Quer ler este texto em PDF?

Mostrando postagens com marcador história do Piauí. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador história do Piauí. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

JOVITA

Jovita Alves Feitosa, cearense de nascimento, vivia em Jaicós (PI). Tinha 17 anos quando se apresentou em Teresina, como voluntária para a guerra do Paraguai. Seguiu da capital do Piauí para o Rio em 1865. Multidão aclamou-se em São Luís. À noite, homenagem no teatro e aí coberta de flores. No Recife, a recepção esteve mais intensa. Na Bahia, a mesma cousa. Hospedou-se no palácio da presidência da província. No Rio, recebida com muitas festas. Mas o governo não permitiu a sua ida para o teatro da guerra, como militar. Voltou ao Piauí. Mal recebida pela família em Jaicós, regressou ao Rio. Iniciou relações com o engenheiro Guilherme Noot, que teve de retornar à Inglaterra, deixando-lhe bilhete de despedida. Jovita procurou a residência do amante e lá soube que era verdadeira a viagem para a Inglaterra. Foi ter ao quarto em que ele residiu. Horas depois, a empregada da casa encontrou-a na cama, deitada, com a mão sobre o coração, no qual havia cravado um punhal até o cabo.

A peça teatral "Jovita ou a heroína de 1865" foi concebida em três atos: o 1º, de cenário em Jaicós-PI, publicou-se com o título original de "Pelo amor e pela pátria"; o 2º, e o 3º tiveram os títulos de "Aos braços de Henrique ou aos braços da morte" (cenário em Teresina) e "Saiba morrer a que viver não soube" (cenário do Rio de Janeiro), respectivamente.

O drama histórico de Jônatas Batista encenou-se no Teatro 4 de Setembro, da capital piauiense, a 19.04.1914, nos seus três atos. Papel principal: artista Nena Pimentel, que representou Jovita. O autor fez as vezes de Anacleto Ferreira.

Infelizmente se perderam os dois atos complementares da peça, baseados na vida dessa cearense dos Inhamuns, que, aos 16 anos, passou a viver na vila de Jaicós, com um tio de nome Rogério. Pretendia estudar música. Arrebentando a guerra do Paraguai, a jovem vestiu roupa de homem, cortou os cabelos, cobriu a cabeça de chapéu de couro, e viajou sozinha para a Teresina. Na capital, procurou as autoridades. Queria alistar-se como voluntária da pátria, e seguiu com o segundo corpo de voluntários com destino ao Rio de Janeiro.

*   *   *

Ilustrados historiadores se preocuparam com a história de Jovita Alves Feitosa, da forma que fizeram o pernambucano Pereira da Costa e os piauienses Fernando Lopes e Silva Sobrinho, padre Joaquim Chaves e Humberto Soares Guimarães, para citar alguns.

Delci Maria Tito, faz algum tempo, vem pesquisando dados sobre mulheres que se tornaram notáveis em atividades políticas, educacionais, religiosas, assistenciais, literárias, ou que participaram de episódios históricos do Piauí. Trata-se de trabalho original, que ela pretende realizar com os dados biográficos e a obra fundamental prestada à sociedade a que cada uma dedicou esforços constantes, iniciando-se com Jovita Alves Feitosa, originária dos Feitosas do Ceará, a valente taba dos Feitosas, de que se têm ocupado escritores como Gustavo Barroso.

Teresina viveu noites animadas, mais de uma vez, no Teatro 4 de Setembro lotado, nas apresentações da peça histórica sobre o drama dessa infeliz sertaneja, de autoria de Jônatas Batista, de grande e merecida popularidade na época em que foi o principal animador, ao lado de Pedro Silva da vida teatral teresinense.


A. Tito Filho, 29/12/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

TRAGÉDIA

Era um sábado, dia 13 de julho de 1957. Manhã e tarde tranqüilas nesta Chapada do Corisco. Pouco movimento de carro, pois havia poucos carros. Ainda estava distante o sistema de financiamento, para liquidar mais ainda a depauperada classe média. Bares e botecos, como de costume, com os seus costumeiros fregueses de cerveja e aperitivos. Adolescentes e moço em férias escolares. Os namorados já se preparavam para as sessões cinematográficas no  4 de Setembro e no Rex. Nada perturbava a calmíssima Teresina de vinte anos atrás. O sol já tinha morrido, quando chegou a notícia da tragédia espantosa, pavoroso choque de veículos na estrada de Altos na distância de trinta e seis quilômetros desta capital. Comentava-se que mais de vinte morreram no local e era impressionante o número de feridos. Pouco tempo depois, o Hospital Getúlio Vargas se transformava numa hospedaria de dor e de angústia, de lágrimas e de desespero. A multidão ali estava aturdida, emocionada, comovida, comungando do sofrimento das vítimas e seus familiares.

As notícias começaram a chegar. O ônibus MARIMBÁ, de propriedade de Joca Lopes (João de Deus Lopes), vinha de Parnaíba. Viagem normal. Depois de Altos, uns cinco ou seis quilômetros de Teresina, houve o choque formidável com um caminhão Ford, carregado de carvão e madeira, de propriedade de José Candido Porto - e o local se transformou em cenário dantesco. mais de duas dezenas de mortes, cerca de vinte feridos. A tragédia enlutara muitas famílias de Teresina, de cidades interioranas e ainda de outras cidades brasileiras.

A estrada de Teresina a Altos não era asfaltada, como hoje, mas de piçarra. Tempo de verão, os carros em trânsito produziam nuvens de poeira avermelhada, que não permitia visibilidade aos motoristas que viajavam no mesmo sentido. O pó cobria tudo.

Daqui para Altos seguiam dois veículos. Pequena a distância entre os dois. Natural que o chofer do carro de trás, para se ver livre da terrível poeira, procurasse ultrapassar o carro da frente. Muitas vezes o motorista do que ia na frente tudo fazia para que o colega não conseguisse cortar a proa, como se diz, justamente em situação desvantajosa, passando a vítima do pó infernal.

Essa estrada de Teresina a Altos era um tanto estreita. Os dois carros prosseguiam. O da frente desviou-se um pouco para a direita. Era natural. Em sentido contrário vinha o MARIMBÁ. E o motorista do veículo que ia para Altos deu com o carro para a direita, possibilitando, assim, a passagem tranqüila do ônibus. Mas o motorista do caminhão de madeira, que ia recebendo a importuna poeira do outro, entendeu que o colega estava abrindo terreno para a ultrapassagem. E sem visibilidade, meteu o caminhão pela esquerda, no justo momento em que o MARIMBÁ emparelhava com o primeiro. Impossível evitar a tragédia assombrosa.

*   *   *

Uma novela das mais impressionantes, de Salomão Chaib, médico piauiense residente em São Paulo, recebeu o nome de UM DRAMA DE CONSCIÊNCIA e será apresentado ao público no fim deste mês de maio pela Academia Piauiense de Letras.

