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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

DENOMINAÇÕES

Várias vezes me têm perguntado, pessoas cultas e gente do povo, de onde provém a palavra veado, no sentido de homossexual.

Essas designações de cousas relacionadas com o sexo são quase sempre da inteligência das comunidades. Parece que existe vocabulário especializado para a expressão da vida e das necessidades sexuais. O acontecimento normalíssimo das regas tomou nomes interessantes como paquete, bandeira vermelha, incômodo, chico. No meu tempo de menino era bode. Mocinha pálida, colega de estudos, estava de bode. O órgão genital masculino se chama por vários modos: pinto, pau, cacete, manzape, careca. Quando ginasiano, Martins Napoleão mandava que se fizesse a leitura de "As Pombas", de Raimundo Correia. Era de ver a risada geral da turma de moças e rapazes.

O homossexual masculino, por esse Brasil imenso, recebe diversificada denominação: afeminado, efeminado, adamado, amaricado, maricas, mariquinhas, bicha, bicha-louca, boneca, rodinha. Adolescente, eu sempre ouvia em Teresina chamar-se o pederasta passivo de fresco.

Veado foi tirado do latim venatu, o mesmo que animal de caça, donde se fez venatório, relativo a caça. Arte venatória traduz a arte de saber caçar. Essa proveniência não explica nem justifica o veado que se aplica aos homossexuais. Consultei mestres e dicionários. Topei num livro, titulado “A Evolução das Palavras”, de A. Tenório de Albuquerque, com este ensinamento: "Ouvimos diversas explicações para essa surpreendente modificação de sentido, para essa verdadeira perversão de sentido, sem que, entretanto, nenhuma satisfizesse. Temos a impressão de que se trata de uma simples tradução do alemão HIRSCH. O médico judeu Dr. Magnus Hirschfeld, o fundador da ciência sexual, foi um defensor denodado do homossexualismo, do chamado terceiro sexo".

Albuquerque escreve que houve um período, na Alemanha, em que esteve com grande evidência o nome do Dr. Hirsch. É possível que esse nome servisse para indicar os homossexuais. Talvez algum alemão houvesse empregado no Brasil o vocábulo HIRSCH com a significação plebéia e alguém que traduzisse, vulgarizando-se o vocábulo.

Simples conjectura, já se vê. O próprio estudioso do assunto reconheceu a circunstância.


A. Tito Filho, 10/04/1990, Jornal O Dia

domingo, 6 de novembro de 2011

APRECIAÇÃO

Theobaldo Costa Jamundá nasceu em Pernambuco. Buscou as torres catarinenses e fixou-se na simpática e encantadora Florianópolis e aí constituiu família e projetou-se como um dos mais destacados nomes da vida literária do Sul do País. Morenão como eu, afável, de primoroso coleguismo, fez-se piauiense também, enamorado de Teresina. Já visitou o Piauí algumas ocasiões e à Academia Piauiense de Letras ofereceu duas vezes, como gesto de amizade, o magnífico coral de Santa Catarina, que encantou a gente teresinense e de outros municípios. Dádiva de Teobaldo. Oferta desse amigo leal e correto.

Agora, em data de 31 de outubro, ele me manda carta, escrita no seu original estilo de mestre da língua e da prosa e diz assim sobre Alvina Gameiro:

"Meu presidente Tito Filho.

Informei-me in Notícias Acadêmicas nº 56, arauto ímpar da nossa egrégia Academia Piauiense de Letras, que a escritora maior ALVINA GAMEIRO, no dia 14 do referido mês passado, foi eleita para a Cadeira 14.

Diz-me a informação o ter alcançado votação unânime na coerência de duas verdades: 1. O valor intelectual da escritora; 2. O acerto antológico da votação.

E estas duas verdades sustentam-se na ausência de surpresa. E ser candidata única cochicha-me o conhecimento da inteligência piauiense explicando: O VALOR LITERÁRIO DE ALVINA GAMEIRO É ÍMPAR NO UNIVRSO DAS LETRAS MERECENTES DO ZELO DINAMIZADO PELA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS.

Pelo evento de inteligência marcante de um momento especial, no sodalício onde sou menor na participação e maior de corpo inteiro no BEM QUERER que voto, apresento o aplauso ambivalente aos acadêmicos eleitores, quitando-me com ALVINA GAMEIRO e com a Academia Piauiense de Letras.

Colocando-me na certeza que existe uma Literatura Piauiense, aparteia-me no bestunto um argumento enfiando-me diante da ponta do nariz o indicador persuasivo: a eleição de ALVINA GAMEIRO para a Cadeira 14, prova a vitalidade intelectual consciente e sublima a autora de CURRAL DE SERRAS.

Este livro que possuo deu-me o amigo maior A. Tito Filho em março de 1983. E foi não foi releio uma ou outra de suas 280 páginas como a ruminar encanto. Como por exemplo: "MUITO ADIANTE, NO QUEBRAR DA MÃO DIREITA, NA RAÍZ DE UM PÉ DE MORRO, UM MARRUCO GAITEAVA, ROUQUEJANDO RECADO AGOURENTO PR'A QUEM TIVESSE TOPETE DE GANHAR RUMO DAS FÊMEAS QUE QU'ELE TAVA CASTIÇANDO". (Cf. pág. 43).

Quem tem prosa assim tem voto certo para qualquer Academia de Letras da Língua de Camões.

Aliás até no título: Curral de Serras, este livro é seleto. E como se não bastasse revelar a escritora que sabe escrever manipulando matéria tomada nos molduramentos da Geografia e da Paisagem Humana piauienses.

Sem dúvida ALVINA GAMEIRO é escritora privilegiada pelo engenho da imagística que Deus distribui antologicamente".


A. Tito Filho, 09/11/1990, Jornal O Dia

sábado, 5 de novembro de 2011

OBRA PRIMA

Folk é povo; lore é ciência. Folclore - ciência do povo, ao pé da letra.

Tenho que folk corresponde a povo em sentido espiritual, para impor costumes e hábitos. Em sentido material, de habitantes, o inglês usa people.

É longa a história de folk.

O cético bal / força, multidão/, também pronunciado val, entrou para o latim, e nesta língua deu valere / ser forte, valer/, vallere /fortificar/ e vulgare /espalhar, divulgar/. Entre os derivados de vulgare está vulgus, o povo, a multidão, o vulgo português, o volk alemão e o folk inglês. O folclore /aportuguesadamente/ - diz Gustavo Barroso/ - abraça vastíssimo quadro da vida popular. Pode-se dizer que é toda ela: construções aldeãs, marcas de propriedade em cousas e bichos, objetos úteis, arte, psicologia das gentes, costumes, ornatos, vestes, alimentos, cerimônias, regras jurídicas, jogos, folguedos, brinquedos infantis, instrumentos, religião, medicina, canções, provérbios, inscrições, músicas, danças, autos, pastorais, facécias, anedotas, linguajar, contos, mitos, lendas, denominações de toda espécie.

