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terça-feira, 1 de novembro de 2011

RECORDAÇÕES

Meu pai e Eurípedes de Aguiar muito se estimavam. As vicissitudes da vida e os deveres da solidariedade estabeleceram entre ambos sólida amizade, que os anos não arrefeceram, antes aprofundaram, e o fato fez que eu tivesse no incontestável homem público um amigo certo, a quem ofereci admiração e respeito. Com a subida de Rocha Furtado ao governo, as figuras mais ativas de O Piauí, Eurípedes, Martins Vieira e Ofélio Leitão receberam cargos oficiais, como auxiliares da administração que se inaugurava. Afastaram-se do jornal, cuja direção Eurípedes me entregou, e pude desempenhá-la com leal observância dos princípios partidários. Transmitia-a, de ordem, ao poeta José Severino da Costa Andrade.

Em maio de 1947, tive nomeação como delegado de polícia da capital. Por esta forma passei a trabalhar com Eurípedes, chefe de Polícia, e nas funções me conservei algum tempo.

Privei com Eurípedes no jornal e nos encargos do xerifado. Dele recebi conselhos e proveitosas lições de experiência. Nunca o vi covarde, nem prevalecido de prestígio para perseguir ou humilhar. Uma feita me ensinou que a gente deve gastar tempo, tinta e papel para se defender de ataque inimigo pelo jornal. Antes se ataca com mais violência o diatribista.

Eurípedes não tinha ódio a ninguém. Apenas - me contou certa vez - nunca perdoaria maldade que certo cidadão lhe fizera, desnecessariamente. Jamais o havia perseguido, mas nunca praticaria gesto que o beneficiasse. Quando Rocha Furtado pretendeu premiar essa conhecida figura, Eurípedes, como secretário geral do Estado, recusou-se a assinar o ato. Não houve o benefício. Disse-me Eurípedes: "Esperei-o anos a fio, detrás do pau, cacete em punho. Chegada a hora, dei-lhe a cacetada merecida".

Eurípedes era doutor em assentar apelidos gostosos e sarcásticos nos adversários: Soim da Prefeitura, Cascavel de Quatro Ventas, Carregador de Piano - e outros que depressa caíam no agrado popular e se tornavam obrigatórios nas palestrações de praça e na linguagem debochativa dos jornais. Para que se compreendam essas irônicas alcunhas torna-se necessário conhecer as personagens que elas batizam, pois os ditos se ajustam ao modo de ser de cada um.

De igual modo, processava-se a vingança adversária. Poucos homens públicos tiveram tantos batismos grosseiros e jocosos como ele. Urso Branco, Euripão, Macacão dos Matões, Gostosão da Vicença, para citar alguns.

Presenciei episódios em que se envolveram Eurípedes e gente que com ele não simpatizava, a exemplo de Edgard Nogueira e Humberto Reis da Silveira, casos de desfechos gozados. Raros jornalistas e homens públicos conheci com tanto humor, tanto sal de espírito, a serviço de fina ironia e contundente sarcasmo. Mas nele coexistiam a honestidade, o brio, o destemor, a paixão de ideais nobres. Honrou os cargos que lhe foram confiados, pelo voto ou pela vontade de governantes.

Vários companheiros de luta participaram da via de Eurípedes, como Ofélio Leitão, uma das penas mais fortes e admiradas da imprensa piauiense, pelo asseio da frase, expressão bem construída, afirmação de coragem. Dono de boa e séria leitura. Professor culto, antigo procurador geral da Justiça, durante anos exerceu funções advocatícias no Banco do Brasil, e que dedicou honestas conhecimentos jurídicos. Cidadão simples, de palestra alegre e jovial, muito amigo do próximo, bondoso com os pequenos, de humanos pecados, da forma que se revelam os construídos do barro bíblico, proprietário, entretanto, de um bocado de virtudes espirituais.


A. Tito Filho, 08/12/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

CUNHA E SILVA - II

Cunha e Silva (1, 2) veio de Amarante, terra piauiense do seu nascimento, em 1947, ano em que subiu ao governo do Piauí o médico José da Rocha Furtado, eleito pela antiga União Democrática Nacional, a mesma agremiação partidária do professor recentemente falecido. Antes, em 1935, acusado e processado, teve condenação como comunista pelo extinto Tribunal de Segurança Nacional. Cumpriu mais de um ano de pena na velha e demolida Penitenciária de Teresina.