*   *    *

A Academia Piauiense de Letras está preparando a edição de novo romance do notável José Expedito Rêgo, A MALHADINHA, baseado em história real de fazenda de criar, no interior de Oeiras.


A. Tito Filho, 15/05/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

EPISÓDIOS

- Era 5 de setembro de 1850. De noite José Antônio Saraiva chegou a Oeiras, a velha Mocha, capital do Piauí, o antigo São José do Piauí, nome que o primeiro governador da capitania, João Pereira Caldas, botou em homenagem ao rei dom José de Portugal.

- A 18 de novembro de 1850 Saraiva visitou a Vila do Poti, sujeita a febres e a enchentes do rio no tempo do inverno.

- A 25 de dezembro de 1850, pedra fundamental da igreja do Amparo, na Chapada do Corisco, local de Teresina. Missa celebrada pelo vigário Mamede Antônio de Lima.

- A 20 de outubro de 1851, transferiu-se a sede da Vila Nova do Poti, hoje Poti Velho, para a Vila Nova do Poti, na Chapada do Corisco.

- A 21 de julho de 1852, a lei 315 eleva a Vila Nova do Poti à categoria de cidade e capital do Piauí, com o nome de Teresina.

- A 25 de dezembro de 1852 inaugurou-se a igreja do Amparo.

- Em 1853, circulou "A Ordem", primeiro jornal de Teresina. No ano seguinte inaugurava-se o Hospital de Caridade. A cidade tinha uns doze mil habitantes.

- O primeiro teatro, o Santa Teresa, apareceu em 1858, ano em que se criou também a Companhia de Navegação do Rio Parnaíba.

- Dois grandes acontecimentos em 1859: a chegada do primeiro barco de vapor, chamado "Uruçuí", e a primeira visita pastoral, a do bispo Manuel Joaquim da Silveira, vindo de são Luís. Grandes recepções populares.

- Parece que a cidade conheceu fotógrafo em 1860. Também em 1860, a cidade ganhava um novo hospital, a Santa Casa de misericórdia, que prestou serviços até a conquista do Hospital Getúlio Vargas.

- Construiu-se o cemitério da cidade. Era 1862.

- Em 1866, Teresina ganhava nova cadeia, construída no lugar da anterior, arruinada. Demolida em 1978, no governo Dirceu Arcoverde.

- Teresina conheceu a primeira iluminação pública em 1866. A querosene, somente na praça da Constituição, que atualmente se chama Marechal Deodoro. Concluíram-se também as obras do mercado no mesmo logradouro público.

- Em 1867, inaugurava-se a igreja de N. S. das Dores.

- A primeira biblioteca pública de Teresina criou-se em 1974.


A. Tito Filho, 24/01/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A OUTRA TRAGÉDIA

Naquele tempo eu dirigia o velho e querido Liceu Piauiense, hoje Colégio Estadual Zacarias de Góis. Tempo das férias de julho, o descanso necessário e benfazejo depois das árduas atividades do magistério. Tomei o DC-3 da Cruzeiro do Sul, de duas hélices, que saia de Teresina manhãzinha ainda e pousava no Aeroporto Santos Dumont, do Rio, pelas 5 ou 6 horas da tarde. Viagem chata, enfadonha, por Bom Jesus da Lapa e Salvador, na Bahia, Montes Claros, em minas, Vitória do Espírito Santo. Uns cinco dias depois, correndo a longa Via Dutra, asfaltada, a estrada mais famosa do Brasil nesses tempos de calmaria republicana. No dia seguinte ao da chegada à capital paulista, num dos jornais encontrei a notícia dramática, a do choque de veículos na estrada Teresina-Altos, com a morte de muita gente.

Quando regressei a esta cidade do meu xodó, conheci os pormenores da tragédia que me foi contada pelo saudoso amigo José Vieira Chaves.

Era um sábado, dia 13 de julho de 1957. Manhã e tarde tranqüilas nesta Chapada do Corisco. Pouco movimento de carro, pois havia poucos carros. Ainda estava distante o sistema de financiamento, para liquidar mais ainda a depauperada classe média. Bares e botecos, como de costume, com os seus costumeiros fregueses de cerveja e aperitivos. Adolescentes e moços em férias escolares. Os namorados já se preparavam para as sessões cinematográficas no 4 de Setembro e no Rex. Nada perturbava a calmíssima Teresina de trinta anos atrás. O sol já tinha morrido, quando chegou a notícia da tragédia espantosa: pavoroso choque de veículos na estrada de Altos, na distância de trinta e seis quilômetros desta capital. Comentava-se que mais de vinte morreram no local e era impressionante o número de feridos. Pouco tempo depois, o Hospital Getúlio Vargas se transformava numa hospedaria de dores e de angústias, de lágrimas e de desespero. A multidão ali estava, aturdida, emocionada, comovida, comungando o sofrimento das vítimas e seus familiares.

As notícias começaram a chegar. O ônibus MARIMBÁ, de propriedade de Joca Lopes (João de Deus Lopes), vinha de Parnaíba. Viagem normal. Depois de Altos, uns cinco ou seis quilômetros da cidade, no rumo de Teresina, houve o choque formidável com um caminhão Ford, carregado de carvão e madeira, de propriedade de José Cândido Porto - e o local se transformou em cenário dantesco. Mais de duas dezenas de mortos, uns vinte feridos. A tragédia enlutaria muitas famílias, de Teresina, de cidades interioranas e ainda de outras cidades brasileiras.

A estrada de Teresina a Altos não era asfaltada, como hoje, mas de piçarra.

Tempo de verão, os carros em trânsito produziam nuvens de poeira avermelhada, que não permitiam visibilidade aos motoristas que viajavam no mesmo sentido. O pó cobria tudo.

Daqui para Altos seguiam dois veículos. Pequena a distância entre os dois.

Natural que o chofer do carro de trás, para se ver livre da terrível poeira, procurasse ultrapassar o carro da frente. Muitas vezes o motorista do que ia na frente tudo fazia para que o colega não conseguisse cortar a proa, como se diz, justamente com a finalidade de não ficar em situação desvantajosa, passando a vítima do pó infernal.

Essa estrada de Teresina a Altos era um tanto estreita. Os dois carros prosseguiam. O da frente desviou-se um pouco para a direita. Era natural. Em sentido contrário vinha o MARIMBÁ. E o motorista do veículo que ia para Altos deu com o carro para a direita, possibilitando, assim, a passagem tranqüila do ônibus. Mas o motorista do caminhão de madeira, que ia recebendo a importuna poeira do outro, entendeu que o colega estava abrindo terreno para a ultrapassagem. E, sem visibilidade, meteu o caminhão pela esquerda, no justo momento em que o MARIMBÁ emparelhava com o primeiro. Impossível evitar a tragédia assombrosa.

