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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DENOMINAÇÕES

Contei a história do prefeito de município maranhense, certa feita, doente de puxa-saquismo. Quando Jânio Quadros subiu ao poder, o sujeito deu praça inaugurada o nome do presidente, que, com poucos meses, deixou os palácios de Brasília. Pouco tempo depois, Goulart o substituía e logo o prefeito mudou o nome do logradouro: agora passava a praça presidente Goulart, derribado em 1964. O prefeito achou melhor, diante da instabilidade política, batizar a praça de PRESIDENTE ATUAL.

Teresina foi também rica de chaleirismo ou bajulação. As nossas ruas tinham denominações imperiais. Sucedeu a queda do imperador, em 1889, e o puxa-sacos do Conselho Municipal depressa fizeram as substituições: a rua da Imperatriz passou a Quintino Bocaiúva. Chamou-se Cesário Alvim a rua do Imperador. A praça Campo de Marte tomou nova denominação: praça Floriano Peixoto. Líderes republicanos ganharam homenagens: Benjamin Constant, Campos Sales, Rui Barbosa. A praça Conde D'Eu, genro do imperador, seria Quinze de Novembro. A ânsia de atitudes bajulatórias fez que os legisladores substituíssem batismos tradicionais e populares como rua da Estrela, rua da Glória, rua Grande, rua Bela, rua do Amparo, rua Augusta, rua das Flores, rua dos Negros, rua da Campina, rua do Pequizeiro.

X   X   X

Às vezes a substituição provém da sensibilidade do momento.

Em 1930 dois candidatos queriam a presidência da República: Getúlio Vargas, apoiado por Minas, Rio Grande do Sul e Paraíba, que indicou o vice, João Pessoa, que governava os paraibanos na época. O outro era Júlio Prestes, sustentado por são Paulo e pelo resto dos Estados. A campanha desenvolvia-se sob paixões e emoções. A 26 de julho de 1930 João Pessoa viajou ao Recife, para visita a amigo enfermo. De tarde, sentado a uma mesa da Confeitaria Glória com um grupo de amigos, dele se aproximou o advogado João Dantas, seu inimigo pessoal e político. Sacou de um revólver e disparou três tiros, matando o candidato na chapa de Getúlio.

Manifestações de protesto no país. Luto por toda parte. Apressou-se o movimento quartelesco de 1930, contra o qual já se tinha manifestado o próprio João Pessoa. Com a morte do líder, os rebeldes derribaram o governo de Washington Luís.

Em Teresina, o bonito nome de Aquibadã, assim batizada a praça do Theatro 4 de Setembro, passou a João Pessoa, até que outra lhe dessem, a de Pedro II.


A. Tito Filho, 26/07/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O ÚLTIMO DOS MOICANOS

Faz poucos dias revi na televisão o filme O ÚLTIMO DOS MOICANOS, que eu havia visto cinqüenta anos passados, com um dos artistas mais populares do seu tempo, Randolph Scott, ídolo da meninada nas aventuras do velho oeste norte-americano. A história foi escrita por James Fenimore Cooper, o mesmo que deu à literatura dos Estados Unidos obras como "Os Pioneiros", "O Espião", e outros romances que li sobre lutas e caracteres humanos.

Cooper era historiador meticuloso. Criou tipos fictícios, mas fiéis à vida das comunidades do tempo em que viveu. Dele "A Pradaria", cuja ação se passa na região do búfalo. O homem íntegro se forma pela natureza e não pelos livros, como ensina o escritor. Aprendi muito do faroeste em Cooper, que glorificou a vida ao ar livre e fez da simplicidade um ritual.

Era bom. Naquele tempo, quando eu, molecote cheio de vida, recebia de meu pai dois mil réis todos os domingos, meu ganho semanal. Na rua Simplício Mendes, no trecho da rua Lisandro Nogueira à praça Rio Branco, meio do quarteirão, estava o cinema Royal, de segunda classe. Exibia muito filme de caubói, com sessões iniciadas pelas seis e meia da tarde. Salãozão comprido, bancos de madeira sem encosto dos dois lados e a passagem dos freqüentadores pelo meio. Eu gostava das aventuras espetaculares dos artistas que sempre venciam os bandidos covardes. Também havia os seriados. Seis semanas seguidas, cada semana um pedaço da estória, e o jeito que se aguardasse, curioso, a continuação no domingo seguinte.

Dois mil réis de meu pai valiam alguma cousa. A entrada do cinema saia por seis contos réis. Na saída do espetáculo, a gente dava duzentos réis por quatro cigarros marca Regência, comprava cinco bolos fritos por cem réis (um tostão *) o resto dos bagarotes para um sorvete ou um copo de refresco de gelo rapado.

