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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O CRIME

De primeiro matava-se o sujeito que deflorava a moça-donzela e não queria reparar a dívida. Às vezes o pai da menina dava preferência à castração do indivíduo. Por causa dessas vinganças, provocaram-se lutas de clãs familiares, que se dizimavam. Também o marido enganado matava e continua a matar a mulher adúltera e vice-versa. Surgiu a violência rural de Lampião, Antônio Silvino e outros fora-da-lei que vingavam crimes policiais, Antônio Conselheiro fundou o império de Canudos para defesa de trabalhadores explorados pelos coronéis do cacau.

Ninguém mais segura a violência. Nestes atormentados anos da revolução de 1964 até os dias deste quase final da década de 90, prossegue a luta sem alma, agora entre latifundiários e pobres homens que querem os frutos do trabalho na terra. Institui-se o seqüestro de autoridades, para que se soltassem presos políticos, e de crianças e ricaços, para os lucros do resgate. Nos centros urbanos populosos, roubam-se bancos e empresas para o gozo de gordas fatias financeiras e assaltam-se pessoas e casais para despojá-los de jóias e dinheiros ou a posse carnal da mulher. Chegaria a era do pistoleiro sob contrato para a eliminação de inimigos ou de sócios inconvenientes - estes a fim de proporcionarem riqueza fácil aos mandantes e aqueles para o exercício da vendetta, o crime-cão, o crime-sujo efetuado por tipos que ao menos conhecem a vítima.

Quais as sementes de tanta violência, do ódio, como das ambições vulgares?

Neste atribulado fim de século o homem vive sufocado por pressões de toda natureza, daí a agressividade e os atos anti-sociais. Promove-se o crime no jornalismo pela glorificação dos criminosos aos quais se transmite autoconfiança na conduta violenta. A TV projeta durante horas, dia por dia, as imagens de um mundo perigoso e de um cenário irreal de bens materiais inacessíveis mandando mensagens de conteúdo violento e sexual, e o seu objetivo está em função do consumo ameaçando a cultura. Para todos revela-se o ambiente familiar em desintegração. Tornou-se a droga o elemento encorajador do crime. Os magnatas, os barões do dinheiro têm tudo - mesa farta, bacanais do álcool e prostitutas de luxo, carros do último modelo, viagens nababescas aos centros do turismo internacional, e os miseráveis [que] se conformem com a fome, a habitação desumana, a nudez e a ignorância dos filhos. Nas esferas oficiais, verificam-se os exemplos malsãos de fingimento, das mordomias, dos planos cruzados gerando a desconfiança, do fisiologismo dos políticos sem crédito, a impunidade dos imensos roubos na causa pública.

As cidades turísticas constituem antro de vícios. As suas praias representam centros de prostituição alta e baixa. Os nababos saem do Rio de Janeiro com mariposas alugadas de Paris.

Neste ambiente de vícios e de negação de valores morais e espirituais da falsa cultura brasileira de hoje, do jornalismo sensacionalista, a TV comercializante e forte no prestígio e empresários desalmados, nesse mundo perverso vive o brasileiro, cercado de frustrações por todos os lados - frustrados e sem fé, o brasileiro do salário-mínimo, cujos sindicatos de classe não têm independência ao menos para o protesto, quanto mais para negociar o trabalho e o seu pagamento digno.

Gilberto Freyre contou que os muros antigos tinham cascos de vidros para evitar o roubo de donzelas. Hoje as casas dos magnatas, nos bairros das cidades grandes, têm muros de 3 metros para que se evitem assaltos e assassinatos.

As raízes da violência são visíveis. Até quando elas desafiam a inteligência dos perversos, que negam a justiça social?


A. Tito Filho, 15/08/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

AINDA O MENOR

Condena-se de modo unânime o Estado brasileiro e a sociedade pela triste situação em que se encontram, por toda parte, meninos e adolescentes, abandonados à própria sorte, sem afeto, famélicos, dormindo ao relento, na prática do furto e da violência. O Brasil se divide entre pobres e ricos - estes uma minoria privilegiada, aqueles a quase totalidade, representados por certa classe média proletarizada e pelo operariado sob regime de permanente exploração. Na cúpula as lideranças representativas do governo. Compraz-se a minoria nas viagens de turismo, nas orgias de uísque e sexo, nas vestes milionárias para a futilidade vaidosa, nas recepções nababescas dos casamentos e dos aniversários de luxo, com o desperdício de milhões e milhões de dinheiros. De seu lado, o governo sustenta mordomias, dissipa nos banquetes, na profusão dos gastos com autoridades e familiares e nos maus exemplos da corrupção, do nepotismo e da impunidade. A televisão, instrumento em poder de empresas privadas a serviço de poderosos grupos econômicos e políticos, tem o objetivo fundamental da dissolução dos costumes morais e da vida espiritual, por através das cenas de adultério, de alcoolismo, de filhos esbofeteando e xingando pais, de devassidão nos gestos e nos trajes; ou tem a meta de provocar o medo e a angustia, mostrando crimes nefandos, estupros, desastres, deformações físicas, incêndios, quebra-quebra, a fim de que todos se desinteressem pelos tristíssimos problemas de um país explorado de todas as formas; e ainda tem o jornalismo televisado, como processo de propaganda, a filosofia de fazer que o brasileiro gaste ou a deturpação cultural pela linguagem malferida ou pelo culto no NU. Mas a televisão esconde a realidade da família miserável, da mendicância, da escola desaparelhada, de inescrúpulo de bancos insaciáveis, da comercialização do ensino, da prostituição desenfreada, de homossexuais nas altas e baixas esferas sociais. Em meio à degradação quase generalizada, a criança, o adolescente e o jovem, todos sem horizonte, sem teto, sem roupa, sem instrução, sem afeto, - e a eles os maus exemplos, os tristes exemplos dos que deveriam educá-los para a vida. Estas as razões veementes que condenam, no caso, a sociedade dos homens, mal organizada e sem justiça social, e condenam o governo, em todas as suas esferas, cujos chefes as mais das vezes se conduzem por enervantes personalidades e reprováveis omissões. A vida familiar se encontra em dissolução. Pais e filhos mal se cumprimentam no recesso dos lares. Maridos e esposas vivem na rua, rebentos também, ou em torno das lições novelescas televisadas, nos chamados horários nobres. Nada se lê senão tolices. Não se estudam fatores culturais. Tudo se negocia, até a honra. Loucos são os que pregam no deserto. Salvar o menor é, antes de tudo, dignificar a família, concedendo-se a esta as condições para auferir os bens essenciais da vida - a habitação humana, a educação, a alimentação, o trabalho valorizado, o lazer decente, a renda justa, como queria e do jeito que ensinou o santo padre João XXIII.


A. Tito Filho, 07/08/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

DESFILE DE MAMAS

Escrevi num livrinho humilde, a que dei o título de Sermões aos Paixes, que por toda parte se estampam mulheres seminuas, quase nuas, nádegas descobertas, seios perfumantes à custa de látex. A propaganda necessita de ser olhada, por através do erotismo cientificamente dirigido. Consegue-se a sexualização dos sentidos depois das lambadas, meninas de saias rodopiantes para que revele o fundilho das calcinhas quase desaparecido entre locais que antigamente se diriam pudibundos.

