, e observava o cozinheiro Gumercindo a preparar o filé de chapa, em cima da quentura do velho fogão de ferro, cheio de lenha pela boca principal. Logo admitia um bonito futuro como diligente mestre cuca. No tempo de circo, fixava meu desejo maior em ser palhaço ou trapezista. Como gostava muito de picolé, surgia a pretensão de ser picolezeiro.

Cresci. Estudei. Deu-me na veneta de estudar direito. Formei-me. Não gostei de advocacia. Enriqueci-me de inveja pelo jornalismo, pelo magistério e pela literatura. Andei pela política na época em que já começava a correr dinheiro nas eleições. Edgar Nogueira, de grande prestígio, quis que eu fosse juiz no interior. Recusei. Juiz no interior ganhava como funcionário do Piauí, hoje. Não havia asfalto, a fim de que o magistrado das capembas pudesse freqüentar o cabaré da capital. Demais de tudo, esses pobres julgadores de vezem quando entregavam a alma de Deus, baleados pelos chefões do partidarismo.

Tornei-me jornalista e professor. Como jornalista, ganhava descomposturas. No magistério, como nos dias atuais, recebia salário de fome. Consegui ser funcionário público e nunca melhorei de finanças. Ainda agora ganho por mês a besteira de uns quinze mil cruzados novos por mês, sem ter para quem apelar.

Arrependo-me muito. Poderia ter sido político e ganharia rios de dinheiros como deputado. Caso fosse magistrado, seria hoje desembargador, com carro oficial, vantagens, e cem mil bagarotes por mês. Poderia merecer a sorte como dono de jornal, rádio ou televisão, e arrecadar milhões em propaganda oficial. Bastaria a publicidade da empresa piauiense de águas e esgotos, dirigido pelo dinâmico José Darcy Araújo.

Deus devia ter me protegido, ser do sexo feminino e filha solteira de falecido desembargador, para mamar de pensão por mês 40 mil pelegas, sem nada fazer, salvo colocar a dinheirama na poupança.

Banquei o bestalhão. Jornalista, professor, funcionário público. E sempre na miséria.


A. Tito Filho, 23/01/1990, Jornal O Dia

domingo, 20 de novembro de 2011

LINGUAGEM BRASILEIRA

Ninguém nega a existência de um linguajar diferente nas populações iletradas do Brasil interiorano, corrompida e desfigurada, mas bem brasileira, sobre a qual houve investigações cientificas de João Ribeiro e Antenor Nascentes, entre outros, bem assim registros de escritores em que a linguagem da plebe citadina e do homem rústico do sertão aparece explorada em seu pitoresco, o que permite avaliar até que ponto a língua dos colonizadores portugueses padeceu com a ação modificadora do povo inculto. Leiam-se as páginas de Valdomiro Silveira, Cornélio Pires, João Lúcio, Catulo Cearense, Leonardo Mota, por exemplo. Deste último transcrevo pedaço de carta de um sertanejo do Piauí:

"Mamãe, Parnaíba é uma cidade monarca, de grande. De menhãzinha se alvoraça tanta gente na beira do rio, qui parece formiga arredó de largatixa morta e quasi tudo é trabaiado caçando ganho. O mercado é outro despotismo: se arreúne mais povo do que na desobriga, quando Padre diz missa na capela dos Morros, da dona Chiquinha. tudo se vende; de tudo se faz dinheiro; fiquei besta de ispiá gente comprando maxixe, quiabo, limão azedo, folha de joão-gome e inté taiada de jirimum.

O passadio daqui é bom. todo dia eu como pão da cidade com mantêga de Reino. Mamãe, as coisa aqui são muito diferente e adversa daí. As casa são apregada umas nas outras qui nem casa de marimbondo de parede e é quasi tudo de telha e forrada de tauba por riba qui nem gaiola de xexéu e qui chama sobrado. Gente rica aqui é em demasia. Inda onte numa loja eu vi uma arma de dinheiro de cobre no chão qui parecia juá, quando se ajunta mode dá pro bode em chiquêro.

Mamãe, a Igreja faz inté sobrôço de gente, grande e alta. Cabe dentro dela todos os morador de Barra das Laje, de Bom Princípio, da Fazenda Nova, e ainda se adquére lugar pra mais de cem vivente. O povo daqui tem um sesto muito engraçado: não diz ô de casa, não! quando chegam nas casa eleia batem palma, como quem estuma cachorro mode acuá tatu em buraco"...


A. Tito Filho, 09/03/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

EDUCAÇÃO

Desde muitos anos a vida social brasileira se vem deteriorando, dia por dia, nos valores espirituais, sobremodo, e mais do que tudo na ausência de pudor e de honestidade. Vigora o cinismo e o homem não se envergonha dos atos mais condenáveis em busca das bacanais de sexo e álcool e na obtenção de dinheiro a qualquer preço. A alta-roda vive de futilidades, mas goza de privilégios incontáveis, a classe média se extingue na baixa renda e no sacrifício das prestações, sem o necessário para o sustento familiar, e o operário vegeta nas angústias permanentes da habitação desumana e da fome endêmica. Nesse ambiente de fausto e de miséria convivem seres imaturos, principalmente a juventude sem destino, e o jovem rebela-se contra a irresponsabilidade generalizada e passa a hostilizar as instituições, e hostiliza-as no pai, na mãe, no mestre, nas leis, na inteligência, na pátria, com a linguagem decomposta, de que se utiliza para mostrar que a vida não deve ser séria, nem digna, mas uma pilhéria, um deboche, uma pândega, um insulto, de que esse linguajar se torna veículo, intérprete e revelação. A televisão faz com que essa fala se exporte dos grandes centros, onde funcionam as redes de comunicação de massa, para as médias e pequenas cidades e para bibocas interioranas. Hoje se arremedam deformações vocabulares e expressionais das megalópoles em todo o Brasil. A língua do mais estúpido diálogo do novelês, ou português de novela, invade as escolas, os clubes, as reuniões de soçaite, o recinto dos lares, os quiosques de mercado, e por toda parte se ouvem estropiamentos grosseiros, palavrões, na boca de mocinhas sem recato, rapazes, senhoras jovens e matronas que deviam dar-se a respeito. Observe-se a quantidade de vendedoras das praças e das esquinas, redigidas em baixo calão. Os livros se vendem com obediência a nocivo sistema publicitário das editoras poderosas. Não se lê senão o fútil, o exemplo mau para o uso da língua. Professores e alunos renunciaram a prática da leitura, considerada desnecessária nestes últimos tempos. Mas ninguém ignora que se aprende trabalhando. Quanto mais o homem lê, quanto mais pratica a redação, mais fala e escreve com facilidade, mais seguramente transmite idéias. E neste deserto cultural, funcionam as universidades brasileiras, oficiais e particulares, cada vez mais decepcionantes, com mestres improvisados e futuro despromissor. Esses centros de instrução superior e preparo de lideranças instituíram o ingresso por através de um exame vestibular, que se baseia e sustenta num processo de testes mal redigidos, mal feitos, e moços e moças gravitam, noite e dia, em torno deles. Ainda vive o Brasil subserviente coma exigência de inglês ou francês. Que necessidade tem o doutor de saber inglês ou francês? A própria universidade afirma de modo indireto que os dois são desnecessários, desde o instante em que confere ao candidato a prerrogativa da escolha entre uma e outra língua. E por que não se exigem o alemão, o italiano, o russo, o holandês, o chinês, o espanhol, idiomas em que se escreveram e escrevem obras científicas e literárias de conceito universal? O inglês participaria da cultura especializada de quem quer que seja, nunca da compostura intelectual de ninguém. A universidade precisa de novos rumos. De novos horizontes. Não funcionam atualmente como instituições no anticívico portinglês, nas asnices do economês, uma espécie de língua pátria criada pelos famosos economistas nacionais, e no televisês, o português das tevês, estúpido e amoral.