Conheci-o no Jornal do Piauí, órgão de imprensa do governo, cuja direção me havia sido confiada por Eurípedes de Aguiar. Mestre Cunha me aparecia duas, três vezes por semana. Levava-me artigos assinados, uns de doutrina, outros de severas críticas ao Partido Social Democrático, de oposição.

Nessa época, o governo lhe confiou uma cadeira de Geografia no Colégio Estadual, antigo Liceu.

Não permaneceu muito tempo nas hostes governistas. Era jornalista de linguagem forte, às vezes agressiva, e gostava muito de proclamar as suas verdades. Rompeu com o governador Rocha Furtado e perdeu o cargo no magistério. A política da época não admitia censuras de amigos ou adversários. A punição não falhava. Os rebeldes perdiam o emprego público, tivessem ou não responsabilidades de família...

Pobre e carregado de filhos pequenos, sem casa própria, Cunha e Silva suportou severa adversidade. Ajudavam-no alguns amigos e colegas. Conheceu de perto duras e pesadas aflições. Mas não dava tréguas ao governo. Escrevia sempre artigos contundentes, violento contra o governante e seus auxiliares. Conseguiu modestíssimo lugar no antigo Fomento Agrícola. Trabalhava na Granja Pirajá, bem distante de sua residência. Brevemente se aborreceu do emprego e largou-o para suportar novas pesadas vicissitudes.

Tinha ânimo forte. Não abaixava o topete. Com a vitória de Pedro Freitas ao Governo do Estado, mereceu duas cadeiras no magistério de geografia e história, no Liceu e na Escola Normal. Passou a ganhar sofrivelmente. No Governo Petrônio Portella, foi escolhido para cargo em comissão, de diretor da Casa Anísio Brito, de que em pouco se exonerou para prestar solidariedade a amigo desavindo com o governador.

Os anos a pesar-lhe o organismo sofrido de muitas lutas. Não arrefecia, porém. Escrevia e lecionava. No Governo Chagas Rodrigues teve a nomeação como diretor do Colégio Estadual. Depressa deixou as funções em protesto contra o juiz da capital que concedeu mandato de segurança a um professor por ele punido.

Os princípios da velhice e depois fizeram que serenasse mais as atitudes. Disciplinou-se. Ingressou na Academia Piauiense de Letras, que lhe publicou duas obras elogiadas, "A República dos Mendigos" e "Copa e Cozinha", ambos de crítica aos costumes sociais e políticos de Teresina.

Muito sofreu. Muito se realizou, combatendo os poderosos sem temer violências ou perseguições.


A. Tito Filho, 11/02/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ALVINA

Todos os conheciam em Teresina. Técnico competente e afamado. Veio da terra do nascimento, Portugal, antes da 1ª Grande Guerra, e fixou-se em Belém. Depois, contratado pelo governo do Piauí, assistiu no interior piauiense, município de Oeiras, para montar máquinas de fabricação de laticínios.

Por muito chão - Pará e Terra de Mafrense - gastou dez anos de vida, a partir de 1912, e escolheu a Chapada do Corisco, a cidade fundada por Saraiva, para, em 1922, nestas de funilaria, até a viagem derradeira, no ano da graça de 1953 - a viagem sem bilhete de volta. Trinta e um anos de xodó e de amigação com a comunidadezinha simples e humilde, a que ele oferecia a constância de gestos de afeto, socorrendo os velhos com dinheiro e refeições.

Chamou-se Pedro Antônio Maria Fernandes, conforme o assento de cartório. Ao chegar ao Brasil, as autoridades viram a palavra Pedro entre parênteses no final do nome todo, então quiseram que ali estivesse o antenome ou pronome.

Não corrigiu o equívoco. E Pedro ficou como designativo de família.

Antônio Fernandes Pedro exercia a indústria e o comércio numa casa do centro de Teresina, esquina com o antigo Banco do Brasil, na rua Eliseu Martins, perto da praça Rio Branco. Era um prédio baixo, atijolado, bem limpo, em que o dono tinha também o reto agasalhador. Num dos lados, o que dava para a rua Barroso, havia a loja de venda dos objetos por ele fabricados - e aí se reuniam os comandantes intelectuais do meio, de amanhã e de tarde - e como Antônio Pedro lhes apreciava a convivência diária, para o cafezinho e boa prosa ilustrativa, alegre e folgozã. Esmaragdo de Freitas, Cromwell Carvalho, Mário Baptista, Higino Cunha, Celso Pinheiro, Martins Napoleão, Pedro Britto, Cristino Castelo Branco, Luiz Mendes Ribeiro Gonçalves, Simplício Mendes, Benjamin Baptista, Álvaro Ferreira, Arimathéa Tito, Artur Passos e muitos ouros - magistrados, médicos, poetas, historiadores, políticos, gente fina, fizesse sol ou deixasse de chover, não dispensavam o bate-papo com o funileiro, do modo que afetivamente era chamado o português de bom caráter e excelente camaradagem, de agudo senso intelectivo, trabalhador, alma feita de fraternidade.

