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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

JARRINHA

Chamava-se João Miguel Jarrinha, o jarrinha, como era conhecido de todos. Baiano de nascimento. Idoso. Popularíssimo. Viúvo. Pobre. Antigo professor público jubilado. residia sozinho em Teresina, mais de noventa anos passados.

Um feio dia encontraram-no morto, na rede da dormida, assassinado, o frontal despedaçado por forte bordoada de pulso rijo.

O crime abalou a cidade tranqüila. Levantaram-se conjecturas. O morto não tinha inimigos. Freqüentava as melhores rodas da cidade. Votava grande culto à formosura das mulheres. Amor platônico. Publicava o jornal de sua propriedade, intitulado "O Lacrau".

Na noite do crime, conforme se supunha, recolheu-se cedo à residência, pois dele se notou ausência em certos pontos em que habitualmente comparecia.

A polícia voltou atenções para Raimundo, de menor idade, que morou com Jarrinha algum tempo e a quem a vítima dedicou grande afeição. O outro suspeito para os policiais foi Higino Pereira de Araújo, músico e sapateiro, com quem Jarrinha tivera discussão por causa de um par de botinas, que não saíra nos conformes do contrato.

Raimundo contou que estivera com Jarrinha na véspera do acontecido em companhia de um colega e o vira adormecido numa rede, na sala de jantar. Acordou-o e com ele manteve rápida conversação, retirando-se com o amigo, que tudo confirmara.

Higino encontrava-se em Campo maior. De viagem para a cidade pernoitou com os companheiros em caminho, o que foi provado.

Higino Cunha, mestre ilustre e jornalista famoso, narrou que a polícia prendeu Raimundo, submetendo-o a suplícios. Extorquiu-lhe a confissão do crime. Embora menor, não teve curador idôneo. O júri condenou-o a dezesseis anos de prisão. Não houve apelação da sentença. A pena foi cumprida integralmente na velha penitenciária de Teresina.

O povo, porém, julgava que Raimundo fora vítima de clamoroso erro judiciário e sempre desconfiou de Higino, que anos depois de cumprida a sentença, adoeceu, febre e calafrios, segundo João Pinheiro, atendeu a pedidos e submeteu-se a confissão religiosa: "Mas ao terminar a confissão lhe declara peremptoriamente o sacerdote que não o absolveria, sem que ele, em presença de testemunhas, revelasse o que lhe referia, uma vez que disso dependeria a reabilitação de um inocente".

Levado maneirosamente pelos bondosos conselhos do confessor - narra João Pinheiro - com surpresa de quantos o ouviam, numa voz estertorante e panosíssima, revelando o mais profundo arrependimento, confessou que, por causa de pequena desavença que tivera com Jarrinha, resolvera assassiná-lo, o que, realmente, num momento de irreflexão, levara a efeito sem comprometer-se, aliás, porque, partindo, em certa ocasião em companhia de diversas pessoas, para Campo maior, à noite, enquanto aquelas dormiam, distante algumas léguas, regressara a Teresina, onde efetuaria o crime sem nenhuma dificuldade, porque, encontrando aberta a porta da rua e Jarrinha adormecido, descarregara-lhe, sobre o crânio, forte bordoada com uma acha de lenha que apanhara na cozinha e voltara a agasalhar-se entre companheiros que jamais suspeitaram da terrível verdade.  

Depois - termina João Pinheiro - como se nada mais devesse acrescentar, cerrou os olhos e faleceu imediatamente.

José Maria da Silva, em 1929, escreveu no jornal "Estado do Piauí" que Higino jamais fez a confissão que lhe atribuíram. Morrera inconscientemente de insulto cerebral, sem fala. O próprio padre Fernando, só depois de muita relutância, consentiu em acompanhar-lhe o enterro, porque Higino morrera sem confissão.

Com quem a verdade? Quem matou Jarrinha?


A. Tito Filho, 18/04/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A OUTRA TRAGÉDIA

Naquele tempo eu dirigia o velho e querido Liceu Piauiense, hoje Colégio Estadual Zacarias de Góis. Tempo das férias de julho, o descanso necessário e benfazejo depois das árduas atividades do magistério. Tomei o DC-3 da Cruzeiro do Sul, de duas hélices, que saia de Teresina manhãzinha ainda e pousava no Aeroporto Santos Dumont, do Rio, pelas 5 ou 6 horas da tarde. Viagem chata, enfadonha, por Bom Jesus da Lapa e Salvador, na Bahia, Montes Claros, em minas, Vitória do Espírito Santo. Uns cinco dias depois, correndo a longa Via Dutra, asfaltada, a estrada mais famosa do Brasil nesses tempos de calmaria republicana. No dia seguinte ao da chegada à capital paulista, num dos jornais encontrei a notícia dramática, a do choque de veículos na estrada Teresina-Altos, com a morte de muita gente.

Quando regressei a esta cidade do meu xodó, conheci os pormenores da tragédia que me foi contada pelo saudoso amigo José Vieira Chaves.

Era um sábado, dia 13 de julho de 1957. Manhã e tarde tranqüilas nesta Chapada do Corisco. Pouco movimento de carro, pois havia poucos carros. Ainda estava distante o sistema de financiamento, para liquidar mais ainda a depauperada classe média. Bares e botecos, como de costume, com os seus costumeiros fregueses de cerveja e aperitivos. Adolescentes e moços em férias escolares. Os namorados já se preparavam para as sessões cinematográficas no 4 de Setembro e no Rex. Nada perturbava a calmíssima Teresina de trinta anos atrás. O sol já tinha morrido, quando chegou a notícia da tragédia espantosa: pavoroso choque de veículos na estrada de Altos, na distância de trinta e seis quilômetros desta capital. Comentava-se que mais de vinte morreram no local e era impressionante o número de feridos. Pouco tempo depois, o Hospital Getúlio Vargas se transformava numa hospedaria de dores e de angústias, de lágrimas e de desespero. A multidão ali estava, aturdida, emocionada, comovida, comungando o sofrimento das vítimas e seus familiares.

As notícias começaram a chegar. O ônibus MARIMBÁ, de propriedade de Joca Lopes (João de Deus Lopes), vinha de Parnaíba. Viagem normal. Depois de Altos, uns cinco ou seis quilômetros da cidade, no rumo de Teresina, houve o choque formidável com um caminhão Ford, carregado de carvão e madeira, de propriedade de José Cândido Porto - e o local se transformou em cenário dantesco. Mais de duas dezenas de mortos, uns vinte feridos. A tragédia enlutaria muitas famílias, de Teresina, de cidades interioranas e ainda de outras cidades brasileiras.

A estrada de Teresina a Altos não era asfaltada, como hoje, mas de piçarra.

Tempo de verão, os carros em trânsito produziam nuvens de poeira avermelhada, que não permitiam visibilidade aos motoristas que viajavam no mesmo sentido. O pó cobria tudo.

Daqui para Altos seguiam dois veículos. Pequena a distância entre os dois.

Natural que o chofer do carro de trás, para se ver livre da terrível poeira, procurasse ultrapassar o carro da frente. Muitas vezes o motorista do que ia na frente tudo fazia para que o colega não conseguisse cortar a proa, como se diz, justamente com a finalidade de não ficar em situação desvantajosa, passando a vítima do pó infernal.

