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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

METAFÍSICA

O ministro da ditadura de Getúlio Vargas, apelidado no tempo de Chico Ciência, era Francisco Campos, o autor da carta constitucional de 1937, outorgada ao povo num frio golpe militar do mesmo ano. Coube a Francisco Campos efetivar uma das melhores reformas educacionais, com a criação dos vocacionais pré-jurídico, pré-médico e pré-técnico. Como aluno do primeiro, estudei filosofia e recolhi noções de metafísica, ciência suprema, que estuda a natureza ou a substância do real, e constitui o fundamento da ética aristotélica. Forma superior de vida contemplativa, que proporciona felicidade ao homem.

Conheci sobre o assunto o pensamento de Descartes, Spinosa e Leibniz. Estudou-a Wolf. O criticismo de Kant assinalaria a crise mais grave da metafísica, e contra esta reage Lomte para quem o estado metafísico não tem originalidade e a ele o francês se refere de modo pejorativo. O materialismo nega a metafísica.

"Em grande parte, como já se observou, os movimentos filosóficos que preconizam o retorno à metafísica, tendem a ignorar o Kantismo, o positivismo e o materialismo histórico. Entre as principais representantes da metafísica contemporânea, devem-se mencionar Blondel, Max Scheler, Nicolai Hartman e Alfred N. Whiehead, Henri Bergson e Martin Heidegger... Para Bergson, que retoma em seus livros fundamentais os temas da metafísica tradicional (Deus, a imortalidade da alma e a liberdade), a matéria é inércia, geometria e necessidade, a vida é contingência e espontaneidade, e o espírito, liberdade e criação..." Para Heidegger filosofia quer dizer metafísica.

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Sei muito pouco sobre esses temas que envolvem profundos e graves conhecimentos filosóficos. Mas me entusiasmo no momento em que tomo ciência de que no Piauí se efetivará, dentro de pouco tempo, a I Conferência Metafísica Piauí/Brasil/Estados Unidos, para desenvolvimento de temas metafísicos dos mais interessantes e oportunos, na palavra de ilustrados conferencistas. Acontecimento de estudos idênticos promoveu em São Paulo a Fraternidade Pax Universal, em junho deste 1990, contribuindo-se para uma vida mais saudável e harmoniosa da imensa coletividade paulistana.

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A festa espiritual e cientifica do Piauí tem como idealizadora e promotora a educada e culta Dra. Dulce Duarte Pinheiro Correia, com o apoio de diversas instituições educacionais e literárias e pretende estudar assuntos do mais relevante valor social: os conflitos provocados pelo crescimento urbano e o equilíbrio do homem no seu processo de vida, com o objetivo de proporcionar reflexões e introduzir grupos interessados na prática do autoconhecimento a partir da visão metafísica. Existem oportunidades de novas relações voltadas à verdade existencial, conforme admitem os organizadores da programação, para o período de 9 a 11 de novembro porvindouro.

O projeto da conferencia já se encontra elaborado por pessoas da melhor categoria intelectual, como Dulce Duarte Pinheiro Correia, Antônio de Deus e Maria do Socorro Caldas Borges, que sustentam esta verdade: "Os momentos difíceis que vivemos provocam tensões, angustias e medos. Esse estado de insegurança se reflete em nosso organismo gerando doenças físicas e toda espécie de sofrimento. A falta de informação faz com que esses sofrimentos se multipliquem numa cadeia infinita. Mas para todo mal há uma solução e o melhor caminho é aquele que conduz à serenidade, ao autodomínio e a perfeita felicidade".


A. Tito Filho, 29/09/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

O BOM CONTISTA

Afonso Ligório nasceu no território piauiense de Luzilândia. Jornalista. Fez algumas andanças e fixou-se em Brasília, dedicado ao magistério e a literatura e em ambos os misteres tem alcançado triunfos verdadeiros. Consistia dos melhores, de raro poder de observação. Publicou SÓ ESTA VEZ, já traduzido para o espanhol e agora enrica a literatura nacional com A HORA MARCADA, sobre que escreveu mestre M. Paulo Nunes:

"A propósito do anterior livro de contos de Afonso Ligório Pires de Carvalho - Só Esta Vez... Histórias contadas (Editora Thesaurus - Brasília-DF) já havíamos tentado uma definição do tipo de gênero por ele adotado quando o identificamos com o "conto masnfieldiano" por oposição ao "conto história" com começo, meio e fim, cuja tradição radica em Boccacio e teve modernamente como representante maior Maupassant, entre nós, o gênio de Machado de Assis.

Com este seu novo livro - A Hora Marcada, retoma ALPC o mesmo fio da narrativa no apuro de uma técnica de expressão em que o deslance é engendrado de forma a levar o leitor a sentir uma espécie de "soco no estômago", conforme a expressão do romancista português Fernando Namora, em seu último livro, publicado antes da morte" - jornal sem data.

São do mesmo autor as considerações a seguir transcritas, na caracterização desse gênero de narrativa: "Ainda recentemente, o Nobel Isaac B. Singer chamou ao conto uma "fatia de vida", decerto em oposição ao romance, que seria, pelo que se deduz, a "vida toda". Mas essas "fatia" terá de ser pois, altamente significativa. Na sua concisão no seu angulo de focagem restrito, o conto precisa de ser tão eloqüente que o leitor, através de uma breve personagem captada num instante decisivo e num contexto delimitado, consiga reconhecer ali a verdade da paisagem humana e a vida tal como ela é, na sua infinita complexidade. Daí que se possa entender muito bem que haja quem prefira Maupassant a Victor Hugo ou Balzac e Tchekhov ou Gogol a Tolstoi ou Dostoievski. Uma gota de água pode ser mais reveladora que uma enxurrada". (Cf. Fernando Namoro, in Jornal sem data, pág. 146 - Publicações Europa-América-Portugal).

Esta é pois a receita adotada por Afonso Ligório Pires de Carvalho nestes seus novos contos - captar o instante essencial ou a "fatia de vida" que possa caracterizar uma emoção, um estado de espírito definidores da condição humana.

E a realiza com uma técnica apurada de tal sorte que os contos reunidos nesta coletânea reinventam cada um deles a vida em seus momentos mais significativos. Contos como Depressão, por exemplo, podem ser emparelhados com as melhores narrativas do gênero entre nós.

Não poderia deixar de salientar aqui, como o fiz em outros termos, da vez anterior, que Afonso [é] um dos mais representativos valores da geração piauiense que revelaria figuras da altitude intelectual do poeta Hindemburgo Dobal e dos romancistas O. G. Rego de Carvalho e José de Ribamar Oliveira.

Por isso recorro ainda às anotações de Fernando Namora, no livro citado, ao fazer o elogio de seu contemporâneo Eduardo Lourenço: Tentando, e numa paróquia de tribalismo, permitiam-me uma anotação tribalista: sabe que Afonso Ligório Pires de Carvalho seja dos da minha geração e que, enfim, ter bebidos as primeiras águas na matriz que também a minha. Não é por acaso que muito do modo de ser de Afonso é o que é. A generosidade e um sentido de justiça que inventam".