Alvina Fernandes Gameiro teve para quem puxar o gosto pelas cousas do espírito. Filha de Antônio Pedro, como o pai, desde meninota gostava de tudo que proviesse da inteligência.

Alvina publicou agora Curral de Serras, obra-prima da literatura nacional, em primorosa edição de editora carioca.

O ponto alto deste Curral de Serras é a fixação da linguagem desses trechos humanos sem contatos com o processo e com as transformações dos modos de viver dos povos.

A linguagem dos homens se manifesta por processos vários. Há a literária, polida, asseada, rica, regida por preceitos gramaticais, existe a usual, despoliciada, de todas as horas, a linguagem chã, planiciana, de estragos fonéticos, governada pelo menor esforço, aquela que é o veículo de entendimento geral. Adiante linguagem dos gestos - dos dedos, da cabeça, do piscar de olhos. E ainda a gíria, por via da qual o povo ironiza pessoas e episódios, e estabelece relações entre os objetos, a gente e os fatos. E mais: o processo da linguagem emotiva e o do calão. E também uma maneira especial de comunicação, de causas profundas - um modo de ser representado pelo linguajar das pequenas paisagens populacionais, de reduzidas comunidades de povo, de lugarejos e vilas - um processo alatinado, cheio de encanto, de originalidade, de sabor ingênuo, conservado, inconscientemente, durante anos a fio, pelos habitantes desses arraiais, em virtude da segregação e da distância.

Alvina "fotografou" essa linguagem que se mantém no caipira, no matuto - e a grande escritora oferece mais ao leitor: um correto glossário, de natureza explicativa, tão íntegro quando a ciência que a autora tem do material lingüístico estudado.

Raras vezes a vida literária nacional recebe obra de lavor e de encanto, a modo deste Curral de Serras, romance ímpar, obra-prima de criatividade e documento da expressão sincera do caboclo nordestino.


A. Tito Filho, 14/10/1990, Jornal O Dia

domingo, 9 de outubro de 2011

FIGURA EXEMPLAR

Edmée Rego Pires de Castro tem estudo valioso sobre a poesia e sobre compor versos líricos de muita arte e expressividade. Dela recebo bem redigidas letras com o título ESTEIRA LUMINOSA, nestes termos:

"Tomei conhecimento de um acontecimento marcante na vida católica de nossa cidade, através de Notícias Acadêmicas, informativo da Academia Piauiense de Letras. Na coluna sob o título Notícias, li que Monsenhor Antônio Sampaio da APL, estará em Fátima, Portugal, para um retiro espiritual comemorativo dos seus 50 anos de sacerdócio.

Monsenhor Antônio descende de tradicional família católica. Seus pais foram Firmino como era chamada afetuosamente, senhora distinta, admirada por suas peregrinas virtudes.

Monsenhor Sampaio nasceu nesta cidade, aqui fez o curso primário e iniciou o curso secundário no ex-Ginásio Parnaibano. Logo após ingressou no Seminário de S. Luís, no Maranhão. Ordenou-se em Teresina, no dia 8 de dezembro de 1940 e celebrou a primeira Missa, em nossa Catedral de N. S. da Graça, o que foi motivo de regozijo para todos os fiéis, que participaram com fervor da festiva celebração.

Vale ressaltar o seu perfil de homem dedicado ao serviço de Deus, afável, acolhedor, sempre amigo encaminhando o povo católico para trilhar as sendas da vida cristã, não só quando vigário de nossa Catedral, mas também como diretor espiritual, conselheiro e juiz. "Feliz aquele que encontra um amigo e conselheiro prudente e fiel. Encontrou um tesouro". Pregador de retiros espirituais, orador sacro, suas pregações em linguagem pura, nítida, admirável e suave orientam as almas indicando o caminho da salvação. Professor insigne, atualmente dedicado ao ensino dos jovens vocacionais no Seminário Diocesano. É Administrador Apostólico desta diocese, pela palavra, pela pena e pelo exemplo dignifica o cargo que ocupa na hierarquia da Igreja.

