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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O BOM CONTISTA

Afonso Ligório nasceu no território piauiense de Luzilândia. Jornalista. Fez algumas andanças e fixou-se em Brasília, dedicado ao magistério e a literatura e em ambos os misteres tem alcançado triunfos verdadeiros. Consistia dos melhores, de raro poder de observação. Publicou SÓ ESTA VEZ, já traduzido para o espanhol e agora enrica a literatura nacional com A HORA MARCADA, sobre que escreveu mestre M. Paulo Nunes:

"A propósito do anterior livro de contos de Afonso Ligório Pires de Carvalho - Só Esta Vez... Histórias contadas (Editora Thesaurus - Brasília-DF) já havíamos tentado uma definição do tipo de gênero por ele adotado quando o identificamos com o "conto masnfieldiano" por oposição ao "conto história" com começo, meio e fim, cuja tradição radica em Boccacio e teve modernamente como representante maior Maupassant, entre nós, o gênio de Machado de Assis.

Com este seu novo livro - A Hora Marcada, retoma ALPC o mesmo fio da narrativa no apuro de uma técnica de expressão em que o deslance é engendrado de forma a levar o leitor a sentir uma espécie de "soco no estômago", conforme a expressão do romancista português Fernando Namora, em seu último livro, publicado antes da morte" - jornal sem data.

São do mesmo autor as considerações a seguir transcritas, na caracterização desse gênero de narrativa: "Ainda recentemente, o Nobel Isaac B. Singer chamou ao conto uma "fatia de vida", decerto em oposição ao romance, que seria, pelo que se deduz, a "vida toda". Mas essas "fatia" terá de ser pois, altamente significativa. Na sua concisão no seu angulo de focagem restrito, o conto precisa de ser tão eloqüente que o leitor, através de uma breve personagem captada num instante decisivo e num contexto delimitado, consiga reconhecer ali a verdade da paisagem humana e a vida tal como ela é, na sua infinita complexidade. Daí que se possa entender muito bem que haja quem prefira Maupassant a Victor Hugo ou Balzac e Tchekhov ou Gogol a Tolstoi ou Dostoievski. Uma gota de água pode ser mais reveladora que uma enxurrada". (Cf. Fernando Namoro, in Jornal sem data, pág. 146 - Publicações Europa-América-Portugal).

Esta é pois a receita adotada por Afonso Ligório Pires de Carvalho nestes seus novos contos - captar o instante essencial ou a "fatia de vida" que possa caracterizar uma emoção, um estado de espírito definidores da condição humana.

E a realiza com uma técnica apurada de tal sorte que os contos reunidos nesta coletânea reinventam cada um deles a vida em seus momentos mais significativos. Contos como Depressão, por exemplo, podem ser emparelhados com as melhores narrativas do gênero entre nós.

Não poderia deixar de salientar aqui, como o fiz em outros termos, da vez anterior, que Afonso [é] um dos mais representativos valores da geração piauiense que revelaria figuras da altitude intelectual do poeta Hindemburgo Dobal e dos romancistas O. G. Rego de Carvalho e José de Ribamar Oliveira.

Por isso recorro ainda às anotações de Fernando Namora, no livro citado, ao fazer o elogio de seu contemporâneo Eduardo Lourenço: Tentando, e numa paróquia de tribalismo, permitiam-me uma anotação tribalista: sabe que Afonso Ligório Pires de Carvalho seja dos da minha geração e que, enfim, ter bebidos as primeiras águas na matriz que também a minha. Não é por acaso que muito do modo de ser de Afonso é o que é. A generosidade e um sentido de justiça que inventam".


A. Tito Filho, 23/11/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

SUSPENSE

Suspense pertence ao vocabulário inglês. No meu modesto livro ANGLO-NORTE-AMERICANISMOS NO PORTUGUÊS DO BRASIL, que destacamos autores nacionais elogiaram, sem que merecesse registro ao menos de uma linha dos críticos e comentaristas piauienses, salvo os colegas da Academia, nesse livro defino SUSPENSE como momento de forte tensão no enredo de filme, peça teatral ou obra de ficção, certa ansiedade resultante de incerteza, mistério ou indecisão.

Faz pouco tempo a Academia Piauiense de Letras editou e entregou ao público "Um Drama de Consciência", do acadêmico e médico Salomão Chaib. Ofereci-o a vários jornalistas da terra, mas nenhum registro se fez dessa pequena (50 páginas) obra-prima.

Quando li os originais do trabalho de Salomão, lembrei-me de Eça de Queiroz, em "O Mandarim": "No fundo da China existe um mandarim mais rico que todos os reis de que a fábula ou a história contam. Dela nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, postas a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver; e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição de um avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?".

Tocaria você a campainha?

Assim no livro de Salomão. Médico famoso vai operar coronel acusado de [ser] torturador. As vítimas ameaçam por telefone o cirurgião. Ou mata o paciente ou tem a filha raptada. Que fazer? A vida do violento militar se encontra nas suas mãos. Salva-lhe a vida ou a da filha? O livro deve ser lido pois nele se encontra a resposta.

Faz anos tenho muita admiração a Orlando Parahym, médico pernambucano de merecida projeção cientifica e literária. Possui, inclusive, estudo biográfico e crítico sobre o piauiense Otávio de Freitas, fundador da Escola de Medicina do Recife. Mandei o livro de Salomão a Parahym, que me escreveu pela seguinte forma: "Caro mestre e ilustre amigo Tito Filho. Agradeço-lhe a oferta do livro "Um Drama de Consciência", de autoria de Salomão A. Chaib. Ao que me parece, o escritor é profissional da medicina. Além disso, um escritor excelente. Estilo simples, claro e comunicativo. No que se refere à parte médica, aí tudo é perfeitamente descrito, revelando no escrito a personalidade de um cirurgião de alta categoria e longas experiências no ofício. Todas as minúcias acham-se referidas e discutidas a luz dos mais modernos conceitos da cirurgia. Se, no que tange à descrição empolgante do ato cirúrgico tudo se eleva às raias do inexcedível, cabe ressaltar o primoroso literato cuja valorosa personalidade se consagra modelar em todas as páginas em que descreve a intensidade psicológica do terrível drama de consciência vivido pelo Dr. Coutinho. Digo-lhe tais coisas, meu caro Tito Filho, depois de ter lido e relido essas páginas tão empolgantes de um livro capaz de prender nossa inteligência mercê do seu conteúdo admirável e forte, comovente e belo na sua opulência literária e humanística".

