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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

MÉRITO

Seria exaustivo relacionar todos os episódios de lutas que se têm verificado no Brasil, desde a fase colonial até os dias atuais, cada qual apoiado sobre causas, que os historiadores, no passado como no presente, procuraram revelar e interpretar - e muitos desses episódios ainda se encontram em processo polemico. A grande Revolução Industrial do principio do século XIX provocou profundas transformações na sociedade dos homens. De feito, a máquina tornou-se responsável pelo poder industrial, que desorganizou a família, baseou a riqueza das nações no combustível, comercializou o afeto - base da educação - e derribou estruturas seculares.

O Brasil não poderia fugir da sua influencia. A abolição da escravatura, e conseqüente adoção do regime republicano, promanou da civilização industrial. Da instituição da República até hoje, o país vive instavelmente, com a queda de homens do poder, se se analisam superficialmente as causas. O período republicano bem atesta a afirmativa. É que o ciclo rebelde brasileiro ainda não se completou, e só se completará quando os desequilíbrios sociais, a injustiça social, a fome sejam vencidos, com o estabelecimento de processos humanos de vida - a abdicação do inumano pela valorização do homem.

Quantas quarteladas brasileiras de 1922 a esta parte? Talvez elas tenham origem próxima na pregação civilista de Rui, que contagiou os moços, civis e fardados. Do Rui-profeta, que se antecipou a Getúlio Vargas na luta contra a exploração do homem pelo homem.

Ainda se registrarão as causas profundas dos movimentos de 1922, 1924, 1930, 1937, 1945 e 1964. Movimentos de homens em armas, mas feitos por cérebros interpretadores da inquietação e da angústia do brasileiro, inconsciente ainda dos direitos e deveres que lhe outorgaram constituições políticas feitas em gabinetes, bem distantes da realidade nacional.

Nesta apreciação não sou movido pela idéia de analisar tais movimentos, nas suas causas remotas e próximas. Cabe-me ressaltar pesquisas dos fatos que integram as manifestações de 1922 a 1931 no Piauí feito pelo General Moysés Castelo Branco Filho, uma das figuras ilustres da terra piauiense pela dignidade moral, pelo civismo, pela inteligência cultivada, pelo amor ao estudo - professor como raros, matemático acatado, apaixonado da história e dos seus processos de investigação e análise - a sua obra bem comprova a operosidade intelectual e os conhecimentos seguros e sérios de que se compõe a personalidade do autor - para lição de história com a verdade que soube testemunhar e documentar e a pesquisa que a busca da verdade lhe atribuiu para comprová-la, em toda a plenitude. Moysés deixou um vazio enorme quando se despediu desta vida.

Conciso e preciso como narrador, desprezando pormenores enjoativos, o General Moysés Castelo Branco Filho, num estilo simples, linguagem polida e asseada, escreveu livro de contribuição à história do Brasil, para, no meu entender, revelar parte do ciclo militar brasileiro - uma das mais importantes - a que principia em 1922 e que prossegue, depois de desaguar no movimento de 1964.

Livro honesto e sério a "História das Revoluções no Piauí", sobressai nele a fixação dos caracteres humanos dos que participaram nas lutas partidárias no Piauí - cenário de paixões, de choques de personalidades, de prestígio de clãs. O trabalho de Moysés Castelo Branco Filho é contribuição de mérito para que se conheça o processo revolucionário brasileiro.


A. Tito Filho, 07/11/1990, Jornal O Dia

sábado, 21 de janeiro de 2012

NARRATIVA

Mês passado, faleceu em Teresina Josípio Lustosa, meu conterrâneo de Barras, onde, na minha meninice, eu o conheci, na labuta de ganhar o pão diário. Comerciante modesto. Montou certa vez padaria - a Padaria Baliza, e um caboclo descalço, mal o sol abria o olho, manhãzinha, saia pelas ruas a gritar, na cidadezinha ainda quase adormecida - ÓIA OS POMBALIZA, arremedo de PÃO BALIZA. O arranjo um bocado profano do vendedor mexia com a santa moral das velhotas rezadeiras e das castas donzelas barrenses. O pão tornou-se maldito, recusado, a greve geral levou Josípio a fechar a pequena fábrica. Com a subida de Leônidas Melo ao governo do Piauí, veio ele para Teresina. gostava de mulheres. Não enjeitava rabo-de-saia e nunca negou a filharada que pôs no mundo sem as rezas da legitimação, com o registro de filhos naturais, numa época de preconceitos sociais absurdos, felizmente varridos das certidões cartoriais.

Josípio Lustosa venceu. Fiscal de rendas do Estado, o cargo mais ambicionado noutros tempos. Quando Petrônio Portella conquistou o governo, escolheu Cleanto Jales de Carvalho secretário da Fazenda e Josípio Lustosa diretor-geral do Departamento da Fazenda, cousa assim, mas os dois não se cheiraram bem, discreparam nos métodos e se desavieram, o que levou o último a exonerar-se.

Corria o ano de 1963. Petrônio estava de namoro político com o presidente João Goulart, enquanto Josípio rompera com o governante piauiense e o combatia ferozmente nas colunas do jornal "Estado do Piauí", de que era proprietário e diretor.

Chegou 1964. No dia do chamado movimento militar, o governador do Piauí emprestava irrecusável solidariedade a João Goulart, que, ao cabo de contas, padeceu deposição e retirou-se do país. Veio a famosa revolução redentora e a respectiva caça às bruxas, isto é, aos elementos comprometidos com Goulart, comunistas, esquerdistas, pelegos e outras denominações em voga. Josípio abria as torneiras jornalísticas para denúncias contundentes contra Petrônio, que resolveu processar o atacante usando a própria legislação dita revolucionária. Nomeou comissão de inquérito, integrada do Secretário da Segurança, do Comandante da Polícia Militar, do Procurador Geral da Justiça e mais uns dois, designando a composição pelos cargos, ou pelos que os ocupassem. Aconteceu que o Procurador Geral da Justiça era Darcy Araújo, amigo de Petrônio e de Josípio, não se sentia bem na função. Pediu licença. O substituto do licenciado no cargo e na comissão tinha o nome de Anísio Maia, mas estava afastado das boas graças oficiais. Não merecia confiança. Assim, o governador resolveu nomear para o lugar Antônio José da Cruz Filho, desrespeitando o próprio decreto governamental de substituição hierárquica.

A comissão de inquérito realizou os trabalhos e concluiu que Josípio praticara, no exercício de cargo público, atos censuráveis. Sugeriu a demissão a bem do serviço público, o que foi dito.

Josípio, uns meses antes, me havia dirigido ataques fortes no seu jornal. Mesmo assim, mandou pedir-me audiência. Recebi-o cordialmente. Desejava os meus serviços no remédio heróico do mandado de segurança. Acatei a questão. Fui vitorioso em liminar do relator no Tribunal de justiça do Piauí, desembargador Otávio Rego. Poucos dias depois, a maioria dos desembargadores me derrotava por 7 a 2. Recorri. Bati às portas do Supremo Tribunal Federal e ganhei o caso Josípio por unanimidade. Magnífico o voto de Evandro Lins e Silva como relator.

O movimento que derrubou Goulart proibiu que o Judiciário examinasse o mérito das acusações, mas lhe era permitido o exame das questões extrínsecas. Foi por onde ganhei. O Supremo não pôde julgar se eram certas ou erradas as acusações. Não consentiu, porém, que se anulasse o modo de compor a comissão de inquérito: o substituto do procurador geral da Justiça seria o 1º procurador da Justiça, no caso Anísio Maia, nunca o promotor Antônio José da Cruz Filho. Anulou-se o processo. Josípio voltou ao cargo de fiscal de rendas, recebendo os atrasados. Nada lhe cobrei pelos meus serviços.

