Quer ler este texto em PDF?

Mostrando postagens com marcador intelectuais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador intelectuais. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

FOLCLORE

Nos meus brincos de infância, em Barras e no velho Marruás, hoje Porto no Piauí, gente idosa, parentas velhas, caboclas da terra contavam estórias bonitas e medonhas, umas de arrepiar cabelo, outras de deleite e encantamento. Quando da adolescência em Teresina, meninos do meu tope se reuniam de noite nas calçadas do médico Benjamin Baptista, conceituado e culto, e cada qual narrava contos de macaco, de onça, de gigantes, de heróis e de bandidos, e um desses colegas era filho do dono da casa, Stanley Baptista, que pela dedicação aos livros e caráter bem formado, se tornaria das mais brilhantes figuras do Exército Nacional. Momentos felizes e alegres; dava gosto vivê-los, e nunca se supunha que eles se fossem, deixando memórias inesquecíveis.

Aos 14 anos de idade comecei a ler romances nacionais e portugueses. Li "A Moreninha", de Macedo, e a obra completa de José de Alencar. Nessa época, Juca Feitosa, figura muito conhecida, rico comerciante, mantinha na capital piauiense loja de várias mercadorias, inclusive livros. Tive oportunidade de adquirir obras lusitanas, algumas de Camilo Castelo Branco e uma, bem me lembro, de exagerado romantismo, "Tristezas à Beira-Mar", de Pinheiro Chagas. Vendia-se também a coleção SIP, constituída de romances de aventura e de amor; que traziam, na capa, dois dedos em forma de V e por baixo do desenho a escrita MIL RÉIS, isto é, cada volume valia dois mil réis, e MIL RÉIS foi a unidade monetária vigorante até 1942. Entre muitos apreciei "A Patrulha da Madrugada" e "Naná". Júlio Verne estava na moda.

Tomava-me de entusiasmo com a sua ficção maravilhosa, que se incorporou à história contemporânea, com a visita do homem à lua. Li quase tudo do admirável francês. Da adolescência tão presente ainda no meu espírito foi a série de publicações TERRA-MAR-E-AR. Livros de tipos bons e tipos maus, em terras estranhas e distantes. Pratiquei leitura de Tarzan, o herói das selvas africanas criado por Edgar Rice Burroughs e pratiquei-a de fia a pavio.

X   X   X

Com a leitura de "Encanto e Terror da[s] Águas Piauienses", desse mágico Josias Carneiro da Silva, relembro os tempos de menino, delicado com as lendas de bichos e de gente, parecido com as de outras águas do mundão de Deus, assim do jeito do caboclo-dágua do São Francisco, o urutau ou jacaré gigantesco do Paraíba do Sul, o boiúna e o boto do Amazonas.

O folclore mostra a vida coletiva na sua cultura material e na sua cultura espiritual. As águas constituem fontes de lendas, mitos, fantasias, imigrações. Na Bahia, os pescadores celebram o despacho da mãe-d'água, cerimônia mágica em que se atiram oferendas ao mar para que aquela personagem mística os liberte de infortúnios na pescaria. A tradição mediterrânea está nas sereias, a que Homero se referiu. A Iara tem encantos irresistíveis, que o genial piauiense José Newton de Freitas pôs num poema, ao cantar o jangadeiro: "Enquanto seus filhos/ficaram chorando/ele está morando/beijando, beijando/a iara bonita,/no fundo do mar".

No livro se salienta o paciente pesquisador Josias Carneiro da Silva e se revivem monstros aquáticos, que a tradição recolheu e guardou. Mas Josias Carneiro realiza o mais brilhante estudo com o cabeça-de-cuia, que o talentoso piauiense João Alfredo de Freitas colocou em "Lendas e Superstições do Norte".


A. Tito Filho, 29/11/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

JOVITA

Jovita Alves Feitosa, cearense de nascimento, vivia em Jaicós (PI). Tinha 17 anos quando se apresentou em Teresina, como voluntária para a guerra do Paraguai. Seguiu da capital do Piauí para o Rio em 1865. Multidão aclamou-se em São Luís. À noite, homenagem no teatro e aí coberta de flores. No Recife, a recepção esteve mais intensa. Na Bahia, a mesma cousa. Hospedou-se no palácio da presidência da província. No Rio, recebida com muitas festas. Mas o governo não permitiu a sua ida para o teatro da guerra, como militar. Voltou ao Piauí. Mal recebida pela família em Jaicós, regressou ao Rio. Iniciou relações com o engenheiro Guilherme Noot, que teve de retornar à Inglaterra, deixando-lhe bilhete de despedida. Jovita procurou a residência do amante e lá soube que era verdadeira a viagem para a Inglaterra. Foi ter ao quarto em que ele residiu. Horas depois, a empregada da casa encontrou-a na cama, deitada, com a mão sobre o coração, no qual havia cravado um punhal até o cabo.

A peça teatral "Jovita ou a heroína de 1865" foi concebida em três atos: o 1º, de cenário em Jaicós-PI, publicou-se com o título original de "Pelo amor e pela pátria"; o 2º, e o 3º tiveram os títulos de "Aos braços de Henrique ou aos braços da morte" (cenário em Teresina) e "Saiba morrer a que viver não soube" (cenário do Rio de Janeiro), respectivamente.

O drama histórico de Jônatas Batista encenou-se no Teatro 4 de Setembro, da capital piauiense, a 19.04.1914, nos seus três atos. Papel principal: artista Nena Pimentel, que representou Jovita. O autor fez as vezes de Anacleto Ferreira.

Infelizmente se perderam os dois atos complementares da peça, baseados na vida dessa cearense dos Inhamuns, que, aos 16 anos, passou a viver na vila de Jaicós, com um tio de nome Rogério. Pretendia estudar música. Arrebentando a guerra do Paraguai, a jovem vestiu roupa de homem, cortou os cabelos, cobriu a cabeça de chapéu de couro, e viajou sozinha para a Teresina. Na capital, procurou as autoridades. Queria alistar-se como voluntária da pátria, e seguiu com o segundo corpo de voluntários com destino ao Rio de Janeiro.