Em virtude de abranger os processos de vida do povo, no passado como no presente, já se chama o folclore de folk-life. Life é vida.

Joaquim Ribeiro acentua que a palavra folclore está consagra como denominação da ciência destinada a estudar a infra-história dos povos. Pura ciência histórico-social.

Parece que o folclore é um só, comum a todos os povos. Artur Passos salienta tais circunstâncias: "Outro aspecto do maior interesse ainda é o atinente ao folclore regional, se é que o folclore tem região, se o seu local não é apenas uma configuração do vasto campo mundial".

Referem-se os folcloristas ao folk-tale, estudo dos mitos, contos e lendas tradicionais. A literatura se povoa de muitos contos e romances e de personagens da vida real enfeitados pela imaginação popular. As comunidades sustentam que o povo aumenta mas não inventa - e as estórias recebem acréscimos aguardado, porém, a essência da verdade. A fantasia dos lobisomens nasceu de episódios verídicos. Ninguém ainda se deslembrou do padre que virava bicho e de noite pulava no meio da estrada para assaltar mulheres com intentos libidinosos. Umas destas, corajosa, enfrentou a visagem e deu-lhe segura facãozada. Descobriu-se depois que o vigário tinha um braço decepado.

Não cabe aqui estabelecer diferença entre mito, conto e lenda, mas dar a esta a característica de provir da concepção popular em torno de acontecimentos, de heróis, de individualidades famosas. As lendas se apóiam em fatos e pessoas tradicionais, que passam de geração a geração, modificando-se.

No Brasil, figuras históricas participam do folclore, e entre outras cumpre salientar Ana Jansen (Maranhão); Miguel de Sousa Martins (Visconde da Parnaíba); Luís Carlos Pereira de Abreu Bacelar, Luís Carlos da Serra Negra (no Piauí); Dona Beja e Xica da Silva (Minas Gerais); Amadeu Bueno (São Paulo), dos quais se espalham gestos e atitudes às vezes oriundas da interpretação popular.

Josias Carneiro da Silva buscou a fama ingrata de Simplício Dias da Silva e dela fez livro maravilhoso. nada inventou. Antes recolheu a voz do povo, o reconto andante da boca em boca, e realizou das mais ilustres narrativas que tenho lido. A gente não sabe mais distinguir nesta escritura, e o acertado é que cada um de nós admite o extraordinário conjunto de cousas do outro mundo, de crendices, de corpo-secos, almas do outro mundo, aspectos geográficos da Europa, arte, requintes, nobiliarquia, tudo exposto numa linguagem sã, vivaz, clara, para entendimento de leigos e doutores. Estilo elegante como convém aos mestres no assunto.

O confrade da Academia Piauiense de Letras abdicou das glórias patrióticas enaltecedoras de Simplício Dias da Silva, de quem mais arrecadar somente a moldura lendária, enfim as estórias maravilhosas que em torno dele criou a sabedoria do povo, que sempre aumenta, mas não inventa, conta o conto e acrescenta um ponto.

O livro ficará como obra-prima do folclore piauiense, melhor dizendo do folclore universal, porque o folclore não tem pátria, não se conforma com regiões, goza de universalidade. SIMPLÍCIO SIMPLIÇÃO DA PARNAÍBA é o título da obra-prima.


A. Tito Filho, 10/11/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

CONSIDERAÇÕES

Criou-se a primeira Escola Normal do Piauí em 1864, no governo Franklin Américo de Meneses Dória, instalada em 1866, com 23 alunos. Destinava-se ao preparo de professores para o ensino primário. Extinta em 1867 e reaberta em 1871, anexa ao Liceu Piauiense, no Governo de Sousa Leão. Extinguiu-se outra vez em 1874, novamente reaberta no governo de Almeida e Castro, 1882. Nova extinção se deu em 1888, quando presidente da Província Raimundo José Vieira da Silva.

Em 1908, os intelectuais Antonino Freire, Matias Olímpio, Antônio da Costa Araújo Filho, Abdias Neves, Francisco de Morais Correia e Francisco Portella Parente criaram a Sociedade Auxiliadora da Instrução, com a finalidade precípua de instituir o ensino normal, com a denominação de Escola Normal Livre, cujo primeiro exame de admissão se efetuou em fevereiro de 1909. Assumindo o governo do Estado a 15-3-1910, Antonino Freire, no mesmo ano, criou, no lugar da primeira, a Escola Normal do Estado do Piauí, inaugurada no dia 15-5-1910. Faria agora 80 anos.

No século passado, a efêmera Escola Normal teve como diretores, que eu sabia, Manoel Ildefonso de Sousa Lima, Polidoro Cesar Burlamaqui e Teodoro Alves Pacheco.

A partir de 1910, dirigiram-na: Miguel de Paiva rosa (1910-1912), José Joaquim de Morais Avelino (1914), Francisco Portela Parentes (1915), Manoel Sotero Vaz da Silveira (1916-1918), João Alves dos Santos Lima (1919), João Pinheiro (1919-1922), Anísio de Brito Melo (1923-1926), Benedito Passos de Carvalho (1927-1933), Maria de Lourdes Martins do Rego Monteiro (1933-1945), Nantilde Rocha de Sá (1946), José Severino da Costa Andrade (1947-1948), Odilon Nunes (1949-1950), João Rodrigues Vieira (1951-1958), Oscar Olípio Cavalcanti (1959-1962), Afrânio Messias Alves Nunes (1962-1965), Raimundo Gonzaga de Freitas Mamede (1966-1967), Carlos Augusto Daniel (1968-1969), Maurício Camilo da Silveira (1970), Roberto Gonçalves de Freitas (1971-1975).

No período de 1971 a 1975 implantou-se o Instituto de Educação Antonino Freire, homenagem prestada à antiga Escola Normal, em 1947, no governo Rocha Furtado, quando esta passou a chamar-se Escola Normal Antonino Freire.

Nas décadas de 20, 30, 40 e 50 as normalidades eram uma festa nas ruas de Teresina. Bonitas quase todas. Farda elegante. Gestos educados. Gozavam de muito prestígio social. Os dois mais importantes cinemas de Teresina homenageavam-nas semanalmente. Aluna da Escola Normal, fardada, não pagava entrada. Marido de professora vivia quase sempre à custa da própria.

Talvez haja algum engano nos períodos dos diretores.