A. Tito Filho, 23/11/1990, Jornal O Dia

O DINHEIRO

Era um paraibano baixote, míope desde moço, encheu de compostura a vida nacional. Formou-se em Recife, em 1908, com os piauienses Simplício Mendes e Arimathéa Tito. Parece que chegou a residir com os dois na mesma "república" de estudante; pelo menos é certo que foi companheiro de quarto de Arimathéia. Formado, José Américo achou fascinante a vida política, e nela ingressou. Ei-lo, em 1930, como um dos chefes civis do movimento revolucionário que derribou Washington Luís, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e entregou o governo da República a Getúlio Vargas, de quem foi ministro da Viação, um grande ministro, voltado para os graves problemas do Nordeste. Enfrentou a terrível seca de 1932. Impôs-se à admiração do país, pelo trabalho, pela sinceridade, pela inatacável honestidade.

O esforço gigantesco como ministro, a linguagem franca de que se utilizava para o debate dos problemas políticos e administrativos, os brados de revolta contra o atraso da terra e a penúria do homem, a bravura com que desafiava os maus, a consagração do romancista de A Bagaceira - tudo isto lhe valeu imensa popularidade, na Paraíba como no Brasil.

A Bagaceira deu a José Américo uma posição invejável no cenário da literatura brasileira. Consentiu o autor em que o livro "é a tragédia da própria realidade". Livro violento, que agasalhou "almas semibárbaras pela violência dos instintos". O escritor interpreta essas almas sem artificialismo, nuamente, para não suprimir delas a grandeza: "Seria tirar-lhe a própria alma".

Romance do sofrimento do homem na terra escaldante - A Bagaceira também constitui um romance de amor, "concessão lírica ao clima e à raça", como diz José Américo - "problema de moralidade com o preconceito da vingança privada", da forma que ele define as paixões brutais do sertão.

Em 1937, arregimentam-se os políticos. Campanha eleitoral a vista. Eleições presidenciais marcadas para 3 de janeiro de 1938. Plínio Salgado, chefe do Integralismo (camisas verdes), candidata-se. Também se candidata Armando de Sales Oliveira, governador de São Paulo, político de grande conceito e prestígio. Getúlio manda que seus partidários apresentem José Américo como candidato oficial. O lançamento é feito por Benedito Valadares, governador de Minas. O paraibano aceita o encargo. Ganha as ruas, as cidades, pregando idéias, defendendo ideais.

Veio o golpe de Getúlio no dia 10 de novembro de 1937. Fechamento do Congresso Nacional. Prisão de adversários. Liquidação dos partidos políticos. Ostracismo para José Américo.

O paraibano tem sete fôlegos. Corajosamente, dia 22 de fevereiro de 1945, decreta, numa entrevista dada a Carlos Lacerda, a queda do regime getuliano.

Conheci José Américo em 1933, quando ele numa comitiva de Getúlio Vargas esteve no Piauí. Fez questão de visitar meu pai, seu antigo colega na Faculdade do Recife, na casa onde morávamos, modesta, na rua Eliseu Martins. Depois, ele, senador, em 1964, no Rio, visitei-o. Simples, afável, incentivador.

Nunca me esqueço de um dos seus dizeres lapidares num discurso político, campanha presidencial de 1937, quando analisava realidade brasileira:

- Eu sei onde está o dinheiro para o soerguimento do Brasil.

Hoje também eu sei onde está o dinheiro depois que, já maduro, compreendi a mensagem de José Américo.


A. Tito Filho, 26/09/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

FUNÇÃO DAS ACADEMIAS

As instituições literárias devem cuidar de objetivos diversos. Não cabe que os seus membros se restrinjam a compor poemas e escrever livros de ficção. As verdadeiras entidades de cultura fiam mais fino. Não esquecem a coletividade e procuram ajudá-la nos seus anseios, educando-a no conhecimento dos aflitivos problemas humanos. Outras vezes convocam escritores, para o conhecimento de novos processos de criação artística. Bom ainda que se consiga a presença de vultos ilustres para que deponham sobre o passado e assim esclareçam dúvidas e equívocos.

A Academia Piauiense de Letras tem cumprido deveres e obrigações neste particular. Figuras do mundo cultural têm vindo ao Piauí por convite do sodalício, que consegue junto a administração pública e as pessoas dos convidados, que jamais cobraram um centavo pelos valiosos serviços que prestam a gente e sobretudo aos moços piauienses. Citemos os mais recentes, os que nos proporcionaram lições oportunas nestes últimos cinco anos, vindos por vontade de ajudar a nossa Casa de Lucídio Freitas: Esdras do Nascimento, Jaime Bernardes, diretor-proprietário da famosa editora Nórdica; Assis Brasil, Afrânio Coutinho, nomes que deixaram proveitosas lições aos estudantes da Universidade Federal do Piauí. Outro exemplo de dedicação pode dizer-se do professor Correia Lima, cientista de fama internacional, especialista neste mal do século, a AIDS, com duas palestras educativas sobre o assunto, uma aos jovens, no amplo auditório da Escola Técnica Federal, outra aos acadêmicos, jornalistas e convidados especiais na sede da Academia. O nosso companheiro Vilmar Soares conseguiu a visita.

Deu-nos a honra da presença o presidente da Academia Brasileira de Letras, esse admirável Austregésilo de Athayde, que convidou conosco cinco dias, simples, amável, na velhice verde dos 90 anos, e que prestigiou a Academia e as nossas entidades de cultura pelas lições oferecidas na palavra entusiasmada e contagiante.

Chegaria a vez do mito, cuja vinda conseguimos por intermédio da professora Anita Leocádia, amiga de rara grandeza espiritual. Sim, veio ao Piauí o capitão Luís Carlos Prestes. Visitou os sítios históricos em que ele acampou, com os seus barbudos: Oeiras, homenageado pelo Instituto Histórico e pelo líder B. Sá; Floriano, em calorosa recepção, Monsenhor Gil, a antiga Vila de Natal, de onde o chefão dirigiu o cerco de Teresina - e finalmente esta capital do Piauí, cercado de admiração e respeito, recebido no palácio governamental, na sede do Poder Judiciário, na Assembléia Legislativa, a Prefeitura, na Câmara dos Vereadores e na Academia. Por toda parte Prestes restabeleceu a verdade histórica sobre a marcha formidável pelo interior do Brasil.

Neste outubro de 1990 o nosso conterrâneo Vilmar Soares prestou outro valioso serviço ao Piauí com a vinda do grande professor Affonso Berardinelli Tarantino à Teresina, por convite da Academia. Trata-se de médico de nomeada, membro da Academia Nacional de Medicina, mestre da Universidade Gama Filho, na Universidade do Rio de Janeiro e na Escola Carlos Chagas. Os acadêmicos confiaram-no às nossas instituições médicas a coordenação de um jovem doutor, sério e dedicado, Antônio de Deus. Tivemos todo o apoio do governo piauiense. Foram 15 horas de aulas sobre aspectos da Pneumologia. Palestras úteis e oportunidades a respeito de pneumonia, doenças pulmonares crônicas, derrame pleural, tuberculose, tabagismo, entre outras partes do extenso programa.

