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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

UM POUCO DE JORNALISMO

Estava eu no Rio de Janeiro quando, em 1945, a imprensa se libertou da censura de Getúlio Vargas. Lia os jornais da época e muita apreciava os fortes artigos que corajosos jornalistas escreviam contra a longa ditadura getuliana. Nunca me esqueci de Osório Borba, Rafael Correia de Oliveira, Carlos Lacerda, J. E. de Macedo Soares, articulistas severos.

Em 1946, criamos, na antiga capital da República, órgão LIBERTAÇÃO, em favor da candidatura de José da Rocha Furtado ao governo do Piauí. Luís Costa, Tibério Nunes, Virmar e Vinícius Soares e eu. Jornalzinho valente. Editado no Rio, vinha de avião para Teresina, onde se vendiam cinco mil exemplares. As edições e o frete eram custeados pelo deputado José Cândido Ferraz.

Já no Piauí, eleito Rocha Furtado, estive alguns meses na orientação do órgão "O Piauí", que circulava nos dias de quinta e domingo, e me foi confiado por Eurípedes de Aguiar. Posteriormente, fiz parte da redação de outras folhas, sempre partidárias, sob a responsabilidade de governistas ou oposicionistas.

Na década de 50, participei de "O Pirralho", com circulação semanal. Irônico, o jornal explorava sobretudo os aspectos ridículos das pessoas e da sociedade. Dirigi também revista literária, chamada "Paranóplia", nome de natureza culta, fundada pelos principais jornalistas da terra.

Em 1959 passei a direção de "Jornal do Piauí", que obedecia à orientação política do PSD, ou Partido Social Democrático. Dei-lhe redação diferente, sem xingamentos, de elegante linguagem, sem que se abdicasse das criticas a erros dos homens públicos. Uns dois anos depois, secretariei "Folha do Nordeste", jornal moderado, sério, de propriedade de João Clímaco de Almeida, que o dirigia de maneira elevada e respeitadora.

Trabalhei em "Folha da Manhã" e "O Dia", o primeiro de Marcos Parente, dirigindo com segurança por Araújo Mesquita, o segundo fundado por Mundico Santídio, com circulação duas vezes por semana. Quando foi adquirido por Otávio Miranda, ao órgão, que passou a circular diariamente, eu prestava a colaboração dos editoriais, no tempo em que à frente das edições se achava o talentoso Deoclécio Dantas.

Estive noutros jornais de Teresina, sempre a pedido dos seus proprietários ou editores, e cito com saudade os nomes de Josípio Lustosa, Bernado[?] Clarindo Bastos, Raimundo Ramos.

"Jornal do Piauí", na fase de José Vieira Chaves, preenche grande parte de minha atividade. Um dia contarei a história de seu diretor, figura humana que a gente não esquece.

Estas lembranças hoje têm o objetivo de falar da revisão dos nossos órgãos de imprensa. Os revisores são mal pagos. Trabalham nas madrugadas, sonolentos. Bondosos companheiros, embora às vezes os autores dos artigos não lhes perdoem os cochilos.

Na última quinta-feira, neste espaço, escrevi de 1987 a 1990, mas saiu de 1787 a 1990. tomei um susto. Ninguém pode ser tão velho. noutro ponto escrevi: DEPUTADOS FEDERAIS OU ESTADUAIS. Em vez do plural, publicou-se o singular DEPUTADO. Logo depois deixou-se isto: PELAS SABEDORIAS POPULAR. Redigi SABEDORIA POPULAR. Em certo lugar, engoliu-se a vírgula e suprimiu-se o ponto. em MACEDO se colocou em acento que não foi meu e saiu MACÊDO (com circunflexo). E outros GATINHOS. O pior, porém, se deu com INTENSÃO. Nunca grafei tal palavra pelo jeito que se publicou. Tenho certeza absoluta de que a palavra se escreve INTENÇÃO, com a letra cedilha, a única que leva cedilha.

Durante a longa vida jornalística que tem sido a minha, sempre os bons e inteligentes amigos da revisão me maltratam. Mas nunca deixei de desculpá-lo, porque conheço as dificuldades que enfrentam. Além do mais, quero-lhes bem e lhes ofereço, no percurso dos anos, os meus humildes préstimos. Peço-lhes, porém, que não mexam na minha INTENÇÃO, e deixem sair em INTENSÃO, arrasando a meu diploma de professor de português. Filho gratíssimo ao coleguinha, a quem mando um abraço pelo obséquio.


A. Tito Filho, 22/12/1990, Jornal O Dia

sábado, 21 de janeiro de 2012

NARRATIVA

Mês passado, faleceu em Teresina Josípio Lustosa, meu conterrâneo de Barras, onde, na minha meninice, eu o conheci, na labuta de ganhar o pão diário. Comerciante modesto. Montou certa vez padaria - a Padaria Baliza, e um caboclo descalço, mal o sol abria o olho, manhãzinha, saia pelas ruas a gritar, na cidadezinha ainda quase adormecida - ÓIA OS POMBALIZA, arremedo de PÃO BALIZA. O arranjo um bocado profano do vendedor mexia com a santa moral das velhotas rezadeiras e das castas donzelas barrenses. O pão tornou-se maldito, recusado, a greve geral levou Josípio a fechar a pequena fábrica. Com a subida de Leônidas Melo ao governo do Piauí, veio ele para Teresina. gostava de mulheres. Não enjeitava rabo-de-saia e nunca negou a filharada que pôs no mundo sem as rezas da legitimação, com o registro de filhos naturais, numa época de preconceitos sociais absurdos, felizmente varridos das certidões cartoriais.

Josípio Lustosa venceu. Fiscal de rendas do Estado, o cargo mais ambicionado noutros tempos. Quando Petrônio Portella conquistou o governo, escolheu Cleanto Jales de Carvalho secretário da Fazenda e Josípio Lustosa diretor-geral do Departamento da Fazenda, cousa assim, mas os dois não se cheiraram bem, discreparam nos métodos e se desavieram, o que levou o último a exonerar-se.

Corria o ano de 1963. Petrônio estava de namoro político com o presidente João Goulart, enquanto Josípio rompera com o governante piauiense e o combatia ferozmente nas colunas do jornal "Estado do Piauí", de que era proprietário e diretor.

Chegou 1964. No dia do chamado movimento militar, o governador do Piauí emprestava irrecusável solidariedade a João Goulart, que, ao cabo de contas, padeceu deposição e retirou-se do país. Veio a famosa revolução redentora e a respectiva caça às bruxas, isto é, aos elementos comprometidos com Goulart, comunistas, esquerdistas, pelegos e outras denominações em voga. Josípio abria as torneiras jornalísticas para denúncias contundentes contra Petrônio, que resolveu processar o atacante usando a própria legislação dita revolucionária. Nomeou comissão de inquérito, integrada do Secretário da Segurança, do Comandante da Polícia Militar, do Procurador Geral da Justiça e mais uns dois, designando a composição pelos cargos, ou pelos que os ocupassem. Aconteceu que o Procurador Geral da Justiça era Darcy Araújo, amigo de Petrônio e de Josípio, não se sentia bem na função. Pediu licença. O substituto do licenciado no cargo e na comissão tinha o nome de Anísio Maia, mas estava afastado das boas graças oficiais. Não merecia confiança. Assim, o governador resolveu nomear para o lugar Antônio José da Cruz Filho, desrespeitando o próprio decreto governamental de substituição hierárquica.

