Quer ler este texto em PDF?

Mostrando postagens com marcador história de Teresina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador história de Teresina. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O AUTOMÁTICO

Existia um prédio grandão em Teresina, andar térreo, linhas severas, projetos de Luís Mendes ribeiro Gonçalves. Nele funcionava, na rua Coelho Rodrigues, a Faculdade de Direito; defronte da praça Deodoro, a Diretoria da Fazenda; com frente para a praça Rio Branco, a Diretoria das Obras Públicas; e ao lado da igreja do Amparo, a Chefia de Polícia.

O governo mandou derribar a construção e no lugar pretendeu fazer um edifício que abrigasse as secretarias e outros órgãos. Faltou dinheiro. O esqueleto do espigão levantado, feio, debaixo de sol e chuva. Resolveu-se vender o troço ao Ministério da Fazenda, que concluiu o edifício e nele se encontra instalado.

X

Foi bom. Eu era molecote, estudante de ginásio, e assisti a solenidade inaugural do telefone automático de Teresina. O povo entusiasmado aplaudiu o acontecimento. Sinal de progresso e de civilização, embora a capital piauiense ainda fosse pouco populosa.

X

Eleito pela Assembléia Legislativa governador do Estado, o médico Leônidas de Castro Mello assumiu o exercício das elevadas funções a 3 de maio de 1935, disposto a realizar amplo e oportuno programa nas mais diversas esferas administrativas.

Em fins de ano deu posse, abriu o Poder Executivo concorrência pública para o serviço telefônico de Teresina, a que habilitaram duas empresas idôneas, a Companhia Brasileira de Eletricidade Siemens Schuckert S. A., e a Sociedade Ericsson do Brasil, vencedora a primeira, de acordo com parecer de comissão julgadora aprovado pelo governante.

Pequeno atraso nas obras não permitiu que o grande melhoramento se inaugurasse nas festas comemorativas do segundo aniversário do governo Leônidas Melo, a 3 de maio de 1937, verificando-se poucos dias depois, a 17, pelas 19 horas, na sede da antiga Diretoria das Obras Públicas, que dava para a praça Rio Branco.

Deve recordar-se que, na época da introdução do telefone automático em Teresina, muitos se utilizavam do aparelho para o que se denominava trote: ligava-se para senhores ou senhoras conhecidos ou importantes e transmitiam-se boatos prejudiciais, noticias espalhafatosas, xingamentos ou ditos pornográficos - circunstância que levou o Diário Oficial do Estado, edição de 20 maio de 1937, a publicar o seguinte aviso urgente da Diretoria das Obras Públicas: "O Serviço Telefônico avisa que em virtude de abusos verificados por muitas pessoas que se utilizam dos aparelhos, resolveu controlar o serviço de ligações. Por esse controle verificará de quais partem tais abusos. Os mesmos serão desligados e o assinante perderá a caução e terá o nome publicado no jornal".

O governador Chagas Rodrigues assumiu o poder a 31 de janeiro de 1959. Enfrentou o problema da paralisação dos serviços telefônicos de Teresina e resolveu-o.

Foi adiante. Propôs à Assembléia Legislativa a criação de empresa estatal que implantasse, explorasse e dirigisse a telefonia em todo o Estado. Com este sentido, sancionou a Lei 2.060, de 7 de dezembro de 1960, criando-se a Telefones do Piauí S/A - TELEPISA, juridicamente constituída em 22 de novembro de 1965, no governo de Petrônio Portella Nunes, quando houve a respectiva assembléia geral de constituição, aprovaram-se os estatutos e elegeu-se a primeira diretoria.

A. Tito Filho, 25/11/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

AINDA O COMÉRCIO

Em 1933, abril, o decreto nº 22, do prefeito Luís Pires Chaves, adotou o seguinte regime para o funcionamento das casas comerciais de Teresina: zona norte, das 8 às 12 e das 14 às 18; zona sul, das 7 às 11 e das 13 às 17.

Era 1932. Chegamos a Teresina em companhia do saudoso pai, que vinha assumir o juizado de direito. Moramos na rua Lisandro Nogueira (Glória antiga), bem perto do mercado central. Passamos, ainda nesse ano, a residir na rua São José (Félix Pacheco), próximo, muito próximo da praça Saraiva. Defronte, mantinha sortida mercearia o português José Gonçalves Gomes, cidadão conceituado e que muito honrou a atividade comercial. Dessa época distante ainda nos lembramos da Casa Carvalho. De Deoclécio Brito, o primeiro concessionário da Ford e das máquinas de escrever Remington; de Manoel Castelo Branco e Anfrísio Lobão, que se tornaram donos da Agência Ford; de Afrodísio Tomás de Oliveira (Dôta). De João de Castro Lima (Juca Feitosa), cuja loja vendia artigos diversos, inclusive livros de autores portugueses e brasileiros. De Lili Lopes, à frente da Botica do Povo; de Manuel Madeira, português, vendedor de bolos e pastéis (praça Rio Branco), talvez o pioneiro de lancheiras em Teresina - e de vários bares e botequins como o frequentadíssimo Bar Carvalho, de José Carvalho, o Zecão, homem de bem, de muitos amigos, que oferecia, no estabelecimento, bilhares, café, sorvete, chocolate e convidativo restaurante sob o comando do espanhol Gumercindo, introdutor de filé de grelha, feito na chapa do fogão, na culinária teresinense. Alcançamos o famoso Café Avenida, feito de madeira, na praça Rio Branco. Construiu-se outro, em 1937, de dois andares, amplo, ao lado do Hotel Piauí (Luxor), freqüentado de homens ilustres. Foi derribado. No local hoje se estacionam veículos.

Algumas entidades de classe surgiram no correr dos anos, como a Estímulo Caixeiral (empregados no comércio), iniciativa de Manuel Raimundo da Paz; a Associação dos Empregados no Comércio (1928), a Associação dos Empregados no Comércio (1928), a Associação dos Varejistas de Teresina, e a Federação do Comércio dos Varejistas do Piauí - as duas últimas parecem que sob a orientação de Miguel Sady.

Houve um grêmio de natureza social e cívica - a Sociedade Jovem Síria, criada em 1916, que muito animou a vida teresinense. Ainda em atividade se encontra o Clube das Classes Produtoras, idealizado por Valdemar Martins.

Moysés Castello Branco Filho realça a presença de sírios e libaneses em Teresina, no princípio do século XX, dedicados ao comércio de miudezas e de modas. Principalmente sírios. Sírios na quase totalidade. Vinham de longe, da Síria, onde é gritante o contraste entre a riqueza e a pobreza. O padre Luciano Duarte diz que lá a terra tem cor amarela, queimada de calor. "Não há vegetação. Apenas areia e pedra - mas de repente sem lógica, no meio do quadro - um oásis. O milagre da água correndo límpida e cantante, da fonte que Deus fez brotar, vestindo de verde a terra nua, estendendo a sombra das palmeiras para os homens cansados".

