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domingo, 5 de fevereiro de 2012

A MÁQUINA

Não cabe dúvida que a máquina provocou a maior revolução de todos os tempos, a revolução industrial, que mudou radicalmente a estrutura da sociedade universal. Derribou preconceitos. A economia dos povos passou a apoiar-se no combustível ou na falta deste. Extinguiu-se o regime escravo, a exemplo dos Estados Unidos. E o que foi pior: expulsou a mulher do seu lugar de primeira educadora, no lar, e maior responsável pelas finanças domésticas, pois a ela cabiam os encargos de prepara a roupa, o remédio e fabricar o alimento - e tudo isto, encarecido pela produção da indústria, saiu da órbita caseira e fez que as donas-de-casa passassem ao sistema do consumismo e buscassem emprego para ajudar as despesas respectivas. Quanto mais se intensificou o poder de abarrotar os mercados consumidores, muito forte se tornou a publicidade, por múltiplos veículos, e cada dia o ideal de conforto a qualquer custo contagiou as diferentes classes sociais. Surgiram os meninos sem o leite materno, a adolescência desamparada de afeto, a mocidade rebelde, e a maturidade irresponsável, dissipadora e disposta sempre à esperteza, aos golpes de dinheiro, às fraudes - num corpo social aniquilado espiritualmente pela ganância. Triste, muito triste, será o quadro no terceiro milênio que se aproxima, pois subvertendo a ordem dos costumes e dos hábitos privados e públicos, derrotando o homem no seu teor de virtude - o poder industrial buscaria desmoralizar as mais caras instituições da vida, com inicio pela constelação familiar. Afrouxaram-se e perderam-se os freios morais. O ser humano tornou-se escravo do dinheiro, semelha uma cédula de dólar, tudo vende e tudo frauda. Chegou-se ao processo da violência, cujas razões são, nos crimes de sangue, também econômicas. Até 1968, ainda se mantinham certos fundamentos cristãos nas relações de homens e nacionalidades, quando adveio a chamada revolução cultural dos jovens, em maio, partida dos universitários, para mudar o modo de ser da sociedade, que para eles padecia de incurável velhice. Assassinaram-se líderes, destruiu-se um sistema para salvação de estruturas em decadência, como se anunciou. Anularam-se os valores morais. Estabeleceu-se a liberdade sexual. As artes padeceram, e no quadro negativo a música se tornaria frenética, como se tivera o destino de fabricar doidice e gestos macaqueados. A droga se faria companhia habitual de adolescentes e moços, para o futuro fosse dependente de anticidadãos doentes e derrotados. A primeira grande vítima desse movimento estudantil que libertou instintos e ambições se chama, na preleção de Dom Eugênio Sales, a família, que se debilitou, com a convocação da publicidade para o mal e o desperdício. Abandonou-se a prole. Liquidou-se o senso de moralidade. Aboliram-se práticas de leitura e de aprimoramento da inteligência. No prazer se fixam todas as vontades. Valem os instintos. Desapareceu a honra. O trabalho ainda vigora, mas incômodo. Matam-se seres humanos pelo aborto e crianças na rua, pela inanição. Estimula-se o crime propagando o heroísmo dos que o praticam. Não se crê na vida política. E tem-se como difícil a salvação. Salvo, de forma que escreveu o pastor dos cariocas, se as derrotas sofridas pelo homem sejam passageiras e que voltemos às normas sagradas do nosso verdadeiro destino.


A. Tito Filho, 25/08/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

INSULTO

Ivan IV, o primeiro grão-duque de Moscou a tomar o título de czar, em se declarando sucessor pelo sangue do romano César Augusto, foi dos mais violentos e mais cruéis soberanos da história da humanidade.

Órfão de pai e mãe, submetido a tutela dos boiardos que se entredevoram para conquistar o poder, Ivan faz o aprendizado da astúcia e da crueldade à sombra dos protetores que, no entanto, o ignoram. Coroado czar em 1547, com 17 anos de idade, ele manifesta logo inicio uma autoridade assustadora. Sádico e místico, considera-se o vigário de Deus na Terra e se imagina desculpado antecipadamente por todos os seus desregramentos. Sua mórbida desconfiança o leva a ver por toda parte espiões e traidores. Manda torturar devotos favoritos. Até sente mais prazer quando comete injustiças.

Ivan gosta tanto de sangue quanto de mulheres. Casará oito vezes, sem se preocupar com a Igreja. Algumas das esposas morrem envenenadas, para satisfação do czar que prefere escolher as substitutas entre milhares de jovens em autênticos concursos de beleza.