Josípio foi simples, corajoso, honesto. Isto basta.


A. Tito Filho, 27/03/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

MÚSICA

Era dezembro de 1974. Estava governada interinamente a Secretaria da Cultura. Sempre amigo, Armando Bastos, prestigioso auxiliar de Alberto Silva, no primeiro governo do paraibano, sugeriu que eu fosse nomeado para a pasta. Convidado, a principio recusei-a, 15 de março de 1975, tocando-me apenas dois meses e meio, mais ou menos, como titular. Mas Armando me impunha o sacrifício. Pretendia que eu editasse livros e fizesse a festa de reinauguração do Teatro 4 de Setembro. E assim se fez. Obras foram publicadas, e a velha casa de espetáculos, de fatiota nova, recebeu a visita da Orquestra Sinfônica Nacional e do Balé do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Armando Bastos gostava de conferir-me tarefas suarentas. Exigiu de minhas forças a história do Teatro 4 de Setembro. Realizei pesquisas de noite e de madrugada, na Casa Anísio Brito, uns dez dias. Levantei dados e encontrei documentos e registros esclarecedores. Anotei as bonitas representações no querido centro festivo da capital piauiense. Rememorei maestros e maestrinas, compositores, vocações musicais, artistas de instrumentos maravilhosos, as retretas das bandas militares, o mundo encantado de Teresina de antigamente. A mim me parece que pratiquei a primeira história dos instantes da arte musical na capital do Piauí.

Depois, o excelente trabalho de Raimundo rosa de Sá, o popular Cazé, lembraria as peças musicais e os compositores de fama, não esquecendo a inclusão dos temas folclóricos na inspiração dos musicistas.

Meu velho e bom amigo Moura Rego escreveu e a Academia Piauiense de Letras editou Notas fora da pauta, deliciosa história da música em Teresina e da participação dos grandes artistas, inclusive o autor, cujo violino mágico encantava os auditórios.

X

Conheci em Teresina um homem decente, Nereu Bastos, educado, conduta reta, trabalhador, leal, admirado por tantos amigos que soube conquistar. Por força da profissão de funcionário federal, mudou-se para Belo Horizonte, a tranqüila capital mineira dos anos 50, em que ele, para congregar fraternalmente os conterrâneos, fundou o Centro Piauiense, um pedaço afetivo do Piauí nas Alterosas.

Acompanhou-o filho Cláudio Bastos, que, à custa de estudos sérios, conquistou o doutoramento em Sociologia e Administração de Empresas e dedicou-se a pesquisas pacientes e honestas sobre assuntos piauienses, tornando-se estudioso de nosso passado. Tem presentemente duas obras em andamento, de temas novos, um sobre o desenvolvimento da propriedade rural no Piauí e outro sobre a antiga guarda nacional em nossa terra.

Cláudio Bastos veio em julho a Teresina por convite da Academia Piauiense de Letras, com a finalidade de entregar aos estudiosos da terra o seu livro Manifestações musicais no Piauí - Contribuição à história da música, trabalho mais desenvolvido do que os citados e que os completa de certo modo, revelando aspectos expressivos de inspirados compositores interioranos, bem assim das bandas de música que tanta alegria provocavam nos festejos religiosos e sociais. Na obra admiram-se maestros competentes e revela-se o gosto das elites pelas composições clássicas e instrumentos de sopro e de corda dominados por artistas das elites teresinenses.


A. Tito Filho, 28/08/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

PUXAÇÃO

Candidato ao governo do Rio de Janeiro em 1982, Leonel Brizola teve em Sebastião Nery extremado defensor das virtudes políticas e administrativas do gaúcho, vitorioso na eleição e governador dos fluminenses por quatro anos. Poucos meses depois de empossado, o elogiador do ex-ídolo, em quem as qualidades positivas haviam desaparecido como num toque de varinha mágica.

Passaram-se os anos. Sebastião Nery, em 1989, foi o mais eloqüente propagandista de Fernando Collor à presidência da República.

Gosto de Joel Silveira, das suas notas de cinco linhas, com as quais fulmina o ridículo e o grotesco dos donos desta República de anões, ou liliputianos, na criação literária de Swift. Pois Joel, um domingo destes, registrou a notícia: Sebastião Nery, num escrito recente, admitiu que o Brasil, na sua história, tem três grandes mulheres: Anita Garibaldi, Ana Nery e Zélia Cardoso de Melo.

E Joel, o sutil Joel, anota que Collor deu a Sebastião um bom empreguinho, de dez mil dólares mensais, em Roma, como adido cultural da embaixada do Brasil.

Lembrei-me de delicioso livro que li no Rio de Janeiro, do mestre incontestável em revelar a ridicularia dos outros, o admirável Nestor de Holanda, autor de O Puxa-saquismo ao Alcance de Todos.

Existem vários tipos de puxa-sacos. Os periódicos, que atuam em homenagem aos chefes, quando se oferecem para fazer as compras da mulher do referido, quando se acabam os cigarros do superior hierárquico. Como se vê, puxem o saco em determinadas oportunidades.

Os puxa-sacos fanáticos funcionam por toda parte. Puxam por vício. Chegam a estados mórbidos.

O puxa ex-officio bajula por obrigação. Muitas profissões exigem bajulador oficial, como os relações públicas, áulicos dos mais competentes. Outros representantes são os capangas, as secretárias, as enfermeiras, as cafetinas, os porteiros, vendedores de livros, os mordomos, os colunistas sociais, e estes dão mas duas ou quatro puxadas por linha tipográfica. Quando escolhem os mais e as mais elegantes a puxação dá excelentes lucros.

Conta ainda Nestor de Holanda que o governador João Pinheiro, de minas, ao assumir o cargo, foi avisado por Lauro Muller sobre os puxadores de saco, sempre perigosos. Tempos depois Lauro perguntou ao governante sobre os bajuladores. E João Pinheiro segredou-lhe: "É uma gente intolerável, mas, seu Lauro, é bom como diabo uma puxada".

No Livro Getúlio me Disse, Armando Pacheco conta que Getúlio achava que os bajuladores não o deixavam em paz. Certa vez o poeta Olegário Mariano procurou convencer o presidente a candidatar-se à Academia Brasileira de Letras. O saudoso Vargas achou impossível a proposta, embora o puxador procurasse convencê-lo de haver escrito livros admiráveis. A eleição seria uma honra para a Academia.

Getúlio explicou que na época não havia uma só vaga. E Olegário insistiu: "O senhor entra no meu lugar, presidente. Eu me suicidarei e Vossa Excelência se candidatará à minha vaga..."

Tipo do puxa-saco fanático. Mas foi nomeado embaixador do Brasil em Portugal. A puxada foi segura. Puxação de mestre consumado no assunto.

Para Sebastião Nery o Brasil, ontem e hoje, possui três mulheres: Anita Garibaldi, Ana Nery e Zélia Cardoso de Melo. Puxa-saquismo ex-officio. Acabará abocanhando embaixada do Brasil em Paris. Ganhando em dólares.


