Quer ler este texto em PDF?

Mostrando postagens com marcador leituras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador leituras. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

OUTRA VEZ O COMÉRCIO

Os sírios e libaneses assimilaram nossos costumes, hábitos e vivências, e integraram-se na sociedade teresinense, casando-se, multiplicando-se, educando a prole, progredindo pelo trabalho e valorizando o chão que os abrigou fraternalmente.

Dos árabes em geral disse Gustave Le Bon: "Uma grande urbanidade e doçura, uma grande tolerância com os homens e as cousas, a calma e a dignidade em todas as situações e circunstâncias e uma notável moderação de necessidades, tais são os traços característicos de orientais. Sua conformação moral com a vida, tal como ela se apresenta, dotou-os de uma serenidade muito semelhante à ventura, ao passo que as nossas aspirações e necessidades fictícias nos têm levado a nós a um estado de inquietação permanente muito diferente do deles".

Na história do cinema em Teresina muitos nomes são dignos de notar, como Neuman Bluhm, R. Coelho, R. Fontenele, Pedro Silva, José Ommati (sírio) e de Farid Adad, também sírio, que fixou residência em Parnaíba (1919) e ali, com o irmão Miguel, fundou o cinema Éden. Em 1930 esta casa exibidora iniciava a era do filme falado no Piauí. No Teatro 4 de Setembro, Farid estabeleceu o primeiro cinema falado da capital piauiense, inaugurando-o em 23.12.1933. A 25.11.19173, encerraram-se as atividades cinematográficas na velha casa de espetáculos da praça Pedro II. Farid havia falecido no ano anterior. A cidade o conhecia pelo nome de Alfredo Ferreira, casado em primeiras núpcias com Farisa Salim Issa, sua patrícia, de excepcionais virtudes espirituais, falecida em 1938. O casal deixou vários filhos.

Depois de Alfredo Ferreira, outros empresários prosseguiram no trabalho de dotar Teresina de confortáveis cinemas.

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, no Novo Dicionário da Língua Portuguesa, inclui carcamano como brasileirismo. E define a palavra: "Alcunha jocosa que se dá aos italianos em vários Estados; latacho, macarrone". Escreve mais, que no Maranhão vale “a alcunha que se dá aos árabes em geral”. No Ceará, “vendedor ambulante de fazendas e objetos de armarinho”. Antônio Joaquim de Macêdo Soares acentua que carcamano é o "italiano de baixa classe". Nascentes diz apenas que o carcamano corresponde a italiano, mas explica: "Uma etimologia popular diz que o vocábulo vem do conselho de um italiano a um filho que o ajudava na casa de negócios. O filho fazia honestamente a  pesada. O pai, então, quando o equilibrio estava prestes a estabelecer-se, aconselhava: carca la mano (calca a mão). Se non e vero...". F. A.

Pereira da Costa cita o vocábulo na qualidade de italiano, assim chamado. E anota dito do povo de Pernambuco: "Mama em grosso o carcamano, e abusa da bonhomia do povo pernambucano". O saudoso R. Magalhães Júnior explicou: "Denominação pejorativa dada aos imigrantes italianos, em razão das fraudes atribuídas a estes, em suas quitandas e açougues, ao pesarem os alimentos, vendidos a quilo, ajudando a concha da balança a descer com o impulso da mão. De calcar a mão teria surgido a forma italianizada de carcamano, corrente não só no Brasil como na Argentina, onde Juan Ezuista Alberdi a usou, num dos seus livros, que dizia serem reverenciados, nos altares argentinos, alguns santos carcamanos, já ricos e portanto poderosos".

Em Teresina, carcamano sempre designou de modo pejorativo, os árabes. Veja-se o depoimento de Salomão Cahib, médico de nomeada, em discurso de posse na Academia Piauiense de Letras: "Meu pai aqui chegou vindo de uma civilização milenar, duma terra sem horizontes. Ansiava por liberdade. Seu povo estava escravizado e colonizado impiedosamente, levado a servir, sob bandeira de nação odiada, à luta pela grandeza e progresso de seu próprio algoz. Jurou ele que seus filhos não nasceriam colonos, nasceriam livres, numa coletividade generosa e bela, que lhes desse paz e trabalho. Foi assim que veio moço para o Brasil. E para o Piauí, que ajudou e honrou, trabalhando de sol a sol, viajando a pé pelos sertões agrestes, vendendo, aprendendo a língua, fazendo amigos e amando a nova pátria. Aqui se casou.