Entretanto, não perde de vista de vista a missão política. Luta para largar seu reino, em batalhas sangrentas com poloneses, tártaros e suecos. A principio com sucesso, depois com incontroláveis perdas.

Quem era Ivan, o Terrível, o homem que matou o próprio filho e herdeiro? Que se divertia soltando ursos selvagens contra homens, mulheres e crianças? Que comandou o genocídio de Novgorod?

O retrato de Ivan feito por Henri Troyat, russo naturalizado francês, na sua autoridade de acadêmico, é verdadeiramente singular e oportuno, lançando uma luz serena, mas forte e clara, sobre a maneira de ser do povo russo, delirante, fanático e submisso, sempre corajoso até as últimas conseqüências.

Henri Troyat nasceu em Moscou, em 1911, como Lev Tarassov, nome mudado logo que chegou a Paris, em 1917, portanto, com apenas seis anos de idade. Naturalizado, cedo se consagrou a literatura. Foi Prêmio Goncourt em 1938 e é membro da Academia Francesa. Tem uma longa produção literária, variada, que inclui romances isolados, ciclos de romances históricos, biografias, ensaios, crônicas e narrativas diversas. No que toca a biografias, Troyat já publicou as de Dostoievski, Putchkine, Tolstoi, Gogol, Catarina, a Grande, Pedro, o Grande, e Alexandre I, todos personagens influentes nas artes e na história russas.

Sobre Ivan, o Terrível, na imprensa francesa, merece destaque um comentário de Alexei Antonkin, no "Temps-Économi Littéraire":

"Desde a História da Rússia, escrita entre 1816 e 1826, por Nikolai Karamzine, o livro de Henri Troyat é a mais inquestionável contribuição para p esclarecimento do reinado de Ivan, o Terrível. E as comparações com a Rússia de hoje são gritantes".

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CARLSO EDUARDO NOVAES é, sem dúvida, o único humorista brasileiro de primeira linha que faz você continuar rindo na segunda, na terceira e assim por diante. E já que é assim, nada melhor do que a notícia da publicação de um livro seu, O País dos Imexíveis, uma nova coletânea de crônicas sobre o cotidiano brasileiro que é, ao mesmo tempo, a mais alegre história dos nossos dias...

Na hora em que todo mundo se mexe, será o Brasil o país dos imexíveis?

Mexe e remexe, estamos aí com mais um Plano em que muitos gostariam de atirar mexericos. Entretanto os mexericos são muitos e os mexeriqueiros e mexeriqueiras não param, melhor dizendo, vivem se mexendo.

E o Brasil? Imexível ou Mexível, escorre aqui pela pena bem humorada do sempre inovador Novaes, coadjuvado, literalmente, pela pena de Vilmar Rodrigues.

Imperdível!

Carlos Eduardo Novaes é o humorista mais diversificado no momento. Seus últimos sucessos têm acontecido na área teatral, onde, além de fazer o texto, ele sobe quase todos os dias ao palco para dar o seu recado. Continua mantendo, porém, uma constante na vida: não deixa de escrever as suas crônicas e delas faz um retrato bem humorado deste Brasil... dos imexíveis.

Este é o décimo-nono livro de Novaes publicado pela Nórdica. E o décimo-terceiro da série: "Histórias dos Nossos (Nossos?) Dias!".


A. Tito Filho, 21/09/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

CONSTITUIÇÃO DE 1934

Para o pleito de 3.5.1933, inscreveram-se no Piauí cerca de 14 mil eleitores. Mais de 4 mil em Teresina, cabendo o 2º lugar a Campo Maior e o 3º a Picos. Às urnas compareceram quase 10 mil.

Organizou-se no Estado poderoso partido político - o Partido Nacional Socialista do Piauí, integrado de prestigiosas lideranças como Hugo Napoleão do Rego, Agenor Monte, Raimundo de Arêa Leão, Cláudio Pacheco Brasil, Francisco Freire de Andrade, Francisco Pires Gayoso e Almendra, entre outros próceres. Havia outras agremiações: a Aliança Piauiense e o Partido Republicano.

A 29.4.1933, poucos dias antes da eleição, houve sérias divergências no Partido Nacional Socialista do Piauí, que se dividiu, dele se afastando Hugo Napoleão e Raimundo de Arêa Leão; acompanhados de alguns correligionários.

Estabeleceu-se a Legenda Hugo Napoleão. Depois, esta ala divergente criaria o Partido Progressista Piauiense.

A Assembléia Constituinte reuniu-se a 15-11-1933 e a ela se submeteu o anteprojeto de Constituição elaborado por uma Comissão Especial de 12 membros, de que faziam parte nomes como Assis Brasil, João Mangabeira e Carlos Maximiliano.

