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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

MÚSICA

Era dezembro de 1974. Estava governada interinamente a Secretaria da Cultura. Sempre amigo, Armando Bastos, prestigioso auxiliar de Alberto Silva, no primeiro governo do paraibano, sugeriu que eu fosse nomeado para a pasta. Convidado, a principio recusei-a, 15 de março de 1975, tocando-me apenas dois meses e meio, mais ou menos, como titular. Mas Armando me impunha o sacrifício. Pretendia que eu editasse livros e fizesse a festa de reinauguração do Teatro 4 de Setembro. E assim se fez. Obras foram publicadas, e a velha casa de espetáculos, de fatiota nova, recebeu a visita da Orquestra Sinfônica Nacional e do Balé do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Armando Bastos gostava de conferir-me tarefas suarentas. Exigiu de minhas forças a história do Teatro 4 de Setembro. Realizei pesquisas de noite e de madrugada, na Casa Anísio Brito, uns dez dias. Levantei dados e encontrei documentos e registros esclarecedores. Anotei as bonitas representações no querido centro festivo da capital piauiense. Rememorei maestros e maestrinas, compositores, vocações musicais, artistas de instrumentos maravilhosos, as retretas das bandas militares, o mundo encantado de Teresina de antigamente. A mim me parece que pratiquei a primeira história dos instantes da arte musical na capital do Piauí.

Depois, o excelente trabalho de Raimundo rosa de Sá, o popular Cazé, lembraria as peças musicais e os compositores de fama, não esquecendo a inclusão dos temas folclóricos na inspiração dos musicistas.

Meu velho e bom amigo Moura Rego escreveu e a Academia Piauiense de Letras editou Notas fora da pauta, deliciosa história da música em Teresina e da participação dos grandes artistas, inclusive o autor, cujo violino mágico encantava os auditórios.

X

Conheci em Teresina um homem decente, Nereu Bastos, educado, conduta reta, trabalhador, leal, admirado por tantos amigos que soube conquistar. Por força da profissão de funcionário federal, mudou-se para Belo Horizonte, a tranqüila capital mineira dos anos 50, em que ele, para congregar fraternalmente os conterrâneos, fundou o Centro Piauiense, um pedaço afetivo do Piauí nas Alterosas.

Acompanhou-o filho Cláudio Bastos, que, à custa de estudos sérios, conquistou o doutoramento em Sociologia e Administração de Empresas e dedicou-se a pesquisas pacientes e honestas sobre assuntos piauienses, tornando-se estudioso de nosso passado. Tem presentemente duas obras em andamento, de temas novos, um sobre o desenvolvimento da propriedade rural no Piauí e outro sobre a antiga guarda nacional em nossa terra.

Cláudio Bastos veio em julho a Teresina por convite da Academia Piauiense de Letras, com a finalidade de entregar aos estudiosos da terra o seu livro Manifestações musicais no Piauí - Contribuição à história da música, trabalho mais desenvolvido do que os citados e que os completa de certo modo, revelando aspectos expressivos de inspirados compositores interioranos, bem assim das bandas de música que tanta alegria provocavam nos festejos religiosos e sociais. Na obra admiram-se maestros competentes e revela-se o gosto das elites pelas composições clássicas e instrumentos de sopro e de corda dominados por artistas das elites teresinenses.


A. Tito Filho, 28/08/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

PLEITOS

Pertenço a uma geração sacrificada pela truculência das ditaduras desapiedadas, pois não conheço uma só que respeitasse a pessoa humana. Mas muitos governos ditos constitucionais me decepcionaram.

Em 1930 eu era um molecote na primeira ditadura de Getúlio Vargas. O país voltou à normalidade em 1934 e pouco tempo depois novo e cruel processo ditatorial, que prendeu, expatriou, matou, recusou direitos, perseguiu brasileiros. Nunca se puniram os criminosos. Pelo contrário. Cada dia mais eram afeiçoados da alma popular. Derribou-se Getúlio em 1945. Houve eleições em dezembro e nelas votei, para presidente, senador e deputado federal no Rio de Janeiro. Um dos meus votos ajudou a eleger o senador líder comunista Luís Carlos Prestes.

Pretendo nestas linhas mal traçadas anotar as eleições estaduais. Vindo do Rio, cheguei a Teresina a 19 de janeiro de 1947, dia de eleição. Os piauienses elegeram Rocha Furtado e derrotaram o General Gayoso e Almendra. Não votei, pois era eleitor no Rio e só depois fiz transferência do título respectivo para Teresina.

Havia três partidos no Piauí: UDN, PSD e PTB. Formou-se um quarto, o PSP. Nas eleições de 1950, elegeu-se Pedro Freitas, pessedista, derrotando Eurípedes Aguiar, udenista, e Agenor Almeida, pessepistas. O PTB, muito fraco na época, não teve candidato. Participei da campanha ao lado do que foi escolhido.

Nesse tempo, Matias Olímpio abandonou a UDN e engordou o PTB, que, aliado a Pedro Freitas, possibilitou a eleição de Gayoso e Almendra para o governo em que votei.

Politicamente desastrado, Gayoso não soube sustentar a união com os companheiros petebistas e estes bandearam para a UDN, numa poderosa união de forças que consagrou Chagas Rodrigues como ocupante de Karnak, um jovem e impetuoso líder de idéias nobres e novas, que praticou erro fundamental de subestimar o magnetismo pessoal de Petrônio Portella, prefeito de Teresina patrocinado pelo talento político de José Cândido Ferraz. Nas eleições de 1962, o candidato Constantino Pereira foi batido fortemente pelo futuro ministro da Justiça, numa aliança imbatível do PSD com a UDN. Neste ponto se encerrou meu o meu comparecimento às urnas. Criaram-se os biônicos, governadores eleitos por assembléias com organizações partidárias comandadas por generais de estrelas muitas: Helvídio Nunes, Alberto Silva, Dirceu Arcoverde, Lucídio Portella. Nos pleitos diretos se convocaram para os governos estaduais, dos quais safrando vitoriosos Hugo Napoleão e Alberto Silva, este ultimo ainda no exercício do mandato.

Amanhã, 4ª feira, mais um embate eleitoral com quatro candidaturas, duas das quais apoiadas por fortes contingentes eleitorais - os de Freitas Neto e Wall Ferraz, depois de programas e mais programas ditos gratuitos pelos meios de comunicação, com ofensas recíprocas, críticas por vezes tendenciosas, calúnias, processos condenáveis que só a educação espiritual e a desambição de muitos podem suplantar.

Não se deve esquecer a injustiça praticada contra governadores já mortos, homens que não mais podem exercer o direito de defesa. O fato maltratou demais os familiares de homens respeitáveis que não praticaram maldade alguma contra o Piauí e seu povo humilde.

Mais uma vez sou chamado a votar. E cumprirei o dever e exercerei o direito, de consciência tranqüila.

 
A. Tito Filho, 02/10/1990, Jornal O Dia

PUXAÇÃO

Candidato ao governo do Rio de Janeiro em 1982, Leonel Brizola teve em Sebastião Nery extremado defensor das virtudes políticas e administrativas do gaúcho, vitorioso na eleição e governador dos fluminenses por quatro anos. Poucos meses depois de empossado, o elogiador do ex-ídolo, em quem as qualidades positivas haviam desaparecido como num toque de varinha mágica.