No choque faleceram 22 pessoas. Mais quatro se despediram da vida depois de hospitalizados no Getulio Vargas.

A 4 de setembro de 1958, as mesmas causas provocaram o pavoroso desastre que matou Demerval Lobão Veras e Marcos Santos Parente, candidatos a governador e senador, respectivamente, além de outras personalidades.

O homem criou a máquina. A máquina destrói o homem.


A. Tito Filho, 15/07/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

MEU BOM AMIGO

Quem assina este artigozinho não era nem nascido quando se instalou em Teresina a primeira instituição de crédito, justamente o famoso Banco do Brasil, de empréstimos só para ricos e bem providos de avalistas seguros.

Na década de 1950, ingressei no magistério. Aulas no Colégio Estadual do Piauí, na Escola Normal, no Colégio São Francisco Sales e noutros educandários. Iniciava o trabalho às 7 da manhã, às 13 da tarde e às 18:30, boca da noite. Não me passava pela cabeça possuir automóvel. Ministrava quinze aulas por dia, correndo de um colégio para outro. Os professores ganhavam vencimentos de miséria, nos estabelecimentos oficiais como nos particulares. Por cima de tudo, os proprietários de casa de ensino e o governo efetuavam a paga do labor mensal sempre com atraso. Nem equilibrista de circo conseguia sustentar família por processos tão angustiosos. Os mestres recorriam a agiotas a fim de que vencessem dificuldades e aperturas. Os usuários concediam empréstimos na base de 10, 15 e 20 por cento, exploradores gananciosos, que enricavam depressa na exploração da miséria alheia. Dia de vencimento do vale, chamado de papagaio, o perverso judeu aparecia em busca dos juros para a concessão da nova esfola. Como outros colegas, cheguei a dever a três ou quatro desses sugadores da economia popular ao mesmo tempo. Busquei soluções e me informaram que o Banco Comercial e Agrícola do Piauí poderia salvar-me as finanças. Procurei o estabelecimento, num prédio modesto da rua Barroso, mais ou menos no meio do quarteirão iniciado hoje pela Câmara Municipal. Encontrei facilidade para conseguir cinco mil cruzeiros, desde que meu pai avalizasse o negócio. E assim se fez. Juros baixíssimos. Na época do pagamento, a bondade paterna fez a liquidação da dívida, sem contribuição minha de qualquer natureza.

Melhorei de vida com o correr dos anos. Surgiram oportunidades de outros empregos. Consegui consultoria jurídica na antiga Comissão de Abastecimento e Preços do Piauí. Quando necessitei outra vez do banco, já se havia transformado o conhecido Banco do Estado do Piauí, o BEP, em cujas salas ganhei alegrias e dissabores. Às vezes os empréstimos me eram creditados com rapidez, outras vezes a cousa enganchava. A vitória me sorria ao cabo das contas, pois uns oitenta por cento dos servidores do estabelecimento haviam sido meus alunos diletos e queridos. Alguns funcionários de mando e poder não gostavam de mim. Jornalista quase sempre de oposição a governos piauiense, natural que contra mim se manifestassem antipatias e perseguições. Cousas da vida. A política sempre se mostrou injusta e de má índole, sobremodo quando ela passa aos métodos enodoantes de politicalha. Não me abatiam as recusas. Minha persistência acabava por obter os pequenininhos empréstimos que minhas parcas rendas permitiam. No BEP, porém, estava a minha salvação. Às vezes, fui levado a declarar desaforos aos encarregados das carteiras de empréstimos e os ouvia também, com humildade. Voltava ao equilíbrio emocional e partia para novas rogativas e, ânimos serenados, os dinheirinhos ingressavam nos meus pobres bolsos.

Eu e o BEP somos um romance. Um romance de caracteres que se compreendiam, eu e o banco querido dos piauienses, uma instituição do povo, que salvava a verdureira, o professor quebrado e desenvolvia o trabalho de produção do homem.

Meu bom amigo, o BEP. Sempre meu amigo nas mais ingratas situações de quebradeira. Sem média de depósitos, sem imóveis, sem nada, quantas vezes o BEP me livrou do infortúnio do desconforto de minha família. E não acredito que o Piauí seja ingrato com uma casa miga, onde a bondade dos servidores, os grandes e os pequenos, sempre foram o recurso maior dos necessitados.

Um crime contra o povo o desaparecimento de meu bom amigo. De mim, estou de coração choroso, apertado de amargura. Que os homens tenham dignidade e restituam a vida de meu velho BEP.


A. Tito Filho, 30/07/1990, Jornal O Dia

sábado, 26 de novembro de 2011

ADMINISTRAÇÃO DE TERESINA (2)

A 26 de dezembro de 1889, Gregório Taumaturgo de Azevedo assume o cargo de governador do Piauí. No ano seguinte, 20 de janeiro de 1890, baixou ato, também assinado por Clóvis Bevilaqua, criando, em cada município, os conselhos de intendência municipal. Para os de Teresina foram nomeados os seguintes membros: João da Cruz e Santos, barão de Uruçuí (presidente), capitão Mariano Gil Castelo Branco, barão de Castelo Branco; Teodoro Alves Pacheco, Simplício Coelho de Resende, cônego Tomás de Morais Rego e capitão José Antônio de Santana, ao todo 6 conselheiros. O segundo presidente foi o barão de Castelo Branco.

O Conselho adotou iniciativa de alterar denominações de vias públicas e de administrar os cemitérios, retirando-se da Santa Casa de Misericórdia. Também houve substituição de conselheiros.

Dia de 4 de junho de 1890, Gregório Taumaturgo de Azevedo deixou o cargo de governador. A 27 de dezembro do mesmo ano, depois de outros governantes, assume a chefia do Executivo Álvaro Moreira de Barros Oliveira Lima, que decretou uma constituição para o Piauí, ad referendum do congresso constituinte, que se reuniria no ano seguinte, mês de março. Nessa Carta, de 12 de janeiro de 1891, foram criados os conselhos municipais e os cargos de intendente e vice-intendente em todos os municípios.

A Constituição votada pelos deputados e promulgada a 13 de junho de 1892 manteve os dispositivos acima referidos, de modo que Teresina deveria escolher os seus dirigentes e os seus legisladores.

Mas antes que se verificassem as eleições e a posse dos eleitos, o Conselho de Intendência tomou interessante deliberação, determinando que os habitantes da cidade estavam obrigados, nos dias de sábado, a varrer a frente de suas casas, até o meio da rua.

Registrem-se mais os seguintes acontecimentos: instalação do 35º Batalhão de Infantaria (Exército), o batalhão querido da cidade, que lutou no sul de 1893 a 1896 e em Canudos (BA), onde, de 498 soldados, teve 338 mortos. Em janeiro de 1900 esse admirável corpo de heróis foi transferido para são Luís. No ano de 1891, o Piauí criou a sua primeira loteria (a atual apareceu no governo Chagas Rodrigues) e instalou o Tribunal de Justiça, composto de 5 membros.

