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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

PLEITOS

Pertenço a uma geração sacrificada pela truculência das ditaduras desapiedadas, pois não conheço uma só que respeitasse a pessoa humana. Mas muitos governos ditos constitucionais me decepcionaram.

Em 1930 eu era um molecote na primeira ditadura de Getúlio Vargas. O país voltou à normalidade em 1934 e pouco tempo depois novo e cruel processo ditatorial, que prendeu, expatriou, matou, recusou direitos, perseguiu brasileiros. Nunca se puniram os criminosos. Pelo contrário. Cada dia mais eram afeiçoados da alma popular. Derribou-se Getúlio em 1945. Houve eleições em dezembro e nelas votei, para presidente, senador e deputado federal no Rio de Janeiro. Um dos meus votos ajudou a eleger o senador líder comunista Luís Carlos Prestes.

Pretendo nestas linhas mal traçadas anotar as eleições estaduais. Vindo do Rio, cheguei a Teresina a 19 de janeiro de 1947, dia de eleição. Os piauienses elegeram Rocha Furtado e derrotaram o General Gayoso e Almendra. Não votei, pois era eleitor no Rio e só depois fiz transferência do título respectivo para Teresina.

Havia três partidos no Piauí: UDN, PSD e PTB. Formou-se um quarto, o PSP. Nas eleições de 1950, elegeu-se Pedro Freitas, pessedista, derrotando Eurípedes Aguiar, udenista, e Agenor Almeida, pessepistas. O PTB, muito fraco na época, não teve candidato. Participei da campanha ao lado do que foi escolhido.

Nesse tempo, Matias Olímpio abandonou a UDN e engordou o PTB, que, aliado a Pedro Freitas, possibilitou a eleição de Gayoso e Almendra para o governo em que votei.

Politicamente desastrado, Gayoso não soube sustentar a união com os companheiros petebistas e estes bandearam para a UDN, numa poderosa união de forças que consagrou Chagas Rodrigues como ocupante de Karnak, um jovem e impetuoso líder de idéias nobres e novas, que praticou erro fundamental de subestimar o magnetismo pessoal de Petrônio Portella, prefeito de Teresina patrocinado pelo talento político de José Cândido Ferraz. Nas eleições de 1962, o candidato Constantino Pereira foi batido fortemente pelo futuro ministro da Justiça, numa aliança imbatível do PSD com a UDN. Neste ponto se encerrou meu o meu comparecimento às urnas. Criaram-se os biônicos, governadores eleitos por assembléias com organizações partidárias comandadas por generais de estrelas muitas: Helvídio Nunes, Alberto Silva, Dirceu Arcoverde, Lucídio Portella. Nos pleitos diretos se convocaram para os governos estaduais, dos quais safrando vitoriosos Hugo Napoleão e Alberto Silva, este ultimo ainda no exercício do mandato.

Amanhã, 4ª feira, mais um embate eleitoral com quatro candidaturas, duas das quais apoiadas por fortes contingentes eleitorais - os de Freitas Neto e Wall Ferraz, depois de programas e mais programas ditos gratuitos pelos meios de comunicação, com ofensas recíprocas, críticas por vezes tendenciosas, calúnias, processos condenáveis que só a educação espiritual e a desambição de muitos podem suplantar.

Não se deve esquecer a injustiça praticada contra governadores já mortos, homens que não mais podem exercer o direito de defesa. O fato maltratou demais os familiares de homens respeitáveis que não praticaram maldade alguma contra o Piauí e seu povo humilde.

Mais uma vez sou chamado a votar. E cumprirei o dever e exercerei o direito, de consciência tranqüila.