A. Tito Filho, 06/05/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

AINDA HINO NACIONAL

Em 15 de janeiro de 1890, contingentes da Marinha desembarcaram no Rio para saudar o chefe da esquadra Wandenkolk, também ministro da Marinha. Houve grandes passeatas e discursos vibrantes. O orador Serzedelo Correia pediu que o hino de Francisco Manuel da Silva fosse adotado como Hino Nacional. Houve grandes manifestações do povo favoráveis à idéia. Deodoro da Fonseca, no momento, em nome do governo, declarou que o Hino Nacional de Francisco Manuel da Silva seria conservado como da Nação Brasileira. Manteve-se o concurso já agora para escolher a música do HINO DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA. Foi vitoriosa a composição de Leopoldo Miguez, com letra de Medeiros e Albuquerque.

Decreto nº 171, de 20 de janeiro de 1890, assinado por Deodoro da Fonseca, Aristides Lobo, Campos Sales, Benjamim Constant e Demétrio Ribeiro:

"Art. 1º É conservado como Hino Nacional a composição musical do maestro Francisco Manuel da Silva.

Art. 2º É adotado sob o título de Hino da Proclamação da República a composição musical do maestro Leopoldo Miguez, baseado na poesia do cidadão José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque”.

O decreto, como se vê, não tratou da letra do Hino Nacional.

Contra a fala de letra oficial, houve vários protestos, inclusive do deputado federal Coelho Neto. Nomeou-se comissão para rever a música de Francisco Manuel da Silva. Membros: Alberto Nepomuceno, Frederico Nascimento e Francisco Braga, que sugeriu a abertura de concurso público para escolha da letra.

Coelho Neto, na Câmara dos Deputados, apresentou projeto, autorizando o governo a criar prêmio de dois contos de réis para a melhor composição poética que se adaptar com todo o rigor do ritmo à musica do Hino Nacional Brasileiro. Isto em 1909.

Surgiram várias letras, entre as quais a de Osório Duque Estrada, que caiu depressa no domínio do público.

O concurso proposto por Coelho Neto nunca se realizou. A letra de Osório Duque Estrada permaneceu difundida até 1922, sem oficialização. Mas a 21 de agosto do mesmo ano, Epitácio Pessoa assinou o decreto nº 4.559, permitindo o Poder Executivo adquirir, pela importância de cinco contos de réis, e letra do Hino Nacional, escrita por Joaquim Osório Duque Estrada. Feita a aquisição, Epitácio Pessoa, em 6 de setembro de 1922, baixou o decreto nº 15.671, declarando oficial a letra do Hino Nacional Brasileiro escrita por Joaquim Osório Duque Estrada.

FRANCISCO MANUEL DA SILVA nasceu na antiga capital do país, em 21 de fevereiro de 1795. Era violinista. Compôs principalmente hinos e músicas sacras. Morreu a 18 de dezembro de 1865, na cidade em que nasceu.

JOAQUIM OSÓRIO DUQUE ESTRADA veio ao mundo na cidade de Vassouras, Estado do Rio de Janeiro, a 29 de abril de 1870. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Poesia, jornalista e crítico literário. Publicou várias obras.


A. Tito Filho, 19/01/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 1 de novembro de 2011

TAPETY

Em 1988, publiquei neste jornal O DIA algumas considerações em torno do poeta oeirense Nogueira Tapety, cujo primeiro centenário de nascimento se comemora a 30 de dezembro de 1990. Em razão da proximidade dessa data, o ilustre presidente do Instituto Histórico de Oeiras, Pedro Ferrer, me faz justa reivindicação, a de reeditar o artigo referido, o que faço agora.

Nascido na fazenda Canela, do município de Oeiras (PI), em 1890. Pais: Antonio Francisco Nogueira e Antônia Pereira Nogueira. Formou-se pela Faculdade de Direito do Recife. Fez o curso jurídico assinando Benedito Francisco Nogueira. A denominação Tapety, apelido de família, conforme depoimento de Cristino Castelo Branco, ele resolveu incorporar ao próprio nome - Benedito Francisco Nogueira Tapety, literalmente Nogueira Tapety.

Promotor público, em 1912, da antiga capital do Piauí. Ano seguinte, delegado-geral de Teresina, com serventia no gabinete do governador Miguel Rosa. "Foi a oportunidade - conta Celso Pinheiro Filho - de Tapety reencontrar-se com os doutores boêmios, e os poetas simplesmente boêmios de sua geração, que faziam serenatas até o alvorecer".

Jornalista desde o tempo de estudante, colaborou no "Diário de Pernambuco", do Recife. Na capital piauiense tornou-se colaborador freqüente de "O Piauí" e enviava trabalhos para "O Diário", de Belém.

Cristino Castelo Branco lembra os seus colegas piauienses nos estudos jurídicos: "Desses, um dos mais inteligentes era sem dúvida o mulato de Oeiras, que a tuberculose levou em janeiro de 1918, aos vinte e sete anos de idade: Benedito Francisco Nogueira Tapety. Bom estudante, orador fluente, poeta inspirado". E acrescenta que sua maior aspiração estava em casar com uma moça bem alva, para ter filhos cor de café com leite: "Arrebatou-o a morte antes dessa suspirada produção de mestiços".

Em 1914, pronunciou conferencia no Theatro 4 de Setembro, de Teresina, sob o título "A Luz", em que estuda o sol perante a ciência, a religião e a literatura.

Passou à poesia e tornou-se magnífico poeta.

Lecionou filosofia, psicologia e lógica. Ano de 1915, surgiram os primeiros sintomas do mal que o vitimaria, a tuberculose. Buscou cura na Ilha da Madeira, chamada Pérola do Atlântico, pertencente a Portugal. Esperava a cura da natureza, do clima. Iniciou vida nova de muita fé. Fazia versos de entusiasmo e os publicava em jornal ilhéu. Admirável a sua "Ode a Madeira", dedicada a Laura Veras, dona do hotel em que se hospedara e que o tratava como filho querido e doente.

Finalmente a doença venceu todos os recursos. Quis morrer na fazenda Canela, pedaço de terra de seu nascimento. Aí o visitou o poeta boêmio Baurélio Mangabeira, um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras.

Ao falecer, em 1918, a casa em que morava foi purificada pelo fogo: a rede, as roupas, os calçados, os papéis, tudo queimado. Alguns acadêmicos, para homenagear-lhe a memória, propuseram que fosse incluído no quadro, da instituição, mesmo sem posse, e o seu nome passou a titular da cadeira 15, como primeiro ocupante.

Escreveu alguns poemas na ilha portuguesa e publicou-os.

Tapety tem lugar de relevo nas letras piauienses. Infelizmente o Piauí pouco ou quase não conhece a história e a grandeza espiritual dos seus grandes filhos, injustamente esquecidos e raramente estudados.


