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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

CARTA SEM POLÊMICA

Minha talentosa coleguinha de jornal "Diário do Povo". Cordiais saudações. Na edição de domingo, 16 deste dezembro natalino, li a entrevista que você fez com o ex-governador José da Rocha Furtado, e gostei das suas perguntas e das respostas do entrevistado, num trabalho bem feito, como se estivessem em inteligente pingue-pongue de Marília Gabriela. Antes, porém, do texto conduzido claramente, fez a prezada amiga uma espécie de introdução, aquilo que os velhos jornalistas como eu, o Araújo Mesquita, padrão de dignidade profissional, Deoclécio Dantas, lutador de muita altivez, chamavam de NARIZ-DE-CERA. E na dita e supradita explicação introdutória, a simpática confreira atesta: "Nos últimos quatro anos, o nome mais lembrado por deputados e políticos foi o do ex-governador rocha Furtado".

Nunca, caríssima repórter. Nos últimos quatro anos, 1987 a 1990, não me recordo dessa preocupação da fauna dos homens públicos do Piauí. Pelo contrário, o nome mais usado nos jornais, nos rádios e tevês tem sido o de Alberto Silva.

Adiante você observa e atesta: "Fora dos meios políticos, deputados como Eurípedes de Aguiar, Santos Rocha, Demerval Lobão e João Mendes promoviam sessões de tortura psicológica, na tentativa de intimidar Furtado...". Não, colega de rara acuidade. Fui testemunha ocular da história. Eurípedes Aguiar, Demerval Lobão e João Mendes não eram, nessa época, deputado, federais ou estaduais, e os três pertenciam ao mesmo partido do governante, a UDN, e defendiam rocha Furtado por todos os meios de que dispunham. Exercia o mandato de deputado o Dr. Santos Rocha, orador animado e causídico hábil e corajoso, e não me consta que ele promovesse sessões psicológicas para que se torturasse psicologicamente o governador, de forma que se praticasse a lavagem cerebral dos criminosos porões das polícias ditatoriais.

A campanha de que Rocha Furtado DAVA AZAR foi criada no jornalismo oposicionista. No tempo de Hermes da Fonseca, confrades de jornal e compositores carnavalescos atribuíam ao presidente da República a URUCUBACA, o mesmo que azar, fluido negativo que se ligava, em Teresina, também ao desembargador Cromwell de Carvalho, conterrâneo de rara dignidade moral.

A crença de que certas pessoas distribuem AZAR desde que passem por nós ou quando têm os nomes pronunciados, pertence ao povo em virtude de circunstâncias adversas ligadas por coincidências aos cidadãos que a maledicência humana pretende destruir ou levar ao ridículo.

Perto do fim da parte introdutória, a zangada coleguinha escreve: "Quem desfez as lendas que existem em torno daquele que seria o mais impopular dos governadores do Piauí são artigos de jornais cariocas e discursos na época pelos opositores".

As lendas se criam pela sabedoria popular. E sempre elas provocaram as mais extraordinárias obras da literatura universal.

Rocha Furtado foi ídolo dos teresinenses e ao seu lado, na defesa do seu governo estiveram famosos jornalistas brasileiros como J. E. de Macêdo Soares e Danton Jobim e parlamentares do tope dos senadores Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves e José Américo de Almeida. A imprensa de todo o Brasil defendia o governante do Piauí tornando-o popularíssimo e cada vez mais apoiado pelos piauienses. Só a paixão política dizia o contrário, não creio que a coleguinha se sustente de atitudes passionais no seu jornalismo.

Noutro ponto do NARIZ-DE-CERA a prezada jornalista afirma que Rocha Furtado: "TROCOU ATÉ DE CIDADANIA - HOJE É MUITO MAIS CEARENSE DO QUE PIAUIENSE".

Rocha Furtado confessa que deixou o Piauí por causa das dívidas contraídas.

Buscou Fortaleza para recuperar as finanças domésticas. Resta saber se os cearenses que residem em Teresina trocaram de cidadania, pois a cidadania tem a proteção da soberania nacional, desconhecendo fronteiras entre as velhas províncias, ou Estados da Federação.

No fim a garota escreve: "Furtado não admite a comparação do seu com o atual governo".

Rocha Furtado procurou-me para me informar que nunca fez a afirmativa referida à jornalista entrevistadora.