Eleitos pelo Piauí Agenor Monte, Francisco Gayoso e Almendra, Freire de Andrade e Hugo Napoleão.

Para a Comissão dos 26, encarregada de examinar o projeto constitucional (um membro de cada Estado, um do Distrito Federal, um do Território do Acre e um de cada representante classista) foi indicado como representante do Piauí Francisco Pires Gayoso e Almendra. Observe-se que eram 20 Estados, na época.

Não houve eleição de senadores para a Assembléia Constituinte.

A Comissão Constitucional ofereceu substutivo ao trabalho do governo. Houve emendas, pareceres, discursos, redação final. A 16.7.1934 promulgava-se a nova Constituição da República.

Durante as atividades da Assembléia Constituinte tiveram constante atuação no plenário os deputados piauienses Hugo Napoleão (veementes críticas ao interventor federal no Piauí Landri Sales Gonçalves), Agenor Monte (problemas nordestinos em geral e defesa do governo Landri Sales Gonçalves) e Freire de Andrade (oportunas questões de saúde pública).

Para sanar desigualdades numéricas de representantes do norte e do sul, Hugo Napoleão ofereceu inutilmente a seguinte emenda, muito elogiada pela imprensa carioca: "O número de deputados de 8 para os Estados cuja população não ultrapassar um milhão de habitantes; de 12 para os que tiverem mais de um e menos de dois milhões de habitantes; de 16, para aqueles que tiverem mais de dois milhões de habitantes".

De acordo com a emenda do deputado piauiense, Mato Grosso, Sergipe, Espírito Santo, Goiás, Rio Grande do Norte, Piauí, Santa Catarina e Paraná elegeriam 8 deputados; Maranhão, Alagoas, Paraíba, Pará, Ceará, Distrito Federal e Rio de Janeiro, 12; Rio Grande do Sul, Bahia, São Paulo e Minas Gerais, 16.


A. Tito Filho, 22/03/1990, Jornal O Dia

sábado, 7 de janeiro de 2012

BATALHA DECISIVA

D. João VI, ao retornar a Portugal em 1821, reconheceu que a Independência do Brasil era impossível de conter-se. Desejava preservar o norte do país, reunindo, como colônia portuguesa, Pará, Maranhão e Piauí. Este, de grande riqueza em gado bovino, poderia cortar o suprimento de carne a outras regiões brasileiras, inclusive ao sul.

Para o comando das armas em Oeiras, então capital do Piauí, o rei nomeou o militar português João José da Cunha Fidié, empossado a 9.8.1822.

A 7.9.1822, às margens do Ipiranga, o Príncipe Regente D. Pedro proclama a Independência do Brasil.

Em Parnaíba, um grupo de patriotas, à frente dos quais João Cândido de Deus e Silva e Simplício Dias da Silva, declara sua adesão à causa da Independência e aclama Imperador o Príncipe D. Pedro, a 19.10.1822.

Com o objetivo de sufocar o levante, Fidié marcha para Parnaíba, cerca de 700 quilômetros distante, com tropas de linha, lá chegando em 18.12.1822. Encontrou a vila guardada pelo brigue Infante Dom Miguel, vindo do Maranhão, com tropas e armamento em seu auxílio. Os chefes da revolta refugiaram-se em Granja, no Ceará.

Em Oeiras, a 21.1.1823, Manuel de Sousa Martins, futuro Visconde da Parnaíba, proclama a Independência e assume a presidência da Junta do Governo do Piauí.

Ao receber, a 28.2.1823, a notícia dos sucessos na capital, Fidié delibera regressar, no comando de mais de 1.100 homens, bem armados. dispunha de 11 peças de artilharia e o seu exército se aumentara de contingentes do brigue infante Dom Miguel e da guarnição de Carnaubeiras, no maranhão. Alimentava o propósito de castigar os revolucionários de Oeiras.

Na viagem de volta, o militar português, sabendo que o centro das forças nacionalistas estava em Campo Maior, que aderira à Independência a 2.2.1823, para lá seguiu em marcha forçada. Na vila, o capitão Luís Rodrigues Chaves convocou os piauienses, mais de mil, a que se juntaram 500 cearenses, uns e outros mal armados de foices, espadas, chuços, facões e velhas espingardas de caça. Fidié desconhecia o número das forças inimigas, entretanto não ignorava que tinha de enfrentar matutos sem-disciplina nem instrução militar, mas dispostos a morrer pela causa da Independência.