Naturalizou-se brasileiro. Constituiu família. Nasceram-lhe os filhos. A pátria de seus filhos era a sua pátria".

E logo a seguir: "Guardo da infância despreocupada dos primeiros instantes do convívio com outras crianças do grupo escolar, a observação de uma delas: CARCAMNO NÃO TEM BANDEIRA".

E prosseguiu: "Em casa dei a notícia do acontecimento a meu pai. E ele, com profunda tristeza, explicou-me: A SÍRIA TEM BANDEIRA, MAS ESTÁ OCUPADA POR PAÍSES ESTRANGEIROS".


A. Tito Filho, 22/11/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

BOLINA

Mário Barreto disse que cada palavra, na sua origem, exprimiu, como é natural, o conceito concreto a que foi destinada; mas deste conceito primitivo e único, a palavra, umas vezes por irradiação e outras por encadeamento, passou a significar diferentes objetos; mais ou menos relacionados com o primeiro; nestas novas acepções, umas vezes sucedeu que o uso conservou todas, e outras que esqueceu algumas, dando a outras a preferência, e assim vieram a produzir-se, por esta evolução, duas séries de fenômenos: a mudança de acepção de umas palavras, e o desuso ou morte de outras.

Assim se passou com aperitivo, que na linguagem médica de outrora era purgante (de aperire - abrir). Com o passar do tempo, aperitivo veio a significar abridor de paladar. A significação atual é profundamente conexa com a antiga.

Outras palavras tiveram determinado significado, modificado através do tempo, viveram por certo espaço com o novo significado, e morreram, isto é, saíram da linguagem usual do povo. Foi o que aconteceu, por exemplo, com bolina, substantivo feminino, termo registrado por Morais como o cabo prendedor da vela à amurada para que o navio tomasse o vento de banda. Vento à bolina (Morais) era o vento que o navio tomava de lado. Daí o verbo bolinar ou abolinar, ter vento de banda, e também bolineiro, o navio que dessa forma velejava. Abolinar é o verbo mais antigo e está nesta citação que Magne fez de João de Barros: "A caravela não era boa para abolinar".

De alguns anos para cá, nos dicionários aparece bolina também com o significado de contacto voluptuoso e disfarçado com a mulher, ordinariamente em cinemas, teatros, veículos, ao lado de bolinador (o que bolina), bolinagem (ato de bolinar), bolinar (verbo). Ao que praticava o ato se dava ainda o designativo de O BOLINA, mas no masculino, como se vê deste passo com que Nascentes explicou a mudança de significação da palavra: "Bolina, substantivo masculino, é o individuo que, em veículos, platéias, persegue com contatos desrespeitosos as damas. A expressão evidentemente vem da náutica. Andar a bolina é andar de esguelha ou inclinado para um lado. O vocábulo começou a ter voga a partir de 1892, quando se inauguraram os bondes elétricos. A população do Rio de Janeiro costumava, como divertimento, andar naqueles bondes para ter uma sensação nova. Daí os atropelos e o aparecimento dos bolinas. No Rio de Janeiro, o animal homem sempre procura, no bonde, no ônibus, no cinema, uma mulher bonita e ao lado dela se senta, movimentando braços e pernas, para contactos voluptuosos". Artur Azevedo escreveu referência e esses gestos do buscador de sensações: "E fez, com o cotovelo e com o joelho, trabalho digno de um bolina velho".

Bolina foi termo corrente na linguagem da mocidade de 20 anos atrás. Nos encontros de namorados, na obscuridade das salas de projeção, nas esquinas ou recantos mal iluminados, consistia a bolina em alguns amassamentos ou beliscos meio canhestros. Esses amassamentos ou beliscos ainda vigoram nos dias que correm, talvez até mais intensos e menos protegidos dos olhos do público - mas hoje eles são batizados com outros nomes. Bolina ficou nos dicionários. Desapareceu a palavra da linguagem usual, como tantas outras têm desaparecido.

Escritores e dicionaristas abonaram bolina como gesto voluptuoso:

- "Vai ser medonha a pagodeira, vai ser maior a bolinação" (Afonso de Carvalho - Como o Matuto Viu o Zepelin - Revista da Semana - nº 25 - ano 31).

- "E ainda o raio da velha me bolina" (Emílio De Meneses - Mortalhas - pág. 91).

- "Bolinava mulheres em público" (Laudelino Freire - Dicionário).    

- "A sua mania de bolinar desacreditou-o" (Francisco Fernandes - Dicionário de Verbos e Regimes).