Palavras espontâneas de uma autêntica glória da Medicina e das letras de Pernambuco. Outras referências elogiosas me chagaram de várias cidades brasileiras.

E no Piauí? Nada. Registro algum se fez. Falta de interesse pela boa leitura? Desprezo ao que é nosso? Uma tristeza esta taba piauiense habitada de inúmeros sábios da Grécia.


A. Tito Filho, 31/07/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

CORONÉIS

Acabo de ler Império do Bacamarte, de Joaryvar Macedo, das mais aplaudidas afirmações da literatura cearense dos dias que correm. Trabalho curioso e sério, estudo de sociologia e de processos políticos de história do Ceará, sobretudo da região do Cariri. Bacamarte e punhal participavam dos episódios de domínio e de sangue, quer o livro retrata com grande fidelidade de observação.

Outros livros me encantaram de ensinamentos no tempo de sua leitura, como Heróis e Bandidos, doutro cearense leal às letras históricas e sociais, Gustavo Barroso, e Coronelismo, Enxada e Voto, de Vítor Nunes Leal, jurista punido pela quartelada de 1964, quando honrava o Supremo Tribunal Federal, e estudioso de homens de costumes políticos interioranos.

A obra oportuna e importante de Joaryvar Macedo fez que eu, neste escrito de jornal, convoque conterrâneos de talento para a escritura da história dos coronéis do Piauí, nos tempos coloniais, no Império e na República, e são muitos, os donos da gadaria e depois os latifundiários da monocultura. Da forma que se verificavam noutras terras, os assassinos de modo geral caracterizavam a violência dos poderosos, cujas riquezas em animais e terras se conservavam pelos casamentos de parentes, no interior do clã familiar. Imperdoável, sem o casamento, a desvirginização das donzelas. Os garanhões se casavam com a deflorada ou perdiam o aparelho sexual, pela capação sem dó nem piedade.

Ainda não se escreveu a história do coronelismo no Piauí nem dos coronéis orgulhosos do mando e da impunidade, sempre dois em cada área da política partidária, a do governo e a da oposição, vivendo ambos num mundo selvagem.

Conheci alguns coronéis célebres, homens que criam em Deus, corajosos e as mais das vezes de elevados sentimentos humanos. Igualmente nãos e valiam de gestos de perversidade. Respeitavam os adversários. Respeito recíproco. Intransigentes, porém, nas inimizades políticas, sem que transigissem nas determinações de consciência e de vontade. Alguns coronéis que conheci possuíam a virtude do sacrifício. Tinham bens patrimoniais herdados e conservados pelo trabalho profícuo. Aos amigos da paisagem social, eleitores de cabresto, de cega obediência aos ditames do chefe, forneciam-lhes roupa, calçados, hospedavam na própria residência os caboclos dos povoados, mulheres e filhos, assistindo-os na doença e nos remédios.

Creio que o coronel do Piauí difere do coronel de outros cenários importantes, talvez por causa do criatório de sociedade com o vaqueiro.

Acho que está no tempo de que se conte a história dos coronéis piauienses, os nascidos aqui ou que aqui sentaram o rabo na rapadura e se enfeitiçaram da terra.

Coronéis, que conheci quando deles se aproximava a viagem derradeira, foram Chico Santos, Joaquim Leitão, Lourenço Barbosa, Chico Alves Cavalcante, Manoel Nogueira, Manoel Lages, José Nogueira de Aguiar, Joaquim Gonçalves Cordeiro, Manoel Costa, Antenor de Castro Rego, Orlando Carvalho, Rocha Neto, Miguel Oliveira, João Ribeiro de Carvalho, Paes Landim e alguns outros, que a memória no momento não ajuda a repetir. Conheci pessoalmente os acima referidos. Homens de fibra. Fiéis aos compromissos partidários. Às vezes dois lutavam na mesma área, e onde um estivesse, o outro estaria no lado contrário.

Alguns assuntos, neste Piauí, dariam grandes obras literárias, ou estudos históricos, como o romance dos primeiros desbravadores de caminhos para o caminhão, os tipos femininos na vida literária e na história e ao final os coronéis piauienses, com suas virtudes e desvirtudes.


A. Tito Filho, 24/09/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

PATOLOGIA SOCIAL

As tevês brasileiras oferecem aos estudiosos os melhores tipos de antropologia criminal. Liguem-se esses aparelhozinhos infernais e observe-se o desfile dos anormais de todos os tipos: adúlteros, falsários, sedutores, trampolineiros, incestuosos e ainda os criminosos políticos, cada qual metido nas infucas da roubalheira cartorial, na legislação casuística, na entrega do Brasil às multinacionais por alguns dólares sujos. Em moda, o seqüestro, fabricante de heróis, o seqüestrado e o seqüestrador.

Byron, Balzac, Galdoni haveriam de banquetear-se com o noticiário das tevês nacionais, para a criação de novos tipos lendários.

Vejam-se os quadros a uma assistência já em estado de neurose e psicose permanente: quedas de avião, choques de trem, desastres e mais desastres de veículos, tráfico de drogas, assaltos a bancos, ação de justiceiros, as rotas de cocaína, contrato de homicídio, estupros, vinganças torpes, roubalheiras, maracutaias, mortes nos hospitais, quadrilheiros, pistoleiros, incêndios, autoridades metidas a sério em entrevistas emprenhadas de asnices. No mais, o maluco roquinirol dos norte-americanos, ou a lambada de calcinhas de fora, a inflação, o sofrimento dos aposentados.

As nossas tevês ofereceram quadros de assassinatos, como na tragédia grega. Vera Fischer já fez uma Jocasta industrial. As obras de Eurípedes, Ésquilo, Corneille estão vivas nos malditos aparelhos de imagem e de som, verdadeiras minas de riqueza inextinguível. A leitura de Os Bandidos de Schiller revela muitas personificações de criminosos que aparecem nas fábricas televisivas de crimes e devassidões.

