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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

IMITAÇÃO

Entregues a influências más, as crianças se tornam ruins por imitação. Toda novidade no crime é copiada em seguida por outros delinqüentes, enquanto a corrupção do meio social de que procede a maior parte delas se mostre a causa mais importante da delinqüência. O exemplo representa poderosa influência educativa. a educação por si só modifica profundamente o comportamento da criança e do próprio adulto.

A criança age por imitação, reproduzindo as atitudes e os gestos circunstantes. Até mesmo na vida adulta a tendência imitativa se entremostra. Nos primeiros anos apresenta-se por tal modo acentuada e dominadora que observa quase toda a vida.

Revelam as crianças o desejo de maltratar os seres fracos, de adulterar a verdade, de mentir, porque sofrem a influência imediata de fatos que impressivamente lhes ferem a imaginação e as impelem à satisfação de seu instinto destruidor.

O médico Silva Melo, de exuberante cultura, assegura que pela imitação das pessoas facilmente assimilamos os seus hábitos, a sua conduta social, aprendemos a língua materna, seguimos a nossa religião. A criança, desde os primeiros dias, deixa-se penetrar pelas influências do meio, pelas condições de família e de sociedade.

O homem é produto de sua conduta, da sua escola, da casa, do seu ambiente, do mundo em que vive e do qual retira os motivos para a sua existência.

As causas da conduta anti-social do menino se representam pelas condições habitacionais e econômicas e pelas condições de afetividade e abandono moral do imaturo. O aumento doloroso do número de menores de conduta anti-social começou com o surto industrial e conseqüentemente com a agitação da vida moderna. A família arruinou-se com o progresso da grande indústria. Pai e mãe deixaram de assumir o papel de educadores.

As péssimas residências do povo acarretam a vontade de viver na rua, nos botequins, longe do lar.

A sociedade moderna cometeu o grave erro de substituir desde a mais tenra idade o ensino familiar pela escola. E a isso foi obrigada pela traição das mulheres. Estas abandonaram os filhos nos jardins de infância, para se ocuparem da sua profissão, das suas ambições mundanas, dos seus prazeres sexuais, das suas fantasias literárias ou artísticas, ou simplesmente para jogar o bridge, ir ao cinema, perder o tempo numa azafamada ociosidade. Causaram assim a extinção do grupo familiar, no qual a criança crescia no meio dos adultos com quem aprendia.

Os pais deixaram de educar os filhos; arremessaram-nos à escola, confiando em que a esta, não a eles, cumpre colocar as crianças em contato com os seus semelhantes, esquecendo-se de que a educação deve ser orientada com atencioso devotamento.

Uma das formas práticas de que se tem usado e abusado para disciplinar os menores é o trabalho, dada a circunstância de constituir ele uma aplicação consciente das atividades físicas e mentais. Erram quantos o supõem o mais natural dos antídotos dos males trazidos pela civilização contemporânea.

Úteis são apenas as atividades que acionam favoravelmente as energias individuais, comunicando ao homem uma consciência superior de si mesmo e não permitindo que se corrompa ao sabor da necessidade.

Os trabalhos de rua mostram-se, em geral, nocivos à formação mental e moral dos menores, porque a alma das ruas encerra infelizmente germes degradantes.

Depois destas considerações, cabe perguntar qual a sorte que se reserva no Brasil ao menor, cercado de todos os fatores de deseducação ou ineducação para a vida social.


A. Tito Filho, 03/08/1990, Jornal O Dia

RECONSTRUÇÃO

A 15 de março assumiu o presidente Fernando Collor de Mello, escolhido num pleito em que o povo teve ampla liberdade de votar, embora a campanha tenha oferecido aspectos negativos em temas de envolvimento da honra pessoal dos contendores. À frente do governo republicano, o primeiro mandatário baixou as medidas provisórias julgadas convenientes para sufocar a inflação e liquidar a corrupção, preparando-se o terreno para o cumprimento da terceira promessa do candidato, a extirpação da miséria. Não discutimos o mérito de cada uma delas. A triste verdade, porém, está em que a nação se encontra desacreditada, desmoralizadas as entidades públicas e cada dia mais a desmedida especulação dos ricos sufocava os brasileiros. A desfaçatez e a ganância afundavam o país em males sem conta. A ordem se resumiu no gozo dos poderosos à custa dos bens públicos, na esfera federal, estadual e municipal. Altos funcionários pendurados em privilégios gritantemente imorais. Mansões luxuosas, com dezenas de servidores domésticos, carros oficiais, viagens ao exterior, por conta do país exausto de dilapidações se encontravam à disposição de ministros. Centenas de aparelhos domésticos se atiravam aos porões dos ministérios por causa da condenação das esposas ministeriais. Muitas autoridades gozadoras dessas regalias recebiam medalhas e diplomas de relevantes serviços. Faliu o sistema educacional, por falta de professores e de escolas equipadas para o ensino e a aprendizagem. Viciou-se o burocrata brasileiro no desperdício, na malandragem, na fuga das obrigações, como conseqüência do péssimo exemplo dos chefões e chefetes encarapitados nas funções de mando. Firmou-se o nepotismo. Por toda parte, os poderosos nomeiam para os empregos públicos a esposa e os filhos, os genros, a parentela em geral, um dos mais insolentes assaltos aos dinheiros do povo. Nada existe que funcione em benefício da comunidade. A saúde pública liquidada. Morrem à míngua milhares de patrícios, no dia-a-dia das angústias gerais. Brasília tornou-se o império das benesses nacionais, ao lado de favelas desumanas. Desacreditou-se a Polícia, às vezes cúmplices do banditismo. Desagrega-se a família na capital da República, e por toda parte. Corrompe-se a língua portuguesa nos instrumentos de comunicação. Exploram-se aberrações sexuais. A televisão leva aos lares a concupiscência. Explora-se a nudez da mulher. A jogatina tornou-se desenfreada e explorada pelo governo. O homem saiu do campo em busca das falsas convocações de trabalho e surgiram as megalópoles de problemas insolúveis. O Poder Executivo moralmente fraco, complacente e irresponsável contagiaria o Poder Legislativo e o Poder Judiciário. Deputados e senadores aumentam de vez em quando os subsídios, ao lado do raquítico salário mínimo do trabalhador. Recebem os parlamentares subvenção para despesas de telefone, correio, gasolina, passagens aéreas. A cada parlamentar cabe elevado número de assessores, as amantes, a filharada. Uma orgia de esbanjamento. Do mesmo jeito pratica o Judiciário com o deslavado processo de empreguismo familiar. Cada membro de tribunal tem carro à disposição, Área federal foi imitada na esfera estadual. Os governadores utilizam-se dos cargos para a instituição de regimes de politiquice e engorda de apaniguados. Distribuem a benesse pelo torto e pelo direito. Os legislativos estaduais seguem as diretrizes do Congresso Nacional. Existem ainda os copiadores municipais, prefeitos e vereadores, que assaltam os magérrimos cofres das municipalidades, generalizam-se as pensões a ex-governadores, ex-prefeitos, ex-vereadores, ex-deputados e ex-senadores.