Os norte-americanos, sempre sabidos, instituíram os concursos de misses e contagiaram a América Latina dessas competições para escolha da mais bela estudante, da garota fotogênica, da misse praia, da misse universo, da misse mundo e outros espetáculos de desnudamento, para lucros fabulosos. E a cupidez dos assistentes masculinos estrondaria em palmas demoradas de exaltação do nu.

Em Teresina, o soçaite ocioso e fútil inauguraria o desfile para escolha do veado mais apetitoso, numa noite de triste memória. A platéia delirava e batia palmas ensurdecedoras. Os homossexuais masculinos, brinquinho nas orelhas, peças íntimas femininas, sutians nos seios de silicone, desfilavam na passarela enorme, sob os fortes focos de luz das televisões. Era a glória terrena conquistada à custa da sexualidade anormal. Garotos na assistência recebiam o exemplo consagrador e se conscientizavam de que não havia necessidade de estudo para educar a inteligência e alcançar posições de merecimento na sociedade. Muito simplesmente o triunfo se alcança por meios mais simples, justamente por através de posições invertidas.

Viva o soçaite que vibra nesses espetáculos de sordidez. A novela faz o resto, num palco em que as cenas de sexo televisadas fazem a alegria maior de um povo deseducado para as responsabilidades da vida.

Não se viam na outrora tranqüila e carinhosa Teresina os beijos cinematográficos no meio das praças, as garotas de seios artificiais por baixo de blusinhas transparentes, o biquíni de chumaços com forros traseiros. Já agora se criou o processo de premiar a menina que, num desfile, apresenta as mamas mais salientes, mais empinadas, mais provocadoras de erotização dos sentidos de assistência masculina, ébria do espetáculo de depravação e falta de pudor. Sabe-se que o espetáculo de luxuria se passou no Parque Piauí e que as garotas do espetáculo andavam pela faixa dos 12-15 anos rodeadas de machacás tarados.

Tenho escrito durante anos que a televisão brasileira nada se preocupa com a educação da juventude. Muito fácil, pois, que se copiem os seus exemplos, explorando a nudez de meninotas menores para o ganho do dinheiro fácil.

Teresina transformou-se na capital do vício e do desregramento moral. Brevemente haverá o desfile de sapatões, homossexuais femininos merecedores de melhor sorte ao lado de homens de verdade.


A. Tito Filho, 22/09/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

INSULTO

Era sábado, dia 15 deste setembro corrente. Dia de sessão na Academia Piauiense de Letras. Meu estimado colega João Gabriel Baptista, mestre universitário e figura do mais alto conceito na ciência geográfica, mostrou-me pequenino recorte do jornal teresinense "Diário do Povo", de 9-9-1990, com estes dizeres: O POETA H. DOBAL NÃO PODE ENTRAR NA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS. SERIA UMA INJUSTIÇA MUITO GRANDE COLOCAR UM POETA TÃO BRILHANTE NUM LUGAR CHEIO DE POLÍTICOS MEDÍOCRES E DESEMBARGADORES.

Perguntei a Gabriel como se denominava o autor do insulto. Disse-me que não memorizou o nome do sábio, parecendo-lhe que se tratava de um colunista.

Faz poucos dias o jornalista Kenard Kruel tratou do assunto H. Dobal em página do "Jornal da Manhã". Mandei-lhe corretíssima explicação: o talentoso poeta piauiense nunca se candidatou à Academia Piauiense de Letras, e no referido órgão de imprensa se publicou uma carta de H. Dobal em que este escreveu que não cogitou o ingresso porque se considerava doente, sem as energias necessárias para participar do trabalho acadêmico.

Desconheço o autor da nota rica de baixeza. Atesta o magnífico Clidenor Freitas Santos que os homens se dividem em dois tipo: os psicopatas e os psiquiatras. Os primeiros são entidades de cérebros doentios, merecedores de compaixão. Os segundos constituem os que procuram curar a debilidade mental dos primeiros e se alegram e se tornam felizes com a boa convivência humana.

Jornalista que se preza não insulta, não ofende, não humilha. Antes procura as boas qualidades dos semelhantes e das instituições para incentivar uns aos outros. Anti jornalista é o injusto, o invejoso, que nada oferece à vida social senão insolência e ignorância.

Dedicou-se o ano de 1990 a erradicação do analfabetismo, numa campanha de alfabetização. Certos escrevedores de jornal entendem que a luta se deve fazer para analfabetizar os brasileiros, e acentuam nos seus escritos os exemplos de ensinança de como menosprezam numa instituição ilustre, a mais antiga do Piauí e que guarda na sua história altas expressões de nossa vida cultural.

Meu pai me ensinou que a gente conhece os homens pela coragem nos gestos de cada um. Quem não assume e comprova a denúncia de peito aberto não pode exercer o jornalismo. Que se disse no insulto frouxo e debochativo? Simplesmente que a Academia Piauiense de Letras corresponde a um lugar CHEIO DE POLÍTICOS MEDÍOCRES E DESEMBARGADORES. Não teve a dignidade necessária para arrolar nomes. A Academia possui apenas, no momento que passa, dois desembargadores nos seus quadros, Paulo Freitas e Manfredi Mendes Cerqueira, comparados pelo jornalista a tipos que enodoariam a presença de H. Dobal na Casa de Lucídio Freitas. Os demais acadêmicos que manchariam a presença do grande poeta são os seguintes: Hardi Filho, Celso Barros, Clidenor Freitas, Lili Castelo Branco, Alberto Silva, Gerardo Vasconcelos, Herculano Moraes, Humberto Guimarães, Gabriel Baptista, monsenhor Chaves, Camilo Filho, J. Miguel de Matos, Tito Filho, José Eduardo, Josias Carneiro, Romão de Silva, Nerina Castelo Branco, O. G. Rego de Carvalho, Palha Dias, Wilson Brandão, monsenhor Sampaio, Dagoberto Jr., Aluízio Napoleão, Carlos Castelo Branco, Alvina Gameiro, Cláudio Pacheco, Hugo Napoleão, João Emílio Falcão, Paulo Nunes, Raimundo Santana, Bugyja Britto, Deolindo couto, Reis Veloso, Renato Castelo Branco e Salomão Chaib.

Os indivíduos invejosos, injustos, xingadores, gostam de denegrir a personalidade dos semelhantes. São egoístas doentes. H. Dobal nunca se candidatou à Academia Piauiense de Letras. Logo, não pretende honrá-la, pois todos os acadêmicos lhe sufragariam o nome com irrecusável prazer. Ninguém pode votar num candidato inexistente.

H. Dobal deveria estar numa das poltronas da Academia Brasileira de Letras, tamanha a majestade lírica e objetiva dos seus poemas inimitáveis, sobretudo os que se sustentam da força telúrica e das personagens da vida social e histórica do Piauí.

Cabe ao jornalista insultador relacionar os nomes dos políticos medíocres e de desembargadores que desmerecem o título acadêmico. Caso contrário, a sentença continua atual: PUERIS, SACER EST LOCUS, EXTRA MIGITE.


A. Tito Filho, 20/09/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

SUPERIORIDADE E INFERIORIDADE DOS POVOS

A questão da superioridade dos povos, ou das "raças", tem apaixonado espíritos de valor nos domínios da ciência. Aos dolicocéfalos loiros atribuiu-se o privilégio da raça superior, destinada a cumprir uma missão civilizadora especial. Difundindo teorias de inexatidão científica comprovada, homens como Gobineau "promoveram a eclosão de preconceitos de raças".