Minha intenção nesta carta está no restabelecimento da verdade, uma vez que não me compete a defesa da política que os homens públicos realizam ou realizaram no Piauí. Interessa a todos a realidade dos fatos.


A. Tito Filho, 20/12/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CARROS

Quando cheguei ao Rio, na década de quarenta, já se verificava algum aperreio no tráfego de veículos, sobretudo na avenida Rio Branco, de trânsito nos dois sentidos. Só os ricos ou os bem aquinhoados de vencimentos possuíam automóvel. A classe média e o operariado se serviam de ônibus e do popularíssimo bonde, este último muito ventilado, viagem agradável, tranqüila. Eu gostava sobretudo quando se sentava a meu lado a garota de traseiro bem fornido e coxas de misse, e que roçava na gente acompanhando o sacolejar do veiculo para a esquerda e para a direita e vice-versa, nos trilhos zoadentos.

Retomei a Teresina no principio de 1947. A cidade fundada por José Antônio Saraiva tinha uns vinte carros de aluguel e um tanto igual de carros particulares. Não me lembro de ônibus nesse tempo.

Se a memória não me falha, foi em 1963 ou 1964 que, em Teresina, fiz entrevista com o senador Sigefredo Pacheco, que havia retornado de viagem a Rússia, numa visita de parlamentares brasileiros. Dirigi ao saudoso médico e amigo várias perguntas sobre o povo russo, o comunismo, a arte, a literatura dessa gente, quase desconhecida dos piauienses na época. O entrevistado ofereceu esclarecimentos curiosos e ilustrativos. Publiquei-os na imprensa.

Não poderia deixar de fazer uma indagação sobre a capital soviética, assim me respondendo o senador: "Cidade muito grande e populosa, mas atrasada. Não possui certo conforto da vida moderna, como o automóvel. São poucos esse veículos que trafegam em moscou, menos do que em Teresina".

Sigefredo informava uma verdade. Até na capital russa o tráfego de automóveis se mostra reduzido, o que não significa atraso, mas proteção do governo à economia do povo.

No Brasil o ideal de todos reside em possuir automóvel, ricos e pobres. Os pobres, porém, sacrificam as pequenas rendas auferidas para a aquisição de carro próprio e cuja manutenção, com gasolina, peças repostas, oficinas revisoras, só angustiam o raquítico orçamento doméstico. A política soviética se vira para proteger a bolsa popular, proibindo-se que a massa de gente trabalhadora se sacrifique na compra do que lhe acarretará despesas acima do seu poder aquisitivo. Que faz o governo russo? Oferece ao povo o sistema de metrô mais luxuoso do mundo e no transporte subterrâneo todos alcançam, em tempo mínimo, o local de trabalho e de residência.

No Brasil, pessoas que mal comem, mal habitam se envaidecem pilotando o que compraram por altos preços, que adicionam juros criminosos.

A ministra Zélia Cardoso de Melo denunciou pela televisão que uma empresa vendedora de carros, a Autolatina, está cobrando preços acima do normal pelos veículos que vende. A empresa contesta a ministra. Não sei de que lado está a razão. Penso, porém, que a ministra deveria punir os preços extorsivos que se cobram pelos produtos extorsivos que se cobram pelos produtos necessários ao povo, diariamente sobem de preço, e o aumento se faz com a autorização do próprio governo, ou da ministra, e se relaciona com o pão, com o leite, com o transporte coletivo, com a energia elétrica.

Carro particular significa luxo, ao menos para o povo de barriga roncada.


A. Tito Filho, 28/12/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

UM POUCO DE JORNALISMO

Estava eu no Rio de Janeiro quando, em 1945, a imprensa se libertou da censura de Getúlio Vargas. Lia os jornais da época e muita apreciava os fortes artigos que corajosos jornalistas escreviam contra a longa ditadura getuliana. Nunca me esqueci de Osório Borba, Rafael Correia de Oliveira, Carlos Lacerda, J. E. de Macedo Soares, articulistas severos.

Em 1946, criamos, na antiga capital da República, órgão LIBERTAÇÃO, em favor da candidatura de José da Rocha Furtado ao governo do Piauí. Luís Costa, Tibério Nunes, Virmar e Vinícius Soares e eu. Jornalzinho valente. Editado no Rio, vinha de avião para Teresina, onde se vendiam cinco mil exemplares. As edições e o frete eram custeados pelo deputado José Cândido Ferraz.