No universo quase total de revoltante assalto à riqueza pública, existem naturalmente as gloriosas exceções. não basta, porém, que se anulem os aspectos negativos do Poder Executivo da área federal, é necessário e urgente que o presidente da República se volte para os outros poderes corrompidos, o Legislativo e o Judiciário, também nos Estados e municípios, a fim de que a moralidade se universalize. O País assiste cada dia com mais intensidade à instituição da violência como forma de protesto dos desgraçados, dos abandonados nas ruas e nas prisões promíscuas e desumanas; dos famintos, dos que fogem da vida por através da droga, dos andrajosos, dos aviltados, dos esquecidos, dos que querem libertar-se da escravatura política e da escravatura econômica, ambas impostas pelas elites do estomago, definição do próprio presidente Collor, num grande momento de confissão da verdade.


A. Tito Filho, 10/05/1990, Jornal O Dia

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

QUASE MARANHENSE

Um dia Carlos Castelo Branco veio a Teresina autografar o seu livro de análise e interpretação de episódios políticos e tormentos partidários que provocaram, em 1964, a nefasta quinta República. Na dedicatória do meu exemplar escreveu que eu havia renegado por herança a família Castelo Branco. Lembrou-se do nosso parentesco. Meu avô Silvestre Tito Castelo Branco andou de briga com os parentes e tirou dos filhos o nome de família, conseqüentemente dos netos também.

Recebi Carlos na Academia Piauiense de Letras, em 1984, e recordei esses fatos, e agora os revelo de novo na ocasião em que lhe são prestadas justas homenagens nestes seus 70 anos de vida, depois de muitas vitórias de muito se orgulha o humilde parente rabiscador das presentes considerações.

*   *   *

A 17 de janeiro de 1914, Cristino Castelo Branco casou-se com a prima Dulcila Santana Castelo Branco. Juntos viveram 69 anos e compuseram afetiva constelação de filhos. Um deles, Carlos, quase nascia do outro lado do rio Parnaíba.

No fim de outubro ou novembro de 1917, Cristino assumiu o juizado de direito do Brejo, no Maranhão. Desistiu da magistratura e regressou a Teresina dois anos depois, outubro ou novembro de 1919. Carlos nasceu a 25 de junho de 1920. Por poucos meses deixou de ser maranhense e quase teria o mesmo destino de Odylo costa, filho, que veio ao mundo na ilha de São Luis por virtude de presença paterna na magistratura do vizinho Estado.

Teresinense, nesta Chapada do Corisco, escolhida pelo baiano José Antônio Saraiva para edificar nela a Vila Nova do Poti, derribando a mataria e fundando a primeira cidade artificial do país, na Chapada. Carlos passou a infância e a adolescência, e nunca esqueceu dos seus hábitos, dos seus costumes e das suas lembranças. Ginasiano, participou de imprensa estudantil, jornalismo de idéia e fantasia.

Deixou Teresina em janeiro de 1937, deixando, como contou, uma novidade em caminho, o telefone. e escreveu: "Deixei a cidade impregnado dela, dos seus sonhos modestos e do amor à sua condição". No trem rumo a São Luís, saudoso, recitou Lucídio Freitas: "Teresina apagou-se na distância. Ficou longe de mim, adormecida/Guardando a alma de sol de minha infância/E o minuto melhor de minha vida".

Buscou outras paisagens. Deixava a paisagenzinha de Teresina de ruas empregadas, dois cineminhas, famosas casa de vida airada da rua Paissandu, rodas de calçada, em cadeiras desconfortáveis, para o falatório da vida alheia. Nove da noite, hora de dormir, mulher cansada e mulher donzela.

Estacionou em Belo Horizonte. Em 1939, repórter policial, tomou lições de mineirismos, mineirice e mineiridade. Aprendeu com os mineiros espertos a ouvir e a cochilar.

Depois, conquistou o Rio. Chegou ao "Jornal do Brasil". Projetou-se internacionalmente com a Coluna do Castelo; repositório de análise da vida política brasileira, homens e fatos, em mais de um quartel de século.

Deus o proteja na sua inteligência sem medo, sempre piauiense.


A. Tito Filho, 20/07/1990, Jornal O Dia

FOLCLORE

Nos meus brincos de infância, em Barras e no velho Marruás, hoje Porto no Piauí, gente idosa, parentas velhas, caboclas da terra contavam estórias bonitas e medonhas, umas de arrepiar cabelo, outras de deleite e encantamento. Quando da adolescência em Teresina, meninos do meu tope se reuniam de noite nas calçadas do médico Benjamin Baptista, conceituado e culto, e cada qual narrava contos de macaco, de onça, de gigantes, de heróis e de bandidos, e um desses colegas era filho do dono da casa, Stanley Baptista, que pela dedicação aos livros e caráter bem formado, se tornaria das mais brilhantes figuras do Exército Nacional. Momentos felizes e alegres; dava gosto vivê-los, e nunca se supunha que eles se fossem, deixando memórias inesquecíveis.

Aos 14 anos de idade comecei a ler romances nacionais e portugueses. Li "A Moreninha", de Macedo, e a obra completa de José de Alencar. Nessa época, Juca Feitosa, figura muito conhecida, rico comerciante, mantinha na capital piauiense loja de várias mercadorias, inclusive livros. Tive oportunidade de adquirir obras lusitanas, algumas de Camilo Castelo Branco e uma, bem me lembro, de exagerado romantismo, "Tristezas à Beira-Mar", de Pinheiro Chagas. Vendia-se também a coleção SIP, constituída de romances de aventura e de amor; que traziam, na capa, dois dedos em forma de V e por baixo do desenho a escrita MIL RÉIS, isto é, cada volume valia dois mil réis, e MIL RÉIS foi a unidade monetária vigorante até 1942. Entre muitos apreciei "A Patrulha da Madrugada" e "Naná". Júlio Verne estava na moda.