O dilema darwiniano foi muito bem revelado na fórmula de d'Annunzio para os múltiplos aspectos da sociedade injusta e irresponsável: renovar-se ou morrer.

As tevês nacionais, nos seus noticiários, sem que os seus proprietários desejem, mostram que o corpo social brasileiro se encontra doente. Poucos os gozadores, milhões de sofredores. Ou se renova ou os seus princípios brevemente se varrerão por virtude do protesto das massas. Leiam Zola, em O Germinal, a viva descrição do proletariado aspirando à luz, depois de sofrer durante séculos. Descreve o genial francês a descarga fulminante de eletricidade acumulada em operários em greve. Cenas violentas. E matam, e mutilam os cadáveres dos opressores. No caso, a arte literária, antes da ciência, refletiu a verdade pura e simples de uma massa de grevistas desnorteada pelos sofrimentos.

A tevê brasileira glorifica criminosos vulgares, doentes, criminosos loucos, psicopatas, quando lhes concede a maior parte dos programas noticiosos e com rispidez esquece as vítimas.

A injustiça social, desumana, perversa, se revela. O empresário que paga vinte e cinco milhões de dólares de resgate não explica como ganhou tanto dinheiro, mas não se pode negar que o acumulou com a exploração da fome dos miseráveis, que vegetam por toda parte, escondendo terríveis dramas da fome dos filhos, de resistência debaixo das pontes, de doença que não se trata. É necessário que todos se voltem para a multidão dos desgraçados. O egoísmo alimenta os ricos que se entregam ao ócio e à dissipação, estróinas que são com o luxo e o culto das amantes. Só os desequilibrados conseguem viver do EU. O Brasil está repleto de criminosos: os de colarinho e os descamisados.

Mal alimentado, sujo, doente, pervertido de maus exemplos, o pobre grita. As crianças ignoram a alegria. O pagamento ao operário equipara este ao escravo.

Piedade e justiça, meus senhores. Maiores crimes do que os apresentados na tevê brasileira é o crime da terrível condenação à dor, à miséria, ao opróbrio.


A. Tito Filho, 29/07/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ALGUMAS IMPRESSÕES

ANÍSIO DE ABREU NETO, poeta, sim, dos grandes destes brasis, era dos filhos amados do Piauí. Morreu no Rio, novo ainda, pujante de grandeza artística. O irmão JEREMIAS pretendeu homenageá-lo, revelando-lhe aspectos dos ritmos novos e audazes que ele criou, em páginas que revelam formas entusiásticas de um esteta, em ritmos de graça e de elegância - versos sem pecado.

No saudoso conterrâneo, há sensibilidade opulenta e criadora. Sonoro, panorâmico, inquieto, audaz, pleno de ansiedade, soube imagens maravilhosas para cantar, como semeador de belezas, o seu nordeste, lendas, bichos, pássaros, amor, natureza, infância, da forma que se lê numa seleção de JEREMIAS PEREIRA DA SILVA, inteligência crítica aguda para efetivar escolhas, para discernir instantes de primor, para convocar trechos poéticos emotivos, como se modelados por um escultor de vocábulos.

Raros poetas têm a energia cósmica de ANÍSIO, compondo mensagens de esperança e de gestos fraternos, engrandecido das grandes solidariedades humanas. A sua poesia recorda tudo o que o poeta amou: o convívio com os outros, os momentos de choro, o rio o sol doirado, a saudade de toques sensuais.

ANÍSIO morreu. Tenho que ele antes da morte, inesperada, repentina, imposta pelo coração que fraquejou, haja recitado, nos últimos sopros de vida, os versos de João de Barros, o poeta da HUMILDE PLENITUDE:

"Que, mesmo à hora triste e sombria da Morte,
       seja a Morte mais vida - e se morra a cantar".

X   X   X

Gosto muito de boa poesia, a que se faz com a alma das cousas, da infância e dos cenários que o homem guardou, como a poesia de arte verdadeira que Cid T. de Abreu compôs nesse encanto de MOENDA. Poeta é o que fala à alma da gente.

X   X   X

Trabalho que se faz com gosto e sentimento, a história da Rádio no Piauí, projeto da Secretaria de Cultura, da Secretaria do Planejamento, da Fundação CEPRO e da Academia Piauiense de Letras, elaborado e organizado por três fortes inteligências, as de Francisco Alcides do Nascimento, Geraldo Borges e José Elias Martins Arêa Leão. A memória dos fatos passados alimenta espiritualmente o povo. Bom que se saiba como se fazia comunicação antigamente.


A. Tito Filho, 24/04/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

LÍNGUA

Cada dia que passa mais se deteriora o ensino do português, - um ensino que padece, desde longos anos, de malferidos princípios didáticos, métodos antipedagógicos e de sisudez professoral - magister dixit empanturrado de sabedoria falsa e empáfia verdadeira. Regras, regrinhas e regrões entopem as páginas de dezenas de gramáticas, e cada uma delas oferece lições novas, a modo de originais e sábias.

Para entendimento de cousas simples, e nomes esquisitos, geralmente gregos, para batismo de fenômenos ao alcance de humildes inteligências. Os compêndios de ensinança se abastecem de denominações como catacrese, apócope, rizotônica, ênclise, zeugma, endoidecedoras de pobres estudantes do idioma. Na década de 60 criou-se a nova nomenclatura gramatical brasileira, nascida oficialmente de Ministério da Educação e assim imposta ao magistério, em todos os cantos do país. Agora a gramática seguiria a bitola convencional. Oficializava-se a reza ou recitativo dos compêndios no ensino da fonética, da morfologia, da sintaxe. Nesse figurino sujeito e predicado constituem os termos essenciais da oração. Deslembraram-se do significado de essencial: indispensável, necessário, e logo se decretou a existência da oração sem sujeito, aquela dos verbos expressivos de fenômenos da natureza, quando a esses verbos muito bem se atribuiria sujeito interno, como fazem os franceses no caso de chover, trovejar e outros. Antigamente, nas questões de análise sintática os mestres sadistas adotavam textos de Os Lusíadas, poema que Camões escreveu na ordem inversa e exigia-se que os garotos descobrissem o sujeito, como se fossem xerloques ingleses em busca do assassino misterioso.