No velho Royal trabalhavam os meus ídolos mais impressionantes, entre os quais Buch Jones, Tom Mix, Tim McCoy. Entusiasmavam-se as aventuras, a pontaria certeira dos caubóis. Só hoje, depois de muita leitura, pude compreender as fantasias que o cinema me mostrava na época da saudosa adolescência. Os feudos. O reino do gado. O mundo selvagem duro com os fracos. Os fortes cuja vida dependia da faca e do revólver. OS SALOONS de violência. Um mundo de libertação explosiva e derivativa do jogo e das bebedeiras desenfreadas como substitutos da mulher.

Lei da pistola sobre o balcão da bebida e sobre a mesa do jogo. Violência do índio contra o branco e vice-versa. Índio bom é índio morto, diziam os homens do oeste brutal. tudo um excesso de vitalidade. Álcool, pôquer, matança profissionais, a lei do Colt, num mundo de apetites sexuais sem que houvesse mulheres. Daí o mito das fêmeas raríssimas.

A tribo dos moicanos deu a Cooper o motivo do romance que eu revi agora, no mesmo filme de cinqüenta anos passados. O mesmo Randolph Scott, herói de minha adolescência risonha e feliz, o Scott altão, esguio, tiro certeiro, defensor dos fracos, punidor dos malvados. Lembrei-me dos tempos nos grosseiros assentos de pau no saudoso cinema Royal de Teresina, casa de segunda ou terceira classe, onde a molecada se divertia, assobiando nos momentos de perigo. Não pude esquecer a moeda valiosa que meu pai me dava e que me proporcionava alegrias sem conta, época bendita em que ninguém ouvia a palavra dólar na tranqüila e pitoresca Teresina.


A. Tito Filho, 04/11/1990, Jornal O Dia


* Palavras apagadas no original

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

ADMINISTRAÇÃO DE TERESINA

A 26 de dezembro de 1889, Gregório Taumaturgo de Azevedo assume o cargo de governador do Piauí. No ano seguinte, 20 de janeiro de 1890, baixou ato, cada município, os conselhos de inteligência municipal. Para o de Teresina foram nomeados os seguintes membros: João da Cruz e Santos, barão de Uruçuí (presidente), capitão Mariano Gil Castelo Branco, barão de Castelo Branco; Teodoro Alves Pacheco, Simplício Coelho de Resende, cônego Tomás de morais Rego e capitão José Antônio de Santana, ao todo 6 conselheiros. O segundo presidente foi o barão de Castelo Branco.

O Conselho adotou iniciativa de alterar denominações de vias públicas e de administrar os cemitérios, retirando-se da Santa Casa de Misericórdia. Também houve substituição de conselheiros.

*   *   *

Dia 4 de junho de 1890, Gregório Taumaturgo de Azevedo deixou o cargo de governador. A 27 de dezembro do mesmo ano, depois de outros governantes, assume chefia do Executivo Álvaro Moreira de Barros Oliveira Lima, que decretou uma Constituição para o Piauí, ad referendum do congresso constituinte, que se reuniria no ano seguinte, mês de março. Nessa Carta, de 12 de janeiro de 1891, foram criados os conselhos municipais e os cargos de intendente e vice-intendente em todos os municípios.

A Constituição votada pelos deputados e promulgada a 13 de junho de 1892 manteve os dispositivos acima referidos, de modo que Teresina deveria escolher os seus dirigentes e os seus legisladores.

Mas antes que se verificassem eleições e a posse dos eleitos, o Conselho de Intendência tomou interessante deliberação, determinando que os habitantes da cidade estavam obrigados, nos dias de sábado, a varrer a frente de suas casas, até o meio da rua.

Registrem-se mais os seguintes acontecimentos: instalação do 35º Batalhão de Infantaria (Exército), o batalhão querido da cidade, que lutou no sul de 1893 a 1896 e em Canudos (BA), onde, de 498 soldados, teve 338 mortos. Em janeiro de 1900 esse admirável corpo de heróis foi transferido para São Luís. No ano de 1891, o Piauí criou a sua primeira loteria (a atual apareceu no governo Chagas Rodrigues) e instalou no Tribunal de Justiça, composto de 5 membros.

A iniciativa particular foi de pouca monta em 1890: criação do Clube dos Artistas (já desaparecido) e do Instituto de Karnak, estabelecimento de ensino secundário, com internato e externato. Fundador: Gabriel Luís Ferreira. Esse órgão educacional já desapareceu.

*   *   *

O primeiro pleito para a escolha dos administradores e legisladores de Teresina se deu a 31 de outubro de 1892. Eleitos intendente e vice Manuel Raimundo da Paz e Honório Parentes, bem assim nove conselheiros municipais: Raimundo Antônio de Farias, Alfredo Gentil, João José da Cunha, Raimundo Elias, Leôncio Araújo, Jardelino Amorim, Viriato do Carmo, Francisco Rabelo e Manuel Lopes Correia Lima.


A. Tito Filho, 18/02/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

TERESINA - VISITAÇÃO

De praça rio Branco - rumorejo matutino e vespertino de morenões, louras, casadas, solteiras, intituladas, brotos, coroas e matronas circunspectas, senhores sisudos, estudantes, tipos de variegado naipe, muitos machos no exercício da paqueração - daí o sujeito pode indagar e orientar-se no rumo de outro ponto de muita fofoca e aprazimento: a praça Pedro II, antiga Aquibadã, bonita como quê.