Passaram-se os anos. Sebastião Nery, em 1989, foi o mais eloqüente propagandista de Fernando Collor à presidência da República.

Gosto de Joel Silveira, das suas notas de cinco linhas, com as quais fulmina o ridículo e o grotesco dos donos desta República de anões, ou liliputianos, na criação literária de Swift. Pois Joel, um domingo destes, registrou a notícia: Sebastião Nery, num escrito recente, admitiu que o Brasil, na sua história, tem três grandes mulheres: Anita Garibaldi, Ana Nery e Zélia Cardoso de Melo.

E Joel, o sutil Joel, anota que Collor deu a Sebastião um bom empreguinho, de dez mil dólares mensais, em Roma, como adido cultural da embaixada do Brasil.

Lembrei-me de delicioso livro que li no Rio de Janeiro, do mestre incontestável em revelar a ridicularia dos outros, o admirável Nestor de Holanda, autor de O Puxa-saquismo ao Alcance de Todos.

Existem vários tipos de puxa-sacos. Os periódicos, que atuam em homenagem aos chefes, quando se oferecem para fazer as compras da mulher do referido, quando se acabam os cigarros do superior hierárquico. Como se vê, puxem o saco em determinadas oportunidades.

Os puxa-sacos fanáticos funcionam por toda parte. Puxam por vício. Chegam a estados mórbidos.

O puxa ex-officio bajula por obrigação. Muitas profissões exigem bajulador oficial, como os relações públicas, áulicos dos mais competentes. Outros representantes são os capangas, as secretárias, as enfermeiras, as cafetinas, os porteiros, vendedores de livros, os mordomos, os colunistas sociais, e estes dão mas duas ou quatro puxadas por linha tipográfica. Quando escolhem os mais e as mais elegantes a puxação dá excelentes lucros.

Conta ainda Nestor de Holanda que o governador João Pinheiro, de minas, ao assumir o cargo, foi avisado por Lauro Muller sobre os puxadores de saco, sempre perigosos. Tempos depois Lauro perguntou ao governante sobre os bajuladores. E João Pinheiro segredou-lhe: "É uma gente intolerável, mas, seu Lauro, é bom como diabo uma puxada".

No Livro Getúlio me Disse, Armando Pacheco conta que Getúlio achava que os bajuladores não o deixavam em paz. Certa vez o poeta Olegário Mariano procurou convencer o presidente a candidatar-se à Academia Brasileira de Letras. O saudoso Vargas achou impossível a proposta, embora o puxador procurasse convencê-lo de haver escrito livros admiráveis. A eleição seria uma honra para a Academia.

Getúlio explicou que na época não havia uma só vaga. E Olegário insistiu: "O senhor entra no meu lugar, presidente. Eu me suicidarei e Vossa Excelência se candidatará à minha vaga..."

Tipo do puxa-saco fanático. Mas foi nomeado embaixador do Brasil em Portugal. A puxada foi segura. Puxação de mestre consumado no assunto.

Para Sebastião Nery o Brasil, ontem e hoje, possui três mulheres: Anita Garibaldi, Ana Nery e Zélia Cardoso de Melo. Puxa-saquismo ex-officio. Acabará abocanhando embaixada do Brasil em Paris. Ganhando em dólares.


A. Tito Filho, 23/08/1990, Jornal O Dia

PROPAGANDA ELEITORAL

Nos tempos antigos as campanhas eleitoras se faziam em praça pública, nos coretos das pracinhas de lazer ou nos palanques armados para o falatório dos candidatos. Oradores e mais oradores desfilavam, e os mais importantes discursavam no final desses entusiásticos ajuntamentos. A linguagem se mostrava dura, severa, por vezes humorística, e aqui e ali se exploravam os ridículos e os erros e espertezas dos adversários. Assim no Rio Grande do Sul, em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Ceará, no Piauí. Nas capitais como nas cidades interioranas. Havia a crítica forte, a censura veemente, as denúncias sobre fatos condenáveis. Os homens, porém, eram outros. Tinham honestidade e repudiavam infâmias, injúrias, calúnias e difamações. Atacava-se rijamente o adversário, mas com base na verdade, nunca em invencionices e falsidades. Conhecidos oradores recebiam aplausos demorados das multidões, assim como Maurício de Lacerda, pai de Carlos Lacerda - um Maurício corajoso, mas respeitador da honra alheia, porque consciente de que a sua honradez igualmente merecia respeito.

Com o correr dos anos, surgiu a televisão, instrumento comunicador que penetra sobretudo no ambiente familiar. Concedeu-se por via de lei, horário gratuito nesses aparelhos, com a finalidade de que candidatos pobres e ricos pudessem levar idéias e projetos aos grandes auditórios das coletividades. Apareciam então tipos gaiatos, sem mensagens e sem credibilidade, para o fim exclusivo de projeção doentia. E quanto mais os horários gratuitos serviam o egoísmo de muitos, concluiu-se também que a arma, de tão poderosa, poderia eleger xingadores e derrotar candidatos por força da divulgação, a nível total, de fatos que jamais deveriam ser objeto de campanha eleitoral.

Ainda o ano passado, na peleja presidencial, levou-se a televisão uma mulher, frustrada a não mais poder, para contar ao público que foi amante de um dos candidatos presidenciais. Aquele que foi isento de culpa, atire a primeira pedra - assentou o Cristo justo quando absolvia a adultera. Qual o homem que, na mocidade, não teve as suas peripécias sexuais com mulheres que se entregavam com facilidade? O fato positivou que o Tribunal Eleitoral nem sempre exerce o policiamento dos programas, como era de seu dever, da forma que fez em São Paulo, ao tempo do candidato a governar Marronzinho. Tem a Justiça a obrigação de acompanhar a programação e suspendê-la no instante das agressões pessoais, e das acusações mentirosas.

Na atual campanha para os governos estaduais, aguçam-se os destemperos da ambição pela conquista do poder. Certos candidatos não se conduzem com o devido respeito à dignidade dos adversários. As descomposturas pertencem à falta de argumentos. Avilta-se a honra. Insulta-se a personalidade. Humilha-se. Nem a vida privada das pessoas fica imune a essa debocharia escancarada.

A televisão, sobretudo a televisão, exibe, de manhã e de noite, tipos gaiatos, candidatos machões que ameaçam contar estórias escabrosas, e vários outros, sem idéias e sem ideais.

Interessante também por estes brasis enormes as pazes de velhos adversários e as inimizades de antigos correligionários, episódio vulgar na política partidária brasileira. Políticos ontem escarravam uns nos outros e hoje se beijam, como nos versos em que o poeta diz que o beijo amigo é véspera do escarro. Por que o fato se repete em todos os cenários nacionais, no Rio, em Salvador, em Campinas, em Sobral, no Recife, em Teresina, em Oeiras? Terríveis adversários ontem, amigos do peito hoje? Porque as agremiações partidárias são falsas, os candidatos não defendem idéias nem plataformas, mas exclusivamente ambições de alcançar o poder.

Débeis mentais, tipos arrogantes, machões, indivíduos apalhaçados ocupam os horários das tevês e arrotam descomposturas. São candidatos a cargos eletivos. Certos partidos contratam por milhões profissionais inteligentes que xingam em nome dos candidatos. No Brasil todo, sob a proteção da Justiça Eleitoral, que merece respeito e credibilidade, se praticam esses programas condenáveis.