Já no Piauí, eleito Rocha Furtado, estive alguns meses na orientação do órgão "O Piauí", que circulava nos dias de quinta e domingo, e me foi confiado por Eurípedes de Aguiar. Posteriormente, fiz parte da redação de outras folhas, sempre partidárias, sob a responsabilidade de governistas ou oposicionistas.

Na década de 50, participei de "O Pirralho", com circulação semanal. Irônico, o jornal explorava sobretudo os aspectos ridículos das pessoas e da sociedade. Dirigi também revista literária, chamada "Paranóplia", nome de natureza culta, fundada pelos principais jornalistas da terra.

Em 1959 passei a direção de "Jornal do Piauí", que obedecia à orientação política do PSD, ou Partido Social Democrático. Dei-lhe redação diferente, sem xingamentos, de elegante linguagem, sem que se abdicasse das criticas a erros dos homens públicos. Uns dois anos depois, secretariei "Folha do Nordeste", jornal moderado, sério, de propriedade de João Clímaco de Almeida, que o dirigia de maneira elevada e respeitadora.

Trabalhei em "Folha da Manhã" e "O Dia", o primeiro de Marcos Parente, dirigindo com segurança por Araújo Mesquita, o segundo fundado por Mundico Santídio, com circulação duas vezes por semana. Quando foi adquirido por Otávio Miranda, ao órgão, que passou a circular diariamente, eu prestava a colaboração dos editoriais, no tempo em que à frente das edições se achava o talentoso Deoclécio Dantas.

Estive noutros jornais de Teresina, sempre a pedido dos seus proprietários ou editores, e cito com saudade os nomes de Josípio Lustosa, Bernado[?] Clarindo Bastos, Raimundo Ramos.

"Jornal do Piauí", na fase de José Vieira Chaves, preenche grande parte de minha atividade. Um dia contarei a história de seu diretor, figura humana que a gente não esquece.

Estas lembranças hoje têm o objetivo de falar da revisão dos nossos órgãos de imprensa. Os revisores são mal pagos. Trabalham nas madrugadas, sonolentos. Bondosos companheiros, embora às vezes os autores dos artigos não lhes perdoem os cochilos.

Na última quinta-feira, neste espaço, escrevi de 1987 a 1990, mas saiu de 1787 a 1990. tomei um susto. Ninguém pode ser tão velho. noutro ponto escrevi: DEPUTADOS FEDERAIS OU ESTADUAIS. Em vez do plural, publicou-se o singular DEPUTADO. Logo depois deixou-se isto: PELAS SABEDORIAS POPULAR. Redigi SABEDORIA POPULAR. Em certo lugar, engoliu-se a vírgula e suprimiu-se o ponto. em MACEDO se colocou em acento que não foi meu e saiu MACÊDO (com circunflexo). E outros GATINHOS. O pior, porém, se deu com INTENSÃO. Nunca grafei tal palavra pelo jeito que se publicou. Tenho certeza absoluta de que a palavra se escreve INTENÇÃO, com a letra cedilha, a única que leva cedilha.

Durante a longa vida jornalística que tem sido a minha, sempre os bons e inteligentes amigos da revisão me maltratam. Mas nunca deixei de desculpá-lo, porque conheço as dificuldades que enfrentam. Além do mais, quero-lhes bem e lhes ofereço, no percurso dos anos, os meus humildes préstimos. Peço-lhes, porém, que não mexam na minha INTENÇÃO, e deixem sair em INTENSÃO, arrasando a meu diploma de professor de português. Filho gratíssimo ao coleguinha, a quem mando um abraço pelo obséquio.


A. Tito Filho, 22/12/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

INSULTO

Era sábado, dia 15 deste setembro corrente. Dia de sessão na Academia Piauiense de Letras. Meu estimado colega João Gabriel Baptista, mestre universitário e figura do mais alto conceito na ciência geográfica, mostrou-me pequenino recorte do jornal teresinense "Diário do Povo", de 9-9-1990, com estes dizeres: O POETA H. DOBAL NÃO PODE ENTRAR NA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS. SERIA UMA INJUSTIÇA MUITO GRANDE COLOCAR UM POETA TÃO BRILHANTE NUM LUGAR CHEIO DE POLÍTICOS MEDÍOCRES E DESEMBARGADORES.

