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sábado, 14 de janeiro de 2012

MILAGRE

Frei Serafim de Catânia chegou ao Recife em 11 de setembro de 1841. Percorreu todo o Nordeste, em trabalho de catequese. Valoroso missionário. Em 1858, benzeu a primeira pedra da futura matriz do Ceará-Mirim. Tinha fama de obrador de milagres, de quem Luís Câmara Cascudo contou o seguinte, num livro muito saboroso ("Coisas que o povo diz"):

"Um home de bem, pobre, com família numerosa, estava sendo perseguido por um credor impaciente de receber os 100$000, e não sabia que fazer para enfrentar a vida dificil. Foi procurar Frei Serafim de Catânia no consistório da igreja de Santo Antônio, expondo com lágrimas sua desventurada situação. O frade ouviu-o, animou-o, e erguendo-se olhou ao derredor, viu apenas uma lagartixa que balançava a cabeça numa janela. O capuchinho fez o sinal-da-cruz e o animal imobilizou-se como feito de bronze. Frei Serafim embrulhou-o num pedaço de papel e entregou-se ao necessitado penitente recomendando:

- Peço dinheiro emprestado sob este penhor e livre-se da miséria. Daqui a um ano volte, trazendo o objeto, e coloque no altar, nos pés de Santo Antônio. Promete?

- Juro pela salvação da minha alma! - respondeu o pobre homem.

Correu ao agiota, pedindo a fortuna de 500$000, deixando um depósito. O onzenário abriu o embrulho e encontrou uma lagartixa de ouro, com a boca de rubis e os dois olhos de brilhantes. Valia o triplo. Pensou, provou, experimentou e deu os 500$000 ao suplicante. Este, com menos de um ano, estava livre de preocupações. Possuía casa própria, gado, uma loja, a família tranqüila e feliz, cavalo de sela para o trato dos negócios. Foi ao usuário liquidar o débito. Este propôs comprar a lagartixa de ouro.

- Não é minha! - explicou o abastado negociante.

Recebendo o penhor, foi à igreja de Santo Antônio e feita a vênia, depôs o pacote aos pés do orago. Imediatamente o papel mexeu-se e dele saiu, esfomeada e rápida, uma lagartixa, viva e veloz, em desabalada carreira. O homem percebeu o milagre de Frei Serafim de Catânia, e, ajoelhado, rezou longamente agradecendo a mercê”.


A. Tito Filho, 21/04/1990, Jornal O Dia

domingo, 9 de outubro de 2011

FIGURA EXEMPLAR

Edmée Rego Pires de Castro tem estudo valioso sobre a poesia e sobre compor versos líricos de muita arte e expressividade. Dela recebo bem redigidas letras com o título ESTEIRA LUMINOSA, nestes termos:

"Tomei conhecimento de um acontecimento marcante na vida católica de nossa cidade, através de Notícias Acadêmicas, informativo da Academia Piauiense de Letras. Na coluna sob o título Notícias, li que Monsenhor Antônio Sampaio da APL, estará em Fátima, Portugal, para um retiro espiritual comemorativo dos seus 50 anos de sacerdócio.

Monsenhor Antônio descende de tradicional família católica. Seus pais foram Firmino como era chamada afetuosamente, senhora distinta, admirada por suas peregrinas virtudes.

Monsenhor Sampaio nasceu nesta cidade, aqui fez o curso primário e iniciou o curso secundário no ex-Ginásio Parnaibano. Logo após ingressou no Seminário de S. Luís, no Maranhão. Ordenou-se em Teresina, no dia 8 de dezembro de 1940 e celebrou a primeira Missa, em nossa Catedral de N. S. da Graça, o que foi motivo de regozijo para todos os fiéis, que participaram com fervor da festiva celebração.

Vale ressaltar o seu perfil de homem dedicado ao serviço de Deus, afável, acolhedor, sempre amigo encaminhando o povo católico para trilhar as sendas da vida cristã, não só quando vigário de nossa Catedral, mas também como diretor espiritual, conselheiro e juiz. "Feliz aquele que encontra um amigo e conselheiro prudente e fiel. Encontrou um tesouro". Pregador de retiros espirituais, orador sacro, suas pregações em linguagem pura, nítida, admirável e suave orientam as almas indicando o caminho da salvação. Professor insigne, atualmente dedicado ao ensino dos jovens vocacionais no Seminário Diocesano. É Administrador Apostólico desta diocese, pela palavra, pela pena e pelo exemplo dignifica o cargo que ocupa na hierarquia da Igreja.

Para os que têm fé há diferença entre um sacerdote e um leigo, embora tenham pontos em comum. Um sacerdote é um homem semelhante aos outros pela sua natureza, é um cidadão de seu país, fala a mesma linguagem, mas está afastado do mundo por uma educação especial, hábitos e costumes são diferentes, não são idênticos aos das pessoas do século. Ele recebeu uma consagração que o distingue dos outros homens e o tornou "homem de Deus para sempre" com o caráter indelével. É um ministro sagrado, é um membro docente da Igreja. "É a voz que clama no deserto" para quem quiser ouvir. Só ele tem essa missão e graça clamando pela justiça, misericórdia contra toda a iniqüidade, sempre interessado em tudo que diz respeito à felicidade temporal e eterna dos seus concidadãos.