A iniciativa particular foi de pouca monta em 1890: criação do Clube dos Artistas (já desaparecido) e do Instituto de Karnak, estabelecimento de ensino secundário, com internato e externato. Fundador: Gabriel Luís Ferreira. Esse órgão educacional já desapareceu.

O primeiro pleito para a escolha do intendente, do vice e dos conselheiros municipais realizou-se a 31 de outubro de 1892. Foram eleitos, com o número de votos entre os parênteses: intendente, Manuel Raimundo da Paz (472), vice, Honório Parentes (473). Conselheiros: militar e proprietário Raimundo Antônio de Farias (472), farmacêutico Alfredo Gentil de Albuquerque Rosa (475), os militares e comerciantes Joaquim José da Cunha (475), Raimundo Elias de Sousa (475), Leôncio Pereira de Araújo (475), Jardelino Francisco Barbosa d'Amorim (475), Viriato Rios do Carmo (369), Francisco da Silva Rabelo (369) e Manuel Lopes Correia Lima (369), poeta e jornalista. Ao todo, 9 conselheiros.


A. Tito Filho, 27/01/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

CONSIDERAÇÕES

Criou-se a primeira Escola Normal do Piauí em 1864, no governo Franklin Américo de Meneses Dória, instalada em 1866, com 23 alunos. Destinava-se ao preparo de professores para o ensino primário. Extinta em 1867 e reaberta em 1871, anexa ao Liceu Piauiense, no Governo de Sousa Leão. Extinguiu-se outra vez em 1874, novamente reaberta no governo de Almeida e Castro, 1882. Nova extinção se deu em 1888, quando presidente da Província Raimundo José Vieira da Silva.

Em 1908, os intelectuais Antonino Freire, Matias Olímpio, Antônio da Costa Araújo Filho, Abdias Neves, Francisco de Morais Correia e Francisco Portella Parente criaram a Sociedade Auxiliadora da Instrução, com a finalidade precípua de instituir o ensino normal, com a denominação de Escola Normal Livre, cujo primeiro exame de admissão se efetuou em fevereiro de 1909. Assumindo o governo do Estado a 15-3-1910, Antonino Freire, no mesmo ano, criou, no lugar da primeira, a Escola Normal do Estado do Piauí, inaugurada no dia 15-5-1910. Faria agora 80 anos.

No século passado, a efêmera Escola Normal teve como diretores, que eu sabia, Manoel Ildefonso de Sousa Lima, Polidoro Cesar Burlamaqui e Teodoro Alves Pacheco.

A partir de 1910, dirigiram-na: Miguel de Paiva rosa (1910-1912), José Joaquim de Morais Avelino (1914), Francisco Portela Parentes (1915), Manoel Sotero Vaz da Silveira (1916-1918), João Alves dos Santos Lima (1919), João Pinheiro (1919-1922), Anísio de Brito Melo (1923-1926), Benedito Passos de Carvalho (1927-1933), Maria de Lourdes Martins do Rego Monteiro (1933-1945), Nantilde Rocha de Sá (1946), José Severino da Costa Andrade (1947-1948), Odilon Nunes (1949-1950), João Rodrigues Vieira (1951-1958), Oscar Olípio Cavalcanti (1959-1962), Afrânio Messias Alves Nunes (1962-1965), Raimundo Gonzaga de Freitas Mamede (1966-1967), Carlos Augusto Daniel (1968-1969), Maurício Camilo da Silveira (1970), Roberto Gonçalves de Freitas (1971-1975).

No período de 1971 a 1975 implantou-se o Instituto de Educação Antonino Freire, homenagem prestada à antiga Escola Normal, em 1947, no governo Rocha Furtado, quando esta passou a chamar-se Escola Normal Antonino Freire.

Nas décadas de 20, 30, 40 e 50 as normalidades eram uma festa nas ruas de Teresina. Bonitas quase todas. Farda elegante. Gestos educados. Gozavam de muito prestígio social. Os dois mais importantes cinemas de Teresina homenageavam-nas semanalmente. Aluna da Escola Normal, fardada, não pagava entrada. Marido de professora vivia quase sempre à custa da própria.

Talvez haja algum engano nos períodos dos diretores.


A. Tito Filho, 06/05/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

BAIXEZA

Faz anos acompanho a vida política piauiense. Desde os anos 47 dela participo como jornalista. Presenciei discursos ferozes nas praças públicas, em que adversários se censuravam de modo azedo e sem medidas. Por vezes se ouviam acusações de desonestidade por parte de um ou de outro dos candidatos. Assisti a duras pelejas e ouvi severos e ferinos ataques por força das paixões políticas. Rocha Furtado, Gayoso e Almendra, Pedro Freitas, Lustosa Sobrinho, Petrônio Portella, para falar de candidatos ao governo, usaram linguagem contundente nos comícios de praça pública. Mas respeitava-se a honra alheia e sobretudo a vida privada dos cidadãos. As mulheres, então, eram intocáveis, gozavam do mais amplo respeito, de quantos oradores deitavam falação nos palanques de propaganda partidária.

Em 1964, com o golpe militar derribador do presidente Goulart, suspenderam-se eleições diretas. Aos políticos se concederam apenas eleições para deputados e senadores e as do âmbito municipal. Os cargões de mordomias tinham titulares escolhidos pelos generais de plantão. A partir de 1982 deu-se o retorno à escolha direta do governador, e pelo menos no Piauí as ambições de mando promoveram as mais infames baixezas contra adversários. Inaugurou-se verdadeira linguagem mequetrefe, para gozo e alegria dos moleques de esquina, famintos de indignidades contra a honra de pessoas consideradas, até antes das candidaturas, como pessoas de inatacável compostura. Na campanha de 1986, a debocharia desconheceu  freios. Tisnava-se a personalidade das lideranças pelos meios mais nefastos. A honra alheia valia menos do que dez réis de mel coado. A praxe generalizada estava em azinhavrar mais do que tudo a pilhéria apalhaçada dos candidatos. O insulto constituía a essência da campanha. Respeitava-se, porém, a mulher-filha, a mulher-esposa, a mulher-mãe.

Conheci em Teresina um parente, primo legítimo de meu pai, chamado José Nelson de Carvalho. Caráter reto. Trabalhador. Sério e leal. Esposa de virtudes imensas. Lar cristão e sadio. Enfrentou dificuldades na vida e morreu pobre. A filha Carlota conseguiu emprego na administração do Piauí para ajudar a mãe. Conheci-a em Karnak, como recepcionista, modesta servidora, antes de casar-se com Freitas Neto.

Carlota passou a trabalhar na Universidade Federal do Piauí. Que mal há nisso? Quantos deputados estaduais, federais, senadores, políticos de diversas cores possuem esposas, sobrinhas, irmãs, cunhados e cunhadas, às vezes família completa ganhando os dinheiros da Universidade? Pois essa ilustre senhora, recentemente, foi apresentada num programa político como beneficiária de ato condenável, o de haver obtido um emprego na Universidade.