Ergue-se nesse recanto de recreio o Teatro 4 de Setembro, inaugurado quase no fim do século passado. Em 1975, ganhou fatiota nova, uma beleza de teatro, com galerias, salas de exposições - só vendo o chiquismo da mui leal casa de espetáculos, coisa que não se vê em muito derredor do Brasil. Nele Coelho Neto dançou, em 1899, e discursou para apelidar Teresina de cidade-verde.

Mais umas passadas e eis Carnaque, também Karnak, nome egípcio, antiga residência de barão e baronesa. Branquinho, harmonioso, cheio de fontes d'água, luzes, salas caprichadas, local de trabalho do governador. De noite, tudo aceso, parece casa de conto de fadas.

Ao lado de Carnaque, existe o lugar que antigamente se chamou Alto da Jurubeba, elevação em que um santo, Frei Serafim de Catânia, construiu e inaugurou, no século passado, imponente templo católico. Por trás da igreja, o avenidão espaçoso, que tem o nome do frade - espaçoso e comprido até alcançar o rio Poti. Avenidão de trânsito intenso. Pedestre nele come fogo para a travessia. Veículos feios e bonitos, de variado formato, transitam. Ciclista come praga. De noite, um quadro de tentação: as garotas apresentam-se para o amor, que começa no automóvel e se acaba nos castelos dentro das matas. Um paraíso de afeto.

Na Frei Serafim, o Palácio Arquiepiscopal, residência de três arcebispos virtuosos e trabalhadores - o inesquecível Dom Severino, o Cardeal Dom Avelar e o atual Dom José Falcão.

Por perto, a Biblioteca Cromwell Carvalho, bem organizada, bem rica de boas obras.

E acolhedores templos protestantes em vários pontos. E os pastores convocando para as belezas da Bíblia.


A. Tito Filho, 30/01/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

CAVALOS

O cavalo pertence à história social e política dos povos. Está na mitologia dos gregos e dos romanos. Os césares conquistavam terras e gentes sobre quadrúpedes de grande porte. Um deles, débil mental, nomeou a sua montaria preferida senador ou cônsul do Império. A viagem a cavalo se fazia pelos antigos em longos percursos, no lombo dos bichos, homens e mulheres. No oeste dos Estudos Unidos, nos tempos da violência, só se respeitavam cavalos e rabos-de-saia. A nossa Dora Parentes, em maravilhosos e eróticos quadros de pintura, sempre junta cavalos e filhos-de-eva, num relacionamento sexual de intenções, segundo Freud.

Na Teresina do século XIX, haviam sujeitos que alugavam cavalos para passeios na cidade. Era de ver o soçaite do tempo mostrando habilidades em cima do potro amestrado.

Em 1972 surgiu o primeiro Jóquei Clube, cujo objetivo essencial estava na corrida de cavalos. A entidade assim era dirigida: presidente, Manuel Castelo Branco. Secretário, Heráclito Sousa. Tesoureiro, Pires Gaioso. Hipódromo na Vila Santos. Primeiras disputas no Dia da Pátria. Primeiro páreo, venceu o cavalo Argus, 500 m, prêmio de 150$000 (cento e cinqüenta mil réis). Segundo páreo, cavalo Libertador, 600 m, 200$000 (duzentos mil réis). Terceiro, Fidalgo, 700 m, 300$000 de prêmio. Quarto, Mister Bris, 800 m, prêmio de 600$000 (seiscentos mil réis). Quinto páreo, Danilo, 700 m, prêmio de 500$000. Juízes de partida, Teivelino Guapindaya e Daniel Paz. juízes de arquibancada: Joel Sérvio, Martins Napoleão e Delfino Vaz. Juízes de chegada: João Martins do Rêgo e Raimundo de Arêa Leão. Diretor da casa de pules: Heráclito Sousa. Diretor do bar: Zoroastro Melo, Diretor-Geral das corridas, Manuel Castelo Branco.

Não progrediu esse primeiro prêmio cavalar. Deve ter sucedido alguma coisa que acabasse as corridas dos bons quadrúpedes na cidade de José Antônio Saraiva.

Em 1939, porém, houve quatro vibrantes páreos comemorativos do 7 de Setembro, corridas na zona da estrada de ferro. Proprietários dos corredores: Mariano Gayoso Castelo Branco (Packard), Waldir Gonçalves, que possuía dosi animais, Garapu e Dourado; Jacob Castelo Branco (Hockey), Antonino Barros (Faraó), João Clímaco d'Almeida (Cateretê). Juízes, Mariano Gayoso Castelo Branco, José Olímpio de Melo e João Clímaco d'Almeida.

Parece que os cavalos não davam no couro. Cansavam depressa. Corriam debaixo de cipó.