Essa estrada de Teresina a Altos era um tanto estreita. Os dois carros prosseguiam. O da frente desviou-se um pouco para a direita. Era natural. Em sentido contrário vinha o MARIMBÁ. E o motorista do veículo que ia para Altos deu com o carro para a direita, possibilitando, assim, a passagem tranqüila do ônibus. Mas o motorista do caminhão de madeira, que ia recebendo a importuna poeira do outro, entendeu que o colega estava abrindo terreno para a ultrapassagem. E, sem visibilidade, meteu o caminhão pela esquerda, no justo momento em que o MARIMBÁ emparelhava com o primeiro. Impossível evitar a tragédia assombrosa.

No choque faleceram 22 pessoas. Mais quatro se despediram da vida depois de hospitalizados no Getulio Vargas.

A 4 de setembro de 1958, as mesmas causas provocaram o pavoroso desastre que matou Demerval Lobão Veras e Marcos Santos Parente, candidatos a governador e senador, respectivamente, além de outras personalidades.

O homem criou a máquina. A máquina destrói o homem.


A. Tito Filho, 15/07/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

MEU BOM AMIGO

Quem assina este artigozinho não era nem nascido quando se instalou em Teresina a primeira instituição de crédito, justamente o famoso Banco do Brasil, de empréstimos só para ricos e bem providos de avalistas seguros.

Na década de 1950, ingressei no magistério. Aulas no Colégio Estadual do Piauí, na Escola Normal, no Colégio São Francisco Sales e noutros educandários. Iniciava o trabalho às 7 da manhã, às 13 da tarde e às 18:30, boca da noite. Não me passava pela cabeça possuir automóvel. Ministrava quinze aulas por dia, correndo de um colégio para outro. Os professores ganhavam vencimentos de miséria, nos estabelecimentos oficiais como nos particulares. Por cima de tudo, os proprietários de casa de ensino e o governo efetuavam a paga do labor mensal sempre com atraso. Nem equilibrista de circo conseguia sustentar família por processos tão angustiosos. Os mestres recorriam a agiotas a fim de que vencessem dificuldades e aperturas. Os usuários concediam empréstimos na base de 10, 15 e 20 por cento, exploradores gananciosos, que enricavam depressa na exploração da miséria alheia. Dia de vencimento do vale, chamado de papagaio, o perverso judeu aparecia em busca dos juros para a concessão da nova esfola. Como outros colegas, cheguei a dever a três ou quatro desses sugadores da economia popular ao mesmo tempo. Busquei soluções e me informaram que o Banco Comercial e Agrícola do Piauí poderia salvar-me as finanças. Procurei o estabelecimento, num prédio modesto da rua Barroso, mais ou menos no meio do quarteirão iniciado hoje pela Câmara Municipal. Encontrei facilidade para conseguir cinco mil cruzeiros, desde que meu pai avalizasse o negócio. E assim se fez. Juros baixíssimos. Na época do pagamento, a bondade paterna fez a liquidação da dívida, sem contribuição minha de qualquer natureza.

Melhorei de vida com o correr dos anos. Surgiram oportunidades de outros empregos. Consegui consultoria jurídica na antiga Comissão de Abastecimento e Preços do Piauí. Quando necessitei outra vez do banco, já se havia transformado o conhecido Banco do Estado do Piauí, o BEP, em cujas salas ganhei alegrias e dissabores. Às vezes os empréstimos me eram creditados com rapidez, outras vezes a cousa enganchava. A vitória me sorria ao cabo das contas, pois uns oitenta por cento dos servidores do estabelecimento haviam sido meus alunos diletos e queridos. Alguns funcionários de mando e poder não gostavam de mim. Jornalista quase sempre de oposição a governos piauiense, natural que contra mim se manifestassem antipatias e perseguições. Cousas da vida. A política sempre se mostrou injusta e de má índole, sobremodo quando ela passa aos métodos enodoantes de politicalha. Não me abatiam as recusas. Minha persistência acabava por obter os pequenininhos empréstimos que minhas parcas rendas permitiam. No BEP, porém, estava a minha salvação. Às vezes, fui levado a declarar desaforos aos encarregados das carteiras de empréstimos e os ouvia também, com humildade. Voltava ao equilíbrio emocional e partia para novas rogativas e, ânimos serenados, os dinheirinhos ingressavam nos meus pobres bolsos.

Eu e o BEP somos um romance. Um romance de caracteres que se compreendiam, eu e o banco querido dos piauienses, uma instituição do povo, que salvava a verdureira, o professor quebrado e desenvolvia o trabalho de produção do homem.

Meu bom amigo, o BEP. Sempre meu amigo nas mais ingratas situações de quebradeira. Sem média de depósitos, sem imóveis, sem nada, quantas vezes o BEP me livrou do infortúnio do desconforto de minha família. E não acredito que o Piauí seja ingrato com uma casa miga, onde a bondade dos servidores, os grandes e os pequenos, sempre foram o recurso maior dos necessitados.

Um crime contra o povo o desaparecimento de meu bom amigo. De mim, estou de coração choroso, apertado de amargura. Que os homens tenham dignidade e restituam a vida de meu velho BEP.


A. Tito Filho, 30/07/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

DESTINAÇÃO

Quando eu era meninote, meu pai se mudou para Teresina, prosseguindo a carreira de magistrado. Ganhava uns trocados, pois juiz naquele tempo não chegava ao salário mínimo destes dias inflacionários. A gente morava numa casa modesta. A cidade tinha vida tranqüila, agradável. Pagava-se aluguel da residência. Mas os bagarotes davam para passar bem de comedorias.

Meu pai percebia ordenados suficientes, da mesma forma que os funcionários públicos da época. Muita simplicidade, não havia festas de aniversários nem de debutação, nem de presentes no Natal e o carnaval se fazia sem despesas excessivas. Inexistiam ricos. Só abastados e a classe média que bem ganhava as suas patacas.

Os conselhos paternos me indicavam que procurasse uma profissão de ganhos razoáveis. Médico, por exemplo. Ou militar, pois o quartel dava a bóia e a roupa de graça.

Eu invejava o trabalho das pessoas. No Bar Carvalho, via a agitação dos garçons, de um lado para outro, servindo café ou refresco e logo pensava nessa profissão. Dia de domingo, eu ia ao restaurante comprar a comida de casa, como queria meu pai, para variar, e observava o cozinheiro Gumercindo a preparar o filé de chapa, em cima da quentura do velho fogão de ferro, cheio de lenha pela boca principal. Logo admitia um bonito futuro como diligente mestre cuca. No tempo de circo, fixava meu desejo maior em ser palhaço ou trapezista. Como gostava muito de picolé, surgia a pretensão de ser picolezeiro.

Cresci. Estudei. Deu-me na veneta de estudar direito. Formei-me. Não gostei de advocacia. Enriqueci-me de inveja pelo jornalismo, pelo magistério e pela literatura. Andei pela política na época em que já começava a correr dinheiro nas eleições. Edgar Nogueira, de grande prestígio, quis que eu fosse juiz no interior. Recusei. Juiz no interior ganhava como funcionário do Piauí, hoje. Não havia asfalto, a fim de que o magistrado das capembas pudesse freqüentar o cabaré da capital. Demais de tudo, esses pobres julgadores de vezem quando entregavam a alma de Deus, baleados pelos chefões do partidarismo.