Bolina veio do inglês bowline. Em francês é bouline, no alemão bulien, no holandês boelijne.


A. Tito Filho, 28/03/1990, Jornal O Dia

sábado, 7 de janeiro de 2012

LEITURA

O exercício está intimamente ligado à longevidade. Esta foi a conclusão do maior estudo jamais realizado a respeito da condição física humana. A prática de exercícios, por muito modesta que seja, poderá reduzir substancialmente o seu risco de vida por ataques de coração, de câncer ou de outras causas. Curioso ainda o fato de haver uma melhoria acentuada, principalmente, quando a pessoa abandona a posição de sedentária e passa a exercitar-se um pouco.

O estudo a que nos referimos, foi realizado pelo Instituto de Pesquisas Aeróbicas e pela Clínica do Dr. Cooper, em Dallas. Mais de 13.000 pessoas, entre homens e mulheres, foram acompanhadas pelo período médio de oito anos, durante os quais submeteram-se a avaliações periódicas de sua condição física.

A importância do estudo realizado por indicação do Dr. Cooper pode ser avaliado pela sua repercussão: mereceu primeira página no jornal The New York Times em 3 de novembro passado.

A Nórdica que já publica os livros do Dr. Cooper no Brasil, vai agora lançar uma série de cinco obras sob o título geral de Medicina Preventiva.

O Dr. Cooper, que é reconhecido nos Estados Unidos e no exterior como o "pai" dos exercícios aeróbicos, já motivou mais gente para a prática do esporte como caminho certo para a saúde total do que qualquer outra pessoa no mundo. Calcula-se que já tenha atingido cerca de 17 milhões de entusiastas. Para não falar do Brasil onde seu nome é a própria corrida rústica, o cooper que cerca de 3 milhões fazem todos os dias.

O Dr. Cooper também tem insistido continuamente sobre a necessidade de prevenir as doenças de uma forma geral. Ele surge agora com um programa fácil de assimilar, sobre a maneira de controlar o colesterol. É um livro para gente de todas as idades, mostrando como identificar o risco, verificar os níveis de colesterol e evitar os problemas circulatórios e cardiovasculares.

Controlando o Colesterol inclui uma explanação sobre os fatores de risco do colesterol e dos triglicerídeos. E apresenta o tipo de análise clínica que, regularmente, lhe poderá dar a maior segurança. Além disso, o livro apresenta os quadros gerais em termo de colesterol e por idades. Você mesmo saberá em que situação se encontra. É só confrontar os dados.

São três as dietas indicadas para adotar, conforme a situação em que o individuo se encontra: uma mais vigorosa, outra média e outra para casos suaves. Os exercícios também são escalonados conforme as possibilidades de cada caso.

Controlando o colesterol é a melhor defesa contra o perigo das doenças do Coração.

Ainda este ano a Nórdica publicará mais três livros da série Medicina Preventiva: "Controlando a Osteoporose" e "Controlando a Hipertensão".


A. Tito Filho, 13/10/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

FOLCLORE

Nos meus brincos de infância, em Barras e no velho Marruás, hoje Porto no Piauí, gente idosa, parentas velhas, caboclas da terra contavam estórias bonitas e medonhas, umas de arrepiar cabelo, outras de deleite e encantamento. Quando da adolescência em Teresina, meninos do meu tope se reuniam de noite nas calçadas do médico Benjamin Baptista, conceituado e culto, e cada qual narrava contos de macaco, de onça, de gigantes, de heróis e de bandidos, e um desses colegas era filho do dono da casa, Stanley Baptista, que pela dedicação aos livros e caráter bem formado, se tornaria das mais brilhantes figuras do Exército Nacional. Momentos felizes e alegres; dava gosto vivê-los, e nunca se supunha que eles se fossem, deixando memórias inesquecíveis.

Aos 14 anos de idade comecei a ler romances nacionais e portugueses. Li "A Moreninha", de Macedo, e a obra completa de José de Alencar. Nessa época, Juca Feitosa, figura muito conhecida, rico comerciante, mantinha na capital piauiense loja de várias mercadorias, inclusive livros. Tive oportunidade de adquirir obras lusitanas, algumas de Camilo Castelo Branco e uma, bem me lembro, de exagerado romantismo, "Tristezas à Beira-Mar", de Pinheiro Chagas. Vendia-se também a coleção SIP, constituída de romances de aventura e de amor; que traziam, na capa, dois dedos em forma de V e por baixo do desenho a escrita MIL RÉIS, isto é, cada volume valia dois mil réis, e MIL RÉIS foi a unidade monetária vigorante até 1942. Entre muitos apreciei "A Patrulha da Madrugada" e "Naná". Júlio Verne estava na moda.