A. Tito Filho, 23/08/1990, Jornal O Dia

PROPAGANDA ELEITORAL

Nos tempos antigos as campanhas eleitoras se faziam em praça pública, nos coretos das pracinhas de lazer ou nos palanques armados para o falatório dos candidatos. Oradores e mais oradores desfilavam, e os mais importantes discursavam no final desses entusiásticos ajuntamentos. A linguagem se mostrava dura, severa, por vezes humorística, e aqui e ali se exploravam os ridículos e os erros e espertezas dos adversários. Assim no Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Ceará, no Piauí. Nas capitais como nas cidades interioranas. Havia a crítica forte, a censura veemente, as denúncias sobre fatos condenáveis. Os homens, porém, eram outros. Tinham honestidade e repudiavam infâmias, injúrias, calúnias e difamações. Atacava-se rijamente o adversário, mas com base na verdade, nunca em invencionices e falsidades. Conhecidos oradores recebiam aplausos demorados das multidões, assim como Maurício de Lacerda, pai de Carlos Lacerda - um Maurício corajoso, mas respeitador da honra alheia, porque consciente de que a sua honradez igualmente merecia respeito.

Com o correr dos anos, surgiu a televisão, instrumento comunicador que penetra sobretudo no ambiente familiar. Concedeu-se por via de lei, horário gratuito nesses aparelhos, com a finalidade de que candidatos pobres e ricos pudessem levar idéias e projetos aos grandes auditórios das coletividades. Apareciam então tipos gaiatos, sem mensagens e sem credibilidade, para o fim exclusivo de projeção doentia. E quanto mais os horários gratuitos serviam o egoísmo de muitos, concluiu-se também que a arma, de tão poderosa, poderia eleger xingadores e derrotar candidatos por força da divulgação, a nível total, de fatos que jamais deveriam ser objeto de campanha eleitoral.

Ainda o ano passado, na peleja presidencial, levou-se a televisão uma mulher, frustrada a não mais poder, para contar ao público que foi amante de um dos candidatos presidenciais. Aquele que foi isento de culpa, atire a primeira pedra - assentou o Cristo justo quando absolvia a adultera. Qual o homem que, na mocidade, não teve as suas peripécias sexuais com mulheres que se entregavam com facilidade? O fato positivou que o Tribunal Eleitoral nem sempre exerce o policiamento dos programas, como era de seu dever, da forma que fez em São Paulo, ao tempo do candidato a governar Marronzinho. Tem a Justiça a obrigação de acompanhar a programação e suspendê-la no instante das agressões pessoais, e das acusações mentirosas.

Na atual campanha para os governos estaduais, aguçam-se os destemperos da ambição pela conquista do poder. Certos candidatos não se conduzem com o devido respeito à dignidade dos adversários. As descomposturas pertencem à falta de argumentos. Avilta-se a honra. Insulta-se a personalidade. Humilha-se. Nem a vida privada das pessoas fica imune a essa debocharia escancarada.

A televisão, sobretudo a televisão, exibe, de manhã e de noite, tipos gaiatos, candidatos machões que ameaçam contar estórias escabrosas, e vários outros, sem idéias e sem ideais.

Interessante também por estes brasis enormes as pazes de velhos adversários e as inimizades de antigos correligionários, episódio vulgar na política partidária brasileira. Políticos ontem escarravam uns nos outros e hoje se beijam, como nos versos em que o poeta diz que o beijo amigo é véspera do escarro. Por que o fato se repete em todos os cenários nacionais, no Rio, em Salvador, em Campinas, em Sobral, no Recife, em Teresina, em Oeiras? Terríveis adversários ontem, amigos do peito hoje? Porque as agremiações partidárias são falsas, os candidatos não defendem idéias nem plataformas, mas exclusivamente ambições de alcançar o poder.

Débeis mentais, tipos arrogantes, machões, indivíduos apalhaçados ocupam os horários das tevês e arrotam descomposturas. São candidatos a cargos eletivos. Certos partidos contratam por milhões profissionais inteligentes que xingam em nome dos candidatos. No Brasil todo, sob a proteção da Justiça Eleitoral, que merece respeito e credibilidade, se praticam esses programas condenáveis.


A. Tito Filho, 18/09/1990, Jornal O Dia

sábado, 14 de janeiro de 2012

MILAGRE

Frei Serafim de Catânia chegou ao Recife em 11 de setembro de 1841. Percorreu todo o Nordeste, em trabalho de catequese. Valoroso missionário. Em 1858, benzeu a primeira pedra da futura matriz do Ceará-Mirim. Tinha fama de obrador de milagres, de quem Luís Câmara Cascudo contou o seguinte, num livro muito saboroso ("Coisas que o povo diz"):

"Um home de bem, pobre, com família numerosa, estava sendo perseguido por um credor impaciente de receber os 100$000, e não sabia que fazer para enfrentar a vida dificil. Foi procurar Frei Serafim de Catânia no consistório da igreja de Santo Antônio, expondo com lágrimas sua desventurada situação. O frade ouviu-o, animou-o, e erguendo-se olhou ao derredor, viu apenas uma lagartixa que balançava a cabeça numa janela. O capuchinho fez o sinal-da-cruz e o animal imobilizou-se como feito de bronze. Frei Serafim embrulhou-o num pedaço de papel e entregou-se ao necessitado penitente recomendando:

- Peço dinheiro emprestado sob este penhor e livre-se da miséria. Daqui a um ano volte, trazendo o objeto, e coloque no altar, nos pés de Santo Antônio. Promete?

- Juro pela salvação da minha alma! - respondeu o pobre homem.

Correu ao agiota, pedindo a fortuna de 500$000, deixando um depósito. O onzenário abriu o embrulho e encontrou uma lagartixa de ouro, com a boca de rubis e os dois olhos de brilhantes. Valia o triplo. Pensou, provou, experimentou e deu os 500$000 ao suplicante. Este, com menos de um ano, estava livre de preocupações. Possuía casa própria, gado, uma loja, a família tranqüila e feliz, cavalo de sela para o trato dos negócios. Foi ao usuário liquidar o débito. Este propôs comprar a lagartixa de ouro.

- Não é minha! - explicou o abastado negociante.

Recebendo o penhor, foi à igreja de Santo Antônio e feita a vênia, depôs o pacote aos pés do orago. Imediatamente o papel mexeu-se e dele saiu, esfomeada e rápida, uma lagartixa, viva e veloz, em desabalada carreira. O homem percebeu o milagre de Frei Serafim de Catânia, e, ajoelhado, rezou longamente agradecendo a mercê”.


A. Tito Filho, 21/04/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

BILHETES

Os dois programas gratuitos de maior duração na TV, os de Wall Ferraz e Freitas Neto, exibiram bilhetes: um de Freitas Neto dirigido a certo secretário de Estado, outro de Wall Ferraz enviado a outra distinta autoridade. Em ambos havia pedidos dos dois ilustres candidatos, em determinada época da vida pública de cada qual.

Cartões, cartas, telegramas, bilhetes são tipos de correspondência de natureza íntima e se torna desconveniente que sejam exibidos ou publicados sem autorização de quem os assina. A própria Constituição Federal assenta que a correspondência tem carater inviolável. Por haver consentido na publicação de carta íntima surrupiada de escritório alheio, João Pessoa, o famoso político paraibano, foi assassinado numa confeitaria do Recife. De mim, só publico carta ou outro tipo de conversação escrita que me enviam quando sou autorizado a dar publicidade ao documento. As platéias ignorantes e deseducadas têm riso frouxo e anormal para esse tipo de propaganda eleitoral.

Jânio Quadros governou sete meses a República por intermédio de bilhetinhos a seus ministros, em forma de recados, que ele mesmo, o autor, mandava exibir nos jornais.