A. Tito Filho, 18/09/1990, Jornal O Dia

sábado, 14 de janeiro de 2012

MILAGRE

Frei Serafim de Catânia chegou ao Recife em 11 de setembro de 1841. Percorreu todo o Nordeste, em trabalho de catequese. Valoroso missionário. Em 1858, benzeu a primeira pedra da futura matriz do Ceará-Mirim. Tinha fama de obrador de milagres, de quem Luís Câmara Cascudo contou o seguinte, num livro muito saboroso ("Coisas que o povo diz"):

"Um home de bem, pobre, com família numerosa, estava sendo perseguido por um credor impaciente de receber os 100$000, e não sabia que fazer para enfrentar a vida dificil. Foi procurar Frei Serafim de Catânia no consistório da igreja de Santo Antônio, expondo com lágrimas sua desventurada situação. O frade ouviu-o, animou-o, e erguendo-se olhou ao derredor, viu apenas uma lagartixa que balançava a cabeça numa janela. O capuchinho fez o sinal-da-cruz e o animal imobilizou-se como feito de bronze. Frei Serafim embrulhou-o num pedaço de papel e entregou-se ao necessitado penitente recomendando:

- Peço dinheiro emprestado sob este penhor e livre-se da miséria. Daqui a um ano volte, trazendo o objeto, e coloque no altar, nos pés de Santo Antônio. Promete?

- Juro pela salvação da minha alma! - respondeu o pobre homem.

Correu ao agiota, pedindo a fortuna de 500$000, deixando um depósito. O onzenário abriu o embrulho e encontrou uma lagartixa de ouro, com a boca de rubis e os dois olhos de brilhantes. Valia o triplo. Pensou, provou, experimentou e deu os 500$000 ao suplicante. Este, com menos de um ano, estava livre de preocupações. Possuía casa própria, gado, uma loja, a família tranqüila e feliz, cavalo de sela para o trato dos negócios. Foi ao usuário liquidar o débito. Este propôs comprar a lagartixa de ouro.

- Não é minha! - explicou o abastado negociante.

Recebendo o penhor, foi à igreja de Santo Antônio e feita a vênia, depôs o pacote aos pés do orago. Imediatamente o papel mexeu-se e dele saiu, esfomeada e rápida, uma lagartixa, viva e veloz, em desabalada carreira. O homem percebeu o milagre de Frei Serafim de Catânia, e, ajoelhado, rezou longamente agradecendo a mercê”.


A. Tito Filho, 21/04/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

BILHETES

Os dois programas gratuitos de maior duração na TV, os de Wall Ferraz e Freitas Neto, exibiram bilhetes: um de Freitas Neto dirigido a certo secretário de Estado, outro de Wall Ferraz enviado a outra distinta autoridade. Em ambos havia pedidos dos dois ilustres candidatos, em determinada época da vida pública de cada qual.

Cartões, cartas, telegramas, bilhetes são tipos de correspondência de natureza íntima e se torna desconveniente que sejam exibidos ou publicados sem autorização de quem os assina. A própria Constituição Federal assenta que a correspondência tem carater inviolável. Por haver consentido na publicação de carta íntima surrupiada de escritório alheio, João Pessoa, o famoso político paraibano, foi assassinado numa confeitaria do Recife. De mim, só publico carta ou outro tipo de conversação escrita que me enviam quando sou autorizado a dar publicidade ao documento. As platéias ignorantes e deseducadas têm riso frouxo e anormal para esse tipo de propaganda eleitoral.

Jânio Quadros governou sete meses a República por intermédio de bilhetinhos a seus ministros, em forma de recados, que ele mesmo, o autor, mandava exibir nos jornais.

O Piauí possuiu um político matreiro, danado de esperto, na República Velha, chamando Firmino Pires Ferreira, ex-combatente na guerra do Paraguai e marechal do Exército. Teve grande atuação política e se elegia sempre senador. Miserável, não dava tostão a ninguém. Rico. Um tanto desaforado. Tinha o apelido de Vaca Braba: senador Vaca Braba. Os piauienses pobres no Rio o procuravam para obtenção de empregos públicos, pois o homem tinha prestígio de sobra, inclusive junto aos presidentes da República. Contam que ele fez pacto com as autoridades: quando no bilhete não fosse cortada a letra tê (t) o pedido deveria ser recusado. Conterrâneo nosso obteve uma dessas correspondências de recomendação. Curioso, leu-a, e observou que os três estavam sem o traço de corte. Raciocinou que se tratava de esquecimento do Vaco Braba. Puxou da caneta e cortou tais consoantes. Conquistou o emprego ambicionado.

Houve vaga no supremo Tribunal Federal. O excelso Rui Barbosa dirigiu o bilhete ao presidente Wenceslau Brás, a quem pediu o lugar para um desembargador amigo. Wenceslau não atendeu ao pedido. Em resposta a Rui, contou que o recomendado gostava de jogar e Rui possuía página imortal sobre as desgraças do jogo. O fato se vê na Correspondência, obra póstuma de Rui Barbosa.

Fui secretário da Educação do governo João Clímaco d'Almeida, o notável Joqueira, que me recomendou: "Quando eu assinar os meus bilhetes como João Clímaco de Almeida, não atenda cousa alguma. Só atenda se eu assinar Joqueira". E eu prestava obediência à recomendação, cegamente.

Que mal existe em que se façam bilhetes e neles se peçam favores? Já mandei uns dois mil a amigos e autoridades. Tenho empregado muita gente pobre com os meus bilhetinhos. Freitas Neto e Wall Ferraz na certa receberam meus pedidos. Se foi possível atenderam-me. Caso contrário, fiquei sem o favor.

Que mal existe em que se enviem bilhetes? Feio e degradante está na prática de indignidades e penso que os dois candidatos citados não conspurcaram a cousa pública e bem que poderiam, antes de tudo, dar aulas de educação ao povo, que tanto precisa dos bilhetes de quem tem prestígio para obter meios de vida e corrigir injustiças.


A. Tito Filho, 11/09/1990, Jornal O Dia

domingo, 8 de janeiro de 2012

MEMÓRIA

A memória das cidades se encontra nos documentos, entre os quais se incluem os livros, no documento oral de pessoas e nos monumentos, prédios e esculturas, sobretudo.

Teresina tem sido vítima da destruição ou modificação dos edifícios que bem a caracterizam no passado. Até as pracinhas de tanto lirismo se transformaram em locais de ajuntamento de marginais, como a Pedro II. a cidade sempre foi pobre nas homenagens a vultos que fizeram a sua história.

O primeiro monumento de Teresina constitui homenagem a José Antônio Saraiva, o fundador, uma coluna de mármore com inscrições latinas em que os piauienses manifestaram gratidão ao notável baiano. Confecção no Rio de Janeiro. Nos anos 20 fez-se o busto de Dom Pedro II, colocado na praça Rio Branco, mudado para a João Luís Ferreira e hoje situado no logradouro que tem o nome do primeiro monarca. Outros bustos se ergueram, como o de Coelho Rodrigues, o de Getúlio Vargas, do governador e interventor Leônidas Melo. A estátua de José Antônio Saraiva, na praça de nome idêntico, pertence ao primeiro centenário de Teresina, na administração João Mendes Olímpico de Melo.