A comissão de inquérito realizou os trabalhos e concluiu que Josípio praticara, no exercício de cargo público, atos censuráveis. Sugeriu a demissão a bem do serviço público, o que foi dito.

Josípio, uns meses antes, me havia dirigido ataques fortes no seu jornal. Mesmo assim, mandou pedir-me audiência. Recebi-o cordialmente. Desejava os meus serviços no remédio heróico do mandado de segurança. Acatei a questão. Fui vitorioso em liminar do relator no Tribunal de justiça do Piauí, desembargador Otávio Rego. Poucos dias depois, a maioria dos desembargadores me derrotava por 7 a 2. Recorri. Bati às portas do Supremo Tribunal Federal e ganhei o caso Josípio por unanimidade. Magnífico o voto de Evandro Lins e Silva como relator.

O movimento que derrubou Goulart proibiu que o Judiciário examinasse o mérito das acusações, mas lhe era permitido o exame das questões extrínsecas. Foi por onde ganhei. O Supremo não pôde julgar se eram certas ou erradas as acusações. Não consentiu, porém, que se anulasse o modo de compor a comissão de inquérito: o substituto do procurador geral da Justiça seria o 1º procurador da Justiça, no caso Anísio Maia, nunca o promotor Antônio José da Cruz Filho. Anulou-se o processo. Josípio voltou ao cargo de fiscal de rendas, recebendo os atrasados. Nada lhe cobrei pelos meus serviços.

Josípio foi simples, corajoso, honesto. Isto basta.


A. Tito Filho, 27/03/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

CAVALO BRANCO

Tempos de apaixonados debates na Assembléia. discutia-se e votava-se a Constituição do Piauí. PDS e UDN - esta com minoria - entravam em desaforos constantes. Orador de largos recursos, o deputado Lustosa Sobrinho comandava os udenistas. De outro lado estava um dos deputados mais inteligentes dessa época agitada da política piauiense. As suas transferências, cheias de verve e ironia, provocavam risos e desarticulavam o adversário.

Um dia, Lustosa, no combate, pronunciava discurso inspirado, estudando juridicamente os artigos da Constituição. E fazia citações eruditas. Em determinado momento, a plenos pulmões, sustentou:

- E nesse ponto, sr. presidente e srs. deputados, invoco a figura oracular de Rui Barbosa, mestre de todos nós...

Ouviu-se a voz do combativo deputado Antônio de Sousa:

- Dá licença um aparte?

Lustosa praticou grave erro. Suspendeu a oração para dar o aparte. E o aparte veio para liquidar o orador, com a risada da platéia:

- Vossa Excelência está dizendo que Rui Barbosa foi mestre de todos nós. Pelo menos não foi meu, pois só tive um mestre, aliás uma mestra, a professora Maroca de Piracuruca...

X   X   X

O órgão "O Piauí", que defendia os interesses da União Democrática Nacional, usava linguagem violenta contra os adversários do Partido Social Democrático do jornal pessedista seguia o mesmo caminho. Trocavam-se descomposturas e xingamentos. Nada se respeitava, ao menos a vida privada. Nesse clima se votava a Constituição do Estado.

Um dia o jornal udenista publicou, em primeira página, debochativo artigo contra o deputado Antônio José de Sousa, acusado, ali, de palhaço ganhador de subsídios sem trabalhar - e pior, sustentava o órgão de imprensa, é que Cavalo Branco nenhuma providência tomava contra o deputado.

Cavalo Branco era o apelido do ilustre e digno deputado Epaminondas Castelo Branco, pessedista de sete costados, presidente da Assembléia.

O jornal circulou de manhã. De tarde, sessão do Legislativo. Antônio José de Sousa pediu a palavra para criticar o jornal. Calmo, risonho e espirituoso, começou:

- Aqui se diz que sou palhaço. Ora, sr. Presidente, na vida só tenho praticado atitudes sérias. Quem me conhece pode atestar o fato. Nunca enganei ninguém. Sou fiel à minha palavra e aos meus compromissos.

Ajeitou de novo os óculos e leu outro trecho:

- O pasquim sustenta que eu ganho nesta Casa sem trabalhar. Ora, sr. Presidente, todo cia ocupo esta tribuna para defender os interesses do Estado. Não falto as sessões. Nas comissões técnicas dou conta das atribuições que me são confiadas. Jamais faltei ao cumprimento de meus deveres.

Outra vez ajeitou os óculos e leu:

- O pasquim diz mais que o Cavalo Branco nenhuma providencia toma contra mim. Bem, sr. Presidente, este negócio de Cavalo Branco é com o senhor. O senhor se defenda...

E encerrou o discurso.


A. Tito Filho, 07/10/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

COUSAS DA POLÍTICA

Antiga a briga de boca e papel dos políticos brasileiros. Getúlio quando se via muito criticado, convidava o crítico para polpudo cargo e logo os elogios surgiam.

Conhecidíssimo o episodio que envolveu o notável João Brígido, jornalista que encheu a vida cearense de artigos brilhantes e lições sobre cousas e homens, e o presidente Acióli, governador do Ceará, um dos reis do nepotismo nacional.

João Brígido pretendia emprego rendoso para um parente, segundo contam as crônicas. Procurou Acióli e teve a promessa da prebenda. Passaram-se os dias e a nomeação não se verificava, até que o jornalista foi ao palácio governamental e fez reclamação. O negócio prosseguia enrolado. João Brígido procurou desatou o nó, reclamou já com palavras de esbodegação, e retirou-se dos confortos palacianos rompido com o chefe. No jornal, sentou-se à mesa e escreveu um artigo dos mais violentos contra o governante. Ao atingir as últimas linhas do artigalhão, chegou emissário do governador com o decreto da nomeação pleiteada. João Brígido não quis perder tempo na escritura de novo artigo para a edição de seu órgão de imprensa. Encontrou a solução, escrevendo, no final das descomposturas: "O que eu disse linhas acima, nada mais é do que a reprodução das perversidades que os inimigos atiram à face do governador Acióli, cidadão dos mais ilustres da terra cearense, político sem defeito".

Assim no Piauí. Os políticos escarram uns nos outros e depois se beijam, como nos versos em que o poeta diz que o beijo amigo é véspera do escarro. Terríveis adversários foram Eurípedes de Aguiar e Matias Olímpio. Tempos depois o segundo apoiou o primeiro para o Governo do Estado. Em 1946, num comício da praça Rio Branco, de Teresina, Matias Olímpio acusou Leônidas Melo de ladrão da cousa pública e exibiu certidões obtidas em governo amigo, o de Leôncio Ferraz, de cuecas de Leônidas pagas pelos cofres públicos. Dez anos passados, ambos foram candidatos ao Senado, num acordo dos dois referidos chefes partidários. O saudoso e admirável Petrônio Portella, nos coretos das concentrações eleitorais, referia-se a Felino Muller como assassino. Uns temos decorridos os dois se tornaram amigos e conselheiros. Os antigos seguidores do Partido Social Democrático (PSD) e da União Democrática Nacional se arrasavam por toda parte. Em terreiro de pessedista não dançava udenista. Veio a famosa revolução entre aspas de 1964 e enfiou os dois famosos adversários num saco só, como se fossem a mesma farinha.