O Piauí possuiu um político matreiro, danado de esperto, na República Velha, chamando Firmino Pires Ferreira, ex-combatente na guerra do Paraguai e marechal do Exército. Teve grande atuação política e se elegia sempre senador. Miserável, não dava tostão a ninguém. Rico. Um tanto desaforado. Tinha o apelido de Vaca Braba: senador Vaca Braba. Os piauienses pobres no Rio o procuravam para obtenção de empregos públicos, pois o homem tinha prestígio de sobra, inclusive junto aos presidentes da República. Contam que ele fez pacto com as autoridades: quando no bilhete não fosse cortada a letra tê (t) o pedido deveria ser recusado. Conterrâneo nosso obteve uma dessas correspondências de recomendação. Curioso, leu-a, e observou que os três estavam sem o traço de corte. Raciocinou que se tratava de esquecimento do Vaco Braba. Puxou da caneta e cortou tais consoantes. Conquistou o emprego ambicionado.

Houve vaga no supremo Tribunal Federal. O excelso Rui Barbosa dirigiu o bilhete ao presidente Wenceslau Brás, a quem pediu o lugar para um desembargador amigo. Wenceslau não atendeu ao pedido. Em resposta a Rui, contou que o recomendado gostava de jogar e Rui possuía página imortal sobre as desgraças do jogo. O fato se vê na Correspondência, obra póstuma de Rui Barbosa.

Fui secretário da Educação do governo João Clímaco d'Almeida, o notável Joqueira, que me recomendou: "Quando eu assinar os meus bilhetes como João Clímaco de Almeida, não atenda cousa alguma. Só atenda se eu assinar Joqueira". E eu prestava obediência à recomendação, cegamente.

Que mal existe em que se façam bilhetes e neles se peçam favores? Já mandei uns dois mil a amigos e autoridades. Tenho empregado muita gente pobre com os meus bilhetinhos. Freitas Neto e Wall Ferraz na certa receberam meus pedidos. Se foi possível atenderam-me. Caso contrário, fiquei sem o favor.

Que mal existe em que se enviem bilhetes? Feio e degradante está na prática de indignidades e penso que os dois candidatos citados não conspurcaram a cousa pública e bem que poderiam, antes de tudo, dar aulas de educação ao povo, que tanto precisa dos bilhetes de quem tem prestígio para obter meios de vida e corrigir injustiças.


A. Tito Filho, 11/09/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ALGUMAS IMPRESSÕES

ANÍSIO DE ABREU NETO, poeta, sim, dos grandes destes brasis, era dos filhos amados do Piauí. Morreu no Rio, novo ainda, pujante de grandeza artística. O irmão JEREMIAS pretendeu homenageá-lo, revelando-lhe aspectos dos ritmos novos e audazes que ele criou, em páginas que revelam formas entusiásticas de um esteta, em ritmos de graça e de elegância - versos sem pecado.

No saudoso conterrâneo, há sensibilidade opulenta e criadora. Sonoro, panorâmico, inquieto, audaz, pleno de ansiedade, soube imagens maravilhosas para cantar, como semeador de belezas, o seu nordeste, lendas, bichos, pássaros, amor, natureza, infância, da forma que se lê numa seleção de JEREMIAS PEREIRA DA SILVA, inteligência crítica aguda para efetivar escolhas, para discernir instantes de primor, para convocar trechos poéticos emotivos, como se modelados por um escultor de vocábulos.

Raros poetas têm a energia cósmica de ANÍSIO, compondo mensagens de esperança e de gestos fraternos, engrandecido das grandes solidariedades humanas. A sua poesia recorda tudo o que o poeta amou: o convívio com os outros, os momentos de choro, o rio o sol doirado, a saudade de toques sensuais.

ANÍSIO morreu. Tenho que ele antes da morte, inesperada, repentina, imposta pelo coração que fraquejou, haja recitado, nos últimos sopros de vida, os versos de João de Barros, o poeta da HUMILDE PLENITUDE:

"Que, mesmo à hora triste e sombria da Morte,
       seja a Morte mais vida - e se morra a cantar".

X   X   X

Gosto muito de boa poesia, a que se faz com a alma das cousas, da infância e dos cenários que o homem guardou, como a poesia de arte verdadeira que Cid T. de Abreu compôs nesse encanto de MOENDA. Poeta é o que fala à alma da gente.

X   X   X

Trabalho que se faz com gosto e sentimento, a história da Rádio no Piauí, projeto da Secretaria de Cultura, da Secretaria do Planejamento, da Fundação CEPRO e da Academia Piauiense de Letras, elaborado e organizado por três fortes inteligências, as de Francisco Alcides do Nascimento, Geraldo Borges e José Elias Martins Arêa Leão. A memória dos fatos passados alimenta espiritualmente o povo. Bom que se saiba como se fazia comunicação antigamente.


A. Tito Filho, 24/04/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

LÍNGUA

Cada dia que passa mais se deteriora o ensino do português, - um ensino que padece, desde longos anos, de malferidos princípios didáticos, métodos antipedagógicos e de sisudez professoral - magister dixit empanturrado de sabedoria falsa e empáfia verdadeira. Regras, regrinhas e regrões entopem as páginas de dezenas de gramáticas, e cada uma delas oferece lições novas, a modo de originais e sábias.

Para entendimento de cousas simples, e nomes esquisitos, geralmente gregos, para batismo de fenômenos ao alcance de humildes inteligências. Os compêndios de ensinança se abastecem de denominações como catacrese, apócope, rizotônica, ênclise, zeugma, endoidecedoras de pobres estudantes do idioma. Na década de 60 criou-se a nova nomenclatura gramatical brasileira, nascida oficialmente de Ministério da Educação e assim imposta ao magistério, em todos os cantos do país. Agora a gramática seguiria a bitola convencional. Oficializava-se a reza ou recitativo dos compêndios no ensino da fonética, da morfologia, da sintaxe. Nesse figurino sujeito e predicado constituem os termos essenciais da oração. Deslembraram-se do significado de essencial: indispensável, necessário, e logo se decretou a existência da oração sem sujeito, aquela dos verbos expressivos de fenômenos da natureza, quando a esses verbos muito bem se atribuiria sujeito interno, como fazem os franceses no caso de chover, trovejar e outros. Antigamente, nas questões de análise sintática os mestres sadistas adotavam textos de Os Lusíadas, poema que Camões escreveu na ordem inversa e exigia-se que os garotos descobrissem o sujeito, como se fossem xerloques ingleses em busca do assassino misterioso.