Tomava-me de entusiasmo com a sua ficção maravilhosa, que se incorporou à história contemporânea, com a visita do homem à lua. Li quase tudo do admirável francês. Da adolescência tão presente ainda no meu espírito foi a série de publicações TERRA-MAR-E-AR. Livros de tipos bons e tipos maus, em terras estranhas e distantes. Pratiquei leitura de Tarzan, o herói das selvas africanas criado por Edgar Rice Burroughs e pratiquei-a de fia a pavio.

X   X   X

Com a leitura de "Encanto e Terror da[s] Águas Piauienses", desse mágico Josias Carneiro da Silva, relembro os tempos de menino, delicado com as lendas de bichos e de gente, parecido com as de outras águas do mundão de Deus, assim do jeito do caboclo-dágua do São Francisco, o urutau ou jacaré gigantesco do Paraíba do Sul, o boiúna e o boto do Amazonas.

O folclore mostra a vida coletiva na sua cultura material e na sua cultura espiritual. As águas constituem fontes de lendas, mitos, fantasias, imigrações. Na Bahia, os pescadores celebram o despacho da mãe-d'água, cerimônia mágica em que se atiram oferendas ao mar para que aquela personagem mística os liberte de infortúnios na pescaria. A tradição mediterrânea está nas sereias, a que Homero se referiu. A Iara tem encantos irresistíveis, que o genial piauiense José Newton de Freitas pôs num poema, ao cantar o jangadeiro: "Enquanto seus filhos/ficaram chorando/ele está morando/beijando, beijando/a iara bonita,/no fundo do mar".

No livro se salienta o paciente pesquisador Josias Carneiro da Silva e se revivem monstros aquáticos, que a tradição recolheu e guardou. Mas Josias Carneiro realiza o mais brilhante estudo com o cabeça-de-cuia, que o talentoso piauiense João Alfredo de Freitas colocou em "Lendas e Superstições do Norte".


A. Tito Filho, 29/11/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

NOS SUBTERRÂNEOS DO KGB

Na hora da glasnot, ou seja, da transparência,d e deixar que se abram as janelas para a União Soviética e a sua república central, a Rússia, é bom que os testemunhos mais ricos e claros sejam colocados ao alcance do leitor brasileiro, a bem de um esclarecimento que nos aproxime do sofrido povo russo.

Curiosamente através de revistas e jornais, temos obtido retratos bem esclarecedores sobre a vida na União Soviética, dos protestos em várias das suas repúblicas, da intervenção das forças armadas para conter esses protestos, sabemos da discussão política dentro e fora do Partido Comunista, até sabemos que se admite pela primeira vez a existência do pluripartidarismo, - mas nada se escreve sobre o KGB! E nós sabemos o que aconteceu com o DOPS, com o PIDE, até temos condições com o DOPS, com a PIDE, e até temos condições de avaliar o que se passa na CIA e no FBI, mas do KGB, nada.

Por isso, a oportunidade do lançamento deste livro, "Minha vida no KGB", que é a história de Stanislav Levchenko, um sentenciado à morte pelos famosos Komitet Gosudarstvennoy Besopasnosty.

É uma história de espiões onde a ficção é feita de fatos verdadeiros, onde os sofrimentos, as "caçadas", as matanças, os dramas e as fugas fizeram parte da vida excitante, trágica, e, por vezes, bizarra, de um espião russo muito bem sucedido.

Por que é que ele foi sentenciado à morte?

Aí você vai saber como é que o KGB controla a vida das pessoas e, em especial, a vida de Stan Levchenko. Como é que a chantagem faz com que as pessoas se rendam ao desempenho de papéis escusos e atentatórios aos seus próprios interesses, aos dos seus amigos que têm de trair para continuar a viver.

Levchenko acabou fugindo para o outro lado onde - para ele - existia um mínimo de segurança, afinal, nem ele tinha culpa de ter sido criado e instruído do lado errado.

STANISLAV LEVCHENKO é um homem marcado para morrer. Ele sabe demais sobre o KGB e, portanto, é um "arquivo" que precisa ser destruído. Foi condenado à morte e, por muito que viva, será sempre perseguido. Entretanto, seus amigos lutam para que ninguém saiba onde está, o que faz e o que pretende realizar. Sua segurança é a segurança de informações vitais para o Ocidente e para o definitivo ressurgimento da democracia na Rússia.