Após a ditadura de Getúlio Vargas, o país voltou à normalidade constitucional em 1946. De lá para cá, vários políticos governaram o Piauí, começando-se por Rocha Furtado. Em seguida Pedro Freitas que deixou a UDN e desta passou a receber hostilidade e xingamento. E assim por diante. As brigas e rompimentos continuam. Desavenças hoje, pazes amanhã.


A. Tito Filho, 19/04/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

QUASE MARANHENSE

Um dia Carlos Castelo Branco veio a Teresina autografar o seu livro de análise e interpretação de episódios políticos e tormentos partidários que provocaram, em 1964, a nefasta quinta República. Na dedicatória do meu exemplar escreveu que eu havia renegado por herança a família Castelo Branco. Lembrou-se do nosso parentesco. Meu avô Silvestre Tito Castelo Branco andou de briga com os parentes e tirou dos filhos o nome de família, conseqüentemente dos netos também.

Recebi Carlos na Academia Piauiense de Letras, em 1984, e recordei esses fatos, e agora os revelo de novo na ocasião em que lhe são prestadas justas homenagens nestes seus 70 anos de vida, depois de muitas vitórias de muito se orgulha o humilde parente rabiscador das presentes considerações.

*   *   *

A 17 de janeiro de 1914, Cristino Castelo Branco casou-se com a prima Dulcila Santana Castelo Branco. Juntos viveram 69 anos e compuseram afetiva constelação de filhos. Um deles, Carlos, quase nascia do outro lado do rio Parnaíba.

No fim de outubro ou novembro de 1917, Cristino assumiu o juizado de direito do Brejo, no Maranhão. Desistiu da magistratura e regressou a Teresina dois anos depois, outubro ou novembro de 1919. Carlos nasceu a 25 de junho de 1920. Por poucos meses deixou de ser maranhense e quase teria o mesmo destino de Odylo costa, filho, que veio ao mundo na ilha de São Luis por virtude de presença paterna na magistratura do vizinho Estado.

Teresinense, nesta Chapada do Corisco, escolhida pelo baiano José Antônio Saraiva para edificar nela a Vila Nova do Poti, derribando a mataria e fundando a primeira cidade artificial do país, na Chapada. Carlos passou a infância e a adolescência, e nunca esqueceu dos seus hábitos, dos seus costumes e das suas lembranças. Ginasiano, participou de imprensa estudantil, jornalismo de idéia e fantasia.

Deixou Teresina em janeiro de 1937, deixando, como contou, uma novidade em caminho, o telefone. e escreveu: "Deixei a cidade impregnado dela, dos seus sonhos modestos e do amor à sua condição". No trem rumo a São Luís, saudoso, recitou Lucídio Freitas: "Teresina apagou-se na distância. Ficou longe de mim, adormecida/Guardando a alma de sol de minha infância/E o minuto melhor de minha vida".

Buscou outras paisagens. Deixava a paisagenzinha de Teresina de ruas empregadas, dois cineminhas, famosas casa de vida airada da rua Paissandu, rodas de calçada, em cadeiras desconfortáveis, para o falatório da vida alheia. Nove da noite, hora de dormir, mulher cansada e mulher donzela.

Estacionou em Belo Horizonte. Em 1939, repórter policial, tomou lições de mineirismos, mineirice e mineiridade. Aprendeu com os mineiros espertos a ouvir e a cochilar.

Depois, conquistou o Rio. Chegou ao "Jornal do Brasil". Projetou-se internacionalmente com a Coluna do Castelo; repositório de análise da vida política brasileira, homens e fatos, em mais de um quartel de século.

Deus o proteja na sua inteligência sem medo, sempre piauiense.


A. Tito Filho, 20/07/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

JARRINHA

Chamava-se João Miguel Jarrinha, o jarrinha, como era conhecido de todos. Baiano de nascimento. Idoso. Popularíssimo. Viúvo. Pobre. Antigo professor público jubilado. residia sozinho em Teresina, mais de noventa anos passados.

Um feio dia encontraram-no morto, na rede da dormida, assassinado, o frontal despedaçado por forte bordoada de pulso rijo.

O crime abalou a cidade tranqüila. Levantaram-se conjecturas. O morto não tinha inimigos. Freqüentava as melhores rodas da cidade. Votava grande culto à formosura das mulheres. Amor platônico. Publicava o jornal de sua propriedade, intitulado "O Lacrau".

Na noite do crime, conforme se supunha, recolheu-se cedo à residência, pois dele se notou ausência em certos pontos em que habitualmente comparecia.

A polícia voltou atenções para Raimundo, de menor idade, que morou com Jarrinha algum tempo e a quem a vítima dedicou grande afeição. O outro suspeito para os policiais foi Higino Pereira de Araújo, músico e sapateiro, com quem Jarrinha tivera discussão por causa de um par de botinas, que não saíra nos conformes do contrato.

Raimundo contou que estivera com Jarrinha na véspera do acontecido em companhia de um colega e o vira adormecido numa rede, na sala de jantar. Acordou-o e com ele manteve rápida conversação, retirando-se com o amigo, que tudo confirmara.

Higino encontrava-se em Campo maior. De viagem para a cidade pernoitou com os companheiros em caminho, o que foi provado.

Higino Cunha, mestre ilustre e jornalista famoso, narrou que a polícia prendeu Raimundo, submetendo-o a suplícios. Extorquiu-lhe a confissão do crime. Embora menor, não teve curador idôneo. O júri condenou-o a dezesseis anos de prisão. Não houve apelação da sentença. A pena foi cumprida integralmente na velha penitenciária de Teresina.

O povo, porém, julgava que Raimundo fora vítima de clamoroso erro judiciário e sempre desconfiou de Higino, que anos depois de cumprida a sentença, adoeceu, febre e calafrios, segundo João Pinheiro, atendeu a pedidos e submeteu-se a confissão religiosa: "Mas ao terminar a confissão lhe declara peremptoriamente o sacerdote que não o absolveria, sem que ele, em presença de testemunhas, revelasse o que lhe referia, uma vez que disso dependeria a reabilitação de um inocente".

Levado maneirosamente pelos bondosos conselhos do confessor - narra João Pinheiro - com surpresa de quantos o ouviam, numa voz estertorante e panosíssima, revelando o mais profundo arrependimento, confessou que, por causa de pequena desavença que tivera com Jarrinha, resolvera assassiná-lo, o que, realmente, num momento de irreflexão, levara a efeito sem comprometer-se, aliás, porque, partindo, em certa ocasião em companhia de diversas pessoas, para Campo maior, à noite, enquanto aquelas dormiam, distante algumas léguas, regressara a Teresina, onde efetuaria o crime sem nenhuma dificuldade, porque, encontrando aberta a porta da rua e Jarrinha adormecido, descarregara-lhe, sobre o crânio, forte bordoada com uma acha de lenha que apanhara na cozinha e voltara a agasalhar-se entre companheiros que jamais suspeitaram da terrível verdade.  

Depois - termina João Pinheiro - como se nada mais devesse acrescentar, cerrou os olhos e faleceu imediatamente.

José Maria da Silva, em 1929, escreveu no jornal "Estado do Piauí" que Higino jamais fez a confissão que lhe atribuíram. Morrera inconscientemente de insulto cerebral, sem fala. O próprio padre Fernando, só depois de muita relutância, consentiu em acompanhar-lhe o enterro, porque Higino morrera sem confissão.