E assim se viu exposta aos apreciadores dessas explorações descabidas contra uma circunstância normalíssima na existência dos políticos piauienses.

Conheço os candidatos ao governo do Piauí. São pessoas de bem, sérias, capazes. Como todo ser humano, possuem erros, cousa naturalíssima nos que se dedicam à política e ao seu cortejo de paixões e emoções.

O triste nível dos programas gratuitos na atual campanha de governador tem a responsabilidade exclusiva do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí, constituído de homens dignos, e do Procurador da República, não menos em dignidade. O horário gratuito da justiça se destina ao debate de idéias e à apresentação de programas. Os ilustrados juízes e o vigilante procurador pensam de outro modo e o Colegiado passa a amparar e a proteger a mais grotesca e degradante campanha deseducativa de que se tem noticia. As coligações em luta chegam a contratar locutores inteligentes para o xingamento e o deboche, inclusive graciosa e educada jornalista. Sei que os referidos profissionais praticam o seu trabalho para ganho melhor, mas a justiça não devia permitir que os não candidatos se pronunciassem em lugar dos que deviam assumir as próprias responsabilidades, de peito aberto, sem subterfúgios.

Deixo sincero apelo aos 4 dignos pretendentes ao governo do Piauí, no sentido de que se  eleve o nível da campanha, pois cada qual deles tem formação espiritual para tanto.

Ou que se respeitem pelo menos as mulheres cuja dignidade moral está acima de tricas e futricas de campanhas do mais baixo teor educativo.


A. Tito Filho, 02/07/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

ADMINISTRAÇÃO DE TERESINA

A 26 de dezembro de 1889, Gregório Taumaturgo de Azevedo assume o cargo de governador do Piauí. No ano seguinte, 20 de janeiro de 1890, baixou ato, cada município, os conselhos de inteligência municipal. Para o de Teresina foram nomeados os seguintes membros: João da Cruz e Santos, barão de Uruçuí (presidente), capitão Mariano Gil Castelo Branco, barão de Castelo Branco; Teodoro Alves Pacheco, Simplício Coelho de Resende, cônego Tomás de morais Rego e capitão José Antônio de Santana, ao todo 6 conselheiros. O segundo presidente foi o barão de Castelo Branco.

O Conselho adotou iniciativa de alterar denominações de vias públicas e de administrar os cemitérios, retirando-se da Santa Casa de Misericórdia. Também houve substituição de conselheiros.

*   *   *

Dia 4 de junho de 1890, Gregório Taumaturgo de Azevedo deixou o cargo de governador. A 27 de dezembro do mesmo ano, depois de outros governantes, assume chefia do Executivo Álvaro Moreira de Barros Oliveira Lima, que decretou uma Constituição para o Piauí, ad referendum do congresso constituinte, que se reuniria no ano seguinte, mês de março. Nessa Carta, de 12 de janeiro de 1891, foram criados os conselhos municipais e os cargos de intendente e vice-intendente em todos os municípios.

A Constituição votada pelos deputados e promulgada a 13 de junho de 1892 manteve os dispositivos acima referidos, de modo que Teresina deveria escolher os seus dirigentes e os seus legisladores.

Mas antes que se verificassem eleições e a posse dos eleitos, o Conselho de Intendência tomou interessante deliberação, determinando que os habitantes da cidade estavam obrigados, nos dias de sábado, a varrer a frente de suas casas, até o meio da rua.

Registrem-se mais os seguintes acontecimentos: instalação do 35º Batalhão de Infantaria (Exército), o batalhão querido da cidade, que lutou no sul de 1893 a 1896 e em Canudos (BA), onde, de 498 soldados, teve 338 mortos. Em janeiro de 1900 esse admirável corpo de heróis foi transferido para São Luís. No ano de 1891, o Piauí criou a sua primeira loteria (a atual apareceu no governo Chagas Rodrigues) e instalou no Tribunal de Justiça, composto de 5 membros.

A iniciativa particular foi de pouca monta em 1890: criação do Clube dos Artistas (já desaparecido) e do Instituto de Karnak, estabelecimento de ensino secundário, com internato e externato. Fundador: Gabriel Luís Ferreira. Esse órgão educacional já desapareceu.

*   *   *

O primeiro pleito para a escolha dos administradores e legisladores de Teresina se deu a 31 de outubro de 1892. Eleitos intendente e vice Manuel Raimundo da Paz e Honório Parentes, bem assim nove conselheiros municipais: Raimundo Antônio de Farias, Alfredo Gentil, João José da Cunha, Raimundo Elias, Leôncio Araújo, Jardelino Amorim, Viriato do Carmo, Francisco Rabelo e Manuel Lopes Correia Lima.


A. Tito Filho, 18/02/1990, Jornal O Dia

sábado, 22 de outubro de 2011

DIA DO PIAUÍ

Em 1937, a Assembléia Legislativa converteu projeto na lei 176, instituindo 19 de outubro como Dia do Piauí, proclamada em Parnaíba em, 1822.

Pereira da Costa, na sua célebre Cronologia Histórica do Estado do Piauí, escreveu que naquela data a vila da Parnaíba levanta o grito de independência do Piauí, e aclama o príncipe D. Pedro imperador do Brasil, sob os influxos dos patriotas João Cândido de Deus e Silva, coronel Simplício Dias da Silva, capitão Domingos Dias da Silva, José Ferreira Meireles, capitão Bernardo Antônio Saraiva, o escrivão Ângelo Costa Rosal, Bernardo de Freitas Caldas e o tenente Joaquim Timóteo de Brito, entre as mais vivas e ruidosas manifestações populares.

A notícia chegou a Oeiras, sede do governo português, e logo o comandante das armas de Portugal, João José da Cunha Fidié, seguiu com a infantaria e a artilharia para sufocar o gesto cívico, mas os patriotas haviam abandonado a vila, refugiando-se no Ceará.

Monsenhor Joaquim Chaves tem a impressão de que os independentes da Parnaíba, àquela altura dos acontecimentos, ainda não sabiam bem o que queriam. O próprio Simplício Dias afirmou: "Observo no geral aplacado o fogo que motivou aquele procedimento e no particular muito arrependidos".

Aproveitando-se da ausência de Fidié e seus soldados, Manuel de Sousa Martins, futuro Visconde da Parnaíba, a 24 de janeiro de 1823, manhãzinha, proclama a independência do Piauí e Pedro imperador do Brasil, e estabelece novo governo com a destituição das autoridades portuguesas.

O professor Wilson Brandão atribui aos gestos dos parnaibanos caráter revolucionário, mas com a notícia da próxima chegada de Fidié aos chefes revoltosos, diz ele, afligem-se, apavoram-se, acordavam-se.