A. Tito Filho, 14/08/1990, Jornal O Dia

RECORDAÇÕES

Meu pai e Eurípedes de Aguiar muito se estimavam. As vicissitudes da vida e os deveres da solidariedade estabeleceram entre ambos sólida amizade, que os anos não arrefeceram, antes aprofundaram, e o fato fez que eu tivesse no incontestável homem público um amigo certo, a quem ofereci admiração e respeito. Com a subida de Rocha Furtado ao governo, as figuras mais ativas de O Piauí, Eurípedes, Martins Vieira e Ofélio Leitão receberam cargos oficiais, como auxiliares da administração que se inaugurava. Afastaram-se do jornal, cuja direção Eurípedes me entregou, e pude desempenhá-la com leal observância dos princípios partidários. Transmitia-a, de ordem, ao poeta José Severino da Costa Andrade.

Em maio de 1947, tive nomeação como delegado de polícia da capital. Por esta forma passei a trabalhar com Eurípedes, chefe de Polícia, e nas funções me conservei algum tempo.

Privei com Eurípedes no jornal e nos encargos do xerifado. Dele recebi conselhos e proveitosas lições de experiência. Nunca o vi covarde, nem prevalecido de prestígio para perseguir ou humilhar. Uma feita me ensinou que a gente deve gastar tempo, tinta e papel para se defender de ataque inimigo pelo jornal. Antes se ataca com mais violência o diatribista.

Eurípedes não tinha ódio a ninguém. Apenas - me contou certa vez - nunca perdoaria maldade que certo cidadão lhe fizera, desnecessariamente. Jamais o havia perseguido, mas nunca praticaria gesto que o beneficiasse. Quando Rocha Furtado pretendeu premiar essa conhecida figura, Eurípedes, como secretário geral do Estado, recusou-se a assinar o ato. Não houve o benefício. Disse-me Eurípedes: "Esperei-o anos a fio, detrás do pau, cacete em punho. Chegada a hora, dei-lhe a cacetada merecida".

Eurípedes era doutor em assentar apelidos gostosos e sarcásticos nos adversários: Soim da Prefeitura, Cascavel de Quatro Ventas, Carregador de Piano - e outros que depressa caíam no agrado popular e se tornavam obrigatórios nas palestrações de praça e na linguagem debochativa dos jornais. Para que se compreendam essas irônicas alcunhas torna-se necessário conhecer as personagens que elas batizam, pois os ditos se ajustam ao modo de ser de cada um.

De igual modo, processava-se a vingança adversária. Poucos homens públicos tiveram tantos batismos grosseiros e jocosos como ele. Urso Branco, Euripão, Macacão dos Matões, Gostosão da Vicença, para citar alguns.

Presenciei episódios em que se envolveram Eurípedes e gente que com ele não simpatizava, a exemplo de Edgard Nogueira e Humberto Reis da Silveira, casos de desfechos gozados. Raros jornalistas e homens públicos conheci com tanto humor, tanto sal de espírito, a serviço de fina ironia e contundente sarcasmo. Mas nele coexistiam a honestidade, o brio, o destemor, a paixão de ideais nobres. Honrou os cargos que lhe foram confiados, pelo voto ou pela vontade de governantes.

Vários companheiros de luta participaram da via de Eurípedes, como Ofélio Leitão, uma das penas mais fortes e admiradas da imprensa piauiense, pelo asseio da frase, expressão bem construída, afirmação de coragem. Dono de boa e séria leitura. Professor culto, antigo procurador geral da Justiça, durante anos exerceu funções advocatícias no Banco do Brasil, e que dedicou honestas conhecimentos jurídicos. Cidadão simples, de palestra alegre e jovial, muito amigo do próximo, bondoso com os pequenos, de humanos pecados, da forma que se revelam os construídos do barro bíblico, proprietário, entretanto, de um bocado de virtudes espirituais.


A. Tito Filho, 08/12/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

JULGAMENTO

O ministro da Agricultura, Iris Resende, enviou à Academia Piauiense de Letras a seguinte mensagem:

"Impossibilitado de comparecer à sessão solene em que a histórica Academia Piauiense de Letras empossa o ilustre escritor João Emílio Falcão Costa Filho em sua Cadeira 26, tendo como Patrono o escritor Simplício Resende e o exemplo de sua vocação, tomo a liberdade de daqui enviar a minha congratulação à Casa e aos seus dignos integrantes.

Conheci João Emílio Falcão em Brasília e logo notei uma personalidade singular em sua atividade de jornalista.

Dono de uma marca extremamente pessoal de trabalho, é um jornalista sempre inquieto e curioso, permanentemente contemplando o mundo à sua volta a preocupação de consertar o que não está correto.

Com seu estilo próprio, sabe ser sarcástico em suas crônicas no jornal quando a situação o exige, implacável nas suas perguntas como entrevistador na televisão quando defende o bem comum, mas também um homem extremamente generoso.

Falcão, como jornalista, convive em altas rodas de poder participando de discussões e confabulações da política nacional, mas não se ilude em relação a realidade.

Com muita argúcia, sabe distinguir o mundo real do mundo dos poderosos e, ao mesmo tempo, não perde a atenção sobre problemas que acontecem por toda parte, por mínimos que sejam.

Enquanto discute os mais altos problemas da República, Falcão não esquece o humilde brasileiro que, no ponto mais remoto do território nacional, enfrenta um problema qualquer, como o pequeno agricultor às voltas com a necessidade de sobreviver.

Verifiquei mais tarde que esse é o universo do escritor João Emílio Falcão, com a mesma inquietação, curiosidade, preocupação, argúcia, espontaneidade e generosidade.

Com a mesma marca pessoal, o escritor Falcão revira o mundo da ficção em busca de contribuições concretas para a justiça social, que vão além das preocupações estéticas de um artista, sempre sem perder qualidades eminentemente literárias.

É comovente a preocupação do escritor com as misérias e os pobres coitados que se perdem no interior deste Brasil imenso, relegados pelas elites pensantes e administrativas, mas que, na realidade, constituem a grande massa que, muitas vezes anonimamente, faz o Brasil, o Brasil real.

A posse de João Emílio Falcão como membro da Academia Piauiense de Letras é, evidentemente, o reconhecimento definitivo dos valores do escritor, que em cenário tão ilustre passa a ter mais espaço para o seu trabalho e suas inquietações de cada dia, além de valorizá-lo com a sua presença.

Estou certo que, com esta posse, a imortal Academia, o grande escritor e todo o Piauí avançam mais ainda na unidade entre todos, na identificação da obra que constroem e no aprofundamento de seus compromisso com as artes, o pensamento crítico e o mundo que nos envolve".


A. Tito Filho, 03/03/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

HINO NACIONAL

Com a Independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, surgiram vários cânticos de louvor à liberdade. Um deles foi o de Francisco Manuel da Silva, que depois tornou o Hino Nacional Brasileiro. O autor não conseguiu divulgar nem executar oficialmente a música que compusera para saudar a independência da pátria.