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Paulista de nascimento e carioca de afeição, Tarantino me impressionou pelas maneiras simples de palestração. Não parece o professor de tantas láureas. Nem o cientista de fama merecida. Gosta da humanidade, de servir os outros. Apaixonou-se por Teresina, talvez pelos cenários miseráveis do processo de favelização da capital piauiense. Dá pouco valor aos bens materiais. Virtuoso, cultiva princípios maravilhosos que dignificam o homem. Escreve com a compostura do zelo da língua, no estilo vivo, original, gracioso, como escreveram e escrevem os grandes médicos, em falhas, cativo da frase correta, mas sem os pruridos antipáticos das gramatiquices.

Tarantino deu aula de beleza espiritual na Academia Piauiense de Letras. Senti que ele guarda imenso amor a memória da genitora, de cujo túmulo, em São José dos Campos, ele cuida, com os instrumentos da jardinagem, no comparecimento mensal na cidade, na distância de 300 quilômetros.

Aos acadêmicos, na despedida, acentuou que teve tratamento igual ao do Piauí em dois passeios quando visitou Portugal e quando tinha o carinho e o afeto da mãe querida.


A. Tito Filho, 30/10/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

INSULTO

Ivan IV, o primeiro grão-duque de Moscou a tomar o título de czar, em se declarando sucessor pelo sangue do romano César Augusto, foi dos mais violentos e mais cruéis soberanos da história da humanidade.

Órfão de pai e mãe, submetido a tutela dos boiardos que se entredevoram para conquistar o poder, Ivan faz o aprendizado da astúcia e da crueldade à sombra dos protetores que, no entanto, o ignoram. Coroado czar em 1547, com 17 anos de idade, ele manifesta logo inicio uma autoridade assustadora. Sádico e místico, considera-se o vigário de Deus na Terra e se imagina desculpado antecipadamente por todos os seus desregramentos. Sua mórbida desconfiança o leva a ver por toda parte espiões e traidores. Manda torturar devotos favoritos. Até sente mais prazer quando comete injustiças.

Ivan gosta tanto de sangue quanto de mulheres. Casará oito vezes, sem se preocupar com a Igreja. Algumas das esposas morrem envenenadas, para satisfação do czar que prefere escolher as substitutas entre milhares de jovens em autênticos concursos de beleza.

Entretanto, não perde de vista de vista a missão política. Luta para largar seu reino, em batalhas sangrentas com poloneses, tártaros e suecos. A principio com sucesso, depois com incontroláveis perdas.

Quem era Ivan, o Terrível, o homem que matou o próprio filho e herdeiro? Que se divertia soltando ursos selvagens contra homens, mulheres e crianças? Que comandou o genocídio de Novgorod?

O retrato de Ivan feito por Henri Troyat, russo naturalizado francês, na sua autoridade de acadêmico, é verdadeiramente singular e oportuno, lançando uma luz serena, mas forte e clara, sobre a maneira de ser do povo russo, delirante, fanático e submisso, sempre corajoso até as últimas conseqüências.

Henri Troyat nasceu em Moscou, em 1911, como Lev Tarassov, nome mudado logo que chegou a Paris, em 1917, portanto, com apenas seis anos de idade. Naturalizado, cedo se consagrou a literatura. Foi Prêmio Goncourt em 1938 e é membro da Academia Francesa. Tem uma longa produção literária, variada, que inclui romances isolados, ciclos de romances históricos, biografias, ensaios, crônicas e narrativas diversas. No que toca a biografias, Troyat já publicou as de Dostoievski, Putchkine, Tolstoi, Gogol, Catarina, a Grande, Pedro, o Grande, e Alexandre I, todos personagens influentes nas artes e na história russas.

Sobre Ivan, o Terrível, na imprensa francesa, merece destaque um comentário de Alexei Antonkin, no "Temps-Économi Littéraire":

"Desde a História da Rússia, escrita entre 1816 e 1826, por Nikolai Karamzine, o livro de Henri Troyat é a mais inquestionável contribuição para p esclarecimento do reinado de Ivan, o Terrível. E as comparações com a Rússia de hoje são gritantes".

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CARLSO EDUARDO NOVAES é, sem dúvida, o único humorista brasileiro de primeira linha que faz você continuar rindo na segunda, na terceira e assim por diante. E já que é assim, nada melhor do que a notícia da publicação de um livro seu, O País dos Imexíveis, uma nova coletânea de crônicas sobre o cotidiano brasileiro que é, ao mesmo tempo, a mais alegre história dos nossos dias...

Na hora em que todo mundo se mexe, será o Brasil o país dos imexíveis?

Mexe e remexe, estamos aí com mais um Plano em que muitos gostariam de atirar mexericos. Entretanto os mexericos são muitos e os mexeriqueiros e mexeriqueiras não param, melhor dizendo, vivem se mexendo.

E o Brasil? Imexível ou Mexível, escorre aqui pela pena bem humorada do sempre inovador Novaes, coadjuvado, literalmente, pela pena de Vilmar Rodrigues.

Imperdível!

Carlos Eduardo Novaes é o humorista mais diversificado no momento. Seus últimos sucessos têm acontecido na área teatral, onde, além de fazer o texto, ele sobe quase todos os dias ao palco para dar o seu recado. Continua mantendo, porém, uma constante na vida: não deixa de escrever as suas crônicas e delas faz um retrato bem humorado deste Brasil... dos imexíveis.

Este é o décimo-nono livro de Novaes publicado pela Nórdica. E o décimo-terceiro da série: "Histórias dos Nossos (Nossos?) Dias!".


A. Tito Filho, 21/09/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

MERECIMENTO

Meu avô Silvestre Tito Castelo Branco foi cidadão sem cabedais. Pobre. Mal podia sustentar a família de vários rebentos. Morava em Barras, onde se desaveio com parentes e da esposa e dos filhos anulou o nome familiar Castelo Branco. Um dos filhos, jovem inteligente, chamado José Arimathéa Tito. O pai sem dinheiro não podia sustentá-lo na capital. Alma generosa, advogado, político, João José Pinheiro, poeta espontâneo e singelo, acolheu o garoto na própria casa, dando-lhe teto e alimentação e ajudando-o nos estudos.

João José Pinheiro era maranhense, mas muito moço fixou-se no Piauí, onde se domiciliou, constituiu família e faleceu. Quando adolescente, fui aluno de dois dos seus filhos, João Pinheiro, diretor do tradicional Liceu Piauiense, mestre conceituado do português, língua de que ele conhecia os melhores clássicos, e de Amália Pinheiro, talentosa musicista, que tanto encantou a sociedade teresinense, dominando instrumentos musicais e compondo músicas artísticas do mais intenso lirismo. Nessa época de estudos ginasiais, conheci Celso Pinheiro, outro irmão, uma das mais altas expressões da vida literária piauiense, conferencista de escol e poeta simbolista da mais elevada inspiração.