Perguntei a Gabriel como se denominava o autor do insulto. Disse-me que não memorizou o nome do sábio, parecendo-lhe que se tratava de um colunista.

Faz poucos dias o jornalista Kenard Kruel tratou do assunto H. Dobal em página do "Jornal da Manhã". Mandei-lhe corretíssima explicação: o talentoso poeta piauiense nunca se candidatou à Academia Piauiense de Letras, e no referido órgão de imprensa se publicou uma carta de H. Dobal em que este escreveu que não cogitou o ingresso porque se considerava doente, sem as energias necessárias para participar do trabalho acadêmico.

Desconheço o autor da nota rica de baixeza. Atesta o magnífico Clidenor Freitas Santos que os homens se dividem em dois tipo: os psicopatas e os psiquiatras. Os primeiros são entidades de cérebros doentios, merecedores de compaixão. Os segundos constituem os que procuram curar a debilidade mental dos primeiros e se alegram e se tornam felizes com a boa convivência humana.

Jornalista que se preza não insulta, não ofende, não humilha. Antes procura as boas qualidades dos semelhantes e das instituições para incentivar uns aos outros. Anti jornalista é o injusto, o invejoso, que nada oferece à vida social senão insolência e ignorância.

Dedicou-se o ano de 1990 a erradicação do analfabetismo, numa campanha de alfabetização. Certos escrevedores de jornal entendem que a luta se deve fazer para analfabetizar os brasileiros, e acentuam nos seus escritos os exemplos de ensinança de como menosprezam numa instituição ilustre, a mais antiga do Piauí e que guarda na sua história altas expressões de nossa vida cultural.

Meu pai me ensinou que a gente conhece os homens pela coragem nos gestos de cada um. Quem não assume e comprova a denúncia de peito aberto não pode exercer o jornalismo. Que se disse no insulto frouxo e debochativo? Simplesmente que a Academia Piauiense de Letras corresponde a um lugar CHEIO DE POLÍTICOS MEDÍOCRES E DESEMBARGADORES. Não teve a dignidade necessária para arrolar nomes. A Academia possui apenas, no momento que passa, dois desembargadores nos seus quadros, Paulo Freitas e Manfredi Mendes Cerqueira, comparados pelo jornalista a tipos que enodoariam a presença de H. Dobal na Casa de Lucídio Freitas. Os demais acadêmicos que manchariam a presença do grande poeta são os seguintes: Hardi Filho, Celso Barros, Clidenor Freitas, Lili Castelo Branco, Alberto Silva, Gerardo Vasconcelos, Herculano Moraes, Humberto Guimarães, Gabriel Baptista, monsenhor Chaves, Camilo Filho, J. Miguel de Matos, Tito Filho, José Eduardo, Josias Carneiro, Romão de Silva, Nerina Castelo Branco, O. G. Rego de Carvalho, Palha Dias, Wilson Brandão, monsenhor Sampaio, Dagoberto Jr., Aluízio Napoleão, Carlos Castelo Branco, Alvina Gameiro, Cláudio Pacheco, Hugo Napoleão, João Emílio Falcão, Paulo Nunes, Raimundo Santana, Bugyja Britto, Deolindo couto, Reis Veloso, Renato Castelo Branco e Salomão Chaib.

Os indivíduos invejosos, injustos, xingadores, gostam de denegrir a personalidade dos semelhantes. São egoístas doentes. H. Dobal nunca se candidatou à Academia Piauiense de Letras. Logo, não pretende honrá-la, pois todos os acadêmicos lhe sufragariam o nome com irrecusável prazer. Ninguém pode votar num candidato inexistente.

H. Dobal deveria estar numa das poltronas da Academia Brasileira de Letras, tamanha a majestade lírica e objetiva dos seus poemas inimitáveis, sobretudo os que se sustentam da força telúrica e das personagens da vida social e histórica do Piauí.

Cabe ao jornalista insultador relacionar os nomes dos políticos medíocres e de desembargadores que desmerecem o título acadêmico. Caso contrário, a sentença continua atual: PUERIS, SACER EST LOCUS, EXTRA MIGITE.