Tomava-me de entusiasmo com a sua ficção maravilhosa, que se incorporou à história contemporânea, com a visita do homem à lua. Li quase tudo do admirável francês. Da adolescência tão presente ainda no meu espírito foi a série de publicações TERRA-MAR-E-AR. Livros de tipos bons e tipos maus, em terras estranhas e distantes. Pratiquei leitura de Tarzan, o herói das selvas africanas criado por Edgar Rice Burroughs e pratiquei-a de fia a pavio.

X   X   X

Com a leitura de "Encanto e Terror da[s] Águas Piauienses", desse mágico Josias Carneiro da Silva, relembro os tempos de menino, delicado com as lendas de bichos e de gente, parecido com as de outras águas do mundão de Deus, assim do jeito do caboclo-dágua do São Francisco, o urutau ou jacaré gigantesco do Paraíba do Sul, o boiúna e o boto do Amazonas.

O folclore mostra a vida coletiva na sua cultura material e na sua cultura espiritual. As águas constituem fontes de lendas, mitos, fantasias, imigrações. Na Bahia, os pescadores celebram o despacho da mãe-d'água, cerimônia mágica em que se atiram oferendas ao mar para que aquela personagem mística os liberte de infortúnios na pescaria. A tradição mediterrânea está nas sereias, a que Homero se referiu. A Iara tem encantos irresistíveis, que o genial piauiense José Newton de Freitas pôs num poema, ao cantar o jangadeiro: "Enquanto seus filhos/ficaram chorando/ele está morando/beijando, beijando/a iara bonita,/no fundo do mar".

No livro se salienta o paciente pesquisador Josias Carneiro da Silva e se revivem monstros aquáticos, que a tradição recolheu e guardou. Mas Josias Carneiro realiza o mais brilhante estudo com o cabeça-de-cuia, que o talentoso piauiense João Alfredo de Freitas colocou em "Lendas e Superstições do Norte".


A. Tito Filho, 29/11/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

JOVITA

Jovita Alves Feitosa, cearense de nascimento, vivia em Jaicós (PI). Tinha 17 anos quando se apresentou em Teresina, como voluntária para a guerra do Paraguai. Seguiu da capital do Piauí para o Rio em 1865. Multidão aclamou-se em São Luís. À noite, homenagem no teatro e aí coberta de flores. No Recife, a recepção esteve mais intensa. Na Bahia, a mesma cousa. Hospedou-se no palácio da presidência da província. No Rio, recebida com muitas festas. Mas o governo não permitiu a sua ida para o teatro da guerra, como militar. Voltou ao Piauí. Mal recebida pela família em Jaicós, regressou ao Rio. Iniciou relações com o engenheiro Guilherme Noot, que teve de retornar à Inglaterra, deixando-lhe bilhete de despedida. Jovita procurou a residência do amante e lá soube que era verdadeira a viagem para a Inglaterra. Foi ter ao quarto em que ele residiu. Horas depois, a empregada da casa encontrou-a na cama, deitada, com a mão sobre o coração, no qual havia cravado um punhal até o cabo.

A peça teatral "Jovita ou a heroína de 1865" foi concebida em três atos: o 1º, de cenário em Jaicós-PI, publicou-se com o título original de "Pelo amor e pela pátria"; o 2º, e o 3º tiveram os títulos de "Aos braços de Henrique ou aos braços da morte" (cenário em Teresina) e "Saiba morrer a que viver não soube" (cenário do Rio de Janeiro), respectivamente.

O drama histórico de Jônatas Batista encenou-se no Teatro 4 de Setembro, da capital piauiense, a 19.04.1914, nos seus três atos. Papel principal: artista Nena Pimentel, que representou Jovita. O autor fez as vezes de Anacleto Ferreira.

Infelizmente se perderam os dois atos complementares da peça, baseados na vida dessa cearense dos Inhamuns, que, aos 16 anos, passou a viver na vila de Jaicós, com um tio de nome Rogério. Pretendia estudar música. Arrebentando a guerra do Paraguai, a jovem vestiu roupa de homem, cortou os cabelos, cobriu a cabeça de chapéu de couro, e viajou sozinha para a Teresina. Na capital, procurou as autoridades. Queria alistar-se como voluntária da pátria, e seguiu com o segundo corpo de voluntários com destino ao Rio de Janeiro.

*   *   *

Ilustrados historiadores se preocuparam com a história de Jovita Alves Feitosa, da forma que fizeram o pernambucano Pereira da Costa e os piauienses Fernando Lopes e Silva Sobrinho, padre Joaquim Chaves e Humberto Soares Guimarães, para citar alguns.

Delci Maria Tito, faz algum tempo, vem pesquisando dados sobre mulheres que se tornaram notáveis em atividades políticas, educacionais, religiosas, assistenciais, literárias, ou que participaram de episódios históricos do Piauí. Trata-se de trabalho original, que ela pretende realizar com os dados biográficos e a obra fundamental prestada à sociedade a que cada uma dedicou esforços constantes, iniciando-se com Jovita Alves Feitosa, originária dos Feitosas do Ceará, a valente taba dos Feitosas, de que se têm ocupado escritores como Gustavo Barroso.

Teresina viveu noites animadas, mais de uma vez, no Teatro 4 de Setembro lotado, nas apresentações da peça histórica sobre o drama dessa infeliz sertaneja, de autoria de Jônatas Batista, de grande e merecida popularidade na época em que foi o principal animador, ao lado de Pedro Silva da vida teatral teresinense.


A. Tito Filho, 29/12/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

VIOLÊNCIA

Jornais, rádios, televisões vivem hoje do noticiário da violência, e cada época teve o seu tipo de violência, na Roma dos Césares como no Itararé de Teresina. Adolescente, morei em Teresina e na mocidade passei uns oito anos fora daqui, em Fortaleza e Rio. Andava pelas ruas sozinho, de madrugada, e jamais encontrei quem me assaltasse.

Ainda em 1970, passei a residir no distante bairro de São Cristovão da capital piauiense. Haroldo Borges me havia conseguido um carro velho, marca Esplanada, com uma das vendedoras de veículos. Às vezes o automóvel me deixava na rua, noite grande, e eu retornava a casa com os pés da locomoção própria. Vendi a porcaria por umas patacas. Pouquíssimos ônibus. Eu fazia um programa de rádio na Difusora das 22 às 23 horas e caminhava o longo percurso de retorno ao lar. Jamais encontrei quem me filasse um cigarro.