*   *   *

Ilustrados historiadores se preocuparam com a história de Jovita Alves Feitosa, da forma que fizeram o pernambucano Pereira da Costa e os piauienses Fernando Lopes e Silva Sobrinho, padre Joaquim Chaves e Humberto Soares Guimarães, para citar alguns.

Delci Maria Tito, faz algum tempo, vem pesquisando dados sobre mulheres que se tornaram notáveis em atividades políticas, educacionais, religiosas, assistenciais, literárias, ou que participaram de episódios históricos do Piauí. Trata-se de trabalho original, que ela pretende realizar com os dados biográficos e a obra fundamental prestada à sociedade a que cada uma dedicou esforços constantes, iniciando-se com Jovita Alves Feitosa, originária dos Feitosas do Ceará, a valente taba dos Feitosas, de que se têm ocupado escritores como Gustavo Barroso.

Teresina viveu noites animadas, mais de uma vez, no Teatro 4 de Setembro lotado, nas apresentações da peça histórica sobre o drama dessa infeliz sertaneja, de autoria de Jônatas Batista, de grande e merecida popularidade na época em que foi o principal animador, ao lado de Pedro Silva da vida teatral teresinense.


A. Tito Filho, 29/12/1990, Jornal O Dia

domingo, 25 de dezembro de 2011

DEZESSEIS BACHARÉIS

Foi bom. Passaram-se quarenta anos. Numa sala pequena, padrinhos e convidados espremidos, colaram grau, a 16 de dezembro de 1950, na antiga Faculdade de Direito do Piauí, dezesseis novos bacharéis, cada qual mais feliz do diploma conquistado. Presidiu a bonita solenidade o mestre de invulgar conceito Cromwell Barbosa de Carvalho, muito querido da comunidade teresinense. Eis a relação dos jovens da época, vitoriosos com a colação de grau e ricos de merecidos triunfos no correr dos anos: AFRÂNIO MESSIAS ALVES NUNES, professor, secretário da Educação, deputado estadual várias legislaturas, desportista, conselheiro do Tribunal de Contas, secretário do Trabalho, em cujo exercício se encontra. Prestou o juramento em latim em nome dos colegas de formatura. ALCEBÍADES VIEIRA CHAVES, juiz em comarcas do interior, atualmente desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão, que já presidiu. ESDRAS PINHEIRO CORREIA, promotor público, procurador da Justiça, membro do Colégio dos Procuradores de Justiça e do Conselho Superior do Ministério Público, corregedor geral do Ministério Público, agora no exercício de procurador-geral da Justiça. JOSÉ DE ARIMATHÉA TITO FILHO, professor e jornalista, escritor, diretor do Colégio Estadual do Piauí, secretário da Educação e da Cultura, desempenha as funções de procurador do instituto de previdência do Estado. Desde 1971 preside os destinos da Academia Piauiense de Letras. Orador da turma. JOSÉ BARBOSA, deputado estadual, prefeito de Altos, onde reside, em seguida promotor público. JOSÉ GUILHERME DO REGO MONTEIRO, advogado e procurador do Estado. MANOEL PAULO NUNES, alto funcionário do Ministério da Educação, secretário da Cultura no Piauí, escritor e membro da Academia Piauiense de Letras, desempenha o magistério universitário em Brasília. OMAR DOS SANTOS ROCHA, professor, advogado, criminalista, chefe do setor jurídico da Polícia Militar, funções que exerce no momento. Integrou a Força Expedicionária Brasileira na 2ª Guerra Mundial. RAIMUNDO EVERTON DE PAIVA, juiz de direito no Maranhão e desembargador do Tribunal de Justiça do referido Estado. SEBASTIÃO ALMEIDA CASTELO BRANCO, advogado e procurador de INPS em Fortaleza.

Os citados, com exceção dos indicados como residentes noutros cenários, assistem na capital piauiense.

Passo aos falecidos, saudosos companheiros: JOÃO LINO DE ASSUNÇÃO, advogado, morava na cidade maranhense de Caxias. CRISTOVÃO ALVES DE CARVALHO, faleceu como juiz de direito da comarca de Pio IX, no Piauí. JESUS DA CUNHA ARAÚJO, juiz de direito em Belo Horizonte, cidade onde se despediu da vida. MANOEL TEODORO DE SOUSA GOMES, professor e contador seccional do Ministério da Fazenda, em cujo exercício morreu. RAIMUNDO ACILINO PORTELA RICHARD, advogado, exercendo ainda, ao falecer, o cargo de advogado de ofício, correspondente a defensor público. ERNANI DE MOURA LIMA, deixou este mundo em elevadas funções no Banco Central da República.

Grandes mestres lecionaram a turma, à qual me incorporei no último ano do curso, quando regressei do Rio de Janeiro, antiga capital da República em que tive quatro anos de estudos, e regressei para assumir cargo federal. Não posso referir-me senão aos professores do 5º ano, como Clemente Fortes, o paraninfo dos concludentes, Edgar Nogueira, Ernesto Batista, João Martins de Moraes, Hélio Correia Lima. Mestres responsáveis, alunos vitoriosos.

Foi bom. Três ou quatro dias de festas dos novos bacharéis dessa época da mocidade. Ainda hoje, de vez em quando, os colegas se reúnem e comemoram o acontecimento. Está faltando a reunião agradável e alegre dos 40 anos.


A. Tito Filho, 16/12/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

NOS SUBTERRÂNEOS DO KGB

Na hora da glasnot, ou seja, da transparência,d e deixar que se abram as janelas para a União Soviética e a sua república central, a Rússia, é bom que os testemunhos mais ricos e claros sejam colocados ao alcance do leitor brasileiro, a bem de um esclarecimento que nos aproxime do sofrido povo russo.

Curiosamente através de revistas e jornais, temos obtido retratos bem esclarecedores sobre a vida na União Soviética, dos protestos em várias das suas repúblicas, da intervenção das forças armadas para conter esses protestos, sabemos da discussão política dentro e fora do Partido Comunista, até sabemos que se admite pela primeira vez a existência do pluripartidarismo, - mas nada se escreve sobre o KGB! E nós sabemos o que aconteceu com o DOPS, com o PIDE, até temos condições com o DOPS, com a PIDE, e até temos condições de avaliar o que se passa na CIA e no FBI, mas do KGB, nada.