Com quem a verdade? Quem matou Jarrinha?


A. Tito Filho, 18/04/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 1 de novembro de 2011

RECORDAÇÕES

Meu pai e Eurípedes de Aguiar muito se estimavam. As vicissitudes da vida e os deveres da solidariedade estabeleceram entre ambos sólida amizade, que os anos não arrefeceram, antes aprofundaram, e o fato fez que eu tivesse no incontestável homem público um amigo certo, a quem ofereci admiração e respeito. Com a subida de Rocha Furtado ao governo, as figuras mais ativas de O Piauí, Eurípedes, Martins Vieira e Ofélio Leitão receberam cargos oficiais, como auxiliares da administração que se inaugurava. Afastaram-se do jornal, cuja direção Eurípedes me entregou, e pude desempenhá-la com leal observância dos princípios partidários. Transmitia-a, de ordem, ao poeta José Severino da Costa Andrade.

Em maio de 1947, tive nomeação como delegado de polícia da capital. Por esta forma passei a trabalhar com Eurípedes, chefe de Polícia, e nas funções me conservei algum tempo.

Privei com Eurípedes no jornal e nos encargos do xerifado. Dele recebi conselhos e proveitosas lições de experiência. Nunca o vi covarde, nem prevalecido de prestígio para perseguir ou humilhar. Uma feita me ensinou que a gente deve gastar tempo, tinta e papel para se defender de ataque inimigo pelo jornal. Antes se ataca com mais violência o diatribista.

Eurípedes não tinha ódio a ninguém. Apenas - me contou certa vez - nunca perdoaria maldade que certo cidadão lhe fizera, desnecessariamente. Jamais o havia perseguido, mas nunca praticaria gesto que o beneficiasse. Quando Rocha Furtado pretendeu premiar essa conhecida figura, Eurípedes, como secretário geral do Estado, recusou-se a assinar o ato. Não houve o benefício. Disse-me Eurípedes: "Esperei-o anos a fio, detrás do pau, cacete em punho. Chegada a hora, dei-lhe a cacetada merecida".

Eurípedes era doutor em assentar apelidos gostosos e sarcásticos nos adversários: Soim da Prefeitura, Cascavel de Quatro Ventas, Carregador de Piano - e outros que depressa caíam no agrado popular e se tornavam obrigatórios nas palestrações de praça e na linguagem debochativa dos jornais. Para que se compreendam essas irônicas alcunhas torna-se necessário conhecer as personagens que elas batizam, pois os ditos se ajustam ao modo de ser de cada um.

De igual modo, processava-se a vingança adversária. Poucos homens públicos tiveram tantos batismos grosseiros e jocosos como ele. Urso Branco, Euripão, Macacão dos Matões, Gostosão da Vicença, para citar alguns.

Presenciei episódios em que se envolveram Eurípedes e gente que com ele não simpatizava, a exemplo de Edgard Nogueira e Humberto Reis da Silveira, casos de desfechos gozados. Raros jornalistas e homens públicos conheci com tanto humor, tanto sal de espírito, a serviço de fina ironia e contundente sarcasmo. Mas nele coexistiam a honestidade, o brio, o destemor, a paixão de ideais nobres. Honrou os cargos que lhe foram confiados, pelo voto ou pela vontade de governantes.

Vários companheiros de luta participaram da via de Eurípedes, como Ofélio Leitão, uma das penas mais fortes e admiradas da imprensa piauiense, pelo asseio da frase, expressão bem construída, afirmação de coragem. Dono de boa e séria leitura. Professor culto, antigo procurador geral da Justiça, durante anos exerceu funções advocatícias no Banco do Brasil, e que dedicou honestas conhecimentos jurídicos. Cidadão simples, de palestra alegre e jovial, muito amigo do próximo, bondoso com os pequenos, de humanos pecados, da forma que se revelam os construídos do barro bíblico, proprietário, entretanto, de um bocado de virtudes espirituais.


A. Tito Filho, 08/12/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

CUNHA E SILVA - II

Cunha e Silva (1, 2) veio de Amarante, terra piauiense do seu nascimento, em 1947, ano em que subiu ao governo do Piauí o médico José da Rocha Furtado, eleito pela antiga União Democrática Nacional, a mesma agremiação partidária do professor recentemente falecido. Antes, em 1935, acusado e processado, teve condenação como comunista pelo extinto Tribunal de Segurança Nacional. Cumpriu mais de um ano de pena na velha e demolida Penitenciária de Teresina.

Conheci-o no Jornal do Piauí, órgão de imprensa do governo, cuja direção me havia sido confiada por Eurípedes de Aguiar. Mestre Cunha me aparecia duas, três vezes por semana. Levava-me artigos assinados, uns de doutrina, outros de severas críticas ao Partido Social Democrático, de oposição.

Nessa época, o governo lhe confiou uma cadeira de Geografia no Colégio Estadual, antigo Liceu.

Não permaneceu muito tempo nas hostes governistas. Era jornalista de linguagem forte, às vezes agressiva, e gostava muito de proclamar as suas verdades. Rompeu com o governador Rocha Furtado e perdeu o cargo no magistério. A política da época não admitia censuras de amigos ou adversários. A punição não falhava. Os rebeldes perdiam o emprego público, tivessem ou não responsabilidades de família...

Pobre e carregado de filhos pequenos, sem casa própria, Cunha e Silva suportou severa adversidade. Ajudavam-no alguns amigos e colegas. Conheceu de perto duras e pesadas aflições. Mas não dava tréguas ao governo. Escrevia sempre artigos contundentes, violento contra o governante e seus auxiliares. Conseguiu modestíssimo lugar no antigo Fomento Agrícola. Trabalhava na Granja Pirajá, bem distante de sua residência. Brevemente se aborreceu do emprego e largou-o para suportar novas pesadas vicissitudes.

Tinha ânimo forte. Não abaixava o topete. Com a vitória de Pedro Freitas ao Governo do Estado, mereceu duas cadeiras no magistério de geografia e história, no Liceu e na Escola Normal. Passou a ganhar sofrivelmente. No Governo Petrônio Portella, foi escolhido para cargo em comissão, de diretor da Casa Anísio Brito, de que em pouco se exonerou para prestar solidariedade a amigo desavindo com o governador.

Os anos a pesar-lhe o organismo sofrido de muitas lutas. Não arrefecia, porém. Escrevia e lecionava. No Governo Chagas Rodrigues teve a nomeação como diretor do Colégio Estadual. Depressa deixou as funções em protesto contra o juiz da capital que concedeu mandato de segurança a um professor por ele punido.

Os princípios da velhice e depois fizeram que serenasse mais as atitudes. Disciplinou-se. Ingressou na Academia Piauiense de Letras, que lhe publicou duas obras elogiadas, "A República dos Mendigos" e "Copa e Cozinha", ambos de crítica aos costumes sociais e políticos de Teresina.

Muito sofreu. Muito se realizou, combatendo os poderosos sem temer violências ou perseguições.


A. Tito Filho, 11/02/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

SÓCIOS DA CATERVA

Fundou-se A CATERVA em 1931. Original sociedade de jovens idealistas, para cultivo dfa literatura, jornalismo e agitação da juventude da época, em Teresina. Eis os seus sócios:

JOSÉ DO PATROCÍNIO DA SILVEIRA CALDAS. Bondoso. Sensível. Um dos fundadores do jornal A VOZ DO NORTE, pertencente ao grupo. Nascido em 1912. Piauiense.