Em 1964, ingressei na Academia Piauiense de Letras e desta instituição me tornava secretário geral no ano seguinte. Desenvolvi trabalho acadêmico e me tornei conhecedor de três irmãos, João e Celso, dois dos dez fundadores da instituição, e mais outro, Breno Pinheiro, jornalista projetado em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Estudante no Rio, década de 40, fiz amizade com Celso Pinheiro Filho, bacharel em direito e que se tornaria, com o correr dos anos, advogado de grande conceito, prefeito de Teresina e um dos mais dedicados pesquisadores da história do Piauí. Acusado de comunista, nos tempos da Ditadura de Getúlio Vargas, a polícia criminosa lhe impôs sofrimentos atrozes que o privaram do uso dos membros inferiores. Também honrou os quadros da Academia Piauiense de Letras e deixou descendentes educados, entre os quais a intelectual Lina Celso.

Sempre gostei dos Pinheiros, dos antigos e dos mais moços, com os quais mantive amizade sincera. Nunca me deslembrei do que o chefe da ilustre família fez por meu pai, ajudando-o nos estudos e possibilitando-lhe formar-se em direito, no Recife.

Nomeado para cargo público no Piauí, por concurso cursei a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro até o quarto ano. Transferi-me para idêntica escola superior em Teresina, para cursar o último ano. Completei em 16º da turma, a primeira depois da federalização do extinto estabelecimento de ensino. Eis os colegas: Afrânio Nunes, Alcebíades Vieira Chaves, Esdras Pinheiro Correia, José Barbosa, José Guilherme do Rego Monteiro, Manoel Paulo Nunes, Omar dos Santos Rocha, Raimundo Everton de Paiva e Sebastião de Almeida Castelo Branco - os vivos; João Lino de Assunção, Cristovão Alves de Carvalho, Manoel Teodoro Gomes, Jesus da Cunha Araújo, Raimundo Richard e Ernani de Moura Lima, falecidos. Todos vitoriosos como políticos, magistrados, procuradores, jornalistas, professores, escritores, advogados.

Entre os novos bacharéis, mais um descendente dos Pinheiro passou a participar de minha amizade e da minha admiração, Esdras Pinheiro Correio, estudioso, dedicado ao companheirismo, de atitudes francas e corajosas. Escolheu carreira exigente de determinação e sobretudo conhecimento e interpretação da lei - a carreira honrosa do ministério público. Promotor ativo e independente. Procurador de justiça, sempre desempenhou as funções sustentado do critério de servir racionalmente o direito, para alcançar a verdade que assegure as prerrogativas do homem e o equilíbrio da sociedade.

O trabalho sério com que tem sabido desempenhar as funções meritórias dos seus cargos conduziu-o a Subprocuradoria Geral da justiça, como se fora prêmio ao mérito. Agora pleiteia a Procuradoria Geral, com títulos de servidor consciente da lei, para vigiar-lhe a aplicação e exigir dos seus aplicadores a correta observação da sua letra e do seu espírito.

Esdras Pinheiro Correia merece o apoio dos promotores e procuradores do Estado, pois os colegas o conhecem e sabem que possuem, na sua formação, um fazedor de justiça, sobretudo.


A. Tito Filho, 13/09/1990, Jornal O Dia

sábado, 21 de janeiro de 2012

NARRATIVA

Mês passado, faleceu em Teresina Josípio Lustosa, meu conterrâneo de Barras, onde, na minha meninice, eu o conheci, na labuta de ganhar o pão diário. Comerciante modesto. Montou certa vez padaria - a Padaria Baliza, e um caboclo descalço, mal o sol abria o olho, manhãzinha, saia pelas ruas a gritar, na cidadezinha ainda quase adormecida - ÓIA OS POMBALIZA, arremedo de PÃO BALIZA. O arranjo um bocado profano do vendedor mexia com a santa moral das velhotas rezadeiras e das castas donzelas barrenses. O pão tornou-se maldito, recusado, a greve geral levou Josípio a fechar a pequena fábrica. Com a subida de Leônidas Melo ao governo do Piauí, veio ele para Teresina. gostava de mulheres. Não enjeitava rabo-de-saia e nunca negou a filharada que pôs no mundo sem as rezas da legitimação, com o registro de filhos naturais, numa época de preconceitos sociais absurdos, felizmente varridos das certidões cartoriais.

Josípio Lustosa venceu. Fiscal de rendas do Estado, o cargo mais ambicionado noutros tempos. Quando Petrônio Portella conquistou o governo, escolheu Cleanto Jales de Carvalho secretário da Fazenda e Josípio Lustosa diretor-geral do Departamento da Fazenda, cousa assim, mas os dois não se cheiraram bem, discreparam nos métodos e se desavieram, o que levou o último a exonerar-se.

Corria o ano de 1963. Petrônio estava de namoro político com o presidente João Goulart, enquanto Josípio rompera com o governante piauiense e o combatia ferozmente nas colunas do jornal "Estado do Piauí", de que era proprietário e diretor.

Chegou 1964. No dia do chamado movimento militar, o governador do Piauí emprestava irrecusável solidariedade a João Goulart, que, ao cabo de contas, padeceu deposição e retirou-se do país. Veio a famosa revolução redentora e a respectiva caça às bruxas, isto é, aos elementos comprometidos com Goulart, comunistas, esquerdistas, pelegos e outras denominações em voga. Josípio abria as torneiras jornalísticas para denúncias contundentes contra Petrônio, que resolveu processar o atacante usando a própria legislação dita revolucionária. Nomeou comissão de inquérito, integrada do Secretário da Segurança, do Comandante da Polícia Militar, do Procurador Geral da Justiça e mais uns dois, designando a composição pelos cargos, ou pelos que os ocupassem. Aconteceu que o Procurador Geral da Justiça era Darcy Araújo, amigo de Petrônio e de Josípio, não se sentia bem na função. Pediu licença. O substituto do licenciado no cargo e na comissão tinha o nome de Anísio Maia, mas estava afastado das boas graças oficiais. Não merecia confiança. Assim, o governador resolveu nomear para o lugar Antônio José da Cruz Filho, desrespeitando o próprio decreto governamental de substituição hierárquica.

A comissão de inquérito realizou os trabalhos e concluiu que Josípio praticara, no exercício de cargo público, atos censuráveis. Sugeriu a demissão a bem do serviço público, o que foi dito.

Josípio, uns meses antes, me havia dirigido ataques fortes no seu jornal. Mesmo assim, mandou pedir-me audiência. Recebi-o cordialmente. Desejava os meus serviços no remédio heróico do mandado de segurança. Acatei a questão. Fui vitorioso em liminar do relator no Tribunal de justiça do Piauí, desembargador Otávio Rego. Poucos dias depois, a maioria dos desembargadores me derrotava por 7 a 2. Recorri. Bati às portas do Supremo Tribunal Federal e ganhei o caso Josípio por unanimidade. Magnífico o voto de Evandro Lins e Silva como relator.