Outras figuras ilustres homenageadas, como Henrique Couto, Teresa Cristina, a imperatriz do segundo reinado; o governador Antonino Freire, o presidente Floriano Vieira Peixoto, o baiano Zacarias de Góis e Vasconcelos, fundador do Liceu Provincial, em Oeiras, hoje com a denominação do criador; Cromwell de Carvalho, o segundo diretor da extinta Faculdade de Direito e que a dirigiu por anos a fio; o admirável poeta popular Domingos Fonseca; o imenso Dom Quixote, criatura de Cervantes, em magnífica escultura que Clidenor Freitas Santos colocou na frente do Sanatório Meduna; Santos Dumont, cujo nome se liga à história da aviação. O prefeito Wall Ferraz mandou fazer monumentos a Teotônio Vilela, senador alagoano; Dom Avelar Brandão Vilela, arcebispo de Teresina quase quinze anos; e a Frei Serafim de Catânia, o corajoso e piedoso construtor da igreja de São Benedito. Outro prefeito, Antônio Freitas Neto, não esqueceu os humildes e aprovou e inaugurou monumento de homenagem ao motorista Gregório, no local do martírio a que esse pobre cidadão foi submetido, numa triste manhã de 17 de outubro de 1927.

Ao tempo da segunda administração Wall Ferraz sugeri ao seu chefe de gabinete, advogado Renato Bacelar, que se fizessem esculturas de uns vinte bustos de poetas e prosadores de Teresina e colocá-los na praça Marechal Deodoro, recanto de cenários bonitos e líricos para abrigo dos criadores de arte literária. A mão-de-obra se confiaria a Murilo Couto, escultor piauiense de nobreza. Talvez os recursos financeiros da Prefeitura não tivesse sido suficientes para a expressiva recordação de nossos escritores notáveis.

Neste setembro de 1990, o prefeito Heráclito Fortes recebe o meu abraço e admiração e respeito pela homenagem que prestou à memória de Petrônio Portella, colocando-lhe a estátua num dos pontos centrais de Teresina. Falecido a 6 de janeiro de 1980, já tardava a manifestação de apreço a um político piauiense às portas de alcançar a presidência da República. O Piauí pratica pouco os deveres cívicos. A coletividade piauiense se deslembra facilmente dos seus homens públicos decentes. Expulsa-os cedo da memória geral. Pouco os que não esquecem a grandeza política dos que souberam dignificar a personalidade, por conta de gestos humanos e atitudes nobres.

Heráclito Fortes praticou atitude reta. Não foi político com Petrônio Portella mas a este prestou homenagem que outros já deveriam ter-lhe prestado, justamente aqueles que houveram benefícios e proteção de grande líder.


A. Tito Filho, 19/09/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

INSULTO

Era sábado, dia 15 deste setembro corrente. Dia de sessão na Academia Piauiense de Letras. Meu estimado colega João Gabriel Baptista, mestre universitário e figura do mais alto conceito na ciência geográfica, mostrou-me pequenino recorte do jornal teresinense "Diário do Povo", de 9-9-1990, com estes dizeres: O POETA H. DOBAL NÃO PODE ENTRAR NA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS. SERIA UMA INJUSTIÇA MUITO GRANDE COLOCAR UM POETA TÃO BRILHANTE NUM LUGAR CHEIO DE POLÍTICOS MEDÍOCRES E DESEMBARGADORES.

Perguntei a Gabriel como se denominava o autor do insulto. Disse-me que não memorizou o nome do sábio, parecendo-lhe que se tratava de um colunista.

Faz poucos dias o jornalista Kenard Kruel tratou do assunto H. Dobal em página do "Jornal da Manhã". Mandei-lhe corretíssima explicação: o talentoso poeta piauiense nunca se candidatou à Academia Piauiense de Letras, e no referido órgão de imprensa se publicou uma carta de H. Dobal em que este escreveu que não cogitou o ingresso porque se considerava doente, sem as energias necessárias para participar do trabalho acadêmico.

Desconheço o autor da nota rica de baixeza. Atesta o magnífico Clidenor Freitas Santos que os homens se dividem em dois tipo: os psicopatas e os psiquiatras. Os primeiros são entidades de cérebros doentios, merecedores de compaixão. Os segundos constituem os que procuram curar a debilidade mental dos primeiros e se alegram e se tornam felizes com a boa convivência humana.

Jornalista que se preza não insulta, não ofende, não humilha. Antes procura as boas qualidades dos semelhantes e das instituições para incentivar uns aos outros. Anti jornalista é o injusto, o invejoso, que nada oferece à vida social senão insolência e ignorância.

Dedicou-se o ano de 1990 a erradicação do analfabetismo, numa campanha de alfabetização. Certos escrevedores de jornal entendem que a luta se deve fazer para analfabetizar os brasileiros, e acentuam nos seus escritos os exemplos de ensinança de como menosprezam numa instituição ilustre, a mais antiga do Piauí e que guarda na sua história altas expressões de nossa vida cultural.

Meu pai me ensinou que a gente conhece os homens pela coragem nos gestos de cada um. Quem não assume e comprova a denúncia de peito aberto não pode exercer o jornalismo. Que se disse no insulto frouxo e debochativo? Simplesmente que a Academia Piauiense de Letras corresponde a um lugar CHEIO DE POLÍTICOS MEDÍOCRES E DESEMBARGADORES. Não teve a dignidade necessária para arrolar nomes. A Academia possui apenas, no momento que passa, dois desembargadores nos seus quadros, Paulo Freitas e Manfredi Mendes Cerqueira, comparados pelo jornalista a tipos que enodoariam a presença de H. Dobal na Casa de Lucídio Freitas. Os demais acadêmicos que manchariam a presença do grande poeta são os seguintes: Hardi Filho, Celso Barros, Clidenor Freitas, Lili Castelo Branco, Alberto Silva, Gerardo Vasconcelos, Herculano Moraes, Humberto Guimarães, Gabriel Baptista, monsenhor Chaves, Camilo Filho, J. Miguel de Matos, Tito Filho, José Eduardo, Josias Carneiro, Romão de Silva, Nerina Castelo Branco, O. G. Rego de Carvalho, Palha Dias, Wilson Brandão, monsenhor Sampaio, Dagoberto Jr., Aluízio Napoleão, Carlos Castelo Branco, Alvina Gameiro, Cláudio Pacheco, Hugo Napoleão, João Emílio Falcão, Paulo Nunes, Raimundo Santana, Bugyja Britto, Deolindo couto, Reis Veloso, Renato Castelo Branco e Salomão Chaib.

Os indivíduos invejosos, injustos, xingadores, gostam de denegrir a personalidade dos semelhantes. São egoístas doentes. H. Dobal nunca se candidatou à Academia Piauiense de Letras. Logo, não pretende honrá-la, pois todos os acadêmicos lhe sufragariam o nome com irrecusável prazer. Ninguém pode votar num candidato inexistente.

H. Dobal deveria estar numa das poltronas da Academia Brasileira de Letras, tamanha a majestade lírica e objetiva dos seus poemas inimitáveis, sobretudo os que se sustentam da força telúrica e das personagens da vida social e histórica do Piauí.

