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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

PATOLOGIA SOCIAL

As tevês brasileiras oferecem aos estudiosos os melhores tipos de antropologia criminal. Liguem-se esses aparelhozinhos infernais e observe-se o desfile dos anormais de todos os tipos: adúlteros, falsários, sedutores, trampolineiros, incestuosos e ainda os criminosos políticos, cada qual metido nas infucas da roubalheira cartorial, na legislação casuística, na entrega do Brasil às multinacionais por alguns dólares sujos. Em moda, o seqüestro, fabricante de heróis, o seqüestrado e o seqüestrador.

Byron, Balzac, Galdoni haveriam de banquetear-se com o noticiário das tevês nacionais, para a criação de novos tipos lendários.

Vejam-se os quadros a uma assistência já em estado de neurose e psicose permanente: quedas de avião, choques de trem, desastres e mais desastres de veículos, tráfico de drogas, assaltos a bancos, ação de justiceiros, as rotas de cocaína, contrato de homicídio, estupros, vinganças torpes, roubalheiras, maracutaias, mortes nos hospitais, quadrilheiros, pistoleiros, incêndios, autoridades metidas a sério em entrevistas emprenhadas de asnices. No mais, o maluco roquinirol dos norte-americanos, ou a lambada de calcinhas de fora, a inflação, o sofrimento dos aposentados.

As nossas tevês ofereceram quadros de assassinatos, como na tragédia grega. Vera Fischer já fez uma Jocasta industrial. As obras de Eurípedes, Ésquilo, Corneille estão vivas nos malditos aparelhos de imagem e de som, verdadeiras minas de riqueza inextinguível. A leitura de Os Bandidos de Schiller revela muitas personificações de criminosos que aparecem nas fábricas televisivas de crimes e devassidões.

O dilema darwiniano foi muito bem revelado na fórmula de d'Annunzio para os múltiplos aspectos da sociedade injusta e irresponsável: renovar-se ou morrer.

As tevês nacionais, nos seus noticiários, sem que os seus proprietários desejem, mostram que o corpo social brasileiro se encontra doente. Poucos os gozadores, milhões de sofredores. Ou se renova ou os seus princípios brevemente se varrerão por virtude do protesto das massas. Leiam Zola, em O Germinal, a viva descrição do proletariado aspirando à luz, depois de sofrer durante séculos. Descreve o genial francês a descarga fulminante de eletricidade acumulada em operários em greve. Cenas violentas. E matam, e mutilam os cadáveres dos opressores. No caso, a arte literária, antes da ciência, refletiu a verdade pura e simples de uma massa de grevistas desnorteada pelos sofrimentos.

A tevê brasileira glorifica criminosos vulgares, doentes, criminosos loucos, psicopatas, quando lhes concede a maior parte dos programas noticiosos e com rispidez esquece as vítimas.

A injustiça social, desumana, perversa, se revela. O empresário que paga vinte e cinco milhões de dólares de resgate não explica como ganhou tanto dinheiro, mas não se pode negar que o acumulou com a exploração da fome dos miseráveis, que vegetam por toda parte, escondendo terríveis dramas da fome dos filhos, de resistência debaixo das pontes, de doença que não se trata. É necessário que todos se voltem para a multidão dos desgraçados. O egoísmo alimenta os ricos que se entregam ao ócio e à dissipação, estróinas que são com o luxo e o culto das amantes. Só os desequilibrados conseguem viver do EU. O Brasil está repleto de criminosos: os de colarinho e os descamisados.

Mal alimentado, sujo, doente, pervertido de maus exemplos, o pobre grita. As crianças ignoram a alegria. O pagamento ao operário equipara este ao escravo.

Piedade e justiça, meus senhores. Maiores crimes do que os apresentados na tevê brasileira é o crime da terrível condenação à dor, à miséria, ao opróbrio.


A. Tito Filho, 29/07/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O CRIME

De primeiro matava-se o sujeito que deflorava a moça-donzela e não queria reparar a dívida. Às vezes o pai da menina dava preferência à castração do indivíduo. Por causa dessas vinganças, provocaram-se lutas de clãs familiares, que se dizimavam. Também o marido enganado matava e continua a matar a mulher adúltera e vice-versa. Surgiu a violência rural de Lampião, Antônio Silvino e outros fora-da-lei que vingavam crimes policiais, Antônio Conselheiro fundou o império de Canudos para defesa de trabalhadores explorados pelos coronéis do cacau.