A Síria lembra Damasco, de ruas apertadas do comércio de miudezas - quiosques, ruelas escuras e sujas, em que o visitante sempre compra pela metade do preço. Paga e sai com ares de quem ganhou uma batalha. E o sírio lá ficou impassível, contente, pois o preço pago ao cabo de contas, ainda vale três ou quatro vezes a mercadoria.


A. Tito Filho, 21/11/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

OUTRA VEZ O COMÉRCIO

Os sírios e libaneses assimilaram nossos costumes, hábitos e vivências, e integraram-se na sociedade teresinense, casando-se, multiplicando-se, educando a prole, progredindo pelo trabalho e valorizando o chão que os abrigou fraternalmente.

Dos árabes em geral disse Gustave Le Bon: "Uma grande urbanidade e doçura, uma grande tolerância com os homens e as cousas, a calma e a dignidade em todas as situações e circunstâncias e uma notável moderação de necessidades, tais são os traços característicos de orientais. Sua conformação moral com a vida, tal como ela se apresenta, dotou-os de uma serenidade muito semelhante à ventura, ao passo que as nossas aspirações e necessidades fictícias nos têm levado a nós a um estado de inquietação permanente muito diferente do deles".

Na história do cinema em Teresina muitos nomes são dignos de notar, como Neuman Bluhm, R. Coelho, R. Fontenele, Pedro Silva, José Ommati (sírio) e de Farid Adad, também sírio, que fixou residência em Parnaíba (1919) e ali, com o irmão Miguel, fundou o cinema Éden. Em 1930 esta casa exibidora iniciava a era do filme falado no Piauí. No Teatro 4 de Setembro, Farid estabeleceu o primeiro cinema falado da capital piauiense, inaugurando-o em 23.12.1933. A 25.11.19173, encerraram-se as atividades cinematográficas na velha casa de espetáculos da praça Pedro II. Farid havia falecido no ano anterior. A cidade o conhecia pelo nome de Alfredo Ferreira, casado em primeiras núpcias com Farisa Salim Issa, sua patrícia, de excepcionais virtudes espirituais, falecida em 1938. O casal deixou vários filhos.

Depois de Alfredo Ferreira, outros empresários prosseguiram no trabalho de dotar Teresina de confortáveis cinemas.

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, no Novo Dicionário da Língua Portuguesa, inclui carcamano como brasileirismo. E define a palavra: "Alcunha jocosa que se dá aos italianos em vários Estados; latacho, macarrone". Escreve mais, que no Maranhão vale “a alcunha que se dá aos árabes em geral”. No Ceará, “vendedor ambulante de fazendas e objetos de armarinho”. Antônio Joaquim de Macêdo Soares acentua que carcamano é o "italiano de baixa classe". Nascentes diz apenas que o carcamano corresponde a italiano, mas explica: "Uma etimologia popular diz que o vocábulo vem do conselho de um italiano a um filho que o ajudava na casa de negócios. O filho fazia honestamente a  pesada. O pai, então, quando o equilibrio estava prestes a estabelecer-se, aconselhava: carca la mano (calca a mão). Se non e vero...". F. A.

Pereira da Costa cita o vocábulo na qualidade de italiano, assim chamado. E anota dito do povo de Pernambuco: "Mama em grosso o carcamano, e abusa da bonhomia do povo pernambucano". O saudoso R. Magalhães Júnior explicou: "Denominação pejorativa dada aos imigrantes italianos, em razão das fraudes atribuídas a estes, em suas quitandas e açougues, ao pesarem os alimentos, vendidos a quilo, ajudando a concha da balança a descer com o impulso da mão. De calcar a mão teria surgido a forma italianizada de carcamano, corrente não só no Brasil como na Argentina, onde Juan Ezuista Alberdi a usou, num dos seus livros, que dizia serem reverenciados, nos altares argentinos, alguns santos carcamanos, já ricos e portanto poderosos".

Em Teresina, carcamano sempre designou de modo pejorativo, os árabes. Veja-se o depoimento de Salomão Cahib, médico de nomeada, em discurso de posse na Academia Piauiense de Letras: "Meu pai aqui chegou vindo de uma civilização milenar, duma terra sem horizontes. Ansiava por liberdade. Seu povo estava escravizado e colonizado impiedosamente, levado a servir, sob bandeira de nação odiada, à luta pela grandeza e progresso de seu próprio algoz. Jurou ele que seus filhos não nasceriam colonos, nasceriam livres, numa coletividade generosa e bela, que lhes desse paz e trabalho. Foi assim que veio moço para o Brasil. E para o Piauí, que ajudou e honrou, trabalhando de sol a sol, viajando a pé pelos sertões agrestes, vendendo, aprendendo a língua, fazendo amigos e amando a nova pátria. Aqui se casou.

Naturalizou-se brasileiro. Constituiu família. Nasceram-lhe os filhos. A pátria de seus filhos era a sua pátria".

E logo a seguir: "Guardo da infância despreocupada dos primeiros instantes do convívio com outras crianças do grupo escolar, a observação de uma delas: CARCAMNO NÃO TEM BANDEIRA".

E prosseguiu: "Em casa dei a notícia do acontecimento a meu pai. E ele, com profunda tristeza, explicou-me: A SÍRIA TEM BANDEIRA, MAS ESTÁ OCUPADA POR PAÍSES ESTRANGEIROS".


A. Tito Filho, 22/11/1990, Jornal O Dia

sábado, 28 de janeiro de 2012

QUASE CAPITAL

O primeiro governador do Piauí, militar português, chamou-se João Pereira Caldas. Assumiu o poder a 20 de setembro de 1758, na Vila da Mocha, denominação que por Oeiras, a 13 de novembro ele substituiu de 1961, em homenagem ao conde de Oeiras, que depois seria marquês de Pombal. O governante esteve à frente da administração até 3 de agosto de 1769, quase dez anos.

Os governadores não gostavam da velha capital, situada num terreno seco e estéril, cerca de trinta léguas distante do rio Parnaíba. Cogitou-se da mudança da sede administrativa, a princípio, para São João da Paraíba. Uma lei de 1844 determinou que fosse mudada para a foz do riacho Mulato, no Parnaíba, o que não se verificou. Outros diplomas legais cogitaram do assunto, sem resultado, até que a resolução da Assembléia Provincial 315, de 21 de julho de 1852, sancionada pelo presidente José Antônio Saraiva, transferiu a capital para a Vila Nova do Poti, elevada à categoria de cidade com o nome de Teresina.

X   X   X

Com a República, o primeiro governo do Piauí foi exercido por uma junta composta de militares e logo depois acrescida de ilustres civis, até que o Deodoro da Fonseca nomeou como governador o notável Gregório Taumaturgo de Azevedo, nascido na cidade piauiense de Barras, militar, engenheiro, bacharel em direito, fundador da Cruz Vermelha Brasileira e que em seguida governaria o Amazonas.

X   X   X

Taumaturgo veio assumir o governo viajando por Parnaíba, onde povo e autoridades o receberam com festas preparadas por uma comissão de pessoas de prestígio.