Diz Abdias Neves:

"É só a loucura patriótica explica cegueira desses homens que iam partir ao encontro de Fidié quase desarmados".

O mato à margem do estreito rio Jenipapo se compõe de vegetação baixa. O caminho dos patriotas se bifurcava: o comandante João da Costa Alecrim e seus companheiros tomaram à direita e pela esquerda seguiram o comandante Luís Rodrigues Chaves e os seus soldados.

Era 13.3.1823, às 9 horas.

O primeiro encontro foi fortemente repelido pelos patriotas, mas Fidié atravessou o Jenipapo, escolheu posição, dispôs os seus homens. Logo se alvejaram os brasileiros por peças de artilharia. O recurso estava em atacar os portugueses ao mesmo tempo de todos os lados e separá-los. Houve tentativa, rechaçada. Outros ataques se deram, com grandes perdas de vida. A fuzilaria inimiga arrasava o campo. O combate durou até as 2 horas da tarde.

Alguns afirmam que houve 200 brasileiros entre os mortos e feridos. Outros registram 400.

Fidié conquistou vitória aparente. Perdeu parte de sua bagagem de guerra. Acampou a um quilometro de Campo Maior, na fazenda Tombador. Poucos dias depois, partiu no rumo do Estanhado, hoje União, e daí passou a aquartelar-se em Caxias, no Maranhão, onde piauienses e caxienses o cercaram e fizeram que ele se rendesse a 31.7.1823.

Assim se fez a Independência em terras piauienses. Aqui foi preservada a unidade nacional.

Escreve João Cândido de Deus e Silva:

"As próprias mulheres não ficavam indiferentes: mandavam os maridos, os filhos, os irmãos para a guerra e a fim de que levassem munições e armas, vendiam as jóias, se mais nada tinham a vender. A mulher piauiense mostrou, nessa ocasião, a grande fortaleza, o ânimo varonil de lendárias heroínas. Foi inexcedível de amor pelo triunfo completo da Independência - que a abraçara, desde as primeiras proclamações".

Glória aos vaqueiros e roceiros humildes, que lutaram sob o comando dos bravos Luís Rodrigues Chaves, João da Costa Alecrim, Francisco Inácio da Costa, Salvador Cardoso de Oliveira, Alexandre Nery Pereira Nereu, Pedro Francisco Martins e Simplício José da Silva.

Eles permaneceram durante muitos anos no esquecimento. Apenas algumas toscas pedras marcavam o lugar das sepulturas com os restos desses valentes, mortos sem que deixassem à posteridade ao menos os modestos nomes.

A gratidão dos piauienses, porém, um dia se positivou no Monumento do Jenipapo, na campina formosa - o lugar mais sagrado da nossa história.


A. Tito Filho, 13/10/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

UMA PÁGINA DA HISTÓRIA

Narram os entendidos que, em 1497, Cabot e seu filho Sebastião deixaram a Inglaterra com o objetivo dado por Henrique VII de que ocupassem, em nome do monarca, as terras que não estivessem em poder de alguma nação cristã. Ambos descobriram primeiro a Terra Nova e depois correram a costa leste do Atlântico, e tomaram conta, de ordem real, do território compreendido entre o golfo do México e as regiões setentrionais.

Houve as primeiras tentativas, mas o verdadeiro trabalho de povoar a terra se verificou no reinado de Elizabeth, a rainha virgem, em honra de quem se denominou um dos primeiros trezes Estados primitivos: o de Virgínia, repartido em duas unidades federadas após a Guerra de Secessão - Virgínia e Virgínia do Oeste.

Os colonizadores dos tempos iniciais enfrentaram fome, doença e índio. E embora escrevessem episódios de resistência, de bravura, de tenacidade, pouco conseguiram. Venceu-os o território imenso, o seu desconhecimento, o inimigo esperto e vigilante, o indígena, dono da terra.

Mas na Inglaterra, espocavam disputas religiosas. E os crentes decididos fizeram-se os peregrinos do mayflower, a nau história - e deram as praias da América, para que se distanciassem do poder real, sonhando com a liberdade. Outros vieram - e a América foi conquistando gente dos rincões vários do globo - gente que lutava contra a ferocidade do índio - ingleses, escoceses, irlandeses e depois holandeses, e povos de todos os tipos e de diversas origens - o famoso melting pot de que se orgulham os americanos nos dias que correm.