A. Tito Filho, 06/07/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MANIA

Mais uma mania nacional, a de identificar e discutir as causas da violência no Brasil, sobretudo a urbana. Numa das tevês nacionais, certa apresentadora ajunta certas celebridades duvidosas, psicólogos, sociólogos, atrizes, pintoras, e de modo de sábia Grécia, a coroa lança falação sobre a violência, e os convidados passam a derramar tolices sem conta. Causas, dizem eles, ora pois sim, a impunidade, o cumprimento das penas pela metade porque as cadeias estão superlotadas, a Polícia não presta e outras asnices de igual teor. Não sabem esses doutores o que dizem ou têm interesse em esconder a verdade.

As causas são profundas. havia violência quarenta anos passados? A violência constitui processo de que se utiliza o submundo dos famintos, dos favelados, ou que padecem as tristíssimas conseqüências de uma sociedade plena de injustiça sociais, dividir entre poucos ricaços e milhões de miseráveis. quem desperdiça neste país em viagens maravilhosas, em coquetéis, em futilidades, em festanças, casamentos de luxo, debutações de estroinices? O empresariado de milhões, no momento pagando altíssimos resgates em dólares. Quem fez deste país um covil de ladrões engravatados, bons vivedores à custa do tesouro nacional? Por onde andam os responsáveis pela vida desumana das cidades brasileiras? Em que se transformou Brasília, a loucura de certo presidente preocupado com a glória das glórias de haver criado a monstruosidade do cerrado, em momento angustioso da economia nacional? A Brasília de Lúcio Costa e de Niemeyer resume-se hoje na maior favela do mundo.

Um país em que os inocentes suportam cruel abandono moral, anulando-se papel reservado à família e à escola, não podia ser feliz nem gozar de tranqüilidade. A família e a escola arruinaram-se. As crianças passaram a vaguear pelas ruas, expostas às perversidades de todo gênero. Arremessadas à escola, esta se encontra confiada à mais perfeita irresponsabilidade de falsos governantes e falsos educadores.

Milhões de deserdados, famintos, andrajosos, sem quaisquer direitos na vida, sem lar, sem alimento, sem teto, orientados por uma televisão que protege crime e criminosos, estupros, degeneradores sexuais, o luxo dos marajás, o uísque, só os cegos que não querem ver discutem, na nefasta televisão brasileira, as causas da violência, inexistente quarenta anos através.

Violência é revolta contra as dissipações dos poucos ricos deste país, insensíveis aos dramas da explosão social que se aproxima. A fome é má conselheira. A injustiça gera a vingança.


A. Tito Filho, 22/07/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 15 de novembro de 2011

EMPACOTAMENTO

Estudiosos em geral depõem que a televisão se tornou um processo dos mais ativos para que se inquiete o homem, sobretudo o futuro do homem, a criança, quando deveria ser importantíssimo meio de educar as coletividades para a vida. Observe-se que as novelas, de platéias numerosas e obcecadas, de conteúdo passional e emocional, dia por dia transformadas em coceira nacional - as novelas deformam personalidades, impõem hábitos, ensinam condutas violentas, deterioram a língua pátria. Pior do que as mazelas condenadas, a televisão brasileira vem praticando a perversidade do empacotamento cultural do Brasil, e assim se uniformizam costumes regionais da pátria enorme.

Pouco a pouco desaparecem os agradáveis piqueniques de famílias e amigos, pobres e ricos, substituídos pelo americanizados coquetéis nos clubes, em que a elegância faz que se delicia de salgadinhos sem gosto, enfeitados de rodelinhas de azeitonas e salsichas, bem assim doses duplas de uísque gelado que a propaganda insinua como benfeitor das coronárias. Instituiu-se por força da publicidade a civilização dos enlatados. Sumiram-se as danças típicas, e em lugar delas vigoram os trejeitos, as macaquices, a barulheira e o histerismo do roquennol, que o anticivismo importou dos norteamericanos, que aqui ganham milhões nos festivais de praça pública. A cozinha dos quitutes gostosos dos nossos avós se transformou na fábrica dos pratos sofisticados de denominação estrangeira nos restaurantes de toa parte. O cinema tem fundamento na violência, no sexo, no adultério, na vileza das ações humanas. A criança desconhece as encantadoras estórias da boca da noite, antes do sono tranqüilo. Hoje se educam nos xôs das xuxas. A língua nacional circula deformada no iê-iê-iê da nação inteira. Não há diferença de tratamento no caso dos pronomes TU e VOCÊ. Ambos se põem na mesma frase do indivíduo que conversa com o semelhante. A novela orienta a juventude, a maturidade, a velharia para o desrespeito recíproco. Pais e filhos se xingam e se insultam. Os bicheiros, os assaltantes, os traficantes de droga, os vendedores de crianças ganham admiração generalizada. Aos estudantes servem de exemplo as conquistas fáceis e a facilidade de ganhar dinheiro sem o trabalho correspondente. Dinheiro a rodo lucram os profissionais da esperteza. Protege-se o criminoso e esquece-se a vítima. Não se mostra a atividade honesta, não se elogiam os que cumprem o dever. As bocas deseducadas proferem baixezas como expressões naturais, de pessoas inteligentes e que atuam conforme a moda vigorante. Não se vê na televisão, salvo raramente, a realidade brasileira, o quadro das suas populações sofridas, angustiadas, nenhuma delas, exceto quando raramente se mostram cenários naturais das regiões do país. Desaparecem pouco a pouco as festas cívicas e populares. Até o carnaval carioca, pleno de bom humor antigamente, festa de encantamento e beleza, perdeu as suas características de rua e de clubes, liquidadas pelos bilhões de cruzados gastos na estroinice das escolas de samba de fêmeas peladas e nas baixezas e perversões sexuais dos bailes de degenerados.