Espedito Resende, embaixador do Vaticano, falecido, fala, no livro "Piauí", dos dois focos revolucionários, o de Parnaíba, mais sofisticado intelectualmente e talvez admitindo a unidade de soberania, e o de Oeiras, comandado por um homem corajoso e que se apoderou de toda máquina do governo para dominar a capital.

Odilon Nunes registrou nas suas "Pesquisas" que Parnaíba admitiu unir-se a Portugal, para que se constituísse uma confederação, restaurando-se o Reino Unido. Admite, porém, que os parnaibanos abriram caminho a Oeiras.

Até 1937, os piauienses comemoravam a independência a 24 de janeiro. Em 1923, no governo João Luís Ferreira, houve uma semana de solenidades homenageadoras do 1º centenário do gesto de Manuel de Sousa Martins. E mais, em homenagem à data foi instalada, em 1918, a Academia Piauiense de Letras, e ainda hoje o brasão do Piauí ostenta a data de 24 de janeiro de 1823. Pereira da Costa escreveu que a 31.08.1859 lei provincial determina no artigo 24 que o dia 24 de janeiro, aniversário da adesão do Piauí à independência nacional, e feriado em todas as repartições provinciais.

Em Parnaíba, onde se aquartelou, Fidié teve tempo bastante para disciplinar as tropas e receber material bélico do Maranhão. Era necessário retornar a Oeiras e retornar o governo. Dia 1/3/1823, com mais de mil homens, o chefe militar português marcha no rumo de Piracuruca (PI). Deveria Fidié alcançar Campo Maior, aonde chegou a 13.03.1823, às margens do rio Jenipapo, que seria atravessado. Terreno plano. Piauienses, cearenses e maranhenses, vaqueiros e roceiros, perto de dois mil homens, comandados por Nereu, Chaves e Alecrim, ocultaram-se no leito seco do rio, entre os arbustos. Houve os primeiros choques. Grande perda de vidas entre brasileiros, armados de velhas espingardas, facões, machados e foices. Fuzilaria e canhões portugueses varriam o campo. Os nossos caíam à boca das peças. Buscavam a morte.

O combateu durou das 9 da manhã às 2 da tarde, sob sol escaldante. Houve a retirada dos vencidos, mas Fidié não teve condições de perseguir os fugitivos.

não se sabe o número de mortos portugueses, reunidos em cinco sepulturas. Fala-se em dezesseis. Sessenta feridos. Mais de quinhentos brasileiros aprisionados e mais de duzentos entre mortos e feridos.

Tornava-se necessário que Fidié ocupasse Campo Maior, mas os adversários lhe furtaram a bagagem de guerra: armas e munições. Iniciaram-se tropelias e começaram os assassinatos de portugueses. O comandante resolveu seguir para o Estanhado, hoje União, e daí para Caxias (MA), onde, cercado, resistiu, mas acabou vencido e prisioneiro.

A luta no Piauí decidiria a unidade brasileira, pois Portugal queria dois Brasis: o do Norte para ele, rico em gado, o dinheiro do tempo, e o do Sul, ainda pobre e sem condições de abastecer-se, justamente o Brasil de que os portugueses não faziam conta.

No Sul a independência valeu um grito, aplauso e festa. No Norte, fome e peste, sangue e morte. A batalha do Jenipapo foi carnificina pavorosa.

Alberto Silva, no seu primeiro governo do Piauí, fez justiça, erguendo à memória dos heróis da sangrenta luta um monumento de extraordinária beleza cívica.

Achamos que a verdadeira independência do Brasil se verificou a 13.03.1823, às margens do rio Jenipapo, perto da cidade piauiense de Campo Maior.


A. Tito Filho, 21/10/1990, Jornal O Dia

domingo, 9 de outubro de 2011

NOTINHAS

O frade franciscano Heliodoro Maria de Inzago assumiu a direção da paróquia de São Benedito de Teresina por duas vezes: de 1939 e 1945 e de 1952 a 1956. Tive a satisfação de expressar os sentimentos dos teresinenses quando ele retornaria à sua distante Itália, onde morreu bem idoso e cujos ossos jazem no cemitério de Bérgamo.

Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, viveu em doação aos humildes, aos pequenos, aos sofredores. Socorria os miseráveis e confrontava os enfermos. Instituiu a distribuição semanal de comida aos famintos. Sentia as desigualdades nas mesmas criaturas de Deus: enquanto uns poucos praticavam estroinices, no mau uso dos dinheiros mal ganhos, e dissipavam lucros fabulosos indiferentes aos dramas sociais de dores e sofrimentos, milhões padeciam fome, andavam maltrapilhos, moravam em tugúrios desumanos. Ao frade virtuoso cabia o apelo aos ricos para que se lembrassem dos deveres cristãos de querer bem ao próximo, e conseguia, pela graça da fé, minorar as aflições dos deserdados.

Num livro-ensinamento, outro frade sincero e bom, dedicado e justo, Antônio Kerginaldo Furtado da Costa Memória, o popular e simpático Frei Memória, que conviveu com os teresinenses de 1979 a 1981, num estilo agradável e simples, linguagem asseada e pura, conta a vida, os esforços e relembra os sentimentos magníficos de Frei Heliodoro, que mais do que ninguém ensinou humildade aos homens. No trabalho existem as lições e os exemplos da fé, como se fossem uma ajuda à educação para a vida. Lançamento da Academia Piauiense de Letras.

*   *   *

Sempre gostei de estórias de caçadas. Leonardo mota contava-se com modos de doutoramento no assunto. Cornélio Pires escreveu livro sem defeito na fixação de casos mineiros da arte venatória - "As Estrambólicas Aventuras de Joaquim Bentinho".

Contar acontecidos nas matas em busca de bichos supõe antes de tudo conhecimento dos segredos desse tipo de trabalho ou diversão: instrumentos, objetos, armas, rastreação, hábitos dos animais, tipos de árvores, locais de espera, ruídos, anúncios da natureza, assim como um conjunto de princípios sérios para o exercício do mister perigoso, que supre a despensa do roceiro ou provoca divertimento aos diletantes.

Nestas páginas de Heitor Castelo Branco Filho executa narração deliciosa, viva, alegre, sobre peripécias de uma caçada nas bandas do sul do Piauí. Ele e os companheiros simples e amigos realizam proezas de caçadores inveterados ou de simples comedores de caças abatidas nas matas sertanejas. Hilariantes episódios conferem mais entusiasmo à leitura que a gente faz de fio a pavio. Lançamento da APL em abril.


*   *   *

O Des. Sátiro é cearense de Tauá. Nasceu a 12 de janeiro de 1907. Filho de Jaime Martins Nogueira e Josefa Alexandrino Nogueira. Formado em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Promotor Público de Picos em 1932. Nesse mesmo ano ingressou na magistratura, tendo sido juiz em Caracol, São Raimundo Nonato, Jaicós, Picos e Teresina. Desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí. Professor Catedrático, concursado, da Universidade Federal do Piauí.