Por isso, a oportunidade do lançamento deste livro, "Minha vida no KGB", que é a história de Stanislav Levchenko, um sentenciado à morte pelos famosos Komitet Gosudarstvennoy Besopasnosty.

É uma história de espiões onde a ficção é feita de fatos verdadeiros, onde os sofrimentos, as "caçadas", as matanças, os dramas e as fugas fizeram parte da vida excitante, trágica, e, por vezes, bizarra, de um espião russo muito bem sucedido.

Por que é que ele foi sentenciado à morte?

Aí você vai saber como é que o KGB controla a vida das pessoas e, em especial, a vida de Stan Levchenko. Como é que a chantagem faz com que as pessoas se rendam ao desempenho de papéis escusos e atentatórios aos seus próprios interesses, aos dos seus amigos que têm de trair para continuar a viver.

Levchenko acabou fugindo para o outro lado onde - para ele - existia um mínimo de segurança, afinal, nem ele tinha culpa de ter sido criado e instruído do lado errado.

STANISLAV LEVCHENKO é um homem marcado para morrer. Ele sabe demais sobre o KGB e, portanto, é um "arquivo" que precisa ser destruído. Foi condenado à morte e, por muito que viva, será sempre perseguido. Entretanto, seus amigos lutam para que ninguém saiba onde está, o que faz e o que pretende realizar. Sua segurança é a segurança de informações vitais para o Ocidente e para o definitivo ressurgimento da democracia na Rússia.


A. Tito Filho, 27/04/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

PAIXÃO E CIÚME

Paixão e ciúme. O ciúme, nos criminosos, aumenta ou diminui a pena?

Sou professor de português e confesso que tais assuntos não pertencem a minha especialidade profissional, razão pela qual me limito a transcrever abaixo opinião de juristas e estudiosos brasileiros e estrangeiros.

Trebutien, no "Curso Elementar de Direito Criminal", apesar da condenação que reclama para os criminosos passionais, reconhece que as paixões alteram a razão e o julgamento:

"A cólera e as paixões não são uma causa de absolvição. Elas podem alterar a razão e o julgamento, mas não os aniquilam completamente. A lei dá a prova a tal respeito, reconhecendo a existência de uma escusa simples e não uma causa de absolvição. Em todos esses a lei faz baixar consideravelmente a pena, porém mantém a criminalidade".

Não devem ser confundidas a paixão e a emoção. Definiu-as bem Ottolengui:

"A emoção é um estado agudo de excitação psíquica. A paixão é um estado emocional crônico. No primeiro temos o furacão, segundo o mar com os movimentos lentos das tempestades internas". (Psicopatologia Forense - citação de Severiano nos "Criminosos Passionais e Criminosos Emocionais" - pág. 12).

Realmente, há durabilidade e até cronicidade na paixão, equivalente afetivo da idéia fixa, no dizer de Letourneau.

O ciúme é paixão:

"As paixões que nascem de um desejo em estado de calma, e nutridas posteriormente, não apagam a reflexão senão no momento em que explodem. Tais são as paixões da vingança, do ódio, da ambição, da cupidez, do amor, do ciúme, as paixões políticas" - é o que afirma Haus.

Este esclarecimento é de Garrand: "Classificam-se as paixões em duas grandes categorias, constituindo uma nos movimentos violentos dalma e outra em um estado dalma resultante de desejos não reprimidos, tais como o amor, a ambição, o ciúme, o ódio, o fanatismo, a intemperança".

Saulle chegou a advogar para os passionais estabelecimentos especiais nos quais cumprissem as penas impostas.

Ingenieros atestou que os que matam por paixões são anômalos volitivos.

Ferri reconhece nos passionais certos estados que rompem o equilíbrio psicológico e provocam impulsos irresistíveis, os quais, quando oriundos de causa moral, devem até gerar a irresponsabilidade do agente.

Carrier admite que o ciúme possa tomar uma forma verdadeiramente mórbida. Moreau fala da loucura por ciúme. Esquirol atesta que o ciúme tem ligação com certas doenças mentais.


A. Tito Filho, 22/02/1990, Jornal O Dia

DIAMBA

Diamba é o nome de uma planta de que os negros faziam fumo, cujas folhas têm propriedades entorpecentes. Francisco Fernandes depõe que as flôres também se usam como narcótico.

A palavra parece vir do quimbundo, o mais importante linguajar da crença quando filia diamba ao quimbundo riamba, cânhamo.

Diamba, liamba e riamba são formas que designam certa variedade de cânhamo, erva mirtécea ou Cannabis sativa, nome científico.

Renato Mendonça entende que em quiamba o cânhamo chama-se Riamba, enquanto a forma liamba é conhecida no sertão africano. Segundo nota de Mário Marroquim, em Pernambuco e Alagoas vivem na língua popular as duas formas liamba e diamba. O maranhense Viriato Correia escreveu diamba: "Depois num domingo, em tempo de colheita, quando em casa, descansando da semana trabalhada, pitava a cabeça de diamba...". Em Pernambuco, Gilberto Freyre ouviu entre viciados diamba e liamba.

Francisco Fernandes faz, no Dicionário, referência às três formas, diamba, liamba, riamba, que se registram também no "Dicionário do Folclore Brasileiro", de Cascudo, Diamba é a preferida de Macêdo Soares: "Liamba é uma erva da India, que já de muitos anos se cultiva no Brasil. Os africanos entre nós usam desta planta no cachimbo, como fumo".

Pesar de ter nome africano, a planta parece ser originária da Ásia. É a opinião de Cascudo. Os negros trouxeram-na para o Brasil, para utilizá-la talvez nos banhos e bebidas de iniciação conforme ao depoimento de Manoel Querino.

A diamba, liamba ou riamba é ainda conhecida por outros nomes, como pango e maconha, também fumo de Angola. O notável Cascudo fala em gongo, mas houve certamente engano. Gongo não vale o mesmo que maconha. A árvore de cujo fruto se extrai bebida que embriaga é gongó.