A comissão e grande massa popular dirigiram-se ao palacete da hospedagem do governante e a este entregaram mensagem, gravada em seda, com letras douradas, em que se pretendia a mudança da capital para a cidade de Parnaíba. O governador fez promessa solene de atender o pedido, mas foi contrariado por um telegrama urgente de Deodoro da Fonseca que determinou, de modo irrevogável a permanência da capital em Teresina - por esta forma rezam as crônicas da época.

Não encontrei as razões que levaram Deodoro à atitude severa expressa na comunicação telegráfica.

Gregório Taumaturgo de Azevedo, o primeiro governador republicano do Piauí, foi um homem de bem e de honestidade inatacável. Ocupo na Academia Piauiense de Letras a cadeira 29, que tem como patrono. Assumiu o governo a 26 de dezembro de 1889 e deixou-a a 4 de junho de 1890. Caiu do poder em virtude de pressões da politicagem local. Faleceu no Rio, ano de 1921.

Se Deodoro da Fonseca não houvesse adotado a enérgica providência determinada no telegrama, a capital do Piauí seria em Parnaíba. Os teresinenses devem muito ao proclamador da República, o tem homenageado numa das principais praças da capital, a praça Marechal Deodoro, local em que nasceu Teresina, onde se situava o palácio governamental, o primeiro prédio, a igreja do Amparo pelo mestre-de-obras João Isidoro da Silva França, português de nascimento e braço direito do fundador da cidade que lembrou com o nome de imperatriz Teresa Cristina, os tempos do Império brasileiro.


A. Tito Filho, 15/11/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

ALEIJAMENTO

Um dia o governador Dirceu Arcoverde me pediu que fosse conversar com ele no palácio governamental de Carnaque. Pretendia que eu escolhesse dezesseis poemas de Da Costa e Silva para os dezesseis painéis da bonita praça que estava construindo à beira do Parnaíba com o nome do poeta piauiense. Segundo Burle Marx, o notável paisagista, as poesias deveriam ser entendidas pelo povo, pela plebe ignara. Tarefa difícil. Tive que reduzir alguns, com o aproveitamento do essencial. O projetista citado sugeriu que houvesse uma espécie de seqüência racional nas concepções do escritor. Assim comecei com os poemas de fé, passei ao amor materno, à terra natal, aos cenários piauienses e à saudade, quando Da Costa e Silva se encontra em Recife. E ainda, de ordem do governador, viajei à capital pernambucana para a confecção dos painéis em que se inscreveram as poesias.

Praça de grande beleza, com o coretinho dos tempos antigos. Hoje, o recanto está transformado em motel ou bordel, casais nus embaixo dos céus e a veadagem campeando solta.

A praça Rio Branco, o antigo jardim em que as famílias passeavam de noite, reformada por um prefeito sério nos idos de 1936, Francisco do Rego Monteiro, passou a mercado público, suja, maltratada, nódoa na cidade mutilada. De modo semelhante se vê a praça João Luís Ferreira, onde se vendem panelada e outras iguarias. Nenhum resquício de higiene nesses restaurantes populares. Que se fez da praça de Dom Pedro II, outrora tão plena de romantismo, em que as garotas se entregavam ao gostoso namoro dos olhos com os jovens casadoiros? O logradouro de tantas recordações expressivas transformou-se [em] campo de homossexuais e de viciados na cachaça e na droga, espetáculo de degradação e amoralização. A praça Demóstenes Avelino se encontra deturpada, com um prédio no centro, dito Frigorifico do Piauí, de propriedade de empresa particular. Criou-se uma prainha, ao longo da avenida Maranhão, cenário de constantes crimes de agressão e morte.

O abandono das atividades agrícolas e da pecuária fez que milhares de piauienses, machos, fêmeas e numerosa prole deixassem o campo em busca de empregos inexistentes ou biscates humilhantes, e cada dia aumenta a legião dos famintos e das garotinhas de 12 a 15 anos entregues À prostituição nas favelas que cercam a cidade que José Antônio Saraiva Fundou tranqüila, pitoresca e afetiva. Áreas rurais desabitadas e Teresina crescendo fisicamente de modo alarmante o que gera conflitos com os donos de terra e mais do que tudo promove a favelização da cidade, cercada de conjuntos habitacionais desumanos, num sistema de promiscuidade que fere a personalidade dos que vivem nessas casas miseráveis e vendidas por preços exorbitantes.

Teresina vale uma cidade violenta, deseducada, de milhares de indivíduos andrajosos, em que ainda se usam sentinas de buraco e milhares moram em casa de taipa em convívio com BARREIROS, os da moléstia de Chagas. Alguma percentagem pequeníssima vive a tripa forra, em gritante afrontamento aos miseráveis que enxameiam por todos os lados. O desnível da renda individual espanta, enraivece, pela brutalidade das diferenças. Enquanto deputado e desembargador, cada qual ganha mais de milhão, milhares de filhos da pátria não chegam a quatro mil cruzeiros mensais. Brutal o confronto. Não cabe dúvida: Teresina corresponde a uma sociedade doente, perversa, porque injusta e insensível.


A. Tito Filho, 11/11/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

MÚSICA

Era dezembro de 1974. Estava governada interinamente a Secretaria da Cultura. Sempre amigo, Armando Bastos, prestigioso auxiliar de Alberto Silva, no primeiro governo do paraibano, sugeriu que eu fosse nomeado para a pasta. Convidado, a principio recusei-a, 15 de março de 1975, tocando-me apenas dois meses e meio, mais ou menos, como titular. Mas Armando me impunha o sacrifício. Pretendia que eu editasse livros e fizesse a festa de reinauguração do Teatro 4 de Setembro. E assim se fez. Obras foram publicadas, e a velha casa de espetáculos, de fatiota nova, recebeu a visita da Orquestra Sinfônica Nacional e do Balé do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Armando Bastos gostava de conferir-me tarefas suarentas. Exigiu de minhas forças a história do Teatro 4 de Setembro. Realizei pesquisas de noite e de madrugada, na Casa Anísio Brito, uns dez dias. Levantei dados e encontrei documentos e registros esclarecedores. Anotei as bonitas representações no querido centro festivo da capital piauiense. Rememorei maestros e maestrinas, compositores, vocações musicais, artistas de instrumentos maravilhosos, as retretas das bandas militares, o mundo encantado de Teresina de antigamente. A mim me parece que pratiquei a primeira história dos instantes da arte musical na capital do Piauí.

Depois, o excelente trabalho de Raimundo rosa de Sá, o popular Cazé, lembraria as peças musicais e os compositores de fama, não esquecendo a inclusão dos temas folclóricos na inspiração dos musicistas.

Meu velho e bom amigo Moura Rego escreveu e a Academia Piauiense de Letras editou Notas fora da pauta, deliciosa história da música em Teresina e da participação dos grandes artistas, inclusive o autor, cujo violino mágico encantava os auditórios.