Depois de 1950, a visão de Octávio Miranda rasgou a mata e fundou o Jóquei Clube, o segundo com este nome. Fez o hipódromo. E inaugurou as corridas de eqüinos nos dias de domingos. Animadas tardes. Mas os pangarés não agüentavam, caíam pelo meio do caminho, na pista. Os bichos não bebiam leite. Pelo menos houve a tentativa, que se teria desenvolvido, pois essa atividade desportiva pode ser muito rendável.

O Jóquei clube de Teresina tem natureza singular. O único no mundo em que não há corridas de cavalos. Vive de cachaçadas, das carnes assadas, das festanças carnavalescas nas quais impera o desnudamento quase generalizado das fêmeas bonitas.

A história do cavalo e das corridas de tal bicho em Teresina corresponde a uma das páginas significativas da vida social da cidade-capital. Outros que a pesquisem e narrem, antes que a memória das cousas seja destruída pelos ventos da ignorância generalizada.


A. Tito Filho, 08/01/1990, Jornal O Dia

sábado, 1 de outubro de 2011

FREI HELIODORO

Brevemente a Academia Piauiense de Letras estará lançando ao público piauiense a primeira biografia pormenorizada de Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, de imensos serviços prestados a Teresina. A história desse frade-santo, nascido em Inzago, na Itália, está bem contada por Frei Memória, tão amigo dos teresinenses.

O frade franciscano Heliodoro Maria de Inzago assumiu a direção da paróquia de São Benedito de Teresina por duas vezes: de 1939 a 1945 e de 1952 a 1956. Tive a satisfação de expressar os sentimentos dos teresinenses quando ele retornaria à sua distante Itália, onde morreu bem idoso e cujos ossos jazem no cemitério de Bérgamo.

Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, viveu em doação aos humildes, aos pequenos, aos sofredores. Socorria os miseráveis e confrontava os enfermos. Instituiu a distribuição semanal de comida aos famintos. Sentia as desigualdades nas mesmas criaturas de Deus, enquanto aos poucos praticavam estrionices, no mau uso dos dinheiros mal ganhos, e dissipavam lucros fabulosos indiferentes aos dramas sociais de dores e sofrimentos, milhões padeciam fome, andavam maltrapilhos, moravam em tugúrios desumanos. Ao frade virtuoso cabia o apelo aos ricos para que se lembrassem dos deveres cristãos de querer bem ao próximo, e conseguia, pela graça da fé, minorar as aflições dos deserdados.

Neste livro-ensinamento, outro frade sincero e bom, dedicado e justo, Antônio Kerginaldo Furtado da Costa Memória, o popular e simpático Frei Memória, que conviveu com os teresinenses de 1979 a 1981, num estilo agradável e simples, linguagem asseada e pura, conta a vida, os esforços e relembra os sentimentos magníficos de Frei Heliodoro, que mais do que ninguém ensinou humildade aos homens. No trabalho que ora se lê, existem as lições e os exemplos de fé, como se fossem uma ajuda à educação para a vida.


A. Tito Filho, 12/01/1990, Jornal O Dia

TERESINA ANTIGA

- O primeiro restaurante surgiu em 1876. Vários tipos de suculenta comida. Fornecia bóia para festas familiares.

- Ano seguinte, a grande seca de 77 povoou a cidade de cearenses sofredores. Assistência permanente.

- A primeira escola noturna se criou em 1880, ano em que se introduziu a loteria federal.

- Estendeu-se a iluminação pública  toda a cidade em 1822. Oitenta lampiões de querosene, em postes de madeira. Registraram-se ainda as primeiras observações meteorológicas, com estes resultados: temperatura máxima, 30; mínima, 25,80; média 28,50.

- Grandes festas cívicas com a chegada do telégrafo. Era o ano de 1884.

- Dois acontecimentos de 1886. Sagração da igreja de São Benedito, no Alto da Jurubeba, construída por Frei Serafim. E fundação da Botica do Povo, popular estabelecimento do farmacêutico José Pereira Lopes.

- Grandes festas populares comemorativas da libertação dos escravos em 1888.

- Chegou ao conhecimento do povo a notícia da proclamação da República, 1889. Houve delirantes manifestações populares pelas ruas, no dia seguinte, 16 de novembro. Neste mesmo ano instalou-se o serviço de recolhimento do lixo, em carroças puxadas por bovinos.

- A fábrica de Fiação e Tecidos Piauiense foi inaugurada em solenidade do ano de 1890.

- Em 1891 instalou-se o Tribunal de Justiça do Piauí, composto de cinco desembargadores.

- A Junta Comercial do Piauí teve criação em 1892.

- Em 1894, inaugurou-se o Teatro de 4 de Setembro, cujas obras se iniciaram em 1889.

- Instituído o registro de nascimento e óbito em 1897.

- Coelho Neto, em 1899, dá a Teresina a denominação de Cidade Verde.