Bem fácil de notar é que a ciência é infensa aos preconceitos.

"Onde quer que o grupo branco resida, por uma concorrência de circunstâncias políticas invencíveis, imerso nos gelos polares, ou sob o calor do Equador, para esse lado se inclinará o centro de gravidade do mundo intelectual. Será em torno dele que todas as idéias, todas as tendências, todos os esforços convergirão, não havendo obstáculos naturais capazes de obstar que os produtos de conveniência a mais longínqua possível, ali cheguem, através dos mares, dos rios e das montanhas" - foi a proclamação de Gobineau, estabelecendo a superioridade do “homem louro de olhos azuis".

Nos seus quatro volumes sobre "Desigualdade das Raças", Gobineau se revela apenas um romancista em matéria de antropologia.

Segue-lhe as pisadas, com as suas duas "raças" humanas da Europa, George Vacher de Lapouge. Para ele existiriam uma "raça" de conquistadores e de senhores, os arianos, e outra "raça" de vencidos e de escravos natos, os celtas, ambas físicas e moralmente distintas. À primeira pertencem a terra e a genialidade da inteligência; a segunda há de conformar-se com a mediocridade.

Expondo as falsas bases do raciocínio, Novicow, no seu "O Futuro da Raça Branca", desenvolve magistrais considerações como as que vamos resumir: Lapouge afirma que os anglo-saxões construíram um dos maiores impérios do mundo, o que confirma a sua superioridade racial. E para demonstrar a inferioridade dos latinos, diz ele que os franceses foram vencidos em Sedan. Se Lapouge houvesse escrito sua obra em 1811, teria chegado a uma conclusão precisamente contrária, pela razão de que, tendo os franceses vencido todos as povos da Europa, passariam, fatalmente, a ser raça superior. Desta forma, após cada batalha se modificariam todas as conclusões da antropologia. A 17 de junho de 1815 os franceses teriam sido superiores para em 19, depois de Waterloo, o deixarem de ser.

Não é sério acreditar em tanta inconsistência de argumentos.

Faguet chega a afirmar que a civilização até agora apenas tem sido feita pelos brancos. A cor, na crença do pensador francês, é o único fator da civilização. Tão frágil assertiva pode ser assim destruída: se civilização e raça fossem noções idênticas, as raças mais perfeitas teriam sido as primeiras a civilizar-se. E que faziam os famosos dólico-louros na Europa Ocidental na época em que os caldeus, egípcios e chineses desenvolviam civilizações já relativamente muito recentes? Os dólico-louros existiam na Europa já na época dos primeiros faraós e não sabemos como é que estavam tão atrasados, apesar das suas faculdades extraordinárias. Durante muito tempo os nobres dólico-louros mostraram-se completamente bárbaros, sendo os visbraqui-castanhos já bastante civilizados.

Vislumbramos em Spengler o mesmo erro em que muitos incorreram quando, no "O Homem e a Técnica", tende a estabelecer entre os homens uma distinção fundamental: a classe dos que dirigem e a classe dos que são dirigidos. O trabalho coletivo exige "não só duas espécies de técnica, mas duas espécies de homens... existem homens nascidos para mandar e homens nascidos para obedecer, sujeitos e objetos do processo econômico".

Não é justo deixar de admitir que o trabalho coletivo exija dos homens que dirijam e que são dirigidos. mas daí a afirmar-se que uns nascem para mandar e outros para obedecer, vai grande diferença. "Governar - afirma Spengler - guiar, comandar é uma arte, é uma técnica difícil... pressupõe um talento inato".


A. Tito Filho, 20/05/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

IMITAÇÃO

Entregues a influências más, as crianças se tornam ruins por imitação. Toda novidade no crime é copiada em seguida por outros delinqüentes, enquanto a corrupção do meio social de que procede a maior parte delas se mostre a causa mais importante da delinqüência. O exemplo representa poderosa influência educativa. a educação por si só modifica profundamente o comportamento da criança e do próprio adulto.

A criança age por imitação, reproduzindo as atitudes e os gestos circunstantes. Até mesmo na vida adulta a tendência imitativa se entremostra. Nos primeiros anos apresenta-se por tal modo acentuada e dominadora que observa quase toda a vida.

Revelam as crianças o desejo de maltratar os seres fracos, de adulterar a verdade, de mentir, porque sofrem a influência imediata de fatos que impressivamente lhes ferem a imaginação e as impelem à satisfação de seu instinto destruidor.

O médico Silva Melo, de exuberante cultura, assegura que pela imitação das pessoas facilmente assimilamos os seus hábitos, a sua conduta social, aprendemos a língua materna, seguimos a nossa religião. A criança, desde os primeiros dias, deixa-se penetrar pelas influências do meio, pelas condições de família e de sociedade.

O homem é produto de sua conduta, da sua escola, da casa, do seu ambiente, do mundo em que vive e do qual retira os motivos para a sua existência.

As causas da conduta anti-social do menino se representam pelas condições habitacionais e econômicas e pelas condições de afetividade e abandono moral do imaturo. O aumento doloroso do número de menores de conduta anti-social começou com o surto industrial e conseqüentemente com a agitação da vida moderna. A família arruinou-se com o progresso da grande indústria. Pai e mãe deixaram de assumir o papel de educadores.

As péssimas residências do povo acarretam a vontade de viver na rua, nos botequins, longe do lar.

A sociedade moderna cometeu o grave erro de substituir desde a mais tenra idade o ensino familiar pela escola. E a isso foi obrigada pela traição das mulheres. Estas abandonaram os filhos nos jardins de infância, para se ocuparem da sua profissão, das suas ambições mundanas, dos seus prazeres sexuais, das suas fantasias literárias ou artísticas, ou simplesmente para jogar o bridge, ir ao cinema, perder o tempo numa azafamada ociosidade. Causaram assim a extinção do grupo familiar, no qual a criança crescia no meio dos adultos com quem aprendia.

Os pais deixaram de educar os filhos; arremessaram-nos à escola, confiando em que a esta, não a eles, cumpre colocar as crianças em contato com os seus semelhantes, esquecendo-se de que a educação deve ser orientada com atencioso devotamento.

Uma das formas práticas de que se tem usado e abusado para disciplinar os menores é o trabalho, dada a circunstância de constituir ele uma aplicação consciente das atividades físicas e mentais. Erram quantos o supõem o mais natural dos antídotos dos males trazidos pela civilização contemporânea.

Úteis são apenas as atividades que acionam favoravelmente as energias individuais, comunicando ao homem uma consciência superior de si mesmo e não permitindo que se corrompa ao sabor da necessidade.

Os trabalhos de rua mostram-se, em geral, nocivos à formação mental e moral dos menores, porque a alma das ruas encerra infelizmente germes degradantes.

Depois destas considerações, cabe perguntar qual a sorte que se reserva no Brasil ao menor, cercado de todos os fatores de deseducação ou ineducação para a vida social.