A. Tito Filho, 27/04/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

TRAGÉDIA

Era um sábado, dia 13 de julho de 1957. Manhã e tarde tranqüilas nesta Chapada do Corisco. Pouco movimento de carro, pois havia poucos carros. Ainda estava distante o sistema de financiamento, para liquidar mais ainda a depauperada classe média. Bares e botecos, como de costume, com os seus costumeiros fregueses de cerveja e aperitivos. Adolescentes e moço em férias escolares. Os namorados já se preparavam para as sessões cinematográficas no  4 de Setembro e no Rex. Nada perturbava a calmíssima Teresina de vinte anos atrás. O sol já tinha morrido, quando chegou a notícia da tragédia espantosa, pavoroso choque de veículos na estrada de Altos na distância de trinta e seis quilômetros desta capital. Comentava-se que mais de vinte morreram no local e era impressionante o número de feridos. Pouco tempo depois, o Hospital Getúlio Vargas se transformava numa hospedaria de dor e de angústia, de lágrimas e de desespero. A multidão ali estava aturdida, emocionada, comovida, comungando do sofrimento das vítimas e seus familiares.

As notícias começaram a chegar. O ônibus MARIMBÁ, de propriedade de Joca Lopes (João de Deus Lopes), vinha de Parnaíba. Viagem normal. Depois de Altos, uns cinco ou seis quilômetros de Teresina, houve o choque formidável com um caminhão Ford, carregado de carvão e madeira, de propriedade de José Candido Porto - e o local se transformou em cenário dantesco. mais de duas dezenas de mortes, cerca de vinte feridos. A tragédia enlutara muitas famílias de Teresina, de cidades interioranas e ainda de outras cidades brasileiras.

A estrada de Teresina a Altos não era asfaltada, como hoje, mas de piçarra. Tempo de verão, os carros em trânsito produziam nuvens de poeira avermelhada, que não permitia visibilidade aos motoristas que viajavam no mesmo sentido. O pó cobria tudo.

Daqui para Altos seguiam dois veículos. Pequena a distância entre os dois. Natural que o chofer do carro de trás, para se ver livre da terrível poeira, procurasse ultrapassar o carro da frente. Muitas vezes o motorista do que ia na frente tudo fazia para que o colega não conseguisse cortar a proa, como se diz, justamente em situação desvantajosa, passando a vítima do pó infernal.

Essa estrada de Teresina a Altos era um tanto estreita. Os dois carros prosseguiam. O da frente desviou-se um pouco para a direita. Era natural. Em sentido contrário vinha o MARIMBÁ. E o motorista do veículo que ia para Altos deu com o carro para a direita, possibilitando, assim, a passagem tranqüila do ônibus. Mas o motorista do caminhão de madeira, que ia recebendo a importuna poeira do outro, entendeu que o colega estava abrindo terreno para a ultrapassagem. E sem visibilidade, meteu o caminhão pela esquerda, no justo momento em que o MARIMBÁ emparelhava com o primeiro. Impossível evitar a tragédia assombrosa.

*   *   *

Uma novela das mais impressionantes, de Salomão Chaib, médico piauiense residente em São Paulo, recebeu o nome de UM DRAMA DE CONSCIÊNCIA e será apresentado ao público no fim deste mês de maio pela Academia Piauiense de Letras.

*   *    *

A Academia Piauiense de Letras está preparando a edição de novo romance do notável José Expedito Rêgo, A MALHADINHA, baseado em história real de fazenda de criar, no interior de Oeiras.


A. Tito Filho, 15/05/1990, Jornal O Dia

domingo, 11 de dezembro de 2011

ALGUMAS NOTAS

Eurico Ferri, o famoso criminalista italiano, ensina muita cousa nas suas lições sobre os criminosos, a arte e a literatura. Quem melhor estudou a vida? A ciência? Ou ciência se serviu da arte e aproveitou-se das suas maravilhosas criações? A arte agiu antes da ciência, principalmente a arte literária. Dante revela na sua poesia inimitável a predominância do fator econômico sobre todos os outros e que a corrupção sempre proveio dos maus governos. O irreverente Camões zomba dos preceitos e registra a vida sexual por um prisma humano. Reage contra o mundo feudal. Cervantes adverte os homens de que não é possível permanecer agarrado ao passado. Creu na influência do meio renovado. Shakespeare inspira-se em temas populares. Descrever as contradições de sua época, o feudalismo e o capitalismo. Faz poesia numa sociedade em transformação. Combate a violência. Não acredita na imutabilidade das cousas. Milton, no PARAÍSO PERDIDO, combate as desigualdades sociais. Moliére zomba dos costumes do seu tempo. Voltaire rebela-se contra os poderosos e a intolerância religiosa. Não suporte os privilégios. Tolstoi arremete contra todas as formas de injustiça.