A respeito de pango anotou Macêdo Soares: plantas cujas folhas usam os negros para pitar e que produzem o mesmo efeito do anfrião.

Não vi anfrião nos léxicos modernos. Registra-o o velho Morais com esta explicação: "É planta árabe, o mesmo que ópio".

Na Amazônia existe a maricana, de que se fazem cigarrilhas das folhas, de efeito hipnótico. É o que informa A. J. Sampaio, em "A Alimentação Sertaneja e do Interior da Amazônia".

Diamba, liamba, riamba, maconha, pango, gongó, fumo de Angola, maricana - qualquer nome que se lhe dê- a erva é hoje da predileção de gatunos e vagabundos, fumada pela malandragem para criar coragem e dar leveza ao corpo. Contra o seu uso e abuso faz a Polícia guerra permanente.


A. Tito Filho, 12/12/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

BIOMBO

Biombo é tabique móvel para divisão de compartimentos numa casa ou peça de madeira ou pano, próprio para armar e desarmar.

Muito se usou o biombo em outros tempos. Atrás dele se vestiam moças recatadas, Nos dias atuais desapareceu praticamente.

Em linguagem figurada, pode empregar-se biombo no lugar de recanto, refúgio, esconderijo, proteção.

Concordam os etimologistas quanto à origem de biombo: do japonês biobu, de biô (proteção) e bu (vento). Citando dicionários espanhóis, Rodrigo de Sá Nogueira viaja o mesmo caminho: "Del japonés byó (protección) y bu (viento).

Originariamente, biobu ou biombo é proteção contra o vento. Essa acepção se encontra no velho Morais:

"Biombo. Sustém-se em pé, para cobrirem cercando, por exemplo, uma cama, porta, etc. contra o frio" (Dicionário).

Não cabe dúvida que os japonistas portugueses do século XVI escrevem uniformemente beobu; somente pelo meado do século seguinte e fora do Japão ocorre a variante biombo, o que indica que a nasalização se operou dentro do português. A lição está nas Apostilas de Gonçalves Viana.

Mas essa nasalização não se deu por analogia com bombo, segundo pensa Silveira Bueno, tenho impressão de que ela se processou com fundamento na vogal fechada ô (biôbo) antes da bilabial b, para facilitar o esforço de voz: biôbo - biombo.

Resumidamente, lembro no final estas considerações que li, há tempos, em autor, cujo nome fugiu da memória: durante a segunda metade do século XVI, estabeleceram-se no Japão colônias portuguesas que estenderam pela Europa o conhecimento das cousas e costumes japoneses.

Do Japão procede o vocábulo e se escreve com dois ideogramas, cuja pronunciação japonesa é biôbu, ou biombo. Os ideogramas mencionados, biô e bu, significam respectivamente proteção e vento, de maneira que o francês paravent e o italiano paravento traduzem exatamente a palavra japonesa.

A origem japonesa de biombo foi anunciada há alguns anos por Foker e por Gonçalves Viana.


A. Tito Filho, 29/03/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

CRUELDADE

Theo Gigas, na crônica Touradas - Uma Crueldade Inútil, escreveu: "Não existe um só argumento que justifique tamanha monstruosidade, que nada tem de esportivo ou de artístico. A única arte consiste na exploração de pessoas que gozam com volúpia o espetáculo de tortura e morte".

Muitos escritores têm descrito e estudado o espetáculo das touradas espanholas, que se realizam principalmente na Praça de Touros, em Madri, todos os domingos - um imenso anfiteatro de estilo mourisco, luxuoso, original. A festa recebe o nome de corridas de touros. Em cada corrida se matam seis touros, dois para cada toureiro.

Fonseca Fernandes assistiu a um desses espetáculos e o descreve nas suas diversas fases. A primeira é a de excitação do animal, quando surge o picador montado a cavalo e que, munido de longa vara, submete o animal a uma tortura de picadas: "O picador arremata com a puya, triângulo de ferro que fustiga as espáduas do touro". Vem a segunda fase, a das banderillas, também excitadora. Homens de pé espetam, com agilidade, no animal banderillas coloridas "na mesma região fustigada anteriormente pelo picador". A última fase corresponde à muerte. Vem o toureiro, que dispõe de quinze minutos para a luta. Se o matador não cumpriu a missão, o touro volta ao curral e o toureiro toma extraordinária vaia. O touro morto também é vaiado. "O espanhol vaia sempre, manifestando alegria por qualquer dos resultados. Inclusive quando o touro mata o toureiro".

Existem os museus de toureiros, em que se guardam cabeças de animais, espadas, roupas. Num deles, figura retrato a óleo de Manolete, Manuel Rodriguez Sanchez, herói nacional de touradas, de carreira fabulosa, morto pelo touro "Isleno", em 1947. Tinha 30 anos o ídolo de Espanha.

O sacerdote Luciano Duarte admite que nesses espetáculos se vê sobremodo o aspecto de selvageria, na seguinte descrição: "O touro está fatigado e ofegante. Escorre-lhe o sangue abundantemente. O toureiro se aproxima de frente, para enterrar a espada. Momento perigoso. O touro agora está com as duas patas dianteiras paralelas. É o momento azado, pois esta posição permitirá que a espada se enterre até os copos, pouco adiante do pescoço do animal. O toureiro avança e tenta o golpe. A espada se afunda e fica enterrada, o povo aplaude delirantemente e grita olé, e o touro bambeia nas pernas inseguras, para logo cair morto".

Num romance célebre, "A Serpente Emplumada", Lawrence mostra com maestria esse "espetáculo de sangue e tripas". Urros do povo. Glória e emoção.

Como se explica o fenômeno?

Luciano Duarte adverte que a tourada, para o espanhol, é um espetáculo de arte: "Um balé em que o homem enfrenta o touro, em que a inteligência desafia a força bruta e vencerá". E o ilustrado escritor vai adiante, vendo na Espanha das touradas "restos de sangue mouro em efervescência, descarga do instinto de agressividade".