Para os que têm fé há diferença entre um sacerdote e um leigo, embora tenham pontos em comum. Um sacerdote é um homem semelhante aos outros pela sua natureza, é um cidadão de seu país, fala a mesma linguagem, mas está afastado do mundo por uma educação especial, hábitos e costumes são diferentes, não são idênticos aos das pessoas do século. Ele recebeu uma consagração que o distingue dos outros homens e o tornou "homem de Deus para sempre" com o caráter indelével. É um ministro sagrado, é um membro docente da Igreja. "É a voz que clama no deserto" para quem quiser ouvir. Só ele tem essa missão e graça clamando pela justiça, misericórdia contra toda a iniqüidade, sempre interessado em tudo que diz respeito à felicidade temporal e eterna dos seus concidadãos.

Assim é Mons. Antônio para o povo de Deus que o estima. Desde a juventude até hoje, tem permanecido constante e infatigável na sagrada peleja. Em Fátima, em retiro espiritual, acompanha-o a oração dos fiéis em uníssono dando hosanas ao Senhor, pela passagem do seu jubileu sacerdotal e pedindo a Deus que derrame bênçãos especiais na esteira luminosa de seu sagrada ministério. E aos pés da Virgem, contrito e fiel, pode suplicar como o salmista:

"Deus, desde a juventude me ensinaste/ proclamei até hoje teus prodígios / e que eu possa Senhor, anunciar / as gerações vindouras teu poder!".


A. Tito Filho, 11/12/1990, Jornal O Dia

NOTINHAS

O frade franciscano Heliodoro Maria de Inzago assumiu a direção da paróquia de São Benedito de Teresina por duas vezes: de 1939 e 1945 e de 1952 a 1956. Tive a satisfação de expressar os sentimentos dos teresinenses quando ele retornaria à sua distante Itália, onde morreu bem idoso e cujos ossos jazem no cemitério de Bérgamo.

Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, viveu em doação aos humildes, aos pequenos, aos sofredores. Socorria os miseráveis e confrontava os enfermos. Instituiu a distribuição semanal de comida aos famintos. Sentia as desigualdades nas mesmas criaturas de Deus: enquanto uns poucos praticavam estroinices, no mau uso dos dinheiros mal ganhos, e dissipavam lucros fabulosos indiferentes aos dramas sociais de dores e sofrimentos, milhões padeciam fome, andavam maltrapilhos, moravam em tugúrios desumanos. Ao frade virtuoso cabia o apelo aos ricos para que se lembrassem dos deveres cristãos de querer bem ao próximo, e conseguia, pela graça da fé, minorar as aflições dos deserdados.

Num livro-ensinamento, outro frade sincero e bom, dedicado e justo, Antônio Kerginaldo Furtado da Costa Memória, o popular e simpático Frei Memória, que conviveu com os teresinenses de 1979 a 1981, num estilo agradável e simples, linguagem asseada e pura, conta a vida, os esforços e relembra os sentimentos magníficos de Frei Heliodoro, que mais do que ninguém ensinou humildade aos homens. No trabalho existem as lições e os exemplos da fé, como se fossem uma ajuda à educação para a vida. Lançamento da Academia Piauiense de Letras.

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Sempre gostei de estórias de caçadas. Leonardo mota contava-se com modos de doutoramento no assunto. Cornélio Pires escreveu livro sem defeito na fixação de casos mineiros da arte venatória - "As Estrambólicas Aventuras de Joaquim Bentinho".

Contar acontecidos nas matas em busca de bichos supõe antes de tudo conhecimento dos segredos desse tipo de trabalho ou diversão: instrumentos, objetos, armas, rastreação, hábitos dos animais, tipos de árvores, locais de espera, ruídos, anúncios da natureza, assim como um conjunto de princípios sérios para o exercício do mister perigoso, que supre a despensa do roceiro ou provoca divertimento aos diletantes.

Nestas páginas de Heitor Castelo Branco Filho executa narração deliciosa, viva, alegre, sobre peripécias de uma caçada nas bandas do sul do Piauí. Ele e os companheiros simples e amigos realizam proezas de caçadores inveterados ou de simples comedores de caças abatidas nas matas sertanejas. Hilariantes episódios conferem mais entusiasmo à leitura que a gente faz de fio a pavio. Lançamento da APL em abril.


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O Des. Sátiro é cearense de Tauá. Nasceu a 12 de janeiro de 1907. Filho de Jaime Martins Nogueira e Josefa Alexandrino Nogueira. Formado em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Promotor Público de Picos em 1932. Nesse mesmo ano ingressou na magistratura, tendo sido juiz em Caracol, São Raimundo Nonato, Jaicós, Picos e Teresina. Desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí. Professor Catedrático, concursado, da Universidade Federal do Piauí.