- Registrem-se ainda os seguintes acontecimentos interessantes: o primeiro clube teatral (Clube Gramático, 1893). Fundado o primeiro clube social (Clube Dançante Piauiense, 1897). A primeira entidade esportiva, o Esporte Clube, surgiu em 1899.


A. Tito Filho, 25/01/1990, Jornal O Dia

INTEGRAÇÃO CULTURAL

Em 1910, a praça Uruguaiana, hoje Rio Branco, viveu dia de festa, com inauguração do seu ajardinamento, obra do intendente José Pires Rebelo. Dois anos depois, o logradouro recebia luz elétrica, e se tornava o local das retretas inesquecíveis, dos passeios de moças e rapazes, em noites que não voltam mais. Manhãs tardes, o centro comercial da cidade. Era a praça preferida de todos. Com o correr dos anos, nela havia o principal cinema, o "Olímpia", e o Bar Carvalho, reunião do soçaite da época para sorvetes e chocolates, depois das diversões noturnas. 

* * *

Na praça Pedro II, antiga Aquidabã, estava o imponente Theatro 4 de Setembro que apresentava companhias de fora e artistas da terra, inclusive de famílias conceituadas em festas de caridade. Nessa tradicional casa de diversões se realizavam bailes, banquetes, declamações, solenidades cívicas, conferências literárias. Em 1933, o Teatro inaugurava o cinema falado.

Em 1936, o prefeito Lindolfo Monteiro inaugurou a remodelação da praça. Roupagem nova. Bonita e faceira. Cheia de luzes e de plantas. Coreto e fonte luminosa. Deslocou-se a freqüência da Rio Branco para o novo bem-querer do teresinense. Surgiram nela bares e sorveterias. Nas proximidades, estava o Clube dos Diários, que desde 1922 atraia o teresinense para as suas bonitas reuniões dançantes.

* * *

No fim da década de 60 o clube entrou em declínio. Tornou-se decadente. Novos tempos. Outros bairros e novas entidades recreativas. Em 1974-1975, reformaram-se o Teatro e a praça Pedro II, - um e outra já desprezados pelo povo educado. Com o correr dos dias, a praça Pedro II transformou-se em condenável concentração de gays e sapatões, viciados em drogas, marginais. Botecos funcionam até de manhã.

* * *

Suzana Silva, secretária da Cultura, pretende recuperar toda a área da praça, incluindo o Clube dos Diários, em que funciona agora jogatina permanente e convivem mulheres de livre e raparigas velhas surradas. Ambiente de menores vadios, de perdição e luxúria.

Seria um grande serviço à cidade a recuperação da praça, do centro de artesanato, do Teatro, do Clube. Criar-se-iam escolas de dança, de artes plásticas, de música, cinema e teatro, galeria de artes, oficinas, lojas, - tudo sobre a responsabilidade de uma Associação de amigos do Centro integrado de Cultura do Piauí.

Grande idéia, merecedora do mais completo apoio daqueles que devotam amor a esta cidade querida.


A. Tito Filho, 06/03/1990, Jornal O Dia 

TERESINA

Teresina foi a primeira cidade do Brasil construída em traçado geométrico, no chão da mata derrubada. As casas de moradia tinham a parede da rua rente com as calçadas. Havia um corredor central, ladeando as salas e alcovas, a sala de refeição no meio, com peitoris para o saguão, e o célebre puxado de quartos, despensa, cozinha e banheiro. Esta estrutura ainda existe em muitas residências. Depois se construiriam palacetes.

Teresina não nasceu espontaneamente, mas de modo artificial, prevendo-se praças e ruas. Fizeram-se as edificações mais necessárias: mercado, cemitério, hospital, cadeia. Surgiu o jornal. Criaram-se clubes. Animada a vida teatral. Festivos carnavais. Fundaram-se clubes recreativos. Apareceram os primeiros cafés e restaurantes. Jogo de bilhar, passeio de cavalo. O costume das serenatas. Os festejos religiosos.

Ainda no alvorecer do século XX e nas proximidades de 50 anos, Teresina não tinha serviço d'água encanada nem luz elétrica: comuns os cargueiros d'água que abasteciam as residências, montados no jumento bisonho, trepado na cangalha gigante. Deliciosos tempos de Teresina doutrora. O astro era o acendedor de lampiões - candeeiros no alto dos postes, queimando querosene. Ao lado do desconforto, da poeira, das raras medidas de higiene, da tuberculose e da sífilis, do casebre de palha, a maledicência generalizada nas rodas de calçadas e nos serenos de bailes.