A. Tito Filho, 20/09/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

MESTRE CUNHA - I

A 4 de fevereiro deste ano faleceu o velho mestre Cunha e Silva, Francisco da Cunha e Silva, nascido em Amarante (PI), a 3-8-1904. Pais: Manoel Alexandre e Silva e Cândida da Cunha e Silva. Estudos primários na terra natal. Aluno do Colégio Bento XV (Teresina). Fez estudos preparatórios e filosofia no Colégio Salesiano Santa Rosa, de Niterói (RJ). Em 1923, escolhia a carreira eclesiástica, matriculando-se no Colégio Salesiano São Manuel, de Lavrinhas, Estado de São Paulo, no qual realizou o quinto ano secundário para se aperfeiçoar no estudo de latim. No ano seguinte, concluiu o noviciado. O Colégio São Manuel funcionava também como seminário e, assim, em 1925, concluiu o curso de filosofia. Como não tinha vocação para o sacerdócio, regressou ao Piauí para rever a família, viajando para o Rio de Janeiro em 1926, onde se casou. Voltou ao Piauí em 1927. No ano seguinte, lecionou português, história e geografia no Ginásio Amarantino, fundado por Odilon Nunes, e iniciou colaboração no jornal "O Floriano", da cidade do mesmo nome (PI). Em 1932, em Amarante, criou educandário com o nome de Ateneu Rui Barbosa, que funcionou até 1947, quando passou a residir na capital do Estado. Professor de geografia do Brasil no Colégio Estadual do Piauí, hoje Colégio Zacarias de Góis. Colaborador, redator e depois diretor de "O Piauí". Diretor de "Resistência". Colaborador de "A Gazeta", "O Tempo", "O Dia", "Jornal do Piauí", "A Luta", "O Pirralho". diretor da Casa Anísio Brito (Biblioteca, Arquivo Público e Museu Histórico do Piauí), na administração Pedro Freitas. Professor, por concurso, de história do Brasil da Escola Normal Antonino Freire. Diretor, durante um ano, do Colégio estadual do Piauí, hoje Zacarias de Góis, na administração Chagas Rodrigues. Orador, teve participação em memoráveis campanhas políticas. Durante quatorze anos, professor no Ginásio (hoje Colégio) Desembargador Antônio Costa, lecionando português, francês e geografia geral. Há doze anos colabora no "Estado do Piauí". Pertenceu ao antigo Cenáculo Piauiense de Letras. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Colaborou, ainda moço, na imprensa de são Luís, Maranhão ("O Imparcial") e do Rio de Janeiro ("Diário de Notícias"). Publicou "O Papel de Floriano Peixoto na obra da proclamação e consolidação da República" (tese).


A. Tito Filho, 098/02/1990, Jornal O Dia

sábado, 1 de outubro de 2011

BIACADÊMICO

Carlos Castelo Branco contou, neste falecido mês de junho, como faziam os índios, setenta castanhas na sua vida vitoriosa. Publicou, além de um livro de interpretação politica, "Continhos Brasileiros" e o romance "Arco do Triunfo". A persistente atividade jornalística, de invulgar brilhantismo na análise de homens e episódios, abriu-lhes as portas da Academia Brasileira de Letras: "Chego à Academia como jornalista", disse ele ao tomar posse no mais cobiçado sodalício do país.

Observador penetrante, ora tímido, ora revoltado, misterioso ou controlado, sempre põe a nu a imagem dos instantes precários e dos ricos em respeito ao homem. Sabe clarear caminhos, denunciar mistificações e advertir os incautos e desinsteligentes. Não usa enfeitações. Ensina nas entrelinhas aos bons de entendimento. Muita claridade no estilo. Odylo Costa, filho, considerou-o a primeira voz do jornalismo político brasileiro. Efetua o jornalismo-história, o que exige isenção e abole atitudes passionais. Honesto e corajoso. Não azinhava a consciência na bajulação.

Quando foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, telefonou ao pai, o magnífico Cristino Castelo Branco, caráter sem nódoa, e disse, revivendo a criança que está na gente o tempo todo:

- Papai, eu fui eleito.

Cristino orgulhou-se do triunfo do filho, que era também o triunfo do pai, cuja presença de Deus se avizinhava, não era permitido que ele, carregado de mais de noventa anos, assistisse à posse do novo acadêmico.