A televisão pratica verdadeiro crime espiritual, uniformizando o Brasil. Música, cantoria, cozinha, vestuário, usos, hábitos, costumes, estórias, sexo, brinquedos infantis, teatro, cinema, linguajar, lendas, diversões, tudo se vai bitolando para que se eduque um pobre povo abandonado e que se orienta para comprar, para gastar dinheiro na imposição de quanta impostura o poder industrial fabrique, uma educação para a conquista de um falso conforto. Os canais de propaganda insinuam que o afeto se reduz ao presente para a mãe, para o namorado, para o pai, e haja dinheiro para enriquecimento sempre maior dos que fabricam e dos que vendem. Desapareceram as práticas regionais. Sufocou-se a arte verdadeira. Impera a subliteratura. A deformação é geral. O Brasil está totalmente submisso a uma civilização empacotada.


A. Tito Filho, 07/09/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

DENOMINAÇÕES

Várias vezes me têm perguntado, pessoas cultas e gente do povo, de onde provém a palavra veado, no sentido de homossexual.

Essas designações de cousas relacionadas com o sexo são quase sempre da inteligência das comunidades. Parece que existe vocabulário especializado para a expressão da vida e das necessidades sexuais. O acontecimento normalíssimo das regas tomou nomes interessantes como paquete, bandeira vermelha, incômodo, chico. No meu tempo de menino era bode. Mocinha pálida, colega de estudos, estava de bode. O órgão genital masculino se chama por vários modos: pinto, pau, cacete, manzape, careca. Quando ginasiano, Martins Napoleão mandava que se fizesse a leitura de "As Pombas", de Raimundo Correia. Era de ver a risada geral da turma de moças e rapazes.

O homossexual masculino, por esse Brasil imenso, recebe diversificada denominação: afeminado, efeminado, adamado, amaricado, maricas, mariquinhas, bicha, bicha-louca, boneca, rodinha. Adolescente, eu sempre ouvia em Teresina chamar-se o pederasta passivo de fresco.

Veado foi tirado do latim venatu, o mesmo que animal de caça, donde se fez venatório, relativo a caça. Arte venatória traduz a arte de saber caçar. Essa proveniência não explica nem justifica o veado que se aplica aos homossexuais. Consultei mestres e dicionários. Topei num livro, titulado “A Evolução das Palavras”, de A. Tenório de Albuquerque, com este ensinamento: "Ouvimos diversas explicações para essa surpreendente modificação de sentido, para essa verdadeira perversão de sentido, sem que, entretanto, nenhuma satisfizesse. Temos a impressão de que se trata de uma simples tradução do alemão HIRSCH. O médico judeu Dr. Magnus Hirschfeld, o fundador da ciência sexual, foi um defensor denodado do homossexualismo, do chamado terceiro sexo".

Albuquerque escreve que houve um período, na Alemanha, em que esteve com grande evidência o nome do Dr. Hirsch. É possível que esse nome servisse para indicar os homossexuais. Talvez algum alemão houvesse empregado no Brasil o vocábulo HIRSCH com a significação plebéia e alguém que traduzisse, vulgarizando-se o vocábulo.

Simples conjectura, já se vê. O próprio estudioso do assunto reconheceu a circunstância.


A. Tito Filho, 10/04/1990, Jornal O Dia

sábado, 5 de novembro de 2011

OBRA PRIMA

Folk é povo; lore é ciência. Folclore - ciência do povo, ao pé da letra.

Tenho que folk corresponde a povo em sentido espiritual, para impor costumes e hábitos. Em sentido material, de habitantes, o inglês usa people.

É longa a história de folk.

O cético bal / força, multidão/, também pronunciado val, entrou para o latim, e nesta língua deu valere / ser forte, valer/, vallere /fortificar/ e vulgare /espalhar, divulgar/. Entre os derivados de vulgare está vulgus, o povo, a multidão, o vulgo português, o volk alemão e o folk inglês. O folclore /aportuguesadamente/ - diz Gustavo Barroso/ - abraça vastíssimo quadro da vida popular. Pode-se dizer que é toda ela: construções aldeãs, marcas de propriedade em cousas e bichos, objetos úteis, arte, psicologia das gentes, costumes, ornatos, vestes, alimentos, cerimônias, regras jurídicas, jogos, folguedos, brinquedos infantis, instrumentos, religião, medicina, canções, provérbios, inscrições, músicas, danças, autos, pastorais, facécias, anedotas, linguajar, contos, mitos, lendas, denominações de toda espécie.

Em virtude de abranger os processos de vida do povo, no passado como no presente, já se chama o folclore de folk-life. Life é vida.

Joaquim Ribeiro acentua que a palavra folclore está consagra como denominação da ciência destinada a estudar a infra-história dos povos. Pura ciência histórico-social.

Parece que o folclore é um só, comum a todos os povos. Artur Passos salienta tais circunstâncias: "Outro aspecto do maior interesse ainda é o atinente ao folclore regional, se é que o folclore tem região, se o seu local não é apenas uma configuração do vasto campo mundial".