Tornei-me jornalista e professor. Como jornalista, ganhava descomposturas. No magistério, como nos dias atuais, recebia salário de fome. Consegui ser funcionário público e nunca melhorei de finanças. Ainda agora ganho por mês a besteira de uns quinze mil cruzados novos por mês, sem ter para quem apelar.

Arrependo-me muito. Poderia ter sido político e ganharia rios de dinheiros como deputado. Caso fosse magistrado, seria hoje desembargador, com carro oficial, vantagens, e cem mil bagarotes por mês. Poderia merecer a sorte como dono de jornal, rádio ou televisão, e arrecadar milhões em propaganda oficial. Bastaria a publicidade da empresa piauiense de águas e esgotos, dirigido pelo dinâmico José Darcy Araújo.

Deus devia ter me protegido, ser do sexo feminino e filha solteira de falecido desembargador, para mamar de pensão por mês 40 mil pelegas, sem nada fazer, salvo colocar a dinheirama na poupança.

Banquei o bestalhão. Jornalista, professor, funcionário público. E sempre na miséria.


A. Tito Filho, 23/01/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

DENOMINAÇÕES

Várias vezes me têm perguntado, pessoas cultas e gente do povo, de onde provém a palavra veado, no sentido de homossexual.

Essas designações de cousas relacionadas com o sexo são quase sempre da inteligência das comunidades. Parece que existe vocabulário especializado para a expressão da vida e das necessidades sexuais. O acontecimento normalíssimo das regas tomou nomes interessantes como paquete, bandeira vermelha, incômodo, chico. No meu tempo de menino era bode. Mocinha pálida, colega de estudos, estava de bode. O órgão genital masculino se chama por vários modos: pinto, pau, cacete, manzape, careca. Quando ginasiano, Martins Napoleão mandava que se fizesse a leitura de "As Pombas", de Raimundo Correia. Era de ver a risada geral da turma de moças e rapazes.

O homossexual masculino, por esse Brasil imenso, recebe diversificada denominação: afeminado, efeminado, adamado, amaricado, maricas, mariquinhas, bicha, bicha-louca, boneca, rodinha. Adolescente, eu sempre ouvia em Teresina chamar-se o pederasta passivo de fresco.

Veado foi tirado do latim venatu, o mesmo que animal de caça, donde se fez venatório, relativo a caça. Arte venatória traduz a arte de saber caçar. Essa proveniência não explica nem justifica o veado que se aplica aos homossexuais. Consultei mestres e dicionários. Topei num livro, titulado “A Evolução das Palavras”, de A. Tenório de Albuquerque, com este ensinamento: "Ouvimos diversas explicações para essa surpreendente modificação de sentido, para essa verdadeira perversão de sentido, sem que, entretanto, nenhuma satisfizesse. Temos a impressão de que se trata de uma simples tradução do alemão HIRSCH. O médico judeu Dr. Magnus Hirschfeld, o fundador da ciência sexual, foi um defensor denodado do homossexualismo, do chamado terceiro sexo".

Albuquerque escreve que houve um período, na Alemanha, em que esteve com grande evidência o nome do Dr. Hirsch. É possível que esse nome servisse para indicar os homossexuais. Talvez algum alemão houvesse empregado no Brasil o vocábulo HIRSCH com a significação plebéia e alguém que traduzisse, vulgarizando-se o vocábulo.

Simples conjectura, já se vê. O próprio estudioso do assunto reconheceu a circunstância.


A. Tito Filho, 10/04/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

CONSIDERAÇÕES

Criou-se a primeira Escola Normal do Piauí em 1864, no governo Franklin Américo de Meneses Dória, instalada em 1866, com 23 alunos. Destinava-se ao preparo de professores para o ensino primário. Extinta em 1867 e reaberta em 1871, anexa ao Liceu Piauiense, no Governo de Sousa Leão. Extinguiu-se outra vez em 1874, novamente reaberta no governo de Almeida e Castro, 1882. Nova extinção se deu em 1888, quando presidente da Província Raimundo José Vieira da Silva.

Em 1908, os intelectuais Antonino Freire, Matias Olímpio, Antônio da Costa Araújo Filho, Abdias Neves, Francisco de Morais Correia e Francisco Portella Parente criaram a Sociedade Auxiliadora da Instrução, com a finalidade precípua de instituir o ensino normal, com a denominação de Escola Normal Livre, cujo primeiro exame de admissão se efetuou em fevereiro de 1909. Assumindo o governo do Estado a 15-3-1910, Antonino Freire, no mesmo ano, criou, no lugar da primeira, a Escola Normal do Estado do Piauí, inaugurada no dia 15-5-1910. Faria agora 80 anos.

No século passado, a efêmera Escola Normal teve como diretores, que eu sabia, Manoel Ildefonso de Sousa Lima, Polidoro Cesar Burlamaqui e Teodoro Alves Pacheco.

A partir de 1910, dirigiram-na: Miguel de Paiva rosa (1910-1912), José Joaquim de Morais Avelino (1914), Francisco Portela Parentes (1915), Manoel Sotero Vaz da Silveira (1916-1918), João Alves dos Santos Lima (1919), João Pinheiro (1919-1922), Anísio de Brito Melo (1923-1926), Benedito Passos de Carvalho (1927-1933), Maria de Lourdes Martins do Rego Monteiro (1933-1945), Nantilde Rocha de Sá (1946), José Severino da Costa Andrade (1947-1948), Odilon Nunes (1949-1950), João Rodrigues Vieira (1951-1958), Oscar Olípio Cavalcanti (1959-1962), Afrânio Messias Alves Nunes (1962-1965), Raimundo Gonzaga de Freitas Mamede (1966-1967), Carlos Augusto Daniel (1968-1969), Maurício Camilo da Silveira (1970), Roberto Gonçalves de Freitas (1971-1975).

No período de 1971 a 1975 implantou-se o Instituto de Educação Antonino Freire, homenagem prestada à antiga Escola Normal, em 1947, no governo Rocha Furtado, quando esta passou a chamar-se Escola Normal Antonino Freire.

Nas décadas de 20, 30, 40 e 50 as normalidades eram uma festa nas ruas de Teresina. Bonitas quase todas. Farda elegante. Gestos educados. Gozavam de muito prestígio social. Os dois mais importantes cinemas de Teresina homenageavam-nas semanalmente. Aluna da Escola Normal, fardada, não pagava entrada. Marido de professora vivia quase sempre à custa da própria.

Talvez haja algum engano nos períodos dos diretores.


A. Tito Filho, 06/05/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 1 de novembro de 2011

TAPETY

Em 1988, publiquei neste jornal O DIA algumas considerações em torno do poeta oeirense Nogueira Tapety, cujo primeiro centenário de nascimento se comemora a 30 de dezembro de 1990. Em razão da proximidade dessa data, o ilustre presidente do Instituto Histórico de Oeiras, Pedro Ferrer, me faz justa reivindicação, a de reeditar o artigo referido, o que faço agora.

Nascido na fazenda Canela, do município de Oeiras (PI), em 1890. Pais: Antonio Francisco Nogueira e Antônia Pereira Nogueira. Formou-se pela Faculdade de Direito do Recife. Fez o curso jurídico assinando Benedito Francisco Nogueira. A denominação Tapety, apelido de família, conforme depoimento de Cristino Castelo Branco, ele resolveu incorporar ao próprio nome - Benedito Francisco Nogueira Tapety, literalmente Nogueira Tapety.