A. Tito Filho, 03/08/1990, Jornal O Dia

RECONSTRUÇÃO

A 15 de março assumiu o presidente Fernando Collor de Mello, escolhido num pleito em que o povo teve ampla liberdade de votar, embora a campanha tenha oferecido aspectos negativos em temas de envolvimento da honra pessoal dos contendores. À frente do governo republicano, o primeiro mandatário baixou as medidas provisórias julgadas convenientes para sufocar a inflação e liquidar a corrupção, preparando-se o terreno para o cumprimento da terceira promessa do candidato, a extirpação da miséria. Não discutimos o mérito de cada uma delas. A triste verdade, porém, está em que a nação se encontra desacreditada, desmoralizadas as entidades públicas e cada dia mais a desmedida especulação dos ricos sufocava os brasileiros. A desfaçatez e a ganância afundavam o país em males sem conta. A ordem se resumiu no gozo dos poderosos à custa dos bens públicos, na esfera federal, estadual e municipal. Altos funcionários pendurados em privilégios gritantemente imorais. Mansões luxuosas, com dezenas de servidores domésticos, carros oficiais, viagens ao exterior, por conta do país exausto de dilapidações se encontravam à disposição de ministros. Centenas de aparelhos domésticos se atiravam aos porões dos ministérios por causa da condenação das esposas ministeriais. Muitas autoridades gozadoras dessas regalias recebiam medalhas e diplomas de relevantes serviços. Faliu o sistema educacional, por falta de professores e de escolas equipadas para o ensino e a aprendizagem. Viciou-se o burocrata brasileiro no desperdício, na malandragem, na fuga das obrigações, como conseqüência do péssimo exemplo dos chefões e chefetes encarapitados nas funções de mando. Firmou-se o nepotismo. Por toda parte, os poderosos nomeiam para os empregos públicos a esposa e os filhos, os genros, a parentela em geral, um dos mais insolentes assaltos aos dinheiros do povo. Nada existe que funcione em benefício da comunidade. A saúde pública liquidada. Morrem à míngua milhares de patrícios, no dia-a-dia das angústias gerais. Brasília tornou-se o império das benesses nacionais, ao lado de favelas desumanas. Desacreditou-se a Polícia, às vezes cúmplices do banditismo. Desagrega-se a família na capital da República, e por toda parte. Corrompe-se a língua portuguesa nos instrumentos de comunicação. Exploram-se aberrações sexuais. A televisão leva aos lares a concupiscência. Explora-se a nudez da mulher. A jogatina tornou-se desenfreada e explorada pelo governo. O homem saiu do campo em busca das falsas convocações de trabalho e surgiram as megalópoles de problemas insolúveis. O Poder Executivo moralmente fraco, complacente e irresponsável contagiaria o Poder Legislativo e o Poder Judiciário. Deputados e senadores aumentam de vez em quando os subsídios, ao lado do raquítico salário mínimo do trabalhador. Recebem os parlamentares subvenção para despesas de telefone, correio, gasolina, passagens aéreas. A cada parlamentar cabe elevado número de assessores, as amantes, a filharada. Uma orgia de esbanjamento. Do mesmo jeito pratica o Judiciário com o deslavado processo de empreguismo familiar. Cada membro de tribunal tem carro à disposição, Área federal foi imitada na esfera estadual. Os governadores utilizam-se dos cargos para a instituição de regimes de politiquice e engorda de apaniguados. Distribuem a benesse pelo torto e pelo direito. Os legislativos estaduais seguem as diretrizes do Congresso Nacional. Existem ainda os copiadores municipais, prefeitos e vereadores, que assaltam os magérrimos cofres das municipalidades, generalizam-se as pensões a ex-governadores, ex-prefeitos, ex-vereadores, ex-deputados e ex-senadores.

No universo quase total de revoltante assalto à riqueza pública, existem naturalmente as gloriosas exceções. não basta, porém, que se anulem os aspectos negativos do Poder Executivo da área federal, é necessário e urgente que o presidente da República se volte para os outros poderes corrompidos, o Legislativo e o Judiciário, também nos Estados e municípios, a fim de que a moralidade se universalize. O País assiste cada dia com mais intensidade à instituição da violência como forma de protesto dos desgraçados, dos abandonados nas ruas e nas prisões promíscuas e desumanas; dos famintos, dos que fogem da vida por através da droga, dos andrajosos, dos aviltados, dos esquecidos, dos que querem libertar-se da escravatura política e da escravatura econômica, ambas impostas pelas elites do estomago, definição do próprio presidente Collor, num grande momento de confissão da verdade.


A. Tito Filho, 10/05/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

VIOLÊNCIA

Jornais, rádios, televisões vivem hoje do noticiário da violência, e cada época teve o seu tipo de violência, na Roma dos Césares como no Itararé de Teresina. Adolescente, morei em Teresina e na mocidade passei uns oito anos fora daqui, em Fortaleza e Rio. Andava pelas ruas sozinho, de madrugada, e jamais encontrei quem me assaltasse.

Ainda em 1970, passei a residir no distante bairro de São Cristovão da capital piauiense. Haroldo Borges me havia conseguido um carro velho, marca Esplanada, com uma das vendedoras de veículos. Às vezes o automóvel me deixava na rua, noite grande, e eu retornava a casa com os pés da locomoção própria. Vendi a porcaria por umas patacas. Pouquíssimos ônibus. Eu fazia um programa de rádio na Difusora das 22 às 23 horas e caminhava o longo percurso de retorno ao lar. Jamais encontrei quem me filasse um cigarro.

Não desconhecia a violência política do submundo ditatorial. Li-a em livros que se tornaram célebres. Os porões da ditadura de Vargas, com o bárbaro Filinto Muller, guardam cadáveres, homens mutilados, baixezas sem conta de uma polícia treinada para impor sofrimento ao semelhante. O nosso Celso Pinheiro Filho apanhou tanto nesses subterrâneos de crimes animalescos que perdeu o uso das pernas. Assassinos perversos.

Chegaria 1964. De novo a sangueira nojenta de certas autoridades de lama. Mataram-se jornalistas e operários. Era a sanha do eunuguismo moral.

As práticas da violência, porém, se escondiam. As vítimas desapareciam simplesmente, e os carrascos infames se intitulavam salvadores da pátria amada. Mas a violência chegaria, como chegou, a ser praticada à luz do sol, à boca da noite, a qualquer momento. O reino atual da vingança contra os que se tornaram surdos aos clamores dos perseguidos, dos injustiçados, dos que a política nefasta abandona de modo desumano.

Contra quem se pratica hoje a violência? Contra os engravatados que roubam às escâncaras, contra os que, munidos de prestígio político, tomam a propriedade alheia, estupram pobres mocinhas interioranas, enganam, ludibriam, demitem, negam a cada um o que é seu. Vivem na opulência, ganham milhões diariamente, humilham, riem da miséria alheia, num soçaite fútil e ocioso. Quem está padecendo a violência? O empresariado sem alma, orgulhoso, cheio de empáfia, ignorante, que esquece os deveres sociais e a pregação cristã dos papas e cada vez mais se enternecem da dinheirama mal adquirida.

Observe-se o seqüestro. Sou contra o processo, sobretudo quando se submete o seqüestrado a vexames físicos, morais e psicológicos. Para adquirir a liberdade, quanto paga esse tipo de refém pelo dinheiro pedido? Milhões em dólares. Donde vem essa quantia? Das burras abarrotadas de pelegas estrangeiras fornecidas pelo Banco Central do Brasil.