Nos primeiros anos do século, a água encanada. No Governo Miguel Rosa, luz elétrica, sociedades literárias animavam a cidade. Chegou a era do cinema - o mudo, depois musicado, finalmente o falado. O jardim, o jardim da Praça Rio Branco, de doce lirismo, rapazes rodando num sentido e garotas noutro para o namoro paroquiano mais gostoso, o namoro dos olhos. Chegaria a vez da Praça Pedro II. Do mesmo jeito, olhos dele grudados nos dela. Correram mais de 50 anos. Teresina crescia mas permaneciam os costumes provincianos. O bom gelado do pega-pinto, o sorvete de gelo rapado, os tipos populares, os freges de panelada, a cidade pacata, dorminhoca às 21 horas, familiarmente. Boa bolinação nos cinemas, em que as normalistas gostosas namoravam apimentadas. E os cabarés da Raimundinha Leite, da Gerusa, da Rosa do Banco, repletos de borboletas fornidas e nos quais se ombreavam desembargadores, estudantes e vareiros.

Crime só de longe em longe por motivos passionais as mais das vezes. Raros assassinatos bárbaros. Contam-se, assim, de memória, as mortes do motorista Gregório, de Lucrécio Avelino e do motorista trucidado por Catanã.

Ainda em 1952, época do primeiro centenário da cidade, Teresina padecia tristíssimas condições de conforto, em todos os sentidos. Péssimo calçamento das ruas, ausência de higiene, falta de escolas, mendicância generalizada. Chegaria, porem, o chamado progresso físico, o asfalto, os aviões a jato, o comércio de prestações, os restaurantes sofisticados, o carro financiado, a casa do BNH, a televisão, o jornal moderno, a civilização da lancheira, o supermercado onde as matronas compram frango depenado. Nos velhos tempos as senhoras carrancudas só compravam galinhas soprando-lhes as penas e lhes apertavam o bico a ver se o gogo escorria. Os bons cabarés da Paissandú desapareceram, substituídos por motéis e gramas de praças para o amor.

De trinta anos para cá a cidade mudou muito. Desespiritualizou-se. Tem no dinheiro o status e o conforto material repousa em dívida. Vigora o cheque sem fundo. Por onde anda o pega-pinto que ajudava a fazer pipi? Teresina possui contrastes aviltantes. Jóquei e Itararé. Mansão e casebre. Morreram hábitos. Surgiu Universidade e hoje se fabricam doutores para o desemprego.

Garotas ricas se desnudam ao lado das ruas que não têm com que cobrir as suas vergonhas.

Mas Teresina reencontrará o bom caminho. Cada dia fica mais bonita em graças construídas pelas mãos do homem. Os seus intendentes e prefeitos cada qual tem melhorado, dentro das suas possiblidades, os aspectos da criatura de José Antonio Saraiva.

É necessário lutar pela humanização da cidade. Fazer que ela retorne à vida espiritual de antigamente. Enquanto a gente pensar assim, Teresina será sempre um instante de beleza no coração dos que amam.


A. Tito Filho, 12/09/1990, Jornal O Dia

OBSERVAÇÕES

Dizem que Juscelino realizou a revolução industrial brasileira. Implantou fábricas de automóveis e eletrodomésticos. Maravilhosa sabedoria. O bom Brasil largou o campo, a produção agrícola, e correu para as cidades grandes dos automóveis, das enceradeiras, das máquinas de lavar roupa. As exportações milionárias de carne desapareceram. Só são Paulo e o sul permaneceram fiéis à produção agrícola, embora não recusassem a industrialização. E cada dia o Brasil fica pior, com a infernal máquina publicitária em busca de mercado para tudo o que os norte-americanos emprestam às fórmulas de fabricação, cobrando roáltis absurdos. O Brasil, é bom de ver, faz parte do quintal da América Latina.

X   X   X

A Prainha foi lugar dos mais aprazíveis de Teresina. Tinha uma finalidade social: o lazer, sobretudo o dominical. Dava gosto freqüentá-lo. Não durou muito tempo o seu ambiente cordial e amigo. Invadiram-se mariposas e horizontais de todo tipo. Firmou-se como ambiente de demoradas cachaçadas. Tornou-se assim local de violência e de mortes estúpidas. Assim vai ser Poticabana, foco de drogas, de viciados, de revólveres. Quem viver verá.

Que é do clube dos Diários? A Polícia de Teresina deveria ter ao menos compostura. Meses atrás, ainda se podia tomar uma cerveja em sossego nessa outrora casa de beleza espiritual. O próprio jogo, nos porões, tinha a freqüência de pessoas ilustres e dignas, que procuravam um pouco de diversão noturna. A jogatina agora está explorada por mulheres de vida livre, raparigas velhas surradas que passam a noite de olhos abertos em companhia de indivíduos desconhecidos, gente agressiva e deseducada, com exceções algumas. Ambiente de perdição e luxúria, no centro da cidade de Teresina.

X   X   X

Não haverá inverno. Os sábios já declararam anos de invernos fracos neste miserável Nordeste brasileiro. Descansará o povo do Poti Velho, livre das enchentes enormes de derribar choupanas. O pessoal um dia criará juízo. José Antônio Saraiva, baiano inteligente, recusou o local para a construção de Teresina justamente por motivo das fortes invernadas, alagações e outros tormentos. Mas o povo não arredou pé de lá até hoje. Viva a burrice.