Escreve com segurança. Português castigo. Saem-lhe espontâneas as narrativas de episódios, os da infância e da adolescência, como outros conhecidos da sua vivência nos sertões onde viveu alguns anos no convívio dos seus. Notável poder descritivo, reproduz cenários servido de rara fidelidade. Estilo seco, desenfeitados, sabe o clássico na construção exemplar das expressões. Lançamento da APL.


A. Tito Filho, 30/03/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

CAVALOS

O cavalo pertence à história social e política dos povos. Está na mitologia dos gregos e dos romanos. Os césares conquistavam terras e gentes sobre quadrúpedes de grande porte. Um deles, débil mental, nomeou a sua montaria preferida senador ou cônsul do Império. A viagem a cavalo se fazia pelos antigos em longos percursos, no lombo dos bichos, homens e mulheres. No oeste dos Estudos Unidos, nos tempos da violência, só se respeitavam cavalos e rabos-de-saia. A nossa Dora Parentes, em maravilhosos e eróticos quadros de pintura, sempre junta cavalos e filhos-de-eva, num relacionamento sexual de intenções, segundo Freud.

Na Teresina do século XIX, haviam sujeitos que alugavam cavalos para passeios na cidade. Era de ver o soçaite do tempo mostrando habilidades em cima do potro amestrado.

Em 1972 surgiu o primeiro Jóquei Clube, cujo objetivo essencial estava na corrida de cavalos. A entidade assim era dirigida: presidente, Manuel Castelo Branco. Secretário, Heráclito Sousa. Tesoureiro, Pires Gaioso. Hipódromo na Vila Santos. Primeiras disputas no Dia da Pátria. Primeiro páreo, venceu o cavalo Argus, 500 m, prêmio de 150$000 (cento e cinqüenta mil réis). Segundo páreo, cavalo Libertador, 600 m, 200$000 (duzentos mil réis). Terceiro, Fidalgo, 700 m, 300$000 de prêmio. Quarto, Mister Bris, 800 m, prêmio de 600$000 (seiscentos mil réis). Quinto páreo, Danilo, 700 m, prêmio de 500$000. Juízes de partida, Teivelino Guapindaya e Daniel Paz. juízes de arquibancada: Joel Sérvio, Martins Napoleão e Delfino Vaz. Juízes de chegada: João Martins do Rêgo e Raimundo de Arêa Leão. Diretor da casa de pules: Heráclito Sousa. Diretor do bar: Zoroastro Melo, Diretor-Geral das corridas, Manuel Castelo Branco.

Não progrediu esse primeiro prêmio cavalar. Deve ter sucedido alguma coisa que acabasse as corridas dos bons quadrúpedes na cidade de José Antônio Saraiva.

Em 1939, porém, houve quatro vibrantes páreos comemorativos do 7 de Setembro, corridas na zona da estrada de ferro. Proprietários dos corredores: Mariano Gayoso Castelo Branco (Packard), Waldir Gonçalves, que possuía dosi animais, Garapu e Dourado; Jacob Castelo Branco (Hockey), Antonino Barros (Faraó), João Clímaco d'Almeida (Cateretê). Juízes, Mariano Gayoso Castelo Branco, José Olímpio de Melo e João Clímaco d'Almeida.

Parece que os cavalos não davam no couro. Cansavam depressa. Corriam debaixo de cipó.

Depois de 1950, a visão de Octávio Miranda rasgou a mata e fundou o Jóquei Clube, o segundo com este nome. Fez o hipódromo. E inaugurou as corridas de eqüinos nos dias de domingos. Animadas tardes. Mas os pangarés não agüentavam, caíam pelo meio do caminho, na pista. Os bichos não bebiam leite. Pelo menos houve a tentativa, que se teria desenvolvido, pois essa atividade desportiva pode ser muito rendável.

O Jóquei clube de Teresina tem natureza singular. O único no mundo em que não há corridas de cavalos. Vive de cachaçadas, das carnes assadas, das festanças carnavalescas nas quais impera o desnudamento quase generalizado das fêmeas bonitas.

A história do cavalo e das corridas de tal bicho em Teresina corresponde a uma das páginas significativas da vida social da cidade-capital. Outros que a pesquisem e narrem, antes que a memória das cousas seja destruída pelos ventos da ignorância generalizada.