Referem-se os folcloristas ao folk-tale, estudo dos mitos, contos e lendas tradicionais. A literatura se povoa de muitos contos e romances e de personagens da vida real enfeitados pela imaginação popular. As comunidades sustentam que o povo aumenta mas não inventa - e as estórias recebem acréscimos aguardado, porém, a essência da verdade. A fantasia dos lobisomens nasceu de episódios verídicos. Ninguém ainda se deslembrou do padre que virava bicho e de noite pulava no meio da estrada para assaltar mulheres com intentos libidinosos. Umas destas, corajosa, enfrentou a visagem e deu-lhe segura facãozada. Descobriu-se depois que o vigário tinha um braço decepado.

Não cabe aqui estabelecer diferença entre mito, conto e lenda, mas dar a esta a característica de provir da concepção popular em torno de acontecimentos, de heróis, de individualidades famosas. As lendas se apóiam em fatos e pessoas tradicionais, que passam de geração a geração, modificando-se.

No Brasil, figuras históricas participam do folclore, e entre outras cumpre salientar Ana Jansen (Maranhão); Miguel de Sousa Martins (Visconde da Parnaíba); Luís Carlos Pereira de Abreu Bacelar, Luís Carlos da Serra Negra (no Piauí); Dona Beja e Xica da Silva (Minas Gerais); Amadeu Bueno (São Paulo), dos quais se espalham gestos e atitudes às vezes oriundas da interpretação popular.

Josias Carneiro da Silva buscou a fama ingrata de Simplício Dias da Silva e dela fez livro maravilhoso. nada inventou. Antes recolheu a voz do povo, o reconto andante da boca em boca, e realizou das mais ilustres narrativas que tenho lido. A gente não sabe mais distinguir nesta escritura, e o acertado é que cada um de nós admite o extraordinário conjunto de cousas do outro mundo, de crendices, de corpo-secos, almas do outro mundo, aspectos geográficos da Europa, arte, requintes, nobiliarquia, tudo exposto numa linguagem sã, vivaz, clara, para entendimento de leigos e doutores. Estilo elegante como convém aos mestres no assunto.

O confrade da Academia Piauiense de Letras abdicou das glórias patrióticas enaltecedoras de Simplício Dias da Silva, de quem mais arrecadar somente a moldura lendária, enfim as estórias maravilhosas que em torno dele criou a sabedoria do povo, que sempre aumenta, mas não inventa, conta o conto e acrescenta um ponto.

O livro ficará como obra-prima do folclore piauiense, melhor dizendo do folclore universal, porque o folclore não tem pátria, não se conforma com regiões, goza de universalidade. SIMPLÍCIO SIMPLIÇÃO DA PARNAÍBA é o título da obra-prima.


A. Tito Filho, 10/11/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 1 de novembro de 2011

TAPETY

Em 1988, publiquei neste jornal O DIA algumas considerações em torno do poeta oeirense Nogueira Tapety, cujo primeiro centenário de nascimento se comemora a 30 de dezembro de 1990. Em razão da proximidade dessa data, o ilustre presidente do Instituto Histórico de Oeiras, Pedro Ferrer, me faz justa reivindicação, a de reeditar o artigo referido, o que faço agora.

Nascido na fazenda Canela, do município de Oeiras (PI), em 1890. Pais: Antonio Francisco Nogueira e Antônia Pereira Nogueira. Formou-se pela Faculdade de Direito do Recife. Fez o curso jurídico assinando Benedito Francisco Nogueira. A denominação Tapety, apelido de família, conforme depoimento de Cristino Castelo Branco, ele resolveu incorporar ao próprio nome - Benedito Francisco Nogueira Tapety, literalmente Nogueira Tapety.

Promotor público, em 1912, da antiga capital do Piauí. Ano seguinte, delegado-geral de Teresina, com serventia no gabinete do governador Miguel Rosa. "Foi a oportunidade - conta Celso Pinheiro Filho - de Tapety reencontrar-se com os doutores boêmios, e os poetas simplesmente boêmios de sua geração, que faziam serenatas até o alvorecer".

Jornalista desde o tempo de estudante, colaborou no "Diário de Pernambuco", do Recife. Na capital piauiense tornou-se colaborador freqüente de "O Piauí" e enviava trabalhos para "O Diário", de Belém.

Cristino Castelo Branco lembra os seus colegas piauienses nos estudos jurídicos: "Desses, um dos mais inteligentes era sem dúvida o mulato de Oeiras, que a tuberculose levou em janeiro de 1918, aos vinte e sete anos de idade: Benedito Francisco Nogueira Tapety. Bom estudante, orador fluente, poeta inspirado". E acrescenta que sua maior aspiração estava em casar com uma moça bem alva, para ter filhos cor de café com leite: "Arrebatou-o a morte antes dessa suspirada produção de mestiços".

Em 1914, pronunciou conferencia no Theatro 4 de Setembro, de Teresina, sob o título "A Luz", em que estuda o sol perante a ciência, a religião e a literatura.

Passou à poesia e tornou-se magnífico poeta.

Lecionou filosofia, psicologia e lógica. Ano de 1915, surgiram os primeiros sintomas do mal que o vitimaria, a tuberculose. Buscou cura na Ilha da Madeira, chamada Pérola do Atlântico, pertencente a Portugal. Esperava a cura da natureza, do clima. Iniciou vida nova de muita fé. Fazia versos de entusiasmo e os publicava em jornal ilhéu. Admirável a sua "Ode a Madeira", dedicada a Laura Veras, dona do hotel em que se hospedara e que o tratava como filho querido e doente.

Finalmente a doença venceu todos os recursos. Quis morrer na fazenda Canela, pedaço de terra de seu nascimento. Aí o visitou o poeta boêmio Baurélio Mangabeira, um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras.

Ao falecer, em 1918, a casa em que morava foi purificada pelo fogo: a rede, as roupas, os calçados, os papéis, tudo queimado. Alguns acadêmicos, para homenagear-lhe a memória, propuseram que fosse incluído no quadro, da instituição, mesmo sem posse, e o seu nome passou a titular da cadeira 15, como primeiro ocupante.

Escreveu alguns poemas na ilha portuguesa e publicou-os.

Tapety tem lugar de relevo nas letras piauienses. Infelizmente o Piauí pouco ou quase não conhece a história e a grandeza espiritual dos seus grandes filhos, injustamente esquecidos e raramente estudados.