A. Tito Filho, 07/02/1990, Jornal O Dia

TERESINANDO

Pode-se tomar outros rumos, para mudanças da paisagem. O importante está em ver o que Teresina tem na sua simplicidade faceira. Voltando-se ao rio Parnaíba - a ponte ferroviária João Luís Ferreira, grande obra de engenharia, iniciada na década de 20 e concluída no primeiro governo Vargas.

Rumo norte da cidade, a gente indaga, pois quem tem boca vai a Roma - e encontra o circunspecto Instituto de Educação Antonino Freire, bem defronte o cemitério de São José, este dez anos mais novo do que Teresina, depois ampliado. Mais ao longe o aeroporto, alegre e festivo. Um encanto para visitação. Adiante, alguns quilômetros de asfalto, num percurso pintado de casinhas humildes, está o bairro do Poti Velho, antiga Vila do Poti, onde Saraiva pensou em construir Teresina, mas desistiu, fazendo-a no lugar da igreja do Amparo - o primeiro templo católico da cidade, inaugurado no natal de 1852.

No bairro do Poti Velho, o rio Poti despeja águas no Parnaíba. O Poti de boa pescaria.

Não se deixe de conhecer o Sanatório Meduna - obra de devotamento e de tenacidade do médico Clidenor Freitas Santos, que abriu novos horizontes de cura e de humanidade para os perturbados mentais. Integra 25 anos de serviços em 1977.

A nova penitenciária deve ser louvada, e louvados muitos que fizeram força para conquistá-la do Papai Grande Federal - entre tantos, em dois governos, Raimundo Marques e Sebastião Leal.

Com a ajuda do próximo, chega-se a igreja das Dores, na praça Saraiva - templo católico que serve de catedral. E vai-se ao bairro Vermelha para conhecer a arte do mestre Dezinho e de Afrânio Castelo Branco, na igreja de Nossa Senhora de Lourdes. Prossegue-se até a ponte Antônio Noronha, sobre o Parnaíba, ligadora de Teresina a Timon e Caxias, já no Estado vizinho do maranhão. Nesse trecho da cidade, de imensas áreas, se encontra o magnífico estádio Albertão, de futebol, natural e principalmente de futebol - local em que se pode urrar, e xingar juiz, que nada acontece.

Noutro ponto da capital piauiense, ergue-se o majestoso Palácio da Justiça, em cujas vizinhanças se construiu o Centro de Convenções: auditório de 680 lugares, cabine para traduções simultâneas em cinco línguas, serviço cinematográfico, bares, sala de imprensa, lanchonete, restaurante público.


A. Tito Filho, 31/01/1990, Jornal O Dia

sábado, 6 de agosto de 2011

CRÔNICA DA CIDADE AMADA

Dia 5 de setembro de 1850. Era de noite, quando José Antônio Saraiva chegou a Oeiras, a velha Mocha – capital do Piauí, o antigo São José do Piauí, nome com que o primeiro governante da capitania, José Pereira Caldas, homenageou o rei Dom José, de Portugal. A 7, consagrado a Independência do Brasil, o baiano assumiu a presidência da província.

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Na confluência dos rios Poti e Parnaíba, estava a Vila do Poti, que o presidente visitou ainda nesse recuado 1850. Saraiva não gostou do lugarejo, sujeito a períodos inundações, atacado de paludismo. Achou conveniente edificar a cidade noutro lugar, uma légua acima, entre os citados rios. Fixou-se no local Chapada do Corisco, antiga fazenda de criação de gado, de muitas trovoadas e faíscas elétricas na estação chuvosa. Ainda hoje trovões de papouco e raios atormentam a população teresinense. E foi aí na Chapada do Corisco que nasceu a Vila Nova do Poti.

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A 25 de dezembro de 1850, deu-se o lançamento da pedra fundamental da igreja de Nossa Senhora do Amparo. Mestre das obras: João Isidoro da Silva França. Antes de iniciar o edifício, construiu ele espaçosa casa de palha para se arranchar e por trás dela mais duas – uma como quartel dos soldados, e outra que servisse de abrigo dos escravos. No dia festivo celebrou-se missa na improvisada residência do construtor e houve comes e bebes, o primeiro banquete na futura capital do Piauí. Tocou-se muito foguete. Ao cabo de contas ai nascer uma cidade, sob os auspícios da bravura e da religião. As mulheres importantes tiraram dos baús os vestidos bonitões e se enfeitaram de jóias caras. Outro braço forte de Saraiva se chamou Manuel Domingues.

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A 20 de outubro de 1851, transferiu-se a Vila do Poti para Vila Nova do Poti, mas o povo, bem justiceiro, não deixou que a comunidade morresse, e passou a denominá-la de Poti Velho, ainda agora do mesmo jeito, pobre, casinhas modestas, povo sofrido e bom – o Poti Velho de permanente simpatia, cheiroso a peixe. Com os anos, tornar-se-ia subúrbio de Teresina.