A. Tito Filho, 08/01/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

MESTRE CUNHA - I

A 4 de fevereiro deste ano faleceu o velho mestre Cunha e Silva, Francisco da Cunha e Silva, nascido em Amarante (PI), a 3-8-1904. Pais: Manoel Alexandre e Silva e Cândida da Cunha e Silva. Estudos primários na terra natal. Aluno do Colégio Bento XV (Teresina). Fez estudos preparatórios e filosofia no Colégio Salesiano Santa Rosa, de Niterói (RJ). Em 1923, escolhia a carreira eclesiástica, matriculando-se no Colégio Salesiano São Manuel, de Lavrinhas, Estado de São Paulo, no qual realizou o quinto ano secundário para se aperfeiçoar no estudo de latim. No ano seguinte, concluiu o noviciado. O Colégio São Manuel funcionava também como seminário e, assim, em 1925, concluiu o curso de filosofia. Como não tinha vocação para o sacerdócio, regressou ao Piauí para rever a família, viajando para o Rio de Janeiro em 1926, onde se casou. Voltou ao Piauí em 1927. No ano seguinte, lecionou português, história e geografia no Ginásio Amarantino, fundado por Odilon Nunes, e iniciou colaboração no jornal "O Floriano", da cidade do mesmo nome (PI). Em 1932, em Amarante, criou educandário com o nome de Ateneu Rui Barbosa, que funcionou até 1947, quando passou a residir na capital do Estado. Professor de geografia do Brasil no Colégio Estadual do Piauí, hoje Colégio Zacarias de Góis. Colaborador, redator e depois diretor de "O Piauí". Diretor de "Resistência". Colaborador de "A Gazeta", "O Tempo", "O Dia", "Jornal do Piauí", "A Luta", "O Pirralho". diretor da Casa Anísio Brito (Biblioteca, Arquivo Público e Museu Histórico do Piauí), na administração Pedro Freitas. Professor, por concurso, de história do Brasil da Escola Normal Antonino Freire. Diretor, durante um ano, do Colégio estadual do Piauí, hoje Zacarias de Góis, na administração Chagas Rodrigues. Orador, teve participação em memoráveis campanhas políticas. Durante quatorze anos, professor no Ginásio (hoje Colégio) Desembargador Antônio Costa, lecionando português, francês e geografia geral. Há doze anos colabora no "Estado do Piauí". Pertenceu ao antigo Cenáculo Piauiense de Letras. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Colaborou, ainda moço, na imprensa de são Luís, Maranhão ("O Imparcial") e do Rio de Janeiro ("Diário de Notícias"). Publicou "O Papel de Floriano Peixoto na obra da proclamação e consolidação da República" (tese).


A. Tito Filho, 098/02/1990, Jornal O Dia

HOMENAGEM JUSTA

Benedito de Sousa Sá nasceu neste Piauí da sua benquerença. Por onde anda, todos o conheceu como B. Sá, amigo sincero e leal. Sempre trabalhador, diariamente cumpre deveres no qual de um dos comandos militares de Manaus. Embora na reserva remunerada do Exército desde 1977, orgulha-se de não ter ficado um só dia na inatividade.

Mereceu recentemente, ao completar cinqüenta anos de serviços relevantes ao Brasil, homenagem de carinho e justiça dos seus companheiros, na capital amazonense, cuja imprensa assim se referiu à personalidade do homenageado:

"Em 1938, ingressou no Serviço Público, na Imprensa Oficial do Piauí, como aprendiz de artes gráficas. Deixou aquela 'escola' em 31 de outubro de 1945, para ingressar, no dia seguinte, em outra grande escola - o Exército - como soldado do 25º BC, em Teresina-PI.

Galgou todas as graduações, de Soldado a 2º Ten, pelo princípio do merecimento, em decorrência de uma conduta exemplar dentro e fora do quartel, exação no cumprimento do dever, assiduidade, companheirismo e, acima de tudo, lealdade.

Serviu na AMAN por mais de oito anos, exercendo, além dos seus encargos normais, as funções de Presidente do Clube dos Subtenentes e Sargentos - ocasião em que fundou um tablóide informativo.

Na Guarnição de Teresina, escreveu, por dez anos, a coluna dominical 'Vida Militar' no jornal O Dia, com a divulgação na Radio Difusora local. Foi ainda presidente por quatro vezes, do Clube do Marquês de Paranaguá - dos ST e Sgt - sendo um dos fundadores do Jornal e Revista 'Carnaúba'.