A. Tito Filho, 14/08/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O ÚLTIMO DOS MOICANOS

Faz poucos dias revi na televisão o filme O ÚLTIMO DOS MOICANOS, que eu havia visto cinqüenta anos passados, com um dos artistas mais populares do seu tempo, Randolph Scott, ídolo da meninada nas aventuras do velho oeste norte-americano. A história foi escrita por James Fenimore Cooper, o mesmo que deu à literatura dos Estados Unidos obras como "Os Pioneiros", "O Espião", e outros romances que li sobre lutas e caracteres humanos.

Cooper era historiador meticuloso. Criou tipos fictícios, mas fiéis à vida das comunidades do tempo em que viveu. Dele "A Pradaria", cuja ação se passa na região do búfalo. O homem íntegro se forma pela natureza e não pelos livros, como ensina o escritor. Aprendi muito do faroeste em Cooper, que glorificou a vida ao ar livre e fez da simplicidade um ritual.

Era bom. Naquele tempo, quando eu, molecote cheio de vida, recebia de meu pai dois mil réis todos os domingos, meu ganho semanal. Na rua Simplício Mendes, no trecho da rua Lisandro Nogueira à praça Rio Branco, meio do quarteirão, estava o cinema Royal, de segunda classe. Exibia muito filme de caubói, com sessões iniciadas pelas seis e meia da tarde. Salãozão comprido, bancos de madeira sem encosto dos dois lados e a passagem dos freqüentadores pelo meio. Eu gostava das aventuras espetaculares dos artistas que sempre venciam os bandidos covardes. Também havia os seriados. Seis semanas seguidas, cada semana um pedaço da estória, e o jeito que se aguardasse, curioso, a continuação no domingo seguinte.

Dois mil réis de meu pai valiam alguma cousa. A entrada do cinema saia por seis contos réis. Na saída do espetáculo, a gente dava duzentos réis por quatro cigarros marca Regência, comprava cinco bolos fritos por cem réis (um tostão *) o resto dos bagarotes para um sorvete ou um copo de refresco de gelo rapado.

No velho Royal trabalhavam os meus ídolos mais impressionantes, entre os quais Buch Jones, Tom Mix, Tim McCoy. Entusiasmavam-se as aventuras, a pontaria certeira dos caubóis. Só hoje, depois de muita leitura, pude compreender as fantasias que o cinema me mostrava na época da saudosa adolescência. Os feudos. O reino do gado. O mundo selvagem duro com os fracos. Os fortes cuja vida dependia da faca e do revólver. OS SALOONS de violência. Um mundo de libertação explosiva e derivativa do jogo e das bebedeiras desenfreadas como substitutos da mulher.

Lei da pistola sobre o balcão da bebida e sobre a mesa do jogo. Violência do índio contra o branco e vice-versa. Índio bom é índio morto, diziam os homens do oeste brutal. tudo um excesso de vitalidade. Álcool, pôquer, matança profissionais, a lei do Colt, num mundo de apetites sexuais sem que houvesse mulheres. Daí o mito das fêmeas raríssimas.

A tribo dos moicanos deu a Cooper o motivo do romance que eu revi agora, no mesmo filme de cinqüenta anos passados. O mesmo Randolph Scott, herói de minha adolescência risonha e feliz, o Scott altão, esguio, tiro certeiro, defensor dos fracos, punidor dos malvados. Lembrei-me dos tempos nos grosseiros assentos de pau no saudoso cinema Royal de Teresina, casa de segunda ou terceira classe, onde a molecada se divertia, assobiando nos momentos de perigo. Não pude esquecer a moeda valiosa que meu pai me dava e que me proporcionava alegrias sem conta, época bendita em que ninguém ouvia a palavra dólar na tranqüila e pitoresca Teresina.


A. Tito Filho, 04/11/1990, Jornal O Dia


* Palavras apagadas no original

JULGAMENTO

O ministro da Agricultura, Iris Resende, enviou à Academia Piauiense de Letras a seguinte mensagem:

"Impossibilitado de comparecer à sessão solene em que a histórica Academia Piauiense de Letras empossa o ilustre escritor João Emílio Falcão Costa Filho em sua Cadeira 26, tendo como Patrono o escritor Simplício Resende e o exemplo de sua vocação, tomo a liberdade de daqui enviar a minha congratulação à Casa e aos seus dignos integrantes.

Conheci João Emílio Falcão em Brasília e logo notei uma personalidade singular em sua atividade de jornalista.

Dono de uma marca extremamente pessoal de trabalho, é um jornalista sempre inquieto e curioso, permanentemente contemplando o mundo à sua volta a preocupação de consertar o que não está correto.

Com seu estilo próprio, sabe ser sarcástico em suas crônicas no jornal quando a situação o exige, implacável nas suas perguntas como entrevistador na televisão quando defende o bem comum, mas também um homem extremamente generoso.

Falcão, como jornalista, convive em altas rodas de poder participando de discussões e confabulações da política nacional, mas não se ilude em relação a realidade.

Com muita argúcia, sabe distinguir o mundo real do mundo dos poderosos e, ao mesmo tempo, não perde a atenção sobre problemas que acontecem por toda parte, por mínimos que sejam.

Enquanto discute os mais altos problemas da República, Falcão não esquece o humilde brasileiro que, no ponto mais remoto do território nacional, enfrenta um problema qualquer, como o pequeno agricultor às voltas com a necessidade de sobreviver.

Verifiquei mais tarde que esse é o universo do escritor João Emílio Falcão, com a mesma inquietação, curiosidade, preocupação, argúcia, espontaneidade e generosidade.

Com a mesma marca pessoal, o escritor Falcão revira o mundo da ficção em busca de contribuições concretas para a justiça social, que vão além das preocupações estéticas de um artista, sempre sem perder qualidades eminentemente literárias.

É comovente a preocupação do escritor com as misérias e os pobres coitados que se perdem no interior deste Brasil imenso, relegados pelas elites pensantes e administrativas, mas que, na realidade, constituem a grande massa que, muitas vezes anonimamente, faz o Brasil, o Brasil real.