Na DIVINA COMÉDIA, Dante imagina um sistema feudal e uma classificação dos delitos e das penas. Existem duas espécies de crimes, os de violência e os de fraude. De Shakespeare os juristas e os economistas copiaram lições do maior interesse. O famoso autor é imenso psicólogo. No tempo em que a ciência penal se preocupa com o crime, ele se preocupa com o criminoso e cria os três famosos homicidas shakespearianos, o louco, o nato e o passional, e na sua arte perfeita se juntam observações cientificas rigorosamente exatas.

Arte e ciência prometem o conhecimento da vida, embora a obra de ciência seja impessoal e a obra artística provenha do temperamento de quem a construiu.

As criaturas de Zola ligam-se aos princípios da psicopatologia criminal. A demonstração da grande lei da hereditariedade natural aumentou o horizonte da arte de contribuir para novas verdades cientificas.

Manzoni, em OS NOIVOS, descreve a psicologia coletiva antes da ciência. A mesma cousa Zola faz em GERMINAL.

Ibsen, sempre fecundo, escreve com dados científicos. O PATO SELVAGEM é obra mestre em psicologia política.

Dostoievski sustenta verdades inatacáveis. Os criminosos repugnam o trabalho, tocados de puerilidade e religiosidade. A beleza de CRIME E CASTIGO não foi ultrapassada como crítica social audaciosa.

- Interessante que todos lessem A MACONHA OU A VIDA, de Gabriel G. Nahas. O autor atesta que a droga impede a função pulmonar, diminui a contagem espermática e suspende a resposta imunológica.

- Próximas edições da Academia Piauiense de Letras: MINHA TERRA, MEU POEMAS, de Assis Fortes; A MENSAGEM DO SALMO, de Júlio Romão da Silva; as memórias do ex-governador Rocha Furtado; GEOGRAFIA FÍSICA DO BRASIL, segundo volume, de João Gabriel Baptista; e história da música no Piauí, de Cláudio Bastos.

- A droga não é a causa, mas conseqüência. Não adianta destruir maconha, cocaína e heroína. Adianta que a sociedade deixe de ser irresponsável e dê oportunidade aos jovens que lutam por um lugar ao sol. Sim, basta que as mulheres voltem ao lar, não de madrugada, mas que nele permaneçam, sustentando-o de afeto constante para os filhos, e cuidando dos serviços domésticos.


A. Tito Filho, 12/05/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 29 de novembro de 2011

CONSIDERAÇÕES

- O professor Lima Cordão tem no prelo mais uma narrativa sobre o Nordeste. Personagens: o aglomerado familiar, um clã nordestino, pessoas do mesmo sangue que se desentenderam por questiúnculas, empenharam-se de oliosidade, e lutam, e se matam, numa carnificina espantosa e impressionante. A velha saga do sertão de anos antigos: Severas lutas partidárias, gerando invejas perniciosas e ambições desmedidas. Coiteiros na tarefa de agasalhar bandidos, e pistoleiros perversos na função assassina por quantia qualquer. O latifundiário sem alma e a terra como patrimônio de poucos. Garotas desvirginadas por coronéis do deboche, ou por rapazelhos filhos deles. Excesso de vigor fisico nos que mourejam de sol a sol, embora subnutridos, à espera de chuva sob o patrimônio divino. O mundo selvagem de caboclos sem lei, desespiritualizados, desconhecedores da leitura e da escrita. Valentões de forró. A faca e a arma de tiro, na inspiração da coragem e brutalidade. Por toda parte o homem enxerga inimigo se se ofendem as suas normas de honra e os tabus de sua fé. O trabalho do professor Cordão caracteriza o Nordeste que se modifica pouco a pouco, de modo lento, e um dia se redimirá quando vencer a ignorância e conquistar condições humanas de vida. O livro, perspicaz, inteligente e de irrecusáveis recursos descritivos e de narração, tem linguagem de vivacidade. O autor mostrou que cada um de nós é o reflexo do seu tempo, do seu meio, de sua forma de viver, do seu sexo, da sua família, como queria Tristão de Ataíde. As páginas revelam que nós somos o que fazem de nós as circunstâncias. História de sertão brabo, que a gente conta mas nunca queria que tivesse acontecido.