Aos 52 anos, no posto de 2º Tenente, quando em serviço no hospital Geral de Manaus, foi alçando pela cota compulsória, despedindo-se do serviço ativo. Permaneceu, porém, como servidor civil contratado - inicialmente, no próprio hospital e, em seguida, na CRO/12 e no QG/2º Gpt e Cnst, onde se encontra há mais de cinco anos, em plena atividade, com horário integral.

Possui a Medalha de Ouro de bons serviços, a Medalha Militar de Ouro de bons serviços, a Medalha do Pacificador e... mais de sessenta elogios em suas folhas de alterações.

É formado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade do Amazonas. Como se tudo isso não bastasse, é também membro da executiva da ADESG/AM, tendo, por duas vezes, exercido internamente ao cargo de Delegado.

Sempre B. Sá empregou seu dinamismo e sua cultura em prol do Exército e do Brasil, sem descuidar-se dos afazeres de um chefe de família exemplar. O tempo passa, mas ele permanece ao lado da nossa gente: claro, pois ele é Gente Nossa!".


A. Tito Filho, 08/03/1990, Jornal O Dia

sábado, 1 de outubro de 2011

CUNHA E SILVA

Francisco da Cunha e Silva nasce na terra piauiense de Amarante. Era 3-8-1904. Cursou o Colégio Bento XV de Teresina. Fez humanidades no Colégio Salesiano Santa Rosa, de Niterói, no Estado do Rio. Escolheu a carreira eclesiástica, matriculou-se no Colégio Salesiano São Manuel de Lavrinhas, São Paulo, também seminário, em que fez estudos superiores de filosofia e latim. Sem vocação para o sacerdócio, seguiu outra destinação. Casou-se na antiga capital da República. Em 1927, fixava-se em sua cidade natal. Iniciou-se no magistério de português, história e geografia. Em Amarante, fundou o educandário Ateneu Rui Barbosa. A partir de 1947, estabeleceu-se em Teresina, quando subiu ao Governo do Piauí o médico José da Rocha Furtado, eleito pela antiga União Democrática Nacional. Antes, em 1935, acusado, processado, teve condenação como comunista pelo extinto Tribunal de Segurança Nacional. Cumpriu mais de um ano de prisão na antiga e demolida penitenciaria da capital piauiense.

O novo governo lhe confiou uma cadeira de geografia no Colégio Estadual, antigo Liceu. Passou também a colaborar na Imprensa, sem remuneração de qualquer natureza. Militou em quase todos os jornais: "O Piauí", "Resistência", "A Gazeta", "O Tempo", "O DIA", "Jornal do Piauí", "A Luta", "O Pirralho", além de revistas noticiosas e literárias.

Não permaneceu muito tempo nas hortes da UDN. Era jornalista de linguagem forte, por vezes agressiva. Rompeu com o governador Rocha Furtado. A politica da época não aceitava rebeldias. A punição se fazia necessária e rigorosa. Os que se rebelavam perdiam o emprego público, tivessem ou não responsabilidade de família. Perdeu a cadeira de que tirava o pão de cada dia.

Pobre e carregado de filhos pequenos, sem casa própria, Cunha e Silva padeceu severa adversidade. Ajudavam-no alguns amigos e colegas. Conheceu de perto duras e pesadas aflições. Mas não dava tréguas ao governo. Escrevia artigos contundentes e violentos contra o governante e seus auxiliares.

O Partido Social Democrático, de oposição, deu-lhe modestíssimo lugar no antigo Fomento Agrícola. Trabalhava na Granja Pirajá, bem distante de sua residência, percurso que ele fazia a pé. Brevemente se aborreceu do emprego e largou-o para suportar novas e pesadas vicissitudes. Ganhava pouquíssimo em estabelecimentos particulares de ensino, dando aulas desde que o dia principiava até de noite.

Tinha animo forte. Nunca abaixava o topete. Com a subida de Pedro Freitas ao governo, candidato de oposição a Rocha Furtado, mereceu duas cadeiras no magistério do Colégio Estadual e da Escola Normal. Passou a ganhar sofrivelmente. No governo Petrônio Portella, foi escolhido para cargo em comissão, de diretor da Casa Anísio Brito, que reunia o Arquivo, a Biblioteca e o Museu do Estado. Exonerou-se, dentro de pouco tempo, das funções, para prestar solidariedade a amigo desavindo com o governador.

Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico Piauiense. Em 1975, ingressou na Academia Piauiense de Letras. Publicou a tese "O Papel de Floriano Peixoto na Obra da Proclamação e da Consolidação da República", para a realização de um concurso de professor, em que foi aprovado. Mais dois livros seus foram publicados pela sua instituição acadêmica: "A República dos Mendigos", romance de caráter político, e "Copa e Cozinha", de estudos sociais e históricos.