Assim é Mons. Antônio para o povo de Deus que o estima. Desde a juventude até hoje, tem permanecido constante e infatigável na sagrada peleja. Em Fátima, em retiro espiritual, acompanha-o a oração dos fiéis em uníssono dando hosanas ao Senhor, pela passagem do seu jubileu sacerdotal e pedindo a Deus que derrame bênçãos especiais na esteira luminosa de seu sagrada ministério. E aos pés da Virgem, contrito e fiel, pode suplicar como o salmista:

"Deus, desde a juventude me ensinaste/ proclamei até hoje teus prodígios / e que eu possa Senhor, anunciar / as gerações vindouras teu poder!".


A. Tito Filho, 11/12/1990, Jornal O Dia

NOTINHAS

O frade franciscano Heliodoro Maria de Inzago assumiu a direção da paróquia de São Benedito de Teresina por duas vezes: de 1939 e 1945 e de 1952 a 1956. Tive a satisfação de expressar os sentimentos dos teresinenses quando ele retornaria à sua distante Itália, onde morreu bem idoso e cujos ossos jazem no cemitério de Bérgamo.

Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, viveu em doação aos humildes, aos pequenos, aos sofredores. Socorria os miseráveis e confrontava os enfermos. Instituiu a distribuição semanal de comida aos famintos. Sentia as desigualdades nas mesmas criaturas de Deus: enquanto uns poucos praticavam estroinices, no mau uso dos dinheiros mal ganhos, e dissipavam lucros fabulosos indiferentes aos dramas sociais de dores e sofrimentos, milhões padeciam fome, andavam maltrapilhos, moravam em tugúrios desumanos. Ao frade virtuoso cabia o apelo aos ricos para que se lembrassem dos deveres cristãos de querer bem ao próximo, e conseguia, pela graça da fé, minorar as aflições dos deserdados.

Num livro-ensinamento, outro frade sincero e bom, dedicado e justo, Antônio Kerginaldo Furtado da Costa Memória, o popular e simpático Frei Memória, que conviveu com os teresinenses de 1979 a 1981, num estilo agradável e simples, linguagem asseada e pura, conta a vida, os esforços e relembra os sentimentos magníficos de Frei Heliodoro, que mais do que ninguém ensinou humildade aos homens. No trabalho existem as lições e os exemplos da fé, como se fossem uma ajuda à educação para a vida. Lançamento da Academia Piauiense de Letras.

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Sempre gostei de estórias de caçadas. Leonardo mota contava-se com modos de doutoramento no assunto. Cornélio Pires escreveu livro sem defeito na fixação de casos mineiros da arte venatória - "As Estrambólicas Aventuras de Joaquim Bentinho".

Contar acontecidos nas matas em busca de bichos supõe antes de tudo conhecimento dos segredos desse tipo de trabalho ou diversão: instrumentos, objetos, armas, rastreação, hábitos dos animais, tipos de árvores, locais de espera, ruídos, anúncios da natureza, assim como um conjunto de princípios sérios para o exercício do mister perigoso, que supre a despensa do roceiro ou provoca divertimento aos diletantes.

Nestas páginas de Heitor Castelo Branco Filho executa narração deliciosa, viva, alegre, sobre peripécias de uma caçada nas bandas do sul do Piauí. Ele e os companheiros simples e amigos realizam proezas de caçadores inveterados ou de simples comedores de caças abatidas nas matas sertanejas. Hilariantes episódios conferem mais entusiasmo à leitura que a gente faz de fio a pavio. Lançamento da APL em abril.


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O Des. Sátiro é cearense de Tauá. Nasceu a 12 de janeiro de 1907. Filho de Jaime Martins Nogueira e Josefa Alexandrino Nogueira. Formado em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Promotor Público de Picos em 1932. Nesse mesmo ano ingressou na magistratura, tendo sido juiz em Caracol, São Raimundo Nonato, Jaicós, Picos e Teresina. Desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí. Professor Catedrático, concursado, da Universidade Federal do Piauí.

Escreve com segurança. Português castigo. Saem-lhe espontâneas as narrativas de episódios, os da infância e da adolescência, como outros conhecidos da sua vivência nos sertões onde viveu alguns anos no convívio dos seus. Notável poder descritivo, reproduz cenários servido de rara fidelidade. Estilo seco, desenfeitados, sabe o clássico na construção exemplar das expressões. Lançamento da APL.


A. Tito Filho, 30/03/1990, Jornal O Dia

sábado, 1 de outubro de 2011

FREI HELIODORO

Brevemente a Academia Piauiense de Letras estará lançando ao público piauiense a primeira biografia pormenorizada de Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, de imensos serviços prestados a Teresina. A história desse frade-santo, nascido em Inzago, na Itália, está bem contada por Frei Memória, tão amigo dos teresinenses.