E jornais, rádios, televisões, quando se liberta o indivíduo, sustentam a propaganda do HERÓI pelo menos durante uma semana.

Faz poucos dias, seqüestraram um garotinho. Os seqüestradores pediram até pouco, uns 500 mil doentes. A mãe do menino fez apelo, não tinha dinheiro, implorou a devolução do filho. Nenhum empresário de milhões se mexeu para ajudá-la.

Só se vê violência no seqüestro dos biliardários. Sim. E a violência da fome de milhões, dos milhões sem teto, dos milhões de analfabetos, dos milhões de doentes sem socorro, dos milhões de menores abandonados, dos milhões de esfarrapados, rotos e maltrapilhos?


A. Tito Filho, 25/07/1990, Jornal O Dia

TERESINA

Vejo-a sem a minha infância, sem os dias queridos que não voltam mais, as saudades provocando nó na garganta, um choro que não consola. Sem o CaiNágua, o cabaré das garotas de segunda classe, perto do Parnaíba, que os meus olhos de adolescente desejavam, mas os cânones da época proibiam. Sem os circos, na praça Deodoro, grandões, palhaços engraçados, ameaçando as velhotas atiradas com o troncudo pedaço de macaxeira. Na frente do imenso toldo, dezenas de bancas, na venda de frutas descascadas, refresco, sorvete de gelo rapado e mel de fruta, gostoso como o diabo, frito de carne de porco, beiju salpicado de farelo de coco. No calor das tardes, máquinas equilibradas na rodilha da cabeça, com a manivela de rodar e fabricar o melhor sorvete do mundo, o caboclo, alpargata chiadeira, passeava as ruas, a vender a guloseima.

Vejo-a sem o pega-pinto gelado, que a gente ia comprar, oito da noite, na jarra, uns oito copos, para a família à espera na roda da calçada. Sem o Doutor, dono de frege, estabelecimento modesto, mesinhas sem toalhas, pimenta malagueta danada, cachorros gafentos e famintos à espera do osso que o freguês alisara, depois de engolir tripa e bucho - a panelada da cidade, a cinqüenta metros da praça Rio Branco. Sem o Bar Carvalho, de elite, vendia cafezinho, chocolate com ovo e sem ele, sobretudo o filé de grelha, enfeitado de ervilha, azeitona, alface e farofa. Manjar dos deuses, do cozinheiro espanhol Gumercindo, um mágico em comedorias.

Vejo-a sem o alarido das pipiras tentadoras - as mocinhas pobres empregadas da Companhia de Fiação e Tecidos Piauiense, ruído de máquinas o dia todo. As garotas, vestidinhas de chita, merendavam banana, daí o apelido que a crônica registra.

Vejo-a sem a presença de Celso Pinheiro, poeta e tuberculoso, fatiota branca engomada e reluzente, chapéu de palhinha, gravata borboleta... irreverente...; sem Higino Cunha, mestre verdadeiro, a caminhar pelas vias públicas, aqui e ali o trago de bebida destilada...; sem Pedro Brito, calças velhas de mescla, cornimboque de rapé nos bolsos largos, suado, a ironizar homens importantes...

Vejo-a sem as funcionárias domésticas, mocinhas morenas, que o povo denominava curicas, porque recebiam o prato de comida no peitoril da residência... Caboclinhas de pé de esquina, na cidade pouco iluminada... Sempre perdiam o cabaço para o filho-família, o moço dengado.

Vejo-a sem o cabaré da Raimundinha, alegre, as meninas de vestido abaixo do joelho, cada qual com a sua alcova de deitar com quantos machos obtivessem na noite comprida... Tiravam a roupa de luz apagada... Que Tempo!

Vejo-a sem as pracinhas de donzelas faceiras, que rodavam num sentido, os gajos em sentido contrário no fascinante namoro de olhos... No cinema, o casal se dava o gosto da bolinação... Namoro de mão nos peitinhos arrebitados...

Vejo-a sem o símbolo que foi a Maria Préa, mulata boa de cama, com estudante de bolso vazio ou desembargador de prestígio firmado.

Hoje, vejo-a urbanizada de pombais, ou casinholas habitadas do êxodo interiorano; povoada de veados de luxo ou simples viciados na inversão dos locais de prazer; vejo-a na falsa convivência dos coquetéis, das uiscadas e das festas de caridade; vejo-a no comércio com o nascimento de Jesus e com as mães, merecedoras pelo menos de um pouco de respeito; vejo-a despudorada, meninas ricas sem roupa, por deboche, meninas pobres do mesmo jeito por miséria. Vejo-a uma imensa putaria de homens e mulheres, com as devidas exceções; Vejo-a violenta, estúpida, deseducada - tipos debaixo-da-ponte, alguns felizardos da vida ociosa à custa de golpes e falcatruas e outros tantos no repasto oficial da República sem freios.

Vejo-a sem futuro, sem esperança, mas ainda creio no resto do otimismo que me sustenta os olhos sofridos da saudade dos tempos que não voltam mais...


A. Tito Filho, 19/08/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

DIAMBA

Diamba é o nome de uma planta de que os negros faziam fumo, cujas folhas têm propriedades entorpecentes. Francisco Fernandes depõe que as flôres também se usam como narcótico.

A palavra parece vir do quimbundo, o mais importante linguajar da crença quando filia diamba ao quimbundo riamba, cânhamo.

Diamba, liamba e riamba são formas que designam certa variedade de cânhamo, erva mirtécea ou Cannabis sativa, nome científico.

Renato Mendonça entende que em quiamba o cânhamo chama-se Riamba, enquanto a forma liamba é conhecida no sertão africano. Segundo nota de Mário Marroquim, em Pernambuco e Alagoas vivem na língua popular as duas formas liamba e diamba. O maranhense Viriato Correia escreveu diamba: "Depois num domingo, em tempo de colheita, quando em casa, descansando da semana trabalhada, pitava a cabeça de diamba...". Em Pernambuco, Gilberto Freyre ouviu entre viciados diamba e liamba.

Francisco Fernandes faz, no Dicionário, referência às três formas, diamba, liamba, riamba, que se registram também no "Dicionário do Folclore Brasileiro", de Cascudo, Diamba é a preferida de Macêdo Soares: "Liamba é uma erva da India, que já de muitos anos se cultiva no Brasil. Os africanos entre nós usam desta planta no cachimbo, como fumo".

Pesar de ter nome africano, a planta parece ser originária da Ásia. É a opinião de Cascudo. Os negros trouxeram-na para o Brasil, para utilizá-la talvez nos banhos e bebidas de iniciação conforme ao depoimento de Manoel Querino.

A diamba, liamba ou riamba é ainda conhecida por outros nomes, como pango e maconha, também fumo de Angola. O notável Cascudo fala em gongo, mas houve certamente engano. Gongo não vale o mesmo que maconha. A árvore de cujo fruto se extrai bebida que embriaga é gongó.

A respeito de pango anotou Macêdo Soares: plantas cujas folhas usam os negros para pitar e que produzem o mesmo efeito do anfrião.

Não vi anfrião nos léxicos modernos. Registra-o o velho Morais com esta explicação: "É planta árabe, o mesmo que ópio".