O movimento que derrubou Goulart proibiu que o Judiciário examinasse o mérito das acusações, mas lhe era permitido o exame das questões extrínsecas. Foi por onde ganhei. O Supremo não pôde julgar se eram certas ou erradas as acusações. Não consentiu, porém, que se anulasse o modo de compor a comissão de inquérito: o substituto do procurador geral da Justiça seria o 1º procurador da Justiça, no caso Anísio Maia, nunca o promotor Antônio José da Cruz Filho. Anulou-se o processo. Josípio voltou ao cargo de fiscal de rendas, recebendo os atrasados. Nada lhe cobrei pelos meus serviços.

Josípio foi simples, corajoso, honesto. Isto basta.


A. Tito Filho, 27/03/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

CONSTITUIÇÃO DE 1934

Para o pleito de 3.5.1933, inscreveram-se no Piauí cerca de 14 mil eleitores. Mais de 4 mil em Teresina, cabendo o 2º lugar a Campo Maior e o 3º a Picos. Às urnas compareceram quase 10 mil.

Organizou-se no Estado poderoso partido político - o Partido Nacional Socialista do Piauí, integrado de prestigiosas lideranças como Hugo Napoleão do Rego, Agenor Monte, Raimundo de Arêa Leão, Cláudio Pacheco Brasil, Francisco Freire de Andrade, Francisco Pires Gayoso e Almendra, entre outros próceres. Havia outras agremiações: a Aliança Piauiense e o Partido Republicano.

A 29.4.1933, poucos dias antes da eleição, houve sérias divergências no Partido Nacional Socialista do Piauí, que se dividiu, dele se afastando Hugo Napoleão e Raimundo de Arêa Leão; acompanhados de alguns correligionários.

Estabeleceu-se a Legenda Hugo Napoleão. Depois, esta ala divergente criaria o Partido Progressista Piauiense.

A Assembléia Constituinte reuniu-se a 15-11-1933 e a ela se submeteu o anteprojeto de Constituição elaborado por uma Comissão Especial de 12 membros, de que faziam parte nomes como Assis Brasil, João Mangabeira e Carlos Maximiliano.

Eleitos pelo Piauí Agenor Monte, Francisco Gayoso e Almendra, Freire de Andrade e Hugo Napoleão.

Para a Comissão dos 26, encarregada de examinar o projeto constitucional (um membro de cada Estado, um do Distrito Federal, um do Território do Acre e um de cada representante classista) foi indicado como representante do Piauí Francisco Pires Gayoso e Almendra. Observe-se que eram 20 Estados, na época.

Não houve eleição de senadores para a Assembléia Constituinte.

A Comissão Constitucional ofereceu substutivo ao trabalho do governo. Houve emendas, pareceres, discursos, redação final. A 16.7.1934 promulgava-se a nova Constituição da República.

Durante as atividades da Assembléia Constituinte tiveram constante atuação no plenário os deputados piauienses Hugo Napoleão (veementes críticas ao interventor federal no Piauí Landri Sales Gonçalves), Agenor Monte (problemas nordestinos em geral e defesa do governo Landri Sales Gonçalves) e Freire de Andrade (oportunas questões de saúde pública).

Para sanar desigualdades numéricas de representantes do norte e do sul, Hugo Napoleão ofereceu inutilmente a seguinte emenda, muito elogiada pela imprensa carioca: "O número de deputados de 8 para os Estados cuja população não ultrapassar um milhão de habitantes; de 12 para os que tiverem mais de um e menos de dois milhões de habitantes; de 16, para aqueles que tiverem mais de dois milhões de habitantes".

De acordo com a emenda do deputado piauiense, Mato Grosso, Sergipe, Espírito Santo, Goiás, Rio Grande do Norte, Piauí, Santa Catarina e Paraná elegeriam 8 deputados; Maranhão, Alagoas, Paraíba, Pará, Ceará, Distrito Federal e Rio de Janeiro, 12; Rio Grande do Sul, Bahia, São Paulo e Minas Gerais, 16.


A. Tito Filho, 22/03/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ALGUMAS IMPRESSÕES

ANÍSIO DE ABREU NETO, poeta, sim, dos grandes destes brasis, era dos filhos amados do Piauí. Morreu no Rio, novo ainda, pujante de grandeza artística. O irmão JEREMIAS pretendeu homenageá-lo, revelando-lhe aspectos dos ritmos novos e audazes que ele criou, em páginas que revelam formas entusiásticas de um esteta, em ritmos de graça e de elegância - versos sem pecado.

No saudoso conterrâneo, há sensibilidade opulenta e criadora. Sonoro, panorâmico, inquieto, audaz, pleno de ansiedade, soube imagens maravilhosas para cantar, como semeador de belezas, o seu nordeste, lendas, bichos, pássaros, amor, natureza, infância, da forma que se lê numa seleção de JEREMIAS PEREIRA DA SILVA, inteligência crítica aguda para efetivar escolhas, para discernir instantes de primor, para convocar trechos poéticos emotivos, como se modelados por um escultor de vocábulos.

Raros poetas têm a energia cósmica de ANÍSIO, compondo mensagens de esperança e de gestos fraternos, engrandecido das grandes solidariedades humanas. A sua poesia recorda tudo o que o poeta amou: o convívio com os outros, os momentos de choro, o rio o sol doirado, a saudade de toques sensuais.

ANÍSIO morreu. Tenho que ele antes da morte, inesperada, repentina, imposta pelo coração que fraquejou, haja recitado, nos últimos sopros de vida, os versos de João de Barros, o poeta da HUMILDE PLENITUDE:

"Que, mesmo à hora triste e sombria da Morte,
       seja a Morte mais vida - e se morra a cantar".

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Gosto muito de boa poesia, a que se faz com a alma das cousas, da infância e dos cenários que o homem guardou, como a poesia de arte verdadeira que Cid T. de Abreu compôs nesse encanto de MOENDA. Poeta é o que fala à alma da gente.

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Trabalho que se faz com gosto e sentimento, a história da Rádio no Piauí, projeto da Secretaria de Cultura, da Secretaria do Planejamento, da Fundação CEPRO e da Academia Piauiense de Letras, elaborado e organizado por três fortes inteligências, as de Francisco Alcides do Nascimento, Geraldo Borges e José Elias Martins Arêa Leão. A memória dos fatos passados alimenta espiritualmente o povo. Bom que se saiba como se fazia comunicação antigamente.


A. Tito Filho, 24/04/1990, Jornal O Dia

domingo, 8 de janeiro de 2012

MEMÓRIA

A memória das cidades se encontra nos documentos, entre os quais se incluem os livros, no documento oral de pessoas e nos monumentos, prédios e esculturas, sobretudo.