Não desconhecia a violência política do submundo ditatorial. Li-a em livros que se tornaram célebres. Os porões da ditadura de Vargas, com o bárbaro Filinto Muller, guardam cadáveres, homens mutilados, baixezas sem conta de uma polícia treinada para impor sofrimento ao semelhante. O nosso Celso Pinheiro Filho apanhou tanto nesses subterrâneos de crimes animalescos que perdeu o uso das pernas. Assassinos perversos.

Chegaria 1964. De novo a sangueira nojenta de certas autoridades de lama. Mataram-se jornalistas e operários. Era a sanha do eunuguismo moral.

As práticas da violência, porém, se escondiam. As vítimas desapareciam simplesmente, e os carrascos infames se intitulavam salvadores da pátria amada. Mas a violência chegaria, como chegou, a ser praticada à luz do sol, à boca da noite, a qualquer momento. O reino atual da vingança contra os que se tornaram surdos aos clamores dos perseguidos, dos injustiçados, dos que a política nefasta abandona de modo desumano.

Contra quem se pratica hoje a violência? Contra os engravatados que roubam às escâncaras, contra os que, munidos de prestígio político, tomam a propriedade alheia, estupram pobres mocinhas interioranas, enganam, ludibriam, demitem, negam a cada um o que é seu. Vivem na opulência, ganham milhões diariamente, humilham, riem da miséria alheia, num soçaite fútil e ocioso. Quem está padecendo a violência? O empresariado sem alma, orgulhoso, cheio de empáfia, ignorante, que esquece os deveres sociais e a pregação cristã dos papas e cada vez mais se enternecem da dinheirama mal adquirida.

Observe-se o seqüestro. Sou contra o processo, sobretudo quando se submete o seqüestrado a vexames físicos, morais e psicológicos. Para adquirir a liberdade, quanto paga esse tipo de refém pelo dinheiro pedido? Milhões em dólares. Donde vem essa quantia? Das burras abarrotadas de pelegas estrangeiras fornecidas pelo Banco Central do Brasil.

E jornais, rádios, televisões, quando se liberta o indivíduo, sustentam a propaganda do HERÓI pelo menos durante uma semana.

Faz poucos dias, seqüestraram um garotinho. Os seqüestradores pediram até pouco, uns 500 mil doentes. A mãe do menino fez apelo, não tinha dinheiro, implorou a devolução do filho. Nenhum empresário de milhões se mexeu para ajudá-la.

Só se vê violência no seqüestro dos biliardários. Sim. E a violência da fome de milhões, dos milhões sem teto, dos milhões de analfabetos, dos milhões de doentes sem socorro, dos milhões de menores abandonados, dos milhões de esfarrapados, rotos e maltrapilhos?


A. Tito Filho, 25/07/1990, Jornal O Dia

TERESINA

Vejo-a sem a minha infância, sem os dias queridos que não voltam mais, as saudades provocando nó na garganta, um choro que não consola. Sem o CaiNágua, o cabaré das garotas de segunda classe, perto do Parnaíba, que os meus olhos de adolescente desejavam, mas os cânones da época proibiam. Sem os circos, na praça Deodoro, grandões, palhaços engraçados, ameaçando as velhotas atiradas com o troncudo pedaço de macaxeira. Na frente do imenso toldo, dezenas de bancas, na venda de frutas descascadas, refresco, sorvete de gelo rapado e mel de fruta, gostoso como o diabo, frito de carne de porco, beiju salpicado de farelo de coco. No calor das tardes, máquinas equilibradas na rodilha da cabeça, com a manivela de rodar e fabricar o melhor sorvete do mundo, o caboclo, alpargata chiadeira, passeava as ruas, a vender a guloseima.

Vejo-a sem o pega-pinto gelado, que a gente ia comprar, oito da noite, na jarra, uns oito copos, para a família à espera na roda da calçada. Sem o Doutor, dono de frege, estabelecimento modesto, mesinhas sem toalhas, pimenta malagueta danada, cachorros gafentos e famintos à espera do osso que o freguês alisara, depois de engolir tripa e bucho - a panelada da cidade, a cinqüenta metros da praça Rio Branco. Sem o Bar Carvalho, de elite, vendia cafezinho, chocolate com ovo e sem ele, sobretudo o filé de grelha, enfeitado de ervilha, azeitona, alface e farofa. Manjar dos deuses, do cozinheiro espanhol Gumercindo, um mágico em comedorias.

Vejo-a sem o alarido das pipiras tentadoras - as mocinhas pobres empregadas da Companhia de Fiação e Tecidos Piauiense, ruído de máquinas o dia todo. As garotas, vestidinhas de chita, merendavam banana, daí o apelido que a crônica registra.

Vejo-a sem a presença de Celso Pinheiro, poeta e tuberculoso, fatiota branca engomada e reluzente, chapéu de palhinha, gravata borboleta... irreverente...; sem Higino Cunha, mestre verdadeiro, a caminhar pelas vias públicas, aqui e ali o trago de bebida destilada...; sem Pedro Brito, calças velhas de mescla, cornimboque de rapé nos bolsos largos, suado, a ironizar homens importantes...

Vejo-a sem as funcionárias domésticas, mocinhas morenas, que o povo denominava curicas, porque recebiam o prato de comida no peitoril da residência... Caboclinhas de pé de esquina, na cidade pouco iluminada... Sempre perdiam o cabaço para o filho-família, o moço dengado.

Vejo-a sem o cabaré da Raimundinha, alegre, as meninas de vestido abaixo do joelho, cada qual com a sua alcova de deitar com quantos machos obtivessem na noite comprida... Tiravam a roupa de luz apagada... Que Tempo!

Vejo-a sem as pracinhas de donzelas faceiras, que rodavam num sentido, os gajos em sentido contrário no fascinante namoro de olhos... No cinema, o casal se dava o gosto da bolinação... Namoro de mão nos peitinhos arrebitados...

Vejo-a sem o símbolo que foi a Maria Préa, mulata boa de cama, com estudante de bolso vazio ou desembargador de prestígio firmado.