A consagração da música de Francisco Manuel da Silva veio em 1831, quando abdicou Dom Pedro I. Era grande o descontentamento do povo relativamente ao imperador, que havia dissolvido a orquestra da Capela Imperial, suspeitando que os músicos lhe eram infiéis. E estes passaram a reunir-se num armarinho da rua Senhor dos Passos, onde se fez a letra do hino.

O hino de Francisco Manuel da Silva tomou o nome de SETE BR ABRIL, data da abdicação do imperador. Escreveu a primeira letra o poeta Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva, nascido em Parnaíba, Piauí. Música e letra tocada e cantada no dia 13 de abril de 1831, quando o ex-monarca deixava o Brasil.

Com a proclamação da República adotou-se o hino nacional francês - A MARSELHESA - durante dois meses como HINO PROVISÓRIO, para comemorar o acontecimento. E surgiu a música de Ernesto Fernandes de Sousa, com letra de Medeiros e Albuquerque, enaltecendo o novo regime.

Muito se passou sem novo hino nacional. Para compô-lo foi convidado Carlos Gomes, que não aceitou o convite, alegando que a música de Francisco Manuel da Silva era de exemplar beleza. No dia 22 de novembro de 1889, o governo instituiu concurso para a música destinada ao HINO DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL, que deveria ser adaptada aos versos de Medeiros e Albuquerque. Apresentaram-se vinte e nove compositores. Mas a imprensa fazia campanha em favor da música de Francisco Manuel da Silva.


A. Tito Filho, 18/01/1990, Jornal O Dia

sábado, 22 de outubro de 2011

DIA DO PIAUÍ

Em 1937, a Assembléia Legislativa converteu projeto na lei 176, instituindo 19 de outubro como Dia do Piauí, proclamada em Parnaíba em, 1822.

Pereira da Costa, na sua célebre Cronologia Histórica do Estado do Piauí, escreveu que naquela data a vila da Parnaíba levanta o grito de independência do Piauí, e aclama o príncipe D. Pedro imperador do Brasil, sob os influxos dos patriotas João Cândido de Deus e Silva, coronel Simplício Dias da Silva, capitão Domingos Dias da Silva, José Ferreira Meireles, capitão Bernardo Antônio Saraiva, o escrivão Ângelo Costa Rosal, Bernardo de Freitas Caldas e o tenente Joaquim Timóteo de Brito, entre as mais vivas e ruidosas manifestações populares.

A notícia chegou a Oeiras, sede do governo português, e logo o comandante das armas de Portugal, João José da Cunha Fidié, seguiu com a infantaria e a artilharia para sufocar o gesto cívico, mas os patriotas haviam abandonado a vila, refugiando-se no Ceará.

Monsenhor Joaquim Chaves tem a impressão de que os independentes da Parnaíba, àquela altura dos acontecimentos, ainda não sabiam bem o que queriam. O próprio Simplício Dias afirmou: "Observo no geral aplacado o fogo que motivou aquele procedimento e no particular muito arrependidos".

Aproveitando-se da ausência de Fidié e seus soldados, Manuel de Sousa Martins, futuro Visconde da Parnaíba, a 24 de janeiro de 1823, manhãzinha, proclama a independência do Piauí e Pedro imperador do Brasil, e estabelece novo governo com a destituição das autoridades portuguesas.

O professor Wilson Brandão atribui aos gestos dos parnaibanos caráter revolucionário, mas com a notícia da próxima chegada de Fidié aos chefes revoltosos, diz ele, afligem-se, apavoram-se, acordavam-se.

Espedito Resende, embaixador do Vaticano, falecido, fala, no livro "Piauí", dos dois focos revolucionários, o de Parnaíba, mais sofisticado intelectualmente e talvez admitindo a unidade de soberania, e o de Oeiras, comandado por um homem corajoso e que se apoderou de toda máquina do governo para dominar a capital.

Odilon Nunes registrou nas suas "Pesquisas" que Parnaíba admitiu unir-se a Portugal, para que se constituísse uma confederação, restaurando-se o Reino Unido. Admite, porém, que os parnaibanos abriram caminho a Oeiras.

Até 1937, os piauienses comemoravam a independência a 24 de janeiro. Em 1923, no governo João Luís Ferreira, houve uma semana de solenidades homenageadoras do 1º centenário do gesto de Manuel de Sousa Martins. E mais, em homenagem à data foi instalada, em 1918, a Academia Piauiense de Letras, e ainda hoje o brasão do Piauí ostenta a data de 24 de janeiro de 1823. Pereira da Costa escreveu que a 31.08.1859 lei provincial determina no artigo 24 que o dia 24 de janeiro, aniversário da adesão do Piauí à independência nacional, e feriado em todas as repartições provinciais.

Em Parnaíba, onde se aquartelou, Fidié teve tempo bastante para disciplinar as tropas e receber material bélico do Maranhão. Era necessário retornar a Oeiras e retornar o governo. Dia 1/3/1823, com mais de mil homens, o chefe militar português marcha no rumo de Piracuruca (PI). Deveria Fidié alcançar Campo Maior, aonde chegou a 13.03.1823, às margens do rio Jenipapo, que seria atravessado. Terreno plano. Piauienses, cearenses e maranhenses, vaqueiros e roceiros, perto de dois mil homens, comandados por Nereu, Chaves e Alecrim, ocultaram-se no leito seco do rio, entre os arbustos. Houve os primeiros choques. Grande perda de vidas entre brasileiros, armados de velhas espingardas, facões, machados e foices. Fuzilaria e canhões portugueses varriam o campo. Os nossos caíam à boca das peças. Buscavam a morte.

O combateu durou das 9 da manhã às 2 da tarde, sob sol escaldante. Houve a retirada dos vencidos, mas Fidié não teve condições de perseguir os fugitivos.

não se sabe o número de mortos portugueses, reunidos em cinco sepulturas. Fala-se em dezesseis. Sessenta feridos. Mais de quinhentos brasileiros aprisionados e mais de duzentos entre mortos e feridos.

Tornava-se necessário que Fidié ocupasse Campo Maior, mas os adversários lhe furtaram a bagagem de guerra: armas e munições. Iniciaram-se tropelias e começaram os assassinatos de portugueses. O comandante resolveu seguir para o Estanhado, hoje União, e daí para Caxias (MA), onde, cercado, resistiu, mas acabou vencido e prisioneiro.

A luta no Piauí decidiria a unidade brasileira, pois Portugal queria dois Brasis: o do Norte para ele, rico em gado, o dinheiro do tempo, e o do Sul, ainda pobre e sem condições de abastecer-se, justamente o Brasil de que os portugueses não faziam conta.

No Sul a independência valeu um grito, aplauso e festa. No Norte, fome e peste, sangue e morte. A batalha do Jenipapo foi carnificina pavorosa.