- Quando eu era estudante e professor, no dia 21 de abril, data do enforcamento de Tiradentes, se promoviam comemorações cívicas em todas as instituições de ensino. Os mestres rememoravam o sacrifício do principal mártir da independência nacional. Hoje, nada. Talvez a pátria tenha vergonha do quadro de ignorância, violência e miséria em que os maus brasileiros, os donos do poder, transformaram o sonho de Tiradentes.

- Não creio em crime fútil. Futilidade juridicamente não se define. Tem conceito relativo. Nada acontece por acontecer. Às ações humanas correspondem motivos, causas. O que é fútil para o homem educado, pode não ser fútil para o homem cuja educação foi desprezada pela família ou pela sociedade. Na futilidade do código penal devem levar-se em conta o grau de educação do agente, o meio em que vive, a situação em que delinqüiu. Até as palavras variam na sua força imperiosa de camada social.

- Num velório de defunta me perguntaram se mulher quando morre também abotoa o paletó. R. Magalhães Júnior anota que ABOTOAR O PALETÓ é locução carioca nascida da observação de que a roupa dos mortos sempre cuidadosamente se abotoa. A princípio se aplicou ao homem, mas passou aos dois sexos, pois em linguagem se verifica a aplicação de forma genérica das criações populares.

- Leiam "Os Donos do Poder", desse extraordinário Raymundo Faoro, e aprendam que a política vive de mãos dadas ao dinheiro, com ela surgem os advogados administrativos. são sempre gananciosas as raposas elitistas brasileiras, observações que Faoro registra como fatos nacionais desde 1808.


A. Tito Filho, 11/05/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 4 de outubro de 2011

LEITURA

Quando ginasiano, em Teresina, nos domingos, eu fazia compras para leitura no M. A. Tote, casa de revistas de atualidades e literárias, entre as quais "Noite Ilustrada", "Carioca" e "Vamos Ler", do Rio. Gostava desta última e colecionei muito tempo as suas edições. Os livros de minha predileção, adquiridos semanalmente, eram os da Coleção Terra-Mar-e-Ar, de aventuras, autores estrangeiros. Eu apreciava Emílio Salgari. Outra agradável série de romances de variado gênero me fugiu da memória. Custava cada exemplar dois mil réis, livro de tamanho pequeno. Na interessante coleção fiz leitura de "A Patrulha da Madrugada", que o cinema aproveitou para excelente filme de aviação; "Nana", de Zola, e obras de autores russos e ingleses. Muito me robusteceram a inteligência os livros de Edgar Rice Burroughs (Tarzan) e Júlio Verne. Li-os quase todos de ambos os autores.

Teresina, na década de 30, possuía uma loja bem sortida, espécie de bazar de mil utilidades, sem que lhe faltassem edições literárias de Portugal e do Brasil. Tratava-se do estabelecimento comercial de Juca Feitosa, na antiga rua Bela. Nele adquiri romances de Alencar, Bernardo Guimarães, Manuel de Macedo, Camilo Castelo Branco, Pinheiro Chagas. Deliciosos para a minha adolescência. Custavam pouco e tinham aspecto pobre, com capas extravagantes.

Enquanto alguns arrotam leituras extraordinárias, ricas de temas psicológicos e de modernidades, como se costuma dizer, contento-me com meu caubói de dormir, para os instantes de conciliação do sono gostoso. Ponho-me no meio de bandidos, assassinos, mexicanos atiradores de faca, pontarias certeiras com os colts fumegantes ou com os sharps de longo alcance, deliciando-me com o mocinho alto, forte, bonito, que não erra o tiro na testa do malfeitor ou derriba cinco capadócios de bofetadas seguras. Deixo a leitura mais cuidadosa para os domingos, meditando nos assuntos, guardando na cabeça as lições que obtenho.

Neste 1990, saboreei de novo "Os Pioneiros", de Fenimore Cooper, com a sabedoria do Juiz Temple, que sentia a inutilidade da lei como garantia de justiça. Juiz sábio, para quem a lei representava arma dos ambiciosos.

Li "Carolina", que comprei faz tempo. Livro admirável de Dreiser, a revelar a solidariedade entre os miseráveis, os que têm fome. O autor mostra que os impulsos básicos do homem se voltam para o dinheiro, para o conforto, para o poder.