X

Conheci em Teresina um homem decente, Nereu Bastos, educado, conduta reta, trabalhador, leal, admirado por tantos amigos que soube conquistar. Por força da profissão de funcionário federal, mudou-se para Belo Horizonte, a tranqüila capital mineira dos anos 50, em que ele, para congregar fraternalmente os conterrâneos, fundou o Centro Piauiense, um pedaço afetivo do Piauí nas Alterosas.

Acompanhou-o filho Cláudio Bastos, que, à custa de estudos sérios, conquistou o doutoramento em Sociologia e Administração de Empresas e dedicou-se a pesquisas pacientes e honestas sobre assuntos piauienses, tornando-se estudioso de nosso passado. Tem presentemente duas obras em andamento, de temas novos, um sobre o desenvolvimento da propriedade rural no Piauí e outro sobre a antiga guarda nacional em nossa terra.

Cláudio Bastos veio em julho a Teresina por convite da Academia Piauiense de Letras, com a finalidade de entregar aos estudiosos da terra o seu livro Manifestações musicais no Piauí - Contribuição à história da música, trabalho mais desenvolvido do que os citados e que os completa de certo modo, revelando aspectos expressivos de inspirados compositores interioranos, bem assim das bandas de música que tanta alegria provocavam nos festejos religiosos e sociais. Na obra admiram-se maestros competentes e revela-se o gosto das elites pelas composições clássicas e instrumentos de sopro e de corda dominados por artistas das elites teresinenses.


A. Tito Filho, 28/08/1990, Jornal O Dia

sábado, 14 de janeiro de 2012

MILAGRE

Frei Serafim de Catânia chegou ao Recife em 11 de setembro de 1841. Percorreu todo o Nordeste, em trabalho de catequese. Valoroso missionário. Em 1858, benzeu a primeira pedra da futura matriz do Ceará-Mirim. Tinha fama de obrador de milagres, de quem Luís Câmara Cascudo contou o seguinte, num livro muito saboroso ("Coisas que o povo diz"):

"Um home de bem, pobre, com família numerosa, estava sendo perseguido por um credor impaciente de receber os 100$000, e não sabia que fazer para enfrentar a vida dificil. Foi procurar Frei Serafim de Catânia no consistório da igreja de Santo Antônio, expondo com lágrimas sua desventurada situação. O frade ouviu-o, animou-o, e erguendo-se olhou ao derredor, viu apenas uma lagartixa que balançava a cabeça numa janela. O capuchinho fez o sinal-da-cruz e o animal imobilizou-se como feito de bronze. Frei Serafim embrulhou-o num pedaço de papel e entregou-se ao necessitado penitente recomendando:

- Peço dinheiro emprestado sob este penhor e livre-se da miséria. Daqui a um ano volte, trazendo o objeto, e coloque no altar, nos pés de Santo Antônio. Promete?

- Juro pela salvação da minha alma! - respondeu o pobre homem.

Correu ao agiota, pedindo a fortuna de 500$000, deixando um depósito. O onzenário abriu o embrulho e encontrou uma lagartixa de ouro, com a boca de rubis e os dois olhos de brilhantes. Valia o triplo. Pensou, provou, experimentou e deu os 500$000 ao suplicante. Este, com menos de um ano, estava livre de preocupações. Possuía casa própria, gado, uma loja, a família tranqüila e feliz, cavalo de sela para o trato dos negócios. Foi ao usuário liquidar o débito. Este propôs comprar a lagartixa de ouro.

- Não é minha! - explicou o abastado negociante.

Recebendo o penhor, foi à igreja de Santo Antônio e feita a vênia, depôs o pacote aos pés do orago. Imediatamente o papel mexeu-se e dele saiu, esfomeada e rápida, uma lagartixa, viva e veloz, em desabalada carreira. O homem percebeu o milagre de Frei Serafim de Catânia, e, ajoelhado, rezou longamente agradecendo a mercê”.


A. Tito Filho, 21/04/1990, Jornal O Dia

domingo, 8 de janeiro de 2012

MEMÓRIA

A memória das cidades se encontra nos documentos, entre os quais se incluem os livros, no documento oral de pessoas e nos monumentos, prédios e esculturas, sobretudo.

Teresina tem sido vítima da destruição ou modificação dos edifícios que bem a caracterizam no passado. Até as pracinhas de tanto lirismo se transformaram em locais de ajuntamento de marginais, como a Pedro II. a cidade sempre foi pobre nas homenagens a vultos que fizeram a sua história.

O primeiro monumento de Teresina constitui homenagem a José Antônio Saraiva, o fundador, uma coluna de mármore com inscrições latinas em que os piauienses manifestaram gratidão ao notável baiano. Confecção no Rio de Janeiro. Nos anos 20 fez-se o busto de Dom Pedro II, colocado na praça Rio Branco, mudado para a João Luís Ferreira e hoje situado no logradouro que tem o nome do primeiro monarca. Outros bustos se ergueram, como o de Coelho Rodrigues, o de Getúlio Vargas, do governador e interventor Leônidas Melo. A estátua de José Antônio Saraiva, na praça de nome idêntico, pertence ao primeiro centenário de Teresina, na administração João Mendes Olímpico de Melo.

Outras figuras ilustres homenageadas, como Henrique Couto, Teresa Cristina, a imperatriz do segundo reinado; o governador Antonino Freire, o presidente Floriano Vieira Peixoto, o baiano Zacarias de Góis e Vasconcelos, fundador do Liceu Provincial, em Oeiras, hoje com a denominação do criador; Cromwell de Carvalho, o segundo diretor da extinta Faculdade de Direito e que a dirigiu por anos a fio; o admirável poeta popular Domingos Fonseca; o imenso Dom Quixote, criatura de Cervantes, em magnífica escultura que Clidenor Freitas Santos colocou na frente do Sanatório Meduna; Santos Dumont, cujo nome se liga à história da aviação. O prefeito Wall Ferraz mandou fazer monumentos a Teotônio Vilela, senador alagoano; Dom Avelar Brandão Vilela, arcebispo de Teresina quase quinze anos; e a Frei Serafim de Catânia, o corajoso e piedoso construtor da igreja de São Benedito. Outro prefeito, Antônio Freitas Neto, não esqueceu os humildes e aprovou e inaugurou monumento de homenagem ao motorista Gregório, no local do martírio a que esse pobre cidadão foi submetido, numa triste manhã de 17 de outubro de 1927.

Ao tempo da segunda administração Wall Ferraz sugeri ao seu chefe de gabinete, advogado Renato Bacelar, que se fizessem esculturas de uns vinte bustos de poetas e prosadores de Teresina e colocá-los na praça Marechal Deodoro, recanto de cenários bonitos e líricos para abrigo dos criadores de arte literária. A mão-de-obra se confiaria a Murilo Couto, escultor piauiense de nobreza. Talvez os recursos financeiros da Prefeitura não tivesse sido suficientes para a expressiva recordação de nossos escritores notáveis.