Grande tormento ainda está na aprendizagem do aumentativo dos nomes comuns. Não se agasalha a voz popular rica de sabedoria e que, com muito critério, diz, no linguajar do dia-a-dia, cartona, copão, pratão, e só em determinados e raros casos o povo se utiliza do grau analítico, jamais o sintético das excentricidades gramaticais, fugido à língua viva, para consentir na bocarra, manzorra e outras semelhantes. Nos chamados adjetivos pátrios ou gentílicos os discípulos vêem alma à luz do meio-dia pois devem meter na cachola dezenas de esquisitices, criadas pela fértil imaginação de fabricantes de livros de ensinança de bem falar e escrever a língua portuguesa e de professores carrancudos, vaidosos e truculentos. A meninada endoida-se e os pais enlouquecem em busca do adjetivo referente a quem nasce em Três Corações, pátria de Pelé. Para Jerusalém, registrou-se o adjetivo hierosolimitano, repudiando-se o bom jerusalenense. Nada mais, nada menos do que o samba do crioulo doido. E o latim? Tempos atrás atormentava-se o estudante com a língua de Cícero, cientifica, declinada, literária, polida, que Cícero rezava na ocasião da sua eloqüente e imortal oratória, latim que o célebre romano nunca usou na conversação com os amigos e familiares. Jamais, por através da leitura, os professores ensinaram que o português representa hoje o latim evoluído, transformado, e que continuará a transformar-se porque a linguagem humana constitui fenômeno social, não apenas fonético ou morfológico. Assim, sem a utilização da leitura diária sob orientação do mestre, os discípulos não podem entender que celeste provém de céu e que ovelha vale o diminutivo de ovis depois das alterações fonéticas sofridas. A escola tem priorado nos seus métodos confusos de ensino, com mestres despreparados que mal redigem o próprio pensamento. A adolescência e a mocidade, ao cabo de contas, encontram-se abandonadas da sociedade, mas revoltam-se, rebelam-se contra o desprezo e passam a hostilizar os símbolos da vida social, e hostilizam a inteligência, a pátria, com a linguagem sem higiene, reflexo da aprendizagem que recebem, reveladora de que a vida não deve ser séria, mas uma pândega, de que o linguajar dos cidadãos brasileiros dá exemplo, na cátedra, no comício e sobretudo nas novelas da TV em que a gente fica com vergonha da língua estropiada pelos indivíduos maus da pátria amada.


A. Tito Filho, 22/08/1990, Jornal O Dia

domingo, 8 de janeiro de 2012

MEMÓRIA

A memória das cidades se encontra nos documentos, entre os quais se incluem os livros, no documento oral de pessoas e nos monumentos, prédios e esculturas, sobretudo.

Teresina tem sido vítima da destruição ou modificação dos edifícios que bem a caracterizam no passado. Até as pracinhas de tanto lirismo se transformaram em locais de ajuntamento de marginais, como a Pedro II. a cidade sempre foi pobre nas homenagens a vultos que fizeram a sua história.

O primeiro monumento de Teresina constitui homenagem a José Antônio Saraiva, o fundador, uma coluna de mármore com inscrições latinas em que os piauienses manifestaram gratidão ao notável baiano. Confecção no Rio de Janeiro. Nos anos 20 fez-se o busto de Dom Pedro II, colocado na praça Rio Branco, mudado para a João Luís Ferreira e hoje situado no logradouro que tem o nome do primeiro monarca. Outros bustos se ergueram, como o de Coelho Rodrigues, o de Getúlio Vargas, do governador e interventor Leônidas Melo. A estátua de José Antônio Saraiva, na praça de nome idêntico, pertence ao primeiro centenário de Teresina, na administração João Mendes Olímpico de Melo.

Outras figuras ilustres homenageadas, como Henrique Couto, Teresa Cristina, a imperatriz do segundo reinado; o governador Antonino Freire, o presidente Floriano Vieira Peixoto, o baiano Zacarias de Góis e Vasconcelos, fundador do Liceu Provincial, em Oeiras, hoje com a denominação do criador; Cromwell de Carvalho, o segundo diretor da extinta Faculdade de Direito e que a dirigiu por anos a fio; o admirável poeta popular Domingos Fonseca; o imenso Dom Quixote, criatura de Cervantes, em magnífica escultura que Clidenor Freitas Santos colocou na frente do Sanatório Meduna; Santos Dumont, cujo nome se liga à história da aviação. O prefeito Wall Ferraz mandou fazer monumentos a Teotônio Vilela, senador alagoano; Dom Avelar Brandão Vilela, arcebispo de Teresina quase quinze anos; e a Frei Serafim de Catânia, o corajoso e piedoso construtor da igreja de São Benedito. Outro prefeito, Antônio Freitas Neto, não esqueceu os humildes e aprovou e inaugurou monumento de homenagem ao motorista Gregório, no local do martírio a que esse pobre cidadão foi submetido, numa triste manhã de 17 de outubro de 1927.

Ao tempo da segunda administração Wall Ferraz sugeri ao seu chefe de gabinete, advogado Renato Bacelar, que se fizessem esculturas de uns vinte bustos de poetas e prosadores de Teresina e colocá-los na praça Marechal Deodoro, recanto de cenários bonitos e líricos para abrigo dos criadores de arte literária. A mão-de-obra se confiaria a Murilo Couto, escultor piauiense de nobreza. Talvez os recursos financeiros da Prefeitura não tivesse sido suficientes para a expressiva recordação de nossos escritores notáveis.

Neste setembro de 1990, o prefeito Heráclito Fortes recebe o meu abraço e admiração e respeito pela homenagem que prestou à memória de Petrônio Portella, colocando-lhe a estátua num dos pontos centrais de Teresina. Falecido a 6 de janeiro de 1980, já tardava a manifestação de apreço a um político piauiense às portas de alcançar a presidência da República. O Piauí pratica pouco os deveres cívicos. A coletividade piauiense se deslembra facilmente dos seus homens públicos decentes. Expulsa-os cedo da memória geral. Pouco os que não esquecem a grandeza política dos que souberam dignificar a personalidade, por conta de gestos humanos e atitudes nobres.

Heráclito Fortes praticou atitude reta. Não foi político com Petrônio Portella mas a este prestou homenagem que outros já deveriam ter-lhe prestado, justamente aqueles que houveram benefícios e proteção de grande líder.


A. Tito Filho, 19/09/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

INSULTO

Era sábado, dia 15 deste setembro corrente. Dia de sessão na Academia Piauiense de Letras. Meu estimado colega João Gabriel Baptista, mestre universitário e figura do mais alto conceito na ciência geográfica, mostrou-me pequenino recorte do jornal teresinense "Diário do Povo", de 9-9-1990, com estes dizeres: O POETA H. DOBAL NÃO PODE ENTRAR NA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS. SERIA UMA INJUSTIÇA MUITO GRANDE COLOCAR UM POETA TÃO BRILHANTE NUM LUGAR CHEIO DE POLÍTICOS MEDÍOCRES E DESEMBARGADORES.

Perguntei a Gabriel como se denominava o autor do insulto. Disse-me que não memorizou o nome do sábio, parecendo-lhe que se tratava de um colunista.

Faz poucos dias o jornalista Kenard Kruel tratou do assunto H. Dobal em página do "Jornal da Manhã". Mandei-lhe corretíssima explicação: o talentoso poeta piauiense nunca se candidatou à Academia Piauiense de Letras, e no referido órgão de imprensa se publicou uma carta de H. Dobal em que este escreveu que não cogitou o ingresso porque se considerava doente, sem as energias necessárias para participar do trabalho acadêmico.

Desconheço o autor da nota rica de baixeza. Atesta o magnífico Clidenor Freitas Santos que os homens se dividem em dois tipo: os psicopatas e os psiquiatras. Os primeiros são entidades de cérebros doentios, merecedores de compaixão. Os segundos constituem os que procuram curar a debilidade mental dos primeiros e se alegram e se tornam felizes com a boa convivência humana.

Jornalista que se preza não insulta, não ofende, não humilha. Antes procura as boas qualidades dos semelhantes e das instituições para incentivar uns aos outros. Anti jornalista é o injusto, o invejoso, que nada oferece à vida social senão insolência e ignorância.

Dedicou-se o ano de 1990 a erradicação do analfabetismo, numa campanha de alfabetização. Certos escrevedores de jornal entendem que a luta se deve fazer para analfabetizar os brasileiros, e acentuam nos seus escritos os exemplos de ensinança de como menosprezam numa instituição ilustre, a mais antiga do Piauí e que guarda na sua história altas expressões de nossa vida cultural.