Grande tormento ainda está na aprendizagem do aumentativo dos nomes comuns. Não se agasalha a voz popular rica de sabedoria e que, com muito critério, diz, no linguajar do dia-a-dia, cartona, copão, pratão, e só em determinados e raros casos o povo se utiliza do grau analítico, jamais o sintético das excentricidades gramaticais, fugido à língua viva, para consentir na bocarra, manzorra e outras semelhantes. Nos chamados adjetivos pátrios ou gentílicos os discípulos vêem alma à luz do meio-dia pois devem meter na cachola dezenas de esquisitices, criadas pela fértil imaginação de fabricantes de livros de ensinança de bem falar e escrever a língua portuguesa e de professores carrancudos, vaidosos e truculentos. A meninada endoida-se e os pais enlouquecem em busca do adjetivo referente a quem nasce em Três Corações, pátria de Pelé. Para Jerusalém, registrou-se o adjetivo hierosolimitano, repudiando-se o bom jerusalenense. Nada mais, nada menos do que o samba do crioulo doido. E o latim? Tempos atrás atormentava-se o estudante com a língua de Cícero, cientifica, declinada, literária, polida, que Cícero rezava na ocasião da sua eloqüente e imortal oratória, latim que o célebre romano nunca usou na conversação com os amigos e familiares. Jamais, por através da leitura, os professores ensinaram que o português representa hoje o latim evoluído, transformado, e que continuará a transformar-se porque a linguagem humana constitui fenômeno social, não apenas fonético ou morfológico. Assim, sem a utilização da leitura diária sob orientação do mestre, os discípulos não podem entender que celeste provém de céu e que ovelha vale o diminutivo de ovis depois das alterações fonéticas sofridas. A escola tem priorado nos seus métodos confusos de ensino, com mestres despreparados que mal redigem o próprio pensamento. A adolescência e a mocidade, ao cabo de contas, encontram-se abandonadas da sociedade, mas revoltam-se, rebelam-se contra o desprezo e passam a hostilizar os símbolos da vida social, e hostilizam a inteligência, a pátria, com a linguagem sem higiene, reflexo da aprendizagem que recebem, reveladora de que a vida não deve ser séria, mas uma pândega, de que o linguajar dos cidadãos brasileiros dá exemplo, na cátedra, no comício e sobretudo nas novelas da TV em que a gente fica com vergonha da língua estropiada pelos indivíduos maus da pátria amada.


A. Tito Filho, 22/08/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

FOLCLORE

Nos meus brincos de infância, em Barras e no velho Marruás, hoje Porto no Piauí, gente idosa, parentas velhas, caboclas da terra contavam estórias bonitas e medonhas, umas de arrepiar cabelo, outras de deleite e encantamento. Quando da adolescência em Teresina, meninos do meu tope se reuniam de noite nas calçadas do médico Benjamin Baptista, conceituado e culto, e cada qual narrava contos de macaco, de onça, de gigantes, de heróis e de bandidos, e um desses colegas era filho do dono da casa, Stanley Baptista, que pela dedicação aos livros e caráter bem formado, se tornaria das mais brilhantes figuras do Exército Nacional. Momentos felizes e alegres; dava gosto vivê-los, e nunca se supunha que eles se fossem, deixando memórias inesquecíveis.

Aos 14 anos de idade comecei a ler romances nacionais e portugueses. Li "A Moreninha", de Macedo, e a obra completa de José de Alencar. Nessa época, Juca Feitosa, figura muito conhecida, rico comerciante, mantinha na capital piauiense loja de várias mercadorias, inclusive livros. Tive oportunidade de adquirir obras lusitanas, algumas de Camilo Castelo Branco e uma, bem me lembro, de exagerado romantismo, "Tristezas à Beira-Mar", de Pinheiro Chagas. Vendia-se também a coleção SIP, constituída de romances de aventura e de amor; que traziam, na capa, dois dedos em forma de V e por baixo do desenho a escrita MIL RÉIS, isto é, cada volume valia dois mil réis, e MIL RÉIS foi a unidade monetária vigorante até 1942. Entre muitos apreciei "A Patrulha da Madrugada" e "Naná". Júlio Verne estava na moda.

Tomava-me de entusiasmo com a sua ficção maravilhosa, que se incorporou à história contemporânea, com a visita do homem à lua. Li quase tudo do admirável francês. Da adolescência tão presente ainda no meu espírito foi a série de publicações TERRA-MAR-E-AR. Livros de tipos bons e tipos maus, em terras estranhas e distantes. Pratiquei leitura de Tarzan, o herói das selvas africanas criado por Edgar Rice Burroughs e pratiquei-a de fia a pavio.

X   X   X

Com a leitura de "Encanto e Terror da[s] Águas Piauienses", desse mágico Josias Carneiro da Silva, relembro os tempos de menino, delicado com as lendas de bichos e de gente, parecido com as de outras águas do mundão de Deus, assim do jeito do caboclo-dágua do São Francisco, o urutau ou jacaré gigantesco do Paraíba do Sul, o boiúna e o boto do Amazonas.

O folclore mostra a vida coletiva na sua cultura material e na sua cultura espiritual. As águas constituem fontes de lendas, mitos, fantasias, imigrações. Na Bahia, os pescadores celebram o despacho da mãe-d'água, cerimônia mágica em que se atiram oferendas ao mar para que aquela personagem mística os liberte de infortúnios na pescaria. A tradição mediterrânea está nas sereias, a que Homero se referiu. A Iara tem encantos irresistíveis, que o genial piauiense José Newton de Freitas pôs num poema, ao cantar o jangadeiro: "Enquanto seus filhos/ficaram chorando/ele está morando/beijando, beijando/a iara bonita,/no fundo do mar".

No livro se salienta o paciente pesquisador Josias Carneiro da Silva e se revivem monstros aquáticos, que a tradição recolheu e guardou. Mas Josias Carneiro realiza o mais brilhante estudo com o cabeça-de-cuia, que o talentoso piauiense João Alfredo de Freitas colocou em "Lendas e Superstições do Norte".