JACOB DE SOUSA MARTINS. De 1903. Maranhense. Metódico. Estudioso de matemática. Bom amigo. Foi professor em educandário teresinense.

CLEMENTE HONORÁRIO PARENTES FORTES. Piauiense, nascido em 1914. Inteligência lúcida. Muito voltado para os livros. Franco e leal. Professor desde jovem. Atingiria a altos postos na vida pública.

RAIMUNDO DE MOURA REGO. Maranhense nascido em 1911. Cultivava a poesia e a música. gostava de compor sonetos. Simples. alcançou grande nomeada literária no futuro.

ANÍZIO DE ABREU CAVALCANTI. Piauiense de 1910. Estudioso da filosofia. Introspectivo. Pena aprumada. Compreensivo. Tornou-se funcionário público e passou a viver no sul do país.

AFONSO BARBOSA FERREIRA. Piauiense. Nasceu em 1912. Circunspecto e sério. Afável. Observador. Apreciava o estudo.

WAGNER DE ABREU CAVALCANTI. Piauiense. Veio ao mundo em 1912. Irrequieto e combativo. Orador, poeta, humorista. nos jornais, escrevia sobre literatura e mundanismo. Emigrou para o Rio, onde se destacou em movimentos estudantis.

FIRMINO FERREIRA PAZ. Nascido em 1912. Piauiense. Rico de idéias. Vibrátil. Fazia bom jornalismo. De grande irradiação espiritual. No futuro seria advogado e jurista de fama, chegando a ser membro do Supremo Tribunal Federal.

ISMAR BENTO GONÇALVES. Piauiense de 1913. Bom companheiro. Apreciava estudos históricos. Conhecia assuntos internacionais. Seria funcionário público conceituado.

GONÇALO LOPES LIMA. Cearense, nascido em 1911. Estudioso da matemática. excelente figura humana.

RAIMUNDO LOPES DE VASCONCELOS. Cearense de 1912. Bom companheiro. Silencioso. Sincero.

Meninote ainda, conheci Jacob, Clemente (fui aluno de ambos), Moura Rego, Wagner, Firmino, Ismar, Raimundo Lopes. Sei que faleceram Jacob, Clemente, Moura Rego, Wagner, Ismar. Estão vivos Firmino, Raimundo Lopes e Anízio. Não conheci este último pessoalmente, mas com ele muito me correspondi por cartas. Desconheço o destino de José do Patrocínio, Afonso Ferreira e Gonçalo Lopes Lima.


A. Tito Filho, 17/01/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

MESTRE CUNHA - I

A 4 de fevereiro deste ano faleceu o velho mestre Cunha e Silva, Francisco da Cunha e Silva, nascido em Amarante (PI), a 3-8-1904. Pais: Manoel Alexandre e Silva e Cândida da Cunha e Silva. Estudos primários na terra natal. Aluno do Colégio Bento XV (Teresina). Fez estudos preparatórios e filosofia no Colégio Salesiano Santa Rosa, de Niterói (RJ). Em 1923, escolhia a carreira eclesiástica, matriculando-se no Colégio Salesiano São Manuel, de Lavrinhas, Estado de São Paulo, no qual realizou o quinto ano secundário para se aperfeiçoar no estudo de latim. No ano seguinte, concluiu o noviciado. O Colégio São Manuel funcionava também como seminário e, assim, em 1925, concluiu o curso de filosofia. Como não tinha vocação para o sacerdócio, regressou ao Piauí para rever a família, viajando para o Rio de Janeiro em 1926, onde se casou. Voltou ao Piauí em 1927. No ano seguinte, lecionou português, história e geografia no Ginásio Amarantino, fundado por Odilon Nunes, e iniciou colaboração no jornal "O Floriano", da cidade do mesmo nome (PI). Em 1932, em Amarante, criou educandário com o nome de Ateneu Rui Barbosa, que funcionou até 1947, quando passou a residir na capital do Estado. Professor de geografia do Brasil no Colégio Estadual do Piauí, hoje Colégio Zacarias de Góis. Colaborador, redator e depois diretor de "O Piauí". Diretor de "Resistência". Colaborador de "A Gazeta", "O Tempo", "O Dia", "Jornal do Piauí", "A Luta", "O Pirralho". diretor da Casa Anísio Brito (Biblioteca, Arquivo Público e Museu Histórico do Piauí), na administração Pedro Freitas. Professor, por concurso, de história do Brasil da Escola Normal Antonino Freire. Diretor, durante um ano, do Colégio estadual do Piauí, hoje Zacarias de Góis, na administração Chagas Rodrigues. Orador, teve participação em memoráveis campanhas políticas. Durante quatorze anos, professor no Ginásio (hoje Colégio) Desembargador Antônio Costa, lecionando português, francês e geografia geral. Há doze anos colabora no "Estado do Piauí". Pertenceu ao antigo Cenáculo Piauiense de Letras. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Colaborou, ainda moço, na imprensa de são Luís, Maranhão ("O Imparcial") e do Rio de Janeiro ("Diário de Notícias"). Publicou "O Papel de Floriano Peixoto na obra da proclamação e consolidação da República" (tese).


A. Tito Filho, 098/02/1990, Jornal O Dia

HOMENAGEM JUSTA

Benedito de Sousa Sá nasceu neste Piauí da sua benquerença. Por onde anda, todos o conheceu como B. Sá, amigo sincero e leal. Sempre trabalhador, diariamente cumpre deveres no qual de um dos comandos militares de Manaus. Embora na reserva remunerada do Exército desde 1977, orgulha-se de não ter ficado um só dia na inatividade.

Mereceu recentemente, ao completar cinqüenta anos de serviços relevantes ao Brasil, homenagem de carinho e justiça dos seus companheiros, na capital amazonense, cuja imprensa assim se referiu à personalidade do homenageado:

"Em 1938, ingressou no Serviço Público, na Imprensa Oficial do Piauí, como aprendiz de artes gráficas. Deixou aquela 'escola' em 31 de outubro de 1945, para ingressar, no dia seguinte, em outra grande escola - o Exército - como soldado do 25º BC, em Teresina-PI.

Galgou todas as graduações, de Soldado a 2º Ten, pelo princípio do merecimento, em decorrência de uma conduta exemplar dentro e fora do quartel, exação no cumprimento do dever, assiduidade, companheirismo e, acima de tudo, lealdade.

Serviu na AMAN por mais de oito anos, exercendo, além dos seus encargos normais, as funções de Presidente do Clube dos Subtenentes e Sargentos - ocasião em que fundou um tablóide informativo.

Na Guarnição de Teresina, escreveu, por dez anos, a coluna dominical 'Vida Militar' no jornal O Dia, com a divulgação na Radio Difusora local. Foi ainda presidente por quatro vezes, do Clube do Marquês de Paranaguá - dos ST e Sgt - sendo um dos fundadores do Jornal e Revista 'Carnaúba'.

Aos 52 anos, no posto de 2º Tenente, quando em serviço no hospital Geral de Manaus, foi alçando pela cota compulsória, despedindo-se do serviço ativo. Permaneceu, porém, como servidor civil contratado - inicialmente, no próprio hospital e, em seguida, na CRO/12 e no QG/2º Gpt e Cnst, onde se encontra há mais de cinco anos, em plena atividade, com horário integral.

