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domingo, 9 de outubro de 2011

NOTINHAS

O frade franciscano Heliodoro Maria de Inzago assumiu a direção da paróquia de São Benedito de Teresina por duas vezes: de 1939 e 1945 e de 1952 a 1956. Tive a satisfação de expressar os sentimentos dos teresinenses quando ele retornaria à sua distante Itália, onde morreu bem idoso e cujos ossos jazem no cemitério de Bérgamo.

Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, viveu em doação aos humildes, aos pequenos, aos sofredores. Socorria os miseráveis e confrontava os enfermos. Instituiu a distribuição semanal de comida aos famintos. Sentia as desigualdades nas mesmas criaturas de Deus: enquanto uns poucos praticavam estroinices, no mau uso dos dinheiros mal ganhos, e dissipavam lucros fabulosos indiferentes aos dramas sociais de dores e sofrimentos, milhões padeciam fome, andavam maltrapilhos, moravam em tugúrios desumanos. Ao frade virtuoso cabia o apelo aos ricos para que se lembrassem dos deveres cristãos de querer bem ao próximo, e conseguia, pela graça da fé, minorar as aflições dos deserdados.

Num livro-ensinamento, outro frade sincero e bom, dedicado e justo, Antônio Kerginaldo Furtado da Costa Memória, o popular e simpático Frei Memória, que conviveu com os teresinenses de 1979 a 1981, num estilo agradável e simples, linguagem asseada e pura, conta a vida, os esforços e relembra os sentimentos magníficos de Frei Heliodoro, que mais do que ninguém ensinou humildade aos homens. No trabalho existem as lições e os exemplos da fé, como se fossem uma ajuda à educação para a vida. Lançamento da Academia Piauiense de Letras.

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Sempre gostei de estórias de caçadas. Leonardo mota contava-se com modos de doutoramento no assunto. Cornélio Pires escreveu livro sem defeito na fixação de casos mineiros da arte venatória - "As Estrambólicas Aventuras de Joaquim Bentinho".

Contar acontecidos nas matas em busca de bichos supõe antes de tudo conhecimento dos segredos desse tipo de trabalho ou diversão: instrumentos, objetos, armas, rastreação, hábitos dos animais, tipos de árvores, locais de espera, ruídos, anúncios da natureza, assim como um conjunto de princípios sérios para o exercício do mister perigoso, que supre a despensa do roceiro ou provoca divertimento aos diletantes.

Nestas páginas de Heitor Castelo Branco Filho executa narração deliciosa, viva, alegre, sobre peripécias de uma caçada nas bandas do sul do Piauí. Ele e os companheiros simples e amigos realizam proezas de caçadores inveterados ou de simples comedores de caças abatidas nas matas sertanejas. Hilariantes episódios conferem mais entusiasmo à leitura que a gente faz de fio a pavio. Lançamento da APL em abril.


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O Des. Sátiro é cearense de Tauá. Nasceu a 12 de janeiro de 1907. Filho de Jaime Martins Nogueira e Josefa Alexandrino Nogueira. Formado em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Promotor Público de Picos em 1932. Nesse mesmo ano ingressou na magistratura, tendo sido juiz em Caracol, São Raimundo Nonato, Jaicós, Picos e Teresina. Desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí. Professor Catedrático, concursado, da Universidade Federal do Piauí.

Escreve com segurança. Português castigo. Saem-lhe espontâneas as narrativas de episódios, os da infância e da adolescência, como outros conhecidos da sua vivência nos sertões onde viveu alguns anos no convívio dos seus. Notável poder descritivo, reproduz cenários servido de rara fidelidade. Estilo seco, desenfeitados, sabe o clássico na construção exemplar das expressões. Lançamento da APL.


A. Tito Filho, 30/03/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

CAVALOS

O cavalo pertence à história social e política dos povos. Está na mitologia dos gregos e dos romanos. Os césares conquistavam terras e gentes sobre quadrúpedes de grande porte. Um deles, débil mental, nomeou a sua montaria preferida senador ou cônsul do Império. A viagem a cavalo se fazia pelos antigos em longos percursos, no lombo dos bichos, homens e mulheres. No oeste dos Estudos Unidos, nos tempos da violência, só se respeitavam cavalos e rabos-de-saia. A nossa Dora Parentes, em maravilhosos e eróticos quadros de pintura, sempre junta cavalos e filhos-de-eva, num relacionamento sexual de intenções, segundo Freud.

Na Teresina do século XIX, haviam sujeitos que alugavam cavalos para passeios na cidade. Era de ver o soçaite do tempo mostrando habilidades em cima do potro amestrado.

Em 1972 surgiu o primeiro Jóquei Clube, cujo objetivo essencial estava na corrida de cavalos. A entidade assim era dirigida: presidente, Manuel Castelo Branco. Secretário, Heráclito Sousa. Tesoureiro, Pires Gaioso. Hipódromo na Vila Santos. Primeiras disputas no Dia da Pátria. Primeiro páreo, venceu o cavalo Argus, 500 m, prêmio de 150$000 (cento e cinqüenta mil réis). Segundo páreo, cavalo Libertador, 600 m, 200$000 (duzentos mil réis). Terceiro, Fidalgo, 700 m, 300$000 de prêmio. Quarto, Mister Bris, 800 m, prêmio de 600$000 (seiscentos mil réis). Quinto páreo, Danilo, 700 m, prêmio de 500$000. Juízes de partida, Teivelino Guapindaya e Daniel Paz. juízes de arquibancada: Joel Sérvio, Martins Napoleão e Delfino Vaz. Juízes de chegada: João Martins do Rêgo e Raimundo de Arêa Leão. Diretor da casa de pules: Heráclito Sousa. Diretor do bar: Zoroastro Melo, Diretor-Geral das corridas, Manuel Castelo Branco.

Não progrediu esse primeiro prêmio cavalar. Deve ter sucedido alguma coisa que acabasse as corridas dos bons quadrúpedes na cidade de José Antônio Saraiva.

Em 1939, porém, houve quatro vibrantes páreos comemorativos do 7 de Setembro, corridas na zona da estrada de ferro. Proprietários dos corredores: Mariano Gayoso Castelo Branco (Packard), Waldir Gonçalves, que possuía dosi animais, Garapu e Dourado; Jacob Castelo Branco (Hockey), Antonino Barros (Faraó), João Clímaco d'Almeida (Cateretê). Juízes, Mariano Gayoso Castelo Branco, José Olímpio de Melo e João Clímaco d'Almeida.

Parece que os cavalos não davam no couro. Cansavam depressa. Corriam debaixo de cipó.