 
A. Tito Filho, 02/10/1990, Jornal O Dia

PROPAGANDA ELEITORAL

Nos tempos antigos as campanhas eleitoras se faziam em praça pública, nos coretos das pracinhas de lazer ou nos palanques armados para o falatório dos candidatos. Oradores e mais oradores desfilavam, e os mais importantes discursavam no final desses entusiásticos ajuntamentos. A linguagem se mostrava dura, severa, por vezes humorística, e aqui e ali se exploravam os ridículos e os erros e espertezas dos adversários. Assim no Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Ceará, no Piauí. Nas capitais como nas cidades interioranas. Havia a crítica forte, a censura veemente, as denúncias sobre fatos condenáveis. Os homens, porém, eram outros. Tinham honestidade e repudiavam infâmias, injúrias, calúnias e difamações. Atacava-se rijamente o adversário, mas com base na verdade, nunca em invencionices e falsidades. Conhecidos oradores recebiam aplausos demorados das multidões, assim como Maurício de Lacerda, pai de Carlos Lacerda - um Maurício corajoso, mas respeitador da honra alheia, porque consciente de que a sua honradez igualmente merecia respeito.

Com o correr dos anos, surgiu a televisão, instrumento comunicador que penetra sobretudo no ambiente familiar. Concedeu-se por via de lei, horário gratuito nesses aparelhos, com a finalidade de que candidatos pobres e ricos pudessem levar idéias e projetos aos grandes auditórios das coletividades. Apareciam então tipos gaiatos, sem mensagens e sem credibilidade, para o fim exclusivo de projeção doentia. E quanto mais os horários gratuitos serviam o egoísmo de muitos, concluiu-se também que a arma, de tão poderosa, poderia eleger xingadores e derrotar candidatos por força da divulgação, a nível total, de fatos que jamais deveriam ser objeto de campanha eleitoral.

Ainda o ano passado, na peleja presidencial, levou-se a televisão uma mulher, frustrada a não mais poder, para contar ao público que foi amante de um dos candidatos presidenciais. Aquele que foi isento de culpa, atire a primeira pedra - assentou o Cristo justo quando absolvia a adultera. Qual o homem que, na mocidade, não teve as suas peripécias sexuais com mulheres que se entregavam com facilidade? O fato positivou que o Tribunal Eleitoral nem sempre exerce o policiamento dos programas, como era de seu dever, da forma que fez em São Paulo, ao tempo do candidato a governar Marronzinho. Tem a Justiça a obrigação de acompanhar a programação e suspendê-la no instante das agressões pessoais, e das acusações mentirosas.

Na atual campanha para os governos estaduais, aguçam-se os destemperos da ambição pela conquista do poder. Certos candidatos não se conduzem com o devido respeito à dignidade dos adversários. As descomposturas pertencem à falta de argumentos. Avilta-se a honra. Insulta-se a personalidade. Humilha-se. Nem a vida privada das pessoas fica imune a essa debocharia escancarada.

A televisão, sobretudo a televisão, exibe, de manhã e de noite, tipos gaiatos, candidatos machões que ameaçam contar estórias escabrosas, e vários outros, sem idéias e sem ideais.

Interessante também por estes brasis enormes as pazes de velhos adversários e as inimizades de antigos correligionários, episódio vulgar na política partidária brasileira. Políticos ontem escarravam uns nos outros e hoje se beijam, como nos versos em que o poeta diz que o beijo amigo é véspera do escarro. Por que o fato se repete em todos os cenários nacionais, no Rio, em Salvador, em Campinas, em Sobral, no Recife, em Teresina, em Oeiras? Terríveis adversários ontem, amigos do peito hoje? Porque as agremiações partidárias são falsas, os candidatos não defendem idéias nem plataformas, mas exclusivamente ambições de alcançar o poder.

Débeis mentais, tipos arrogantes, machões, indivíduos apalhaçados ocupam os horários das tevês e arrotam descomposturas. São candidatos a cargos eletivos. Certos partidos contratam por milhões profissionais inteligentes que xingam em nome dos candidatos. No Brasil todo, sob a proteção da Justiça Eleitoral, que merece respeito e credibilidade, se praticam esses programas condenáveis.