A. Tito Filho, 22/01/1990, Jornal O Dia

TERESINA NA DISTÂNCIA

- Em 1904, o denodado Antonino Freire iniciava a construção do serviço de abastecimento d’água, concluído em 1906. Antes, as casas residenciais compravam o produto, servido em ancoretas que jumentos lerdos transportavam da beira dos rios. 

- De 1906 data a chegada do primeiro bispo do Piauí, dom Joaquim de Almeida. Muita vibração popular. Nesse ano se criava o Asilo dos Alienados. Doidos acorrentados. Quando dirigiu o estabelecimento, Clidenor Freitas aboliu o perverso uso das correntes. Esse antigo estabelecimento de fracos de juízo ostenta hoje o nome do criador: Hospital Psiquiátrico Areolino de Abreu.

- A venda de gelo começou em 1907, parece que de iniciativa de Joaquim Nelson de Carvalho.

- A Escola de Aprendizes Artísticos, depois Escola Industrial de Teresina surgiu em 1910, Governo Nilo Peçanha. Agora se chama Escola Técnica Federal.

- A Imprensa Oficial, núcleo da atual Companhia Editora do Piauí, data de 1911.

- A primeira Escola Normal nasceu no século passado. Viveu pouco. A segunda se criou em 1910. A terceira, oficial, em 1915, que se transformou no Instituto de Educação Antonino Freire.

- Instalou-se em 1916 o jogo do bicho. Loteria dos pobres.

- Dois acontecimentos culturais em 1917 e 1918, respectivamente: a Academia Piauiense de Letras e o Instituto Histórico Piauiense.

- O 25º Batalhão de Caçadores surgiu em 1918. E o Banco do Estado começou a operar em 1921.

- O Clube dos Diários, o Centro diversional por excelência, instituiu-se em 1922. Faz pena nos dias que correm. Sujo, imundo. Jogatina nos porões a noite toda, de mistura com mulheres da Vida fácil, uma consentida imoralidade pública.

- O Flamengo nasceu em 1931. Os primeiros aviões pousaram no ano de 1933. Inaugurou-se a ponte metálica sobre o Parnaíba em 1933. Nos anos seguintes se criavam o hospital Getúlio Vargas (1941), a Legião Brasileira de Assistência (1942), o Corpo de Bombeiros (1944), os primeiros sinais luminosos (1952), a primeira ponte de concreto sobre o Poti (1957), o 2º BEC (1958), a Centrais Elétricas do Piauí (1962), Águas e Esgotos do Piauí (1964) e em 1967 a Faculdade de Medicina.


A. Tito Filho, 26/01/1990, Jornal O Dia

THE END

Quando os filmes norte-americanos chegam ao final, na tela aparece: THE END, o fim, a história terminou. Este último carnaval revelou que a bonita trajetória desses folguedos, desde o velhíssimo entrudo (1), atingiu o capítulo final, pois nas atuais circunstâncias a gente pode ver e observar cenários diversos, menos os que se harmonizem com aqueles dos festejos momescos que se verificavam até os anos sessenta, de músicas inesquecíveis, bailes maravilhosos, corso, batalhas de confete, de serpentina e de lança-perfume. O Rio de Janeiro oferecias as escolas de samba, na melhor criatividade do carioca, e os foliões de rua, originais e plenos de bom humor. Tudo espontâneo, originário do povo, já agora, neste martirizante fim de século, anulado e desprezado. 

Que se observa nestes novos tempos? O carnaval comercializado, para atrair turistas endinheirados, que gastam e esbanjem, embora sufoquem a alma popular. As escolas de samba, no Rio, gastam milhões, endinheirando mais ainda os empresários do luxo desmedido, num país de famintos e miseráveis. Carnaval oficial em que se gastam milhões dos cofres da nação. E os bailes? Terça-feira, a partir das 23 horas, duas televisões repetiam as imagens das danças em dois clubes: o Monte Líbano e o Scala, ambos do Rio. Que se viu? O desfile de mulheres nuas, em requebros bestialógicos, pelo meio do salão, justamente porque lhes faltam homem para o recato das alcovas. Na outra festança, a do Scala, uma concentração formidável de gueis, ou veados de ricas fantasias. Mau gosto para todos os cantos, as bichas peitudas, bundudas, à custa de hormônios, mostrando os ditos e as ditas, em rebolados e trejeitos, sempre entrevistadas por artista célebre, a Monique Evans, que deles debochava a mais poder. Manhãzinha de 4ª feira, o espetáculo de Sodoma e Gomorra ainda estava nas telas das televisões que pertencem ao governo. O Brasil está podre.

Em Teresina? Uns quatro bloquinhos na Frei Serafim, inexpressivos, sem graça. Clubes desanimados. 

No Recife, o frevo e muita cachaça. Na Bahia, os trios elétricos, custeados pelos dinheiros públicos. 

Querem mais? Basta que se oficialize a cultura. 


A. Tito Filho, 02/03/1990, Jornal O Dia