Alberto Silva, no seu primeiro governo do Piauí, fez justiça, erguendo à memória dos heróis da sangrenta luta um monumento de extraordinária beleza cívica.

Achamos que a verdadeira independência do Brasil se verificou a 13.03.1823, às margens do rio Jenipapo, perto da cidade piauiense de Campo Maior.


A. Tito Filho, 21/10/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

CUNHA E SILVA - II

Cunha e Silva (1, 2) veio de Amarante, terra piauiense do seu nascimento, em 1947, ano em que subiu ao governo do Piauí o médico José da Rocha Furtado, eleito pela antiga União Democrática Nacional, a mesma agremiação partidária do professor recentemente falecido. Antes, em 1935, acusado e processado, teve condenação como comunista pelo extinto Tribunal de Segurança Nacional. Cumpriu mais de um ano de pena na velha e demolida Penitenciária de Teresina.

Conheci-o no Jornal do Piauí, órgão de imprensa do governo, cuja direção me havia sido confiada por Eurípedes de Aguiar. Mestre Cunha me aparecia duas, três vezes por semana. Levava-me artigos assinados, uns de doutrina, outros de severas críticas ao Partido Social Democrático, de oposição.

Nessa época, o governo lhe confiou uma cadeira de Geografia no Colégio Estadual, antigo Liceu.

Não permaneceu muito tempo nas hostes governistas. Era jornalista de linguagem forte, às vezes agressiva, e gostava muito de proclamar as suas verdades. Rompeu com o governador Rocha Furtado e perdeu o cargo no magistério. A política da época não admitia censuras de amigos ou adversários. A punição não falhava. Os rebeldes perdiam o emprego público, tivessem ou não responsabilidades de família...

Pobre e carregado de filhos pequenos, sem casa própria, Cunha e Silva suportou severa adversidade. Ajudavam-no alguns amigos e colegas. Conheceu de perto duras e pesadas aflições. Mas não dava tréguas ao governo. Escrevia sempre artigos contundentes, violento contra o governante e seus auxiliares. Conseguiu modestíssimo lugar no antigo Fomento Agrícola. Trabalhava na Granja Pirajá, bem distante de sua residência. Brevemente se aborreceu do emprego e largou-o para suportar novas pesadas vicissitudes.

Tinha ânimo forte. Não abaixava o topete. Com a vitória de Pedro Freitas ao Governo do Estado, mereceu duas cadeiras no magistério de geografia e história, no Liceu e na Escola Normal. Passou a ganhar sofrivelmente. No Governo Petrônio Portella, foi escolhido para cargo em comissão, de diretor da Casa Anísio Brito, de que em pouco se exonerou para prestar solidariedade a amigo desavindo com o governador.

Os anos a pesar-lhe o organismo sofrido de muitas lutas. Não arrefecia, porém. Escrevia e lecionava. No Governo Chagas Rodrigues teve a nomeação como diretor do Colégio Estadual. Depressa deixou as funções em protesto contra o juiz da capital que concedeu mandato de segurança a um professor por ele punido.

Os princípios da velhice e depois fizeram que serenasse mais as atitudes. Disciplinou-se. Ingressou na Academia Piauiense de Letras, que lhe publicou duas obras elogiadas, "A República dos Mendigos" e "Copa e Cozinha", ambos de crítica aos costumes sociais e políticos de Teresina.

Muito sofreu. Muito se realizou, combatendo os poderosos sem temer violências ou perseguições.


A. Tito Filho, 11/02/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ALVINA

Todos os conheciam em Teresina. Técnico competente e afamado. Veio da terra do nascimento, Portugal, antes da 1ª Grande Guerra, e fixou-se em Belém. Depois, contratado pelo governo do Piauí, assistiu no interior piauiense, município de Oeiras, para montar máquinas de fabricação de laticínios.

Por muito chão - Pará e Terra de Mafrense - gastou dez anos de vida, a partir de 1912, e escolheu a Chapada do Corisco, a cidade fundada por Saraiva, para, em 1922, nestas de funilaria, até a viagem derradeira, no ano da graça de 1953 - a viagem sem bilhete de volta. Trinta e um anos de xodó e de amigação com a comunidadezinha simples e humilde, a que ele oferecia a constância de gestos de afeto, socorrendo os velhos com dinheiro e refeições.

Chamou-se Pedro Antônio Maria Fernandes, conforme o assento de cartório. Ao chegar ao Brasil, as autoridades viram a palavra Pedro entre parênteses no final do nome todo, então quiseram que ali estivesse o antenome ou pronome.

Não corrigiu o equívoco. E Pedro ficou como designativo de família.

Antônio Fernandes Pedro exercia a indústria e o comércio numa casa do centro de Teresina, esquina com o antigo Banco do Brasil, na rua Eliseu Martins, perto da praça Rio Branco. Era um prédio baixo, atijolado, bem limpo, em que o dono tinha também o reto agasalhador. Num dos lados, o que dava para a rua Barroso, havia a loja de venda dos objetos por ele fabricados - e aí se reuniam os comandantes intelectuais do meio, de amanhã e de tarde - e como Antônio Pedro lhes apreciava a convivência diária, para o cafezinho e boa prosa ilustrativa, alegre e folgozã. Esmaragdo de Freitas, Cromwell Carvalho, Mário Baptista, Higino Cunha, Celso Pinheiro, Martins Napoleão, Pedro Britto, Cristino Castelo Branco, Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, Simplício Mendes, Benjamin Baptista, Álvaro Ferreira, Arimathéa Tito, Artur Passos e muitos ouros - magistrados, médicos, poetas, historiadores, políticos, gente fina, fizesse sol ou deixasse de chover, não dispensavam o bate-papo com o funileiro, do modo que afetivamente era chamado o português de bom caráter e excelente camaradagem, de agudo senso intelectivo, trabalhador, alma feita de fraternidade.

Alvina Fernandes Gameiro teve para quem puxar o gosto pelas cousas do espírito. Filha de Antônio Pedro, como o pai, desde meninota gostava de tudo que proviesse da inteligência.

Alvina publicou agora Curral de Serras, obra-prima da literatura nacional, em primorosa edição de editora carioca.

O ponto alto deste Curral de Serras é a fixação da linguagem desses trechos humanos sem contatos com o processo e com as transformações dos modos de viver dos povos.

A linguagem dos homens se manifesta por processos vários. Há a literária, polida, asseada, rica, regida por preceitos gramaticais, existe a usual, despoliciada, de todas as horas, a linguagem chã, planiciana, de estragos fonéticos, governada pelo menor esforço, aquela que é o veículo de entendimento geral. Adiante linguagem dos gestos - dos dedos, da cabeça, do piscar de olhos. E ainda a gíria, por via da qual o povo ironiza pessoas e episódios, e estabelece relações entre os objetos, a gente e os fatos. E mais: o processo da linguagem emotiva e o do calão. E também uma maneira especial de comunicação, de causas profundas - um modo de ser representado pelo linguajar das pequenas paisagens populacionais, de reduzidas comunidades de povo, de lugarejos e vilas - um processo alatinado, cheio de encanto, de originalidade, de sabor ingênuo, conservado, inconscientemente, durante anos a fio, pelos habitantes desses arraiais, em virtude da segregação e da distância.