Fundaram-se as 13 colônias primitivas, de diferente forma de governo: uma sob a dependência imediata do monarca francês, 3 sob regime de propriedade particular; e finalmente aquelas concedidas aos colonos, e nas quais a administração era mais livre. Os 13 núcleos da atual República dos Estados Unidos adotavam estes nomes, ainda mantidos: Vírginia, Massachussets, New Hampshire, Connecticut, Rhode Island, New York, New Jersey, Pensylvania, Delawere, Maryland, North Carolina, South Carolina e Georgia.

Como os colonos, na maior parte, tinham deixado a Inglaterra na época das grandes lutas religiosas, bem assim políticas, eram eles profundamente dedicados aos princípios de liberdade. tornaram-se inimigos das prerrogativas da Coroa. Pouco a pouco, e em virtude dessa tendência liberal, os laços que uniam as colônias à metrópole afrouxaram-se e cresceu o espírito de independência. Quando a Inglaterra começou a oprimir a vida dos cidadãos dos novos territórios, os delegados de 9 colônias se reuniram e publicaram uma declaração de direitos, firmando o princípio de que só as referidas colônias podiam cobrar impostos, ponto capital da questão, de que surgiu a luta armada, sob o comando de Jorge Washington, o general que viria a ser o primeiro presidente do país que se chamou Estados Unidos da América do Norte.

A declaração de independência tem a data de 4 de julho de 1776. Antes, em 1775, houve congresso das colônias, em Filadélfia; e em 1887 ainda nessa cidade fundada pelo quacre William Penn se reuniram os delegados que começaram a elaborar a constituição americana - a obra mais maravilhosa que jamais de um só esforço saiu de um cérebro humano, no dizer de Gladstone.

Em 1778, com exceção de 2 Estados, os demais ratificaram o célebre documento, no qual, no correr dos anos, foram adicionados mais de 20 emendas, inclusive a abolidora da escravatura. Nela continuam inscritas as peças básicas do regime: o poder distribuído em 3 ramos independentes, a temporariedade das funções eletivas, a responsabilidade dos mandatários, a igualdade perante a lei, o voto secreto, a liberdade de pensamento e de reunião - e outros ditames incontestáveis.  


A. Tito Filho, 07/04/1990, Jornal O Dia

INDEPENDÊNCIA DO PIAUÍ

A história da independência no Piauí reclama interpretação. Alguns já procuraram fazê-la. A verdade é que no começo do século XIX a economia brasileira estava abaladissima, bem assim desorganizadas e decadentes as fontes de riqueza: o ouro, os diamantes, o açúcar. Daí as tentativas novas realizadas, desde o chá, que ficaria como uma experiência de luxo, até o café, que se tornaria a peça máxima de resistência econômica. Situação desoladora. Atestam-no as revoluções sem ideais, revoluções platônicas sem ideais, refletindo situações de desequilíbrio orgânico inconsciente. A conspiração mineira atestava a decadência da mineração. As revoluções de 1817 a 1824 revelaram economia instavelmente garantida pelo açúcar que, desde a expulsão dos holandeses perdera no Nordeste a supremacia produtora. O Rio Grande do Sul só a partir de 1823 passou do regime agrícola ao pastoril.

O Brasil, no século XIX, tornou-se o centro de um comércio triangular, unindo-se à África e à Ásia, sem participação portuguesa. Há outras causas que explicam a independência, mas essa foi uma das causas fundamentais.

Saliente-se que o norte do país era satélite de Portugal e representava dois terços da atividade útil do Brasil.

Reinava Dom João VI. Portugal praticamente estava entregue aos ingleses, governado por Beresford. Com o regresso do monarca, houve a pretensão de recolonizar o Brasil, já elevado a reino, e isto feria profundos interesses econômicos.

Retornando a Portugal, em 1821, Dom João VI despachou para o comando das armas do Piauí o oficial português João José da Cunha Fidié, que escreveria, ao depois: "Na ocasião de minha partida, Sua Majestade me ordenou muito positivamente: mantenha-se, mantenha-se" - isto é, conserve o Piauí sob o domínio português. Sabia o monarca que o Piauí era a mais rica das capitanias do norte, rica em gado, fonte de abastecimento, do Sul e do Norte, fonte de riqueza de Portugal. Do Piauí seguia carne para Lisboa. Dominando o Piauí, Portugal dominaria econômica e politicamente o Norte e sujeitaria o Sul. Evitaria o triunfo dos independentes na Bahia, cortando o suprimento de carne.

Portugal arrecadava somas elevadas do gado do Piauí, com grandes prejuízos para os criadores e para os industriais e comerciantes da carne, fazendo que estes sustentassem a causa da independência.