Por que esses homens se dedicam a tão cruel e desumano esporte? - pergunta Fonseca Fernandes. E explica: "Existe neles uma verdadeira adoração por esse gênero de exibição. Em touradas cultivam-se a destreza e a intrepidez das mais fortes emoções, nelas há todo um ritual de elegância perfeitamente enquadrado na vida do espanhol".

Os espanhóis, aliás, dizem que, como animal, o touro "teria de morrer de qualquer maneira; na praça mostra suas qualidades guerreiras e morre heroicamente". Ou mata - deveriam acrescentar.

As touradas foram vistas por Victor Hugo: "Em todas as corridas de touros aparecem três feras que são o touro, o toureiro e o público. O grau de brutalidade de cada um desses brutos pode-se calcular pelo seguinte: o touro é obrigado, o toureiro obriga-se, o público assiste por um ato espontâneo de sua graduação: o touro provocado defende-se; o toureiro, fiel ao seu compromisso, toureiro; o público diverte-se. No touro há força e instinto; no toureiro, valor e destreza; no público não há senão brutalidade".


A. Tito Filho, 06/04/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

JARRINHA

Chamava-se João Miguel Jarrinha, o jarrinha, como era conhecido de todos. Baiano de nascimento. Idoso. Popularíssimo. Viúvo. Pobre. Antigo professor público jubilado. residia sozinho em Teresina, mais de noventa anos passados.

Um feio dia encontraram-no morto, na rede da dormida, assassinado, o frontal despedaçado por forte bordoada de pulso rijo.

O crime abalou a cidade tranqüila. Levantaram-se conjecturas. O morto não tinha inimigos. Freqüentava as melhores rodas da cidade. Votava grande culto à formosura das mulheres. Amor platônico. Publicava o jornal de sua propriedade, intitulado "O Lacrau".

Na noite do crime, conforme se supunha, recolheu-se cedo à residência, pois dele se notou ausência em certos pontos em que habitualmente comparecia.

A polícia voltou atenções para Raimundo, de menor idade, que morou com Jarrinha algum tempo e a quem a vítima dedicou grande afeição. O outro suspeito para os policiais foi Higino Pereira de Araújo, músico e sapateiro, com quem Jarrinha tivera discussão por causa de um par de botinas, que não saíra nos conformes do contrato.

Raimundo contou que estivera com Jarrinha na véspera do acontecido em companhia de um colega e o vira adormecido numa rede, na sala de jantar. Acordou-o e com ele manteve rápida conversação, retirando-se com o amigo, que tudo confirmara.

Higino encontrava-se em Campo maior. De viagem para a cidade pernoitou com os companheiros em caminho, o que foi provado.

Higino Cunha, mestre ilustre e jornalista famoso, narrou que a polícia prendeu Raimundo, submetendo-o a suplícios. Extorquiu-lhe a confissão do crime. Embora menor, não teve curador idôneo. O júri condenou-o a dezesseis anos de prisão. Não houve apelação da sentença. A pena foi cumprida integralmente na velha penitenciária de Teresina.

O povo, porém, julgava que Raimundo fora vítima de clamoroso erro judiciário e sempre desconfiou de Higino, que anos depois de cumprida a sentença, adoeceu, febre e calafrios, segundo João Pinheiro, atendeu a pedidos e submeteu-se a confissão religiosa: "Mas ao terminar a confissão lhe declara peremptoriamente o sacerdote que não o absolveria, sem que ele, em presença de testemunhas, revelasse o que lhe referia, uma vez que disso dependeria a reabilitação de um inocente".

Levado maneirosamente pelos bondosos conselhos do confessor - narra João Pinheiro - com surpresa de quantos o ouviam, numa voz estertorante e panosíssima, revelando o mais profundo arrependimento, confessou que, por causa de pequena desavença que tivera com Jarrinha, resolvera assassiná-lo, o que, realmente, num momento de irreflexão, levara a efeito sem comprometer-se, aliás, porque, partindo, em certa ocasião em companhia de diversas pessoas, para Campo maior, à noite, enquanto aquelas dormiam, distante algumas léguas, regressara a Teresina, onde efetuaria o crime sem nenhuma dificuldade, porque, encontrando aberta a porta da rua e Jarrinha adormecido, descarregara-lhe, sobre o crânio, forte bordoada com uma acha de lenha que apanhara na cozinha e voltara a agasalhar-se entre companheiros que jamais suspeitaram da terrível verdade.  

Depois - termina João Pinheiro - como se nada mais devesse acrescentar, cerrou os olhos e faleceu imediatamente.

José Maria da Silva, em 1929, escreveu no jornal "Estado do Piauí" que Higino jamais fez a confissão que lhe atribuíram. Morrera inconscientemente de insulto cerebral, sem fala. O próprio padre Fernando, só depois de muita relutância, consentiu em acompanhar-lhe o enterro, porque Higino morrera sem confissão.

Com quem a verdade? Quem matou Jarrinha?


A. Tito Filho, 18/04/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O NOVO SÉCULO

Na minha pobre cachola manifestava-se dúvida a respeito do início do século XX: 1º de janeiro de 1900 ou 1º de janeiro de 1901? Andei perguntando a algumas pessoas esclarecidas, que tinham como certa a data de 1900.

No começo de 1975, catei dados em jornais velhos do Arquivo Público para escrever um livrinho sobre a história do Teatro 4 de Setembro. Pois bem. Topei na imprensa com a festa comemorativa, em Teresina, do início do século XX. Sessão literária na velha casa de espetáculos. Discursos de Higino Cunha, Areolino de Abreu, Arquelau Mendes e padre Joaquim Lopes.

Os registros jornalísticos consignavam a data de 1º de janeiro de 1901. Nesse tempo os antigos homens públicos do Piauí tinham o novo século como iniciado em 1901. Dei tratos à bola. E concluí pela verdade dos mortos. O século se compõe de cem anos. Somente a 31 de dezembro do ano 100 se completou o século um, assim o século dois começou no ano 101. Lógico. O século XIX finou-se a 31 de dezembro de 1900, logo em 1901 principiou o século XX.