O frade franciscano Heliodoro Maria de Inzago assumiu a direção da paróquia de São Benedito de Teresina por duas vezes: de 1939 a 1945 e de 1952 a 1956. Tive a satisfação de expressar os sentimentos dos teresinenses quando ele retornaria à sua distante Itália, onde morreu bem idoso e cujos ossos jazem no cemitério de Bérgamo.

Frei Heliodoro, o pobrezinho de Cristo, viveu em doação aos humildes, aos pequenos, aos sofredores. Socorria os miseráveis e confrontava os enfermos. Instituiu a distribuição semanal de comida aos famintos. Sentia as desigualdades nas mesmas criaturas de Deus, enquanto aos poucos praticavam estrionices, no mau uso dos dinheiros mal ganhos, e dissipavam lucros fabulosos indiferentes aos dramas sociais de dores e sofrimentos, milhões padeciam fome, andavam maltrapilhos, moravam em tugúrios desumanos. Ao frade virtuoso cabia o apelo aos ricos para que se lembrassem dos deveres cristãos de querer bem ao próximo, e conseguia, pela graça da fé, minorar as aflições dos deserdados.

Neste livro-ensinamento, outro frade sincero e bom, dedicado e justo, Antônio Kerginaldo Furtado da Costa Memória, o popular e simpático Frei Memória, que conviveu com os teresinenses de 1979 a 1981, num estilo agradável e simples, linguagem asseada e pura, conta a vida, os esforços e relembra os sentimentos magníficos de Frei Heliodoro, que mais do que ninguém ensinou humildade aos homens. No trabalho que ora se lê, existem as lições e os exemplos de fé, como se fossem uma ajuda à educação para a vida.


A. Tito Filho, 12/01/1990, Jornal O Dia

PADRE CHAVES

Monsenhor Joaquim Chaves, o Padre Chaves, como ele gosta de ser chamado, faz muitos anos que se dedica de corpo e alma à igreja do Amparo, a primeira de Teresina, a igreja do seu amor. Sacerdote virtuoso, coração de bondade e sentimento, venera-o a paisagem teresinense, a que ele tem doado o melhor de uma vida de trabalho espiritual intenso, rezando missa, batizando menino, casando noivos, confessando pecadores, confortando fieis. Todos gostam das práticas religiosas que ele realiza, pois nelas gasta apenas os instantes preciosos, com o que exonera a gente da freguesia de demoradas cerimônias e prédicas puxadas. Adota receita segura para não prejudicar a paciência do próximo, ao mesmo tempo em que se põe sempre solicito e amigo, leal e correto, inexcedível no querer bem aos outros.

Ao lado da piedade, debruça-se sobre a pesquisa histórica, persistente, sustentado por capacidade de observar, e desse esforço surgiram escritos de valor, úteis, honestos, rico patrimônio para repasto dos estudiosos. O seu livro sobre Teresina, que se incorporou às festas comemorativas dos primeiros cem anos da cidade como documentário expressivo, lembra as fases iniciais da capital piauiense, as ruas, os cafés, os furdunços carnavalescos, as manifestações religiosas, os episódios cívicos, o telegrafo, barco de vapor, a higiene, a policia, as escolas, os passeios de cavalo, enfim o que ia nascendo, o que se ia criando, os passos inaugurais dos costumes e do progresso da comunidadezinha plantada pelo conselheiro José Antônio Saraiva, o fundador. E os forrós. E os serenos de baile. E a discurseira laudatória nos banquetes e bródios. Quantas cousas antigas, com cheiro de mofo, o bom do padre buscou em registros velhos e delas fez obra saborosa.

Neles o pesquisador preocupa-se sobretudo com a verdade e tem coragem de assentá-la e escrevê-la. As lições dos seus livros constituem fonte segura para conhecimento de variado aspecto da história do Piauí, que ele expõe e analisa com critério. Oferece estilo plástico, prosa ágil, sabe reviver o passado e os homens que o construíram, e as criticas de forma imparcial e cuidadosa.

De mim, julgo-o historiador sereno, hábil, metódico, às vezes irreverente, apoiado sempre sobre invulgar capacidade de discernir e interpretar.

Teresina tem bons historiadores, como Pereira da Costa, Clodoaldo Freitas, Higino Cunha, para citar alguns mortos ilustres. Dos vivos, muitos são os pesquisadores dos acontecimentos que se verificaram na cidade criada por José Antônio Saraiva, entre os quais Julio Romão da Silva, que recompôs a fundação da cidade num estudo sério e fiel a verdade.

O padre Chaves não se preocupou apenas com os episódios da vida histórica e politica da cidade que tem o nome de gente nobre, foi além, revelando, em livro curioso, aspectos sociais e pitorescos da cidadezinha tranqüila e afetiva. Antes dele, preocupado somente com os costumes do fim do século XIX, só Abdias Neves, num romance naturalista.


A. Tito Filho, 21/12/1990, Jornal O Dia