Meu pai me ensinou que a gente conhece os homens pela coragem nos gestos de cada um. Quem não assume e comprova a denúncia de peito aberto não pode exercer o jornalismo. Que se disse no insulto frouxo e debochativo? Simplesmente que a Academia Piauiense de Letras corresponde a um lugar CHEIO DE POLÍTICOS MEDÍOCRES E DESEMBARGADORES. Não teve a dignidade necessária para arrolar nomes. A Academia possui apenas, no momento que passa, dois desembargadores nos seus quadros, Paulo Freitas e Manfredi Mendes Cerqueira, comparados pelo jornalista a tipos que enodoariam a presença de H. Dobal na Casa de Lucídio Freitas. Os demais acadêmicos que manchariam a presença do grande poeta são os seguintes: Hardi Filho, Celso Barros, Clidenor Freitas, Lili Castelo Branco, Alberto Silva, Gerardo Vasconcelos, Herculano Moraes, Humberto Guimarães, Gabriel Baptista, monsenhor Chaves, Camilo Filho, J. Miguel de Matos, Tito Filho, José Eduardo, Josias Carneiro, Romão de Silva, Nerina Castelo Branco, O. G. Rego de Carvalho, Palha Dias, Wilson Brandão, monsenhor Sampaio, Dagoberto Jr., Aluízio Napoleão, Carlos Castelo Branco, Alvina Gameiro, Cláudio Pacheco, Hugo Napoleão, João Emílio Falcão, Paulo Nunes, Raimundo Santana, Bugyja Britto, Deolindo couto, Reis Veloso, Renato Castelo Branco e Salomão Chaib.

Os indivíduos invejosos, injustos, xingadores, gostam de denegrir a personalidade dos semelhantes. São egoístas doentes. H. Dobal nunca se candidatou à Academia Piauiense de Letras. Logo, não pretende honrá-la, pois todos os acadêmicos lhe sufragariam o nome com irrecusável prazer. Ninguém pode votar num candidato inexistente.

H. Dobal deveria estar numa das poltronas da Academia Brasileira de Letras, tamanha a majestade lírica e objetiva dos seus poemas inimitáveis, sobretudo os que se sustentam da força telúrica e das personagens da vida social e histórica do Piauí.

Cabe ao jornalista insultador relacionar os nomes dos políticos medíocres e de desembargadores que desmerecem o título acadêmico. Caso contrário, a sentença continua atual: PUERIS, SACER EST LOCUS, EXTRA MIGITE.


A. Tito Filho, 20/09/1990, Jornal O Dia

COUSAS DA POLÍTICA

Antiga a briga de boca e papel dos políticos brasileiros. Getúlio quando se via muito criticado, convidava o crítico para polpudo cargo e logo os elogios surgiam.

Conhecidíssimo o episodio que envolveu o notável João Brígido, jornalista que encheu a vida cearense de artigos brilhantes e lições sobre cousas e homens, e o presidente Acióli, governador do Ceará, um dos reis do nepotismo nacional.

João Brígido pretendia emprego rendoso para um parente, segundo contam as crônicas. Procurou Acióli e teve a promessa da prebenda. Passaram-se os dias e a nomeação não se verificava, até que o jornalista foi ao palácio governamental e fez reclamação. O negócio prosseguia enrolado. João Brígido procurou desatou o nó, reclamou já com palavras de esbodegação, e retirou-se dos confortos palacianos rompido com o chefe. No jornal, sentou-se à mesa e escreveu um artigo dos mais violentos contra o governante. Ao atingir as últimas linhas do artigalhão, chegou emissário do governador com o decreto da nomeação pleiteada. João Brígido não quis perder tempo na escritura de novo artigo para a edição de seu órgão de imprensa. Encontrou a solução, escrevendo, no final das descomposturas: "O que eu disse linhas acima, nada mais é do que a reprodução das perversidades que os inimigos atiram à face do governador Acióli, cidadão dos mais ilustres da terra cearense, político sem defeito".

Assim no Piauí. Os políticos escarram uns nos outros e depois se beijam, como nos versos em que o poeta diz que o beijo amigo é véspera do escarro. Terríveis adversários foram Eurípedes de Aguiar e Matias Olímpio. Tempos depois o segundo apoiou o primeiro para o Governo do Estado. Em 1946, num comício da praça Rio Branco, de Teresina, Matias Olímpio acusou Leônidas Melo de ladrão da cousa pública e exibiu certidões obtidas em governo amigo, o de Leôncio Ferraz, de cuecas de Leônidas pagas pelos cofres públicos. Dez anos passados, ambos foram candidatos ao Senado, num acordo dos dois referidos chefes partidários. O saudoso e admirável Petrônio Portella, nos coretos das concentrações eleitorais, referia-se a Felino Muller como assassino. Uns temos decorridos os dois se tornaram amigos e conselheiros. Os antigos seguidores do Partido Social Democrático (PSD) e da União Democrática Nacional se arrasavam por toda parte. Em terreiro de pessedista não dançava udenista. Veio a famosa revolução entre aspas de 1964 e enfiou os dois famosos adversários num saco só, como se fossem a mesma farinha.

Após a ditadura de Getúlio Vargas, o país voltou à normalidade constitucional em 1946. De lá para cá, vários políticos governaram o Piauí, começando-se por Rocha Furtado. Em seguida Pedro Freitas que deixou a UDN e desta passou a receber hostilidade e xingamento. E assim por diante. As brigas e rompimentos continuam. Desavenças hoje, pazes amanhã.


A. Tito Filho, 19/04/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

ROMÃO

Júlio Romão da Silva, fisicamente baixote, feio como diabo, toma posse numa das cadeiras da Academia Piauiense de Letras, próxima segunda-feira, 21 deste corrente mês de maio. Mereceu o ingresso na entidade imaginada e criada por Lucídio Freitas. Na amorável Teresina chorou a primeira vez, ao nascer, mais de setenta anos passados. Marceneiro de profissão, fazia apenas mesas e cadeiras, que vendia por alguns cobres com que pagava os amores de cunhãs safadas da beira do Parnaíba. Buscou outras terras. Ei-lo no Rio de Janeiro, onde o conheci na década de quarenta, feito funcionário público e já metido a escreve de estórias no jornalismo carioca. Aprendeu um bando de cousas no decorrer da juventude e da maturidade. Gostava da cana pau-pereira, e dela derramava na garganta boas lapiguachadas. Dançava samba na Lapa, o bairro central de mulatas boas e de malandros gigolôs. Compôs músicas carnavalescas, a exemplo de velhas cantigas como CARREGARAM O MEU PERU, CHAPA BRANCA e CARNAVAL NO BONDE. Gostava do cabaré Porto Rico, de mulheres caras, mas de carnes rijas. Freqüentou muito a Taberna da Glória, para os chopes e sanduiches da madrugada, convivendo com Orlando Silva, Blecaute, e jogadores famosos de futebol. Fez programa de rádio, com lorotas do Piauí. Jogou capoeira e tornou-se bailarino de gafieira. Iniciou vida literária. Participava de rodas de altas figuras como Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Lacerda, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Antônio Calado, Joel Silveira, Graciliano Ramos, Oscar Niemeyer. Escrevia em duas revistas célebres na época, "Vamos Ler" e "Dom Casmurro". Ganhou campeonato de bilhar e a amizade de José Lins do Rego. Ouviu lições do famoso Rondon, que o levou a tribos indígenas, para estudos. Aprendeu a Língua dos selvagens e andou pintando o sete na mata com princesas da selva. Fumou com os caciques o cachimbo da paz. Realizou cursos em universidades. Andou pelos Estados Unidos, na Califórnia, em companhia de Patrício Franco. Dedicou-se a escrever livros sobre assuntos de natureza vária. Memória histórica de Teresina. Os nomes tupis na toponímia carioca, obra que o governo da antiga Guanabara premiou. Luís Gama, o negro notável, teve nele o melhor critico literário. Promoveu campanhas cívicas em favor da abolição do preconceito e do racismo. Dedicou-se à arte teatral, influenciado de temas bíblicos, merecendo louvor da Academia Brasileira de Letras para a conquista do Prêmio Cláudio de Sousa, com a peça JOSÉ, O VIDENTE. Outra peça teatral de Romão tem o nome de A MENSAGEM DO SALMO, levada a cena mais de um ano nas casas de espetáculo do Rio de Janeiro. Ainda lhe sobrou tempo para cultivar a poesia, os temas filosóficos, a arte de bem dizer, na língua de certas nações indígenas, como os bororos. Jornalista, conferencista, filólogo. Escritor plural. Voltou a residir na terra onde nasce e nesta Teresina do seu chamego pretende trabalhar, e muito, no terreno cultural. Tenho-lhe amizade e admiração. Para coroamento de uma longa vida de lutas e diversidade de profissões, dançarino de gafieira, servidor público, professor, marceneiro, compositor musical, jornalista, escritor, faltava que fosse pastor, encargo que ele vem exercendo, para colocar ovelhas ruins no caminho certo da verdade e da vida. Júlio Romão da Silva é, em boa verdade, um dos melhores representantes da negritude nacional, um negro culto, genial, abundante de criatividade intelectual.