Depois de 1950, a visão de Octávio Miranda rasgou a mata e fundou o Jóquei Clube, o segundo com este nome. Fez o hipódromo. E inaugurou as corridas de eqüinos nos dias de domingos. Animadas tardes. Mas os pangarés não agüentavam, caíam pelo meio do caminho, na pista. Os bichos não bebiam leite. Pelo menos houve a tentativa, que se teria desenvolvido, pois essa atividade desportiva pode ser muito rendável.

O Jóquei clube de Teresina tem natureza singular. O único no mundo em que não há corridas de cavalos. Vive de cachaçadas, das carnes assadas, das festanças carnavalescas nas quais impera o desnudamento quase generalizado das fêmeas bonitas.

A história do cavalo e das corridas de tal bicho em Teresina corresponde a uma das páginas significativas da vida social da cidade-capital. Outros que a pesquisem e narrem, antes que a memória das cousas seja destruída pelos ventos da ignorância generalizada.


A. Tito Filho, 08/01/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

SÓCIOS DA CATERVA

Fundou-se A CATERVA em 1931. Original sociedade de jovens idealistas, para cultivo dfa literatura, jornalismo e agitação da juventude da época, em Teresina. Eis os seus sócios:

JOSÉ DO PATROCÍNIO DA SILVEIRA CALDAS. Bondoso. Sensível. Um dos fundadores do jornal A VOZ DO NORTE, pertencente ao grupo. Nascido em 1912. Piauiense.

JACOB DE SOUSA MARTINS. De 1903. Maranhense. Metódico. Estudioso de matemática. Bom amigo. Foi professor em educandário teresinense.

CLEMENTE HONORÁRIO PARENTES FORTES. Piauiense, nascido em 1914. Inteligência lúcida. Muito voltado para os livros. Franco e leal. Professor desde jovem. Atingiria a altos postos na vida pública.

RAIMUNDO DE MOURA REGO. Maranhense nascido em 1911. Cultivava a poesia e a música. gostava de compor sonetos. Simples. alcançou grande nomeada literária no futuro.

ANÍZIO DE ABREU CAVALCANTI. Piauiense de 1910. Estudioso da filosofia. Introspectivo. Pena aprumada. Compreensivo. Tornou-se funcionário público e passou a viver no sul do país.

AFONSO BARBOSA FERREIRA. Piauiense. Nasceu em 1912. Circunspecto e sério. Afável. Observador. Apreciava o estudo.

WAGNER DE ABREU CAVALCANTI. Piauiense. Veio ao mundo em 1912. Irrequieto e combativo. Orador, poeta, humorista. nos jornais, escrevia sobre literatura e mundanismo. Emigrou para o Rio, onde se destacou em movimentos estudantis.

FIRMINO FERREIRA PAZ. Nascido em 1912. Piauiense. Rico de idéias. Vibrátil. Fazia bom jornalismo. De grande irradiação espiritual. No futuro seria advogado e jurista de fama, chegando a ser membro do Supremo Tribunal Federal.

ISMAR BENTO GONÇALVES. Piauiense de 1913. Bom companheiro. Apreciava estudos históricos. Conhecia assuntos internacionais. Seria funcionário público conceituado.

GONÇALO LOPES LIMA. Cearense, nascido em 1911. Estudioso da matemática. excelente figura humana.

RAIMUNDO LOPES DE VASCONCELOS. Cearense de 1912. Bom companheiro. Silencioso. Sincero.

Meninote ainda, conheci Jacob, Clemente (fui aluno de ambos), Moura Rego, Wagner, Firmino, Ismar, Raimundo Lopes. Sei que faleceram Jacob, Clemente, Moura Rego, Wagner, Ismar. Estão vivos Firmino, Raimundo Lopes e Anízio. Não conheci este último pessoalmente, mas com ele muito me correspondi por cartas. Desconheço o destino de José do Patrocínio, Afonso Ferreira e Gonçalo Lopes Lima.


A. Tito Filho, 17/01/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 4 de outubro de 2011

ACADEMIAS

Se a memória me acode, lembro que Afrânio Peixoto assentou que as academias têm inimigos rancorosos entre os intelectuais de 21 a 30 anos. dos 30 aos 60, os inimigos são candidatos, que, depois dos 60, são acadêmicos. Nem sempre os pretendentes conseguiram ingresso. Derrotado, o incompatível patriota e escritor Monteiro Lobato recusou-se depois, embora convidado, a pertencer à Academia Brasileira de Letras. O sábio jurisconsulto Pontos Mirando sofreu derrota na primeira candidatura, elegeu-se na segunda disputa. Viriato Correia, teimoso, fez cinco tentativas, vitorioso na sexta. Interessante o caso de Santos Dumont, inventor da dirigibilidade do mais pesado que o ar. Nunca se candidatou à Casa de Machado de Assis, que quis homenagear o seu revolucionário cometimento. Elegeu-o. Convidado a tomar posse, recusou-se. Ainda assim pertence aos quadros da festejada instituição, que Carlos Drummond de Andrade sempre rejeitou sempre que lhe ofereciam uma poltrona.

Outro infenso à glória acadêmica foi o espirituoso e demolidor de falsos ídolos, mestre Agripino Grieco, cujos debates na imprensa criavam contra ele permanente antipatia dos membros da Academia Brasileira de Letras. Toda vez que falecia um acadêmico o grande crítico literário escrevia na coluna jornalística que mantinha na imprensa carioca: "Morreu mais um animal na Casa de Machado de Assis" - mais ou menos isto. Uma feita, com o falecimento de Carneiro Leão escreveu: "Palmas. Desta vez morreram dois animais de uma só vez".

Quando faleceu Rui Barbosa, em 1923, houve na Casa de Machado de Assis duas correntes: a dos que queriam que lhe fosse prestada a grande homenagem de não ter substituto, e a cadeira ficaria vaga por todos os séculos, e a das que achavam por todos os séculos, e a das que achavam normal a sucessão, mais numerosa. Abriu-se a vaga. candidatou-se o filólogo Laudelino Freire, e o sarcástico Grieco escreveu isto:

"Se o Dr. Laudelino Freire for eleito, conciliou as duas correntes acadêmicas: Laudelino vai ocupar a cadeira de Rui, mas é como se a cadeira continuasse vaga". A Academia Piauiense de Letras possui criticas veementes. É bom que as tenha. Desprezam-se as árvores que não dão frutos, e possui também aqueles que a procuraram e não lograram vitória, com sobejos títulos de merecimento. Vitoriosos saíram os concorrentes.

Houve os que tiveram eleição assegurada e não atenderam os chamados para a posse como Antônio Costa, Durval Monteiro, Clementino Fortes, Sousa Neto e outros, cujos nomes foram cancelados pelo meu antecessor na presidência, mestre Simplício Mendes.