Cabe ao jornalista insultador relacionar os nomes dos políticos medíocres e de desembargadores que desmerecem o título acadêmico. Caso contrário, a sentença continua atual: PUERIS, SACER EST LOCUS, EXTRA MIGITE.


A. Tito Filho, 20/09/1990, Jornal O Dia

COUSAS DA POLÍTICA

Antiga a briga de boca e papel dos políticos brasileiros. Getúlio quando se via muito criticado, convidava o crítico para polpudo cargo e logo os elogios surgiam.

Conhecidíssimo o episodio que envolveu o notável João Brígido, jornalista que encheu a vida cearense de artigos brilhantes e lições sobre cousas e homens, e o presidente Acióli, governador do Ceará, um dos reis do nepotismo nacional.

João Brígido pretendia emprego rendoso para um parente, segundo contam as crônicas. Procurou Acióli e teve a promessa da prebenda. Passaram-se os dias e a nomeação não se verificava, até que o jornalista foi ao palácio governamental e fez reclamação. O negócio prosseguia enrolado. João Brígido procurou desatou o nó, reclamou já com palavras de esbodegação, e retirou-se dos confortos palacianos rompido com o chefe. No jornal, sentou-se à mesa e escreveu um artigo dos mais violentos contra o governante. Ao atingir as últimas linhas do artigalhão, chegou emissário do governador com o decreto da nomeação pleiteada. João Brígido não quis perder tempo na escritura de novo artigo para a edição de seu órgão de imprensa. Encontrou a solução, escrevendo, no final das descomposturas: "O que eu disse linhas acima, nada mais é do que a reprodução das perversidades que os inimigos atiram à face do governador Acióli, cidadão dos mais ilustres da terra cearense, político sem defeito".

Assim no Piauí. Os políticos escarram uns nos outros e depois se beijam, como nos versos em que o poeta diz que o beijo amigo é véspera do escarro. Terríveis adversários foram Eurípedes de Aguiar e Matias Olímpio. Tempos depois o segundo apoiou o primeiro para o Governo do Estado. Em 1946, num comício da praça Rio Branco, de Teresina, Matias Olímpio acusou Leônidas Melo de ladrão da cousa pública e exibiu certidões obtidas em governo amigo, o de Leôncio Ferraz, de cuecas de Leônidas pagas pelos cofres públicos. Dez anos passados, ambos foram candidatos ao Senado, num acordo dos dois referidos chefes partidários. O saudoso e admirável Petrônio Portella, nos coretos das concentrações eleitorais, referia-se a Felino Muller como assassino. Uns temos decorridos os dois se tornaram amigos e conselheiros. Os antigos seguidores do Partido Social Democrático (PSD) e da União Democrática Nacional se arrasavam por toda parte. Em terreiro de pessedista não dançava udenista. Veio a famosa revolução entre aspas de 1964 e enfiou os dois famosos adversários num saco só, como se fossem a mesma farinha.

Após a ditadura de Getúlio Vargas, o país voltou à normalidade constitucional em 1946. De lá para cá, vários políticos governaram o Piauí, começando-se por Rocha Furtado. Em seguida Pedro Freitas que deixou a UDN e desta passou a receber hostilidade e xingamento. E assim por diante. As brigas e rompimentos continuam. Desavenças hoje, pazes amanhã.


A. Tito Filho, 19/04/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

ROMÃO

Júlio Romão da Silva, fisicamente baixote, feio como diabo, toma posse numa das cadeiras da Academia Piauiense de Letras, próxima segunda-feira, 21 deste corrente mês de maio. Mereceu o ingresso na entidade imaginada e criada por Lucídio Freitas. Na amorável Teresina chorou a primeira vez, ao nascer, mais de setenta anos passados. Marceneiro de profissão, fazia apenas mesas e cadeiras, que vendia por alguns cobres com que pagava os amores de cunhãs safadas da beira do Parnaíba. Buscou outras terras. Ei-lo no Rio de Janeiro, onde o conheci na década de quarenta, feito funcionário público e já metido a escreve de estórias no jornalismo carioca. Aprendeu um bando de cousas no decorrer da juventude e da maturidade. Gostava da cana pau-pereira, e dela derramava na garganta boas lapiguachadas. Dançava samba na Lapa, o bairro central de mulatas boas e de malandros gigolôs. Compôs músicas carnavalescas, a exemplo de velhas cantigas como CARREGARAM O MEU PERU, CHAPA BRANCA e CARNAVAL NO BONDE. Gostava do cabaré Porto Rico, de mulheres caras, mas de carnes rijas. Freqüentou muito a Taberna da Glória, para os chopes e sanduiches da madrugada, convivendo com Orlando Silva, Blecaute, e jogadores famosos de futebol. Fez programa de rádio, com lorotas do Piauí. Jogou capoeira e tornou-se bailarino de gafieira. Iniciou vida literária. Participava de rodas de altas figuras como Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Lacerda, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Antônio Calado, Joel Silveira, Graciliano Ramos, Oscar Niemeyer. Escrevia em duas revistas célebres na época, "Vamos Ler" e "Dom Casmurro". Ganhou campeonato de bilhar e a amizade de José Lins do Rego. Ouviu lições do famoso Rondon, que o levou a tribos indígenas, para estudos. Aprendeu a Língua dos selvagens e andou pintando o sete na mata com princesas da selva. Fumou com os caciques o cachimbo da paz. Realizou cursos em universidades. Andou pelos Estados Unidos, na Califórnia, em companhia de Patrício Franco. Dedicou-se a escrever livros sobre assuntos de natureza vária. Memória histórica de Teresina. Os nomes tupis na toponímia carioca, obra que o governo da antiga Guanabara premiou. Luís Gama, o negro notável, teve nele o melhor critico literário. Promoveu campanhas cívicas em favor da abolição do preconceito e do racismo. Dedicou-se à arte teatral, influenciado de temas bíblicos, merecendo louvor da Academia Brasileira de Letras para a conquista do Prêmio Cláudio de Sousa, com a peça JOSÉ, O VIDENTE. Outra peça teatral de Romão tem o nome de A MENSAGEM DO SALMO, levada a cena mais de um ano nas casas de espetáculo do Rio de Janeiro. Ainda lhe sobrou tempo para cultivar a poesia, os temas filosóficos, a arte de bem dizer, na língua de certas nações indígenas, como os bororos. Jornalista, conferencista, filólogo. Escritor plural. Voltou a residir na terra onde nasce e nesta Teresina do seu chamego pretende trabalhar, e muito, no terreno cultural. Tenho-lhe amizade e admiração. Para coroamento de uma longa vida de lutas e diversidade de profissões, dançarino de gafieira, servidor público, professor, marceneiro, compositor musical, jornalista, escritor, faltava que fosse pastor, encargo que ele vem exercendo, para colocar ovelhas ruins no caminho certo da verdade e da vida. Júlio Romão da Silva é, em boa verdade, um dos melhores representantes da negritude nacional, um negro culto, genial, abundante de criatividade intelectual.


A. Tito Filho, 17/05/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

QUASE MARANHENSE

Um dia Carlos Castelo Branco veio a Teresina autografar o seu livro de análise e interpretação de episódios políticos e tormentos partidários que provocaram, em 1964, a nefasta quinta República. Na dedicatória do meu exemplar escreveu que eu havia renegado por herança a família Castelo Branco. Lembrou-se do nosso parentesco. Meu avô Silvestre Tito Castelo Branco andou de briga com os parentes e tirou dos filhos o nome de família, conseqüentemente dos netos também.