A posse de João Emílio Falcão como membro da Academia Piauiense de Letras é, evidentemente, o reconhecimento definitivo dos valores do escritor, que em cenário tão ilustre passa a ter mais espaço para o seu trabalho e suas inquietações de cada dia, além de valorizá-lo com a sua presença.

Estou certo que, com esta posse, a imortal Academia, o grande escritor e todo o Piauí avançam mais ainda na unidade entre todos, na identificação da obra que constroem e no aprofundamento de seus compromisso com as artes, o pensamento crítico e o mundo que nos envolve".


A. Tito Filho, 03/03/1990, Jornal O Dia

domingo, 23 de outubro de 2011

IMITAÇÃO

No Brasil se vem praticando a brincadeira denominada HALLOWEEN, assim definida pela gente norte-americana: THE EVE OF ALL SAINTS' DAY, FALLING ON OCTOBER 31 AND CELEBRATED BY CHILDREN WHO GO IN COSTUME FROM DOOR TO DOOR BEGGING FOR TREATS OR PLAYING PRANKS. Brincadeira às vezes de mau gosto. Em novembro já se criou entre os brasileiros o Dia de Ação de Graças, instituído pelo presidente Eurico Dutra, cópia do THANKS GIVING DAY, comemorado cá como lá na penúltima quarta-feira de novembro quando o mês tem cinco quartas-feiras ou na última se o mês tem apenas quatro quartas-feiras.

Em 1930, Getúlio Vargas subiu ao poder. Repudiou a influência inglesa no país e se passou para os Estados Unidos, país ambicioso de riqueza, que logo, por através do cinema, realizou mudanças, para pior, nos costumes e hábitos brasileiros. Pouco a pouco dominou o Brasil nos processos culturais. Depressa o povo começou a usar os enlatados. Fecharam-se alfaiatarias e todos aderiram ao uso da roupa feita. Estabeleceu-se a moda do desnudamento feminino. O uisque substituiu nas cidades a boa pinga nacional.

Quando cheguei ao Rio, com o objetivo de estudar o curso superior, topei com uma cidade de prédios baixos. O edifício mais alto, de 20 e 22 andares, era o prédio das empresas nacionais, constituídas do jornal "A Manhã", revista "A Noite Ilustrada" e a rádio Nacional. Na principal avenida, a Rio Branco existiam prédios de cinco e seis andares, no máximo. Na avenida Atlântica, situada à beira-mar , batizada de praia de Copacabana, viam-se casas residenciais de andar térreo ou de dois pavimentos apenas.

A CIVILIZAÇÃO norte-americana transformou Copacabana numa selva de cimento armado. Surgiu a vida em apartamento, com porteiro e elevador. Liquidou-se por toda parte a tranqüilidade dos cariocas.

E o arsenal de remédios dos laboratórios estrangeiros? E o turismo, invenção norte americana para que o povo gaste na visita aos cenários alheios enfeitados, mas ainda assim iguais ou piores do os nossos?

Observe-se que o seqüestro de pessoas por bandidos, que pediam altos resgates dos rancheiros ricos, começou no oeste dos Estados Unidos, nação onde teve início também o gangsterismo urbano, da forma que o cinema estadunidense mostrou nos exemplos de Al Capone e Dillinger. Crimes brutais e violência sexual o cinema da terra de Bush apresenta aos nossos patrícios na constância dos dias e das noites. As casas comerciais de brinquedos vendem presentes representados por revólveres, tanques e quantas crianças aprendam a matar, obedientes às lições de violência de que se encontra rica a história dos Estados Unidos.

A bela língua portuguesa cada dia vai sendo suplantada pela lingua. no Brasil se fala o PORTUGUÊS.

Ao cabo das contas, a terra de Cabral imita o papai grande em tudo, numa americanização vergonhosa.


A. Tito Filho, 13/12/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ALVINA

Todos os conheciam em Teresina. Técnico competente e afamado. Veio da terra do nascimento, Portugal, antes da 1ª Grande Guerra, e fixou-se em Belém. Depois, contratado pelo governo do Piauí, assistiu no interior piauiense, município de Oeiras, para montar máquinas de fabricação de laticínios.

Por muito chão - Pará e Terra de Mafrense - gastou dez anos de vida, a partir de 1912, e escolheu a Chapada do Corisco, a cidade fundada por Saraiva, para, em 1922, nestas de funilaria, até a viagem derradeira, no ano da graça de 1953 - a viagem sem bilhete de volta. Trinta e um anos de xodó e de amigação com a comunidadezinha simples e humilde, a que ele oferecia a constância de gestos de afeto, socorrendo os velhos com dinheiro e refeições.

Chamou-se Pedro Antônio Maria Fernandes, conforme o assento de cartório. Ao chegar ao Brasil, as autoridades viram a palavra Pedro entre parênteses no final do nome todo, então quiseram que ali estivesse o antenome ou pronome.

Não corrigiu o equívoco. E Pedro ficou como designativo de família.

Antônio Fernandes Pedro exercia a indústria e o comércio numa casa do centro de Teresina, esquina com o antigo Banco do Brasil, na rua Eliseu Martins, perto da praça Rio Branco. Era um prédio baixo, atijolado, bem limpo, em que o dono tinha também o reto agasalhador. Num dos lados, o que dava para a rua Barroso, havia a loja de venda dos objetos por ele fabricados - e aí se reuniam os comandantes intelectuais do meio, de amanhã e de tarde - e como Antônio Pedro lhes apreciava a convivência diária, para o cafezinho e boa prosa ilustrativa, alegre e folgozã. Esmaragdo de Freitas, Cromwell Carvalho, Mário Baptista, Higino Cunha, Celso Pinheiro, Martins Napoleão, Pedro Britto, Cristino Castelo Branco, Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, Simplício Mendes, Benjamin Baptista, Álvaro Ferreira, Arimathéa Tito, Artur Passos e muitos ouros - magistrados, médicos, poetas, historiadores, políticos, gente fina, fizesse sol ou deixasse de chover, não dispensavam o bate-papo com o funileiro, do modo que afetivamente era chamado o português de bom caráter e excelente camaradagem, de agudo senso intelectivo, trabalhador, alma feita de fraternidade.

Alvina Fernandes Gameiro teve para quem puxar o gosto pelas cousas do espírito. Filha de Antônio Pedro, como o pai, desde meninota gostava de tudo que proviesse da inteligência.