Hoje, vejo-a urbanizada de pombais, ou casinholas habitadas do êxodo interiorano; povoada de veados de luxo ou simples viciados na inversão dos locais de prazer; vejo-a na falsa convivência dos coquetéis, das uiscadas e das festas de caridade; vejo-a no comércio com o nascimento de Jesus e com as mães, merecedoras pelo menos de um pouco de respeito; vejo-a despudorada, meninas ricas sem roupa, por deboche, meninas pobres do mesmo jeito por miséria. Vejo-a uma imensa putaria de homens e mulheres, com as devidas exceções; Vejo-a violenta, estúpida, deseducada - tipos debaixo-da-ponte, alguns felizardos da vida ociosa à custa de golpes e falcatruas e outros tantos no repasto oficial da República sem freios.

Vejo-a sem futuro, sem esperança, mas ainda creio no resto do otimismo que me sustenta os olhos sofridos da saudade dos tempos que não voltam mais...


A. Tito Filho, 19/08/1990, Jornal O Dia

domingo, 25 de dezembro de 2011

DEZESSEIS BACHARÉIS

Foi bom. Passaram-se quarenta anos. Numa sala pequena, padrinhos e convidados espremidos, colaram grau, a 16 de dezembro de 1950, na antiga Faculdade de Direito do Piauí, dezesseis novos bacharéis, cada qual mais feliz do diploma conquistado. Presidiu a bonita solenidade o mestre de invulgar conceito Cromwell Barbosa de Carvalho, muito querido da comunidade teresinense. Eis a relação dos jovens da época, vitoriosos com a colação de grau e ricos de merecidos triunfos no correr dos anos: AFRÂNIO MESSIAS ALVES NUNES, professor, secretário da Educação, deputado estadual várias legislaturas, desportista, conselheiro do Tribunal de Contas, secretário do Trabalho, em cujo exercício se encontra. Prestou o juramento em latim em nome dos colegas de formatura. ALCEBÍADES VIEIRA CHAVES, juiz em comarcas do interior, atualmente desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão, que já presidiu. ESDRAS PINHEIRO CORREIA, promotor público, procurador da Justiça, membro do Colégio dos Procuradores de Justiça e do Conselho Superior do Ministério Público, corregedor geral do Ministério Público, agora no exercício de procurador-geral da Justiça. JOSÉ DE ARIMATHÉA TITO FILHO, professor e jornalista, escritor, diretor do Colégio Estadual do Piauí, secretário da Educação e da Cultura, desempenha as funções de procurador do instituto de previdência do Estado. Desde 1971 preside os destinos da Academia Piauiense de Letras. Orador da turma. JOSÉ BARBOSA, deputado estadual, prefeito de Altos, onde reside, em seguida promotor público. JOSÉ GUILHERME DO REGO MONTEIRO, advogado e procurador do Estado. MANOEL PAULO NUNES, alto funcionário do Ministério da Educação, secretário da Cultura no Piauí, escritor e membro da Academia Piauiense de Letras, desempenha o magistério universitário em Brasília. OMAR DOS SANTOS ROCHA, professor, advogado, criminalista, chefe do setor jurídico da Polícia Militar, funções que exerce no momento. Integrou a Força Expedicionária Brasileira na 2ª Guerra Mundial. RAIMUNDO EVERTON DE PAIVA, juiz de direito no Maranhão e desembargador do Tribunal de Justiça do referido Estado. SEBASTIÃO ALMEIDA CASTELO BRANCO, advogado e procurador de INPS em Fortaleza.

Os citados, com exceção dos indicados como residentes noutros cenários, assistem na capital piauiense.

Passo aos falecidos, saudosos companheiros: JOÃO LINO DE ASSUNÇÃO, advogado, morava na cidade maranhense de Caxias. CRISTOVÃO ALVES DE CARVALHO, faleceu como juiz de direito da comarca de Pio IX, no Piauí. JESUS DA CUNHA ARAÚJO, juiz de direito em Belo Horizonte, cidade onde se despediu da vida. MANOEL TEODORO DE SOUSA GOMES, professor e contador seccional do Ministério da Fazenda, em cujo exercício morreu. RAIMUNDO ACILINO PORTELA RICHARD, advogado, exercendo ainda, ao falecer, o cargo de advogado de ofício, correspondente a defensor público. ERNANI DE MOURA LIMA, deixou este mundo em elevadas funções no Banco Central da República.

Grandes mestres lecionaram a turma, à qual me incorporei no último ano do curso, quando regressei do Rio de Janeiro, antiga capital da República em que tive quatro anos de estudos, e regressei para assumir cargo federal. Não posso referir-me senão aos professores do 5º ano, como Clemente Fortes, o paraninfo dos concludentes, Edgar Nogueira, Ernesto Batista, João Martins de Moraes, Hélio Correia Lima. Mestres responsáveis, alunos vitoriosos.

Foi bom. Três ou quatro dias de festas dos novos bacharéis dessa época da mocidade. Ainda hoje, de vez em quando, os colegas se reúnem e comemoram o acontecimento. Está faltando a reunião agradável e alegre dos 40 anos.


A. Tito Filho, 16/12/1990, Jornal O Dia

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

NOS SUBTERRÂNEOS DO KGB

Na hora da glasnot, ou seja, da transparência,d e deixar que se abram as janelas para a União Soviética e a sua república central, a Rússia, é bom que os testemunhos mais ricos e claros sejam colocados ao alcance do leitor brasileiro, a bem de um esclarecimento que nos aproxime do sofrido povo russo.

Curiosamente através de revistas e jornais, temos obtido retratos bem esclarecedores sobre a vida na União Soviética, dos protestos em várias das suas repúblicas, da intervenção das forças armadas para conter esses protestos, sabemos da discussão política dentro e fora do Partido Comunista, até sabemos que se admite pela primeira vez a existência do pluripartidarismo, - mas nada se escreve sobre o KGB! E nós sabemos o que aconteceu com o DOPS, com o PIDE, até temos condições com o DOPS, com a PIDE, e até temos condições de avaliar o que se passa na CIA e no FBI, mas do KGB, nada.

Por isso, a oportunidade do lançamento deste livro, "Minha vida no KGB", que é a história de Stanislav Levchenko, um sentenciado à morte pelos famosos Komitet Gosudarstvennoy Besopasnosty.

É uma história de espiões onde a ficção é feita de fatos verdadeiros, onde os sofrimentos, as "caçadas", as matanças, os dramas e as fugas fizeram parte da vida excitante, trágica, e, por vezes, bizarra, de um espião russo muito bem sucedido.

Por que é que ele foi sentenciado à morte?