Na Amazônia existe a maricana, de que se fazem cigarrilhas das folhas, de efeito hipnótico. É o que informa A. J. Sampaio, em "A Alimentação Sertaneja e do Interior da Amazônia".

Diamba, liamba, riamba, maconha, pango, gongó, fumo de Angola, maricana - qualquer nome que se lhe dê- a erva é hoje da predileção de gatunos e vagabundos, fumada pela malandragem para criar coragem e dar leveza ao corpo. Contra o seu uso e abuso faz a Polícia guerra permanente.


A. Tito Filho, 12/12/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

SITUAÇÃO

Há países, como a Inglaterra, em que o rádio e a televisão pertencem ao poder público. Proíbe-se que a empresa privada os explore, para que se evite a força econômica a serviço de idéias dos seus proprietários e contrários aos interesses públicos, deformando-se os aspectos mais caros do civismo nacional, como, por exemplo, a linguagem. A tevê, sobretudo tornou-se processo dos mais ativos para a inquietação do home, pela propaganda do luxo supérfluo, do erotismo. A tevê é poderosa via de comunicação, justamente porque se utiliza do som e da imagem. Na Brasil inexistem programas educativos, porque eles não têm audiência nem rendem do ponto de vista comercial. O noticiário abundante está nos assassinatos bárbaros, na perversidade dos seqüestros, nos dramas dos sem-teto, na terrível matança urbana praticada pelos justiceiros, nos assaltos de rendas milionárias, no comércio da droga, no drama das greves dos famintos. Relegam-se a plano secundário as datas patrióticas da nação. Tiradentes vale um ilustre desconhecido do povo brasileiro e do protomártir corajoso apenas os policiais militares homenageiam a memória, lembrando a glória do alferes seu patrono. Euclides da Cunha ganhou as telas televisivas por causa da tragédia em que se envolveu, jamais por razão de ter dado novos rumos aos estudos sociais brasileiros. Uma estação de tevê faz pouco tempo ganhou milhões exibindo cenas de uma triste história passional, em que o grande escritor aparece como um tipo grosseiro, nervoso, quando Euclides sempre teve gestos de coragem e no trato com a família e os amigos sempre de exemplar maneiras, até quando a esposa, de sexo anormal, em amores clandestinos com um jovem de 17 anos, caso de inversão sexual, pois a mulher andava pelo dobro - criou, de modo leviano, numa época de severos costumes familiares, um Euclides sem rumo e sem norte, disposto em determinada hora a lavar a honra do lar ultrajado. Ana de Assis era feia, um tanto gorducha, mas arrancava furores de um jovem virgem em matéria feminina. A televisão enganou a ignorância nacional, colocando no lugar da adultera a magnífica Vera Fischer. Como sempre o material predileto da tevê brasileira está na exploração do erotismo, nas novelas de conteúdo passional e emocional. No mais, violência por cima de violência, na exibição de um País doente no seu organismo moral, social e espiritual.

Na verdade, o Brasil destes dias cruciais corresponde a um Brasil de problemas cada vez mais intensos. Avolumam-se as crises. Multiplicam-se os crimes contra o patrimônio e contra a pessoa. Mata-se por qualquer motivo. As classes nababescas vivem do fútil e da estroinice. Os assalariados padecem a pior de todas as afrontas: a fome endêmica. Dois meses antes de assumir o atual presidente da República, a indústria e o comércio,d e mão dadas, subiam todo dia o preço das mais variadas necessidades do homem como se se prevenissem contra o possível tabelamento de preços na administração que se inaugurava. Assim, o regime inflacionário jamais chegou a zero, como na propaganda oficial, pois os preços de 15 de março estavam aumentados como prevenção contra o regime Collor.

Que se está fazendo da cultura e da educação? Na área cultural, as entidades por ela responsáveis perderam os seus melhores servidores, demitidos por via simplesmente numérica, como se assim fosse possível efetivar qualquer tipo de reforma administrativa. Na área educacional, o ensino público e privado, faz que os verdadeiros mestres busquem atividades com que suportem a vida, no seu cortejo incontável de angústias, e que outros mestres se improvisem num verdadeiro antimagistério. E observe-se que no Brasil pouco ou quase nada se ensina, e circunstância mais aberrante: colégios e universidades nenhum gesto adotam para que o homem se eduque.

A nação precisa de paz, de encontrar caminhos para a tranqüilidade dos brasileiros doentes, de hospitais fechados, famintos, esquálidos, habitando imensas favelas. No Brasil o que menos se respeita é a vida do semelhante. Por quê? Porque dói tanto padecimento de milhões e a riqueza cartorial, a roubalheira dos dinheiros públicos, a impunidade dos colarinhos-brancos, a existência faustosa e irresponsável de poucos, dos protegidos e apadrinhados.

E quando mais se necessita de que a violência seja varrida, novas vítimas se fabricam, com a famosa reforma administrativa, que se baseia, exclusivamente no critério das demissões. Milhares de servidores desempregados. Mais vítimas cujo caminho está na adesão à violência. Se as nomeações foram desnecessárias, para a satisfação de interesses da parentela ou da politicagem, por que não se punem os autores das ilegalidades?


A. Tito Filho, 18/07/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CRUELDADE

Theo Gigas, na crônica Touradas - Uma Crueldade Inútil, escreveu: "Não existe um só argumento que justifique tamanha monstruosidade, que nada tem de esportivo ou de artístico. A única arte consiste na exploração de pessoas que gozam com volúpia o espetáculo de tortura e morte".

Muitos escritores têm descrito e estudado o espetáculo das touradas espanholas, que se realizam principalmente na Praça de Touros, em Madri, todos os domingos - um imenso anfiteatro de estilo mourisco, luxuoso, original. A festa recebe o nome de corridas de touros. Em cada corrida se matam seis touros, dois para cada toureiro.

Fonseca Fernandes assistiu a um desses espetáculos e o descreve nas suas diversas fases. A primeira é a de excitação do animal, quando surge o picador montado a cavalo e que, munido de longa vara, submete o animal a uma tortura de picadas: "O picador arremata com a puya, triângulo de ferro que fustiga as espáduas do touro". Vem a segunda fase, a das banderillas, também excitadora. Homens de pé espetam, com agilidade, no animal banderillas coloridas "na mesma região fustigada anteriormente pelo picador". A última fase corresponde à muerte. Vem o toureiro, que dispõe de quinze minutos para a luta. Se o matador não cumpriu a missão, o touro volta ao curral e o toureiro toma extraordinária vaia. O touro morto também é vaiado. "O espanhol vaia sempre, manifestando alegria por qualquer dos resultados. Inclusive quando o touro mata o toureiro".

Existem os museus de toureiros, em que se guardam cabeças de animais, espadas, roupas. Num deles, figura retrato a óleo de Manolete, Manuel Rodriguez Sanchez, herói nacional de touradas, de carreira fabulosa, morto pelo touro "Isleno", em 1947. Tinha 30 anos o ídolo de Espanha.