Alvina publicou agora Curral de Serras, obra-prima da literatura nacional, em primorosa edição de editora carioca.

O ponto alto deste Curral de Serras é a fixação da linguagem desses trechos humanos sem contatos com o processo e com as transformações dos modos de viver dos povos.

A linguagem dos homens se manifesta por processos vários. Há a literária, polida, asseada, rica, regida por preceitos gramaticais, existe a usual, despoliciada, de todas as horas, a linguagem chã, planiciana, de estragos fonéticos, governada pelo menor esforço, aquela que é o veículo de entendimento geral. Adiante linguagem dos gestos - dos dedos, da cabeça, do piscar de olhos. E ainda a gíria, por via da qual o povo ironiza pessoas e episódios, e estabelece relações entre os objetos, a gente e os fatos. E mais: o processo da linguagem emotiva e o do calão. E também uma maneira especial de comunicação, de causas profundas - um modo de ser representado pelo linguajar das pequenas paisagens populacionais, de reduzidas comunidades de povo, de lugarejos e vilas - um processo alatinado, cheio de encanto, de originalidade, de sabor ingênuo, conservado, inconscientemente, durante anos a fio, pelos habitantes desses arraiais, em virtude da segregação e da distância.

Alvina "fotografou" essa linguagem que se mantém no caipira, no matuto - e a grande escritora oferece mais ao leitor: um correto glossário, de natureza explicativa, tão íntegro quando a ciência que a autora tem do material lingüístico estudado.

Raras vezes a vida literária nacional recebe obra de lavor e de encanto, a modo deste Curral de Serras, romance ímpar, obra-prima de criatividade e documento da expressão sincera do caboclo nordestino.


A. Tito Filho, 14/10/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

CULTURA

Rui Caetano Barbosa de Oliveira era o nome todo do grande brasileiro, que se reduziu a Rui Barbosa, cuja cultura jurídica causou admiração aos nomes mais notáveis na célebre conferência de Haia, na Holanda, menos conhecido no seu país de nascimento, nos dias de hoje, do que um dançador de lambada. Veio ao mundo num 5 de novembro, escolhido para que nele se comemore o dia da cultura. Que cultura? Cultura pode dizer-se o conjunto de processos de vida de um povo e por este modo se dirá da sua felicidade ou desgraça. Como se caracterizam os brasileiros? Uns cinco por cento passam à tripa forra, no luxo, nos grandes centros turísticos, donos da escravaria de milhões cujo trabalho vale salário mínimo, que mal compra meio quilo de carne por dia. No país colonizado por portugueses safados habitam uns cento e vinte milhões entre os analfabetos, os que mal assinam o nome, os que treinam o desenho do voto, o empresariado da indústria e do comércio que apenas lê a cotação do dólar, os bandidos milionários de colarinho branco, as crianças e adolescentes sem escola, os que não têm a mínima idéia do que seja conhecimento da ciência, da literatura, das demais artes, das lições da natureza.

Como educar para a cultura? Pelos instrumentos necessários e competentes, pelas instituições sociais, pelos meios de comunicação. No Brasil esses modos de interpretação das coletividades funcionam? Nunca dos nuncas. Família pervertida e sem autoridade, escola falida ou de balcão comercial, meninos sem afeto materno, ausência completa de leitura, inexistência de princípios morais, linguagem de calão, autoridades sem equilíbrio mental, televisão a serviço da violência ou do sexo ao vivo. Por mais que os heróis, e são poucos, se esforcem, conseguem quase nada neste deserto de homens e de idéias em que * o Brasil. Antigamente havia ao menos o bom exemplo dos responsáveis pela vida pública. Hoje, besta é o que não furta e enche o bandulho da dinheirama resultante de privilégios criminosos. Que se fez do cinema como arte que sempre foi, cujos temas estavam nos grandes conflitos humanos ou nas comédias que mostravam a vida e suas personagens com naturalidade e espontaneidade?

Conheci o Brasil de outros tempos em que o governo incentivava a vida teatral e surgiam as companhias de artistas que na verdade educavam por intermédio de peças bem interpretadas e de mensagens que faziam o povo observar a crua realidade das causas. Era bom. O teatro nacional viveu dia de glória e esplendor artístico. A dança e a música se dirigem nestas últimas décadas aos instintos de um povo sem o menor vislumbre de lucidez mental. Foi-se o tempo de um Francisco Alves, o velho Chico, que enviava melodias ao espírito romântico das gentes. Agora as multidões ululantes se requebram enlouquecidas com as desordens das gritarias dos roquiniróis.

Pobre Rui Barbosa. No dia da cultura, criado para homenagear o notável brasileiro, o Brasil já não possui um insosso ministério da cultura, financiador de péssimo cinema e que jamais efetivou, nas tevês e nos rádios, programas culturais, embora esses instrumentos sejam concessões do governo. A cultura nacional se resume nos mais degradantes processos de vida da sua população, socada nas favelas das megalópoles, jovens sem horizonte buscando na droga o lenitivo da degradação física e mental, a legião dos analfas e dos obtusos de inteligência, a esperteza como sistema de triunfo, as perversões sexuais de protestos contra a masculinização feminina - eis a homenagem que o Brasil vem prestando a Rui Barbosa, esse homem desconhecido.


A. Tito Filho, 06/11/1990, Jornal O Dia

* Apagado no original

sábado, 8 de outubro de 2011

ASSUNTINHOS

Anfrísio Lobão Veras Filho exerceu com proficiência e coração a medicina em Teresina. Nas eleições municipais de 1924, para o quadriênio 1925-1929, fez parte da chapa de candidato a intendente, João Luís Ferreira. Foi o vice de João Luís. Ambos se elegeram. Aconteceu que o intendente também se elegeu deputado federal e optou por este último mandato. Assim, Anfrísio tornou-se intendente de 2-1-1925 a 2-1-1929. O chefe do Executivo de Teresina tinha sido um dos fundadores do Banco Agrícola, que se transformaria em Banco do Estado do Piauí. Depois, triunfaria como candidato a deputado estadual e por consenso dos seus pares presidiu a Assembléia Legislativa. Governador interino do Piauí. Membro do Tribunal de Contas. Nascido na terra piauiense de União, faleceu em Teresina, 1954. No momento em que o governador Alberto Silva, neste ano da graça de 1990, inaugura o seu propangadeado PRÉ-METRÔ, num dito primeiro trecho, em me lembrei de Anfrísio que, em 1927, adquiriu um bonde motorizado em São Paulo e inaugurou a linha de transporte popular da estação da estrada de ferro ao rio Parnaíba. Pioneirismo. Audácia. Certamente o bonde desapareceu por falta de freguesia. Ninguém se lembrou, na discurseira, do pioneiro Anfrísio.