A. Tito Filho, 17/05/1990, Jornal O Dia

SUPERIORIDADE E INFERIORIDADE DOS POVOS

A questão da superioridade dos povos, ou das "raças", tem apaixonado espíritos de valor nos domínios da ciência. Aos dolicocéfalos loiros atribuiu-se o privilégio da raça superior, destinada a cumprir uma missão civilizadora especial. Difundindo teorias de inexatidão científica comprovada, homens como Gobineau "promoveram a eclosão de preconceitos de raças".

Bem fácil de notar é que a ciência é infensa aos preconceitos.

"Onde quer que o grupo branco resida, por uma concorrência de circunstâncias políticas invencíveis, imerso nos gelos polares, ou sob o calor do Equador, para esse lado se inclinará o centro de gravidade do mundo intelectual. Será em torno dele que todas as idéias, todas as tendências, todos os esforços convergirão, não havendo obstáculos naturais capazes de obstar que os produtos de conveniência a mais longínqua possível, ali cheguem, através dos mares, dos rios e das montanhas" - foi a proclamação de Gobineau, estabelecendo a superioridade do “homem louro de olhos azuis".

Nos seus quatro volumes sobre "Desigualdade das Raças", Gobineau se revela apenas um romancista em matéria de antropologia.

Segue-lhe as pisadas, com as suas duas "raças" humanas da Europa, George Vacher de Lapouge. Para ele existiriam uma "raça" de conquistadores e de senhores, os arianos, e outra "raça" de vencidos e de escravos natos, os celtas, ambas físicas e moralmente distintas. À primeira pertencem a terra e a genialidade da inteligência; a segunda há de conformar-se com a mediocridade.

Expondo as falsas bases do raciocínio, Novicow, no seu "O Futuro da Raça Branca", desenvolve magistrais considerações como as que vamos resumir: Lapouge afirma que os anglo-saxões construíram um dos maiores impérios do mundo, o que confirma a sua superioridade racial. E para demonstrar a inferioridade dos latinos, diz ele que os franceses foram vencidos em Sedan. Se Lapouge houvesse escrito sua obra em 1811, teria chegado a uma conclusão precisamente contrária, pela razão de que, tendo os franceses vencido todos as povos da Europa, passariam, fatalmente, a ser raça superior. Desta forma, após cada batalha se modificariam todas as conclusões da antropologia. A 17 de junho de 1815 os franceses teriam sido superiores para em 19, depois de Waterloo, o deixarem de ser.

Não é sério acreditar em tanta inconsistência de argumentos.

Faguet chega a afirmar que a civilização até agora apenas tem sido feita pelos brancos. A cor, na crença do pensador francês, é o único fator da civilização. Tão frágil assertiva pode ser assim destruída: se civilização e raça fossem noções idênticas, as raças mais perfeitas teriam sido as primeiras a civilizar-se. E que faziam os famosos dólico-louros na Europa Ocidental na época em que os caldeus, egípcios e chineses desenvolviam civilizações já relativamente muito recentes? Os dólico-louros existiam na Europa já na época dos primeiros faraós e não sabemos como é que estavam tão atrasados, apesar das suas faculdades extraordinárias. Durante muito tempo os nobres dólico-louros mostraram-se completamente bárbaros, sendo os visbraqui-castanhos já bastante civilizados.

Vislumbramos em Spengler o mesmo erro em que muitos incorreram quando, no "O Homem e a Técnica", tende a estabelecer entre os homens uma distinção fundamental: a classe dos que dirigem e a classe dos que são dirigidos. O trabalho coletivo exige "não só duas espécies de técnica, mas duas espécies de homens... existem homens nascidos para mandar e homens nascidos para obedecer, sujeitos e objetos do processo econômico".

Não é justo deixar de admitir que o trabalho coletivo exija dos homens que dirijam e que são dirigidos. mas daí a afirmar-se que uns nascem para mandar e outros para obedecer, vai grande diferença. "Governar - afirma Spengler - guiar, comandar é uma arte, é uma técnica difícil... pressupõe um talento inato".


A. Tito Filho, 20/05/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

INDEPENDÊNCIA DO PIAUÍ

A história da independência no Piauí reclama interpretação. Alguns já procuraram fazê-la. A verdade é que no começo do século XIX a economia brasileira estava abaladissima, bem assim desorganizadas e decadentes as fontes de riqueza: o ouro, os diamantes, o açúcar. Daí as tentativas novas realizadas, desde o chá, que ficaria como uma experiência de luxo, até o café, que se tornaria a peça máxima de resistência econômica. Situação desoladora. Atestam-no as revoluções sem ideais, revoluções platônicas sem ideais, refletindo situações de desequilíbrio orgânico inconsciente. A conspiração mineira atestava a decadência da mineração. As revoluções de 1817 a 1824 revelaram economia instavelmente garantida pelo açúcar que, desde a expulsão dos holandeses perdera no Nordeste a supremacia produtora. O Rio Grande do Sul só a partir de 1823 passou do regime agrícola ao pastoril.

O Brasil, no século XIX, tornou-se o centro de um comércio triangular, unindo-se à África e à Ásia, sem participação portuguesa. Há outras causas que explicam a independência, mas essa foi uma das causas fundamentais.

Saliente-se que o norte do país era satélite de Portugal e representava dois terços da atividade útil do Brasil.

Reinava Dom João VI. Portugal praticamente estava entregue aos ingleses, governado por Beresford. Com o regresso do monarca, houve a pretensão de recolonizar o Brasil, já elevado a reino, e isto feria profundos interesses econômicos.