É bem de ver que as Academias praticam por vezes injustiças, como a Casa de Machado de Assis praticou com o admirável Mário Quintana.

O ideal, porém, está em que se pratique justiça.


A. Tito Filho, 04/08/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

MESTRE CUNHA - I

A 4 de fevereiro deste ano faleceu o velho mestre Cunha e Silva, Francisco da Cunha e Silva, nascido em Amarante (PI), a 3-8-1904. Pais: Manoel Alexandre e Silva e Cândida da Cunha e Silva. Estudos primários na terra natal. Aluno do Colégio Bento XV (Teresina). Fez estudos preparatórios e filosofia no Colégio Salesiano Santa Rosa, de Niterói (RJ). Em 1923, escolhia a carreira eclesiástica, matriculando-se no Colégio Salesiano São Manuel, de Lavrinhas, Estado de São Paulo, no qual realizou o quinto ano secundário para se aperfeiçoar no estudo de latim. No ano seguinte, concluiu o noviciado. O Colégio São Manuel funcionava também como seminário e, assim, em 1925, concluiu o curso de filosofia. Como não tinha vocação para o sacerdócio, regressou ao Piauí para rever a família, viajando para o Rio de Janeiro em 1926, onde se casou. Voltou ao Piauí em 1927. No ano seguinte, lecionou português, história e geografia no Ginásio Amarantino, fundado por Odilon Nunes, e iniciou colaboração no jornal "O Floriano", da cidade do mesmo nome (PI). Em 1932, em Amarante, criou educandário com o nome de Ateneu Rui Barbosa, que funcionou até 1947, quando passou a residir na capital do Estado. Professor de geografia do Brasil no Colégio Estadual do Piauí, hoje Colégio Zacarias de Góis. Colaborador, redator e depois diretor de "O Piauí". Diretor de "Resistência". Colaborador de "A Gazeta", "O Tempo", "O Dia", "Jornal do Piauí", "A Luta", "O Pirralho". diretor da Casa Anísio Brito (Biblioteca, Arquivo Público e Museu Histórico do Piauí), na administração Pedro Freitas. Professor, por concurso, de história do Brasil da Escola Normal Antonino Freire. Diretor, durante um ano, do Colégio estadual do Piauí, hoje Zacarias de Góis, na administração Chagas Rodrigues. Orador, teve participação em memoráveis campanhas políticas. Durante quatorze anos, professor no Ginásio (hoje Colégio) Desembargador Antônio Costa, lecionando português, francês e geografia geral. Há doze anos colabora no "Estado do Piauí". Pertenceu ao antigo Cenáculo Piauiense de Letras. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Colaborou, ainda moço, na imprensa de são Luís, Maranhão ("O Imparcial") e do Rio de Janeiro ("Diário de Notícias"). Publicou "O Papel de Floriano Peixoto na obra da proclamação e consolidação da República" (tese).


A. Tito Filho, 098/02/1990, Jornal O Dia

HOMENAGEM JUSTA

Benedito de Sousa Sá nasceu neste Piauí da sua benquerença. Por onde anda, todos o conheceu como B. Sá, amigo sincero e leal. Sempre trabalhador, diariamente cumpre deveres no qual de um dos comandos militares de Manaus. Embora na reserva remunerada do Exército desde 1977, orgulha-se de não ter ficado um só dia na inatividade.

Mereceu recentemente, ao completar cinqüenta anos de serviços relevantes ao Brasil, homenagem de carinho e justiça dos seus companheiros, na capital amazonense, cuja imprensa assim se referiu à personalidade do homenageado:

"Em 1938, ingressou no Serviço Público, na Imprensa Oficial do Piauí, como aprendiz de artes gráficas. Deixou aquela 'escola' em 31 de outubro de 1945, para ingressar, no dia seguinte, em outra grande escola - o Exército - como soldado do 25º BC, em Teresina-PI.

Galgou todas as graduações, de Soldado a 2º Ten, pelo princípio do merecimento, em decorrência de uma conduta exemplar dentro e fora do quartel, exação no cumprimento do dever, assiduidade, companheirismo e, acima de tudo, lealdade.

Serviu na AMAN por mais de oito anos, exercendo, além dos seus encargos normais, as funções de Presidente do Clube dos Subtenentes e Sargentos - ocasião em que fundou um tablóide informativo.

Na Guarnição de Teresina, escreveu, por dez anos, a coluna dominical 'Vida Militar' no jornal O Dia, com a divulgação na Radio Difusora local. Foi ainda presidente por quatro vezes, do Clube do Marquês de Paranaguá - dos ST e Sgt - sendo um dos fundadores do Jornal e Revista 'Carnaúba'.

Aos 52 anos, no posto de 2º Tenente, quando em serviço no hospital Geral de Manaus, foi alçando pela cota compulsória, despedindo-se do serviço ativo. Permaneceu, porém, como servidor civil contratado - inicialmente, no próprio hospital e, em seguida, na CRO/12 e no QG/2º Gpt e Cnst, onde se encontra há mais de cinco anos, em plena atividade, com horário integral.

Possui a Medalha de Ouro de bons serviços, a Medalha Militar de Ouro de bons serviços, a Medalha do Pacificador e... mais de sessenta elogios em suas folhas de alterações.

É formado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade do Amazonas. Como se tudo isso não bastasse, é também membro da executiva da ADESG/AM, tendo, por duas vezes, exercido internamente ao cargo de Delegado.

Sempre B. Sá empregou seu dinamismo e sua cultura em prol do Exército e do Brasil, sem descuidar-se dos afazeres de um chefe de família exemplar. O tempo passa, mas ele permanece ao lado da nossa gente: claro, pois ele é Gente Nossa!".


A. Tito Filho, 08/03/1990, Jornal O Dia

domingo, 2 de outubro de 2011

O SAUDOSO BAMBA DA ZONA

Desviaram-se os concludentes da Faculdade de Direito do Recife, 1908, por causa da escolha do paraninfo - e os desavindos tiveram dois quadros de formatura. Num deles, piauienses - Simplício de Sousa Mendes, Corinto Andrade e José de Arimathéa Tito. O paraibano José Américo de Almeida participou de outro quadro.

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Meninote, chegava eu a  Teresina no velho caminhão de Juquinha Santana, carga e passageiros juntos, ano de 1933. No pontão do rio Poti, pois não existia ponte de madeira ou de cimento, tinha-se notícia do gesto do professor Leopoldo Cunha, que atingiu com duas balas de revólver o desembargador Simplício Mendes, na praça Rio Branco. Minha meninice deu pouca importância ao caso. No ano seguinte, sob a presidência do juiz José de Arimathéa Tito, o atirador teve absolvição unânime pelo Tribunal do Júri. Advogado do réu, o próprio pai Higino Cunha, intelectual brilhante e mestre, modesto e honrado, que, lida a sentença, ajoelhou e beijou a mão do magistrado, como homenagem à justiça. Cena comovente na sala do julgamento.