Promotor público, em 1912, da antiga capital do Piauí. Ano seguinte, delegado-geral de Teresina, com serventia no gabinete do governador Miguel Rosa. "Foi a oportunidade - conta Celso Pinheiro Filho - de Tapety reencontrar-se com os doutores boêmios, e os poetas simplesmente boêmios de sua geração, que faziam serenatas até o alvorecer".

Jornalista desde o tempo de estudante, colaborou no "Diário de Pernambuco", do Recife. Na capital piauiense tornou-se colaborador freqüente de "O Piauí" e enviava trabalhos para "O Diário", de Belém.

Cristino Castelo Branco lembra os seus colegas piauienses nos estudos jurídicos: "Desses, um dos mais inteligentes era sem dúvida o mulato de Oeiras, que a tuberculose levou em janeiro de 1918, aos vinte e sete anos de idade: Benedito Francisco Nogueira Tapety. Bom estudante, orador fluente, poeta inspirado". E acrescenta que sua maior aspiração estava em casar com uma moça bem alva, para ter filhos cor de café com leite: "Arrebatou-o a morte antes dessa suspirada produção de mestiços".

Em 1914, pronunciou conferencia no Theatro 4 de Setembro, de Teresina, sob o título "A Luz", em que estuda o sol perante a ciência, a religião e a literatura.

Passou à poesia e tornou-se magnífico poeta.

Lecionou filosofia, psicologia e lógica. Ano de 1915, surgiram os primeiros sintomas do mal que o vitimaria, a tuberculose. Buscou cura na Ilha da Madeira, chamada Pérola do Atlântico, pertencente a Portugal. Esperava a cura da natureza, do clima. Iniciou vida nova de muita fé. Fazia versos de entusiasmo e os publicava em jornal ilhéu. Admirável a sua "Ode a Madeira", dedicada a Laura Veras, dona do hotel em que se hospedara e que o tratava como filho querido e doente.

Finalmente a doença venceu todos os recursos. Quis morrer na fazenda Canela, pedaço de terra de seu nascimento. Aí o visitou o poeta boêmio Baurélio Mangabeira, um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras.

Ao falecer, em 1918, a casa em que morava foi purificada pelo fogo: a rede, as roupas, os calçados, os papéis, tudo queimado. Alguns acadêmicos, para homenagear-lhe a memória, propuseram que fosse incluído no quadro, da instituição, mesmo sem posse, e o seu nome passou a titular da cadeira 15, como primeiro ocupante.

Escreveu alguns poemas na ilha portuguesa e publicou-os.

Tapety tem lugar de relevo nas letras piauienses. Infelizmente o Piauí pouco ou quase não conhece a história e a grandeza espiritual dos seus grandes filhos, injustamente esquecidos e raramente estudados.


A. Tito Filho, 14/08/1990, Jornal O Dia

RECORDAÇÕES

Meu pai e Eurípedes de Aguiar muito se estimavam. As vicissitudes da vida e os deveres da solidariedade estabeleceram entre ambos sólida amizade, que os anos não arrefeceram, antes aprofundaram, e o fato fez que eu tivesse no incontestável homem público um amigo certo, a quem ofereci admiração e respeito. Com a subida de Rocha Furtado ao governo, as figuras mais ativas de O Piauí, Eurípedes, Martins Vieira e Ofélio Leitão receberam cargos oficiais, como auxiliares da administração que se inaugurava. Afastaram-se do jornal, cuja direção Eurípedes me entregou, e pude desempenhá-la com leal observância dos princípios partidários. Transmitia-a, de ordem, ao poeta José Severino da Costa Andrade.

Em maio de 1947, tive nomeação como delegado de polícia da capital. Por esta forma passei a trabalhar com Eurípedes, chefe de Polícia, e nas funções me conservei algum tempo.

Privei com Eurípedes no jornal e nos encargos do xerifado. Dele recebi conselhos e proveitosas lições de experiência. Nunca o vi covarde, nem prevalecido de prestígio para perseguir ou humilhar. Uma feita me ensinou que a gente deve gastar tempo, tinta e papel para se defender de ataque inimigo pelo jornal. Antes se ataca com mais violência o diatribista.

Eurípedes não tinha ódio a ninguém. Apenas - me contou certa vez - nunca perdoaria maldade que certo cidadão lhe fizera, desnecessariamente. Jamais o havia perseguido, mas nunca praticaria gesto que o beneficiasse. Quando Rocha Furtado pretendeu premiar essa conhecida figura, Eurípedes, como secretário geral do Estado, recusou-se a assinar o ato. Não houve o benefício. Disse-me Eurípedes: "Esperei-o anos a fio, detrás do pau, cacete em punho. Chegada a hora, dei-lhe a cacetada merecida".

Eurípedes era doutor em assentar apelidos gostosos e sarcásticos nos adversários: Soim da Prefeitura, Cascavel de Quatro Ventas, Carregador de Piano - e outros que depressa caíam no agrado popular e se tornavam obrigatórios nas palestrações de praça e na linguagem debochativa dos jornais. Para que se compreendam essas irônicas alcunhas torna-se necessário conhecer as personagens que elas batizam, pois os ditos se ajustam ao modo de ser de cada um.

De igual modo, processava-se a vingança adversária. Poucos homens públicos tiveram tantos batismos grosseiros e jocosos como ele. Urso Branco, Euripão, Macacão dos Matões, Gostosão da Vicença, para citar alguns.

Presenciei episódios em que se envolveram Eurípedes e gente que com ele não simpatizava, a exemplo de Edgard Nogueira e Humberto Reis da Silveira, casos de desfechos gozados. Raros jornalistas e homens públicos conheci com tanto humor, tanto sal de espírito, a serviço de fina ironia e contundente sarcasmo. Mas nele coexistiam a honestidade, o brio, o destemor, a paixão de ideais nobres. Honrou os cargos que lhe foram confiados, pelo voto ou pela vontade de governantes.

Vários companheiros de luta participaram da via de Eurípedes, como Ofélio Leitão, uma das penas mais fortes e admiradas da imprensa piauiense, pelo asseio da frase, expressão bem construída, afirmação de coragem. Dono de boa e séria leitura. Professor culto, antigo procurador geral da Justiça, durante anos exerceu funções advocatícias no Banco do Brasil, e que dedicou honestas conhecimentos jurídicos. Cidadão simples, de palestra alegre e jovial, muito amigo do próximo, bondoso com os pequenos, de humanos pecados, da forma que se revelam os construídos do barro bíblico, proprietário, entretanto, de um bocado de virtudes espirituais.


A. Tito Filho, 08/12/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O ÚLTIMO DOS MOICANOS

Faz poucos dias revi na televisão o filme O ÚLTIMO DOS MOICANOS, que eu havia visto cinqüenta anos passados, com um dos artistas mais populares do seu tempo, Randolph Scott, ídolo da meninada nas aventuras do velho oeste norte-americano. A história foi escrita por James Fenimore Cooper, o mesmo que deu à literatura dos Estados Unidos obras como "Os Pioneiros", "O Espião", e outros romances que li sobre lutas e caracteres humanos.

Cooper era historiador meticuloso. Criou tipos fictícios, mas fiéis à vida das comunidades do tempo em que viveu. Dele "A Pradaria", cuja ação se passa na região do búfalo. O homem íntegro se forma pela natureza e não pelos livros, como ensina o escritor. Aprendi muito do faroeste em Cooper, que glorificou a vida ao ar livre e fez da simplicidade um ritual.