Foi das mais sangrentas a batalha do Jenipapo, às margens do rio do mesmo nome, em Campo Maior, dia 13-3-1823. Embora vitorioso, Fidié viu-se obrigado a seguir para Caxias, baluarte português. Três meses o comandante português resistiu ao cerco de sei mil brasileiros, comandados por Filgueiras e Souza Martins: "resisti - diz ele - até o último apuro, tirando do campo inimigo, a ponta de baioneta, os víveres precisos para sustentar a minha tropa, cheia de fadiga". Manuel de Souza Martins havia proibido gado para o Maranhão.

A Independência no Piauí e no Maranhão - salientou Hermínio Condé - é uma epopéia que não encontra similar em qualquer das campanhas emancipadoras dos povos americanos.

Em 1973, o governador Alberto Tavares Silva homenageou, com as forças armadas, no local do combate do Jenipapo, a memória dos que ali se sacrificaram, 150 anos atrás. No seu discurso, lembrou o governante a lição correta: "Fidié fora mandado ao Brasil para compor, com os outros militares portugueses destacados no Norte, o dispositivo que garantiria a Portugal o domínio de tão vasta porção do território brasileiro. Dominadas pelos portugueses as fazendas de criar do Piauí, estariam os independentes baianos privados de suprimento e de tão vital suprimento estariam igualmente privadas as demais províncias. É fácil entender a importância, para a Coroa Portuguesa, de fazer abortar, ou de esmagar a ferro e fogo, o movimento das independentes no Norte do país, onde quer que se manifestassem".

É necessário lembrar que no Sul a independência foi aplausos e festas. No norte, fome e sangue. A batalha do Jenipapo decidiu a unidade brasileira.

Manuel de Sousa Martins, futuro visconde da Parnaíba, censurou o movimento dos parnaibanos com a proclamação da independência de 19-10-1822. Achou-o precipitado. Lançou a sua culpa a sangueira do Jenipapo. Abdias Neves acredita que aquele foi o momento histórico do rompimento. Outro teria sido o destino do Norte sem a iniciativa dos parnaibanos. Portugal sabia que o Piauí constituía magnífico ponto estratégico para o ataque a outras províncias. O Piauí exportava o gado consumido em Pernambuco, Ceará e Bahia. Houve até o alvitre de que Maranhão, Piauí e Pará formassem um Estado subordinado a Lisboa. Os acontecimentos de Parnaíba alteraram tal plano.

João José da Cunha Fidié foi militar honesto, puro e disciplinado. Inflexível. Nos episódios da independência do Piauí, lhe são atribuídas falhas táticas: haver partido da capital com toda a tropa e material de guerra, para dar combate ao movimento da Parnaíba, onde muito repousou depois de saquear a cidade. Nada combateu. Quando soube da rebelião em Oeiras, quis retornar à capital, mas foi obrigado a travar a batalha do Jenipapo. A ida para Parnaíba foi erro grave como o abandono de Oeiras, sede do governo, sem elementos de resistência. Segundo erro, a demora em Parnaíba. Os independentes enfrentariam incalculáveis dificuldades se Fidié se aquartelasse em Campo Maior ou se tivesse regressado, sem perda de tempo a Oeiras, logo que soube que os independentes da Parnaíba se haviam refugiado no Ceará. O movimento da Parnaíba não tinha raízes populares. Ainda assim, Fidié constituiu grave risco para a unidade brasileira.

De tudo se verifica que o Piauí não aderiu à independência. Constitui-a. neste ponto, há necessidade de revisão de livros de história pátria, notadamente os didáticos, em que deve ser incluído o esforço piauiense na luta da emancipação.


A. Tito Filho, 05/04/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

JOVITA

Jovita Alves Feitosa, cearense de nascimento, vivia em Jaicós (PI). Tinha 17 anos quando se apresentou em Teresina, como voluntária para a guerra do Paraguai. Seguiu da capital do Piauí para o Rio em 1865. Multidão aclamou-se em São Luís. À noite, homenagem no teatro e aí coberta de flores. No Recife, a recepção esteve mais intensa. Na Bahia, a mesma cousa. Hospedou-se no palácio da presidência da província. No Rio, recebida com muitas festas. Mas o governo não permitiu a sua ida para o teatro da guerra, como militar. Voltou ao Piauí. Mal recebida pela família em Jaicós, regressou ao Rio. Iniciou relações com o engenheiro Guilherme Noot, que teve de retornar à Inglaterra, deixando-lhe bilhete de despedida. Jovita procurou a residência do amante e lá soube que era verdadeira a viagem para a Inglaterra. Foi ter ao quarto em que ele residiu. Horas depois, a empregada da casa encontrou-a na cama, deitada, com a mão sobre o coração, no qual havia cravado um punhal até o cabo.