Aí você vai saber como é que o KGB controla a vida das pessoas e, em especial, a vida de Stan Levchenko. Como é que a chantagem faz com que as pessoas se rendam ao desempenho de papéis escusos e atentatórios aos seus próprios interesses, aos dos seus amigos que têm de trair para continuar a viver.

Levchenko acabou fugindo para o outro lado onde - para ele - existia um mínimo de segurança, afinal, nem ele tinha culpa de ter sido criado e instruído do lado errado.

STANISLAV LEVCHENKO é um homem marcado para morrer. Ele sabe demais sobre o KGB e, portanto, é um "arquivo" que precisa ser destruído. Foi condenado à morte e, por muito que viva, será sempre perseguido. Entretanto, seus amigos lutam para que ninguém saiba onde está, o que faz e o que pretende realizar. Sua segurança é a segurança de informações vitais para o Ocidente e para o definitivo ressurgimento da democracia na Rússia.


A. Tito Filho, 27/04/1990, Jornal O Dia

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

PAIXÃO E CIÚME

Paixão e ciúme. O ciúme, nos criminosos, aumenta ou diminui a pena?

Sou professor de português e confesso que tais assuntos não pertencem a minha especialidade profissional, razão pela qual me limito a transcrever abaixo opinião de juristas e estudiosos brasileiros e estrangeiros.

Trebutien, no "Curso Elementar de Direito Criminal", apesar da condenação que reclama para os criminosos passionais, reconhece que as paixões alteram a razão e o julgamento:

"A cólera e as paixões não são uma causa de absolvição. Elas podem alterar a razão e o julgamento, mas não os aniquilam completamente. A lei dá a prova a tal respeito, reconhecendo a existência de uma escusa simples e não uma causa de absolvição. Em todos esses a lei faz baixar consideravelmente a pena, porém mantém a criminalidade".

Não devem ser confundidas a paixão e a emoção. Definiu-as bem Ottolengui:

"A emoção é um estado agudo de excitação psíquica. A paixão é um estado emocional crônico. No primeiro temos o furacão, segundo o mar com os movimentos lentos das tempestades internas". (Psicopatologia Forense - citação de Severiano nos "Criminosos Passionais e Criminosos Emocionais" - pág. 12).

Realmente, há durabilidade e até cronicidade na paixão, equivalente afetivo da idéia fixa, no dizer de Letourneau.

O ciúme é paixão:

"As paixões que nascem de um desejo em estado de calma, e nutridas posteriormente, não apagam a reflexão senão no momento em que explodem. Tais são as paixões da vingança, do ódio, da ambição, da cupidez, do amor, do ciúme, as paixões políticas" - é o que afirma Haus.

Este esclarecimento é de Garrand: "Classificam-se as paixões em duas grandes categorias, constituindo uma nos movimentos violentos dalma e outra em um estado dalma resultante de desejos não reprimidos, tais como o amor, a ambição, o ciúme, o ódio, o fanatismo, a intemperança".

Saulle chegou a advogar para os passionais estabelecimentos especiais nos quais cumprissem as penas impostas.

Ingenieros atestou que os que matam por paixões são anômalos volitivos.

Ferri reconhece nos passionais certos estados que rompem o equilíbrio psicológico e provocam impulsos irresistíveis, os quais, quando oriundos de causa moral, devem até gerar a irresponsabilidade do agente.

Carrier admite que o ciúme possa tomar uma forma verdadeiramente mórbida. Moreau fala da loucura por ciúme. Esquirol atesta que o ciúme tem ligação com certas doenças mentais.


A. Tito Filho, 22/02/1990, Jornal O Dia

TRAGÉDIA

Era um sábado, dia 13 de julho de 1957. Manhã e tarde tranqüilas nesta Chapada do Corisco. Pouco movimento de carro, pois havia poucos carros. Ainda estava distante o sistema de financiamento, para liquidar mais ainda a depauperada classe média. Bares e botecos, como de costume, com os seus costumeiros fregueses de cerveja e aperitivos. Adolescentes e moço em férias escolares. Os namorados já se preparavam para as sessões cinematográficas no  4 de Setembro e no Rex. Nada perturbava a calmíssima Teresina de vinte anos atrás. O sol já tinha morrido, quando chegou a notícia da tragédia espantosa, pavoroso choque de veículos na estrada de Altos na distância de trinta e seis quilômetros desta capital. Comentava-se que mais de vinte morreram no local e era impressionante o número de feridos. Pouco tempo depois, o Hospital Getúlio Vargas se transformava numa hospedaria de dor e de angústia, de lágrimas e de desespero. A multidão ali estava aturdida, emocionada, comovida, comungando do sofrimento das vítimas e seus familiares.

As notícias começaram a chegar. O ônibus MARIMBÁ, de propriedade de Joca Lopes (João de Deus Lopes), vinha de Parnaíba. Viagem normal. Depois de Altos, uns cinco ou seis quilômetros de Teresina, houve o choque formidável com um caminhão Ford, carregado de carvão e madeira, de propriedade de José Candido Porto - e o local se transformou em cenário dantesco. mais de duas dezenas de mortes, cerca de vinte feridos. A tragédia enlutara muitas famílias de Teresina, de cidades interioranas e ainda de outras cidades brasileiras.

A estrada de Teresina a Altos não era asfaltada, como hoje, mas de piçarra. Tempo de verão, os carros em trânsito produziam nuvens de poeira avermelhada, que não permitia visibilidade aos motoristas que viajavam no mesmo sentido. O pó cobria tudo.

Daqui para Altos seguiam dois veículos. Pequena a distância entre os dois. Natural que o chofer do carro de trás, para se ver livre da terrível poeira, procurasse ultrapassar o carro da frente. Muitas vezes o motorista do que ia na frente tudo fazia para que o colega não conseguisse cortar a proa, como se diz, justamente em situação desvantajosa, passando a vítima do pó infernal.

Essa estrada de Teresina a Altos era um tanto estreita. Os dois carros prosseguiam. O da frente desviou-se um pouco para a direita. Era natural. Em sentido contrário vinha o MARIMBÁ. E o motorista do veículo que ia para Altos deu com o carro para a direita, possibilitando, assim, a passagem tranqüila do ônibus. Mas o motorista do caminhão de madeira, que ia recebendo a importuna poeira do outro, entendeu que o colega estava abrindo terreno para a ultrapassagem. E sem visibilidade, meteu o caminhão pela esquerda, no justo momento em que o MARIMBÁ emparelhava com o primeiro. Impossível evitar a tragédia assombrosa.