"Os Grotesos", de Andersen vale um romance de deformação psíquica das pessoas nas pequenas comunidades, pela perda do amor. E em "O Grande Gatsby", Fitzgerald sustenta que só a riqueza permite ao homem viver a vida que ele concebe. A vida é brutal e intolerável quando lhe falta imaginação.

Como a gente vê, realizei proveitosa leitura nestes domingos dos meses iniciais de 1990. Cito quatro romances, deixando de citar outros livros de viagens, história, crítica, estudos sociais, comunicação, o que ficará para outra vez.


A. Tito Filho, 26/04/1990, Jornal O Dia 

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

AINDA FOLCLORE

Fontes Ibiapina se realizou no difícil trabalho da obra de ficção, embora eu descreia da obra de ficção e acredite em que os escritores, nos contos e nos romances, reproduzam fatos e episódios da vida, inclusive aqueles de que foram intérpretes. E quando o escritor não copia a vida, produz a obra literária com adaptação de lendas e tradições populares. O "Fausto", de Goethe, promanou de um conto popular. O "Dom Juan" tem origem folclórica. Rabelais inspirou-se na lenda de gigantes gauleses para a criação de "Gargantua". Gustavo Barroso observa muito bem que os temas dos povos são, em grande parte, o berço das literaturas.

Produzindo esforçadamente, numa terra em que vale sacrifício o trabalho da inteligência apurada, Fontes Ibiapina enriqueceu, dia por dia, o patrimônio intelectual do Piauí. Os seus livros de contos, os seus romances fixam tipos, costumes, linguajar deste pedaço regional brasileiro. Vai às fontes das manifestações da alma popular, recolhe a sabedoria das comunidades, a sua expressão espiritual, os seus sofrimentos, e faz o livro de fixação, como se estivesse em pintar quadro dos mais sérios e dos mais graves e vivos. O homem de letras comunica-se por dois modos fundamentais: ou concebe a mensagem, reformando o pensamento existente, derribando preconceitos, sacudindo estruturas, ou faz da paisagem social cópia integral, a própria mensagem artística. Assim Fontes Ibiapina: a sua mensagem se encontra na poderosa inteligência de observação para fixar p meio e o homem que nele habita.

O livro de Ibiapina "Congresso de Duendes" reúne estórias de gente e principalmente estórias de bichos. De bichos, ou composição de fabulário, de que se extrai a indicação moralizadora, ou substrato do conto, que se cifra no vestígio sobre a figura humana do acontecido com a alimária em que ela se metamorfoseou. Há, na concepção de Ibiapina, verdadeiro conjunto de manifestações populares incorporadas, representativos das crendices mais fortes da coletividade piauiense.

Um grande folclorista adotou a tese de que os contos populares têm asas: eles voam através dos continentes, das raças e dos séculos. O folclore é um só.

O folclore poderia dizer-se a história moral do homem, como insinua Câmara Cascudo. Melhor é identificá-lo como a história natural das coletividades, da sua alimentação, dos seus tabus, das suas orações, dos seus ritos, da sua vida diária, para o reconhecimento da cultura como conjunto de normas sociais de que participamos.

Daí porque o trabalho do escritor, quando procura a fonte folclórica com sustento do livro, há de compreender as manifestações populares no campo em que elas se manifestam, para anotar-lhes as variantes e oferecer a fisionomia da realidade cultural. Não se pode reproduzir o folclore na sua universalidade, apenas. É necessário entendê-lo como a ciência do homem comum, a preocupação de Ibiapina, para projetá-lo no quadro da vida urbana e da vida rural, - como contadores de estórias de bichos, reproduzidas de gerações em gerações, como personagem de novelas de amor, de heroísmo, como personagem de facécias, de cenas de bravura para lavação da honra ofendida, sempre respeitoso com a mulher, - objeto das preocupações do macho numa terra de preconceitos, e mais: como personagem da violência de um mundo que o prepara para o ódio e para a vingança - o ódio e a vingança sugeridos e provocados pelo desequilíbrio dos processos da vida social.

Ibiapina utilizou-se dos bichos para ironizar os poderosos de desvirtudes políticas, e serve-se dos homens sem destino para que estes interpretem o drama das suas comunidades, nas quais os instintos não vivem, nem é possível que sobrevivam as outras estruturas da personalidade.


A. Tito Filho, 01/12/1990, Jornal O Dia