Escreve com segurança. Português castigo. Saem-lhe espontâneas as narrativas de episódios, os da infância e da adolescência, como outros conhecidos da sua vivência nos sertões onde viveu alguns anos no convívio dos seus. Notável poder descritivo, reproduz cenários servido de rara fidelidade. Estilo seco, desenfeitados, sabe o clássico na construção exemplar das expressões. Lançamento da APL.


A. Tito Filho, 30/03/1990, Jornal O Dia

domingo, 2 de outubro de 2011

O SAUDOSO BAMBA DA ZONA

Desviaram-se os concludentes da Faculdade de Direito do Recife, 1908, por causa da escolha do paraninfo - e os desavindos tiveram dois quadros de formatura. Num deles, piauienses - Simplício de Sousa Mendes, Corinto Andrade e José de Arimathéa Tito. O paraibano José Américo de Almeida participou de outro quadro.

*   *   *

Meninote, chegava eu a  Teresina no velho caminhão de Juquinha Santana, carga e passageiros juntos, ano de 1933. No pontão do rio Poti, pois não existia ponte de madeira ou de cimento, tinha-se notícia do gesto do professor Leopoldo Cunha, que atingiu com duas balas de revólver o desembargador Simplício Mendes, na praça Rio Branco. Minha meninice deu pouca importância ao caso. No ano seguinte, sob a presidência do juiz José de Arimathéa Tito, o atirador teve absolvição unânime pelo Tribunal do Júri. Advogado do réu, o próprio pai Higino Cunha, intelectual brilhante e mestre, modesto e honrado, que, lida a sentença, ajoelhou e beijou a mão do magistrado, como homenagem à justiça. Cena comovente na sala do julgamento.

*   *   *

Ano de 1938, meu pai José de Arimathéa Tito chegou ao Tribunal de Justiça, passando a compor o colegiado juntamente com Ernesto José Batista, Cristino Castelo Branco, Adalberto Correia Lima, Esmaragdo de Freitas e Sousa e Simplício de Sousa Mendes - fase áurea da corte piauiense. Disputada a vaga, não se aproveitou na lista de promoção, o juiz Eurípedes Melo, irmão do interventor federal Leônidas Melo, que se vingou de três desembargadores, aposentando-os pela violência e, com o ato, liquidando a credibilidade e o respeito do Tribunal. O castigo recaiu nos que votaram contra Eurípedes, os magistrados Esmaragdo, Simplício e Arimathéa - unidos agora numa luta sem trégua contra o autor da prepotência.

*   *   *

Em 1947, depois de cinco anos no Rio de Janeiro, regressei a Teresina, época em que comecei a aproximar-me de Simplício, jornalista de intensa atividade. Tinha ele o prestigioso apelido de bamba da zona - ou porque não rejeitasse desafio dos adversários políticos, ou porque fosse autoridade na espetacular conquista de quengas dos mais variados feitios, nas zonas respectivas da cidade, especializado na mulataria apetitosa.

*   *   *

Coma morte de meu pai, em 1963, mais me liguei a Simplício. Tornei-me auxiliar seu na Academia Piauiense de Letras, no Conselho Estadual de Cultura, na Casa Anísio Brito (biblioteca, arquivo e museu do Estado). conheci-o de perto. O mestre apreciava cousas bem feitas. Desfrutava de muito prestígio pessoal. Melhorou sempre as entidades cuja direção lhe eram confiadas. Culto. Bom amigo. Lutador sem medo. Estudioso, em "O Homem, a Sociedade, o Direito", publicado em 1934, pareceu profeta da agonia universal: "Estará, sempre, como lastro, o império das ambições desenvoltas, pelo culto de um individualismo a outrance, originando o poder incontrastável do capitalismo, a exploração do homem pelo homem e o desconhecimento ou o desprezo das mais preponderantes diretrizes da solidariedade social".

De vício, Simplício cultivava somente rabo-se-saia.

*   *   *

Aos 86 anos de idade, o notável intelectual esteve em Congresso Nacional de Conselhos de Cultura, no Rio. Na ilustre companhia de Simplício, eu e Fontes Ibiapina. Faleceria a de janeiro de 1971.

*   *   *

Lili Castelo Branco, no seu modo gostoso de contra, relembra episódios da vida de Simplício de Sousa Mendes. Uma beleza a narrativa simples e cativante reproduzida depois de ouví-la da protagonista. A escritora pôs no papel a figura do famoso jornalista e cultor da ciência jurídica, administrativa de órgãos culturais e incentivador da vida intelectual de Teresina - sem esquecer o amante incorrigível de dezenas de mulheres bonitas - donzelas, casadas, desquitadas, amarradas, viúvas, que lhe povoaram e realizaram os sonhos de noites fogosas em camas perfumadas.

*   *   *

Nunca esquecerei o velho amigo, o saudoso bamba da zona - mestre do Direito, do jornalismo, do trabalho produtivo e do ideal de paz e justiça social - e mestre de amores maravilhosos, como ele confessou e da forma que o mostra a pena inteligente e afetiva de Lili Castelo Branco.


A. Tito Filho, 01/11/1990, Jornal O Dia

sábado, 1 de outubro de 2011

FREI HELIODORO

Brevemente a Academia Piauiense de Letras estará lançando ao público piauiense a primeira biografia pormenorizada de Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, de imensos serviços prestados a Teresina. A história desse frade-santo, nascido em Inzago, na Itália, está bem contada por Frei Memória, tão amigo dos teresinenses.

O frade franciscano Heliodoro Maria de Inzago assumiu a direção da paróquia de São Benedito de Teresina por duas vezes: de 1939 a 1945 e de 1952 a 1956. Tive a satisfação de expressar os sentimentos dos teresinenses quando ele retornaria à sua distante Itália, onde morreu bem idoso e cujos ossos jazem no cemitério de Bérgamo.

Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, viveu em doação aos humildes, aos pequenos, aos sofredores. Socorria os miseráveis e confrontava os enfermos. Instituiu a distribuição semanal de comida aos famintos. Sentia as desigualdades nas mesmas criaturas de Deus, enquanto aos poucos praticavam estrionices, no mau uso dos dinheiros mal ganhos, e dissipavam lucros fabulosos indiferentes aos dramas sociais de dores e sofrimentos, milhões padeciam fome, andavam maltrapilhos, moravam em tugúrios desumanos. Ao frade virtuoso cabia o apelo aos ricos para que se lembrassem dos deveres cristãos de querer bem ao próximo, e conseguia, pela graça da fé, minorar as aflições dos deserdados.