Ninguém mais segura a violência. Nestes atormentados anos da revolução de 1964 até os dias deste quase final da década de 90, prossegue a luta sem alma, agora entre latifundiários e pobres homens que querem os frutos do trabalho na terra. Institui-se o seqüestro de autoridades, para que se soltassem presos políticos, e de crianças e ricaços, para os lucros do resgate. Nos centros urbanos populosos, roubam-se bancos e empresas para o gozo de gordas fatias financeiras e assaltam-se pessoas e casais para despojá-los de jóias e dinheiros ou a posse carnal da mulher. Chegaria a era do pistoleiro sob contrato para a eliminação de inimigos ou de sócios inconvenientes - estes a fim de proporcionarem riqueza fácil aos mandantes e aqueles para o exercício da vendetta, o crime-cão, o crime-sujo efetuado por tipos que ao menos conhecem a vítima.

Quais as sementes de tanta violência, do ódio, como das ambições vulgares?

Neste atribulado fim de século o homem vive sufocado por pressões de toda natureza, daí a agressividade e os atos anti-sociais. Promove-se o crime no jornalismo pela glorificação dos criminosos aos quais se transmite autoconfiança na conduta violenta. A TV projeta durante horas, dia por dia, as imagens de um mundo perigoso e de um cenário irreal de bens materiais inacessíveis mandando mensagens de conteúdo violento e sexual, e o seu objetivo está em função do consumo ameaçando a cultura. Para todos revela-se o ambiente familiar em desintegração. Tornou-se a droga o elemento encorajador do crime. Os magnatas, os barões do dinheiro têm tudo - mesa farta, bacanais do álcool e prostitutas de luxo, carros do último modelo, viagens nababescas aos centros do turismo internacional, e os miseráveis [que] se conformem com a fome, a habitação desumana, a nudez e a ignorância dos filhos. Nas esferas oficiais, verificam-se os exemplos malsãos de fingimento, das mordomias, dos planos cruzados gerando a desconfiança, do fisiologismo dos políticos sem crédito, a impunidade dos imensos roubos na causa pública.

As cidades turísticas constituem antro de vícios. As suas praias representam centros de prostituição alta e baixa. Os nababos saem do Rio de Janeiro com mariposas alugadas de Paris.

Neste ambiente de vícios e de negação de valores morais e espirituais da falsa cultura brasileira de hoje, do jornalismo sensacionalista, a TV comercializante e forte no prestígio e empresários desalmados, nesse mundo perverso vive o brasileiro, cercado de frustrações por todos os lados - frustrados e sem fé, o brasileiro do salário-mínimo, cujos sindicatos de classe não têm independência ao menos para o protesto, quanto mais para negociar o trabalho e o seu pagamento digno.

Gilberto Freyre contou que os muros antigos tinham cascos de vidros para evitar o roubo de donzelas. Hoje as casas dos magnatas, nos bairros das cidades grandes, têm muros de 3 metros para que se evitem assaltos e assassinatos.

As raízes da violência são visíveis. Até quando elas desafiam a inteligência dos perversos, que negam a justiça social?


A. Tito Filho, 15/08/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

VIOLÊNCIA

Jornais, rádios, televisões vivem hoje do noticiário da violência, e cada época teve o seu tipo de violência, na Roma dos Césares como no Itararé de Teresina. Adolescente, morei em Teresina e na mocidade passei uns oito anos fora daqui, em Fortaleza e Rio. Andava pelas ruas sozinho, de madrugada, e jamais encontrei quem me assaltasse.

Ainda em 1970, passei a residir no distante bairro de São Cristovão da capital piauiense. Haroldo Borges me havia conseguido um carro velho, marca Esplanada, com uma das vendedoras de veículos. Às vezes o automóvel me deixava na rua, noite grande, e eu retornava a casa com os pés da locomoção própria. Vendi a porcaria por umas patacas. Pouquíssimos ônibus. Eu fazia um programa de rádio na Difusora das 22 às 23 horas e caminhava o longo percurso de retorno ao lar. Jamais encontrei quem me filasse um cigarro.

Não desconhecia a violência política do submundo ditatorial. Li-a em livros que se tornaram célebres. Os porões da ditadura de Vargas, com o bárbaro Filinto Muller, guardam cadáveres, homens mutilados, baixezas sem conta de uma polícia treinada para impor sofrimento ao semelhante. O nosso Celso Pinheiro Filho apanhou tanto nesses subterrâneos de crimes animalescos que perdeu o uso das pernas. Assassinos perversos.

Chegaria 1964. De novo a sangueira nojenta de certas autoridades de lama. Mataram-se jornalistas e operários. Era a sanha do eunuguismo moral.