Era bom. Naquele tempo, quando eu, molecote cheio de vida, recebia de meu pai dois mil réis todos os domingos, meu ganho semanal. Na rua Simplício Mendes, no trecho da rua Lisandro Nogueira à praça Rio Branco, meio do quarteirão, estava o cinema Royal, de segunda classe. Exibia muito filme de caubói, com sessões iniciadas pelas seis e meia da tarde. Salãozão comprido, bancos de madeira sem encosto dos dois lados e a passagem dos freqüentadores pelo meio. Eu gostava das aventuras espetaculares dos artistas que sempre venciam os bandidos covardes. Também havia os seriados. Seis semanas seguidas, cada semana um pedaço da estória, e o jeito que se aguardasse, curioso, a continuação no domingo seguinte.

Dois mil réis de meu pai valiam alguma cousa. A entrada do cinema saia por seis contos réis. Na saída do espetáculo, a gente dava duzentos réis por quatro cigarros marca Regência, comprava cinco bolos fritos por cem réis (um tostão *) o resto dos bagarotes para um sorvete ou um copo de refresco de gelo rapado.

No velho Royal trabalhavam os meus ídolos mais impressionantes, entre os quais Buch Jones, Tom Mix, Tim McCoy. Entusiasmavam-se as aventuras, a pontaria certeira dos caubóis. Só hoje, depois de muita leitura, pude compreender as fantasias que o cinema me mostrava na época da saudosa adolescência. Os feudos. O reino do gado. O mundo selvagem duro com os fracos. Os fortes cuja vida dependia da faca e do revólver. OS SALOONS de violência. Um mundo de libertação explosiva e derivativa do jogo e das bebedeiras desenfreadas como substitutos da mulher.

Lei da pistola sobre o balcão da bebida e sobre a mesa do jogo. Violência do índio contra o branco e vice-versa. Índio bom é índio morto, diziam os homens do oeste brutal. tudo um excesso de vitalidade. Álcool, pôquer, matança profissionais, a lei do Colt, num mundo de apetites sexuais sem que houvesse mulheres. Daí o mito das fêmeas raríssimas.

A tribo dos moicanos deu a Cooper o motivo do romance que eu revi agora, no mesmo filme de cinqüenta anos passados. O mesmo Randolph Scott, herói de minha adolescência risonha e feliz, o Scott altão, esguio, tiro certeiro, defensor dos fracos, punidor dos malvados. Lembrei-me dos tempos nos grosseiros assentos de pau no saudoso cinema Royal de Teresina, casa de segunda ou terceira classe, onde a molecada se divertia, assobiando nos momentos de perigo. Não pude esquecer a moeda valiosa que meu pai me dava e que me proporcionava alegrias sem conta, época bendita em que ninguém ouvia a palavra dólar na tranqüila e pitoresca Teresina.


A. Tito Filho, 04/11/1990, Jornal O Dia


* Palavras apagadas no original

domingo, 23 de outubro de 2011

IMITAÇÃO

No Brasil se vem praticando a brincadeira denominada HALLOWEEN, assim definida pela gente norte-americana: THE EVE OF ALL SAINTS' DAY, FALLING ON OCTOBER 31 AND CELEBRATED BY CHILDREN WHO GO IN COSTUME FROM DOOR TO DOOR BEGGING FOR TREATS OR PLAYING PRANKS. Brincadeira às vezes de mau gosto. Em novembro já se criou entre os brasileiros o Dia de Ação de Graças, instituído pelo presidente Eurico Dutra, cópia do THANKS GIVING DAY, comemorado cá como lá na penúltima quarta-feira de novembro quando o mês tem cinco quartas-feiras ou na última se o mês tem apenas quatro quartas-feiras.

Em 1930, Getúlio Vargas subiu ao poder. Repudiou a influência inglesa no país e se passou para os Estados Unidos, país ambicioso de riqueza, que logo, por através do cinema, realizou mudanças, para pior, nos costumes e hábitos brasileiros. Pouco a pouco dominou o Brasil nos processos culturais. Depressa o povo começou a usar os enlatados. Fecharam-se alfaiatarias e todos aderiram ao uso da roupa feita. Estabeleceu-se a moda do desnudamento feminino. O uisque substituiu nas cidades a boa pinga nacional.

Quando cheguei ao Rio, com o objetivo de estudar o curso superior, topei com uma cidade de prédios baixos. O edifício mais alto, de 20 e 22 andares, era o prédio das empresas nacionais, constituídas do jornal "A Manhã", revista "A Noite Ilustrada" e a rádio Nacional. Na principal avenida, a Rio Branco existiam prédios de cinco e seis andares, no máximo. Na avenida Atlântica, situada à beira-mar , batizada de praia de Copacabana, viam-se casas residenciais de andar térreo ou de dois pavimentos apenas.

A CIVILIZAÇÃO norte-americana transformou Copacabana numa selva de cimento armado. Surgiu a vida em apartamento, com porteiro e elevador. Liquidou-se por toda parte a tranqüilidade dos cariocas.

E o arsenal de remédios dos laboratórios estrangeiros? E o turismo, invenção norte americana para que o povo gaste na visita aos cenários alheios enfeitados, mas ainda assim iguais ou piores do os nossos?

Observe-se que o seqüestro de pessoas por bandidos, que pediam altos resgates dos rancheiros ricos, começou no oeste dos Estados Unidos, nação onde teve início também o gangsterismo urbano, da forma que o cinema estadunidense mostrou nos exemplos de Al Capone e Dillinger. Crimes brutais e violência sexual o cinema da terra de Bush apresenta aos nossos patrícios na constância dos dias e das noites. As casas comerciais de brinquedos vendem presentes representados por revólveres, tanques e quantas crianças aprendam a matar, obedientes às lições de violência de que se encontra rica a história dos Estados Unidos.

A bela língua portuguesa cada dia vai sendo suplantada pela lingua. no Brasil se fala o PORTUGUÊS.

Ao cabo das contas, a terra de Cabral imita o papai grande em tudo, numa americanização vergonhosa.


A. Tito Filho, 13/12/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ALVINA

Todos os conheciam em Teresina. Técnico competente e afamado. Veio da terra do nascimento, Portugal, antes da 1ª Grande Guerra, e fixou-se em Belém. Depois, contratado pelo governo do Piauí, assistiu no interior piauiense, município de Oeiras, para montar máquinas de fabricação de laticínios.

Por muito chão - Pará e Terra de Mafrense - gastou dez anos de vida, a partir de 1912, e escolheu a Chapada do Corisco, a cidade fundada por Saraiva, para, em 1922, nestas de funilaria, até a viagem derradeira, no ano da graça de 1953 - a viagem sem bilhete de volta. Trinta e um anos de xodó e de amigação com a comunidadezinha simples e humilde, a que ele oferecia a constância de gestos de afeto, socorrendo os velhos com dinheiro e refeições.

Chamou-se Pedro Antônio Maria Fernandes, conforme o assento de cartório. Ao chegar ao Brasil, as autoridades viram a palavra Pedro entre parênteses no final do nome todo, então quiseram que ali estivesse o antenome ou pronome.

Não corrigiu o equívoco. E Pedro ficou como designativo de família.