Possui a Medalha de Ouro de bons serviços, a Medalha Militar de Ouro de bons serviços, a Medalha do Pacificador e... mais de sessenta elogios em suas folhas de alterações.

É formado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade do Amazonas. Como se tudo isso não bastasse, é também membro da executiva da ADESG/AM, tendo, por duas vezes, exercido internamente ao cargo de Delegado.

Sempre B. Sá empregou seu dinamismo e sua cultura em prol do Exército e do Brasil, sem descuidar-se dos afazeres de um chefe de família exemplar. O tempo passa, mas ele permanece ao lado da nossa gente: claro, pois ele é Gente Nossa!".


A. Tito Filho, 08/03/1990, Jornal O Dia

domingo, 2 de outubro de 2011

O SAUDOSO BAMBA DA ZONA

Desviaram-se os concludentes da Faculdade de Direito do Recife, 1908, por causa da escolha do paraninfo - e os desavindos tiveram dois quadros de formatura. Num deles, piauienses - Simplício de Sousa Mendes, Corinto Andrade e José de Arimathéa Tito. O paraibano José Américo de Almeida participou de outro quadro.

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Meninote, chegava eu a  Teresina no velho caminhão de Juquinha Santana, carga e passageiros juntos, ano de 1933. No pontão do rio Poti, pois não existia ponte de madeira ou de cimento, tinha-se notícia do gesto do professor Leopoldo Cunha, que atingiu com duas balas de revólver o desembargador Simplício Mendes, na praça Rio Branco. Minha meninice deu pouca importância ao caso. No ano seguinte, sob a presidência do juiz José de Arimathéa Tito, o atirador teve absolvição unânime pelo Tribunal do Júri. Advogado do réu, o próprio pai Higino Cunha, intelectual brilhante e mestre, modesto e honrado, que, lida a sentença, ajoelhou e beijou a mão do magistrado, como homenagem à justiça. Cena comovente na sala do julgamento.

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Ano de 1938, meu pai José de Arimathéa Tito chegou ao Tribunal de Justiça, passando a compor o colegiado juntamente com Ernesto José Batista, Cristino Castelo Branco, Adalberto Correia Lima, Esmaragdo de Freitas e Sousa e Simplício de Sousa Mendes - fase áurea da corte piauiense. Disputada a vaga, não se aproveitou na lista de promoção, o juiz Eurípedes Melo, irmão do interventor federal Leônidas Melo, que se vingou de três desembargadores, aposentando-os pela violência e, com o ato, liquidando a credibilidade e o respeito do Tribunal. O castigo recaiu nos que votaram contra Eurípedes, os magistrados Esmaragdo, Simplício e Arimathéa - unidos agora numa luta sem trégua contra o autor da prepotência.

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Em 1947, depois de cinco anos no Rio de Janeiro, regressei a Teresina, época em que comecei a aproximar-me de Simplício, jornalista de intensa atividade. Tinha ele o prestigioso apelido de bamba da zona - ou porque não rejeitasse desafio dos adversários políticos, ou porque fosse autoridade na espetacular conquista de quengas dos mais variados feitios, nas zonas respectivas da cidade, especializado na mulataria apetitosa.

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Coma morte de meu pai, em 1963, mais me liguei a Simplício. Tornei-me auxiliar seu na Academia Piauiense de Letras, no Conselho Estadual de Cultura, na Casa Anísio Brito (biblioteca, arquivo e museu do Estado). conheci-o de perto. O mestre apreciava cousas bem feitas. Desfrutava de muito prestígio pessoal. Melhorou sempre as entidades cuja direção lhe eram confiadas. Culto. Bom amigo. Lutador sem medo. Estudioso, em "O Homem, a Sociedade, o Direito", publicado em 1934, pareceu profeta da agonia universal: "Estará, sempre, como lastro, o império das ambições desenvoltas, pelo culto de um individualismo a outrance, originando o poder incontrastável do capitalismo, a exploração do homem pelo homem e o desconhecimento ou o desprezo das mais preponderantes diretrizes da solidariedade social".

De vício, Simplício cultivava somente rabo-se-saia.

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Aos 86 anos de idade, o notável intelectual esteve em Congresso Nacional de Conselhos de Cultura, no Rio. Na ilustre companhia de Simplício, eu e Fontes Ibiapina. Faleceria a de janeiro de 1971.

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Lili Castelo Branco, no seu modo gostoso de contra, relembra episódios da vida de Simplício de Sousa Mendes. Uma beleza a narrativa simples e cativante reproduzida depois de ouví-la da protagonista. A escritora pôs no papel a figura do famoso jornalista e cultor da ciência jurídica, administrativa de órgãos culturais e incentivador da vida intelectual de Teresina - sem esquecer o amante incorrigível de dezenas de mulheres bonitas - donzelas, casadas, desquitadas, amarradas, viúvas, que lhe povoaram e realizaram os sonhos de noites fogosas em camas perfumadas.

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Nunca esquecerei o velho amigo, o saudoso bamba da zona - mestre do Direito, do jornalismo, do trabalho produtivo e do ideal de paz e justiça social - e mestre de amores maravilhosos, como ele confessou e da forma que o mostra a pena inteligente e afetiva de Lili Castelo Branco.


A. Tito Filho, 01/11/1990, Jornal O Dia

sábado, 1 de outubro de 2011

BIACADÊMICO

Carlos Castelo Branco contou, neste falecido mês de junho, como faziam os índios, setenta castanhas na sua vida vitoriosa. Publicou, além de um livro de interpretação politica, "Continhos Brasileiros" e o romance "Arco do Triunfo". A persistente atividade jornalística, de invulgar brilhantismo na análise de homens e episódios, abriu-lhes as portas da Academia Brasileira de Letras: "Chego à Academia como jornalista", disse ele ao tomar posse no mais cobiçado sodalício do país.

Observador penetrante, ora tímido, ora revoltado, misterioso ou controlado, sempre põe a nu a imagem dos instantes precários e dos ricos em respeito ao homem. Sabe clarear caminhos, denunciar mistificações e advertir os incautos e desinsteligentes. Não usa enfeitações. Ensina nas entrelinhas aos bons de entendimento. Muita claridade no estilo. Odylo Costa, filho, considerou-o a primeira voz do jornalismo político brasileiro. Efetua o jornalismo-história, o que exige isenção e abole atitudes passionais. Honesto e corajoso. Não azinhava a consciência na bajulação.

Quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, telefonou ao pai, o magnífico Cristino Castelo Branco, caráter sem nódoa, e disse, revivendo a criança que está na gente o tempo todo:

- Papai, eu fui eleito.

Cristino orgulhou-se do triunfo do filho, que era também o triunfo do pai, cuja presença de Deus se avizinhava, não era permitido que ele, carregado de mais de noventa anos, assistisse à posse do novo acadêmico.

Dois piauienses e um quase-piauiense haviam atingido a Academia Brasileira de Letras: José Félix Alves Pacheco, Deolindo Augusto de Nunes Couto e Odylo Costa, filho, os dois primeiros nascidos em Teresina. Antes do vôo mais alto, porém, ingressaram na Academia Piauiense de Letras. Partiram da Casa de Lucídio Freitas para a casa de Machado de Assis. Mestre Carlos praticou o contrário: ingressou na modesta e humilde Academia Piauiense de Letras depois da conquista da outra, a Brasileira. Quis ser fiel à lição de Cristino Castelo Branco: "A Academia da terra natal é sempre a melhor das Academias".