A. Tito Filho, 18/09/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

BAIXEZA

Faz anos acompanho a vida política piauiense. Desde os anos 47 dela participo como jornalista. Presenciei discursos ferozes nas praças públicas, em que adversários se censuravam de modo azedo e sem medidas. Por vezes se ouviam acusações de desonestidade por parte de um ou de outro dos candidatos. Assisti a duras pelejas e ouvi severos e ferinos ataques por força das paixões políticas. Rocha Furtado, Gayoso e Almendra, Pedro Freitas, Lustosa Sobrinho, Petrônio Portella, para falar de candidatos ao governo, usaram linguagem contundente nos comícios de praça pública. Mas respeitava-se a honra alheia e sobretudo a vida privada dos cidadãos. As mulheres, então, eram intocáveis, gozavam do mais amplo respeito, de quantos oradores deitavam falação nos palanques de propaganda partidária.

Em 1964, com o golpe militar derribador do presidente Goulart, suspenderam-se eleições diretas. Aos políticos se concederam apenas eleições para deputados e senadores e as do âmbito municipal. Os cargões de mordomias tinham titulares escolhidos pelos generais de plantão. A partir de 1982 deu-se o retorno à escolha direta do governador, e pelo menos no Piauí as ambições de mando promoveram as mais infames baixezas contra adversários. Inaugurou-se verdadeira linguagem mequetrefe, para gozo e alegria dos moleques de esquina, famintos de indignidades contra a honra de pessoas consideradas, até antes das candidaturas, como pessoas de inatacável compostura. Na campanha de 1986, a debocharia desconheceu  freios. Tisnava-se a personalidade das lideranças pelos meios mais nefastos. A honra alheia valia menos do que dez réis de mel coado. A praxe generalizada estava em azinhavrar mais do que tudo a pilhéria apalhaçada dos candidatos. O insulto constituía a essência da campanha. Respeitava-se, porém, a mulher-filha, a mulher-esposa, a mulher-mãe.

Conheci em Teresina um parente, primo legítimo de meu pai, chamado José Nelson de Carvalho. Caráter reto. Trabalhador. Sério e leal. Esposa de virtudes imensas. Lar cristão e sadio. Enfrentou dificuldades na vida e morreu pobre. A filha Carlota conseguiu emprego na administração do Piauí para ajudar a mãe. Conheci-a em Karnak, como recepcionista, modesta servidora, antes de casar-se com Freitas Neto.

Carlota passou a trabalhar na Universidade Federal do Piauí. Que mal há nisso? Quantos deputados estaduais, federais, senadores, políticos de diversas cores possuem esposas, sobrinhas, irmãs, cunhados e cunhadas, às vezes família completa ganhando os dinheiros da Universidade? Pois essa ilustre senhora, recentemente, foi apresentada num programa político como beneficiária de ato condenável, o de haver obtido um emprego na Universidade.

E assim se viu exposta aos apreciadores dessas explorações descabidas contra uma circunstância normalíssima na existência dos políticos piauienses.

Conheço os candidatos ao governo do Piauí. São pessoas de bem, sérias, capazes. Como todo ser humano, possuem erros, cousa naturalíssima nos que se dedicam à política e ao seu cortejo de paixões e emoções.

O triste nível dos programas gratuitos na atual campanha de governador tem a responsabilidade exclusiva do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí, constituído de homens dignos, e do Procurador da República, não menos em dignidade. O horário gratuito da justiça se destina ao debate de idéias e à apresentação de programas. Os ilustrados juízes e o vigilante procurador pensam de outro modo e o Colegiado passa a amparar e a proteger a mais grotesca e degradante campanha deseducativa de que se tem noticia. As coligações em luta chegam a contratar locutores inteligentes para o xingamento e o deboche, inclusive graciosa e educada jornalista. Sei que os referidos profissionais praticam o seu trabalho para ganho melhor, mas a justiça não devia permitir que os não candidatos se pronunciassem em lugar dos que deviam assumir as próprias responsabilidades, de peito aberto, sem subterfúgios.

Deixo sincero apelo aos 4 dignos pretendentes ao governo do Piauí, no sentido de que se  eleve o nível da campanha, pois cada qual deles tem formação espiritual para tanto.

Ou que se respeitem pelo menos as mulheres cuja dignidade moral está acima de tricas e futricas de campanhas do mais baixo teor educativo.


A. Tito Filho, 02/07/1990, Jornal O Dia