Neste setembro de 1990, o prefeito Heráclito Fortes recebe o meu abraço e admiração e respeito pela homenagem que prestou à memória de Petrônio Portella, colocando-lhe a estátua num dos pontos centrais de Teresina. Falecido a 6 de janeiro de 1980, já tardava a manifestação de apreço a um político piauiense às portas de alcançar a presidência da República. O Piauí pratica pouco os deveres cívicos. A coletividade piauiense se deslembra facilmente dos seus homens públicos decentes. Expulsa-os cedo da memória geral. Pouco os que não esquecem a grandeza política dos que souberam dignificar a personalidade, por conta de gestos humanos e atitudes nobres.

Heráclito Fortes praticou atitude reta. Não foi político com Petrônio Portella mas a este prestou homenagem que outros já deveriam ter-lhe prestado, justamente aqueles que houveram benefícios e proteção de grande líder.


A. Tito Filho, 19/09/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

FOLCLORE

Nos meus brincos de infância, em Barras e no velho Marruás, hoje Porto no Piauí, gente idosa, parentas velhas, caboclas da terra contavam estórias bonitas e medonhas, umas de arrepiar cabelo, outras de deleite e encantamento. Quando da adolescência em Teresina, meninos do meu tope se reuniam de noite nas calçadas do médico Benjamin Baptista, conceituado e culto, e cada qual narrava contos de macaco, de onça, de gigantes, de heróis e de bandidos, e um desses colegas era filho do dono da casa, Stanley Baptista, que pela dedicação aos livros e caráter bem formado, se tornaria das mais brilhantes figuras do Exército Nacional. Momentos felizes e alegres; dava gosto vivê-los, e nunca se supunha que eles se fossem, deixando memórias inesquecíveis.

Aos 14 anos de idade comecei a ler romances nacionais e portugueses. Li "A Moreninha", de Macedo, e a obra completa de José de Alencar. Nessa época, Juca Feitosa, figura muito conhecida, rico comerciante, mantinha na capital piauiense loja de várias mercadorias, inclusive livros. Tive oportunidade de adquirir obras lusitanas, algumas de Camilo Castelo Branco e uma, bem me lembro, de exagerado romantismo, "Tristezas à Beira-Mar", de Pinheiro Chagas. Vendia-se também a coleção SIP, constituída de romances de aventura e de amor; que traziam, na capa, dois dedos em forma de V e por baixo do desenho a escrita MIL RÉIS, isto é, cada volume valia dois mil réis, e MIL RÉIS foi a unidade monetária vigorante até 1942. Entre muitos apreciei "A Patrulha da Madrugada" e "Naná". Júlio Verne estava na moda.

Tomava-me de entusiasmo com a sua ficção maravilhosa, que se incorporou à história contemporânea, com a visita do homem à lua. Li quase tudo do admirável francês. Da adolescência tão presente ainda no meu espírito foi a série de publicações TERRA-MAR-E-AR. Livros de tipos bons e tipos maus, em terras estranhas e distantes. Pratiquei leitura de Tarzan, o herói das selvas africanas criado por Edgar Rice Burroughs e pratiquei-a de fia a pavio.

X   X   X

Com a leitura de "Encanto e Terror da[s] Águas Piauienses", desse mágico Josias Carneiro da Silva, relembro os tempos de menino, delicado com as lendas de bichos e de gente, parecido com as de outras águas do mundão de Deus, assim do jeito do caboclo-dágua do São Francisco, o urutau ou jacaré gigantesco do Paraíba do Sul, o boiúna e o boto do Amazonas.

O folclore mostra a vida coletiva na sua cultura material e na sua cultura espiritual. As águas constituem fontes de lendas, mitos, fantasias, imigrações. Na Bahia, os pescadores celebram o despacho da mãe-d'água, cerimônia mágica em que se atiram oferendas ao mar para que aquela personagem mística os liberte de infortúnios na pescaria. A tradição mediterrânea está nas sereias, a que Homero se referiu. A Iara tem encantos irresistíveis, que o genial piauiense José Newton de Freitas pôs num poema, ao cantar o jangadeiro: "Enquanto seus filhos/ficaram chorando/ele está morando/beijando, beijando/a iara bonita,/no fundo do mar".

No livro se salienta o paciente pesquisador Josias Carneiro da Silva e se revivem monstros aquáticos, que a tradição recolheu e guardou. Mas Josias Carneiro realiza o mais brilhante estudo com o cabeça-de-cuia, que o talentoso piauiense João Alfredo de Freitas colocou em "Lendas e Superstições do Norte".


A. Tito Filho, 29/11/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

TERESINA

Vejo-a sem a minha infância, sem os dias queridos que não voltam mais, as saudades provocando nó na garganta, um choro que não consola. Sem o CaiNágua, o cabaré das garotas de segunda classe, perto do Parnaíba, que os meus olhos de adolescente desejavam, mas os cânones da época proibiam. Sem os circos, na praça Deodoro, grandões, palhaços engraçados, ameaçando as velhotas atiradas com o troncudo pedaço de macaxeira. Na frente do imenso toldo, dezenas de bancas, na venda de frutas descascadas, refresco, sorvete de gelo rapado e mel de fruta, gostoso como o diabo, frito de carne de porco, beiju salpicado de farelo de coco. No calor das tardes, máquinas equilibradas na rodilha da cabeça, com a manivela de rodar e fabricar o melhor sorvete do mundo, o caboclo, alpargata chiadeira, passeava as ruas, a vender a guloseima.

Vejo-a sem o pega-pinto gelado, que a gente ia comprar, oito da noite, na jarra, uns oito copos, para a família à espera na roda da calçada. Sem o Doutor, dono de frege, estabelecimento modesto, mesinhas sem toalhas, pimenta malagueta danada, cachorros gafentos e famintos à espera do osso que o freguês alisara, depois de engolir tripa e bucho - a panelada da cidade, a cinqüenta metros da praça Rio Branco. Sem o Bar Carvalho, de elite, vendia cafezinho, chocolate com ovo e sem ele, sobretudo o filé de grelha, enfeitado de ervilha, azeitona, alface e farofa. Manjar dos deuses, do cozinheiro espanhol Gumercindo, um mágico em comedorias.

Vejo-a sem o alarido das pipiras tentadoras - as mocinhas pobres empregadas da Companhia de Fiação e Tecidos Piauiense, ruído de máquinas o dia todo. As garotas, vestidinhas de chita, merendavam banana, daí o apelido que a crônica registra.

Vejo-a sem a presença de Celso Pinheiro, poeta e tuberculoso, fatiota branca engomada e reluzente, chapéu de palhinha, gravata borboleta... irreverente...; sem Higino Cunha, mestre verdadeiro, a caminhar pelas vias públicas, aqui e ali o trago de bebida destilada...; sem Pedro Brito, calças velhas de mescla, cornimboque de rapé nos bolsos largos, suado, a ironizar homens importantes...

Vejo-a sem as funcionárias domésticas, mocinhas morenas, que o povo denominava curicas, porque recebiam o prato de comida no peitoril da residência... Caboclinhas de pé de esquina, na cidade pouco iluminada... Sempre perdiam o cabaço para o filho-família, o moço dengado.

Vejo-a sem o cabaré da Raimundinha, alegre, as meninas de vestido abaixo do joelho, cada qual com a sua alcova de deitar com quantos machos obtivessem na noite comprida... Tiravam a roupa de luz apagada... Que Tempo!