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Uma novela das mais impressionantes, de Salomão Chaib, médico piauiense residente em São Paulo, recebeu o nome de UM DRAMA DE CONSCIÊNCIA e será apresentado ao público no fim deste mês de maio pela Academia Piauiense de Letras.

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A Academia Piauiense de Letras está preparando a edição de novo romance do notável José Expedito Rêgo, A MALHADINHA, baseado em história real de fazenda de criar, no interior de Oeiras.


A. Tito Filho, 15/05/1990, Jornal O Dia

DIAMBA

Diamba é o nome de uma planta de que os negros faziam fumo, cujas folhas têm propriedades entorpecentes. Francisco Fernandes depõe que as flôres também se usam como narcótico.

A palavra parece vir do quimbundo, o mais importante linguajar da crença quando filia diamba ao quimbundo riamba, cânhamo.

Diamba, liamba e riamba são formas que designam certa variedade de cânhamo, erva mirtécea ou Cannabis sativa, nome científico.

Renato Mendonça entende que em quiamba o cânhamo chama-se Riamba, enquanto a forma liamba é conhecida no sertão africano. Segundo nota de Mário Marroquim, em Pernambuco e Alagoas vivem na língua popular as duas formas liamba e diamba. O maranhense Viriato Correia escreveu diamba: "Depois num domingo, em tempo de colheita, quando em casa, descansando da semana trabalhada, pitava a cabeça de diamba...". Em Pernambuco, Gilberto Freyre ouviu entre viciados diamba e liamba.

Francisco Fernandes faz, no Dicionário, referência às três formas, diamba, liamba, riamba, que se registram também no "Dicionário do Folclore Brasileiro", de Cascudo, Diamba é a preferida de Macêdo Soares: "Liamba é uma erva da India, que já de muitos anos se cultiva no Brasil. Os africanos entre nós usam desta planta no cachimbo, como fumo".

Pesar de ter nome africano, a planta parece ser originária da Ásia. É a opinião de Cascudo. Os negros trouxeram-na para o Brasil, para utilizá-la talvez nos banhos e bebidas de iniciação conforme ao depoimento de Manoel Querino.

A diamba, liamba ou riamba é ainda conhecida por outros nomes, como pango e maconha, também fumo de Angola. O notável Cascudo fala em gongo, mas houve certamente engano. Gongo não vale o mesmo que maconha. A árvore de cujo fruto se extrai bebida que embriaga é gongó.

A respeito de pango anotou Macêdo Soares: plantas cujas folhas usam os negros para pitar e que produzem o mesmo efeito do anfrião.

Não vi anfrião nos léxicos modernos. Registra-o o velho Morais com esta explicação: "É planta árabe, o mesmo que ópio".

Na Amazônia existe a maricana, de que se fazem cigarrilhas das folhas, de efeito hipnótico. É o que informa A. J. Sampaio, em "A Alimentação Sertaneja e do Interior da Amazônia".

Diamba, liamba, riamba, maconha, pango, gongó, fumo de Angola, maricana - qualquer nome que se lhe dê- a erva é hoje da predileção de gatunos e vagabundos, fumada pela malandragem para criar coragem e dar leveza ao corpo. Contra o seu uso e abuso faz a Polícia guerra permanente.


A. Tito Filho, 12/12/1990, Jornal O Dia

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

BIOMBO

Biombo é tabique móvel para divisão de compartimentos numa casa ou peça de madeira ou pano, próprio para armar e desarmar.

Muito se usou o biombo em outros tempos. Atrás dele se vestiam moças recatadas, Nos dias atuais desapareceu praticamente.

Em linguagem figurada, pode empregar-se biombo no lugar de recanto, refúgio, esconderijo, proteção.

Concordam os etimologistas quanto à origem de biombo: do japonês biobu, de biô (proteção) e bu (vento). Citando dicionários espanhóis, Rodrigo de Sá Nogueira viaja o mesmo caminho: "Del japonés byó (protección) y bu (viento).

Originariamente, biobu ou biombo é proteção contra o vento. Essa acepção se encontra no velho Morais:

"Biombo. Sustém-se em pé, para cobrirem cercando, por exemplo, uma cama, porta, etc. contra o frio" (Dicionário).

Não cabe dúvida que os japonistas portugueses do século XVI escrevem uniformemente beobu; somente pelo meado do século seguinte e fora do Japão ocorre a variante biombo, o que indica que a nasalização se operou dentro do português. A lição está nas Apostilas de Gonçalves Viana.

Mas essa nasalização não se deu por analogia com bombo, segundo pensa Silveira Bueno, tenho impressão de que ela se processou com fundamento na vogal fechada ô (biôbo) antes da bilabial b, para facilitar o esforço de voz: biôbo - biombo.

Resumidamente, lembro no final estas considerações que li, há tempos, em autor, cujo nome fugiu da memória: durante a segunda metade do século XVI, estabeleceram-se no Japão colônias portuguesas que estenderam pela Europa o conhecimento das cousas e costumes japoneses.

Do Japão procede o vocábulo e se escreve com dois ideogramas, cuja pronunciação japonesa é biôbu, ou biombo. Os ideogramas mencionados, biô e bu, significam respectivamente proteção e vento, de maneira que o francês paravent e o italiano paravento traduzem exatamente a palavra japonesa.

A origem japonesa de biombo foi anunciada há alguns anos por Foker e por Gonçalves Viana.