Teresina tem sido vítima da destruição ou modificação dos edifícios que bem a caracterizam no passado. Até as pracinhas de tanto lirismo se transformaram em locais de ajuntamento de marginais, como a Pedro II. a cidade sempre foi pobre nas homenagens a vultos que fizeram a sua história.

O primeiro monumento de Teresina constitui homenagem a José Antônio Saraiva, o fundador, uma coluna de mármore com inscrições latinas em que os piauienses manifestaram gratidão ao notável baiano. Confecção no Rio de Janeiro. Nos anos 20 fez-se o busto de Dom Pedro II, colocado na praça Rio Branco, mudado para a João Luís Ferreira e hoje situado no logradouro que tem o nome do primeiro monarca. Outros bustos se ergueram, como o de Coelho Rodrigues, o de Getúlio Vargas, do governador e interventor Leônidas Melo. A estátua de José Antônio Saraiva, na praça de nome idêntico, pertence ao primeiro centenário de Teresina, na administração João Mendes Olímpico de Melo.

Outras figuras ilustres homenageadas, como Henrique Couto, Teresa Cristina, a imperatriz do segundo reinado; o governador Antonino Freire, o presidente Floriano Vieira Peixoto, o baiano Zacarias de Góis e Vasconcelos, fundador do Liceu Provincial, em Oeiras, hoje com a denominação do criador; Cromwell de Carvalho, o segundo diretor da extinta Faculdade de Direito e que a dirigiu por anos a fio; o admirável poeta popular Domingos Fonseca; o imenso Dom Quixote, criatura de Cervantes, em magnífica escultura que Clidenor Freitas Santos colocou na frente do Sanatório Meduna; Santos Dumont, cujo nome se liga à história da aviação. O prefeito Wall Ferraz mandou fazer monumentos a Teotônio Vilela, senador alagoano; Dom Avelar Brandão Vilela, arcebispo de Teresina quase quinze anos; e a Frei Serafim de Catânia, o corajoso e piedoso construtor da igreja de São Benedito. Outro prefeito, Antônio Freitas Neto, não esqueceu os humildes e aprovou e inaugurou monumento de homenagem ao motorista Gregório, no local do martírio a que esse pobre cidadão foi submetido, numa triste manhã de 17 de outubro de 1927.

Ao tempo da segunda administração Wall Ferraz sugeri ao seu chefe de gabinete, advogado Renato Bacelar, que se fizessem esculturas de uns vinte bustos de poetas e prosadores de Teresina e colocá-los na praça Marechal Deodoro, recanto de cenários bonitos e líricos para abrigo dos criadores de arte literária. A mão-de-obra se confiaria a Murilo Couto, escultor piauiense de nobreza. Talvez os recursos financeiros da Prefeitura não tivesse sido suficientes para a expressiva recordação de nossos escritores notáveis.

Neste setembro de 1990, o prefeito Heráclito Fortes recebe o meu abraço e admiração e respeito pela homenagem que prestou à memória de Petrônio Portella, colocando-lhe a estátua num dos pontos centrais de Teresina. Falecido a 6 de janeiro de 1980, já tardava a manifestação de apreço a um político piauiense às portas de alcançar a presidência da República. O Piauí pratica pouco os deveres cívicos. A coletividade piauiense se deslembra facilmente dos seus homens públicos decentes. Expulsa-os cedo da memória geral. Pouco os que não esquecem a grandeza política dos que souberam dignificar a personalidade, por conta de gestos humanos e atitudes nobres.

Heráclito Fortes praticou atitude reta. Não foi político com Petrônio Portella mas a este prestou homenagem que outros já deveriam ter-lhe prestado, justamente aqueles que houveram benefícios e proteção de grande líder.


A. Tito Filho, 19/09/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

ROMÃO

Júlio Romão da Silva, fisicamente baixote, feio como diabo, toma posse numa das cadeiras da Academia Piauiense de Letras, próxima segunda-feira, 21 deste corrente mês de maio. Mereceu o ingresso na entidade imaginada e criada por Lucídio Freitas. Na amorável Teresina chorou a primeira vez, ao nascer, mais de setenta anos passados. Marceneiro de profissão, fazia apenas mesas e cadeiras, que vendia por alguns cobres com que pagava os amores de cunhãs safadas da beira do Parnaíba. Buscou outras terras. Ei-lo no Rio de Janeiro, onde o conheci na década de quarenta, feito funcionário público e já metido a escreve de estórias no jornalismo carioca. Aprendeu um bando de cousas no decorrer da juventude e da maturidade. Gostava da cana pau-pereira, e dela derramava na garganta boas lapiguachadas. Dançava samba na Lapa, o bairro central de mulatas boas e de malandros gigolôs. Compôs músicas carnavalescas, a exemplo de velhas cantigas como CARREGARAM O MEU PERU, CHAPA BRANCA e CARNAVAL NO BONDE. Gostava do cabaré Porto Rico, de mulheres caras, mas de carnes rijas. Freqüentou muito a Taberna da Glória, para os chopes e sanduiches da madrugada, convivendo com Orlando Silva, Blecaute, e jogadores famosos de futebol. Fez programa de rádio, com lorotas do Piauí. Jogou capoeira e tornou-se bailarino de gafieira. Iniciou vida literária. Participava de rodas de altas figuras como Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Lacerda, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Antônio Calado, Joel Silveira, Graciliano Ramos, Oscar Niemeyer. Escrevia em duas revistas célebres na época, "Vamos Ler" e "Dom Casmurro". Ganhou campeonato de bilhar e a amizade de José Lins do Rego. Ouviu lições do famoso Rondon, que o levou a tribos indígenas, para estudos. Aprendeu a Língua dos selvagens e andou pintando o sete na mata com princesas da selva. Fumou com os caciques o cachimbo da paz. Realizou cursos em universidades. Andou pelos Estados Unidos, na Califórnia, em companhia de Patrício Franco. Dedicou-se a escrever livros sobre assuntos de natureza vária. Memória histórica de Teresina. Os nomes tupis na toponímia carioca, obra que o governo da antiga Guanabara premiou. Luís Gama, o negro notável, teve nele o melhor critico literário. Promoveu campanhas cívicas em favor da abolição do preconceito e do racismo. Dedicou-se à arte teatral, influenciado de temas bíblicos, merecendo louvor da Academia Brasileira de Letras para a conquista do Prêmio Cláudio de Sousa, com a peça JOSÉ, O VIDENTE. Outra peça teatral de Romão tem o nome de A MENSAGEM DO SALMO, levada a cena mais de um ano nas casas de espetáculo do Rio de Janeiro. Ainda lhe sobrou tempo para cultivar a poesia, os temas filosóficos, a arte de bem dizer, na língua de certas nações indígenas, como os bororos. Jornalista, conferencista, filólogo. Escritor plural. Voltou a residir na terra onde nasce e nesta Teresina do seu chamego pretende trabalhar, e muito, no terreno cultural. Tenho-lhe amizade e admiração. Para coroamento de uma longa vida de lutas e diversidade de profissões, dançarino de gafieira, servidor público, professor, marceneiro, compositor musical, jornalista, escritor, faltava que fosse pastor, encargo que ele vem exercendo, para colocar ovelhas ruins no caminho certo da verdade e da vida. Júlio Romão da Silva é, em boa verdade, um dos melhores representantes da negritude nacional, um negro culto, genial, abundante de criatividade intelectual.