Recebi Carlos na Academia Piauiense de Letras, em 1984, e recordei esses fatos, e agora os revelo de novo na ocasião em que lhe são prestadas justas homenagens nestes seus 70 anos de vida, depois de muitas vitórias de muito se orgulha o humilde parente rabiscador das presentes considerações.

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A 17 de janeiro de 1914, Cristino Castelo Branco casou-se com a prima Dulcila Santana Castelo Branco. Juntos viveram 69 anos e compuseram afetiva constelação de filhos. Um deles, Carlos, quase nascia do outro lado do rio Parnaíba.

No fim de outubro ou novembro de 1917, Cristino assumiu o juizado de direito do Brejo, no Maranhão. Desistiu da magistratura e regressou a Teresina dois anos depois, outubro ou novembro de 1919. Carlos nasceu a 25 de junho de 1920. Por poucos meses deixou de ser maranhense e quase teria o mesmo destino de Odylo costa, filho, que veio ao mundo na ilha de São Luis por virtude de presença paterna na magistratura do vizinho Estado.

Teresinense, nesta Chapada do Corisco, escolhida pelo baiano José Antônio Saraiva para edificar nela a Vila Nova do Poti, derribando a mataria e fundando a primeira cidade artificial do país, na Chapada. Carlos passou a infância e a adolescência, e nunca esqueceu dos seus hábitos, dos seus costumes e das suas lembranças. Ginasiano, participou de imprensa estudantil, jornalismo de idéia e fantasia.

Deixou Teresina em janeiro de 1937, deixando, como contou, uma novidade em caminho, o telefone. e escreveu: "Deixei a cidade impregnado dela, dos seus sonhos modestos e do amor à sua condição". No trem rumo a São Luís, saudoso, recitou Lucídio Freitas: "Teresina apagou-se na distância. Ficou longe de mim, adormecida/Guardando a alma de sol de minha infância/E o minuto melhor de minha vida".

Buscou outras paisagens. Deixava a paisagenzinha de Teresina de ruas empregadas, dois cineminhas, famosas casa de vida airada da rua Paissandu, rodas de calçada, em cadeiras desconfortáveis, para o falatório da vida alheia. Nove da noite, hora de dormir, mulher cansada e mulher donzela.

Estacionou em Belo Horizonte. Em 1939, repórter policial, tomou lições de mineirismos, mineirice e mineiridade. Aprendeu com os mineiros espertos a ouvir e a cochilar.

Depois, conquistou o Rio. Chegou ao "Jornal do Brasil". Projetou-se internacionalmente com a Coluna do Castelo; repositório de análise da vida política brasileira, homens e fatos, em mais de um quartel de século.

Deus o proteja na sua inteligência sem medo, sempre piauiense.


A. Tito Filho, 20/07/1990, Jornal O Dia

FOLCLORE

Nos meus brincos de infância, em Barras e no velho Marruás, hoje Porto no Piauí, gente idosa, parentas velhas, caboclas da terra contavam estórias bonitas e medonhas, umas de arrepiar cabelo, outras de deleite e encantamento. Quando da adolescência em Teresina, meninos do meu tope se reuniam de noite nas calçadas do médico Benjamin Baptista, conceituado e culto, e cada qual narrava contos de macaco, de onça, de gigantes, de heróis e de bandidos, e um desses colegas era filho do dono da casa, Stanley Baptista, que pela dedicação aos livros e caráter bem formado, se tornaria das mais brilhantes figuras do Exército Nacional. Momentos felizes e alegres; dava gosto vivê-los, e nunca se supunha que eles se fossem, deixando memórias inesquecíveis.

Aos 14 anos de idade comecei a ler romances nacionais e portugueses. Li "A Moreninha", de Macedo, e a obra completa de José de Alencar. Nessa época, Juca Feitosa, figura muito conhecida, rico comerciante, mantinha na capital piauiense loja de várias mercadorias, inclusive livros. Tive oportunidade de adquirir obras lusitanas, algumas de Camilo Castelo Branco e uma, bem me lembro, de exagerado romantismo, "Tristezas à Beira-Mar", de Pinheiro Chagas. Vendia-se também a coleção SIP, constituída de romances de aventura e de amor; que traziam, na capa, dois dedos em forma de V e por baixo do desenho a escrita MIL RÉIS, isto é, cada volume valia dois mil réis, e MIL RÉIS foi a unidade monetária vigorante até 1942. Entre muitos apreciei "A Patrulha da Madrugada" e "Naná". Júlio Verne estava na moda.

Tomava-me de entusiasmo com a sua ficção maravilhosa, que se incorporou à história contemporânea, com a visita do homem à lua. Li quase tudo do admirável francês. Da adolescência tão presente ainda no meu espírito foi a série de publicações TERRA-MAR-E-AR. Livros de tipos bons e tipos maus, em terras estranhas e distantes. Pratiquei leitura de Tarzan, o herói das selvas africanas criado por Edgar Rice Burroughs e pratiquei-a de fia a pavio.

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Com a leitura de "Encanto e Terror da[s] Águas Piauienses", desse mágico Josias Carneiro da Silva, relembro os tempos de menino, delicado com as lendas de bichos e de gente, parecido com as de outras águas do mundão de Deus, assim do jeito do caboclo-dágua do São Francisco, o urutau ou jacaré gigantesco do Paraíba do Sul, o boiúna e o boto do Amazonas.

O folclore mostra a vida coletiva na sua cultura material e na sua cultura espiritual. As águas constituem fontes de lendas, mitos, fantasias, imigrações. Na Bahia, os pescadores celebram o despacho da mãe-d'água, cerimônia mágica em que se atiram oferendas ao mar para que aquela personagem mística os liberte de infortúnios na pescaria. A tradição mediterrânea está nas sereias, a que Homero se referiu. A Iara tem encantos irresistíveis, que o genial piauiense José Newton de Freitas pôs num poema, ao cantar o jangadeiro: "Enquanto seus filhos/ficaram chorando/ele está morando/beijando, beijando/a iara bonita,/no fundo do mar".

No livro se salienta o paciente pesquisador Josias Carneiro da Silva e se revivem monstros aquáticos, que a tradição recolheu e guardou. Mas Josias Carneiro realiza o mais brilhante estudo com o cabeça-de-cuia, que o talentoso piauiense João Alfredo de Freitas colocou em "Lendas e Superstições do Norte".


A. Tito Filho, 29/11/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

JOVITA

Jovita Alves Feitosa, cearense de nascimento, vivia em Jaicós (PI). Tinha 17 anos quando se apresentou em Teresina, como voluntária para a guerra do Paraguai. Seguiu da capital do Piauí para o Rio em 1865. Multidão aclamou-se em São Luís. À noite, homenagem no teatro e aí coberta de flores. No Recife, a recepção esteve mais intensa. Na Bahia, a mesma cousa. Hospedou-se no palácio da presidência da província. No Rio, recebida com muitas festas. Mas o governo não permitiu a sua ida para o teatro da guerra, como militar. Voltou ao Piauí. Mal recebida pela família em Jaicós, regressou ao Rio. Iniciou relações com o engenheiro Guilherme Noot, que teve de retornar à Inglaterra, deixando-lhe bilhete de despedida. Jovita procurou a residência do amante e lá soube que era verdadeira a viagem para a Inglaterra. Foi ter ao quarto em que ele residiu. Horas depois, a empregada da casa encontrou-a na cama, deitada, com a mão sobre o coração, no qual havia cravado um punhal até o cabo.