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Ano de 1938, meu pai José de Arimathéa Tito chegou ao Tribunal de Justiça, passando a compor o colegiado juntamente com Ernesto José Batista, Cristino Castelo Branco, Adalberto Correia Lima, Esmaragdo de Freitas e Sousa e Simplício de Sousa Mendes - fase áurea da corte piauiense. Disputada a vaga, não se aproveitou na lista de promoção, o juiz Eurípedes Melo, irmão do interventor federal Leônidas Melo, que se vingou de três desembargadores, aposentando-os pela violência e, com o ato, liquidando a credibilidade e o respeito do Tribunal. O castigo recaiu nos que votaram contra Eurípedes, os magistrados Esmaragdo, Simplício e Arimathéa - unidos agora numa luta sem trégua contra o autor da prepotência.

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Em 1947, depois de cinco anos no Rio de Janeiro, regressei a Teresina, época em que comecei a aproximar-me de Simplício, jornalista de intensa atividade. Tinha ele o prestigioso apelido de bamba da zona - ou porque não rejeitasse desafio dos adversários políticos, ou porque fosse autoridade na espetacular conquista de quengas dos mais variados feitios, nas zonas respectivas da cidade, especializado na mulataria apetitosa.

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Coma morte de meu pai, em 1963, mais me liguei a Simplício. Tornei-me auxiliar seu na Academia Piauiense de Letras, no Conselho Estadual de Cultura, na Casa Anísio Brito (biblioteca, arquivo e museu do Estado). conheci-o de perto. O mestre apreciava cousas bem feitas. Desfrutava de muito prestígio pessoal. Melhorou sempre as entidades cuja direção lhe eram confiadas. Culto. Bom amigo. Lutador sem medo. Estudioso, em "O Homem, a Sociedade, o Direito", publicado em 1934, pareceu profeta da agonia universal: "Estará, sempre, como lastro, o império das ambições desenvoltas, pelo culto de um individualismo a outrance, originando o poder incontrastável do capitalismo, a exploração do homem pelo homem e o desconhecimento ou o desprezo das mais preponderantes diretrizes da solidariedade social".

De vício, Simplício cultivava somente rabo-se-saia.

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Aos 86 anos de idade, o notável intelectual esteve em Congresso Nacional de Conselhos de Cultura, no Rio. Na ilustre companhia de Simplício, eu e Fontes Ibiapina. Faleceria a de janeiro de 1971.

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Lili Castelo Branco, no seu modo gostoso de contra, relembra episódios da vida de Simplício de Sousa Mendes. Uma beleza a narrativa simples e cativante reproduzida depois de ouví-la da protagonista. A escritora pôs no papel a figura do famoso jornalista e cultor da ciência jurídica, administrativa de órgãos culturais e incentivador da vida intelectual de Teresina - sem esquecer o amante incorrigível de dezenas de mulheres bonitas - donzelas, casadas, desquitadas, amarradas, viúvas, que lhe povoaram e realizaram os sonhos de noites fogosas em camas perfumadas.

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Nunca esquecerei o velho amigo, o saudoso bamba da zona - mestre do Direito, do jornalismo, do trabalho produtivo e do ideal de paz e justiça social - e mestre de amores maravilhosos, como ele confessou e da forma que o mostra a pena inteligente e afetiva de Lili Castelo Branco.


A. Tito Filho, 01/11/1990, Jornal O Dia

sábado, 1 de outubro de 2011

FREI HELIODORO

Brevemente a Academia Piauiense de Letras estará lançando ao público piauiense a primeira biografia pormenorizada de Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, de imensos serviços prestados a Teresina. A história desse frade-santo, nascido em Inzago, na Itália, está bem contada por Frei Memória, tão amigo dos teresinenses.

O frade franciscano Heliodoro Maria de Inzago assumiu a direção da paróquia de São Benedito de Teresina por duas vezes: de 1939 a 1945 e de 1952 a 1956. Tive a satisfação de expressar os sentimentos dos teresinenses quando ele retornaria à sua distante Itália, onde morreu bem idoso e cujos ossos jazem no cemitério de Bérgamo.

Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, viveu em doação aos humildes, aos pequenos, aos sofredores. Socorria os miseráveis e confrontava os enfermos. Instituiu a distribuição semanal de comida aos famintos. Sentia as desigualdades nas mesmas criaturas de Deus, enquanto aos poucos praticavam estrionices, no mau uso dos dinheiros mal ganhos, e dissipavam lucros fabulosos indiferentes aos dramas sociais de dores e sofrimentos, milhões padeciam fome, andavam maltrapilhos, moravam em tugúrios desumanos. Ao frade virtuoso cabia o apelo aos ricos para que se lembrassem dos deveres cristãos de querer bem ao próximo, e conseguia, pela graça da fé, minorar as aflições dos deserdados.

Neste livro-ensinamento, outro frade sincero e bom, dedicado e justo, Antônio Kerginaldo Furtado da Costa Memória, o popular e simpático Frei Memória, que conviveu com os teresinenses de 1979 a 1981, num estilo agradável e simples, linguagem asseada e pura, conta a vida, os esforços e relembra os sentimentos magníficos de Frei Heliodoro, que mais do que ninguém ensinou humildade aos homens. No trabalho que ora se lê, existem as lições e os exemplos de fé, como se fossem uma ajuda à educação para a vida.


A. Tito Filho, 12/01/1990, Jornal O Dia

BIACADÊMICO

Carlos Castelo Branco contou, neste falecido mês de junho, como faziam os índios, setenta castanhas na sua vida vitoriosa. Publicou, além de um livro de interpretação politica, "Continhos Brasileiros" e o romance "Arco do Triunfo". A persistente atividade jornalística, de invulgar brilhantismo na análise de homens e episódios, abriu-lhes as portas da Academia Brasileira de Letras: "Chego à Academia como jornalista", disse ele ao tomar posse no mais cobiçado sodalício do país.

Observador penetrante, ora tímido, ora revoltado, misterioso ou controlado, sempre põe a nu a imagem dos instantes precários e dos ricos em respeito ao homem. Sabe clarear caminhos, denunciar mistificações e advertir os incautos e desinsteligentes. Não usa enfeitações. Ensina nas entrelinhas aos bons de entendimento. Muita claridade no estilo. Odylo Costa, filho, considerou-o a primeira voz do jornalismo político brasileiro. Efetua o jornalismo-história, o que exige isenção e abole atitudes passionais. Honesto e corajoso. Não azinhava a consciência na bajulação.

Quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, telefonou ao pai, o magnífico Cristino Castelo Branco, caráter sem nódoa, e disse, revivendo a criança que está na gente o tempo todo:

- Papai, eu fui eleito.

Cristino orgulhou-se do triunfo do filho, que era também o triunfo do pai, cuja presença de Deus se avizinhava, não era permitido que ele, carregado de mais de noventa anos, assistisse à posse do novo acadêmico.

Dois piauienses e um quase-piauiense haviam atingido a Academia Brasileira de Letras: José Félix Alves Pacheco, Deolindo Augusto de Nunes Couto e Odylo Costa, filho, os dois primeiros nascidos em Teresina. Antes do vôo mais alto, porém, ingressaram na Academia Piauiense de Letras. Partiram da Casa de Lucídio Freitas para a casa de Machado de Assis. Mestre Carlos praticou o contrário: ingressou na modesta e humilde Academia Piauiense de Letras depois da conquista da outra, a Brasileira. Quis ser fiel à lição de Cristino Castelo Branco: "A Academia da terra natal é sempre a melhor das Academias".

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Na Academia Piauiense de Letras outros pertenceram a duas Academias: Clodoaldo Freitas (Maranhense), Alarico da Cunha (Maranhense), Jonas Fontele da Silva (Amazonense), Taumaturgo Sotero Vaz (Amazonense), salvo falha memória.

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Em Carlos setentão existe outra imensa virtude: o amor a Teresina. Numa de suas visitas recentes À cidade natal escreveu: "Hoje é quase estranha para mim. Na parte antiga movimento os meus fantasmas e onde me sinto a vontade, quando passo por lá, para dialogar com elas".

Sim, já não existem os bairros de forrós, cheirantes ao suor da mulatiçe gostosa das mulheres teresinenses. Do buraco da Velha, dos Cajueiros, da Catarina resta a visão doce e evocativa como se fora poesia do coração chorando.


A. Tito Filho, 21/07/1990, Jornal O Dia

CUNHA E SILVA

Francisco da Cunha e Silva nasce na terra piauiense de Amarante. Era 3-8-1904. Cursou o Colégio Bento XV de Teresina. Fez humanidades no Colégio Salesiano Santa Rosa, de Niterói, no Estado do Rio. Escolheu a carreira eclesiástica, matriculou-se no Colégio Salesiano São Manuel de Lavrinhas, São Paulo, também seminário, em que fez estudos superiores de filosofia e latim. Sem vocação para o sacerdócio, seguiu outra destinação. Casou-se na antiga capital da República. Em 1927, fixava-se em sua cidade natal. Iniciou-se no magistério de português, história e geografia. Em Amarante, fundou o educandário Ateneu Rui Barbosa. A partir de 1947, estabeleceu-se em Teresina, quando subiu ao Governo do Piauí o médico José da Rocha Furtado, eleito pela antiga União Democrática Nacional. Antes, em 1935, acusado, processado, teve condenação como comunista pelo extinto Tribunal de Segurança Nacional. Cumpriu mais de um ano de prisão na antiga e demolida penitenciaria da capital piauiense.

O novo governo lhe confiou uma cadeira de geografia no Colégio Estadual, antigo Liceu. Passou também a colaborar na Imprensa, sem remuneração de qualquer natureza. Militou em quase todos os jornais: "O Piauí", "Resistência", "A Gazeta", "O Tempo", "O DIA", "Jornal do Piauí", "A Luta", "O Pirralho", além de revistas noticiosas e literárias.

Não permaneceu muito tempo nas hortes da UDN. Era jornalista de linguagem forte, por vezes agressiva. Rompeu com o governador Rocha Furtado. A politica da época não aceitava rebeldias. A punição se fazia necessária e rigorosa. Os que se rebelavam perdiam o emprego público, tivessem ou não responsabilidade de família. Perdeu a cadeira de que tirava o pão de cada dia.

Pobre e carregado de filhos pequenos, sem casa própria, Cunha e Silva padeceu severa adversidade. Ajudavam-no alguns amigos e colegas. Conheceu de perto duras e pesadas aflições. Mas não dava tréguas ao governo. Escrevia artigos contundentes e violentos contra o governante e seus auxiliares.

O Partido Social Democrático, de oposição, deu-lhe modestíssimo lugar no antigo Fomento Agrícola. Trabalhava na Granja Pirajá, bem distante de sua residência, percurso que ele fazia a pé. Brevemente se aborreceu do emprego e largou-o para suportar novas e pesadas vicissitudes. Ganhava pouquíssimo em estabelecimentos particulares de ensino, dando aulas desde que o dia principiava até de noite.

Tinha animo forte. Nunca abaixava o topete. Com a subida de Pedro Freitas ao governo, candidato de oposição a Rocha Furtado, mereceu duas cadeiras no magistério do Colégio Estadual e da Escola Normal. Passou a ganhar sofrivelmente. No governo Petrônio Portella, foi escolhido para cargo em comissão, de diretor da Casa Anísio Brito, que reunia o Arquivo, a Biblioteca e o Museu do Estado. Exonerou-se, dentro de pouco tempo, das funções, para prestar solidariedade a amigo desavindo com o governador.

Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico Piauiense. Em 1975, ingressou na Academia Piauiense de Letras. Publicou a tese "O Papel de Floriano Peixoto na Obra da Proclamação e da Consolidação da República", para a realização de um concurso de professor, em que foi aprovado. Mais dois livros seus foram publicados pela sua instituição acadêmica: "A República dos Mendigos", romance de caráter político, e "Copa e Cozinha", de estudos sociais e históricos.

Os anos começaram a pesar-lhe no organismo sofrido de muitas lutas. Não arrefecia, porém. Escrevia e lecionava. No governo Chagas Rodrigues teve a nomeação como diretor do Colégio Estadual. Depressa deixou as funções em protesto contra juiz de direito da capital que concedeu mandado de segurança a um professor por ele punido.

Os princípios da velhice e depois a velhice fizeram que serenasse mais as atitudes. Disciplinou-se. Muito sofreu, mas muito se realizou combatendo os poderosos sem temer violências ou perseguições.

A 21 de janeiro de 1990, pelas três horas da madrugada, o companheiro rebelde fechou os olhos a este mundo que lhe foi muito ingrato, cujas injustiças ele combateu com energia e coragem. Despediu-se o velho mestre, deixando a lembrança de um forte temperamento e de invulgar capacidade de escrever sobre assunto vário. Como quis, jaz no cemitério da sua querida Amarante.