X   X   X

O gaúcho e engenheiro Paulo Klumb já visitou duas vezes Teresina, por convite da Academia Piauiense de Letras. Educado e culto. Armazenou profundos conhecimentos sobre assunto de natureza vária. Manteve, por carta, elegante polêmica em torno de questões históricas do Piauí com o saudoso Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, que muito o admirava e elogiava.

Klumb publicou "Dois Estudos", pesquisa e lições de história e arquitetura a respeito do Teatro 4 de Setembro e do Palácio de Karnak, livro editado pela Casa de Lucídio Freitas.

Este notável gaúcho leu recente obra de autor piauiense em que se pretende que 1900 seja o primeiro ano do século XX. Klumb me manda carta em que transcreve trecho do "Correio Paulistano", edição de 2-1-1901:

“A PASSAGEM DO SÉCULO NO RIO

Conforme verificaram os leitores em nossos telegramas ontem publicados, na capital federal foi dignamente festejada a passagem do novo século, tanto pelo elemento profano quanto como pelo religioso. Solenidades religiosas em todas as igrejas, embandeiramento de praças, ruas, edifícios públicos e particulares..."

Pergunta Klumb: "Teriam os cariocas, por engano, comemorado o inicio do século com um ano de atraso?" Em seguida ensina que a regra é a seguinte para determinar o século: divide-se por cem o ano que se quer situar. Se o resultado da divisão for numero inteiro, este será o do século procurado. Se o resultado não for número inteiro, obtém-se o século adicionando a unidade à parte inteira da divisão. Ano de 1900 dividido por 100 é igual a 19. Ano de 1900 dividido por 100 é igual a 19,01, mais a unidade é igual a 20. O século XX começou em 1901. Veja-se o ano 2000. Dividido por cem é igual a 20, logo o ano 2000 é século XX, e o século XXI só começa em 2001. Tolice dizer e escrever que em 2000 tem início o século XXI. E grossa. OBS. No artigo de ontem escrevi SOB A RESPONSABILIDADE. Saiu SOBRE. Meu querido revisor tenha pena de mim. Agradecido”.


A. Tito Filho, 07/03/1990, Jornal O Dia

domingo, 11 de dezembro de 2011

ALGUMAS NOTAS

Eurico Ferri, o famoso criminalista italiano, ensina muita cousa nas suas lições sobre os criminosos, a arte e a literatura. Quem melhor estudou a vida? A ciência? Ou ciência se serviu da arte e aproveitou-se das suas maravilhosas criações? A arte agiu antes da ciência, principalmente a arte literária. Dante revela na sua poesia inimitável a predominância do fator econômico sobre todos os outros e que a corrupção sempre proveio dos maus governos. O irreverente Camões zomba dos preceitos e registra a vida sexual por um prisma humano. Reage contra o mundo feudal. Cervantes adverte os homens de que não é possível permanecer agarrado ao passado. Creu na influência do meio renovado. Shakespeare inspira-se em temas populares. Descrever as contradições de sua época, o feudalismo e o capitalismo. Faz poesia numa sociedade em transformação. Combate a violência. Não acredita na imutabilidade das cousas. Milton, no PARAÍSO PERDIDO, combate as desigualdades sociais. Moliére zomba dos costumes do seu tempo. Voltaire rebela-se contra os poderosos e a intolerância religiosa. Não suporte os privilégios. Tolstoi arremete contra todas as formas de injustiça.

Na DIVINA COMÉDIA, Dante imagina um sistema feudal e uma classificação dos delitos e das penas. Existem duas espécies de crimes, os de violência e os de fraude. De Shakespeare os juristas e os economistas copiaram lições do maior interesse. O famoso autor é imenso psicólogo. No tempo em que a ciência penal se preocupa com o crime, ele se preocupa com o criminoso e cria os três famosos homicidas shakespearianos, o louco, o nato e o passional, e na sua arte perfeita se juntam observações cientificas rigorosamente exatas.

Arte e ciência prometem o conhecimento da vida, embora a obra de ciência seja impessoal e a obra artística provenha do temperamento de quem a construiu.

As criaturas de Zola ligam-se aos princípios da psicopatologia criminal. A demonstração da grande lei da hereditariedade natural aumentou o horizonte da arte de contribuir para novas verdades cientificas.

Manzoni, em OS NOIVOS, descreve a psicologia coletiva antes da ciência. A mesma cousa Zola faz em GERMINAL.

Ibsen, sempre fecundo, escreve com dados científicos. O PATO SELVAGEM é obra mestre em psicologia política.

Dostoievski sustenta verdades inatacáveis. Os criminosos repugnam o trabalho, tocados de puerilidade e religiosidade. A beleza de CRIME E CASTIGO não foi ultrapassada como crítica social audaciosa.

- Interessante que todos lessem A MACONHA OU A VIDA, de Gabriel G. Nahas. O autor atesta que a droga impede a função pulmonar, diminui a contagem espermática e suspende a resposta imunológica.

- Próximas edições da Academia Piauiense de Letras: MINHA TERRA, MEU POEMAS, de Assis Fortes; A MENSAGEM DO SALMO, de Júlio Romão da Silva; as memórias do ex-governador Rocha Furtado; GEOGRAFIA FÍSICA DO BRASIL, segundo volume, de João Gabriel Baptista; e história da música no Piauí, de Cláudio Bastos.

- A droga não é a causa, mas conseqüência. Não adianta destruir maconha, cocaína e heroína. Adianta que a sociedade deixe de ser irresponsável e dê oportunidade aos jovens que lutam por um lugar ao sol. Sim, basta que as mulheres voltem ao lar, não de madrugada, mas que nele permaneçam, sustentando-o de afeto constante para os filhos, e cuidando dos serviços domésticos.


A. Tito Filho, 12/05/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O MITO DO CLIMA

Leio os jornais de Teresina deste começo de semana. Uns dois deles publicam notícias espantosas sobre o clima reinante na cidade. Gente debaixo de muito sofrimento. Água em quantidade para que se evitem desidratações nas crianças e nos idosos. Calor infernal. Os capetas felizes, alegres e recompensados. Outro matutino estampa a notícia de que um avião deixou de levantar vôo por causa da quentura danada, fato que se verificaria em qualquer lugar cuja temperatura tivesse condições idênticas.