Vejo-a sem as pracinhas de donzelas faceiras, que rodavam num sentido, os gajos em sentido contrário no fascinante namoro de olhos... No cinema, o casal se dava o gosto da bolinação... Namoro de mão nos peitinhos arrebitados...

Vejo-a sem o símbolo que foi a Maria Préa, mulata boa de cama, com estudante de bolso vazio ou desembargador de prestígio firmado.

Hoje, vejo-a urbanizada de pombais, ou casinholas habitadas do êxodo interiorano; povoada de veados de luxo ou simples viciados na inversão dos locais de prazer; vejo-a na falsa convivência dos coquetéis, das uiscadas e das festas de caridade; vejo-a no comércio com o nascimento de Jesus e com as mães, merecedoras pelo menos de um pouco de respeito; vejo-a despudorada, meninas ricas sem roupa, por deboche, meninas pobres do mesmo jeito por miséria. Vejo-a uma imensa putaria de homens e mulheres, com as devidas exceções; Vejo-a violenta, estúpida, deseducada - tipos debaixo-da-ponte, alguns felizardos da vida ociosa à custa de golpes e falcatruas e outros tantos no repasto oficial da República sem freios.

Vejo-a sem futuro, sem esperança, mas ainda creio no resto do otimismo que me sustenta os olhos sofridos da saudade dos tempos que não voltam mais...


A. Tito Filho, 19/08/1990, Jornal O Dia

sábado, 17 de dezembro de 2011

TERESINA - LOUVAÇÃO

A cidade alcançou progresso em todos os setores. Antes de tudo tranqüila e afetiva. Vale um beijo quente de fraternidade. Manhãs e tardes coloridas. Corações alegres. Gente que gosta da humanidade, recitando o poema da convivência irmã. As suas noites são de amor. Nos bancos das pracinhas de encanto, pares agarradinhos, arrulhando afeto, cheirando-se, mordendo, polícia distante, gente que passa fazendo que não vê. Juca Chaves disse no Rio de Janeiro: "Se peito fosse buzina, ninguém dormia em Teresina".

As mulheres teresinenses são as mais carinhosas destes brasis. E criaram a linguagem dos olhos para a revelação do sublime sentimento do amor. Elas têm olhos de querer e de não-querer.

Vem brasileiro, irmão de outras paisagens, TERESINAR, um verbo doce, expressivo, que se reza com carinho. O centro é uma festa permanente. Da praça Rio Branco, coração comercial da cidade, parte-se para o Parque da Bandeira, bem cuidado, convite ao descanso. além o rio Parnaíba, o velho monge de barbas brancas alongando... Junto às margens, lavadeiras batendo roupa, alguma de seios à mostra. Num dos lados do Parque, o antigo Palácio da Justiça. Antes, sede do Poder Executivo e residência dos presidentes da província e governadores até que foi adquirido o Palácio de Karnak.

Partinho do Parnaíba, o Mercado Velho ou Central, construído há mais de cem anos. Aí de tudo se vende: carnes, peixes, verduras, frutas, sandálias, calças, lamparinas, panelas, louça, mezinhas, beberagens eróticas como a famosa catuaba, pós mágicos. Camelôs propagam cura-tudo, literatura de cordel, alguns cegos recitam lamurientos versos de arrecadar esmolas. E dezenas de restaurantes ao ar livre, com comida feita sob as vistas do freguês, servem os mais variados pratos, sempre apimentados: fritos, sarapatel, buchada, panelada, mão-de-vaca, vísceras. Um arremedo dos mercadões de Fortaleza e Salvador. Um colorido especial à vida da cidade. No mercadão a gente encontra o sujeito que vende maconha, o bicheiro anunciando o milhar do jacaré e as mulatas mais desconfiadas do mundo, cheirando a brilhantina flor do amor. E muito chá-de-burro, o talentoso mucunzá.

A Casa Anísio Brito merece visitação. Museu e Arquivo do estado, guarda muita preciosidade que precisa de ser vista e consultada.


A. Tito Filho, 29/01/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

EPISÓDIOS

- Era 5 de setembro de 1850. De noite José Antônio Saraiva chegou a Oeiras, a velha Mocha, capital do Piauí, o antigo São José do Piauí, nome que o primeiro governador da capitania, João Pereira Caldas, botou em homenagem ao rei dom José de Portugal.

- A 18 de novembro de 1850 Saraiva visitou a Vila do Poti, sujeita a febres e a enchentes do rio no tempo do inverno.

- A 25 de dezembro de 1850, pedra fundamental da igreja do Amparo, na Chapada do Corisco, local de Teresina. Missa celebrada pelo vigário Mamede Antônio de Lima.

- A 20 de outubro de 1851, transferiu-se a sede da Vila Nova do Poti, hoje Poti Velho, para a Vila Nova do Poti, na Chapada do Corisco.

- A 21 de julho de 1852, a lei 315 eleva a Vila Nova do Poti à categoria de cidade e capital do Piauí, com o nome de Teresina.

- A 25 de dezembro de 1852 inaugurou-se a igreja do Amparo.

- Em 1853, circulou "A Ordem", primeiro jornal de Teresina. No ano seguinte inaugurava-se o Hospital de Caridade. A cidade tinha uns doze mil habitantes.

- O primeiro teatro, o Santa Teresa, apareceu em 1858, ano em que se criou também a Companhia de Navegação do Rio Parnaíba.

- Dois grandes acontecimentos em 1859: a chegada do primeiro barco de vapor, chamado "Uruçuí", e a primeira visita pastoral, a do bispo Manuel Joaquim da Silveira, vindo de são Luís. Grandes recepções populares.

- Parece que a cidade conheceu fotógrafo em 1860. Também em 1860, a cidade ganhava um novo hospital, a Santa Casa de misericórdia, que prestou serviços até a conquista do Hospital Getúlio Vargas.

- Construiu-se o cemitério da cidade. Era 1862.

- Em 1866, Teresina ganhava nova cadeia, construída no lugar da anterior, arruinada. Demolida em 1978, no governo Dirceu Arcoverde.

- Teresina conheceu a primeira iluminação pública em 1866. A querosene, somente na praça da Constituição, que atualmente se chama Marechal Deodoro. Concluíram-se também as obras do mercado no mesmo logradouro público.

- Em 1867, inaugurava-se a igreja de N. S. das Dores.

- A primeira biblioteca pública de Teresina criou-se em 1974.


A. Tito Filho, 24/01/1990, Jornal O Dia

O NOVO SÉCULO

Na minha pobre cachola manifestava-se dúvida a respeito do início do século XX: 1º de janeiro de 1900 ou 1º de janeiro de 1901? Andei perguntando a algumas pessoas esclarecidas, que tinham como certa a data de 1900.

No começo de 1975, catei dados em jornais velhos do Arquivo Público para escrever um livrinho sobre a história do Teatro 4 de Setembro. Pois bem. Topei na imprensa com a festa comemorativa, em Teresina, do início do século XX. Sessão literária na velha casa de espetáculos. Discursos de Higino Cunha, Areolino de Abreu, Arquelau Mendes e padre Joaquim Lopes.