A. Tito Filho, 01/03/1990, Jornal O Dia

PETRÔNIO PORTELLA

Piauiense de Valença, nascido em 1925. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, cedo ingressou na política, filiando-se aos quadros da antiga União Democrática Nacional. Deputado da Assembléia Legislativa do Piauí, logo se revelou temperamento combativo, mas sempre disposto ao diálogo de que resultassem benefícios coletivos. Em renhido pleito popular conquistou a prefeitura de Teresina, realizando administração sóbria, honesta e segura. Encerrado o mandato a 31 de janeiro de 1963, já estava eleito Governador do Piauí, em cujo cargo deu especial atenção aos problemas e assuntos educacionais, além de realizações da mais alta importância. Expandiu a rede de ensino primário e médio. Criou e instalou o Conselho de Educação. Encampou a Faculdade de Odontologia e criou a Faculdade de Medicina - institutos que, com as faculdades de Direito e Filosofia, se tornaram o ponto inicial da futura Universidade.

Os conterrâneos mais uma vez depositaram confiança no jovem líder e ei-lo, 1967, Senador da República, reeleito oito anos depois para o segundo mandato. Revelar-se-ia, então, o homem de Estado, sensível aos acontecimentos políticos e sociais da nacionalidade. Logo foi investido da vice-liderança do Governo, numa época de conturbações partidárias. Em seguida, líder. Começavam a pesar-lhe sobre os ombros importantíssimas responsabilidades nacionais. Presidente do Senado e consequentemente do Congresso Nacional, duas vezes. Presidente da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Praticou, em todas as funções, seriedade, e nunca fugiu da verdade. Deu-lhe o Governo a incumbência de ouvir setores da vida brasileira - e aí surgiu a Missão Portella e a derrubada dos diplomas totalitários da República. Coordenador político do Presidente João Batista Figueiredo, de quem aceitou, o cargo de Ministro da Justiça, levando o Ministério a reconquistar o seu prestígio e grandeza no quadro político republicano. Enfrentou problemas graves: a censura, a violência urbana, a extinção e a criação de grêmios partidários. De tudo se saiu com aprumo, equilíbrio e dignidade, acatado e respeitado por correligionários e adversários. Traço eloqüente do seu caráter: não enganava. Era veementemente sincero. Não dava publicidade a preocupações que o afligiam, mas não deixava de confessá-las aos companheiros de vida pública, do Governo e da Oposição, para que pudessem, com as advertências, ser preservadas as instituições.

No Senado, praticou gesto sem precedentes, concretizando o plano editorial com a publicação de obras e debates das mais extraordinárias figuras do Parlamento brasileiro.

E ao Piauí ofereceu a luta e o esforço permanente, conseguindo, nos idos de 1968, que o presidente Costa e Silva criasse a Fundação Universidade Federal do Piauí, com o objetivo de manter a Universidade Federal do Piauí - entidade que era sonho e hoje é orgulho dos piauienses.

Inteligente, culto, devotado à terra que o viu nascer e à sua gente, Petrônio Portella, nestes últimos anos, se dedicava sobretudo ao culto da bondade e da virtude. Exonerara-se de quaisquer ressentimentos para com os outros. Amava a concórdia. Queria bem a todos.

E foi esta imagem que ele deixou, no dia 06 de janeiro de 1980, data da viagem sem regresso: um coração e um cérebro a serviço do próximo.


A. Tito Filho, 07/11/1990, Jornal O Dia

PADRE CHAVES

Monsenhor Joaquim Chaves, o Padre Chaves, como ele gosta de ser chamado, faz muitos anos que se dedica de corpo e alma à igreja do Amparo, a primeira de Teresina, a igreja do seu amor. Sacerdote virtuoso, coração de bondade e sentimento, venera-o a paisagem teresinense, a que ele tem doado o melhor de uma vida de trabalho espiritual intenso, rezando missa, batizando menino, casando noivos, confessando pecadores, confortando fieis. Todos gostam das práticas religiosas que ele realiza, pois nelas gasta apenas os instantes preciosos, com o que exonera a gente da freguesia de demoradas cerimônias e prédicas puxadas. Adota receita segura para não prejudicar a paciência do próximo, ao mesmo tempo em que se põe sempre solicito e amigo, leal e correto, inexcedível no querer bem aos outros.

Ao lado da piedade, debruça-se sobre a pesquisa histórica, persistente, sustentado por capacidade de observar, e desse esforço surgiram escritos de valor, úteis, honestos, rico patrimônio para repasto dos estudiosos. O seu livro sobre Teresina, que se incorporou às festas comemorativas dos primeiros cem anos da cidade como documentário expressivo, lembra as fases iniciais da capital piauiense, as ruas, os cafés, os furdunços carnavalescos, as manifestações religiosas, os episódios cívicos, o telegrafo, barco de vapor, a higiene, a policia, as escolas, os passeios de cavalo, enfim o que ia nascendo, o que se ia criando, os passos inaugurais dos costumes e do progresso da comunidadezinha plantada pelo conselheiro José Antônio Saraiva, o fundador. E os forrós. E os serenos de baile. E a discurseira laudatória nos banquetes e bródios. Quantas cousas antigas, com cheiro de mofo, o bom do padre buscou em registros velhos e delas fez obra saborosa.

Neles o pesquisador preocupa-se sobretudo com a verdade e tem coragem de assentá-la e escrevê-la. As lições dos seus livros constituem fonte segura para conhecimento de variado aspecto da história do Piauí, que ele expõe e analisa com critério. Oferece estilo plástico, prosa ágil, sabe reviver o passado e os homens que o construíram, e as criticas de forma imparcial e cuidadosa.

De mim, julgo-o historiador sereno, hábil, metódico, às vezes irreverente, apoiado sempre sobre invulgar capacidade de discernir e interpretar.

Teresina tem bons historiadores, como Pereira da Costa, Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, para citar alguns mortos ilustres. Dos vivos, muitos são os pesquisadores dos acontecimentos que se verificaram na cidade criada por José Antônio Saraiva, entre os quais Julio Romão da Silva, que recompôs a fundação da cidade num estudo sério e fiel a verdade.

O padre Chaves não se preocupou apenas com os episódios da vida histórica e politica da cidade que tem o nome de gente nobre, foi além, revelando, em livro curioso, aspectos sociais e pitorescos da cidadezinha tranqüila e afetiva. Antes dele, preocupado somente com os costumes do fim do século XIX, só Abdias Neves, num romance naturalista.