Os anos começaram a pesar-lhe no organismo sofrido de muitas lutas. Não arrefecia, porém. Escrevia e lecionava. No governo Chagas Rodrigues teve a nomeação como diretor do Colégio Estadual. Depressa deixou as funções em protesto contra juiz de direito da capital que concedeu mandado de segurança a um professor por ele punido.

Os princípios da velhice e depois a velhice fizeram que serenasse mais as atitudes. Disciplinou-se. Muito sofreu, mas muito se realizou combatendo os poderosos sem temer violências ou perseguições.

A 21 de janeiro de 1990, pelas três horas da madrugada, o companheiro rebelde fechou os olhos a este mundo que lhe foi muito ingrato, cujas injustiças ele combateu com energia e coragem. Despediu-se o velho mestre, deixando a lembrança de um forte temperamento e de invulgar capacidade de escrever sobre assunto vário. Como quis, jaz no cemitério da sua querida Amarante.


A. Tito Filho, 01/03/1990, Jornal O Dia

PETRÔNIO PORTELLA

Piauiense de Valença, nascido em 1925. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, cedo ingressou na política, filiando-se aos quadros da antiga União Democrática Nacional. Deputado da Assembléia Legislativa do Piauí, logo se revelou temperamento combativo, mas sempre disposto ao diálogo de que resultassem benefícios coletivos. Em renhido pleito popular conquistou a prefeitura de Teresina, realizando administração sóbria, honesta e segura. Encerrado o mandato a 31 de janeiro de 1963, já estava eleito Governador do Piauí, em cujo cargo deu especial atenção aos problemas e assuntos educacionais, além de realizações da mais alta importância. Expandiu a rede de ensino primário e médio. Criou e instalou o Conselho de Educação. Encampou a Faculdade de Odontologia e criou a Faculdade de Medicina - institutos que, com as faculdades de Direito e Filosofia, se tornaram o ponto inicial da futura Universidade.

Os conterrâneos mais uma vez depositaram confiança no jovem líder e ei-lo, 1967, Senador da República, reeleito oito anos depois para o segundo mandato. Revelar-se-ia, então, o homem de Estado, sensível aos acontecimentos políticos e sociais da nacionalidade. Logo foi investido da vice-liderança do Governo, numa época de conturbações partidárias. Em seguida, líder. Começavam a pesar-lhe sobre os ombros importantíssimas responsabilidades nacionais. Presidente do Senado e consequentemente do Congresso Nacional, duas vezes. Presidente da Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Praticou, em todas as funções, seriedade, e nunca fugiu da verdade. Deu-lhe o Governo a incumbência de ouvir setores da vida brasileira - e aí surgiu a Missão Portella e a derrubada dos diplomas totalitários da República. Coordenador político do Presidente João Batista Figueiredo, de quem aceitou, o cargo de Ministro da Justiça, levando o Ministério a reconquistar o seu prestígio e grandeza no quadro político republicano. Enfrentou problemas graves: a censura, a violência urbana, a extinção e a criação de grêmios partidários. De tudo se saiu com aprumo, equilíbrio e dignidade, acatado e respeitado por correligionários e adversários. Traço eloqüente do seu caráter: não enganava. Era veementemente sincero. Não dava publicidade a preocupações que o afligiam, mas não deixava de confessá-las aos companheiros de vida pública, do Governo e da Oposição, para que pudessem, com as advertências, ser preservadas as instituições.

No Senado, praticou gesto sem precedentes, concretizando o plano editorial com a publicação de obras e debates das mais extraordinárias figuras do Parlamento brasileiro.

E ao Piauí ofereceu a luta e o esforço permanente, conseguindo, nos idos de 1968, que o presidente Costa e Silva criasse a Fundação Universidade Federal do Piauí, com o objetivo de manter a Universidade Federal do Piauí - entidade que era sonho e hoje é orgulho dos piauienses.

Inteligente, culto, devotado à terra que o viu nascer e à sua gente, Petrônio Portella, nestes últimos anos, se dedicava sobretudo ao culto da bondade e da virtude. Exonerara-se de quaisquer ressentimentos para com os outros. Amava a concórdia. Queria bem a todos.

E foi esta imagem que ele deixou, no dia 06 de janeiro de 1980, data da viagem sem regresso: um coração e um cérebro a serviço do próximo.


A. Tito Filho, 07/11/1990, Jornal O Dia