Neste livro-ensinamento, outro frade sincero e bom, dedicado e justo, Antônio Kerginaldo Furtado da Costa Memória, o popular e simpático Frei Memória, que conviveu com os teresinenses de 1979 a 1981, num estilo agradável e simples, linguagem asseada e pura, conta a vida, os esforços e relembra os sentimentos magníficos de Frei Heliodoro, que mais do que ninguém ensinou humildade aos homens. No trabalho que ora se lê, existem as lições e os exemplos de fé, como se fossem uma ajuda à educação para a vida.


A. Tito Filho, 12/01/1990, Jornal O Dia

PETRÔNIO PORTELLA

Piauiense de Valença, nascido em 1925. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, cedo ingressou na política, filiando-se aos quadros da antiga União Democrática Nacional. Deputado da Assembléia Legislativa do Piauí, logo se revelou temperamento combativo, mas sempre disposto ao diálogo de que resultassem benefícios coletivos. Em renhido pleito popular conquistou a prefeitura de Teresina, realizando administração sóbria, honesta e segura. Encerrado o mandato a 31 de janeiro de 1963, já estava eleito Governador do Piauí, em cujo cargo deu especial atenção aos problemas e assuntos educacionais, além de realizações da mais alta importância. Expandiu a rede de ensino primário e médio. Criou e instalou o Conselho de Educação. Encampou a Faculdade de Odontologia e criou a Faculdade de Medicina - institutos que, com as faculdades de Direito e Filosofia, se tornaram o ponto inicial da futura Universidade.

Os conterrâneos mais uma vez depositaram confiança no jovem líder e ei-lo, 1967, Senador da República, reeleito oito anos depois para o segundo mandato. Revelar-se-ia, então, o homem de Estado, sensível aos acontecimentos políticos e sociais da nacionalidade. Logo foi investido da vice-liderança do Governo, numa época de conturbações partidárias. Em seguida, líder. Começavam a pesar-lhe sobre os ombros importantíssimas responsabilidades nacionais. Presidente do Senado e consequentemente do Congresso Nacional, duas vezes. Presidente da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Praticou, em todas as funções, seriedade, e nunca fugiu da verdade. Deu-lhe o Governo a incumbência de ouvir setores da vida brasileira - e aí surgiu a Missão Portella e a derrubada dos diplomas totalitários da República. Coordenador político do Presidente João Batista Figueiredo, de quem aceitou, o cargo de Ministro da Justiça, levando o Ministério a reconquistar o seu prestígio e grandeza no quadro político republicano. Enfrentou problemas graves: a censura, a violência urbana, a extinção e a criação de grêmios partidários. De tudo se saiu com aprumo, equilíbrio e dignidade, acatado e respeitado por correligionários e adversários. Traço eloqüente do seu caráter: não enganava. Era veementemente sincero. Não dava publicidade a preocupações que o afligiam, mas não deixava de confessá-las aos companheiros de vida pública, do Governo e da Oposição, para que pudessem, com as advertências, ser preservadas as instituições.

No Senado, praticou gesto sem precedentes, concretizando o plano editorial com a publicação de obras e debates das mais extraordinárias figuras do Parlamento brasileiro.

E ao Piauí ofereceu a luta e o esforço permanente, conseguindo, nos idos de 1968, que o presidente Costa e Silva criasse a Fundação Universidade Federal do Piauí, com o objetivo de manter a Universidade Federal do Piauí - entidade que era sonho e hoje é orgulho dos piauienses.

Inteligente, culto, devotado à terra que o viu nascer e à sua gente, Petrônio Portella, nestes últimos anos, se dedicava sobretudo ao culto da bondade e da virtude. Exonerara-se de quaisquer ressentimentos para com os outros. Amava a concórdia. Queria bem a todos.

E foi esta imagem que ele deixou, no dia 06 de janeiro de 1980, data da viagem sem regresso: um coração e um cérebro a serviço do próximo.


A. Tito Filho, 07/11/1990, Jornal O Dia

PADRE CHAVES

Monsenhor Joaquim Chaves, o Padre Chaves, como ele gosta de ser chamado, faz muitos anos que se dedica de corpo e alma à igreja do Amparo, a primeira de Teresina, a igreja do seu amor. Sacerdote virtuoso, coração de bondade e sentimento, venera-o a paisagem teresinense, a que ele tem doado o melhor de uma vida de trabalho espiritual intenso, rezando missa, batizando menino, casando noivos, confessando pecadores, confortando fieis. Todos gostam das práticas religiosas que ele realiza, pois nelas gasta apenas os instantes preciosos, com o que exonera a gente da freguesia de demoradas cerimônias e prédicas puxadas. Adota receita segura para não prejudicar a paciência do próximo, ao mesmo tempo em que se põe sempre solicito e amigo, leal e correto, inexcedível no querer bem aos outros.

Ao lado da piedade, debruça-se sobre a pesquisa histórica, persistente, sustentado por capacidade de observar, e desse esforço surgiram escritos de valor, úteis, honestos, rico patrimônio para repasto dos estudiosos. O seu livro sobre Teresina, que se incorporou às festas comemorativas dos primeiros cem anos da cidade como documentário expressivo, lembra as fases iniciais da capital piauiense, as ruas, os cafés, os furdunços carnavalescos, as manifestações religiosas, os episódios cívicos, o telegrafo, barco de vapor, a higiene, a policia, as escolas, os passeios de cavalo, enfim o que ia nascendo, o que se ia criando, os passos inaugurais dos costumes e do progresso da comunidadezinha plantada pelo conselheiro José Antônio Saraiva, o fundador. E os forrós. E os serenos de baile. E a discurseira laudatória nos banquetes e bródios. Quantas cousas antigas, com cheiro de mofo, o bom do padre buscou em registros velhos e delas fez obra saborosa.

Neles o pesquisador preocupa-se sobretudo com a verdade e tem coragem de assentá-la e escrevê-la. As lições dos seus livros constituem fonte segura para conhecimento de variado aspecto da história do Piauí, que ele expõe e analisa com critério. Oferece estilo plástico, prosa ágil, sabe reviver o passado e os homens que o construíram, e as criticas de forma imparcial e cuidadosa.

De mim, julgo-o historiador sereno, hábil, metódico, às vezes irreverente, apoiado sempre sobre invulgar capacidade de discernir e interpretar.

Teresina tem bons historiadores, como Pereira da Costa, Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, para citar alguns mortos ilustres. Dos vivos, muitos são os pesquisadores dos acontecimentos que se verificaram na cidade criada por José Antônio Saraiva, entre os quais Julio Romão da Silva, que recompôs a fundação da cidade num estudo sério e fiel a verdade.

O padre Chaves não se preocupou apenas com os episódios da vida histórica e politica da cidade que tem o nome de gente nobre, foi além, revelando, em livro curioso, aspectos sociais e pitorescos da cidadezinha tranqüila e afetiva. Antes dele, preocupado somente com os costumes do fim do século XIX, só Abdias Neves, num romance naturalista.


A. Tito Filho, 21/12/1990, Jornal O Dia