A peça teatral "Jovita ou a heroína de 1865" foi concebida em três atos: o 1º, de cenário em Jaicós-PI, publicou-se com o título original de "Pelo amor e pela pátria"; o 2º, e o 3º tiveram os títulos de "Aos braços de Henrique ou aos braços da morte" (cenário em Teresina) e "Saiba morrer a que viver não soube" (cenário do Rio de Janeiro), respectivamente.

O drama histórico de Jônatas Batista encenou-se no Teatro 4 de Setembro, da capital piauiense, a 19.04.1914, nos seus três atos. Papel principal: artista Nena Pimentel, que representou Jovita. O autor fez as vezes de Anacleto Ferreira.

Infelizmente se perderam os dois atos complementares da peça, baseados na vida dessa cearense dos Inhamuns, que, aos 16 anos, passou a viver na vila de Jaicós, com um tio de nome Rogério. Pretendia estudar música. Arrebentando a guerra do Paraguai, a jovem vestiu roupa de homem, cortou os cabelos, cobriu a cabeça de chapéu de couro, e viajou sozinha para a Teresina. Na capital, procurou as autoridades. Queria alistar-se como voluntária da pátria, e seguiu com o segundo corpo de voluntários com destino ao Rio de Janeiro.

*   *   *

Ilustrados historiadores se preocuparam com a história de Jovita Alves Feitosa, da forma que fizeram o pernambucano Pereira da Costa e os piauienses Fernando Lopes e Silva Sobrinho, padre Joaquim Chaves e Humberto Soares Guimarães, para citar alguns.

Delci Maria Tito, faz algum tempo, vem pesquisando dados sobre mulheres que se tornaram notáveis em atividades políticas, educacionais, religiosas, assistenciais, literárias, ou que participaram de episódios históricos do Piauí. Trata-se de trabalho original, que ela pretende realizar com os dados biográficos e a obra fundamental prestada à sociedade a que cada uma dedicou esforços constantes, iniciando-se com Jovita Alves Feitosa, originária dos Feitosas do Ceará, a valente taba dos Feitosas, de que se têm ocupado escritores como Gustavo Barroso.

Teresina viveu noites animadas, mais de uma vez, no Teatro 4 de Setembro lotado, nas apresentações da peça histórica sobre o drama dessa infeliz sertaneja, de autoria de Jônatas Batista, de grande e merecida popularidade na época em que foi o principal animador, ao lado de Pedro Silva da vida teatral teresinense.


A. Tito Filho, 29/12/1990, Jornal O Dia

domingo, 25 de dezembro de 2011

DEZESSEIS BACHARÉIS

Foi bom. Passaram-se quarenta anos. Numa sala pequena, padrinhos e convidados espremidos, colaram grau, a 16 de dezembro de 1950, na antiga Faculdade de Direito do Piauí, dezesseis novos bacharéis, cada qual mais feliz do diploma conquistado. Presidiu a bonita solenidade o mestre de invulgar conceito Cromwell Barbosa de Carvalho, muito querido da comunidade teresinense. Eis a relação dos jovens da época, vitoriosos com a colação de grau e ricos de merecidos triunfos no correr dos anos: AFRÂNIO MESSIAS ALVES NUNES, professor, secretário da Educação, deputado estadual várias legislaturas, desportista, conselheiro do Tribunal de Contas, secretário do Trabalho, em cujo exercício se encontra. Prestou o juramento em latim em nome dos colegas de formatura. ALCEBÍADES VIEIRA CHAVES, juiz em comarcas do interior, atualmente desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão, que já presidiu. ESDRAS PINHEIRO CORREIA, promotor público, procurador da Justiça, membro do Colégio dos Procuradores de Justiça e do Conselho Superior do Ministério Público, corregedor geral do Ministério Público, agora no exercício de procurador-geral da Justiça. JOSÉ DE ARIMATHÉA TITO FILHO, professor e jornalista, escritor, diretor do Colégio Estadual do Piauí, secretário da Educação e da Cultura, desempenha as funções de procurador do instituto de previdência do Estado. Desde 1971 preside os destinos da Academia Piauiense de Letras. Orador da turma. JOSÉ BARBOSA, deputado estadual, prefeito de Altos, onde reside, em seguida promotor público. JOSÉ GUILHERME DO REGO MONTEIRO, advogado e procurador do Estado. MANOEL PAULO NUNES, alto funcionário do Ministério da Educação, secretário da Cultura no Piauí, escritor e membro da Academia Piauiense de Letras, desempenha o magistério universitário em Brasília. OMAR DOS SANTOS ROCHA, professor, advogado, criminalista, chefe do setor jurídico da Polícia Militar, funções que exerce no momento. Integrou a Força Expedicionária Brasileira na 2ª Guerra Mundial. RAIMUNDO EVERTON DE PAIVA, juiz de direito no Maranhão e desembargador do Tribunal de Justiça do referido Estado. SEBASTIÃO ALMEIDA CASTELO BRANCO, advogado e procurador de INPS em Fortaleza.