Veja-se Pereira da Costa, na Cronologia Histórica do Estado do Piauí.

Conta ele em 1822 se fizeram no Piauí as primeiras observações meteorológicas, dirigidas pelo engenheiro Benjamim Franklin de Albuquerque Lima, chefe da comissão de melhoramento do rio Parnaíba. Houve mais de mil observações, das quais H. Morize, em Esboço de uma Climatologia do Brasil, escreveu conclusões a respeito da capital do Piauí pela seguinte forma: "A temperatura média anual tomada às 9 horas da manhã é de 26º. Os meses mais quentes são os fins de estação quente, isto é, de setembro a dezembro, cuja temperatura é em média 28,5º; o mais fresco, que é o de maio com 26,1º, é o último da estação chuvosa".

Clodoaldo Freitas, doutor em assuntos dos primeiros tempos de Teresina, escrevia em 1923: "O clima de Teresina acompanha as estações. No inverno é úmido e frio; nos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro o clima é quente e o calor abafado. Nos meses de junho, julho e agosto o clima é seco e ameno e as noites frias. Nestes três meses, na mata que acompanha o rio Poti, o frio das noites é intensíssimo".

Bem verdade que essas circunstâncias padeceram modificações. Para alimentar a velha usina elétrica, árvores e mais árvores foram derribadas. Chegou o asfalto. O número de veículos hoje derrama abundante e nociva fumaça pelos canos de descarga.

No meu livrinho Teresina Meu Amor escrevi:

No mês de janeiro, o avião parte para o Rio de Janeiro. Quando se fazem os preparativos da aterrissagem, o microfone de bordo avisa:

- Daqui a dez minutos estaremos descendo no aeroporto do Galeão. A temperatura local é de 40 graus.

Os passageiros do jato permanecem mudos. Ninguém ri.

Quando o jato, de setembro a novembro, se aproxima de Teresina, o microfone de bordo informa:

- A temperatura é de 30 graus.

Todos riem”.

Criou-se a imagem de que Teresina vale um inferno de calor, uma caldeira infernal. Os próprios piauienses se encarregam dessa publicidade infiel. Mas os nossos meses mais quentes são os de setembro a novembro, com uma média de 30 graus centígrados de temperatura.

No verão do Rio de Janeiro, o carioca, caso queira, pode estrelar ovos no asfalto da cidade.

Observem o depoimento do grande médico Silva Melo, em Panoramas Norte-Americanos, sobre o calor de Nova Iorque, nos Estados Unidos: "A minha permanência em Nova Iorque foi durante os meses de junho, julho e agosto, os meses mais quentes do ano, de pleno verão...

As noites eram sufocantes e os dias tremendamente quentes...

Em Nova Iorque houve naquele dia 9 mortos por insolação e o termômetro no Central Park marcou ao sol 142 graus, mais de 60 centígrados. Os jornais descreviam nova Iorque como um imenso forno de cimento e asfalto, cujo calor justificava realmente tal comparação...

O calor era tão intenso que se me tornava necessário mudar de roupa mais de uma vez durante a noite, molhando o travesseiro e o colchão".


A. Tito Filho, 19/03/1970, Jornal O Dia

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

CRÍTICA

Sobre o livro de Cunha e Silva, o escritor Vasques Filho publicou o seguinte, em Tribuna do Ceará, de Fortaleza, edição de 8-2-1990:

"Gentileza da Academia Piauiense de Letras, recebemos A REPÚBLICA DOS MENDIGOS do consagrado jornalista e acadêmico CUNHA E SILVA nosso conhecido de longas datas.

O volume tem boa apresentação gráfica, com encadernação excelente e até sofisticada, foi editado em 1984, 135 páginas de bom conteúdo, com apresentação de Cunha e Silva Filho, enquadrado pelo autor no gênero de novela. Cunha e Silva criou a personagem principal do livro, Simão Lopes, a partir da migração dos pais, cearenses, em tempo de seca, que terminaram por serem proprietários de terras às margens do rio Poti, as quais, por ele herdadas, e possuído de caráter humanitário, as transformou em uma república de mendigos, recolhidos nas ruas, dando-lhes significativa dignidade, e, pouco a pouco, chegando a uma comunidade praticamente auto-suficiente, na intenção de formação de uma comunidade modelo, em que nada faltasse. Com muitas digressões sócio-filosóficas, com citações de autores e de personalidades reais, o que seria ficção, no início, nas intenções do autor, vai-se tornando uma exposição sociológica do real, tendendo a comunidade, que deveria ser inatacável, para os lados de um amalgama entre o bem e o mal, sempre bem expostos em linguagem simples, com citações de filosofia e de sociologia, dando nomes de autoridades reais e de filósofos e sociólogos de renome, passando a narrativa, a nosso ver, para mais uma teoria sobre formações comunitárias já existentes no mundo atual. E aqui discordamos de que o conteúdo seja enquadrado no gênero da novela, para se tornar num ensaio de valor, com a forma de narrativa jornalística, não fora o autor um dos melhores jornalistas piauienses, por todos consagrado e reconhecido, abrindo, no volume, perspectivas para um debate de grande amplitude social sobre os mais diversos temas sociais e políticos, quanto de regimes autoritários e democráticos de governo, profligando os excessos dos poderes, as injustiças, a irresponsabilidade dos governos, a miséria social não somente regional como nacional e até mundial, no mundo em que vivemos hoje, enquanto canta louvores ao bom desempenho das comunidades bem governadas e bem organizadas, exaltando a prática do dever cívico, do amor ao próximo tão pregado pelo cristianismo, o sentimento filantrópico muito falado mas pouco praticado sobretudo pelas classes de maior poder econômico, tudo no sentido de aprimoramento de comunidades mais humanas, com maior quantidade de virtudes do que de vícios, em que o amor fraterno seja sempre levado em conta por todos os seus membros, desde o governantes e seus governados, do mais rico ao mais pobre.