O sacerdote Luciano Duarte admite que nesses espetáculos se vê sobremodo o aspecto de selvageria, na seguinte descrição: "O touro está fatigado e ofegante. Escorre-lhe o sangue abundantemente. O toureiro se aproxima de frente, para enterrar a espada. Momento perigoso. O touro agora está com as duas patas dianteiras paralelas. É o momento azado, pois esta posição permitirá que a espada se enterre até os copos, pouco adiante do pescoço do animal. O toureiro avança e tenta o golpe. A espada se afunda e fica enterrada, o povo aplaude delirantemente e grita olé, e o touro bambeia nas pernas inseguras, para logo cair morto".

Num romance célebre, "A Serpente Emplumada", Lawrence mostra com maestria esse "espetáculo de sangue e tripas". Urros do povo. Glória e emoção.

Como se explica o fenômeno?

Luciano Duarte adverte que a tourada, para o espanhol, é um espetáculo de arte: "Um balé em que o homem enfrenta o touro, em que a inteligência desafia a força bruta e vencerá". E o ilustrado escritor vai adiante, vendo na Espanha das touradas "restos de sangue mouro em efervescência, descarga do instinto de agressividade".

Por que esses homens se dedicam a tão cruel e desumano esporte? - pergunta Fonseca Fernandes. E explica: "Existe neles uma verdadeira adoração por esse gênero de exibição. Em touradas cultivam-se a destreza e a intrepidez das mais fortes emoções, nelas há todo um ritual de elegância perfeitamente enquadrado na vida do espanhol".

Os espanhóis, aliás, dizem que, como animal, o touro "teria de morrer de qualquer maneira; na praça mostra suas qualidades guerreiras e morre heroicamente". Ou mata - deveriam acrescentar.

As touradas foram vistas por Victor Hugo: "Em todas as corridas de touros aparecem três feras que são o touro, o toureiro e o público. O grau de brutalidade de cada um desses brutos pode-se calcular pelo seguinte: o touro é obrigado, o toureiro obriga-se, o público assiste por um ato espontâneo de sua graduação: o touro provocado defende-se; o toureiro, fiel ao seu compromisso, toureiro; o público diverte-se. No touro há força e instinto; no toureiro, valor e destreza; no público não há senão brutalidade".


A. Tito Filho, 06/04/1990, Jornal O Dia

sábado, 17 de dezembro de 2011

TERESINA - LOUVAÇÃO

A cidade alcançou progresso em todos os setores. Antes de tudo tranqüila e afetiva. Vale um beijo quente de fraternidade. Manhãs e tardes coloridas. Corações alegres. Gente que gosta da humanidade, recitando o poema da convivência irmã. As suas noites são de amor. Nos bancos das pracinhas de encanto, pares agarradinhos, arrulhando afeto, cheirando-se, mordendo, polícia distante, gente que passa fazendo que não vê. Juca Chaves disse no Rio de Janeiro: "Se peito fosse buzina, ninguém dormia em Teresina".

As mulheres teresinenses são as mais carinhosas destes brasis. E criaram a linguagem dos olhos para a revelação do sublime sentimento do amor. Elas têm olhos de querer e de não-querer.

Vem brasileiro, irmão de outras paisagens, TERESINAR, um verbo doce, expressivo, que se reza com carinho. O centro é uma festa permanente. Da praça Rio Branco, coração comercial da cidade, parte-se para o Parque da Bandeira, bem cuidado, convite ao descanso. além o rio Parnaíba, o velho monge de barbas brancas alongando... Junto às margens, lavadeiras batendo roupa, alguma de seios à mostra. Num dos lados do Parque, o antigo Palácio da Justiça. Antes, sede do Poder Executivo e residência dos presidentes da província e governadores até que foi adquirido o Palácio de Karnak.

Partinho do Parnaíba, o Mercado Velho ou Central, construído há mais de cem anos. Aí de tudo se vende: carnes, peixes, verduras, frutas, sandálias, calças, lamparinas, panelas, louça, mezinhas, beberagens eróticas como a famosa catuaba, pós mágicos. Camelôs propagam cura-tudo, literatura de cordel, alguns cegos recitam lamurientos versos de arrecadar esmolas. E dezenas de restaurantes ao ar livre, com comida feita sob as vistas do freguês, servem os mais variados pratos, sempre apimentados: fritos, sarapatel, buchada, panelada, mão-de-vaca, vísceras. Um arremedo dos mercadões de Fortaleza e Salvador. Um colorido especial à vida da cidade. No mercadão a gente encontra o sujeito que vende maconha, o bicheiro anunciando o milhar do jacaré e as mulatas mais desconfiadas do mundo, cheirando a brilhantina flor do amor. E muito chá-de-burro, o talentoso mucunzá.

A Casa Anísio Brito merece visitação. Museu e Arquivo do estado, guarda muita preciosidade que precisa de ser vista e consultada.


A. Tito Filho, 29/01/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

PERVERSIDADE

Faz uns vinte anos, mais ou menos, que proclamo a podridão das elites brasileiras, de quase todas, pois existem algumas exceções nas camadas da alta burguesia ainda conscientes de suas responsabilidades. As elites são perversas. Quando Teresina ainda não possuía sistema de televisão, as emissoras e os jornais publicavam o apelo de senhoras ricas da capital piauiense: elas queriam que cada endinheirado oferecesse um sapato velho para o Natal dos pobres. Corri à Rádio Clube, na época dirigida por Walter Alencar, e protestei contra tamanha humilhação. As ricaças da estroinice pretendiam fazer CARIDADE CRISTÃ à custa da miséria alheia, e cada miserável teria uma festa natalina de benemerência com o presente de um par de sapato usado, de intenso perfume de chulé.

O presidente eleito da República, Fernando Afonso Collor de Melo, retornou de viagem ao exterior. E no avião, na viagem de regresso, perguntou-lhe o repórter sobre os ombros que de quem caíam as responsabilidades por esse vergonhoso processo inflacionário que atormenta e sacrifica os brasileiros. Não titubeou o futuro mandatário em indicar as elites como responsáveis pela espoliação vigente no Brasil. Basta que se leiam os colunistas sociais, o noticiário do soçaite, e logo o quadro nu e cru aparece em toda a sua rudeza: só roubando se desperdiçar dinheiro a rodo nas festanças de bodas de prata e ouro, nos casamentos das filhas, nas debutações, nas festocas e nos embalos de aniversários natalícios. Correm soltos champagne, uísque, deglute-se sem parar salgadinhos e outros empanturramentos barrigais.

Para cobrir as despesas das festanças, as elites trabalham? Nunca. De onde suprimem tanto dinheiro? Do processo cartorial. As elites vivem nos peitos cheios do tesouro, roubando dos brasileiros, mamando nos cofres públicos, desavergonhadamente. Do Acre ao Rio Grande do Sul. As elites estão liquidando os restos de civismo brasileiro, e provocam as violências e os assaltos, porque a ninguém é dado viver com salários de fome.

Collor assegura que liquidará a perversidade criminosa das elites nacionais, das que, como diz o futuro presidente, não enxergam além do próprio umbigo.