Antônio Fernandes Pedro exercia a indústria e o comércio numa casa do centro de Teresina, esquina com o antigo Banco do Brasil, na rua Eliseu Martins, perto da praça Rio Branco. Era um prédio baixo, atijolado, bem limpo, em que o dono tinha também o reto agasalhador. Num dos lados, o que dava para a rua Barroso, havia a loja de venda dos objetos por ele fabricados - e aí se reuniam os comandantes intelectuais do meio, de amanhã e de tarde - e como Antônio Pedro lhes apreciava a convivência diária, para o cafezinho e boa prosa ilustrativa, alegre e folgozã. Esmaragdo de Freitas, Cromwell Carvalho, Mário Baptista, Higino Cunha, Celso Pinheiro, Martins Napoleão, Pedro Britto, Cristino Castelo Branco, Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, Simplício Mendes, Benjamin Baptista, Álvaro Ferreira, Arimathéa Tito, Artur Passos e muitos ouros - magistrados, médicos, poetas, historiadores, políticos, gente fina, fizesse sol ou deixasse de chover, não dispensavam o bate-papo com o funileiro, do modo que afetivamente era chamado o português de bom caráter e excelente camaradagem, de agudo senso intelectivo, trabalhador, alma feita de fraternidade.

Alvina Fernandes Gameiro teve para quem puxar o gosto pelas cousas do espírito. Filha de Antônio Pedro, como o pai, desde meninota gostava de tudo que proviesse da inteligência.

Alvina publicou agora Curral de Serras, obra-prima da literatura nacional, em primorosa edição de editora carioca.

O ponto alto deste Curral de Serras é a fixação da linguagem desses trechos humanos sem contatos com o processo e com as transformações dos modos de viver dos povos.

A linguagem dos homens se manifesta por processos vários. Há a literária, polida, asseada, rica, regida por preceitos gramaticais, existe a usual, despoliciada, de todas as horas, a linguagem chã, planiciana, de estragos fonéticos, governada pelo menor esforço, aquela que é o veículo de entendimento geral. Adiante linguagem dos gestos - dos dedos, da cabeça, do piscar de olhos. E ainda a gíria, por via da qual o povo ironiza pessoas e episódios, e estabelece relações entre os objetos, a gente e os fatos. E mais: o processo da linguagem emotiva e o do calão. E também uma maneira especial de comunicação, de causas profundas - um modo de ser representado pelo linguajar das pequenas paisagens populacionais, de reduzidas comunidades de povo, de lugarejos e vilas - um processo alatinado, cheio de encanto, de originalidade, de sabor ingênuo, conservado, inconscientemente, durante anos a fio, pelos habitantes desses arraiais, em virtude da segregação e da distância.

Alvina "fotografou" essa linguagem que se mantém no caipira, no matuto - e a grande escritora oferece mais ao leitor: um correto glossário, de natureza explicativa, tão íntegro quando a ciência que a autora tem do material lingüístico estudado.

Raras vezes a vida literária nacional recebe obra de lavor e de encanto, a modo deste Curral de Serras, romance ímpar, obra-prima de criatividade e documento da expressão sincera do caboclo nordestino.


A. Tito Filho, 14/10/1990, Jornal O Dia

sábado, 15 de outubro de 2011

HISTÓRIA DE DOENÇAS

No carnaval de 1959, fui impiedosamente molhado por chuva torrencial em Teresina. Começo de março, sentia calafrios na boquinha da noite e febre e dores me caceteavam. Dores e febre aumentavam dia por dia. Após um mês no Hospital Getúlio Vargas, os médicos me aconselharam o Rio de Janeiro. Viajei cedinho, nos velhos e seguros aviões DC-3, que realizavam chatíssimo pinga-pinga com pousos em Bom Jesus da Lapa, Salvador, Ilhéus, Montes Claros, Belo Horizonte, Vitória, finalmente a velha capital brasileira, aonde se chegava pelas oito da noite. Seguia recomendado a um célebre doutor, dirigente de casa de saúde, a cujas portas bati e tive ciência de falta de vaga. Encaminharam-me a outro hospital, até que alguém, morrido ou estabelecido, desocupasse quarto.

Ingressei, modo provisório, noutra casa de saúde, e nela recebi assistência de um doutor magro, sabido como o diabo. Auscultou-me e interrogou-me e consentiu em que eu padecia de muita fome. E já noite puxada mandou que me servissem presunto e pão.

Uns três dias depois me internei no hospital recomendado pelos médicos do Piauí. Submeti-me a uns trinta exames. Diariamente os médicos seguiam novos rumos. Não agüentavam mais o regime hospitalar. Certo sábado, o famoso Dr. Fernando Paulino me disse, triunfante, que deveria operar-me do baço, retirá-lo do organismo. Recusei-me, pedi a conta, paguei-a e me hospedei em modesto hotel do centro da cidade.

Sentia-me melhorado, mas as dores e a febre me mortificavam. A família, tias e primos, me cercavam de cuidados. Andei por mais uns seis médicos, e ninguém acertava o meu mal. Certo doutor deliberou que um dos meus rins se encontrava fora do lugar. Devia operar-me. Nova recusa. Foi quando procurei o Dr. Luís Carvalho, casado com a bonita Teresinha Alcântara, minha antiga aluna e rainha do centenário de Teresina. Fui examinado no próprio apartamento do boníssimo casal. Luís assentou que eu tinha inflamação da pleura, uma pleurite. Gostaria de examinar-me em radioscopia na manhã seguinte, mas logo me receitou injeção, chamada, se a memória me acode, KANTREX. Tomei-a de noite. Amanheci sem dores. Os exames confirmaram o mal. enganei muitos tipos ruins de Teresina que rezavam por um câncer.

Curado, voltei à capital piauiense, reassumi cargos e encargos. Quatro meses depois, retornei ao Rio, para uma verificação médica no organismo. Tudo funcionava normalmente.

Hospedado no mesmo hotel a quando da doença, o Rex, preferido dos piauienses de classe média, na sala de espera, certo dia, encontrei Josípio Lustosa, triste e desanimado. Estava de operação marcada. Tumor no cérebro. Tinha certeza do desenlace. Já se havia despedido dos familiares em Teresina. Aconselhei-lhe que não se operasse sem ouvir médico amigo e me ofereci para levá-lo ao Dr. Luís Carvalho. Acolheu a sugestão. Acompanhei-o. Luís examinou-o detidamente algum tempo, os dois em sala privativa. Nada grave. Josípio, segundo o médico, padecia de reumatismo.

Estes fatos se passaram em 1959. Josípio da Silva Lustosa faleceu em fevereiro de 1990, mais de sessenta anos depois do acontecido. Nunca fez operação na cabeça. Salvei-o, buscando uma tábua numa derradeira esperança. Mas deu certo.