A. Tito Filho, 29/11/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

CRÍTICA LITERÁRIA - I

Teresinha Pereira, patrícia de Minas Gerais, leciona na Moorhead State University, nos Estados Unidos, onde tem desenvolvido uma atividade literária digna de louvores. E de lá me escreve um seguro comentário sobre Maria do Carmo Gaspar de Oliveira. Diz ela:

"Acabo de ler os CADERNOS PSICOLITERÁRIOS 2 que contêm vários comentários, críticas e análises da obra de Maria do Carmo Gaspar de Oliveira e registro aqui as minhas impressões sobre esta coleção tão bem editada.

Começo por citar as palavras do editor.

Maria do Carmo nestas obras revela-se senhora de uma expressão muito própria, individualizada e de uma inconfundível serenidade. O seu dizer é claro e espontâneo, escorregadio e nunca eriçado por termos fora do comum.

Estas palavras são destacadas da apresentação do livro Análise da Obra e usá-las para começar este comentário tem apenas o sentido de estar aprovando a boa crítica de seu editor, Antônio Soares, do Instituto Português, Departamento Editorial.

De minha modesta opinião constou a análise do livro Bosco. E do que eu disse então, gostaria de apresentar aqui algumas frases representativas das minhas primeiras emoções ao conhecer esta mãe poeta que imortalizou seu filho com um punhado de versos memoriosos. O que eu digo nesse artigo sobre o poema intitulado "Seu quarto" foi o seguinte:

A prova de fogo apresenta efeito quando chegamos ao poema "Seu quarto". Nossa emoção inutiliza toda essa capacidade de fazer uma crítica ou uma análise objetiva, que era nossa intenção ao começar a resenhar o livro! É um poema comovedor! Creio mesmo que seja este o melhor poema do livro e é incontestavelmente merecedor de fazer parte de qualquer antologia de poesia internacional.

E agora cito os íntimos versos do poema, que são os mais emocionantes: "... alguns brinquedos/ que eu guardava como lembrança/ de quando você era criança / sua cama, seu travesseiro, / seu lençol, seu cobertor / ainda guardava o perfume / o cheiro do seu corpo / Beijei e abracei tudo com carinho / e saí do quarto".

Tudo o que é profundamente humano, carinhoso e sentimental (no bom sentido) está aí dentro dos versos deste poema, nestas coisas, objetos pessoais que simbolizam a vida inteira de um filho, e de sua mãe.

Os Cadernos Psicoliterários 2, que publicam estas análises da obra de Maria do Carmo Gaspar de Oliveira é um livro muito completo. São cinco os livros comentados neste volume:

Caleidoscópio, de 1983, que contém vinte e sete poemas, breves trechos em prosa, e que foi prefaciado por Antônio Houaiss. A este livro pertence o poema "Império Feminista", irônico, profético, cujas idéias partem da imagem realista simples do presente, para calcular uma visão do futuro, no qual os homens foram eliminados, não por causa do feminismo propriamente dito, mas pela autodestruição de machistas: "Daqui a alguns séculos / (nem precisará disto tudo) / haverá alguns homens-touros / reprodutores / para o Império Feminista / triste império!".


A. Tito Filho, 13/11/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

CRÍTICA

Sobre o livro de Cunha e Silva, o escritor Vasques Filho publicou o seguinte, em Tribuna do Ceará, de Fortaleza, edição de 8-2-1990:

"Gentileza da Academia Piauiense de Letras, recebemos A REPÚBLICA DOS MENDIGOS do consagrado jornalista e acadêmico CUNHA E SILVA nosso conhecido de longas datas.

O volume tem boa apresentação gráfica, com encadernação excelente e até sofisticada, foi editado em 1984, 135 páginas de bom conteúdo, com apresentação de Cunha e Silva Filho, enquadrado pelo autor no gênero de novela. Cunha e Silva criou a personagem principal do livro, Simão Lopes, a partir da migração dos pais, cearenses, em tempo de seca, que terminaram por serem proprietários de terras às margens do rio Poti, as quais, por ele herdadas, e possuído de caráter humanitário, as transformou em uma república de mendigos, recolhidos nas ruas, dando-lhes significativa dignidade, e, pouco a pouco, chegando a uma comunidade praticamente auto-suficiente, na intenção de formação de uma comunidade modelo, em que nada faltasse. Com muitas digressões sócio-filosóficas, com citações de autores e de personalidades reais, o que seria ficção, no início, nas intenções do autor, vai-se tornando uma exposição sociológica do real, tendendo a comunidade, que deveria ser inatacável, para os lados de um amalgama entre o bem e o mal, sempre bem expostos em linguagem simples, com citações de filosofia e de sociologia, dando nomes de autoridades reais e de filósofos e sociólogos de renome, passando a narrativa, a nosso ver, para mais uma teoria sobre formações comunitárias já existentes no mundo atual. E aqui discordamos de que o conteúdo seja enquadrado no gênero da novela, para se tornar num ensaio de valor, com a forma de narrativa jornalística, não fora o autor um dos melhores jornalistas piauienses, por todos consagrado e reconhecido, abrindo, no volume, perspectivas para um debate de grande amplitude social sobre os mais diversos temas sociais e políticos, quanto de regimes autoritários e democráticos de governo, profligando os excessos dos poderes, as injustiças, a irresponsabilidade dos governos, a miséria social não somente regional como nacional e até mundial, no mundo em que vivemos hoje, enquanto canta louvores ao bom desempenho das comunidades bem governadas e bem organizadas, exaltando a prática do dever cívico, do amor ao próximo tão pregado pelo cristianismo, o sentimento filantrópico muito falado mas pouco praticado sobretudo pelas classes de maior poder econômico, tudo no sentido de aprimoramento de comunidades mais humanas, com maior quantidade de virtudes do que de vícios, em que o amor fraterno seja sempre levado em conta por todos os seus membros, desde o governantes e seus governados, do mais rico ao mais pobre.

A nosso ver, Cunha e Silva, ao invés de uma novela, porquanto a ficção é elemento secundário, escreveu um belo ensaio, com fulcro nos estudos filósofos e sociólogos que cita a cada passo da narrativa, valorizando o livro o propósito de bem servir à pátria e à humanidade em geral".