A. Tito Filho, 29/03/1990, Jornal O Dia

SITUAÇÃO

Há países, como a Inglaterra, em que o rádio e a televisão pertencem ao poder público. Proíbe-se que a empresa privada os explore, para que se evite a força econômica a serviço de idéias dos seus proprietários e contrários aos interesses públicos, deformando-se os aspectos mais caros do civismo nacional, como, por exemplo, a linguagem. A tevê, sobretudo tornou-se processo dos mais ativos para a inquietação do home, pela propaganda do luxo supérfluo, do erotismo. A tevê é poderosa via de comunicação, justamente porque se utiliza do som e da imagem. Na Brasil inexistem programas educativos, porque eles não têm audiência nem rendem do ponto de vista comercial. O noticiário abundante está nos assassinatos bárbaros, na perversidade dos seqüestros, nos dramas dos sem-teto, na terrível matança urbana praticada pelos justiceiros, nos assaltos de rendas milionárias, no comércio da droga, no drama das greves dos famintos. Relegam-se a plano secundário as datas patrióticas da nação. Tiradentes vale um ilustre desconhecido do povo brasileiro e do protomártir corajoso apenas os policiais militares homenageiam a memória, lembrando a glória do alferes seu patrono. Euclides da Cunha ganhou as telas televisivas por causa da tragédia em que se envolveu, jamais por razão de ter dado novos rumos aos estudos sociais brasileiros. Uma estação de tevê faz pouco tempo ganhou milhões exibindo cenas de uma triste história passional, em que o grande escritor aparece como um tipo grosseiro, nervoso, quando Euclides sempre teve gestos de coragem e no trato com a família e os amigos sempre de exemplar maneiras, até quando a esposa, de sexo anormal, em amores clandestinos com um jovem de 17 anos, caso de inversão sexual, pois a mulher andava pelo dobro - criou, de modo leviano, numa época de severos costumes familiares, um Euclides sem rumo e sem norte, disposto em determinada hora a lavar a honra do lar ultrajado. Ana de Assis era feia, um tanto gorducha, mas arrancava furores de um jovem virgem em matéria feminina. A televisão enganou a ignorância nacional, colocando no lugar da adultera a magnífica Vera Fischer. Como sempre o material predileto da tevê brasileira está na exploração do erotismo, nas novelas de conteúdo passional e emocional. No mais, violência por cima de violência, na exibição de um País doente no seu organismo moral, social e espiritual.

Na verdade, o Brasil destes dias cruciais corresponde a um Brasil de problemas cada vez mais intensos. Avolumam-se as crises. Multiplicam-se os crimes contra o patrimônio e contra a pessoa. Mata-se por qualquer motivo. As classes nababescas vivem do fútil e da estroinice. Os assalariados padecem a pior de todas as afrontas: a fome endêmica. Dois meses antes de assumir o atual presidente da República, a indústria e o comércio,d e mão dadas, subiam todo dia o preço das mais variadas necessidades do homem como se se prevenissem contra o possível tabelamento de preços na administração que se inaugurava. Assim, o regime inflacionário jamais chegou a zero, como na propaganda oficial, pois os preços de 15 de março estavam aumentados como prevenção contra o regime Collor.

Que se está fazendo da cultura e da educação? Na área cultural, as entidades por ela responsáveis perderam os seus melhores servidores, demitidos por via simplesmente numérica, como se assim fosse possível efetivar qualquer tipo de reforma administrativa. Na área educacional, o ensino público e privado, faz que os verdadeiros mestres busquem atividades com que suportem a vida, no seu cortejo incontável de angústias, e que outros mestres se improvisem num verdadeiro antimagistério. E observe-se que no Brasil pouco ou quase nada se ensina, e circunstância mais aberrante: colégios e universidades nenhum gesto adotam para que o homem se eduque.

A nação precisa de paz, de encontrar caminhos para a tranqüilidade dos brasileiros doentes, de hospitais fechados, famintos, esquálidos, habitando imensas favelas. No Brasil o que menos se respeita é a vida do semelhante. Por quê? Porque dói tanto padecimento de milhões e a riqueza cartorial, a roubalheira dos dinheiros públicos, a impunidade dos colarinhos-brancos, a existência faustosa e irresponsável de poucos, dos protegidos e apadrinhados.

E quando mais se necessita de que a violência seja varrida, novas vítimas se fabricam, com a famosa reforma administrativa, que se baseia, exclusivamente no critério das demissões. Milhares de servidores desempregados. Mais vítimas cujo caminho está na adesão à violência. Se as nomeações foram desnecessárias, para a satisfação de interesses da parentela ou da politicagem, por que não se punem os autores das ilegalidades?


A. Tito Filho, 18/07/1990, Jornal O Dia

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

BANCOS

Pouquíssimos entendo de instituições bancárias. Só sei neles pedir dinheiro emprestado, com o respectivo pagamento dos juros. Neste 1990 tive um nó na garganta, o pior choro do cristão, porque  se encerraram as atividades do Banco do Piauí, fato muito conhecido da opinião piauiense. Também o governo do importantíssimo turco presidente do Banco Central, que fala um português de capadócio grego, mandou fechar outras casas de crédito, em Goiás, Rio Grande do Norte e na Paraíba.

Possuo amigo do coração como prefeito da cidade Paraibana de Santa Rita, terra de Carlos Eugênio Porto, que pertenceu à Academia Piauiense de Letras. Os santarritenses são governados por um escritor ilustre, pesquisador e historiador, e sabe administrar a sua comunidade de modo competente, corajoso e sobretudo aplaudido pela honestidade inatacável. Chama-se Marcus Odilon, que de vez em quando me visita nesta Teresina que ele estima de verdade.

Marcus, com data de 18 de outubro, mandou o oficio ao presidente da República, oferecendo sugestões que bem poderiam solucionar problemas seríssimos e de suma gravidade nos Estados que tanto vêm padecendo sob a anarquia administrativa e moral reinante no Brasil, o velho e bom quintal dos Estados Unidos.

Eis a abalizada opinião do Prefeito Marcus Odilon Ribeiro Coutinho: "Dr. Fernando Collor de Mello, MD Presidente da República:

"A economia paraibana, que não atravessa bons tempos há várias décadas, está penalizada com a intervenção do Paraiban, que bem ou mal, era o nosso último estabelecimento de crédito genuinamente paraibano. Por que não se fundir o Paraiban ao Banco do Nordeste do Brasil? De início estariam resguardados os interesses dos funcionários, garantindo-lhes os empregos. Por outro lado, tem o BNB uma grande tradição de assistir a agro-indústria e a pecuária, que constituem (e serão sempre) os esteios de nossa riqueza.

A solução seria vantajosa também ao BNB, que receberia todas as agências do Paraiban, hoje espalhadas pelo interior do Estado, na Capital, em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Este patrimônio não é de se jogar fora. No final a solução contentaria a todos, colocando, ainda, ordem nas coisas e evitando de se tocar num banco estadual como se fôra uma bodega de esquina.

O acervo imobilizado do Paraiban dá para ressarcir suas dívidas, e o restante seria investido em aquisição de ações do BNB. Todo semestre essas ações dariam filhotes e dividendos; valiosos rendimentos para o nosso Estado.

O que vale para o Paraiban serve també para o Bandern (Banco do Rio Grande do Norte) e o Banco do Piauí".


A. Tito Filho, 27/10/1990, Jornal O Dia