Retornando a Portugal, em 1821, Dom João VI despachou para o comando das armas do Piauí o oficial português João José da Cunha Fidié, que escreveria, ao depois: "Na ocasião de minha partida, Sua Majestade me ordenou muito positivamente: mantenha-se, mantenha-se" - isto é, conserve o Piauí sob o domínio português. Sabia o monarca que o Piauí era a mais rica das capitanias do norte, rica em gado, fonte de abastecimento, do Sul e do Norte, fonte de riqueza de Portugal. Do Piauí seguia carne para Lisboa. Dominando o Piauí, Portugal dominaria econômica e politicamente o Norte e sujeitaria o Sul. Evitaria o triunfo dos independentes na Bahia, cortando o suprimento de carne.

Portugal arrecadava somas elevadas do gado do Piauí, com grandes prejuízos para os criadores e para os industriais e comerciantes da carne, fazendo que estes sustentassem a causa da independência.

Foi das mais sangrentas a batalha do Jenipapo, às margens do rio do mesmo nome, em Campo Maior, dia 13-3-1823. Embora vitorioso, Fidié viu-se obrigado a seguir para Caxias, baluarte português. Três meses o comandante português resistiu ao cerco de sei mil brasileiros, comandados por Filgueiras e Souza Martins: "resisti - diz ele - até o último apuro, tirando do campo inimigo, a ponta de baioneta, os víveres precisos para sustentar a minha tropa, cheia de fadiga". Manuel de Souza Martins havia proibido gado para o Maranhão.

A Independência no Piauí e no Maranhão - salientou Hermínio Condé - é uma epopéia que não encontra similar em qualquer das campanhas emancipadoras dos povos americanos.

Em 1973, o governador Alberto Tavares Silva homenageou, com as forças armadas, no local do combate do Jenipapo, a memória dos que ali se sacrificaram, 150 anos atrás. No seu discurso, lembrou o governante a lição correta: "Fidié fora mandado ao Brasil para compor, com os outros militares portugueses destacados no Norte, o dispositivo que garantiria a Portugal o domínio de tão vasta porção do território brasileiro. Dominadas pelos portugueses as fazendas de criar do Piauí, estariam os independentes baianos privados de suprimento e de tão vital suprimento estariam igualmente privadas as demais províncias. É fácil entender a importância, para a Coroa Portuguesa, de fazer abortar, ou de esmagar a ferro e fogo, o movimento das independentes no Norte do país, onde quer que se manifestassem".

É necessário lembrar que no Sul a independência foi aplausos e festas. No norte, fome e sangue. A batalha do Jenipapo decidiu a unidade brasileira.

Manuel de Sousa Martins, futuro visconde da Parnaíba, censurou o movimento dos parnaibanos com a proclamação da independência de 19-10-1822. Achou-o precipitado. Lançou a sua culpa a sangueira do Jenipapo. Abdias Neves acredita que aquele foi o momento histórico do rompimento. Outro teria sido o destino do Norte sem a iniciativa dos parnaibanos. Portugal sabia que o Piauí constituía magnífico ponto estratégico para o ataque a outras províncias. O Piauí exportava o gado consumido em Pernambuco, Ceará e Bahia. Houve até o alvitre de que Maranhão, Piauí e Pará formassem um Estado subordinado a Lisboa. Os acontecimentos de Parnaíba alteraram tal plano.

João José da Cunha Fidié foi militar honesto, puro e disciplinado. Inflexível. Nos episódios da independência do Piauí, lhe são atribuídas falhas táticas: haver partido da capital com toda a tropa e material de guerra, para dar combate ao movimento da Parnaíba, onde muito repousou depois de saquear a cidade. Nada combateu. Quando soube da rebelião em Oeiras, quis retornar à capital, mas foi obrigado a travar a batalha do Jenipapo. A ida para Parnaíba foi erro grave como o abandono de Oeiras, sede do governo, sem elementos de resistência. Segundo erro, a demora em Parnaíba. Os independentes enfrentariam incalculáveis dificuldades se Fidié se aquartelasse em Campo Maior ou se tivesse regressado, sem perda de tempo a Oeiras, logo que soube que os independentes da Parnaíba se haviam refugiado no Ceará. O movimento da Parnaíba não tinha raízes populares. Ainda assim, Fidié constituiu grave risco para a unidade brasileira.

De tudo se verifica que o Piauí não aderiu à independência. Constitui-a. neste ponto, há necessidade de revisão de livros de história pátria, notadamente os didáticos, em que deve ser incluído o esforço piauiense na luta da emancipação.


A. Tito Filho, 05/04/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

QUASE MARANHENSE

Um dia Carlos Castelo Branco veio a Teresina autografar o seu livro de análise e interpretação de episódios políticos e tormentos partidários que provocaram, em 1964, a nefasta quinta República. Na dedicatória do meu exemplar escreveu que eu havia renegado por herança a família Castelo Branco. Lembrou-se do nosso parentesco. Meu avô Silvestre Tito Castelo Branco andou de briga com os parentes e tirou dos filhos o nome de família, conseqüentemente dos netos também.

Recebi Carlos na Academia Piauiense de Letras, em 1984, e recordei esses fatos, e agora os revelo de novo na ocasião em que lhe são prestadas justas homenagens nestes seus 70 anos de vida, depois de muitas vitórias de muito se orgulha o humilde parente rabiscador das presentes considerações.

*   *   *

A 17 de janeiro de 1914, Cristino Castelo Branco casou-se com a prima Dulcila Santana Castelo Branco. Juntos viveram 69 anos e compuseram afetiva constelação de filhos. Um deles, Carlos, quase nascia do outro lado do rio Parnaíba.

No fim de outubro ou novembro de 1917, Cristino assumiu o juizado de direito do Brejo, no Maranhão. Desistiu da magistratura e regressou a Teresina dois anos depois, outubro ou novembro de 1919. Carlos nasceu a 25 de junho de 1920. Por poucos meses deixou de ser maranhense e quase teria o mesmo destino de Odylo costa, filho, que veio ao mundo na ilha de São Luis por virtude de presença paterna na magistratura do vizinho Estado.

Teresinense, nesta Chapada do Corisco, escolhida pelo baiano José Antônio Saraiva para edificar nela a Vila Nova do Poti, derribando a mataria e fundando a primeira cidade artificial do país, na Chapada. Carlos passou a infância e a adolescência, e nunca esqueceu dos seus hábitos, dos seus costumes e das suas lembranças. Ginasiano, participou de imprensa estudantil, jornalismo de idéia e fantasia.

Deixou Teresina em janeiro de 1937, deixando, como contou, uma novidade em caminho, o telefone. e escreveu: "Deixei a cidade impregnado dela, dos seus sonhos modestos e do amor à sua condição". No trem rumo a São Luís, saudoso, recitou Lucídio Freitas: "Teresina apagou-se na distância. Ficou longe de mim, adormecida/Guardando a alma de sol de minha infância/E o minuto melhor de minha vida".

Buscou outras paisagens. Deixava a paisagenzinha de Teresina de ruas empregadas, dois cineminhas, famosas casa de vida airada da rua Paissandu, rodas de calçada, em cadeiras desconfortáveis, para o falatório da vida alheia. Nove da noite, hora de dormir, mulher cansada e mulher donzela.

Estacionou em Belo Horizonte. Em 1939, repórter policial, tomou lições de mineirismos, mineirice e mineiridade. Aprendeu com os mineiros espertos a ouvir e a cochilar.

Depois, conquistou o Rio. Chegou ao "Jornal do Brasil". Projetou-se internacionalmente com a Coluna do Castelo; repositório de análise da vida política brasileira, homens e fatos, em mais de um quartel de século.

Deus o proteja na sua inteligência sem medo, sempre piauiense.


A. Tito Filho, 20/07/1990, Jornal O Dia