Dois piauienses e um quase-piauiense haviam atingido a Academia Brasileira de Letras: José Félix Alves Pacheco, Deolindo Augusto de Nunes Couto e Odylo Costa, filho, os dois primeiros nascidos em Teresina. Antes do vôo mais alto, porém, ingressaram na Academia Piauiense de Letras. Partiram da Casa de Lucídio Freitas para a casa de Machado de Assis. Mestre Carlos praticou o contrário: ingressou na modesta e humilde Academia Piauiense de Letras depois da conquista da outra, a Brasileira. Quis ser fiel à lição de Cristino Castelo Branco: "A Academia da terra natal é sempre a melhor das Academias".

*   *   *

Na Academia Piauiense de Letras outros pertenceram a duas Academias: Clodoaldo Freitas (Maranhense), Alarico da Cunha (Maranhense), Jonas Fontele da Silva (Amazonense), Taumaturgo Sotero Vaz (Amazonense), salvo falha memória.

*   *   *

Em Carlos setentão existe outra imensa virtude: o amor a Teresina. Numa de suas visitas recentes À cidade natal escreveu: "Hoje é quase estranha para mim. Na parte antiga movimento os meus fantasmas e onde me sinto a vontade, quando passo por lá, para dialogar com elas".

Sim, já não existem os bairros de forrós, cheirantes ao suor da mulatiçe gostosa das mulheres teresinenses. Do buraco da Velha, dos Cajueiros, da Catarina resta a visão doce e evocativa como se fora poesia do coração chorando.


A. Tito Filho, 21/07/1990, Jornal O Dia

O DIA: histórias e fatos de um tempo

Era o ano de 1951. Dia 31 de janeiro, Pedro Freitas assumiu o cargo de governador do Piauí, eleito pelo antigo Partido Social Democrático (PSD). Na eleição realizada no ano anterior, venceu ele nas urnas, por maiorias de seiscentos e poucos votos, o candidato da União Democrática Nacional (UDN), Eurípedes Clementino de Aguiar, que já havia sido chefe do Poder Executivo no quadriênio 1916-1920.

UDN e PSD valiam ferrenhos e odientos adversários desde o ano em que foram criados no país, 1945. No Piauí, em festa de udenista, pessedista não punha os pés. Viviam os dois partidos em permanente furdunço de descomposturas recíprocas, pelos jornais.

Demais de tudo, Rocha Furtado, eleito pela UDN para governar de 1947 a 1951, muitas perseguições havia feito aos pessedistas, tanto na capital como no mais distante arraial de Pau Fincado ou Pindura Saia.

Também os derrotados por Pedro Freitas alegavam que a maioria de votos sobre Eurípedes teria sido prebenda do Tribunal Regional Eleitoral.

Tais circunstancias mais acirravam as odiosidades comuns. Os udenistas, apeados do poder, preparavam-se para campanha severa e ruidosa contra o novo governante. De sua vez, os pessedistas, quatro anos debaixo de taca e muita taca, lambiam os beiçoes na prelibação da vingança.

Nesse clima, assumiu o governo Pedro Freitas (31-01-1951). E nesse clima surgiu "O DIA" (01-02-1951), fundado por Raimundo Leão Monteiro, mais conhecido como Mundico Santídio, de apelido Mão de Paca. Tipo baixo, gorducho, pança grande, de faces vermelhonas. Defeituoso da mão direita, daí a alcunha que lhe deram, havia anos. Homem de muita inteligência prática. Foi professor do ensino médio. Viajado, conheceu a Alemanha. Não resta dúvida de que era hábil mecânico. Mulherengo. No jornal, fazia tudo, menos escrever. Sabia compor em linotipo, paginar, imprimir, trabalhos que realizava com maestria. Tinha o vicio do palavrão. Dizia-se ateu. Em roda de si, dez, doze colaboradores espontâneos, que dinheiro algum recebiam.

A verdade é que esse homem, temido por muitos, incorporou-se à história do jornalismo piauiense. O seu jornal o "O DIA" era lido e apreciado.

Na primeira fase, a folha do saudoso Mão de Paca teve como redator-chefe o competente Orisvaldo Bugyja Britto, conhecedor, estudioso, de memória invejável, linguagem asseada. Passados 27 anos, Bugyja ainda está, entre nós, lembrando os tempos principiantes do órgão de imprensa que ele ajudou a criar, a engatinhar e a crescer.