A. Tito Filho, 17/02/1990, Jornal O Dia

domingo, 20 de novembro de 2011

LIVROS

Carlos Araújo já deu vazão mais de uma vez à sua vocação literária, mas nunca através de um romance. A história tem a ver a sua vida profissional e, ao mesmo tempo, é pura ficção.

Diversos incêndios de origem desconhecida vêm destruindo grande parte da Amazônia e da mata atlântica, com trágicas conseqüências sobre a ecologia. Quem os provoca? Até que ponto as grandes potências estariam experimentando armas sofisticadas - com base em energia térmica transmitida por raios laser - nestes locais, com os resultados que todos conhecemos? E que fazem as nossas autoridades? Ignoram ou participam do escândalo?

Operação Thermos - Amazônia sugere uma hipótese plausível. Mesmo porque, nessa narrativa, nada é impossível.

Um coronel do Exército brasileiro se lança em missão Internacional secreta para salvar da falência um fabricante de armamentos numa operação em que os brasileiros querem o dinheiro, os americanos precisam de um campo de provas, os russos querem impedir a realização dessa experiência que será mais um passo na famosa Guerra nas Estrelas e finalmente há o amor a nível internacional movimentando uma história que poderia ser verdadeira se não fosse inventada. De quebra, a cessão de uma grande área da Amazônia como campo de provas.

Utilizando a sua experiência, o autor nos faz viajar por diversos países onde se desenrola a ação, num jogo de interesses das grandes potências, que demonstram completo desdém pelos países do terceiro mundo.

As aventuras do coronel Pinaud são de estarrecer, porém mais inesperado e surpreendente é o final da história. Vale a pena...

Carlos Araújo nasceu em Salvador, Bahia, e reside no Rio de Janeiro. Especialista em advocacia internacional, sua atividade se estende por muitos países, cujas línguas fala, algumas mais complicadas, do tipo croácio, esloveno, russo e outras, normais, tipo alemão, francês e inglês. Leitor assíduo de revistas especializadas, tipo Jane's assim travou conhecimento com o mercado de produtos de defesa - sofisma consagrado internacional para material bélico.

Desta ação, Carlos Araújo partiu para a sua vocação, a de redigir fatos e causos, sempre com a mesma dedicação, a mesma vontade de acertar e de conseguir o sucesso que obteve em outras carreiras. De admirar, apenas, que tardado tanto este seu primeiro romance. Mas o próximo já está bem adiantado...

Antes, publicou um livro de poemas, O Inimigo Oculto, e outro, de ensaios, Macumba. 


A. Tito Filho, 17/07/1990, Jornal O Dia

domingo, 6 de novembro de 2011

APRECIAÇÃO

Theobaldo Costa Jamundá nasceu em Pernambuco. Buscou as torres catarinenses e fixou-se na simpática e encantadora Florianópolis e aí constituiu família e projetou-se como um dos mais destacados nomes da vida literária do Sul do País. Morenão como eu, afável, de primoroso coleguismo, fez-se piauiense também, enamorado de Teresina. Já visitou o Piauí algumas ocasiões e à Academia Piauiense de Letras ofereceu duas vezes, como gesto de amizade, o magnífico coral de Santa Catarina, que encantou a gente teresinense e de outros municípios. Dádiva de Teobaldo. Oferta desse amigo leal e correto.

Agora, em data de 31 de outubro, ele me manda carta, escrita no seu original estilo de mestre da língua e da prosa e diz assim sobre Alvina Gameiro:

"Meu presidente Tito Filho.

Informei-me in Notícias Acadêmicas nº 56, arauto ímpar da nossa egrégia Academia Piauiense de Letras, que a escritora maior ALVINA GAMEIRO, no dia 14 do referido mês passado, foi eleita para a Cadeira 14.

Diz-me a informação o ter alcançado votação unânime na coerência de duas verdades: 1. O valor intelectual da escritora; 2. O acerto antológico da votação.

E estas duas verdades sustentam-se na ausência de surpresa. E ser candidata única cochicha-me o conhecimento da inteligência piauiense explicando: O VALOR LITERÁRIO DE ALVINA GAMEIRO É ÍMPAR NO UNIVRSO DAS LETRAS MERECENTES DO ZELO DINAMIZADO PELA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS.

Pelo evento de inteligência marcante de um momento especial, no sodalício onde sou menor na participação e maior de corpo inteiro no BEM QUERER que voto, apresento o aplauso ambivalente aos acadêmicos eleitores, quitando-me com ALVINA GAMEIRO e com a Academia Piauiense de Letras.

Colocando-me na certeza que existe uma Literatura Piauiense, aparteia-me no bestunto um argumento enfiando-me diante da ponta do nariz o indicador persuasivo: a eleição de ALVINA GAMEIRO para a Cadeira 14, prova a vitalidade intelectual consciente e sublima a autora de CURRAL DE SERRAS.

Este livro que possuo deu-me o amigo maior A. Tito Filho em março de 1983. E foi não foi releio uma ou outra de suas 280 páginas como a ruminar encanto. Como por exemplo: "MUITO ADIANTE, NO QUEBRAR DA MÃO DIREITA, NA RAÍZ DE UM PÉ DE MORRO, UM MARRUCO GAITEAVA, ROUQUEJANDO RECADO AGOURENTO PR'A QUEM TIVESSE TOPETE DE GANHAR RUMO DAS FÊMEAS QUE QU'ELE TAVA CASTIÇANDO". (Cf. pág. 43).

Quem tem prosa assim tem voto certo para qualquer Academia de Letras da Língua de Camões.

Aliás até no título: Curral de Serras, este livro é seleto. E como se não bastasse revelar a escritora que sabe escrever manipulando matéria tomada nos molduramentos da Geografia e da Paisagem Humana piauienses.

Sem dúvida ALVINA GAMEIRO é escritora privilegiada pelo engenho da imagística que Deus distribui antologicamente".


A. Tito Filho, 09/11/1990, Jornal O Dia

sábado, 5 de novembro de 2011

OBRA PRIMA

Folk é povo; lore é ciência. Folclore - ciência do povo, ao pé da letra.

Tenho que folk corresponde a povo em sentido espiritual, para impor costumes e hábitos. Em sentido material, de habitantes, o inglês usa people.

É longa a história de folk.