A. Tito Filho, 21/12/1990, Jornal O Dia

A CATERVA

Em 1931, jovens da sociedade teresinense criaram uma curiosa sociedade a que deram o nome de A CATERVA. Foram eles Jacob de Sousa Martins, Clemente Honório Parentes Fortes, Anízio de Abreu Cavalcanti, Ismar Bento Gonçalves, Raimundo de Moura Rego, Gonçalo Lopes Lima, José do Patrocínio da Silveira Caldas, Afonso Barbosa Ferreira, Firmino Ferreira Paz e Wagner de Abreu Cavalcanti. Tratava-se de "uma congregação unida por afinidade intelectual" e os criadores desejavam sobrepor-se ao marasmo da inteligência do meio. Reinava a pobreza material que não permitia iniciativas sérias.

O seminário dominical "O Lábaro" constituía a imprensa da mocidade. Nas suas páginas revelaram-se talentos. Tinha feitio literário, mas cessou de existir por razões financeiras.

Surgiu, a 3 de maio de 1931, "A VOZ DO NORTE", com rápida conquista de leitores cultores. Tinha aspecto sadio e nas suas páginas Moura Rego e Wagner Cavalcanti publicavam elogiadas concepções de prosa e poesia.

Nesse tempo vivia Antônio Lemos, o SEMANA, respeitável figura do jornalismo piauiense, que editava o órgão político A LIBERDADE, em cuja sede ele suportava pacientemente as declamações de Wagner, as piadas de Clemente Fortes, as sátiras de Afonso Ferreira.

Os rapazes conjugavam-se, espiritualmente, e formaram um bloco especial, A CATERVA, nome escolhido por Anízio Cavalcanti e aprovado pelos colegas.

Havia em Teresina um lugar de afluência de estudantes, o Arquivo e a Biblioteca Pública do Estado, e aí se liam livros de literatura e de outros gêneros. Nesse ambiente surgiu a ideia da fundação de um jornal literário, que foi A VOZ DO NORTE, e de uma entidade de sócios restritos, integrada dos setores do órgão, denominada A CATERVA, em que preponderava a afinidade moral e intelectual dos seus membros.

Um interessante e curioso grêmio cultural, que não tinha prazo de reunião. Os jovens que o constituíram puderam sacudir a sonolência intelectual dos teresinenses nesses inesquecíveis anos da década de 30.


A. Tito Filho, 16/01/1990, Jornal O Dia

O DIA: histórias e fatos de um tempo

Era o ano de 1951. Dia 31 de janeiro, Pedro Freitas assumiu o cargo de governador do Piauí, eleito pelo antigo Partido Social Democrático (PSD). Na eleição realizada no ano anterior, venceu ele nas urnas, por maiorias de seiscentos e poucos votos, o candidato da União Democrática Nacional (UDN), Eurípedes Clementino de Aguiar, que já havia sido chefe do Poder Executivo no quadriênio 1916-1920.

UDN e PSD valiam ferrenhos e odientos adversários desde o ano em que foram criados no país, 1945. No Piauí, em festa de udenista, pessedista não punha os pés. Viviam os dois partidos em permanente furdunço de descomposturas recíprocas, pelos jornais.

Demais de tudo, Rocha Furtado, eleito pela UDN para governar de 1947 a 1951, muitas perseguições havia feito aos pessedistas, tanto na capital como no mais distante arraial de Pau Fincado ou Pindura Saia.

Também os derrotados por Pedro Freitas alegavam que a maioria de votos sobre Eurípedes teria sido prebenda do Tribunal Regional Eleitoral.

Tais circunstancias mais acirravam as odiosidades comuns. Os udenistas, apeados do poder, preparavam-se para campanha severa e ruidosa contra o novo governante. De sua vez, os pessedistas, quatro anos debaixo de taca e muita taca, lambiam os beiçoes na prelibação da vingança.

Nesse clima, assumiu o governo Pedro Freitas (31-01-1951). E nesse clima surgiu "O DIA" (01-02-1951), fundado por Raimundo Leão Monteiro, mais conhecido como Mundico Santídio, de apelido Mão de Paca. Tipo baixo, gorducho, pança grande, de faces vermelhonas. Defeituoso da mão direita, daí a alcunha que lhe deram, havia anos. Homem de muita inteligência prática. Foi professor do ensino médio. Viajado, conheceu a Alemanha. Não resta dúvida de que era hábil mecânico. Mulherengo. No jornal, fazia tudo, menos escrever. Sabia compor em linotipo, paginar, imprimir, trabalhos que realizava com maestria. Tinha o vicio do palavrão. Dizia-se ateu. Em roda de si, dez, doze colaboradores espontâneos, que dinheiro algum recebiam.

A verdade é que esse homem, temido por muitos, incorporou-se à história do jornalismo piauiense. O seu jornal o "O DIA" era lido e apreciado.

Na primeira fase, a folha do saudoso Mão de Paca teve como redator-chefe o competente Orisvaldo Bugyja Britto, conhecedor, estudioso, de memória invejável, linguagem asseada. Passados 27 anos, Bugyja ainda está, entre nós, lembrando os tempos principiantes do órgão de imprensa que ele ajudou a criar, a engatinhar e a crescer.

No começo, "O DIA" apresentou-se de tamanho pequeno. Quando ingressamos, por volta de 1952, no corpo de colaboradores, havia aumentado de alguns centímetros. Circulava dias de quinta-feira e domingo, manhã cedo. Oficinas no fundo do quintal da casa de residência do diretor e proprietário, num galpão, rua Lisandro Nogueira. Dele participamos na qualidade de colaborador, da mesma forma que Pedro Conde, Valdemar Sandes, Olimpio Costa e outros, cada qual no seu devido tempo. Mundico Santídio publicava os artigos com pseudônimo. A gente Fornecia os comentários sem assinatura, mas circulavam com nomes esquisitos (Desidério Quaresma), alatinados (Petrus Mauricius), à moda russa (Edgaroff) e de maneiras outras da invenção de Mundico. 

Quando assumimos o lugar de diretor do Colégio Estadual do Piauí (hoje Colégio Estadual Zacarias de Góis), em 1954, por falta de tempo nos afastamos da atividade jornalística, a ela volvendo em 1959, no mesmo jornal "O DIA", com artigos de vários assuntos, publicados com a responsabilidade de nossa assinatura. Movemos intensa campanha contra o governo Chagas Rodrigues (UDN-PTB). Jornalismo vibrante, higiênico, estilo elevado, criticas de bom gosto. O jornal teve tiragem dobrada. Edificações esgotavam-se rapidamente. E recordamos o fato como circunstancia de justiça: Mundico Santídio ocasião alguma cortou uma linha de nossos escritos e nunca nos pediu que poupássemos as figuras governamentais, que, inclusive, lhe forneciam publicidade. Costumava dizer: artigo assinado, assinado está, logo...