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Na Academia Piauiense de Letras outros pertenceram a duas Academias: Clodoaldo Freitas (Maranhense), Alarico da Cunha (Maranhense), Jonas Fontele da Silva (Amazonense), Taumaturgo Sotero Vaz (Amazonense), salvo falha memória.

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Em Carlos setentão existe outra imensa virtude: o amor a Teresina. Numa de suas visitas recentes À cidade natal escreveu: "Hoje é quase estranha para mim. Na parte antiga movimento os meus fantasmas e onde me sinto a vontade, quando passo por lá, para dialogar com elas".

Sim, já não existem os bairros de forrós, cheirantes ao suor da mulatiçe gostosa das mulheres teresinenses. Do buraco da Velha, dos Cajueiros, da Catarina resta a visão doce e evocativa como se fora poesia do coração chorando.


A. Tito Filho, 21/07/1990, Jornal O Dia

A CATERVA

Em 1931, jovens da sociedade teresinense criaram uma curiosa sociedade a que deram o nome de A CATERVA. Foram eles Jacob de Sousa Martins, Clemente Honório Parentes Fortes, Anízio de Abreu Cavalcanti, Ismar Bento Gonçalves, Raimundo de Moura Rego, Gonçalo Lopes Lima, José do Patrocínio da Silveira Caldas, Afonso Barbosa Ferreira, Firmino Ferreira Paz e Wagner de Abreu Cavalcanti. Tratava-se de "uma congregação unida por afinidade intelectual" e os criadores desejavam sobrepor-se ao marasmo da inteligência do meio. Reinava a pobreza material que não permitia iniciativas sérias.

O seminário dominical "O Lábaro" constituía a imprensa da mocidade. Nas suas páginas revelaram-se talentos. Tinha feitio literário, mas cessou de existir por razões financeiras.

Surgiu, a 3 de maio de 1931, "A VOZ DO NORTE", com rápida conquista de leitores cultores. Tinha aspecto sadio e nas suas páginas Moura Rego e Wagner Cavalcanti publicavam elogiadas concepções de prosa e poesia.

Nesse tempo vivia Antônio Lemos, o SEMANA, respeitável figura do jornalismo piauiense, que editava o órgão político A LIBERDADE, em cuja sede ele suportava pacientemente as declamações de Wagner, as piadas de Clemente Fortes, as sátiras de Afonso Ferreira.

Os rapazes conjugavam-se, espiritualmente, e formaram um bloco especial, A CATERVA, nome escolhido por Anízio Cavalcanti e aprovado pelos colegas.

Havia em Teresina um lugar de afluência de estudantes, o Arquivo e a Biblioteca Pública do Estado, e aí se liam livros de literatura e de outros gêneros. Nesse ambiente surgiu a ideia da fundação de um jornal literário, que foi A VOZ DO NORTE, e de uma entidade de sócios restritos, integrada dos setores do órgão, denominada A CATERVA, em que preponderava a afinidade moral e intelectual dos seus membros.

Um interessante e curioso grêmio cultural, que não tinha prazo de reunião. Os jovens que o constituíram puderam sacudir a sonolência intelectual dos teresinenses nesses inesquecíveis anos da década de 30.


A. Tito Filho, 16/01/1990, Jornal O Dia

O DIA: histórias e fatos de um tempo

Era o ano de 1951. Dia 31 de janeiro, Pedro Freitas assumiu o cargo de governador do Piauí, eleito pelo antigo Partido Social Democrático (PSD). Na eleição realizada no ano anterior, venceu ele nas urnas, por maiorias de seiscentos e poucos votos, o candidato da União Democrática Nacional (UDN), Eurípedes Clementino de Aguiar, que já havia sido chefe do Poder Executivo no quadriênio 1916-1920.

UDN e PSD valiam ferrenhos e odientos adversários desde o ano em que foram criados no país, 1945. No Piauí, em festa de udenista, pessedista não punha os pés. Viviam os dois partidos em permanente furdunço de descomposturas recíprocas, pelos jornais.

Demais de tudo, Rocha Furtado, eleito pela UDN para governar de 1947 a 1951, muitas perseguições havia feito aos pessedistas, tanto na capital como no mais distante arraial de Pau Fincado ou Pindura Saia.

Também os derrotados por Pedro Freitas alegavam que a maioria de votos sobre Eurípedes teria sido prebenda do Tribunal Regional Eleitoral.

Tais circunstancias mais acirravam as odiosidades comuns. Os udenistas, apeados do poder, preparavam-se para campanha severa e ruidosa contra o novo governante. De sua vez, os pessedistas, quatro anos debaixo de taca e muita taca, lambiam os beiçoes na prelibação da vingança.

Nesse clima, assumiu o governo Pedro Freitas (31-01-1951). E nesse clima surgiu "O DIA" (01-02-1951), fundado por Raimundo Leão Monteiro, mais conhecido como Mundico Santídio, de apelido Mão de Paca. Tipo baixo, gorducho, pança grande, de faces vermelhonas. Defeituoso da mão direita, daí a alcunha que lhe deram, havia anos. Homem de muita inteligência prática. Foi professor do ensino médio. Viajado, conheceu a Alemanha. Não resta dúvida de que era hábil mecânico. Mulherengo. No jornal, fazia tudo, menos escrever. Sabia compor em linotipo, paginar, imprimir, trabalhos que realizava com maestria. Tinha o vicio do palavrão. Dizia-se ateu. Em roda de si, dez, doze colaboradores espontâneos, que dinheiro algum recebiam.

A verdade é que esse homem, temido por muitos, incorporou-se à história do jornalismo piauiense. O seu jornal o "O DIA" era lido e apreciado.

Na primeira fase, a folha do saudoso Mão de Paca teve como redator-chefe o competente Orisvaldo Bugyja Britto, conhecedor, estudioso, de memória invejável, linguagem asseada. Passados 27 anos, Bugyja ainda está, entre nós, lembrando os tempos principiantes do órgão de imprensa que ele ajudou a criar, a engatinhar e a crescer.

No começo, "O DIA" apresentou-se de tamanho pequeno. Quando ingressamos, por volta de 1952, no corpo de colaboradores, havia aumentado de alguns centímetros. Circulava dias de quinta-feira e domingo, manhã cedo. Oficinas no fundo do quintal da casa de residência do diretor e proprietário, num galpão, rua Lisandro Nogueira. Dele participamos na qualidade de colaborador, da mesma forma que Pedro Conde, Valdemar Sandes, Olimpio Costa e outros, cada qual no seu devido tempo. Mundico Santídio publicava os artigos com pseudônimo. A gente Fornecia os comentários sem assinatura, mas circulavam com nomes esquisitos (Desidério Quaresma), alatinados (Petrus Mauricius), à moda russa (Edgaroff) e de maneiras outras da invenção de Mundico. 