Os citados, com exceção dos indicados como residentes noutros cenários, assistem na capital piauiense.

Passo aos falecidos, saudosos companheiros: JOÃO LINO DE ASSUNÇÃO, advogado, morava na cidade maranhense de Caxias. CRISTOVÃO ALVES DE CARVALHO, faleceu como juiz de direito da comarca de Pio IX, no Piauí. JESUS DA CUNHA ARAÚJO, juiz de direito em Belo Horizonte, cidade onde se despediu da vida. MANOEL TEODORO DE SOUSA GOMES, professor e contador seccional do Ministério da Fazenda, em cujo exercício morreu. RAIMUNDO ACILINO PORTELA RICHARD, advogado, exercendo ainda, ao falecer, o cargo de advogado de ofício, correspondente a defensor público. ERNANI DE MOURA LIMA, deixou este mundo em elevadas funções no Banco Central da República.

Grandes mestres lecionaram a turma, à qual me incorporei no último ano do curso, quando regressei do Rio de Janeiro, antiga capital da República em que tive quatro anos de estudos, e regressei para assumir cargo federal. Não posso referir-me senão aos professores do 5º ano, como Clemente Fortes, o paraninfo dos concludentes, Edgar Nogueira, Ernesto Batista, João Martins de Moraes, Hélio Correia Lima. Mestres responsáveis, alunos vitoriosos.

Foi bom. Três ou quatro dias de festas dos novos bacharéis dessa época da mocidade. Ainda hoje, de vez em quando, os colegas se reúnem e comemoram o acontecimento. Está faltando a reunião agradável e alegre dos 40 anos.


A. Tito Filho, 16/12/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

NOS SUBTERRÂNEOS DO KGB

Na hora da glasnot, ou seja, da transparência,d e deixar que se abram as janelas para a União Soviética e a sua república central, a Rússia, é bom que os testemunhos mais ricos e claros sejam colocados ao alcance do leitor brasileiro, a bem de um esclarecimento que nos aproxime do sofrido povo russo.

Curiosamente através de revistas e jornais, temos obtido retratos bem esclarecedores sobre a vida na União Soviética, dos protestos em várias das suas repúblicas, da intervenção das forças armadas para conter esses protestos, sabemos da discussão política dentro e fora do Partido Comunista, até sabemos que se admite pela primeira vez a existência do pluripartidarismo, - mas nada se escreve sobre o KGB! E nós sabemos o que aconteceu com o DOPS, com o PIDE, até temos condições com o DOPS, com a PIDE, e até temos condições de avaliar o que se passa na CIA e no FBI, mas do KGB, nada.

Por isso, a oportunidade do lançamento deste livro, "Minha vida no KGB", que é a história de Stanislav Levchenko, um sentenciado à morte pelos famosos Komitet Gosudarstvennoy Besopasnosty.

É uma história de espiões onde a ficção é feita de fatos verdadeiros, onde os sofrimentos, as "caçadas", as matanças, os dramas e as fugas fizeram parte da vida excitante, trágica, e, por vezes, bizarra, de um espião russo muito bem sucedido.

Por que é que ele foi sentenciado à morte?

Aí você vai saber como é que o KGB controla a vida das pessoas e, em especial, a vida de Stan Levchenko. Como é que a chantagem faz com que as pessoas se rendam ao desempenho de papéis escusos e atentatórios aos seus próprios interesses, aos dos seus amigos que têm de trair para continuar a viver.

Levchenko acabou fugindo para o outro lado onde - para ele - existia um mínimo de segurança, afinal, nem ele tinha culpa de ter sido criado e instruído do lado errado.

STANISLAV LEVCHENKO é um homem marcado para morrer. Ele sabe demais sobre o KGB e, portanto, é um "arquivo" que precisa ser destruído. Foi condenado à morte e, por muito que viva, será sempre perseguido. Entretanto, seus amigos lutam para que ninguém saiba onde está, o que faz e o que pretende realizar. Sua segurança é a segurança de informações vitais para o Ocidente e para o definitivo ressurgimento da democracia na Rússia.


A. Tito Filho, 27/04/1990, Jornal O Dia