No começo, "O DIA" apresentou-se de tamanho pequeno. Quando ingressamos, por volta de 1952, no corpo de colaboradores, havia aumentado de alguns centímetros. Circulava dias de quinta-feira e domingo, manhã cedo. Oficinas no fundo do quintal da casa de residência do diretor e proprietário, num galpão, rua Lisandro Nogueira. Dele participamos na qualidade de colaborador, da mesma forma que Pedro Conde, Valdemar Sandes, Olimpio Costa e outros, cada qual no seu devido tempo. Mundico Santídio publicava os artigos com pseudônimo. A gente Fornecia os comentários sem assinatura, mas circulavam com nomes esquisitos (Desidério Quaresma), alatinados (Petrus Mauricius), à moda russa (Edgaroff) e de maneiras outras da invenção de Mundico. 

Quando assumimos o lugar de diretor do Colégio Estadual do Piauí (hoje Colégio Estadual Zacarias de Góis), em 1954, por falta de tempo nos afastamos da atividade jornalística, a ela volvendo em 1959, no mesmo jornal "O DIA", com artigos de vários assuntos, publicados com a responsabilidade de nossa assinatura. Movemos intensa campanha contra o governo Chagas Rodrigues (UDN-PTB). Jornalismo vibrante, higiênico, estilo elevado, criticas de bom gosto. O jornal teve tiragem dobrada. Edificações esgotavam-se rapidamente. E recordamos o fato como circunstancia de justiça: Mundico Santídio ocasião alguma cortou uma linha de nossos escritos e nunca nos pediu que poupássemos as figuras governamentais, que, inclusive, lhe forneciam publicidade. Costumava dizer: artigo assinado, assinado está, logo...

Pelas colunas do jornal, fizemos campanhas memoráveis, entre as quais destacamos três: a dos professores injustamente exonerados por Chagas Rodrigues, e para eles ganhamos mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal; a defesa dos deputados Dirno Pires Ferreira e João Clímaco de Almeida, acusados do roubo de linotipos do IBGE. As máquinas haviam sido apreendidas por ordem de Chagas Rodrigues. Foram devolvidas. Finalmente, aquela em favor das prerrogativas do Tribunal de Justiça, sob a presidência de um homem corajoso, sem medo e sem mácula, Robert Wall de Carvalho, que pediu intervenção federal no Estado, com a finalidade de fazer com que o governo cumprisse mandado de segurança concedido ao advogado Raimundo Richard. Não se verificou a intervenção porque Chagas Rodrigues cumpriu a ordem.

Escrevemos hoje estas linhas sem nenhuma mágoa de Chagas Rodrigues, o jovem governador do Piauí no período 1959-1962, que tanto fez por sua terra e por sua gente, como chefe do Executivo e na qualidade de deputado federal mais de duas vezes. Era homem de visão. Bem intencionado e sincero com o povo.

Mil novecentos e sessenta e dois. Ano de campanha eleitoral. Chagas Rodrigues arrendou "O DIA" confiando a redação a jornalistas de sua escolha. Mais uma vez deixávamos de ser colaborador do órgão criado por Mundico Santídio.

Nosso caminho diário para o Liceu passava pela frente da residência de Raimundo Leão Monteiro, que, a esta altura, 1963, estava novamente dirigindo o jornal, encerrando o contrato com Chagas Rodrigues. Certo dia do mês de abril, pouco depois da morte de meu pai, manhazinha, seguíamos (no) rumo das aulas. Mundico, na calçada de sua residência, chamou-nos. Fez-nos crer que a autoria dos artigos contra nós, publicados noutro jornal da terra, pertenciam a ilustrado médico de Teresina, contra quem nos pediu que escrevêssemos um artigalhão de criticas impiedosas. Encomenda feita, encomenda realizada. O escrito saíu com pseudônimo. Mas o digno médico interpelou Mundico Santídio por intermédio da Justiça e Mundico não quis guardar segredo de redação nem assumir responsabilidade. Resultado: fomos aos bancos dos réus. Praticamos a própria defesa, com critério e ponderação. Expusemos que a responsabilidade de artigos sem assinatura sempre coube a direção do jornal, mas não fugimos ao critério moral de afirmar que éramos o autor material do artigo. Nosso acusador foi o saudoso amigo Celso Pinheiro Filho. Fomos absolvidos pela unanimidade dos jurados. Perdemos a amizade do médico, injustamente ofendido, e ainda hoje a consciência nos diz que obramos mal, escrevendo para satisfação de malquerenças alheias. Não ficamos agastados com Mundico Santídio. Dentro em nós, soubemos desculpá-lo. Ao menos reclamamos contra a sua atitude. Apenas nos afastamos do jornal.