Pelas colunas do jornal, fizemos campanhas memoráveis, entre as quais destacamos três: a dos professores injustamente exonerados por Chagas Rodrigues, e para eles ganhamos mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal; a defesa dos deputados Dirno Pires Ferreira e João Clímaco de Almeida, acusados do roubo de linotipos do IBGE. As máquinas haviam sido apreendidas por ordem de Chagas Rodrigues. Foram devolvidas. Finalmente, aquela em favor das prerrogativas do Tribunal de Justiça, sob a presidência de um homem corajoso, sem medo e sem mácula, Robert Wall de Carvalho, que pediu intervenção federal no Estado, com a finalidade de fazer com que o governo cumprisse mandado de segurança concedido ao advogado Raimundo Richard. Não se verificou a intervenção porque Chagas Rodrigues cumpriu a ordem.

Escrevemos hoje estas linhas sem nenhuma mágoa de Chagas Rodrigues, o jovem governador do Piauí no período 1959-1962, que tanto fez por sua terra e por sua gente, como chefe do Executivo e na qualidade de deputado federal mais de duas vezes. Era homem de visão. Bem intencionado e sincero com o povo.

Mil novecentos e sessenta e dois. Ano de campanha eleitoral. Chagas Rodrigues arrendou "O DIA" confiando a redação a jornalistas de sua escolha. Mais uma vez deixávamos de ser colaborador do órgão criado por Mundico Santídio.

Nosso caminho diário para o Liceu passava pela frente da residência de Raimundo Leão Monteiro, que, a esta altura, 1963, estava novamente dirigindo o jornal, encerrando o contrato com Chagas Rodrigues. Certo dia do mês de abril, pouco depois da morte de meu pai, manhazinha, seguíamos (no) rumo das aulas. Mundico, na calçada de sua residência, chamou-nos. Fez-nos crer que a autoria dos artigos contra nós, publicados noutro jornal da terra, pertenciam a ilustrado médico de Teresina, contra quem nos pediu que escrevêssemos um artigalhão de criticas impiedosas. Encomenda feita, encomenda realizada. O escrito saíu com pseudônimo. Mas o digno médico interpelou Mundico Santídio por intermédio da Justiça e Mundico não quis guardar segredo de redação nem assumir responsabilidade. Resultado: fomos aos bancos dos réus. Praticamos a própria defesa, com critério e ponderação. Expusemos que a responsabilidade de artigos sem assinatura sempre coube a direção do jornal, mas não fugimos ao critério moral de afirmar que éramos o autor material do artigo. Nosso acusador foi o saudoso amigo Celso Pinheiro Filho. Fomos absolvidos pela unanimidade dos jurados. Perdemos a amizade do médico, injustamente ofendido, e ainda hoje a consciência nos diz que obramos mal, escrevendo para satisfação de malquerenças alheias. Não ficamos agastados com Mundico Santídio. Dentro em nós, soubemos desculpá-lo. Ao menos reclamamos contra a sua atitude. Apenas nos afastamos do jornal.

A memória não nos acode agora, para que registremos o ano em que a valente folha passou a pertencer a Octávio Miranda, comprada a Mundico Santídio. Sabemos que o "O DIA" teve redação e oficinas num antigo templo protestante da rua Areolino de Abreu, prédio de esquina, no cruzamento com a rua Sete de Setembro. Orientou-o a cultivada inteligência e grande capacidade de trabalho de José Lopes dos Santos. Em maio ou junho de 1966, porém, comandava-lhe a redação o ilustre e corajoso Deoclécio Dantas, que nos fez convite para a escritura de artigos de fundo, orientadores da opinião pública. Armamos ali tenda noturna de trabalho. E diariamente escrevíamos os chamados editoriais do jornal.

Convivemos com Octávio Miranda dois anos, mais ou menos, em "O DIA". Havia entre nós, de vez em quando divergências. Mais de uma ocasião deixamos a tenda e mais de uma ocasião a ela voltamos. Tínhamos e temos muito amor ao jornal, que circulava diariamente e constituía obrigatória leitura nossa. Diariamente "O DIA" se modificava para melhor. Intimamente, gostávamos de Octávio. Admirávamos a sua persistência em dotar Teresina de um bom jornal. O homem tinha qualidades invejáveis. Uma delas era sentar o rabo na rapadura e da rapadura não erredar pé.

Conhecemos Octávio Miranda como militar, cioso da farda. Depois, como deputado estadual, entre 1947 e 1951.

No jornal, procurávamos examiná-lo nas atitudes e nos gestos. Superficialmente, parecia arrogante. Tinha fala forte, autoritária. Gostava de reunir a equipe para combinar orientações, e definir serviços.

Por dentro, entretanto, outra individualidade. Boníssimo sujeito. Caridoso, de caridade cristã. Dava-se ao próximo e ao próximo se dá sem querer recompensa ou agradecimento. Operário doente, jornalista necessitado - lá está ele com a ajuda, com o gesto de conforto. Em 1966, tomamos avião aqui para casamento no Rio. Octavio não nos faltou com a cooperação financeira.

Homem fora-de-série, emprega milhões para dar a Teresina um jornal moderno. A seu lado, a equipe inteligente, trabalhadora, dedicada, que sabe fazer jornal, do operário ao editor.

Tem Octávio Miranda um coração pleno de bondade. Idealista objetivo, sempre imaginou fazer cousas bem feitas. E assim vem realizando com "O DIA", uma obra humana de que ele se orgulha, de que nós todos nos orgulhamos, diariamente, quando o jornal sai com as noticias e o bom bocado dos artigos de interpretação e o excelente repasto das notáveis reportagens. Condimenta-o ainda o saldo de um humorismo fino, elegante, caprichado, nos dias de domingo.

Nele se destaca o sujeito de iniciativa, de visão ampliada, de largos horizontes para conceber e realizar. Quando viu Teresina espremida entre os dois rios, inventou o Jóquei Clube. E do Jóquei nasceu uma cidade, uma boniteza. Se ainda vivo quando Octávio morrer, haveremos de lutar para que o Jóquei Clube passe a chamar-se Octávio Miranda - gesto de justiça muito nobre.

Hoje, 1º de fevereiro, "O DIA" faz 39 anos de serviços a Teresina, que está de festas, aplaudindo o jornal que já se integrou à paisagem espiritual da cidade fundada por Saraiva.

Continua hoje orientado por Octávio, com a ajuda desse dinâmico Valmir Miranda. Editor, José Fortes, jornalista até debaixo d'água, consciencioso, redator de boa linguagem, argumentador sem medo. E muita gente boa, humilde, do meu tope, humilde mas audaciosa.


A. Tito Filho, 01/02/1990, Jornal O Dia