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No Rio, as dondocas e as balzaquianas andam de dentuças à mostra, passeando com os seus bonitos cães domesticados? Razão? O empresariado carioca está ganhando os tubos com a novidade maravilhosa: os postes especiais para o xixi da cachorrada. Custam uma nota, mas são elegantes, de fino acabamento e têm farolitos de pilha para uso noturno. Denominação dos interessantes objetos, que são conduzidos pelos rabos-de-saia ao lado dos respectivos cachorros: PIPI-DOG. Os empresários de Teresina muito lucrarão importando o PIPI-GAY para instalação na praça de Dom Pedro II.

*   *   *

Estive pensando muito. Embora entenda patavina de economia e seus mistérios encontrei remédio infalível para liquidar a inflação nacional, doidamente disparada contra a bolsa dos bestas do pauperismo. Pois bem. Basta que as autoridades nacionais, estaduais, municipais, estatais, paraestatais, autárquicas e seus respectivos auxiliares, familiares e cupinchas deixem de roubar pelo menos quinze dias no mês. Dia sim, outro não. Dia sim, outro também, não há bumbum de peruano que agüente.


A. Tito Filho, 06/02/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

UMA CARTA

Recebi esta expressiva carta:

"Depois da frustração do Halley, do buraco no Ozônio, de Chernobil, do Césio em Goiás, da destruição de Sete Quedas, dos abalos sismicos no México e na Califórnia, do Batou Mouche, da Aids, da destruição do Líbano, da Primavera de Pequim, da invasão do Panamá, das guerras por rivalidades étnicas e tribais, o Planeta Terra não é mais o mesmo.

Os anos 80, implacáveis ceifadores (Elis, Lennon, Drummond, Coralina, Nara, Buñuel, Dali, Borges, Chagal, Hitchcock) deixaram-nos órfãos na arte e na vida, marcas profundas e indeléveis.

Não, não podemos ser os mesmos, também porque a contracultura nega e resiste, o povo foi às urnas, derrubou o muro de Berlim e Nicolae Ceausescu, o Leste Europeu fragmentou-se no seu totalitarismo, caíram varias ditaduras militares na América Latina, as mulheres, muitas, subiram ao poder (Erundina, Corazon, Dorothéa, Benedita) o bebê de proveta e os segredos da genética desvendados, as fibras óticas, os supercondutores, os compact-disc, e a nossa vida invadida maravilhosa e bandidamente pelo faz e o computador. Tivemos uma década furiosa, mefistofélica de quem destrói o tempo inteiro pra poder recriar e lançar moda. Vivemos os anos pós-tudo, onde até o pós-moderno é póstumo (natimorto?).

Mas, apesar da erupção do Vesúvio, do amor com medo da AIDS, de Bucareste em chamas, o povo festeja.

Apesar das tropas ianques, os panamenhos e seus batalhões resistem em nome da dignidade e da cidadania.

Apesar da inflação de 55% ao mês, da violência e do medo, os brasileiros crêem e nós, é claro, ainda fazemos poesia.

Feliz, 1990. Felizes anos 90, onde as certezas substituirão as dúvidas e os medos, onde o trabalho substituirá a inércia e as falcatruas, onde a fraternidade substituirá o egoísmo, onde as paixões substituirão a apatia e o amor reinará absoluto".


A. Tito Filho, 04/01/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

CONSIDERAÇÕES

José Eduardo Pereira se vem revelando dos mais lúcidos jornalistas piauienses dos nossos dias. Comentários lúcidos, oportunos, construtivos. Faz poucos dias examinou e bem a questão das casas de cultura do Piauí abandonadas. Noutro artigo convocou atenções para a criminosa publicidade de órgãos públicos, pelos jornais, rádios e televisões, noite e dia, para o endeusamento de pretensos candidatos a cargos eletivos. Faz gosto a leitura do jornalismo do colega da esquerda desta página.

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O futuro ministro da Justiça prometeu a pregadores do Evangelho, no rio, que pedirá aos responsáveis por televisões que evitem as cenas de gente NUA, sobremodo neste carnaval. Até os animais, na sua grande maioria, fazem sexo às escondidas, com exceção dos cachorros e respectivas cadelas, que são cínicas a partir do nome. Logo se exaltaram os partidários da liberdade assegurada pela Constituição Federal. Um crime não permitir que a Tieta faça a sugação, na cama, das últimas energias do pobre seminarista que, pela primeira vez, via a abundante flora da esperta Messalina. Neste país democracia vale o mesmo que liberdade total de colocar os possuídos à mostra, passar fome, ter residência e domicilio debaixo das pontes. Não há democracia onde as minorias ricas oprimem e sufocam as maiorias miseráveis.

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Formei-me em direito. No ano da graça de 1955, meu inesquecível mestre Edgar Nogueira, que se tornaria o magnífico ditador do Poder Judiciário do Piauí, me ofereceu várias vezes um lugar de juiz de direito no interior. Era bom, dizia. Promoções ligeiras, pois eram raros os bacharéis que aceitavam a formidável aventura. Estradas intransitáveis. De Teresina ao velho Marruás meio-dia de viagem no verão. Imagine-se no rumo do sul do Estado. Demais de tudo, a politicagem não permitiria a independência do magistrado. De vez em quando se matava um desses pupilos de Edgard Nogueira. Desisti. Hoje seria desembargador, com cem mil bagarotes mensais. E por que não nasci eu simples filha de desembargador. Uma velhota filha INUPTA (nome bonito e difícil) de desembargador falecido está mamando dos cofres piauienses cerca de cinqüenta mil cruzados novos cada mês, só para se coçar. Casando-se, perde a pensão. Amigando-se, nada acontece. Brasil bem Brasil.


A. Tito Filho, 04/02/1990, Jornal O Dia