A peça teatral "Jovita ou a heroína de 1865" foi concebida em três atos: o 1º, de cenário em Jaicós-PI, publicou-se com o título original de "Pelo amor e pela pátria"; o 2º, e o 3º tiveram os títulos de "Aos braços de Henrique ou aos braços da morte" (cenário em Teresina) e "Saiba morrer a que viver não soube" (cenário do Rio de Janeiro), respectivamente.

O drama histórico de Jônatas Batista encenou-se no Teatro 4 de Setembro, da capital piauiense, a 19.04.1914, nos seus três atos. Papel principal: artista Nena Pimentel, que representou Jovita. O autor fez as vezes de Anacleto Ferreira.

Infelizmente se perderam os dois atos complementares da peça, baseados na vida dessa cearense dos Inhamuns, que, aos 16 anos, passou a viver na vila de Jaicós, com um tio de nome Rogério. Pretendia estudar música. Arrebentando a guerra do Paraguai, a jovem vestiu roupa de homem, cortou os cabelos, cobriu a cabeça de chapéu de couro, e viajou sozinha para a Teresina. Na capital, procurou as autoridades. Queria alistar-se como voluntária da pátria, e seguiu com o segundo corpo de voluntários com destino ao Rio de Janeiro.

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Ilustrados historiadores se preocuparam com a história de Jovita Alves Feitosa, da forma que fizeram o pernambucano Pereira da Costa e os piauienses Fernando Lopes e Silva Sobrinho, padre Joaquim Chaves e Humberto Soares Guimarães, para citar alguns.

Delci Maria Tito, faz algum tempo, vem pesquisando dados sobre mulheres que se tornaram notáveis em atividades políticas, educacionais, religiosas, assistenciais, literárias, ou que participaram de episódios históricos do Piauí. Trata-se de trabalho original, que ela pretende realizar com os dados biográficos e a obra fundamental prestada à sociedade a que cada uma dedicou esforços constantes, iniciando-se com Jovita Alves Feitosa, originária dos Feitosas do Ceará, a valente taba dos Feitosas, de que se têm ocupado escritores como Gustavo Barroso.

Teresina viveu noites animadas, mais de uma vez, no Teatro 4 de Setembro lotado, nas apresentações da peça histórica sobre o drama dessa infeliz sertaneja, de autoria de Jônatas Batista, de grande e merecida popularidade na época em que foi o principal animador, ao lado de Pedro Silva da vida teatral teresinense.


A. Tito Filho, 29/12/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

TERESINA

Vejo-a sem a minha infância, sem os dias queridos que não voltam mais, as saudades provocando nó na garganta, um choro que não consola. Sem o CaiNágua, o cabaré das garotas de segunda classe, perto do Parnaíba, que os meus olhos de adolescente desejavam, mas os cânones da época proibiam. Sem os circos, na praça Deodoro, grandões, palhaços engraçados, ameaçando as velhotas atiradas com o troncudo pedaço de macaxeira. Na frente do imenso toldo, dezenas de bancas, na venda de frutas descascadas, refresco, sorvete de gelo rapado e mel de fruta, gostoso como o diabo, frito de carne de porco, beiju salpicado de farelo de coco. No calor das tardes, máquinas equilibradas na rodilha da cabeça, com a manivela de rodar e fabricar o melhor sorvete do mundo, o caboclo, alpargata chiadeira, passeava as ruas, a vender a guloseima.

Vejo-a sem o pega-pinto gelado, que a gente ia comprar, oito da noite, na jarra, uns oito copos, para a família à espera na roda da calçada. Sem o Doutor, dono de frege, estabelecimento modesto, mesinhas sem toalhas, pimenta malagueta danada, cachorros gafentos e famintos à espera do osso que o freguês alisara, depois de engolir tripa e bucho - a panelada da cidade, a cinqüenta metros da praça Rio Branco. Sem o Bar Carvalho, de elite, vendia cafezinho, chocolate com ovo e sem ele, sobretudo o filé de grelha, enfeitado de ervilha, azeitona, alface e farofa. Manjar dos deuses, do cozinheiro espanhol Gumercindo, um mágico em comedorias.

Vejo-a sem o alarido das pipiras tentadoras - as mocinhas pobres empregadas da Companhia de Fiação e Tecidos Piauiense, ruído de máquinas o dia todo. As garotas, vestidinhas de chita, merendavam banana, daí o apelido que a crônica registra.

Vejo-a sem a presença de Celso Pinheiro, poeta e tuberculoso, fatiota branca engomada e reluzente, chapéu de palhinha, gravata borboleta... irreverente...; sem Higino Cunha, mestre verdadeiro, a caminhar pelas vias públicas, aqui e ali o trago de bebida destilada...; sem Pedro Brito, calças velhas de mescla, cornimboque de rapé nos bolsos largos, suado, a ironizar homens importantes...

Vejo-a sem as funcionárias domésticas, mocinhas morenas, que o povo denominava curicas, porque recebiam o prato de comida no peitoril da residência... Caboclinhas de pé de esquina, na cidade pouco iluminada... Sempre perdiam o cabaço para o filho-família, o moço dengado.

Vejo-a sem o cabaré da Raimundinha, alegre, as meninas de vestido abaixo do joelho, cada qual com a sua alcova de deitar com quantos machos obtivessem na noite comprida... Tiravam a roupa de luz apagada... Que Tempo!

Vejo-a sem as pracinhas de donzelas faceiras, que rodavam num sentido, os gajos em sentido contrário no fascinante namoro de olhos... No cinema, o casal se dava o gosto da bolinação... Namoro de mão nos peitinhos arrebitados...

Vejo-a sem o símbolo que foi a Maria Préa, mulata boa de cama, com estudante de bolso vazio ou desembargador de prestígio firmado.

Hoje, vejo-a urbanizada de pombais, ou casinholas habitadas do êxodo interiorano; povoada de veados de luxo ou simples viciados na inversão dos locais de prazer; vejo-a na falsa convivência dos coquetéis, das uiscadas e das festas de caridade; vejo-a no comércio com o nascimento de Jesus e com as mães, merecedoras pelo menos de um pouco de respeito; vejo-a despudorada, meninas ricas sem roupa, por deboche, meninas pobres do mesmo jeito por miséria. Vejo-a uma imensa putaria de homens e mulheres, com as devidas exceções; Vejo-a violenta, estúpida, deseducada - tipos debaixo-da-ponte, alguns felizardos da vida ociosa à custa de golpes e falcatruas e outros tantos no repasto oficial da República sem freios.

Vejo-a sem futuro, sem esperança, mas ainda creio no resto do otimismo que me sustenta os olhos sofridos da saudade dos tempos que não voltam mais...