O cético bal / força, multidão/, também pronunciado val, entrou para o latim, e nesta língua deu valere / ser forte, valer/, vallere /fortificar/ e vulgare /espalhar, divulgar/. Entre os derivados de vulgare está vulgus, o povo, a multidão, o vulgo português, o volk alemão e o folk inglês. O folclore /aportuguesadamente/ - diz Gustavo Barroso/ - abraça vastíssimo quadro da vida popular. Pode-se dizer que é toda ela: construções aldeãs, marcas de propriedade em cousas e bichos, objetos úteis, arte, psicologia das gentes, costumes, ornatos, vestes, alimentos, cerimônias, regras jurídicas, jogos, folguedos, brinquedos infantis, instrumentos, religião, medicina, canções, provérbios, inscrições, músicas, danças, autos, pastorais, facécias, anedotas, linguajar, contos, mitos, lendas, denominações de toda espécie.

Em virtude de abranger os processos de vida do povo, no passado como no presente, já se chama o folclore de folk-life. Life é vida.

Joaquim Ribeiro acentua que a palavra folclore está consagra como denominação da ciência destinada a estudar a infra-história dos povos. Pura ciência histórico-social.

Parece que o folclore é um só, comum a todos os povos. Artur Passos salienta tais circunstâncias: "Outro aspecto do maior interesse ainda é o atinente ao folclore regional, se é que o folclore tem região, se o seu local não é apenas uma configuração do vasto campo mundial".

Referem-se os folcloristas ao folk-tale, estudo dos mitos, contos e lendas tradicionais. A literatura se povoa de muitos contos e romances e de personagens da vida real enfeitados pela imaginação popular. As comunidades sustentam que o povo aumenta mas não inventa - e as estórias recebem acréscimos aguardado, porém, a essência da verdade. A fantasia dos lobisomens nasceu de episódios verídicos. Ninguém ainda se deslembrou do padre que virava bicho e de noite pulava no meio da estrada para assaltar mulheres com intentos libidinosos. Umas destas, corajosa, enfrentou a visagem e deu-lhe segura facãozada. Descobriu-se depois que o vigário tinha um braço decepado.

Não cabe aqui estabelecer diferença entre mito, conto e lenda, mas dar a esta a característica de provir da concepção popular em torno de acontecimentos, de heróis, de individualidades famosas. As lendas se apóiam em fatos e pessoas tradicionais, que passam de geração a geração, modificando-se.

No Brasil, figuras históricas participam do folclore, e entre outras cumpre salientar Ana Jansen (Maranhão); Miguel de Sousa Martins (Visconde da Parnaíba); Luís Carlos Pereira de Abreu Bacelar, Luís Carlos da Serra Negra (no Piauí); Dona Beja e Xica da Silva (Minas Gerais); Amadeu Bueno (São Paulo), dos quais se espalham gestos e atitudes às vezes oriundas da interpretação popular.

Josias Carneiro da Silva buscou a fama ingrata de Simplício Dias da Silva e dela fez livro maravilhoso. nada inventou. Antes recolheu a voz do povo, o reconto andante da boca em boca, e realizou das mais ilustres narrativas que tenho lido. A gente não sabe mais distinguir nesta escritura, e o acertado é que cada um de nós admite o extraordinário conjunto de cousas do outro mundo, de crendices, de corpo-secos, almas do outro mundo, aspectos geográficos da Europa, arte, requintes, nobiliarquia, tudo exposto numa linguagem sã, vivaz, clara, para entendimento de leigos e doutores. Estilo elegante como convém aos mestres no assunto.

O confrade da Academia Piauiense de Letras abdicou das glórias patrióticas enaltecedoras de Simplício Dias da Silva, de quem mais arrecadar somente a moldura lendária, enfim as estórias maravilhosas que em torno dele criou a sabedoria do povo, que sempre aumenta, mas não inventa, conta o conto e acrescenta um ponto.

O livro ficará como obra-prima do folclore piauiense, melhor dizendo do folclore universal, porque o folclore não tem pátria, não se conforma com regiões, goza de universalidade. SIMPLÍCIO SIMPLIÇÃO DA PARNAÍBA é o título da obra-prima.


A. Tito Filho, 10/11/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 1 de novembro de 2011

TAPETY

Em 1988, publiquei neste jornal O DIA algumas considerações em torno do poeta oeirense Nogueira Tapety, cujo primeiro centenário de nascimento se comemora a 30 de dezembro de 1990. Em razão da proximidade dessa data, o ilustre presidente do Instituto Histórico de Oeiras, Pedro Ferrer, me faz justa reivindicação, a de reeditar o artigo referido, o que faço agora.

Nascido na fazenda Canela, do município de Oeiras (PI), em 1890. Pais: Antonio Francisco Nogueira e Antônia Pereira Nogueira. Formou-se pela Faculdade de Direito do Recife. Fez o curso jurídico assinando Benedito Francisco Nogueira. A denominação Tapety, apelido de família, conforme depoimento de Cristino Castelo Branco, ele resolveu incorporar ao próprio nome - Benedito Francisco Nogueira Tapety, literalmente Nogueira Tapety.

Promotor público, em 1912, da antiga capital do Piauí. Ano seguinte, delegado-geral de Teresina, com serventia no gabinete do governador Miguel Rosa. "Foi a oportunidade - conta Celso Pinheiro Filho - de Tapety reencontrar-se com os doutores boêmios, e os poetas simplesmente boêmios de sua geração, que faziam serenatas até o alvorecer".

Jornalista desde o tempo de estudante, colaborou no "Diário de Pernambuco", do Recife. Na capital piauiense tornou-se colaborador freqüente de "O Piauí" e enviava trabalhos para "O Diário", de Belém.

Cristino Castelo Branco lembra os seus colegas piauienses nos estudos jurídicos: "Desses, um dos mais inteligentes era sem dúvida o mulato de Oeiras, que a tuberculose levou em janeiro de 1918, aos vinte e sete anos de idade: Benedito Francisco Nogueira Tapety. Bom estudante, orador fluente, poeta inspirado". E acrescenta que sua maior aspiração estava em casar com uma moça bem alva, para ter filhos cor de café com leite: "Arrebatou-o a morte antes dessa suspirada produção de mestiços".