Alvina "fotografou" essa linguagem que se mantém no caipira, no matuto - e a grande escritora oferece mais ao leitor: um correto glossário, de natureza explicativa, tão íntegro quando a ciência que a autora tem do material lingüístico estudado.

Raras vezes a vida literária nacional recebe obra de lavor e de encanto, a modo deste Curral de Serras, romance ímpar, obra-prima de criatividade e documento da expressão sincera do caboclo nordestino.


A. Tito Filho, 14/10/1990, Jornal O Dia

sábado, 15 de outubro de 2011

HISTÓRIA DE DOENÇAS

No carnaval de 1959, fui impiedosamente molhado por chuva torrencial em Teresina. Começo de março, sentia calafrios na boquinha da noite e febre e dores me caceteavam. Dores e febre aumentavam dia por dia. Após um mês no Hospital Getúlio Vargas, os médicos me aconselharam o Rio de Janeiro. Viajei cedinho, nos velhos e seguros aviões DC-3, que realizavam chatíssimo pinga-pinga com pousos em Bom Jesus da Lapa, Salvador, Ilhéus, Montes Claros, Belo Horizonte, Vitória, finalmente a velha capital brasileira, aonde se chegava pelas oito da noite. Seguia recomendado a um célebre doutor, dirigente de casa de saúde, a cujas portas bati e tive ciência de falta de vaga. Encaminharam-me a outro hospital, até que alguém, morrido ou estabelecido, desocupasse quarto.

Ingressei, modo provisório, noutra casa de saúde, e nela recebi assistência de um doutor magro, sabido como o diabo. Auscultou-me e interrogou-me e consentiu em que eu padecia de muita fome. E já noite puxada mandou que me servissem presunto e pão.

Uns três dias depois me internei no hospital recomendado pelos médicos do Piauí. Submeti-me a uns trinta exames. Diariamente os médicos seguiam novos rumos. Não agüentavam mais o regime hospitalar. Certo sábado, o famoso Dr. Fernando Paulino me disse, triunfante, que deveria operar-me do baço, retirá-lo do organismo. Recusei-me, pedi a conta, paguei-a e me hospedei em modesto hotel do centro da cidade.

Sentia-me melhorado, mas as dores e a febre me mortificavam. A família, tias e primos, me cercavam de cuidados. Andei por mais uns seis médicos, e ninguém acertava o meu mal. Certo doutor deliberou que um dos meus rins se encontrava fora do lugar. Devia operar-me. Nova recusa. Foi quando procurei o Dr. Luís Carvalho, casado com a bonita Teresinha Alcântara, minha antiga aluna e rainha do centenário de Teresina. Fui examinado no próprio apartamento do boníssimo casal. Luís assentou que eu tinha inflamação da pleura, uma pleurite. Gostaria de examinar-me em radioscopia na manhã seguinte, mas logo me receitou injeção, chamada, se a memória me acode, KANTREX. Tomei-a de noite. Amanheci sem dores. Os exames confirmaram o mal. enganei muitos tipos ruins de Teresina que rezavam por um câncer.

Curado, voltei à capital piauiense, reassumi cargos e encargos. Quatro meses depois, retornei ao Rio, para uma verificação médica no organismo. Tudo funcionava normalmente.

Hospedado no mesmo hotel a quando da doença, o Rex, preferido dos piauienses de classe média, na sala de espera, certo dia, encontrei Josípio Lustosa, triste e desanimado. Estava de operação marcada. Tumor no cérebro. Tinha certeza do desenlace. Já se havia despedido dos familiares em Teresina. Aconselhei-lhe que não se operasse sem ouvir médico amigo e me ofereci para levá-lo ao Dr. Luís Carvalho. Acolheu a sugestão. Acompanhei-o. Luís examinou-o detidamente algum tempo, os dois em sala privativa. Nada grave. Josípio, segundo o médico, padecia de reumatismo.

Estes fatos se passaram em 1959. Josípio da Silva Lustosa faleceu em fevereiro de 1990, mais de sessenta anos depois do acontecido. Nunca fez operação na cabeça. Salvei-o, buscando uma tábua numa derradeira esperança. Mas deu certo.


A. Tito Filho, 05/04/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

CULTURA

Rui Caetano Barbosa de Oliveira era o nome todo do grande brasileiro, que se reduziu a Rui Barbosa, cuja cultura jurídica causou admiração aos nomes mais notáveis na célebre conferência de Haia, na Holanda, menos conhecido no seu país de nascimento, nos dias de hoje, do que um dançador de lambada. Veio ao mundo num 5 de novembro, escolhido para que nele se comemore o dia da cultura. Que cultura? Cultura pode dizer-se o conjunto de processos de vida de um povo e por este modo se dirá da sua felicidade ou desgraça. Como se caracterizam os brasileiros? Uns cinco por cento passam à tripa forra, no luxo, nos grandes centros turísticos, donos da escravaria de milhões cujo trabalho vale salário mínimo, que mal compra meio quilo de carne por dia. No país colonizado por portugueses safados habitam uns cento e vinte milhões entre os analfabetos, os que mal assinam o nome, os que treinam o desenho do voto, o empresariado da indústria e do comércio que apenas lê a cotação do dólar, os bandidos milionários de colarinho branco, as crianças e adolescentes sem escola, os que não têm a mínima idéia do que seja conhecimento da ciência, da literatura, das demais artes, das lições da natureza.

Como educar para a cultura? Pelos instrumentos necessários e competentes, pelas instituições sociais, pelos meios de comunicação. No Brasil esses modos de interpretação das coletividades funcionam? Nunca dos nuncas. Família pervertida e sem autoridade, escola falida ou de balcão comercial, meninos sem afeto materno, ausência completa de leitura, inexistência de princípios morais, linguagem de calão, autoridades sem equilíbrio mental, televisão a serviço da violência ou do sexo ao vivo. Por mais que os heróis, e são poucos, se esforcem, conseguem quase nada neste deserto de homens e de idéias em que * o Brasil. Antigamente havia ao menos o bom exemplo dos responsáveis pela vida pública. Hoje, besta é o que não furta e enche o bandulho da dinheirama resultante de privilégios criminosos. Que se fez do cinema como arte que sempre foi, cujos temas estavam nos grandes conflitos humanos ou nas comédias que mostravam a vida e suas personagens com naturalidade e espontaneidade?