A. Tito Filho, 16/02/1990, Jornal O Dia

domingo, 11 de dezembro de 2011

ALGUMAS NOTAS

Eurico Ferri, o famoso criminalista italiano, ensina muita cousa nas suas lições sobre os criminosos, a arte e a literatura. Quem melhor estudou a vida? A ciência? Ou ciência se serviu da arte e aproveitou-se das suas maravilhosas criações? A arte agiu antes da ciência, principalmente a arte literária. Dante revela na sua poesia inimitável a predominância do fator econômico sobre todos os outros e que a corrupção sempre proveio dos maus governos. O irreverente Camões zomba dos preceitos e registra a vida sexual por um prisma humano. Reage contra o mundo feudal. Cervantes adverte os homens de que não é possível permanecer agarrado ao passado. Creu na influência do meio renovado. Shakespeare inspira-se em temas populares. Descrever as contradições de sua época, o feudalismo e o capitalismo. Faz poesia numa sociedade em transformação. Combate a violência. Não acredita na imutabilidade das cousas. Milton, no PARAÍSO PERDIDO, combate as desigualdades sociais. Moliére zomba dos costumes do seu tempo. Voltaire rebela-se contra os poderosos e a intolerância religiosa. Não suporte os privilégios. Tolstoi arremete contra todas as formas de injustiça.

Na DIVINA COMÉDIA, Dante imagina um sistema feudal e uma classificação dos delitos e das penas. Existem duas espécies de crimes, os de violência e os de fraude. De Shakespeare os juristas e os economistas copiaram lições do maior interesse. O famoso autor é imenso psicólogo. No tempo em que a ciência penal se preocupa com o crime, ele se preocupa com o criminoso e cria os três famosos homicidas shakespearianos, o louco, o nato e o passional, e na sua arte perfeita se juntam observações cientificas rigorosamente exatas.

Arte e ciência prometem o conhecimento da vida, embora a obra de ciência seja impessoal e a obra artística provenha do temperamento de quem a construiu.

As criaturas de Zola ligam-se aos princípios da psicopatologia criminal. A demonstração da grande lei da hereditariedade natural aumentou o horizonte da arte de contribuir para novas verdades cientificas.

Manzoni, em OS NOIVOS, descreve a psicologia coletiva antes da ciência. A mesma cousa Zola faz em GERMINAL.

Ibsen, sempre fecundo, escreve com dados científicos. O PATO SELVAGEM é obra mestre em psicologia política.

Dostoievski sustenta verdades inatacáveis. Os criminosos repugnam o trabalho, tocados de puerilidade e religiosidade. A beleza de CRIME E CASTIGO não foi ultrapassada como crítica social audaciosa.

- Interessante que todos lessem A MACONHA OU A VIDA, de Gabriel G. Nahas. O autor atesta que a droga impede a função pulmonar, diminui a contagem espermática e suspende a resposta imunológica.

- Próximas edições da Academia Piauiense de Letras: MINHA TERRA, MEU POEMAS, de Assis Fortes; A MENSAGEM DO SALMO, de Júlio Romão da Silva; as memórias do ex-governador Rocha Furtado; GEOGRAFIA FÍSICA DO BRASIL, segundo volume, de João Gabriel Baptista; e história da música no Piauí, de Cláudio Bastos.

- A droga não é a causa, mas conseqüência. Não adianta destruir maconha, cocaína e heroína. Adianta que a sociedade deixe de ser irresponsável e dê oportunidade aos jovens que lutam por um lugar ao sol. Sim, basta que as mulheres voltem ao lar, não de madrugada, mas que nele permaneçam, sustentando-o de afeto constante para os filhos, e cuidando dos serviços domésticos.


A. Tito Filho, 12/05/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

MEU BOM AMIGO

Quem assina este artigozinho não era nem nascido quando se instalou em Teresina a primeira instituição de crédito, justamente o famoso Banco do Brasil, de empréstimos só para ricos e bem providos de avalistas seguros.

Na década de 1950, ingressei no magistério. Aulas no Colégio Estadual do Piauí, na Escola Normal, no Colégio São Francisco Sales e noutros educandários. Iniciava o trabalho às 7 da manhã, às 13 da tarde e às 18:30, boca da noite. Não me passava pela cabeça possuir automóvel. Ministrava quinze aulas por dia, correndo de um colégio para outro. Os professores ganhavam vencimentos de miséria, nos estabelecimentos oficiais como nos particulares. Por cima de tudo, os proprietários de casa de ensino e o governo efetuavam a paga do labor mensal sempre com atraso. Nem equilibrista de circo conseguia sustentar família por processos tão angustiosos. Os mestres recorriam a agiotas a fim de que vencessem dificuldades e aperturas. Os usuários concediam empréstimos na base de 10, 15 e 20 por cento, exploradores gananciosos, que enricavam depressa na exploração da miséria alheia. Dia de vencimento do vale, chamado de papagaio, o perverso judeu aparecia em busca dos juros para a concessão da nova esfola. Como outros colegas, cheguei a dever a três ou quatro desses sugadores da economia popular ao mesmo tempo. Busquei soluções e me informaram que o Banco Comercial e Agrícola do Piauí poderia salvar-me as finanças. Procurei o estabelecimento, num prédio modesto da rua Barroso, mais ou menos no meio do quarteirão iniciado hoje pela Câmara Municipal. Encontrei facilidade para conseguir cinco mil cruzeiros, desde que meu pai avalizasse o negócio. E assim se fez. Juros baixíssimos. Na época do pagamento, a bondade paterna fez a liquidação da dívida, sem contribuição minha de qualquer natureza.

Melhorei de vida com o correr dos anos. Surgiram oportunidades de outros empregos. Consegui consultoria jurídica na antiga Comissão de Abastecimento e Preços do Piauí. Quando necessitei outra vez do banco, já se havia transformado o conhecido Banco do Estado do Piauí, o BEP, em cujas salas ganhei alegrias e dissabores. Às vezes os empréstimos me eram creditados com rapidez, outras vezes a cousa enganchava. A vitória me sorria ao cabo das contas, pois uns oitenta por cento dos servidores do estabelecimento haviam sido meus alunos diletos e queridos. Alguns funcionários de mando e poder não gostavam de mim. Jornalista quase sempre de oposição a governos piauiense, natural que contra mim se manifestassem antipatias e perseguições. Cousas da vida. A política sempre se mostrou injusta e de má índole, sobremodo quando ela passa aos métodos enodoantes de politicalha. Não me abatiam as recusas. Minha persistência acabava por obter os pequenininhos empréstimos que minhas parcas rendas permitiam. No BEP, porém, estava a minha salvação. Às vezes, fui levado a declarar desaforos aos encarregados das carteiras de empréstimos e os ouvia também, com humildade. Voltava ao equilíbrio emocional e partia para novas rogativas e, ânimos serenados, os dinheirinhos ingressavam nos meus pobres bolsos.

Eu e o BEP somos um romance. Um romance de caracteres que se compreendiam, eu e o banco querido dos piauienses, uma instituição do povo, que salvava a verdureira, o professor quebrado e desenvolvia o trabalho de produção do homem.

Meu bom amigo, o BEP. Sempre meu amigo nas mais ingratas situações de quebradeira. Sem média de depósitos, sem imóveis, sem nada, quantas vezes o BEP me livrou do infortúnio do desconforto de minha família. E não acredito que o Piauí seja ingrato com uma casa miga, onde a bondade dos servidores, os grandes e os pequenos, sempre foram o recurso maior dos necessitados.

Um crime contra o povo o desaparecimento de meu bom amigo. De mim, estou de coração choroso, apertado de amargura. Que os homens tenham dignidade e restituam a vida de meu velho BEP.


A. Tito Filho, 30/07/1990, Jornal O Dia