A memória não nos acode agora, para que registremos o ano em que a valente folha passou a pertencer a Octávio Miranda, comprada a Mundico Santídio. Sabemos que o "O DIA" teve redação e oficinas num antigo templo protestante da rua Areolino de Abreu, prédio de esquina, no cruzamento com a rua Sete de Setembro. Orientou-o a cultivada inteligência e grande capacidade de trabalho de José Lopes dos Santos. Em maio ou junho de 1966, porém, comandava-lhe a redação o ilustre e corajoso Deoclécio Dantas, que nos fez convite para a escritura de artigos de fundo, orientadores da opinião pública. Armamos ali tenda noturna de trabalho. E diariamente escrevíamos os chamados editoriais do jornal.

Convivemos com Octávio Miranda dois anos, mais ou menos, em "O DIA". Havia entre nós, de vez em quando divergências. Mais de uma ocasião deixamos a tenda e mais de uma ocasião a ela voltamos. Tínhamos e temos muito amor ao jornal, que circulava diariamente e constituía obrigatória leitura nossa. Diariamente "O DIA" se modificava para melhor. Intimamente, gostávamos de Octávio. Admirávamos a sua persistência em dotar Teresina de um bom jornal. O homem tinha qualidades invejáveis. Uma delas era sentar o rabo na rapadura e da rapadura não erredar pé.

Conhecemos Octávio Miranda como militar, cioso da farda. Depois, como deputado estadual, entre 1947 e 1951.

No jornal, procurávamos examiná-lo nas atitudes e nos gestos. Superficialmente, parecia arrogante. Tinha fala forte, autoritária. Gostava de reunir a equipe para combinar orientações, e definir serviços.

Por dentro, entretanto, outra individualidade. Boníssimo sujeito. Caridoso, de caridade cristã. Dava-se ao próximo e ao próximo se dá sem querer recompensa ou agradecimento. Operário doente, jornalista necessitado - lá está ele com a ajuda, com o gesto de conforto. Em 1966, tomamos avião aqui para casamento no Rio. Octavio não nos faltou com a cooperação financeira.

Homem fora-de-série, emprega milhões para dar a Teresina um jornal moderno. A seu lado, a equipe inteligente, trabalhadora, dedicada, que sabe fazer jornal, do operário ao editor.

Tem Octávio Miranda um coração pleno de bondade. Idealista objetivo, sempre imaginou fazer cousas bem feitas. E assim vem realizando com "O DIA", uma obra humana de que ele se orgulha, de que nós todos nos orgulhamos, diariamente, quando o jornal sai com as noticias e o bom bocado dos artigos de interpretação e o excelente repasto das notáveis reportagens. Condimenta-o ainda o saldo de um humorismo fino, elegante, caprichado, nos dias de domingo.

Nele se destaca o sujeito de iniciativa, de visão ampliada, de largos horizontes para conceber e realizar. Quando viu Teresina espremida entre os dois rios, inventou o Jóquei Clube. E do Jóquei nasceu uma cidade, uma boniteza. Se ainda vivo quando Octávio morrer, haveremos de lutar para que o Jóquei Clube passe a chamar-se Octávio Miranda - gesto de justiça muito nobre.

Hoje, 1º de fevereiro, "O DIA" faz 39 anos de serviços a Teresina, que está de festas, aplaudindo o jornal que já se integrou à paisagem espiritual da cidade fundada por Saraiva.

Continua hoje orientado por Octávio, com a ajuda desse dinâmico Valmir Miranda. Editor, José Fortes, jornalista até debaixo d'água, consciencioso, redator de boa linguagem, argumentador sem medo. E muita gente boa, humilde, do meu tope, humilde mas audaciosa.


A. Tito Filho, 01/02/1990, Jornal O Dia