Quando assumimos o lugar de diretor do Colégio Estadual do Piauí (hoje Colégio Estadual Zacarias de Góis), em 1954, por falta de tempo nos afastamos da atividade jornalística, a ela volvendo em 1959, no mesmo jornal "O DIA", com artigos de vários assuntos, publicados com a responsabilidade de nossa assinatura. Movemos intensa campanha contra o governo Chagas Rodrigues (UDN-PTB). Jornalismo vibrante, higiênico, estilo elevado, criticas de bom gosto. O jornal teve tiragem dobrada. Edificações esgotavam-se rapidamente. E recordamos o fato como circunstancia de justiça: Mundico Santídio ocasião alguma cortou uma linha de nossos escritos e nunca nos pediu que poupássemos as figuras governamentais, que, inclusive, lhe forneciam publicidade. Costumava dizer: artigo assinado, assinado está, logo...

Pelas colunas do jornal, fizemos campanhas memoráveis, entre as quais destacamos três: a dos professores injustamente exonerados por Chagas Rodrigues, e para eles ganhamos mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal; a defesa dos deputados Dirno Pires Ferreira e João Clímaco de Almeida, acusados do roubo de linotipos do IBGE. As máquinas haviam sido apreendidas por ordem de Chagas Rodrigues. Foram devolvidas. Finalmente, aquela em favor das prerrogativas do Tribunal de Justiça, sob a presidência de um homem corajoso, sem medo e sem mácula, Robert Wall de Carvalho, que pediu intervenção federal no Estado, com a finalidade de fazer com que o governo cumprisse mandado de segurança concedido ao advogado Raimundo Richard. Não se verificou a intervenção porque Chagas Rodrigues cumpriu a ordem.

Escrevemos hoje estas linhas sem nenhuma mágoa de Chagas Rodrigues, o jovem governador do Piauí no período 1959-1962, que tanto fez por sua terra e por sua gente, como chefe do Executivo e na qualidade de deputado federal mais de duas vezes. Era homem de visão. Bem intencionado e sincero com o povo.

Mil novecentos e sessenta e dois. Ano de campanha eleitoral. Chagas Rodrigues arrendou "O DIA" confiando a redação a jornalistas de sua escolha. Mais uma vez deixávamos de ser colaborador do órgão criado por Mundico Santídio.

Nosso caminho diário para o Liceu passava pela frente da residência de Raimundo Leão Monteiro, que, a esta altura, 1963, estava novamente dirigindo o jornal, encerrando o contrato com Chagas Rodrigues. Certo dia do mês de abril, pouco depois da morte de meu pai, manhazinha, seguíamos (no) rumo das aulas. Mundico, na calçada de sua residência, chamou-nos. Fez-nos crer que a autoria dos artigos contra nós, publicados noutro jornal da terra, pertenciam a ilustrado médico de Teresina, contra quem nos pediu que escrevêssemos um artigalhão de criticas impiedosas. Encomenda feita, encomenda realizada. O escrito saíu com pseudônimo. Mas o digno médico interpelou Mundico Santídio por intermédio da Justiça e Mundico não quis guardar segredo de redação nem assumir responsabilidade. Resultado: fomos aos bancos dos réus. Praticamos a própria defesa, com critério e ponderação. Expusemos que a responsabilidade de artigos sem assinatura sempre coube a direção do jornal, mas não fugimos ao critério moral de afirmar que éramos o autor material do artigo. Nosso acusador foi o saudoso amigo Celso Pinheiro Filho. Fomos absolvidos pela unanimidade dos jurados. Perdemos a amizade do médico, injustamente ofendido, e ainda hoje a consciência nos diz que obramos mal, escrevendo para satisfação de malquerenças alheias. Não ficamos agastados com Mundico Santídio. Dentro em nós, soubemos desculpá-lo. Ao menos reclamamos contra a sua atitude. Apenas nos afastamos do jornal.

A memória não nos acode agora, para que registremos o ano em que a valente folha passou a pertencer a Octávio Miranda, comprada a Mundico Santídio. Sabemos que o "O DIA" teve redação e oficinas num antigo templo protestante da rua Areolino de Abreu, prédio de esquina, no cruzamento com a rua Sete de Setembro. Orientou-o a cultivada inteligência e grande capacidade de trabalho de José Lopes dos Santos. Em maio ou junho de 1966, porém, comandava-lhe a redação o ilustre e corajoso Deoclécio Dantas, que nos fez convite para a escritura de artigos de fundo, orientadores da opinião pública. Armamos ali tenda noturna de trabalho. E diariamente escrevíamos os chamados editoriais do jornal.

Convivemos com Octávio Miranda dois anos, mais ou menos, em "O DIA". Havia entre nós, de vez em quando divergências. Mais de uma ocasião deixamos a tenda e mais de uma ocasião a ela voltamos. Tínhamos e temos muito amor ao jornal, que circulava diariamente e constituía obrigatória leitura nossa. Diariamente "O DIA" se modificava para melhor. Intimamente, gostávamos de Octávio. Admirávamos a sua persistência em dotar Teresina de um bom jornal. O homem tinha qualidades invejáveis. Uma delas era sentar o rabo na rapadura e da rapadura não erredar pé.

Conhecemos Octávio Miranda como militar, cioso da farda. Depois, como deputado estadual, entre 1947 e 1951.

No jornal, procurávamos examiná-lo nas atitudes e nos gestos. Superficialmente, parecia arrogante. Tinha fala forte, autoritária. Gostava de reunir a equipe para combinar orientações, e definir serviços.

Por dentro, entretanto, outra individualidade. Boníssimo sujeito. Caridoso, de caridade cristã. Dava-se ao próximo e ao próximo se dá sem querer recompensa ou agradecimento. Operário doente, jornalista necessitado - lá está ele com a ajuda, com o gesto de conforto. Em 1966, tomamos avião aqui para casamento no Rio. Octavio não nos faltou com a cooperação financeira.

Homem fora-de-série, emprega milhões para dar a Teresina um jornal moderno. A seu lado, a equipe inteligente, trabalhadora, dedicada, que sabe fazer jornal, do operário ao editor.

Tem Octávio Miranda um coração pleno de bondade. Idealista objetivo, sempre imaginou fazer cousas bem feitas. E assim vem realizando com "O DIA", uma obra humana de que ele se orgulha, de que nós todos nos orgulhamos, diariamente, quando o jornal sai com as noticias e o bom bocado dos artigos de interpretação e o excelente repasto das notáveis reportagens. Condimenta-o ainda o saldo de um humorismo fino, elegante, caprichado, nos dias de domingo.

Nele se destaca o sujeito de iniciativa, de visão ampliada, de largos horizontes para conceber e realizar. Quando viu Teresina espremida entre os dois rios, inventou o Jóquei Clube. E do Jóquei nasceu uma cidade, uma boniteza. Se ainda vivo quando Octávio morrer, haveremos de lutar para que o Jóquei Clube passe a chamar-se Octávio Miranda - gesto de justiça muito nobre.

Hoje, 1º de fevereiro, "O DIA" faz 39 anos de serviços a Teresina, que está de festas, aplaudindo o jornal que já se integrou à paisagem espiritual da cidade fundada por Saraiva.

Continua hoje orientado por Octávio, com a ajuda desse dinâmico Valmir Miranda. Editor, José Fortes, jornalista até debaixo d'água, consciencioso, redator de boa linguagem, argumentador sem medo. E muita gente boa, humilde, do meu tope, humilde mas audaciosa.


A. Tito Filho, 01/02/1990, Jornal O Dia