As práticas da violência, porém, se escondiam. As vítimas desapareciam simplesmente, e os carrascos infames se intitulavam salvadores da pátria amada. Mas a violência chegaria, como chegou, a ser praticada à luz do sol, à boca da noite, a qualquer momento. O reino atual da vingança contra os que se tornaram surdos aos clamores dos perseguidos, dos injustiçados, dos que a política nefasta abandona de modo desumano.

Contra quem se pratica hoje a violência? Contra os engravatados que roubam às escâncaras, contra os que, munidos de prestígio político, tomam a propriedade alheia, estupram pobres mocinhas interioranas, enganam, ludibriam, demitem, negam a cada um o que é seu. Vivem na opulência, ganham milhões diariamente, humilham, riem da miséria alheia, num soçaite fútil e ocioso. Quem está padecendo a violência? O empresariado sem alma, orgulhoso, cheio de empáfia, ignorante, que esquece os deveres sociais e a pregação cristã dos papas e cada vez mais se enternecem da dinheirama mal adquirida.

Observe-se o seqüestro. Sou contra o processo, sobretudo quando se submete o seqüestrado a vexames físicos, morais e psicológicos. Para adquirir a liberdade, quanto paga esse tipo de refém pelo dinheiro pedido? Milhões em dólares. Donde vem essa quantia? Das burras abarrotadas de pelegas estrangeiras fornecidas pelo Banco Central do Brasil.

E jornais, rádios, televisões, quando se liberta o indivíduo, sustentam a propaganda do HERÓI pelo menos durante uma semana.

Faz poucos dias, seqüestraram um garotinho. Os seqüestradores pediram até pouco, uns 500 mil doentes. A mãe do menino fez apelo, não tinha dinheiro, implorou a devolução do filho. Nenhum empresário de milhões se mexeu para ajudá-la.

Só se vê violência no seqüestro dos biliardários. Sim. E a violência da fome de milhões, dos milhões sem teto, dos milhões de analfabetos, dos milhões de doentes sem socorro, dos milhões de menores abandonados, dos milhões de esfarrapados, rotos e maltrapilhos?


A. Tito Filho, 25/07/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

MANIA

Mais uma mania nacional, a de identificar e discutir as causas da violência no Brasil, sobretudo a urbana. Numa das tevês nacionais, certa apresentadora ajunta certas celebridades duvidosas, psicólogos, sociólogos, atrizes, pintoras, e de modo de sábia Grécia, a coroa lança falação sobre a violência, e os convidados passam a derramar tolices sem conta. Causas, dizem eles, ora pois sim, a impunidade, o cumprimento das penas pela metade porque as cadeias estão superlotadas, a Polícia não presta e outras asnices de igual teor. Não sabem esses doutores o que dizem ou têm interesse em esconder a verdade.

As causas são profundas. havia violência quarenta anos passados? A violência constitui processo de que se utiliza o submundo dos famintos, dos favelados, ou que padecem as tristíssimas conseqüências de uma sociedade plena de injustiça sociais, dividir entre poucos ricaços e milhões de miseráveis. quem desperdiça neste país em viagens maravilhosas, em coquetéis, em futilidades, em festanças, casamentos de luxo, debutações de estroinices? O empresariado de milhões, no momento pagando altíssimos resgates em dólares. Quem fez deste país um covil de ladrões engravatados, bons vivedores à custa do tesouro nacional? Por onde andam os responsáveis pela vida desumana das cidades brasileiras? Em que se transformou Brasília, a loucura de certo presidente preocupado com a glória das glórias de haver criado a monstruosidade do cerrado, em momento angustioso da economia nacional? A Brasília de Lúcio Costa e de Niemeyer resume-se hoje na maior favela do mundo.

Um país em que os inocentes suportam cruel abandono moral, anulando-se papel reservado à família e à escola, não podia ser feliz nem gozar de tranqüilidade. A família e a escola arruinaram-se. As crianças passaram a vaguear pelas ruas, expostas às perversidades de todo gênero. Arremessadas à escola, esta se encontra confiada à mais perfeita irresponsabilidade de falsos governantes e falsos educadores.

Milhões de deserdados, famintos, andrajosos, sem quaisquer direitos na vida, sem lar, sem alimento, sem teto, orientados por uma televisão que protege crime e criminosos, estupros, degeneradores sexuais, o luxo dos marajás, o uísque, só os cegos que não querem ver discutem, na nefasta televisão brasileira, as causas da violência, inexistente quarenta anos através.

Violência é revolta contra as dissipações dos poucos ricos deste país, insensíveis aos dramas da explosão social que se aproxima. A fome é má conselheira. A injustiça gera a vingança.


A. Tito Filho, 22/07/1990, Jornal O Dia