A. Tito Filho, 17/05/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

QUASE MARANHENSE

Um dia Carlos Castelo Branco veio a Teresina autografar o seu livro de análise e interpretação de episódios políticos e tormentos partidários que provocaram, em 1964, a nefasta quinta República. Na dedicatória do meu exemplar escreveu que eu havia renegado por herança a família Castelo Branco. Lembrou-se do nosso parentesco. Meu avô Silvestre Tito Castelo Branco andou de briga com os parentes e tirou dos filhos o nome de família, conseqüentemente dos netos também.

Recebi Carlos na Academia Piauiense de Letras, em 1984, e recordei esses fatos, e agora os revelo de novo na ocasião em que lhe são prestadas justas homenagens nestes seus 70 anos de vida, depois de muitas vitórias de muito se orgulha o humilde parente rabiscador das presentes considerações.

*   *   *

A 17 de janeiro de 1914, Cristino Castelo Branco casou-se com a prima Dulcila Santana Castelo Branco. Juntos viveram 69 anos e compuseram afetiva constelação de filhos. Um deles, Carlos, quase nascia do outro lado do rio Parnaíba.

No fim de outubro ou novembro de 1917, Cristino assumiu o juizado de direito do Brejo, no Maranhão. Desistiu da magistratura e regressou a Teresina dois anos depois, outubro ou novembro de 1919. Carlos nasceu a 25 de junho de 1920. Por poucos meses deixou de ser maranhense e quase teria o mesmo destino de Odylo costa, filho, que veio ao mundo na ilha de São Luis por virtude de presença paterna na magistratura do vizinho Estado.

Teresinense, nesta Chapada do Corisco, escolhida pelo baiano José Antônio Saraiva para edificar nela a Vila Nova do Poti, derribando a mataria e fundando a primeira cidade artificial do país, na Chapada. Carlos passou a infância e a adolescência, e nunca esqueceu dos seus hábitos, dos seus costumes e das suas lembranças. Ginasiano, participou de imprensa estudantil, jornalismo de idéia e fantasia.

Deixou Teresina em janeiro de 1937, deixando, como contou, uma novidade em caminho, o telefone. e escreveu: "Deixei a cidade impregnado dela, dos seus sonhos modestos e do amor à sua condição". No trem rumo a São Luís, saudoso, recitou Lucídio Freitas: "Teresina apagou-se na distância. Ficou longe de mim, adormecida/Guardando a alma de sol de minha infância/E o minuto melhor de minha vida".

Buscou outras paisagens. Deixava a paisagenzinha de Teresina de ruas empregadas, dois cineminhas, famosas casa de vida airada da rua Paissandu, rodas de calçada, em cadeiras desconfortáveis, para o falatório da vida alheia. Nove da noite, hora de dormir, mulher cansada e mulher donzela.

Estacionou em Belo Horizonte. Em 1939, repórter policial, tomou lições de mineirismos, mineirice e mineiridade. Aprendeu com os mineiros espertos a ouvir e a cochilar.

Depois, conquistou o Rio. Chegou ao "Jornal do Brasil". Projetou-se internacionalmente com a Coluna do Castelo; repositório de análise da vida política brasileira, homens e fatos, em mais de um quartel de século.

Deus o proteja na sua inteligência sem medo, sempre piauiense.


A. Tito Filho, 20/07/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

JOVITA

Jovita Alves Feitosa, cearense de nascimento, vivia em Jaicós (PI). Tinha 17 anos quando se apresentou em Teresina, como voluntária para a guerra do Paraguai. Seguiu da capital do Piauí para o Rio em 1865. Multidão aclamou-se em São Luís. À noite, homenagem no teatro e aí coberta de flores. No Recife, a recepção esteve mais intensa. Na Bahia, a mesma cousa. Hospedou-se no palácio da presidência da província. No Rio, recebida com muitas festas. Mas o governo não permitiu a sua ida para o teatro da guerra, como militar. Voltou ao Piauí. Mal recebida pela família em Jaicós, regressou ao Rio. Iniciou relações com o engenheiro Guilherme Noot, que teve de retornar à Inglaterra, deixando-lhe bilhete de despedida. Jovita procurou a residência do amante e lá soube que era verdadeira a viagem para a Inglaterra. Foi ter ao quarto em que ele residiu. Horas depois, a empregada da casa encontrou-a na cama, deitada, com a mão sobre o coração, no qual havia cravado um punhal até o cabo.

A peça teatral "Jovita ou a heroína de 1865" foi concebida em três atos: o 1º, de cenário em Jaicós-PI, publicou-se com o título original de "Pelo amor e pela pátria"; o 2º, e o 3º tiveram os títulos de "Aos braços de Henrique ou aos braços da morte" (cenário em Teresina) e "Saiba morrer a que viver não soube" (cenário do Rio de Janeiro), respectivamente.

O drama histórico de Jônatas Batista encenou-se no Teatro 4 de Setembro, da capital piauiense, a 19.04.1914, nos seus três atos. Papel principal: artista Nena Pimentel, que representou Jovita. O autor fez as vezes de Anacleto Ferreira.

Infelizmente se perderam os dois atos complementares da peça, baseados na vida dessa cearense dos Inhamuns, que, aos 16 anos, passou a viver na vila de Jaicós, com um tio de nome Rogério. Pretendia estudar música. Arrebentando a guerra do Paraguai, a jovem vestiu roupa de homem, cortou os cabelos, cobriu a cabeça de chapéu de couro, e viajou sozinha para a Teresina. Na capital, procurou as autoridades. Queria alistar-se como voluntária da pátria, e seguiu com o segundo corpo de voluntários com destino ao Rio de Janeiro.

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Ilustrados historiadores se preocuparam com a história de Jovita Alves Feitosa, da forma que fizeram o pernambucano Pereira da Costa e os piauienses Fernando Lopes e Silva Sobrinho, padre Joaquim Chaves e Humberto Soares Guimarães, para citar alguns.

Delci Maria Tito, faz algum tempo, vem pesquisando dados sobre mulheres que se tornaram notáveis em atividades políticas, educacionais, religiosas, assistenciais, literárias, ou que participaram de episódios históricos do Piauí. Trata-se de trabalho original, que ela pretende realizar com os dados biográficos e a obra fundamental prestada à sociedade a que cada uma dedicou esforços constantes, iniciando-se com Jovita Alves Feitosa, originária dos Feitosas do Ceará, a valente taba dos Feitosas, de que se têm ocupado escritores como Gustavo Barroso.