A. Tito Filho, 05/04/1990, Jornal O Dia

sábado, 8 de outubro de 2011

ASSUNTINHOS

Anfrísio Lobão Veras Filho exerceu com proficiência e coração a medicina em Teresina. Nas eleições municipais de 1924, para o quadriênio 1925-1929, fez parte da chapa de candidato a intendente, João Luís Ferreira. Foi o vice de João Luís. Ambos se elegeram. Aconteceu que o intendente também se elegeu deputado federal e optou por este último mandato. Assim, Anfrísio tornou-se intendente de 2-1-1925 a 2-1-1929. O chefe do Executivo de Teresina tinha sido um dos fundadores do Banco Agrícola, que se transformaria em Banco do Estado do Piauí. Depois, triunfaria como candidato a deputado estadual e por consenso dos seus pares presidiu a Assembléia Legislativa. Governador interino do Piauí. Membro do Tribunal de Contas. Nascido na terra piauiense de União, faleceu em Teresina, 1954. No momento em que o governador Alberto Silva, neste ano da graça de 1990, inaugura o seu propangadeado PRÉ-METRÔ, num dito primeiro trecho, em me lembrei de Anfrísio que, em 1927, adquiriu um bonde motorizado em São Paulo e inaugurou a linha de transporte popular da estação da estrada de ferro ao rio Parnaíba. Pioneirismo. Audácia. Certamente o bonde desapareceu por falta de freguesia. Ninguém se lembrou, na discurseira, do pioneiro Anfrísio.

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No Rio, as dondocas e as balzaquianas andam de dentuças à mostra, passeando com os seus bonitos cães domesticados? Razão? O empresariado carioca está ganhando os tubos com a novidade maravilhosa: os postes especiais para o xixi da cachorrada. Custam uma nota, mas são elegantes, de fino acabamento e têm farolitos de pilha para uso noturno. Denominação dos interessantes objetos, que são conduzidos pelos rabos-de-saia ao lado dos respectivos cachorros: PIPI-DOG. Os empresários de Teresina muito lucrarão importando o PIPI-GAY para instalação na praça de Dom Pedro II.

*   *   *

Estive pensando muito. Embora entenda patavina de economia e seus mistérios encontrei remédio infalível para liquidar a inflação nacional, doidamente disparada contra a bolsa dos bestas do pauperismo. Pois bem. Basta que as autoridades nacionais, estaduais, municipais, estatais, paraestatais, autárquicas e seus respectivos auxiliares, familiares e cupinchas deixem de roubar pelo menos quinze dias no mês. Dia sim, outro não. Dia sim, outro também, não há bumbum de peruano que agüente.


A. Tito Filho, 06/02/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

CAVALOS

O cavalo pertence à história social e política dos povos. Está na mitologia dos gregos e dos romanos. Os césares conquistavam terras e gentes sobre quadrúpedes de grande porte. Um deles, débil mental, nomeou a sua montaria preferida senador ou cônsul do Império. A viagem a cavalo se fazia pelos antigos em longos percursos, no lombo dos bichos, homens e mulheres. No oeste dos Estudos Unidos, nos tempos da violência, só se respeitavam cavalos e rabos-de-saia. A nossa Dora Parentes, em maravilhosos e eróticos quadros de pintura, sempre junta cavalos e filhos-de-eva, num relacionamento sexual de intenções, segundo Freud.

Na Teresina do século XIX, haviam sujeitos que alugavam cavalos para passeios na cidade. Era de ver o soçaite do tempo mostrando habilidades em cima do potro amestrado.

Em 1972 surgiu o primeiro Jóquei Clube, cujo objetivo essencial estava na corrida de cavalos. A entidade assim era dirigida: presidente, Manuel Castelo Branco. Secretário, Heráclito Sousa. Tesoureiro, Pires Gaioso. Hipódromo na Vila Santos. Primeiras disputas no Dia da Pátria. Primeiro páreo, venceu o cavalo Argus, 500 m, prêmio de 150$000 (cento e cinqüenta mil réis). Segundo páreo, cavalo Libertador, 600 m, 200$000 (duzentos mil réis). Terceiro, Fidalgo, 700 m, 300$000 de prêmio. Quarto, Mister Bris, 800 m, prêmio de 600$000 (seiscentos mil réis). Quinto páreo, Danilo, 700 m, prêmio de 500$000. Juízes de partida, Teivelino Guapindaya e Daniel Paz. juízes de arquibancada: Joel Sérvio, Martins Napoleão e Delfino Vaz. Juízes de chegada: João Martins do Rêgo e Raimundo de Arêa Leão. Diretor da casa de pules: Heráclito Sousa. Diretor do bar: Zoroastro Melo, Diretor-Geral das corridas, Manuel Castelo Branco.

Não progrediu esse primeiro prêmio cavalar. Deve ter sucedido alguma coisa que acabasse as corridas dos bons quadrúpedes na cidade de José Antônio Saraiva.

Em 1939, porém, houve quatro vibrantes páreos comemorativos do 7 de Setembro, corridas na zona da estrada de ferro. Proprietários dos corredores: Mariano Gayoso Castelo Branco (Packard), Waldir Gonçalves, que possuía dosi animais, Garapu e Dourado; Jacob Castelo Branco (Hockey), Antonino Barros (Faraó), João Clímaco d'Almeida (Cateretê). Juízes, Mariano Gayoso Castelo Branco, José Olímpio de Melo e João Clímaco d'Almeida.

Parece que os cavalos não davam no couro. Cansavam depressa. Corriam debaixo de cipó.

Depois de 1950, a visão de Octávio Miranda rasgou a mata e fundou o Jóquei Clube, o segundo com este nome. Fez o hipódromo. E inaugurou as corridas de eqüinos nos dias de domingos. Animadas tardes. Mas os pangarés não agüentavam, caíam pelo meio do caminho, na pista. Os bichos não bebiam leite. Pelo menos houve a tentativa, que se teria desenvolvido, pois essa atividade desportiva pode ser muito rendável.

O Jóquei clube de Teresina tem natureza singular. O único no mundo em que não há corridas de cavalos. Vive de cachaçadas, das carnes assadas, das festanças carnavalescas nas quais impera o desnudamento quase generalizado das fêmeas bonitas.

A história do cavalo e das corridas de tal bicho em Teresina corresponde a uma das páginas significativas da vida social da cidade-capital. Outros que a pesquisem e narrem, antes que a memória das cousas seja destruída pelos ventos da ignorância generalizada.


A. Tito Filho, 08/01/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

SÓCIOS DA CATERVA

Fundou-se A CATERVA em 1931. Original sociedade de jovens idealistas, para cultivo dfa literatura, jornalismo e agitação da juventude da época, em Teresina. Eis os seus sócios:

JOSÉ DO PATROCÍNIO DA SILVEIRA CALDAS. Bondoso. Sensível. Um dos fundadores do jornal A VOZ DO NORTE, pertencente ao grupo. Nascido em 1912. Piauiense.

JACOB DE SOUSA MARTINS. De 1903. Maranhense. Metódico. Estudioso de matemática. Bom amigo. Foi professor em educandário teresinense.

CLEMENTE HONORÁRIO PARENTES FORTES. Piauiense, nascido em 1914. Inteligência lúcida. Muito voltado para os livros. Franco e leal. Professor desde jovem. Atingiria a altos postos na vida pública.

RAIMUNDO DE MOURA REGO. Maranhense nascido em 1911. Cultivava a poesia e a música. gostava de compor sonetos. Simples. alcançou grande nomeada literária no futuro.

ANÍZIO DE ABREU CAVALCANTI. Piauiense de 1910. Estudioso da filosofia. Introspectivo. Pena aprumada. Compreensivo. Tornou-se funcionário público e passou a viver no sul do país.

AFONSO BARBOSA FERREIRA. Piauiense. Nasceu em 1912. Circunspecto e sério. Afável. Observador. Apreciava o estudo.