Conheci o Brasil de outros tempos em que o governo incentivava a vida teatral e surgiam as companhias de artistas que na verdade educavam por intermédio de peças bem interpretadas e de mensagens que faziam o povo observar a crua realidade das causas. Era bom. O teatro nacional viveu dia de glória e esplendor artístico. A dança e a música se dirigem nestas últimas décadas aos instintos de um povo sem o menor vislumbre de lucidez mental. Foi-se o tempo de um Francisco Alves, o velho Chico, que enviava melodias ao espírito romântico das gentes. Agora as multidões ululantes se requebram enlouquecidas com as desordens das gritarias dos roquiniróis.

Pobre Rui Barbosa. No dia da cultura, criado para homenagear o notável brasileiro, o Brasil já não possui um insosso ministério da cultura, financiador de péssimo cinema e que jamais efetivou, nas tevês e nos rádios, programas culturais, embora esses instrumentos sejam concessões do governo. A cultura nacional se resume nos mais degradantes processos de vida da sua população, socada nas favelas das megalópoles, jovens sem horizonte buscando na droga o lenitivo da degradação física e mental, a legião dos analfas e dos obtusos de inteligência, a esperteza como sistema de triunfo, as perversões sexuais de protestos contra a masculinização feminina - eis a homenagem que o Brasil vem prestando a Rui Barbosa, esse homem desconhecido.


A. Tito Filho, 06/11/1990, Jornal O Dia

* Apagado no original

terça-feira, 11 de outubro de 2011

RENATO E PAULO

Renato Castelo Branco e M. Paulo Nunes são duas das mais prestigiosas figuras intelectuais do Piauí. Sobre livro do segundo, recentemente lançado, escreveu o primeiro:

"São Paulo, 20-11-89,
Caro M. Paulo Nunes
Irmão em Piauí:

Eu já conhecia o seu "A Província Restituída" e, através dele, seu telúrico amor a nossa Província, que compartilho, arrastando comigo vida afora (como você) sua indelével carga emocional.

Agora chega-me às mãos, por gentileza de nosso infatigável Arimathéa, um exemplar de "O Discurso Imperfeito".

Se, no primeiro, eu havia apreciado o literato e o crítico, no segundo admiro sobretudo o educador.

Em "Província Restituída" o crítico literário analisa, com lucidez e amor, a vida e/ou obra de ilustres conterrâneos (sempre o Piauí), entre os quais Luís Mendes Ribeiro Gonçalves, a quem tive a honra de substituir, na Academia Piauiense de Letras, na cadeira 19. E, por que não? – também, Luís de Camões, orgulho de todos nós lusófilos, cuja obra analisa com o mesmo carinho com que trata do "Porto da Imaculada Conceição de Marruás".

Em "O Discurso Imperfeito", o educador faz uma reavaliação de nosso panorama sócio-cultural e de nossa problemática educacional, que o coloca ao nível de nossos mais eminentes educadores, a exemplo de Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Paulo Freire.

Mas o que principalmente resulta em ambos é o amor à cultura, a vocação de servir, o humanismo construtivo e pragmático que o acompanham desde a juventude.

Cordialmente,
RENATO CASTELO BRANCO".


A. Tito Filho, 10/01/1990, Jornal O Dia

domingo, 9 de outubro de 2011

FIGURA EXEMPLAR

Edmée Rego Pires de Castro tem estudo valioso sobre a poesia e sobre compor versos líricos de muita arte e expressividade. Dela recebo bem redigidas letras com o título ESTEIRA LUMINOSA, nestes termos:

"Tomei conhecimento de um acontecimento marcante na vida católica de nossa cidade, através de Notícias Acadêmicas, informativo da Academia Piauiense de Letras. Na coluna sob o título Notícias, li que Monsenhor Antônio Sampaio da APL, estará em Fátima, Portugal, para um retiro espiritual comemorativo dos seus 50 anos de sacerdócio.

Monsenhor Antônio descende de tradicional família católica. Seus pais foram Firmino como era chamada afetuosamente, senhora distinta, admirada por suas peregrinas virtudes.

Monsenhor Sampaio nasceu nesta cidade, aqui fez o curso primário e iniciou o curso secundário no ex-Ginásio Parnaibano. Logo após ingressou no Seminário de S. Luís, no Maranhão. Ordenou-se em Teresina, no dia 8 de dezembro de 1940 e celebrou a primeira Missa, em nossa Catedral de N. S. da Graça, o que foi motivo de regozijo para todos os fiéis, que participaram com fervor da festiva celebração.

Vale ressaltar o seu perfil de homem dedicado ao serviço de Deus, afável, acolhedor, sempre amigo encaminhando o povo católico para trilhar as sendas da vida cristã, não só quando vigário de nossa Catedral, mas também como diretor espiritual, conselheiro e juiz. "Feliz aquele que encontra um amigo e conselheiro prudente e fiel. Encontrou um tesouro". Pregador de retiros espirituais, orador sacro, suas pregações em linguagem pura, nítida, admirável e suave orientam as almas indicando o caminho da salvação. Professor insigne, atualmente dedicado ao ensino dos jovens vocacionais no Seminário Diocesano. É Administrador Apostólico desta diocese, pela palavra, pela pena e pelo exemplo dignifica o cargo que ocupa na hierarquia da Igreja.

Para os que têm fé há diferença entre um sacerdote e um leigo, embora tenham pontos em comum. Um sacerdote é um homem semelhante aos outros pela sua natureza, é um cidadão de seu país, fala a mesma linguagem, mas está afastado do mundo por uma educação especial, hábitos e costumes são diferentes, não são idênticos aos das pessoas do século. Ele recebeu uma consagração que o distingue dos outros homens e o tornou "homem de Deus para sempre" com o caráter indelével. É um ministro sagrado, é um membro docente da Igreja. "É a voz que clama no deserto" para quem quiser ouvir. Só ele tem essa missão e graça clamando pela justiça, misericórdia contra toda a iniqüidade, sempre interessado em tudo que diz respeito à felicidade temporal e eterna dos seus concidadãos.

Assim é Mons. Antônio para o povo de Deus que o estima. Desde a juventude até hoje, tem permanecido constante e infatigável na sagrada peleja. Em Fátima, em retiro espiritual, acompanha-o a oração dos fiéis em uníssono dando hosanas ao Senhor, pela passagem do seu jubileu sacerdotal e pedindo a Deus que derrame bênçãos especiais na esteira luminosa de seu sagrada ministério. E aos pés da Virgem, contrito e fiel, pode suplicar como o salmista:

"Deus, desde a juventude me ensinaste/ proclamei até hoje teus prodígios / e que eu possa Senhor, anunciar / as gerações vindouras teu poder!".


A. Tito Filho, 11/12/1990, Jornal O Dia