Em 1914, pronunciou conferencia no Theatro 4 de Setembro, de Teresina, sob o título "A Luz", em que estuda o sol perante a ciência, a religião e a literatura.

Passou à poesia e tornou-se magnífico poeta.

Lecionou filosofia, psicologia e lógica. Ano de 1915, surgiram os primeiros sintomas do mal que o vitimaria, a tuberculose. Buscou cura na Ilha da Madeira, chamada Pérola do Atlântico, pertencente a Portugal. Esperava a cura da natureza, do clima. Iniciou vida nova de muita fé. Fazia versos de entusiasmo e os publicava em jornal ilhéu. Admirável a sua "Ode a Madeira", dedicada a Laura Veras, dona do hotel em que se hospedara e que o tratava como filho querido e doente.

Finalmente a doença venceu todos os recursos. Quis morrer na fazenda Canela, pedaço de terra de seu nascimento. Aí o visitou o poeta boêmio Baurélio Mangabeira, um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras.

Ao falecer, em 1918, a casa em que morava foi purificada pelo fogo: a rede, as roupas, os calçados, os papéis, tudo queimado. Alguns acadêmicos, para homenagear-lhe a memória, propuseram que fosse incluído no quadro, da instituição, mesmo sem posse, e o seu nome passou a titular da cadeira 15, como primeiro ocupante.

Escreveu alguns poemas na ilha portuguesa e publicou-os.

Tapety tem lugar de relevo nas letras piauienses. Infelizmente o Piauí pouco ou quase não conhece a história e a grandeza espiritual dos seus grandes filhos, injustamente esquecidos e raramente estudados.


A. Tito Filho, 14/08/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

JULGAMENTO

O ministro da Agricultura, Iris Resende, enviou à Academia Piauiense de Letras a seguinte mensagem:

"Impossibilitado de comparecer à sessão solene em que a histórica Academia Piauiense de Letras empossa o ilustre escritor João Emílio Falcão Costa Filho em sua Cadeira 26, tendo como Patrono o escritor Simplício Resende e o exemplo de sua vocação, tomo a liberdade de daqui enviar a minha congratulação à Casa e aos seus dignos integrantes.

Conheci João Emílio Falcão em Brasília e logo notei uma personalidade singular em sua atividade de jornalista.

Dono de uma marca extremamente pessoal de trabalho, é um jornalista sempre inquieto e curioso, permanentemente contemplando o mundo à sua volta a preocupação de consertar o que não está correto.

Com seu estilo próprio, sabe ser sarcástico em suas crônicas no jornal quando a situação o exige, implacável nas suas perguntas como entrevistador na televisão quando defende o bem comum, mas também um homem extremamente generoso.

Falcão, como jornalista, convive em altas rodas de poder participando de discussões e confabulações da política nacional, mas não se ilude em relação a realidade.

Com muita argúcia, sabe distinguir o mundo real do mundo dos poderosos e, ao mesmo tempo, não perde a atenção sobre problemas que acontecem por toda parte, por mínimos que sejam.

Enquanto discute os mais altos problemas da República, Falcão não esquece o humilde brasileiro que, no ponto mais remoto do território nacional, enfrenta um problema qualquer, como o pequeno agricultor às voltas com a necessidade de sobreviver.

Verifiquei mais tarde que esse é o universo do escritor João Emílio Falcão, com a mesma inquietação, curiosidade, preocupação, argúcia, espontaneidade e generosidade.

Com a mesma marca pessoal, o escritor Falcão revira o mundo da ficção em busca de contribuições concretas para a justiça social, que vão além das preocupações estéticas de um artista, sempre sem perder qualidades eminentemente literárias.

É comovente a preocupação do escritor com as misérias e os pobres coitados que se perdem no interior deste Brasil imenso, relegados pelas elites pensantes e administrativas, mas que, na realidade, constituem a grande massa que, muitas vezes anonimamente, faz o Brasil, o Brasil real.

A posse de João Emílio Falcão como membro da Academia Piauiense de Letras é, evidentemente, o reconhecimento definitivo dos valores do escritor, que em cenário tão ilustre passa a ter mais espaço para o seu trabalho e suas inquietações de cada dia, além de valorizá-lo com a sua presença.

Estou certo que, com esta posse, a imortal Academia, o grande escritor e todo o Piauí avançam mais ainda na unidade entre todos, na identificação da obra que constroem e no aprofundamento de seus compromisso com as artes, o pensamento crítico e o mundo que nos envolve".


A. Tito Filho, 03/03/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 11 de outubro de 2011

RENATO E PAULO

Renato Castelo Branco e M. Paulo Nunes são duas das mais prestigiosas figuras intelectuais do Piauí. Sobre livro do segundo, recentemente lançado, escreveu o primeiro:

"São Paulo, 20-11-89,
Caro M. Paulo Nunes
Irmão em Piauí:

Eu já conhecia o seu "A Província Restituída" e, através dele, seu telúrico amor a nossa Província, que compartilho, arrastando comigo vida afora (como você) sua indelével carga emocional.

Agora chega-me às mãos, por gentileza de nosso infatigável Arimathéa, um exemplar de "O Discurso Imperfeito".

Se, no primeiro, eu havia apreciado o literato e o crítico, no segundo admiro sobretudo o educador.

Em "Província Restituída" o crítico literário analisa, com lucidez e amor, a vida e/ou obra de ilustres conterrâneos (sempre o Piauí), entre os quais Luís Mendes Ribeiro Gonçalves, a quem tive a honra de substituir, na Academia Piauiense de Letras, na cadeira 19. E, por que não? – também, Luís de Camões, orgulho de todos nós lusófilos, cuja obra analisa com o mesmo carinho com que trata do "Porto da Imaculada Conceição de Marruás".

Em "O Discurso Imperfeito", o educador faz uma reavaliação de nosso panorama sócio-cultural e de nossa problemática educacional, que o coloca ao nível de nossos mais eminentes educadores, a exemplo de Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Paulo Freire.

Mas o que principalmente resulta em ambos é o amor à cultura, a vocação de servir, o humanismo construtivo e pragmático que o acompanham desde a juventude.

Cordialmente,
RENATO CASTELO BRANCO".


A. Tito Filho, 10/01/1990, Jornal O Dia