WAGNER DE ABREU CAVALCANTI. Piauiense. Veio ao mundo em 1912. Irrequieto e combativo. Orador, poeta, humorista. nos jornais, escrevia sobre literatura e mundanismo. Emigrou para o Rio, onde se destacou em movimentos estudantis.

FIRMINO FERREIRA PAZ. Nascido em 1912. Piauiense. Rico de idéias. Vibrátil. Fazia bom jornalismo. De grande irradiação espiritual. No futuro seria advogado e jurista de fama, chegando a ser membro do Supremo Tribunal Federal.

ISMAR BENTO GONÇALVES. Piauiense de 1913. Bom companheiro. Apreciava estudos históricos. Conhecia assuntos internacionais. Seria funcionário público conceituado.

GONÇALO LOPES LIMA. Cearense, nascido em 1911. Estudioso da matemática. excelente figura humana.

RAIMUNDO LOPES DE VASCONCELOS. Cearense de 1912. Bom companheiro. Silencioso. Sincero.

Meninote ainda, conheci Jacob, Clemente (fui aluno de ambos), Moura Rego, Wagner, Firmino, Ismar, Raimundo Lopes. Sei que faleceram Jacob, Clemente, Moura Rego, Wagner, Ismar. Estão vivos Firmino, Raimundo Lopes e Anízio. Não conheci este último pessoalmente, mas com ele muito me correspondi por cartas. Desconheço o destino de José do Patrocínio, Afonso Ferreira e Gonçalo Lopes Lima.


A. Tito Filho, 17/01/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 4 de outubro de 2011

LEITURA

Quando ginasiano, em Teresina, nos domingos, eu fazia compras para leitura no M. A. Tote, casa de revistas de atualidades e literárias, entre as quais "Noite Ilustrada", "Carioca" e "Vamos Ler", do Rio. Gostava desta última e colecionei muito tempo as suas edições. Os livros de minha predileção, adquiridos semanalmente, eram os da Coleção Terra-Mar-e-Ar, de aventuras, autores estrangeiros. Eu apreciava Emílio Salgari. Outra agradável série de romances de variado gênero me fugiu da memória. Custava cada exemplar dois mil réis, livro de tamanho pequeno. Na interessante coleção fiz leitura de "A Patrulha da Madrugada", que o cinema aproveitou para excelente filme de aviação; "Nana", de Zola, e obras de autores russos e ingleses. Muito me robusteceram a inteligência os livros de Edgar Rice Burroughs (Tarzan) e Júlio Verne. Li-os quase todos de ambos os autores.

Teresina, na década de 30, possuía uma loja bem sortida, espécie de bazar de mil utilidades, sem que lhe faltassem edições literárias de Portugal e do Brasil. Tratava-se do estabelecimento comercial de Juca Feitosa, na antiga rua Bela. Nele adquiri romances de Alencar, Bernardo Guimarães, Manuel de Macedo, Camilo Castelo Branco, Pinheiro Chagas. Deliciosos para a minha adolescência. Custavam pouco e tinham aspecto pobre, com capas extravagantes.

Enquanto alguns arrotam leituras extraordinárias, ricas de temas psicológicos e de modernidades, como se costuma dizer, contento-me com meu caubói de dormir, para os instantes de conciliação do sono gostoso. Ponho-me no meio de bandidos, assassinos, mexicanos atiradores de faca, pontarias certeiras com os colts fumegantes ou com os sharps de longo alcance, deliciando-me com o mocinho alto, forte, bonito, que não erra o tiro na testa do malfeitor ou derriba cinco capadócios de bofetadas seguras. Deixo a leitura mais cuidadosa para os domingos, meditando nos assuntos, guardando na cabeça as lições que obtenho.

Neste 1990, saboreei de novo "Os Pioneiros", de Fenimore Cooper, com a sabedoria do Juiz Temple, que sentia a inutilidade da lei como garantia de justiça. Juiz sábio, para quem a lei representava arma dos ambiciosos.

Li "Carolina", que comprei faz tempo. Livro admirável de Dreiser, a revelar a solidariedade entre os miseráveis, os que têm fome. O autor mostra que os impulsos básicos do homem se voltam para o dinheiro, para o conforto, para o poder.

"Os Grotesos", de Andersen vale um romance de deformação psíquica das pessoas nas pequenas comunidades, pela perda do amor. E em "O Grande Gatsby", Fitzgerald sustenta que só a riqueza permite ao homem viver a vida que ele concebe. A vida é brutal e intolerável quando lhe falta imaginação.

Como a gente vê, realizei proveitosa leitura nestes domingos dos meses iniciais de 1990. Cito quatro romances, deixando de citar outros livros de viagens, história, crítica, estudos sociais, comunicação, o que ficará para outra vez.


A. Tito Filho, 26/04/1990, Jornal O Dia 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

MESTRE CUNHA - I

A 4 de fevereiro deste ano faleceu o velho mestre Cunha e Silva, Francisco da Cunha e Silva, nascido em Amarante (PI), a 3-8-1904. Pais: Manoel Alexandre e Silva e Cândida da Cunha e Silva. Estudos primários na terra natal. Aluno do Colégio Bento XV (Teresina). Fez estudos preparatórios e filosofia no Colégio Salesiano Santa Rosa, de Niterói (RJ). Em 1923, escolhia a carreira eclesiástica, matriculando-se no Colégio Salesiano São Manuel, de Lavrinhas, Estado de São Paulo, no qual realizou o quinto ano secundário para se aperfeiçoar no estudo de latim. No ano seguinte, concluiu o noviciado. O Colégio São Manuel funcionava também como seminário e, assim, em 1925, concluiu o curso de filosofia. Como não tinha vocação para o sacerdócio, regressou ao Piauí para rever a família, viajando para o Rio de Janeiro em 1926, onde se casou. Voltou ao Piauí em 1927. No ano seguinte, lecionou português, história e geografia no Ginásio Amarantino, fundado por Odilon Nunes, e iniciou colaboração no jornal "O Floriano", da cidade do mesmo nome (PI). Em 1932, em Amarante, criou educandário com o nome de Ateneu Rui Barbosa, que funcionou até 1947, quando passou a residir na capital do Estado. Professor de geografia do Brasil no Colégio Estadual do Piauí, hoje Colégio Zacarias de Góis. Colaborador, redator e depois diretor de "O Piauí". Diretor de "Resistência". Colaborador de "A Gazeta", "O Tempo", "O Dia", "Jornal do Piauí", "A Luta", "O Pirralho". diretor da Casa Anísio Brito (Biblioteca, Arquivo Público e Museu Histórico do Piauí), na administração Pedro Freitas. Professor, por concurso, de história do Brasil da Escola Normal Antonino Freire. Diretor, durante um ano, do Colégio estadual do Piauí, hoje Zacarias de Góis, na administração Chagas Rodrigues. Orador, teve participação em memoráveis campanhas políticas. Durante quatorze anos, professor no Ginásio (hoje Colégio) Desembargador Antônio Costa, lecionando português, francês e geografia geral. Há doze anos colabora no "Estado do Piauí". Pertenceu ao antigo Cenáculo Piauiense de Letras. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Colaborou, ainda moço, na imprensa de são Luís, Maranhão ("O Imparcial") e do Rio de Janeiro ("Diário de Notícias"). Publicou "O Papel de Floriano Peixoto na obra da proclamação e consolidação da República" (tese).


A. Tito Filho, 098/02/1990, Jornal O Dia