A. Tito Filho, 19/08/1990, Jornal O Dia

domingo, 25 de dezembro de 2011

DEZESSEIS BACHARÉIS

Foi bom. Passaram-se quarenta anos. Numa sala pequena, padrinhos e convidados espremidos, colaram grau, a 16 de dezembro de 1950, na antiga Faculdade de Direito do Piauí, dezesseis novos bacharéis, cada qual mais feliz do diploma conquistado. Presidiu a bonita solenidade o mestre de invulgar conceito Cromwell Barbosa de Carvalho, muito querido da comunidade teresinense. Eis a relação dos jovens da época, vitoriosos com a colação de grau e ricos de merecidos triunfos no correr dos anos: AFRÂNIO MESSIAS ALVES NUNES, professor, secretário da Educação, deputado estadual várias legislaturas, desportista, conselheiro do Tribunal de Contas, secretário do Trabalho, em cujo exercício se encontra. Prestou o juramento em latim em nome dos colegas de formatura. ALCEBÍADES VIEIRA CHAVES, juiz em comarcas do interior, atualmente desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão, que já presidiu. ESDRAS PINHEIRO CORREIA, promotor público, procurador da Justiça, membro do Colégio dos Procuradores de Justiça e do Conselho Superior do Ministério Público, corregedor geral do Ministério Público, agora no exercício de procurador-geral da Justiça. JOSÉ DE ARIMATHÉA TITO FILHO, professor e jornalista, escritor, diretor do Colégio Estadual do Piauí, secretário da Educação e da Cultura, desempenha as funções de procurador do instituto de previdência do Estado. Desde 1971 preside os destinos da Academia Piauiense de Letras. Orador da turma. JOSÉ BARBOSA, deputado estadual, prefeito de Altos, onde reside, em seguida promotor público. JOSÉ GUILHERME DO REGO MONTEIRO, advogado e procurador do Estado. MANOEL PAULO NUNES, alto funcionário do Ministério da Educação, secretário da Cultura no Piauí, escritor e membro da Academia Piauiense de Letras, desempenha o magistério universitário em Brasília. OMAR DOS SANTOS ROCHA, professor, advogado, criminalista, chefe do setor jurídico da Polícia Militar, funções que exerce no momento. Integrou a Força Expedicionária Brasileira na 2ª Guerra Mundial. RAIMUNDO EVERTON DE PAIVA, juiz de direito no Maranhão e desembargador do Tribunal de Justiça do referido Estado. SEBASTIÃO ALMEIDA CASTELO BRANCO, advogado e procurador de INPS em Fortaleza.

Os citados, com exceção dos indicados como residentes noutros cenários, assistem na capital piauiense.

Passo aos falecidos, saudosos companheiros: JOÃO LINO DE ASSUNÇÃO, advogado, morava na cidade maranhense de Caxias. CRISTOVÃO ALVES DE CARVALHO, faleceu como juiz de direito da comarca de Pio IX, no Piauí. JESUS DA CUNHA ARAÚJO, juiz de direito em Belo Horizonte, cidade onde se despediu da vida. MANOEL TEODORO DE SOUSA GOMES, professor e contador seccional do Ministério da Fazenda, em cujo exercício morreu. RAIMUNDO ACILINO PORTELA RICHARD, advogado, exercendo ainda, ao falecer, o cargo de advogado de ofício, correspondente a defensor público. ERNANI DE MOURA LIMA, deixou este mundo em elevadas funções no Banco Central da República.

Grandes mestres lecionaram a turma, à qual me incorporei no último ano do curso, quando regressei do Rio de Janeiro, antiga capital da República em que tive quatro anos de estudos, e regressei para assumir cargo federal. Não posso referir-me senão aos professores do 5º ano, como Clemente Fortes, o paraninfo dos concludentes, Edgar Nogueira, Ernesto Batista, João Martins de Moraes, Hélio Correia Lima. Mestres responsáveis, alunos vitoriosos.

Foi bom. Três ou quatro dias de festas dos novos bacharéis dessa época da mocidade. Ainda hoje, de vez em quando, os colegas se reúnem e comemoram o acontecimento. Está faltando a reunião agradável e alegre dos 40 anos.


A. Tito Filho, 16/12/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

TRAGÉDIA

Era um sábado, dia 13 de julho de 1957. Manhã e tarde tranqüilas nesta Chapada do Corisco. Pouco movimento de carro, pois havia poucos carros. Ainda estava distante o sistema de financiamento, para liquidar mais ainda a depauperada classe média. Bares e botecos, como de costume, com os seus costumeiros fregueses de cerveja e aperitivos. Adolescentes e moço em férias escolares. Os namorados já se preparavam para as sessões cinematográficas no  4 de Setembro e no Rex. Nada perturbava a calmíssima Teresina de vinte anos atrás. O sol já tinha morrido, quando chegou a notícia da tragédia espantosa, pavoroso choque de veículos na estrada de Altos na distância de trinta e seis quilômetros desta capital. Comentava-se que mais de vinte morreram no local e era impressionante o número de feridos. Pouco tempo depois, o Hospital Getúlio Vargas se transformava numa hospedaria de dor e de angústia, de lágrimas e de desespero. A multidão ali estava aturdida, emocionada, comovida, comungando do sofrimento das vítimas e seus familiares.

As notícias começaram a chegar. O ônibus MARIMBÁ, de propriedade de Joca Lopes (João de Deus Lopes), vinha de Parnaíba. Viagem normal. Depois de Altos, uns cinco ou seis quilômetros de Teresina, houve o choque formidável com um caminhão Ford, carregado de carvão e madeira, de propriedade de José Candido Porto - e o local se transformou em cenário dantesco. mais de duas dezenas de mortes, cerca de vinte feridos. A tragédia enlutara muitas famílias de Teresina, de cidades interioranas e ainda de outras cidades brasileiras.

A estrada de Teresina a Altos não era asfaltada, como hoje, mas de piçarra. Tempo de verão, os carros em trânsito produziam nuvens de poeira avermelhada, que não permitia visibilidade aos motoristas que viajavam no mesmo sentido. O pó cobria tudo.

Daqui para Altos seguiam dois veículos. Pequena a distância entre os dois. Natural que o chofer do carro de trás, para se ver livre da terrível poeira, procurasse ultrapassar o carro da frente. Muitas vezes o motorista do que ia na frente tudo fazia para que o colega não conseguisse cortar a proa, como se diz, justamente em situação desvantajosa, passando a vítima do pó infernal.

Essa estrada de Teresina a Altos era um tanto estreita. Os dois carros prosseguiam. O da frente desviou-se um pouco para a direita. Era natural. Em sentido contrário vinha o MARIMBÁ. E o motorista do veículo que ia para Altos deu com o carro para a direita, possibilitando, assim, a passagem tranqüila do ônibus. Mas o motorista do caminhão de madeira, que ia recebendo a importuna poeira do outro, entendeu que o colega estava abrindo terreno para a ultrapassagem. E sem visibilidade, meteu o caminhão pela esquerda, no justo momento em que o MARIMBÁ emparelhava com o primeiro. Impossível evitar a tragédia assombrosa.

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Uma novela das mais impressionantes, de Salomão Chaib, médico piauiense residente em São Paulo, recebeu o nome de UM DRAMA DE CONSCIÊNCIA e será apresentado ao público no fim deste mês de maio pela Academia Piauiense de Letras.

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A Academia Piauiense de Letras está preparando a edição de novo romance do notável José Expedito Rêgo, A MALHADINHA, baseado em história real de fazenda de criar, no interior de Oeiras.


A. Tito Filho, 15/05/1990, Jornal O Dia