Os registros jornalísticos consignavam a data de 1º de janeiro de 1901. Nesse tempo os antigos homens públicos do Piauí tinham o novo século como iniciado em 1901. Dei tratos à bola. E concluí pela verdade dos mortos. O século se compõe de cem anos. Somente a 31 de dezembro do ano 100 se completou o século um, assim o século dois começou no ano 101. Lógico. O século XIX finou-se a 31 de dezembro de 1900, logo em 1901 principiou o século XX.

X   X   X

O gaúcho e engenheiro Paulo Klumb já visitou duas vezes Teresina, por convite da Academia Piauiense de Letras. Educado e culto. Armazenou profundos conhecimentos sobre assunto de natureza vária. Manteve, por carta, elegante polêmica em torno de questões históricas do Piauí com o saudoso Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, que muito o admirava e elogiava.

Klumb publicou "Dois Estudos", pesquisa e lições de história e arquitetura a respeito do Teatro 4 de Setembro e do Palácio de Karnak, livro editado pela Casa de Lucídio Freitas.

Este notável gaúcho leu recente obra de autor piauiense em que se pretende que 1900 seja o primeiro ano do século XX. Klumb me manda carta em que transcreve trecho do "Correio Paulistano", edição de 2-1-1901:

“A PASSAGEM DO SÉCULO NO RIO

Conforme verificaram os leitores em nossos telegramas ontem publicados, na capital federal foi dignamente festejada a passagem do novo século, tanto pelo elemento profano quanto como pelo religioso. Solenidades religiosas em todas as igrejas, embandeiramento de praças, ruas, edifícios públicos e particulares..."

Pergunta Klumb: "Teriam os cariocas, por engano, comemorado o inicio do século com um ano de atraso?" Em seguida ensina que a regra é a seguinte para determinar o século: divide-se por cem o ano que se quer situar. Se o resultado da divisão for numero inteiro, este será o do século procurado. Se o resultado não for número inteiro, obtém-se o século adicionando a unidade à parte inteira da divisão. Ano de 1900 dividido por 100 é igual a 19. Ano de 1900 dividido por 100 é igual a 19,01, mais a unidade é igual a 20. O século XX começou em 1901. Veja-se o ano 2000. Dividido por cem é igual a 20, logo o ano 2000 é século XX, e o século XXI só começa em 2001. Tolice dizer e escrever que em 2000 tem início o século XXI. E grossa. OBS. No artigo de ontem escrevi SOB A RESPONSABILIDADE. Saiu SOBRE. Meu querido revisor tenha pena de mim. Agradecido”.


A. Tito Filho, 07/03/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O MITO DO CLIMA

Leio os jornais de Teresina deste começo de semana. Uns dois deles publicam notícias espantosas sobre o clima reinante na cidade. Gente debaixo de muito sofrimento. Água em quantidade para que se evitem desidratações nas crianças e nos idosos. Calor infernal. Os capetas felizes, alegres e recompensados. Outro matutino estampa a notícia de que um avião deixou de levantar vôo por causa da quentura danada, fato que se verificaria em qualquer lugar cuja temperatura tivesse condições idênticas.

Veja-se Pereira da Costa, na Cronologia Histórica do Estado do Piauí.

Conta ele em 1822 se fizeram no Piauí as primeiras observações meteorológicas, dirigidas pelo engenheiro Benjamim Franklin de Albuquerque Lima, chefe da comissão de melhoramento do rio Parnaíba. Houve mais de mil observações, das quais H. Morize, em Esboço de uma Climatologia do Brasil, escreveu conclusões a respeito da capital do Piauí pela seguinte forma: "A temperatura média anual tomada às 9 horas da manhã é de 26º. Os meses mais quentes são os fins de estação quente, isto é, de setembro a dezembro, cuja temperatura é em média 28,5º; o mais fresco, que é o de maio com 26,1º, é o último da estação chuvosa".

Clodoaldo Freitas, doutor em assuntos dos primeiros tempos de Teresina, escrevia em 1923: "O clima de Teresina acompanha as estações. No inverno é úmido e frio; nos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro o clima é quente e o calor abafado. Nos meses de junho, julho e agosto o clima é seco e ameno e as noites frias. Nestes três meses, na mata que acompanha o rio Poti, o frio das noites é intensíssimo".

Bem verdade que essas circunstâncias padeceram modificações. Para alimentar a velha usina elétrica, árvores e mais árvores foram derribadas. Chegou o asfalto. O número de veículos hoje derrama abundante e nociva fumaça pelos canos de descarga.

No meu livrinho Teresina Meu Amor escrevi:

No mês de janeiro, o avião parte para o Rio de Janeiro. Quando se fazem os preparativos da aterrissagem, o microfone de bordo avisa:

- Daqui a dez minutos estaremos descendo no aeroporto do Galeão. A temperatura local é de 40 graus.

Os passageiros do jato permanecem mudos. Ninguém ri.

Quando o jato, de setembro a novembro, se aproxima de Teresina, o microfone de bordo informa:

- A temperatura é de 30 graus.

Todos riem”.

Criou-se a imagem de que Teresina vale um inferno de calor, uma caldeira infernal. Os próprios piauienses se encarregam dessa publicidade infiel. Mas os nossos meses mais quentes são os de setembro a novembro, com uma média de 30 graus centígrados de temperatura.

No verão do Rio de Janeiro, o carioca, caso queira, pode estrelar ovos no asfalto da cidade.

Observem o depoimento do grande médico Silva Melo, em Panoramas Norte-Americanos, sobre o calor de Nova Iorque, nos Estados Unidos: "A minha permanência em Nova Iorque foi durante os meses de junho, julho e agosto, os meses mais quentes do ano, de pleno verão...

As noites eram sufocantes e os dias tremendamente quentes...

Em Nova Iorque houve naquele dia 9 mortos por insolação e o termômetro no Central Park marcou ao sol 142 graus, mais de 60 centígrados. Os jornais descreviam nova Iorque como um imenso forno de cimento e asfalto, cujo calor justificava realmente tal comparação...

O calor era tão intenso que se me tornava necessário mudar de roupa mais de uma vez durante a noite, molhando o travesseiro e o colchão".


A. Tito Filho, 19/03/1970, Jornal O Dia

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

MEU BOM AMIGO

Quem assina este artigozinho não era nem nascido quando se instalou em Teresina a primeira instituição de crédito, justamente o famoso Banco do Brasil, de empréstimos só para ricos e bem providos de avalistas seguros.