A nosso ver, Cunha e Silva, ao invés de uma novela, porquanto a ficção é elemento secundário, escreveu um belo ensaio, com fulcro nos estudos filósofos e sociólogos que cita a cada passo da narrativa, valorizando o livro o propósito de bem servir à pátria e à humanidade em geral".


A. Tito Filho, 17/02/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

DESTINAÇÃO

Quando eu era meninote, meu pai se mudou para Teresina, prosseguindo a carreira de magistrado. Ganhava uns trocados, pois juiz naquele tempo não chegava ao salário mínimo destes dias inflacionários. A gente morava numa casa modesta. A cidade tinha vida tranqüila, agradável. Pagava-se aluguel da residência. Mas os bagarotes davam para passar bem de comedorias.

Meu pai percebia ordenados suficientes, da mesma forma que os funcionários públicos da época. Muita simplicidade, não havia festas de aniversários nem de debutação, nem de presentes no Natal e o carnaval se fazia sem despesas excessivas. Inexistiam ricos. Só abastados e a classe média que bem ganhava as suas patacas.

Os conselhos paternos me indicavam que procurasse uma profissão de ganhos razoáveis. Médico, por exemplo. Ou militar, pois o quartel dava a bóia e a roupa de graça.

Eu invejava o trabalho das pessoas. No Bar Carvalho, via a agitação dos garçons, de um lado para outro, servindo café ou refresco e logo pensava nessa profissão. Dia de domingo, eu ia ao restaurante comprar a comida de casa, como queria meu pai, para variar, e observava o cozinheiro Gumercindo a preparar o filé de chapa, em cima da quentura do velho fogão de ferro, cheio de lenha pela boca principal. Logo admitia um bonito futuro como diligente mestre cuca. No tempo de circo, fixava meu desejo maior em ser palhaço ou trapezista. Como gostava muito de picolé, surgia a pretensão de ser picolezeiro.

Cresci. Estudei. Deu-me na veneta de estudar direito. Formei-me. Não gostei de advocacia. Enriqueci-me de inveja pelo jornalismo, pelo magistério e pela literatura. Andei pela política na época em que já começava a correr dinheiro nas eleições. Edgar Nogueira, de grande prestígio, quis que eu fosse juiz no interior. Recusei. Juiz no interior ganhava como funcionário do Piauí, hoje. Não havia asfalto, a fim de que o magistrado das capembas pudesse freqüentar o cabaré da capital. Demais de tudo, esses pobres julgadores de vezem quando entregavam a alma de Deus, baleados pelos chefões do partidarismo.

Tornei-me jornalista e professor. Como jornalista, ganhava descomposturas. No magistério, como nos dias atuais, recebia salário de fome. Consegui ser funcionário público e nunca melhorei de finanças. Ainda agora ganho por mês a besteira de uns quinze mil cruzados novos por mês, sem ter para quem apelar.

Arrependo-me muito. Poderia ter sido político e ganharia rios de dinheiros como deputado. Caso fosse magistrado, seria hoje desembargador, com carro oficial, vantagens, e cem mil bagarotes por mês. Poderia merecer a sorte como dono de jornal, rádio ou televisão, e arrecadar milhões em propaganda oficial. Bastaria a publicidade da empresa piauiense de águas e esgotos, dirigido pelo dinâmico José Darcy Araújo.

Deus devia ter me protegido, ser do sexo feminino e filha solteira de falecido desembargador, para mamar de pensão por mês 40 mil pelegas, sem nada fazer, salvo colocar a dinheirama na poupança.

Banquei o bestalhão. Jornalista, professor, funcionário público. E sempre na miséria.


A. Tito Filho, 23/01/1990, Jornal O Dia

domingo, 20 de novembro de 2011

LIVROS

Carlos Araújo já deu vazão mais de uma vez à sua vocação literária, mas nunca através de um romance. A história tem a ver a sua vida profissional e, ao mesmo tempo, é pura ficção.

Diversos incêndios de origem desconhecida vêm destruindo grande parte da Amazônia e da mata atlântica, com trágicas conseqüências sobre a ecologia. Quem os provoca? Até que ponto as grandes potências estariam experimentando armas sofisticadas - com base em energia térmica transmitida por raios laser - nestes locais, com os resultados que todos conhecemos? E que fazem as nossas autoridades? Ignoram ou participam do escândalo?

Operação Thermos - Amazônia sugere uma hipótese plausível. Mesmo porque, nessa narrativa, nada é impossível.

Um coronel do Exército brasileiro se lança em missão Internacional secreta para salvar da falência um fabricante de armamentos numa operação em que os brasileiros querem o dinheiro, os americanos precisam de um campo de provas, os russos querem impedir a realização dessa experiência que será mais um passo na famosa Guerra nas Estrelas e finalmente há o amor a nível internacional movimentando uma história que poderia ser verdadeira se não fosse inventada. De quebra, a cessão de uma grande área da Amazônia como campo de provas.

Utilizando a sua experiência, o autor nos faz viajar por diversos países onde se desenrola a ação, num jogo de interesses das grandes potências, que demonstram completo desdém pelos países do terceiro mundo.

As aventuras do coronel Pinaud são de estarrecer, porém mais inesperado e surpreendente é o final da história. Vale a pena...

Carlos Araújo nasceu em Salvador, Bahia, e reside no Rio de Janeiro. Especialista em advocacia internacional, sua atividade se estende por muitos países, cujas línguas fala, algumas mais complicadas, do tipo croácio, esloveno, russo e outras, normais, tipo alemão, francês e inglês. Leitor assíduo de revistas especializadas, tipo Jane's assim travou conhecimento com o mercado de produtos de defesa - sofisma consagrado internacional para material bélico.

Desta ação, Carlos Araújo partiu para a sua vocação, a de redigir fatos e causos, sempre com a mesma dedicação, a mesma vontade de acertar e de conseguir o sucesso que obteve em outras carreiras. De admirar, apenas, que tardado tanto este seu primeiro romance. Mas o próximo já está bem adiantado...

Antes, publicou um livro de poemas, O Inimigo Oculto, e outro, de ensaios, Macumba. 


A. Tito Filho, 17/07/1990, Jornal O Dia