Teresina viveu noites animadas, mais de uma vez, no Teatro 4 de Setembro lotado, nas apresentações da peça histórica sobre o drama dessa infeliz sertaneja, de autoria de Jônatas Batista, de grande e merecida popularidade na época em que foi o principal animador, ao lado de Pedro Silva da vida teatral teresinense.


A. Tito Filho, 29/12/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

JARRINHA

Chamava-se João Miguel Jarrinha, o jarrinha, como era conhecido de todos. Baiano de nascimento. Idoso. Popularíssimo. Viúvo. Pobre. Antigo professor público jubilado. residia sozinho em Teresina, mais de noventa anos passados.

Um feio dia encontraram-no morto, na rede da dormida, assassinado, o frontal despedaçado por forte bordoada de pulso rijo.

O crime abalou a cidade tranqüila. Levantaram-se conjecturas. O morto não tinha inimigos. Freqüentava as melhores rodas da cidade. Votava grande culto à formosura das mulheres. Amor platônico. Publicava o jornal de sua propriedade, intitulado "O Lacrau".

Na noite do crime, conforme se supunha, recolheu-se cedo à residência, pois dele se notou ausência em certos pontos em que habitualmente comparecia.

A polícia voltou atenções para Raimundo, de menor idade, que morou com Jarrinha algum tempo e a quem a vítima dedicou grande afeição. O outro suspeito para os policiais foi Higino Pereira de Araújo, músico e sapateiro, com quem Jarrinha tivera discussão por causa de um par de botinas, que não saíra nos conformes do contrato.

Raimundo contou que estivera com Jarrinha na véspera do acontecido em companhia de um colega e o vira adormecido numa rede, na sala de jantar. Acordou-o e com ele manteve rápida conversação, retirando-se com o amigo, que tudo confirmara.

Higino encontrava-se em Campo maior. De viagem para a cidade pernoitou com os companheiros em caminho, o que foi provado.

Higino Cunha, mestre ilustre e jornalista famoso, narrou que a polícia prendeu Raimundo, submetendo-o a suplícios. Extorquiu-lhe a confissão do crime. Embora menor, não teve curador idôneo. O júri condenou-o a dezesseis anos de prisão. Não houve apelação da sentença. A pena foi cumprida integralmente na velha penitenciária de Teresina.

O povo, porém, julgava que Raimundo fora vítima de clamoroso erro judiciário e sempre desconfiou de Higino, que anos depois de cumprida a sentença, adoeceu, febre e calafrios, segundo João Pinheiro, atendeu a pedidos e submeteu-se a confissão religiosa: "Mas ao terminar a confissão lhe declara peremptoriamente o sacerdote que não o absolveria, sem que ele, em presença de testemunhas, revelasse o que lhe referia, uma vez que disso dependeria a reabilitação de um inocente".

Levado maneirosamente pelos bondosos conselhos do confessor - narra João Pinheiro - com surpresa de quantos o ouviam, numa voz estertorante e panosíssima, revelando o mais profundo arrependimento, confessou que, por causa de pequena desavença que tivera com Jarrinha, resolvera assassiná-lo, o que, realmente, num momento de irreflexão, levara a efeito sem comprometer-se, aliás, porque, partindo, em certa ocasião em companhia de diversas pessoas, para Campo maior, à noite, enquanto aquelas dormiam, distante algumas léguas, regressara a Teresina, onde efetuaria o crime sem nenhuma dificuldade, porque, encontrando aberta a porta da rua e Jarrinha adormecido, descarregara-lhe, sobre o crânio, forte bordoada com uma acha de lenha que apanhara na cozinha e voltara a agasalhar-se entre companheiros que jamais suspeitaram da terrível verdade.  

Depois - termina João Pinheiro - como se nada mais devesse acrescentar, cerrou os olhos e faleceu imediatamente.

José Maria da Silva, em 1929, escreveu no jornal "Estado do Piauí" que Higino jamais fez a confissão que lhe atribuíram. Morrera inconscientemente de insulto cerebral, sem fala. O próprio padre Fernando, só depois de muita relutância, consentiu em acompanhar-lhe o enterro, porque Higino morrera sem confissão.

Com quem a verdade? Quem matou Jarrinha?


A. Tito Filho, 18/04/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

CONGRESSO - 1935

O Congresso Nacional se instalou solenemente, para a primeira legislatura, a 3.5.1935.

Dia 27.11.1935, os comunistas assaltaram aquartelamentos militares do país. No ano seguinte, prisão do chefe comunista brasileiro Luís Carlos Prestes e de vários deputados, concedendo a Câmara licença para processá-los.

A 10.11.1937, Getúlio Vargas outorgou nova Constituição ao país, dissolveu o Congresso Nacional e continuou no exército da Presidência da República. Inaugurava-se severa ditadura, de rigorosa censura à imprensa e perseguição aos adversários do novo regime, denominado Estado Novo.

A Constituição de 1937 estabeleceu para a Câmara dos Deputados legislatura de 4 anos e que os representantes do povo seriam eleitos indiretamente pelos vereadores municipais e 10 cidadãos eleitos por sufrágio direto no mesmo ato da eleição da Câmara Municipal. O número de deputados será proporcional à população e fixado por lei, não podendo ser superior a 10 nem inferior a 3 por Estado.

Em lugar do Senado, a Carta totalitária instituiu o Conselho Federal, composto de um representante de cada Estado e de 10 membros nomeados pelo presidente da República. Mandato de 6 anos.

De 1937 a 1945, não houve eleições no país, diretas ou indiretas, para o Congresso Nacional. As disposições sobre o assunto, inscritas na Constituição de 1937, não tiveram cumprimento.

Pressionado por fortes correntes de opinião pública, o presidente Getúlio Vargas baixou a Lei Constitucional nº 9, de 1945, convocando eleições e estabelecendo a legislatura da Câmara dos Deputados (4 anos). Reafirmou-se a criação do Conselho Federal, composto de 2 representantes de cada Estado e do Distrito Federal com mandato de 6 anos. As eleições foram designadas para o dia 2.12.1945, inclusive a de presidente da República. Processo direto e secreto em todos os pleitos.

A 29.10.1945, as Forças Armadas derrubaram o presidente Getúlio Vargas e entregaram o Governo ao ministro José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal. As leis Constitucionais 13 e 15 de novembro, disciplinaram a convocação de nova Constituinte.

Surgiram várias agremiações partidárias, entre as quais o Partido Social Democrático (PSD), a União Democrática Nacional (UDN), o Partido Trabalhista Brasileira (PTB), o Partido Comunista do Brasil (PCB), o Partido Republicano (PR), o Partido Libertador (PL).

Com o apoio de Getúlio Vargas, do PSD e do PTB, elegeu-se presidente da República Eurico Gaspar Dutra, derrotando os outros 3 candidatos - Eduardo Gomes (UDN), Yedo Fiúza (PCB) e Mário Rolim Teles, do Partido Agrário Nacional.


A. Tito Filho, 24/03/1990, Jornal O Dia