Na década de 1950, ingressei no magistério. Aulas no Colégio Estadual do Piauí, na Escola Normal, no Colégio São Francisco Sales e noutros educandários. Iniciava o trabalho às 7 da manhã, às 13 da tarde e às 18:30, boca da noite. Não me passava pela cabeça possuir automóvel. Ministrava quinze aulas por dia, correndo de um colégio para outro. Os professores ganhavam vencimentos de miséria, nos estabelecimentos oficiais como nos particulares. Por cima de tudo, os proprietários de casa de ensino e o governo efetuavam a paga do labor mensal sempre com atraso. Nem equilibrista de circo conseguia sustentar família por processos tão angustiosos. Os mestres recorriam a agiotas a fim de que vencessem dificuldades e aperturas. Os usuários concediam empréstimos na base de 10, 15 e 20 por cento, exploradores gananciosos, que enricavam depressa na exploração da miséria alheia. Dia de vencimento do vale, chamado de papagaio, o perverso judeu aparecia em busca dos juros para a concessão da nova esfola. Como outros colegas, cheguei a dever a três ou quatro desses sugadores da economia popular ao mesmo tempo. Busquei soluções e me informaram que o Banco Comercial e Agrícola do Piauí poderia salvar-me as finanças. Procurei o estabelecimento, num prédio modesto da rua Barroso, mais ou menos no meio do quarteirão iniciado hoje pela Câmara Municipal. Encontrei facilidade para conseguir cinco mil cruzeiros, desde que meu pai avalizasse o negócio. E assim se fez. Juros baixíssimos. Na época do pagamento, a bondade paterna fez a liquidação da dívida, sem contribuição minha de qualquer natureza.

Melhorei de vida com o correr dos anos. Surgiram oportunidades de outros empregos. Consegui consultoria jurídica na antiga Comissão de Abastecimento e Preços do Piauí. Quando necessitei outra vez do banco, já se havia transformado o conhecido Banco do Estado do Piauí, o BEP, em cujas salas ganhei alegrias e dissabores. Às vezes os empréstimos me eram creditados com rapidez, outras vezes a cousa enganchava. A vitória me sorria ao cabo das contas, pois uns oitenta por cento dos servidores do estabelecimento haviam sido meus alunos diletos e queridos. Alguns funcionários de mando e poder não gostavam de mim. Jornalista quase sempre de oposição a governos piauiense, natural que contra mim se manifestassem antipatias e perseguições. Cousas da vida. A política sempre se mostrou injusta e de má índole, sobremodo quando ela passa aos métodos enodoantes de politicalha. Não me abatiam as recusas. Minha persistência acabava por obter os pequenininhos empréstimos que minhas parcas rendas permitiam. No BEP, porém, estava a minha salvação. Às vezes, fui levado a declarar desaforos aos encarregados das carteiras de empréstimos e os ouvia também, com humildade. Voltava ao equilíbrio emocional e partia para novas rogativas e, ânimos serenados, os dinheirinhos ingressavam nos meus pobres bolsos.

Eu e o BEP somos um romance. Um romance de caracteres que se compreendiam, eu e o banco querido dos piauienses, uma instituição do povo, que salvava a verdureira, o professor quebrado e desenvolvia o trabalho de produção do homem.

Meu bom amigo, o BEP. Sempre meu amigo nas mais ingratas situações de quebradeira. Sem média de depósitos, sem imóveis, sem nada, quantas vezes o BEP me livrou do infortúnio do desconforto de minha família. E não acredito que o Piauí seja ingrato com uma casa miga, onde a bondade dos servidores, os grandes e os pequenos, sempre foram o recurso maior dos necessitados.

Um crime contra o povo o desaparecimento de meu bom amigo. De mim, estou de coração choroso, apertado de amargura. Que os homens tenham dignidade e restituam a vida de meu velho BEP.


A. Tito Filho, 30/07/1990, Jornal O Dia

sábado, 26 de novembro de 2011

ADMINISTRAÇÃO DE TERESINA (2)

A 26 de dezembro de 1889, Gregório Taumaturgo de Azevedo assume o cargo de governador do Piauí. No ano seguinte, 20 de janeiro de 1890, baixou ato, também assinado por Clóvis Bevilaqua, criando, em cada município, os conselhos de intendência municipal. Para os de Teresina foram nomeados os seguintes membros: João da Cruz e Santos, barão de Uruçuí (presidente), capitão Mariano Gil Castelo Branco, barão de Castelo Branco; Teodoro Alves Pacheco, Simplício Coelho de Resende, cônego Tomás de Morais Rego e capitão José Antônio de Santana, ao todo 6 conselheiros. O segundo presidente foi o barão de Castelo Branco.

O Conselho adotou iniciativa de alterar denominações de vias públicas e de administrar os cemitérios, retirando-se da Santa Casa de Misericórdia. Também houve substituição de conselheiros.

Dia de 4 de junho de 1890, Gregório Taumaturgo de Azevedo deixou o cargo de governador. A 27 de dezembro do mesmo ano, depois de outros governantes, assume a chefia do Executivo Álvaro Moreira de Barros Oliveira Lima, que decretou uma constituição para o Piauí, ad referendum do congresso constituinte, que se reuniria no ano seguinte, mês de março. Nessa Carta, de 12 de janeiro de 1891, foram criados os conselhos municipais e os cargos de intendente e vice-intendente em todos os municípios.

A Constituição votada pelos deputados e promulgada a 13 de junho de 1892 manteve os dispositivos acima referidos, de modo que Teresina deveria escolher os seus dirigentes e os seus legisladores.

Mas antes que se verificassem as eleições e a posse dos eleitos, o Conselho de Intendência tomou interessante deliberação, determinando que os habitantes da cidade estavam obrigados, nos dias de sábado, a varrer a frente de suas casas, até o meio da rua.

Registrem-se mais os seguintes acontecimentos: instalação do 35º Batalhão de Infantaria (Exército), o batalhão querido da cidade, que lutou no sul de 1893 a 1896 e em Canudos (BA), onde, de 498 soldados, teve 338 mortos. Em janeiro de 1900 esse admirável corpo de heróis foi transferido para são Luís. No ano de 1891, o Piauí criou a sua primeira loteria (a atual apareceu no governo Chagas Rodrigues) e instalou o Tribunal de Justiça, composto de 5 membros.

A iniciativa particular foi de pouca monta em 1890: criação do Clube dos Artistas (já desaparecido) e do Instituto de Karnak, estabelecimento de ensino secundário, com internato e externato. Fundador: Gabriel Luís Ferreira. Esse órgão educacional já desapareceu.

O primeiro pleito para a escolha do intendente, do vice e dos conselheiros municipais realizou-se a 31 de outubro de 1892. Foram eleitos, com o número de votos entre os parênteses: intendente, Manuel Raimundo da Paz (472), vice, Honório Parentes (473). Conselheiros: militar e proprietário Raimundo Antônio de Farias (472), farmacêutico Alfredo Gentil de Albuquerque Rosa (475), os militares e comerciantes Joaquim José da Cunha (475), Raimundo Elias de Sousa (475), Leôncio Pereira de Araújo (475), Jardelino Francisco Barbosa d'Amorim (475), Viriato Rios do Carmo (369), Francisco da Silva Rabelo (369) e Manuel Lopes Correia Lima (369), poeta e jornalista. Ao todo, 9 conselheiros.


A. Tito Filho, 27/01/1990, Jornal O Dia